Anais do I encontro mineiro



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ANAIS DO 1.°ENCONTRO MINEIRO DE

PSICOLOGIA

SOCIAL






  1. Departamento de Psicologia da UFMG Departamento de Psicologia da PUC.MG ABRAPSO - Associação Brasileira de Psicologia

    Social - Regional Minas

ANAIS DO I ENCONTRO MINEIRO

DE PSICOLOGIA SOCIAL - v. 1; 1986

BELO HORIZONTE, 1986



  1. PSICOLOGIA- PERIÓDICOS

I - FAFICH/UFMG, ed.

COMISSÃO ORGANIZADORA:

Elizabeth de Melo Bomfim Marcos Vieira Silva

PROMOÇÃO:

Departamento de Psicologia/UFMG – Regina Helena Campos Departamento da Psicologia/PUC-MG - Vânia Franco ABRAPSO / Regional Minas Gerais - Marcos V.silva

EDITORA:

Elizabeth de Melo Bomfim

Composição - Martha Rúsia Montagem - Henrique Lísandro


CORRESPONDÊNCIA PARA A EDITORA RUA CARANGOLA, 288- SANTO ANTÔNIO BELO HORIZONTE - 30000
ANAIS DO

I ENCONTRO MINEIRO

DE PSICOLOGIA SOCIAL

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DA

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

BELO HORIZONTE - 1986


SUMÁRIO

Andanças com a Psicologia Social .......................................................... ..... 6 Marcos Vieira Silva

O Encontro: Breve Roteiro...........................................................................................8 Elizabeth de melo Bomfim Texto lido na abertura do Encontro...........................................................................11 Marcos Vieira silva Mesa Redonda – Psicossociologia:Recordes.............................................................15 Cabeças Importadas: por que não uma psicossociologia brasileira? 16 Elizabeth de Melo Bomfim Psicologia social: Recortes teóricos..........................................................................18 José Renato Amaral Um referencial especial para a disciplina “Psicologia Comunitária e Ecologia Humana......................................................................................................21 Júlio Mourão Para-paixões/Espelhos paralelos...............................................................................26 Lúcia Afonso Des-razões de grupos operando em uma instituição psiquiátrica..............................29 Maria Regina Godoy Almeida Transversos do social e alquimias da prática em Psicossociologia..........................36 Marilia da Mata Machado História Social e Leitura de Processos de Grupo...................................................44 Regina Helena de Freitas Campos Audiovisuais.............................................................................................................48 Marcos Vieira Silva Debate:Psicologia Social e Educação..........................................................................50 Regina Helena Campos/Elza Maria Cataldo / Carlos Henrique Gerken Comunicações Roque Santeiro: O novelo, a novela e a verdade em questão...................................56 Sérgio Augusto c. Lara Formações comunitárias em Belo Horizonte..........................................................62 Introdução: Elizabeth Melo Bomfim Horto de Ferro e Fé:.................................................................................................63 Antonio C. Ferreira e Margareth A. Toledo Da vila são Gabriel ao Bairro Nazaré......................................................................69 Jorge Luiz da Costa Vila, miséria, Maria................................................................................................73 Eny Barbosa e Valéria Marques
Casas malditas: rendy-vous de desencontros.................................................................. 76 Elizabeth Assis e Marcia Azevedo

Saúde Mental e Saúde Pública.........................................................................................81

Maria Stella BrandãoGoulart

Análise Institucional: Roteiro histórico.......................................................................... 88 Vera Zaverisa

Os texto do painel

Heresias a um quadro: percepção singular de uma instituição..................................... 102 Elizabeth de Melo Bomfim

Manifesto Sol-Ar: em prol do pós-moderno..................................................................104

Elizabeth de Melo Bomfim

Praça da liberdade..........................................................................................................106

Lúcia Afonso

E nós na constituinte?...................................................................................................107

Júlio Mourão

Os textos anexos

Sugestões para a disciplina de Psicologia Comunitária a Ecologia Humana............... 110

Marília Novais Mata Machado

Comunidades alternativas: uma reflexão em torno da tema......................................... 114 Introdução: Elizabeth de Melo Bomfim

In - Comum ................................................................................................................. 116

Sérgio Augusto C. Laia

Movimento dos favelados em Belo Horizonte............................................................. 119 Cleide R.. Andrade

A República dos Guaranis............................................................................................121

Vander de Paula Oliveira

Canudos....................................................................................................................... 124

Robson P. Perry

A tecnologia para uma nova sociedade.......................................................................127 Vinicius P. Queirós

Caminho da vida e outros atalhos: andanças e reflexões em

torno de uma igreja pentecostal....................................................................................129

Sérgio Augusto Laia.

Eles queriam se chamar as: (Título proibido).............................................................133 Simone C. Fonseca e Patrícia M. Lacerda

O ”Anais do I Encontro Mineiro de Psicologia

Social" é a primeira publicação conjunta de trabalhos dos professores, e alunos de Psicologia Social de Belo Horizonte.

Sem pretender traduzir a discussão mineira em torno desta área de conhecimento, permite um flash do momento do pensamento psicossociológico apresentado em formas de debates, comunicações e mesas redondas. Aqui são também reproduzidos os textos fixados no painel expositivo (textos do painel) e os trabalhos que, de uma forma ou de outra, estavam relacionados com o “Encontro“ (textos anexo). Todos eles reproduzem os originais entregues pelos autores.

A diversidade de temas e de tratamentos poderá possibilitar algum deleite aos diferentes leitores.


Pela publicação agradecemos o empenho pessoal de Regina Helena Campos e dedicamos este número à memória de Rodrigo Garcia.

A Editora.


ANDANÇAS COM A PSICOLOGIA SOCIAL - Caminhos e Dez caminhos ou Encontros e Dez encontros do Io Encontro Mineiro de Psicologia Social

Marcos Vieira Silva


A idéia de organizar um Encontro da Psicologia Social de Minas Gerais já é antiga entre nós. Desde 1980, época da criação da ABRAPSO - Associação Brasileira de Psicologia Social (eu voltei do Rio de Janeiro crente que logo, logo, vamos conseguir organizar o nosso grupo da Psicologia Social), ela aparece, ora na PUC, ora na UFMG. Em alguns destes momentos, como um sonho ainda difícil, distante, em outros como uma proposta mais clara da um grupo já maior de pessoas, tanto da PUC, quanto da UFMG ...

Em 1983, um momento importante nesta caminhada: de 02 a 07 de maio foi realizada a Semana de Debates sobre Temas da Psicologia Social e Educacional, promovida pelo Setor de Psicologia Social e Educacional do Depto. de Psicologia da PUC/MG. A receptividade foi muito boa; o auditório ficou lotado durante todos os dias e os debates foram muito interessantes.

Ainda em 1983, no segundo semestre - setembro - o pessoal de Maringá nos convida para participar do Encontro Regional Sul da ABRAPSO - Psicologia Social: .. Enfoque da Psicologia como Ciência e Profissão, organizado por eles no bojo do processo de reforma curricular da Escola.

O convite era tentador: Maringá oferecia estadia e metade das passagens . A PUC pagou o restante das passagens e lá vou eu pra Maringá, que por sinal, e uma cidade muito gostosa. Além de apresentar o meu trabalho, fui também representando o pessoal do Setor - U F MG.

Lá, durante o Encontro, cresce a vontade de organizar um encontro em Minas. Temos experiências e tradição para isto. O problema é que as pessoas estão muito dispersas. Por enquanto ( eu sempre otimista!), parece difícil que este bando de psicólogos sociais consiga fazer alguma coisa junto!???!...

Um 2o momento importante em nossa caminhada foi a organização do curso Psicologia Social e Educação Popular, promovido pela ABRAPSO durante a 37 a Reunião Anual da SBPC, de 11 a 17 de julho de 1985, em Belo Horizonte.

Como eu iria coordenar o curso, achei que seria uma boa oportunidade para que nós mineiros ocupássemos um espaço.

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Lá vou eu, de novo, para a UFMG, discutir com o pessoal do setor... Confesso que sai meio desanimado com a primeira discussão...

Depois as coisas engrenaram: discutimos a proposta do curso; a

idéia da Regional Minas da ABRAPSO e o nosso tão esperado Encontro para o segundo semestre. Marilia e Beth toparam participar e o curto acabou sendo muito bom. Contamos com professores da PUC/MG, UFMG, Paraíba e Maringá. Cerca de 90 a 100 pessoas assistiram ás palestras e participaram dos debates. Todos ficamos entusiasmados. A. Regional Minas era realidade. A idéia do Encontro Mineiro foi abraçada por todos nós. (UFA!!...)

Durante a Assembléia Nacional da ABRAPSO, SBPC, foi oficializada a criação da Regional Minas e nós já estávamos

propondo o Encontro Mineiro como sua primeira programação.

Depois de uma folga, voltamos a nos reunir (sábado né Beth ?), agora Já para organizar o Encontro, que tem/tinha para nós um significado Importante: um momento de recuperar uma história vivida por todos nós em momentos e de maneiras diferentes, mas ainda pouco registrada (Marilia acabou fazendo isto magistralmente) .

Depois de várias reuniões, uma boas, outras, nem tanto

(Beth falou/falará delas), o 1o Encontro Mineiro (bem mineiro) de Psicologia Social acontece.

Vamos á ele!!!




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O ENCONTRO: BREVE ROTEIRO
Manhã ensolarada de sábado e uma primeira reunião marcada. Ai que preguiça macunaimica. Enfim, decido ir Ligo para a Marilia mas ela tem de cuidar do André e seu amiguinho. Convido minha filha Carolina e, com a promessa de um sorvete, a posteriori, entramos no carro, Marquinhos e um pequeno grupo aguardavam. Conversa vai, conversa vem, criamos a Regional da ABRAPSO, Stela convidava para o seu chá de panela à noite e discutimos as primeiras idéias do encontro. Relacionamos uns dez audiovisuais e alguns nomes de possíveis convidados. Confirmamos a exposição do material que tínhamos e das peças do museu. Sobre esta exposição já havíamos, calorosamente, discutido, entre vinhos e queijos, na casa de Marilia, quando da despedida, a caminho para a França, do Newton. Marcamos nova reunião e chamaríamos mais gente.

Sala 307A, segunda-feira, 17:00 horas. Aguardo na minha sala. Chegam Regina Helena, Marquinhos, Stela, etc. Começamos com medo. Stela propõe adiar o Encontro. Marquinhos vacila e Regina, fica atenta. Eu digo não. Devemos fazer logo o primeiro encontro, Quando? Confirmamos 8 e 9 de novembro. Proponho que deva ser algo sério mas não sisudo, que deveríamos ter música, teatro, cafezinho, pão de queijo, etc. Os olhos de Regina brilham, Serginho salta e logo Se encarrega do grupo de teatro Minas Arte Gerais, Marquinhos topa e Stela estranha, dando a impressão de que, na sua opinião, isto é baderna. Marilia entra com o André, gosta da idéia e sai. Cornelis aparece com os três filhos e confirma o debate sobre Psicologia Social e saúde. Regina dá o apoio do Departamento de Psicologia da UFMG. Marcamos outra reunião na esperança de mais gente.

Quinta-feira, 14:00 horas, sala 307A. Eu e Marquinhos. Inútil o esforço de chamar mais pessoas. Baixa meu astral. Tenho a sensação de ter de tomar as rédeas. Falo do meu desânimo mas Marquinhos está eufórico. Decidimos que seria uma promoção conjunta ABRAPSO/ DEPARTAMENTO PSICOLOGIA-UFMG/ DEPARTAMENTO PSICOLOGIA PUC-MG. A Abrapso forneceria os certificados, a Federal o local e a infra-estrutura possível e a Católica o cartaz. Confirmamos a mesa redonda Psicossociologia: recortes.

Quinta-feira, 14:00 horas. A sara 307 A está enlouquecida. Marilia, evidentemente, com seu sorriso largo. A coordenadora do mestrado de Biblioteconomia discute com Regina Helena, Marilia, Lucinha e eu a solicitação de um curso para professores sobre metodologia de pesquisa. Regina Godoy, Júlio, Sônia e Sergio entram para acertarem a ida à XV Reunião Anual de Psicologia de Ribeirão Preto, para a qual havíamos sido convidadas. Marquinhos e Stela chegam para mais uma reunião do Encontro. A princípio eles conversam entre eles, mas a reunião com a coordenadora está demorando muito. Ela nos solicita, naquele momento um programa.

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nós só conseguimos relacionar possíveis temas. Marquinhos e Stela se inquietam. Vou até eles e Iniciamos. num canto, a reunião. Marquinhos está de péssimo humor. Parece ter se dado conta da nossa responsabilidade. Stela não só tem pressa como está agressiva. Dá a impressão de querer organizar tudo aquilo e logo diz: vocês têm de eleger um responsável pelo “Encontro”. Marquinhos e eu nos entreolhamos. Lucinha, de passagem, diz que se depender de elegermos alguém estamos perdidos. Mostro o esboço de um cartaz que tem a forma triangular. eles dizem ter gostado mas eu acho que não é verdade. Marquinhos leva-o para a gráfica da Católica. Confirmamos o debate sobre Psicologia Social e Educação. Stela propõe a criação de um painel onde pudessem ficar fixados alguns textos. Aprovamos a idéia. Serginho inscreve seu trabalho nas comunicações e Marilia inscreve o texto sobre Internato Rural do Joaquim a Celso. A partir de então, o apoio da Vânia (chefe da Psi Católica)e da Regina helena (chefe da Psi Federal) entra em cena. É ótimo ter gente nossa nos dois cargos.

Vários para a decisão sobre o cartaz. A forma triangular é cara e o pessoal da católica não gosta. eles apresentam um novo cartaz. Marquinhos mostra·me . A frase liberado para menores de dez anos foi cortada. Eu não gosto do novo cartaz que é morto e cheio de paralelas monótonas. Um horror. Eles fazem novas tentativas com o pessoal da gráfica. Marquinhos me liga e diz que o atual cartaz é retangular e que o verde, vermelho e branco iniciais foram substituídos pelo branco, roxo e preto. Meu humor alcança altos pontos negativos. Marquinhos não quer assumir o cartaz sozinho e marcamos um encontro. Espero-o mais de meia hora e eis que, de súbito, caminha pelo pátio figura de branco. estou com Marilia e Carolina tomando café. Preciso preparar o espírito da Marilia e o meu. Falo do esforço que eles estão fazendo e tento convencer-me. Decido, antes, de vê-lo, que iria aceitá-lo. Marilia ainda insiste na forma triangular e sugere um quadrado que pudesse ser cortado diagonalmente. Marquinhos, mais uma vez tentaria conversar na gráfica. Fomos procurar alguém que pudesse corta-lo, caso a idéia do quadrado fosse viável. Tudo em vão. Iria ficar caríssimo. Pelo telefone com o Marquinhos decidimos , finalmente, o cartaz. Posteriormente, várias pessoas elogiaram. Confirmei com os alunos de Psicologia Comunitária a inscrição do trabalho Formações comunitárias em Belo Horizonte. Marquinhos fica como o coordenador das sessões de audiovisuais. Stela decide apresentar seu trabalho. Tarcisio e Sandra Guerra confirmam a sessão musical.

De volta da Reunião de Psicologia de Ribeirão Preto e da visita à exposição de arte da XVIII Bienal de São Paulo, fecho, finalmente, a programação do Encontro. Marquinhos entrega os cartazes e leva a programação e as fichas de inscrição para os puc-ianos de Beagá. Celso , o monitor, Se recusa afazer as
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Inscrições e nos revezamos na secretaria: Cristina, Marcelo, Ritinha, Regina, Lucinha e eu. Preparo, com Marquinhos o material de divulgação e enviamos para os jornais e boletins locais. São publicados no Estado de Minas, no boletim UFMG e no Boletim da PUC-MG. Faço a lista do material necessário e discuto com Zé Afonso. Solicito a utilização das instalações do coleginho , audiovisual da reitoria e várias outras providências; Regina pede-me para ler o trabalho da Vera. leio-o e decidimos inclui-lo.

Na reunião do pessoal da Social, quinta-feira, decidimos dar uma ordem nas apresentações dos trabalhos da mesa redonda. Pergunto por um convite a ser feito ao Célio, Marilia informa já tê-lo convidado. José Renato sugere e se encarrega de convidar Anna Edith, Solicito material para a exposição e inicio os preparativos finais.

Sexta.feira, o dia. No encontro com Zé Afonso várias, dificuldades. Não conseguimos permissão para utilizar as cadeiras do auditório e nem um painel vazio do saguão. Tínhamos de improvisar. Chegam Marquinhos, Marilia e Lucinha. Iniciamos a preparação do local: exposição, salas; cartazes informativos, etc.. Como na pressa o tempo voa, encontrei-me, inesperadamente, tensa mas percebendo o bom astral reinante, saudando os participantes nos termos:

Dando as boas vindas em nome do Setor de Psicossociologia e Psicanálise e do Departamento de Psicologia, da Universidade Federal de Minas Gerais, gostaria de dizer que este I Encontro Mineiro, de Psicologia Social é resultado do trabalho e do empenho de muitas pessoas. Não irei citá-las nominalmente, porque há muita temos sonhado e trabalhado juntas e não me acho no direito de agradecer pessoas que, muito mais do que eu, têm lutado pela Psicologia Social em Minas Gerais. Tudo que posso fazer é convidar à persistir neste caminho e neste Sonho porque, como está escrito em um dos contos de”As mil e uma noites”, a verdade não é feita de um único sonho, mas da soma de muitos sonhos” Portanto, sonhemos juntos por uma psicossociologia mais Criativamente significativa.



Muita obrIgado.
Elizabeth de Melo Bomfim novembro-1985

* Professor adjunto do Departamento de Psicologia -UFMG
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TEXTO LIDO NA ABERTURA DO ENCONTRO
Marcos Vieira Silva
Este Encontro está sendo promovido pela ABRAPSO -Associação Brasileira de Psicologia Social - Regional Minas Gerais, pelo Departamento de Psicologia da UFMG e Departamento de Psicologia da PUC/MG.

Para os que ainda não a conhecem, a ABRAPSO foi fundada em 1980, com as finalidades de:

a) Garantir e desenvolver as relações entre pessoas dedicadas ao estudo, ensino, investigação e aplicação da Psicologia Social no Brasil;

b) Propiciar a difusão e o intercambio de informações sobre o desenvolvimento do conhecimento no campo da Psicologia Social;

c) Organizar conferências e cursos e promover a publicação de trabalhos de interesse para o desenvolvimento da Psicologia Social.

A ABRAPSO tem procurado promover Cursos e debates regionais e, durante as reuniões da SBPC, encontros e cursos nacionais. Publica um Boletim com textos e programações de seminários e cursos.

Este Encontro é uma primeira promoção da Regional Minas, que foi criada durante a ultima reunião da SBPC, em Belo Horizonte. Esperamos criar espaços para divulgação e discussão de trabalhos para encontros de pessoas interessadas e envolvidas em Psicologia Social.

Gostaríamos de agradecer a presença do prof. Sergio Ozella, da PUC/SP, que veio representando a ABRAPSO - Nacional.


O Encontro acontecerá 3 (três) salas:

1a. sala - MUSEU. - Um pouco da história da Psicologia Social, o laboratório de Psicologia Social da FAFICH e Publicações, Boletins e Revistas que falam um pouco da história da Psicologia entre nós.

2a. sala - Mesas redondas debates e comunicações de trabalhos, hoje e amanhã.

3a. sala - Exibição de filmes e audiovisuais, amanhã, sábado.


Nossa programação é a seguinte:
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I ENCONTRO MINEIRO DE PSICOLOGIA SOCIAL
DIA 8/11-6a feira 20:00 horas

Abertura. Exposição.

Mesa Redonda: Psicossociologia: Recortes - Elizabeth Bomfim, José Renato Amaral, Julio Mourão, Maria Lúcia Afonso, Maria Regina Almeida, Mari1ia Mata Machado, Regina Helena Campos.
DIA 9/11 - Sábado 08:00 horas

Debate: Psicologia Social e Saúde· - Cornelis van Stralen, José S.Felipe, Francisco E. Campos e Francisco A. Machado.

10 horas

Música, cafezinho e pão de queijo

10:30 horas

Comunicação de trabalhos. Apresentações de audiovisuais e filmes

14:30 horas.

Debate: Psicologia Social e Educação - Carlos H. Gerken e Elza Cataldo.

15:30 horas

Comunicação de trabalhos - Apresentação de audiovisuais.

11:00 horas

Teatro - Grupo Minas Artes Gerais

PROGRAMAÇÃO DOS AUDIOVISUAIS E COMUNICAÇÕES DE TRABALHOS.

DIA 9:10 - Sábado

Audiovisuais e filmes: Coordenação de Marcos Vieira Silva .

10:30 horas: Nossa Senhora - Modelo de Mulher( audio) 11:30 horas: Universidade: para que e para quem? (audio)

15:30 horas: O rosto do abandono (filme)

16:30 horas: Por uma psicologia (audio)

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Comunicações de trabalhos
Manhã

10:30 hora : O social e a autonomia : leitura a partir de J. J. P. Dupuy – Leila Marine, Sérgio Laia.

10:00 horas : Internato Rural - Joaquim e Celso P. Meio 11:30horas : Roque Santeiro - Sergio Laia

Tarde


15:30 horas: Formações Comunitárias em Belo Horizonte- Antonio C. Ferreira, Elizabeth Assis, Elizabeth Bomfim, Eny Barbosa, Jorge L.Costa, Margareth Toledo, Marcia Azevedo, Valéria Marques.

16:00 hora : Saúde mental: considerações - Maria Stela B. Goulart.

18:30 hora. : Análise Institucional: resumo histórico - Vera Zavarise.

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MESA REDONDA: PSICOSSOCIOLOGIA-RECORTES


CABEÇAS IMPORTADAS OU PORQUE NÃO UMA PSICOSSOCIOLOGIA BRASILEIRA?


Elizabeth de melo Bomfim (*)

A Psicologia no Brasil é importada. Dada a necessidade de um atual julgamento Qualitativo da ciência, tal fato, em si, não é benéfico nem maléfico. Mas sem dúvida reflete a inibição mesmo a castração dos profissionais da cabeça que, mimética ou criticamente, reproduzem os textos estrangeiros. Os raros momentos de esforço de um pensamento original passam por um conhecimento psicossociológico produzido, não necessariamente, no interior da Psicologia Social. São contribuições científicas e/ou artísticas dos que, rompendo a mediocridade criativa, vislumbraram e teceram sua contribuição própria.

Nos fins do século passado e início deste, assistimos delinear um pensamento em torno da questão psicossocial através dos higienistas, jurisprudência e da sócio-antropologia. Com os primeiros laboratórios de psicologia importamos as idéias da inferioridade da nossa raça mestiça e as fórmulas definidoras de caráter dos criminosos com suas policiescas atitudes depressivas. Nina Rodrigues através de suas pesquisa sobre a inferioridade racial dos negros e mulatos justificava o fenômeno Canudos e influenciava Euclides da Cunha na redação de Os Sertões. Essa maligna importação contrastava com o sentimento de brasilidade de Gonçalves Dias. O país que buscava manter sua independência política e a economia agrária tinha na brasilidade a ampliação do nativismo de Gregório de Mattos e dos ideais comunitário-regionalistas dos conspiradores mineiros.

Na década de 20, os ismos e os ãos. Industrialização, urbanização, imigração, anarquismos, comunismo e tenentismo. E na arte a força de dois movimentos brasileiros: o modernismo e o regionalismo. O entusiasmo dos educadores com seus ideais escolanovistas abria espaço, não só para uma psicologia pensada nas escolas mas, e principalmente, para o rascunho de um pensamento educacional brasileiro. Carneiro Leão é o precursor.

A década de 30 está marcada pela sulista literatura modernista e pelo regionalismo brasileiríssimo de Gilberto Freyre (com o suporte da escola de Recife). Marcada por uma literatura (com uma língua própria) e uma Sócio-antropologia dessa terra e dessa gente. E, nos orgulhando do nosso corpo e nossa alma pardos, caminhamos resolutos e estadonovistas para a guerra. Pela primeira vez exportamos, na política da boa vizinhança americana, o ufanismo
( * ) Professora de Psicologia Social da UFMG mestre em educação e doutorada em educação brasileira pela UFRJ.

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musical de Ari Barroso e o exotismo do figurino-coreográfico ­musical de Carmem Miranda.

Mas a diáspora dos pós guerra atacou a todos: artistas, educadores, antropólogos, sociólogos,etc. A importada psicossociologia tenta rearticular os pequenos grupos, promover as mudanças de atitude e desenvolver as relações humanas nas indústrias e empresas. Na longa discussão em torno das diretrizes e bases na educação nacional crescem as campanhas de alfabetização. Os cantores do rádio tornaram-se ídolos e riamos das chanchadas cinematográficas.


Surgia o planalto central com ideologia nacional desenvolvimentista e uma bossa nova. A cultura popular entrava em cena nos palcos da isebiana produção sociológica e no conseqüente Centro Popular da Cultura. Fortalecido com o movimento de alfabetização, Paulo Freire explodia com o primeiro pensamento original da educação brasileira. Beneficiado por meio século de agitação educacional, Paulo Freire criou a libertação pela conscientização num método de alfabetização. Do dueto Anísio Teixeira - Darcy Ribeiro surgiu o primeiro modelo de universidade brasileira. O filme Pagador de Promessas recebia um prêmio internacional e Gabriela com sua cor de canela e cheiro de cravo eternizava, nas letras de Jorge Amado, a mulher Brasil A língua portuguesa de Machado de Assis que, tendo alcançado a nacionalidade em Mário/Oswald de Andrade, entrou no sertão mineiro de Guimarães Rosa. E Dante Moreira leite tentava esboçar um caráter(sic?) nacional do brasileiro.

E uma nova diáspora, desta vez nacional era introduzida pela, revolução de 64. O curto fôlego do tropicalismo foi seguido pela, longa narrativa brazilianista e passamos a nos enxergar por alheios olhares. Avançava comunicação de massa e com a televisão surgia a preocupação com a formação da opinião pública. A planadora psicossociologia de Rodrigues e Schneider nunca aterrizou. E ao som do rock introduzíamos o fim dos sonhos (será que sonhamos?) e utopias, com seus movimentos contra-culturais e anti-institucionais. No crescer do movimento alternativo, Ecléa Bosi procura retratar, pela leitura das operárias paulistas, a influência da massificada comunicação na popular cultura.


No signo da anistia, exportamos telenovelas, música popular, cinema, literatura, sociologia e antropologia, artesanatos e assistimos os desencontros psicológicos em torno da questão da identidade.

E na esperança de um muda Brasil e de um crescer da psicossociologia brasileira dedicamos essas palavras, por terem sido escritas no dia de sua morte, á memória de Ayres da Matta Machado.


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PSICOLOGIA SOCIAL - Recortes Teóricos


José Renato Amaral *

Inicialmente, eu me dispunha a trazer para esta reunião da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto algumas reflexões que Venho fazendo sobre o tema das instituições. Dei·me conta nos últimos dias que a situação singular que vem enfrentando nos meses recentes o Departamento de Psicologia da Universidade Federa! de Minas Gerais, justificava plenamente um redirecionamento da discussão inicialmente proposta, na tentativa de trazer para este Fórum o debate que travamos internamente.

Um grupo numeroso de professores do Departamento de Psicologia da UFMG(Praticamente 50% do seu corpo docente), com o apoio dos estudantes, vem de propor a divisão do mesmo, através da criação de um Departamento de Psicanálise e Psicossociologia. Acompanhar esta aproximação institucional e teórica entre a Psicanálise e a Psicologia Social será nossa tentativa nesta intervenção. Para compreende-la devemos rapidamente contar a historia dos caminhos trilhados pelo Setor de Psicologia Social nos últimos anos. O Setor de psicologia Social se estrutura inicialmente através de trabalho de pesquisa e ensino sobre o tema dos grupos e instituições. A Psicologia Social das Organizações e a Dinâmica de Grupo são os dois grandes temas trabalhados. Paralelamente, ao trabalho de pesquisa, sobre estes temas toda um esforço de reflexão teórica sobre os mesmos é feito vinda a desembocar numa crítica epistemológica e política. Os estudos sobre organizações tendo como pano de funda a preocupação com a racionalidade administrativa ,com o aumento da produtividade, era por nós criticado por desaguarem numa pretensa teoria das relações humanas que funcionava muito mais como uma tentativa de ocultamento dos conflitos presentes no mundo do trabalho, do que da análise destes mesmos conflitos. A teoria dos pequenos grupos, a dinâmica de grupos foi também criticada neste trabalho de reflexão teórica, numa longa discussão que a exigüidade do tempo não permite abordar. A crítica estruturalista e marxista dos modelos predominantes em Psicologia Social leva-nos a novos impasses teóricos. O sujeito na sua prática social começa a ser visto como mero reflexo de estruturas sociais e econômicas às quais ele reproduz, seja em seu comportamento, seja na sua forma de perceber o mundo.
* Professor Adjunto do Departamento de psicologia- UFMG
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Uma primeira aproximação com a Psicanálise se dá a partir da análise do fenômeno grupal empreendida por Freud. Seu texto sobre psicologia de massas e análise do eu e o ponto inicial da toda uma nova problemática. Trata-se agora não mais de construir uma tipologia sobre os tipos de liderança ou sobre os processos de grupo, mais de pensar os investimentos pulsionais, a questão da identificação. Esta aproximação com Psicanálise será por nós aqui abordada através da análise de alguns texto e trabalhos que tem Informado a nossa prática pedagógica. Tomaremos como ponto de partida para tanto a tentativa de análise de alguns fenômenos da recente história brasileira, especialmente a mudança no universo valorativo e a conseqüente criação de novos hábitos psíquicos em certas camadas da população urbana do país Para facilitar a discussão­ que deve dar prolongamento a nossa apresentação vamos nos basear particularmente no trabalho de Jurandyr Freire Costa ­Sobre a Geração A1-5. Violência e Narcisismos parte de seu recente livro violência e psicanálise. Ali ele vai procurar uma explicação para o fato de que uma nova concepção do mundo, uma nova forma de viver as relações sociais se instaure numa parcela significativa da população das grandes cidades, dando origem ao que luciano Martins vai chamar de Geração A 1-5. Algumas referenciais ao trabalho de Luciano Martins se fazem necessárias. 0 trabalho publicado por este autor em 1979 vai provocar uma discussão nacional, que atravessou os campos da Filosofia, da Sociologia, da Psicologia. Em determinado momento tornava-se difícil encontrar uma instituição acadêmica no Brasil que se visse concernida pelas questões colocadas por Luciano. Em síntese, o autor vai localizar a partir do final da década de 60 no Brasil a difusão de uma cultura autoritária. Correta do autoritarismo político ela vai retirar do indivíduo a sua condição de sujeito da própria história, levando ao desenvolvimento de uma ideologia subjetivista, predominante nos setores médios e altos da sociedade urbana. Na tentativa de localizar as origens do fenômeno, Luciano Martins vai chegar aos seus sintomas: a desarticulação do discurso, o culto ás drogas, o modismo psicanalítico. Mas, ao autoritarismo, como dizemos anteriormente, que se atribui a origem última da criação deste novo subjetivismo. Sem questionar os méritos do trabalho sociológico de Luciano Martins, Freire Costa vai procurar discutir a hipótese levantada pelo autor da relação direta entre autoritarismo e criação destas novas formas de viver as relações sociais. Para tanto, vai procurar nos trabalhos de Cristopher Lasch sobre a sociedade americana e de Jean, Baudrillard sobre a francesa, as bases para tanto. Aqueles autores vão encontrar naquelas sociedades, onde é inexistente o tipo de autoritarismo político denunciado por Luciano Martins, a, a disseminação da mesma ideologia subjetivista analisada pelo.

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autor. A explicação de Lasch e Baudrillard para o problema se assenta sobre a questão do narcisismo. Um paralelismo entre a patologia narcísisca e a estrutura psíquica do indivíduo, preso á ideologia subjetivista é apresentada por Lasch. Se a sintomatologia da patologia narcísica, descrita pelos psicanalistas, se caracterizaria por insatisfação vaga e difusa inconsistência das relações amorosas, hipersensibilidade á frustração, sentimentos de futilidade e ausência de finalidade da. existência, sensação permanente de tédio e vazio interior, depressão e oscilações bruscas na auto-estima, nervosismo, dependência fugaz e automática frente a experiências afetivas calorosas, etc... Lasch vai encontrar na cultura americana a predominância de padrões de comportamento caracterizados por: medo da velhice, declínio do espírito lúdico, sensação de vazio interior, frieza nas relações afetivas, fome insaciável de novas experiências afetivas, etc. que apresentaria uma. Afinidade com a patologia narcísica. Daí a tendência.a pensar estas sociedades como patogênicas. Jurandyr F . Costa vai retomar a discussão apontando para uma questão crucial. Nenhuma cultura poderia ser considerada em si como patogênica.. A Impressão no sujeito, através do processo de socialização, de certos traços comuns de conduta. e aspiração é inerente a toda cultura. E a seu ver a estratégia empregada pelo. sujeito para apropriar-se de um traço comum que pode levar à patologia.

Trabalhar a questão dos novos hábitos psíquicos de parte da população urbana é assim analisar os investimentos pulsionais desta e os mecanismos utilizados na definição da identidade dos sujeitos sociais. Retomada da análise freudiana. O acesso á Psicologia de massas, à Psicologia Social, é dado pelo trabalho de análise destes mecanismos, na busca da detectação dos traços da nova ação psíquica. A Psicologia Social se aproxima da Psicanálise. Caberia a pergunta central: questão de método ou mudança de objeto? Sugerimos para uma discussão com os presentes que as duas questões caminham paralelamente. O abandonada uma problemática: a tipologia dos grupos, a não constatação meramente estatística da freqüência ou não de comportamentos padronizados, em troca de uma nova questão: a pergunta sobre a produção histórica.e social dos sujeitos, leva a um novo método. Retomada da Psicanálise pela Psicologia Social na perseguição do objetivo da metapsicologia freudiana: A construção de uma teoria que dê conta da vida psicológica de sujeitos históricos.



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UM REFERENCIAL ESPECIAL PARA A DISCIPLINA "PSICOLOGIA COMUNITÁRIA E ECOLOGIA HUMANA":

O ECODESENVOLVIMENTO.

Júlio Mourão ( *)

Depois da reforma do curso de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1974, alguns capítulos da disciplina ”Psicologia Social” tornaram disciplinas autônomas. Tal foi o caso de psicologia comunitária, e Ecologia Humana. Mais do que uma disciplina, a Comunitária conforme a chamamos de forma abreviada, é uma área de trabalhos tanto teóricos como práticos, rica e complexa. Em Belo Horizonte tem havido demandas para que psicólogos atuem nas áreas de Saúde Pública, Saúde Mental e Desenvolvimento de Comunidades, principalmente periféricas, e a, Psicologia Comunitária tem estado presente nestes trabalhos.

Como se trata de uma disciplina nova, temos buscado diferentes referencias teóricos aos quais relaciona-la. Um deles é o do Ecodesenvolvimento, tema com o Qual estou particularmente envolvido. É sobre isto que farei minha comunicação.

A palavra ecodesenvolvimento foi forjada por Maurice Strong, durante a 1a Conferência sobre o Meio Ambiente organizada pela ONU em Estocolmo 1972. Depois disto vários pesquisadores se dedicaram ao tema, sendo o mais destacado deles o professor Ignacy Sachs, de Paris. O prof. Sachs já esteve algumas vezes em Belo Horizonte trabalhando conosco, e nos estimulou no sentido de testar as proposições do ecodesenvolvimento no nosso contexto. Certamente o ecodesenvolvimento se revelará importante fonte de inspiração para nossas hipóteses de trabalho na comunidade.

Antes de abordar as proposições básicas do Ecodesenvolvimento, quero dizer que não o considero um novo paradigma; antes, o ecodesenvolvimento, tem uma função mais de natureza heurística, permitindo-nos levantar Indagações pertinentes, suscitando questões importantes, hipóteses de trabalho relevantes.

*Professor adjunto do Depto de psicologia - UFMG.
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Proposições Fundamentais do Ecodesenvolvimento:

A hipótese de base do Ecodesenvolvimento pode ser formulada assim: não há um desenvolvimento, mas vários estilos de desenvolvimento. Enquanto conceito pluridimensional, o desenvolvimento deverá, em conseqüência, ser definido em relação à situação específicas.

O planejamento é concebido aqui como um jogo de harmonização, que consiste em tornar compatíveis os Objetivos do desenvolvimento econômico com os objetivos da sociedade em geral. Isto pode implicar uma definição do papel dos diferentes atores sociais (sociedade, Estado, mercado), e o setor público atuará a fim de garantir a cada um espaço para se exprimir validamente, De fato, o setor sociedade é frequentemente muito vulnerável às invertidas do setor mercado, sobretudo nos países do Terceiro Mundo. Este desequilíbrio poderá- e deverá - ser compensado pela interferência do setor público.

A esta hipótese de base se agrega um postulado, também fundamental, mas de natureza ética: o Ecodesenvolvimento visa, em primeiro lugar, a promoção do homem, a satisfação de suas necessidades básicas, - alimentação, habitação, saúde e educação -, bem como os meios para se chegar ai: emprego, segurança, qualidade das relações humanas, etc. O problema que se coloca aqui é o da definição de prioridades que o modelo de desenvolvimento deve adotar. Para muitos paises, é ainda uma estratégia de sobrevivência o que está na cabeça da lista de prioridades. Ultrapassar a fronteira da pobreza, tal é o objetivo primordial que todo modelo de desenvolvimento alternativo ou apropriado deve se colocar, em qualquer lugar em que a ameaçada tome ainda subsista.

Nesta ótica, o problema da implantação de sistemas de produção apropriados deverá ser precedido de uma análise de necessidades. E assim que, em situações em que o problema do desemprego se revele importante, sistemas que absorvam mais mão-de-obra terão prioridade. Numa etapa posterior, uma vez garantida a Satisfação das necessidades básicas, não será mais este esquema de sobrevivência que determinará as opções. Se o Ecodesenvolvimento denuncia a sociedade do desperdício, ele defende a sociedade da abundância.

Pode haver modelos de desenvolvimento que se integram de maneira harmoniosa á natureza - esta é a terceira proposição fundamental do ecodesenvolvimento. De Um lado, trata-se de evitar a degradação dos ecossistemas e o desperdício de recursos. De outro lado, trata-se de compatibilizar a formulação do modelo de desenvolvimento às características do meio físico concernido. Aqui também, o jogo de harmonização consistirá em aproximar o estudo destas características ambientais com os objetivos sócio-econômicos que se quer atingir.


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Finalmente, uma quarta proposição estipula que o desenvolvimento deve ser um processo endógeno por excelência, um processo aberto á participação das pessoas concernidas, e que mobilize prioritariamente os recursos técnicos já existentes e incorporados á cultura da sociedade - é o desenvolver contando com suas próprias forças, ou ainda estimulando a self-reliance. Eis o que Sachs escreve a propósito deste conceito:

A 'self-reliance’ implica antes de tudo uma autonomia de decisão, uma capacidade de Identificar seus próprios problemas e de encontrar soluções em que haja, por isso, ruptura com o mundo externo. Fala-se às vezes de ‘desenvolvimento autocentrado (1).

A ‘self-reliance’ distingue-se da autarcia na medida em que prevê uma abertura constante sobre as instituições exteriores, com as quais sistemas de trocas são organizados. A comunidade contínua sendo assim um organismo permeável, mas protegendo-se contra investidas excessivamente invasoras. É nesta troca que ela encontra parte dos estímulos que a fazem progredir.

Esta orientação exige, pois, uma revalorização do patrimônio cultural de cada sociedade: este é frequentemente desprezado em favor de costumes e produtos vindos de fora. Fala-se de uma tendência á imitação que seria uma característica generalizada nas comunidades do Terceiro Mundo, e que teria como conseqüência importante disfunções em vários setores da vida social. As soluções válidas para países industrializados se mostram frequentemente inadaptadas ás condições do Terceiro Mundo. Mas, transformadas em mercadorias, estas soluções encontram saída garantida nos mercados do Terceiro Mundo; as mídias têm um papel fundamental neste processo.




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