Anais do I encontro mineiro



Baixar 0.68 Mb.
Página2/8
Encontro29.07.2016
Tamanho0.68 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

A Escolha de Técnica:
Diferentes estilos de desenvolvimento implicam estilos tecnológicos específicos. O Ecodesenvolvimento reconhece a importância desta relação e faz disto um dos problemas centrais de suas análises. Entretanto, quer também se prevenir contra um reducionismo inaceitável, que consistiria e transformar o problema do desenvolvimento em um problema de escolha de técnicas. E assim que ele reserva muito espaço à discussão dos aspectos institucionais, evitando os riscos de posições de natureza tecnocrática. Aos critérios econômicos que intervêem na produção e na escolha de técnicas, o Ecodesenvolvimento propõe a incorporação de outras duas ordens de critérios: o social e o ecológico. A importância evidente destes dois fatores não impede que eles sejam frequentemente esquecidos pelos planejadores.

Examinaremos os principais aspectos do problema da escolha de técnicas proposta pelo Ecodesenvolvimento. Alguns dos autores


23

citados não com o Ecodesenvolvimento; apesar disto, sua contribuições à formulação e ao estado das ecotécnicas são fundamentais.

Primeiramente, algumas considerações sobre a definição de conceitos. Encontraremos na literatura especializada dois conceitos que, aliás, seriam talvez sinônimos: tecnologias apropriadas e tecnologias intermediárias Falta ainda uma definição precisa destes conceito, já que eles foram formulados recentemente.

Schumacher foi certamente o primeiro a propor o conceito de 'tecnologia intermediária’. O adjetivo empregado pressupõe a existência de um continuo cujas extremidades seriam constituídas pelas 'técnicas modernas' e as 'técnicas primitivas ', estando os outros estilos distribuídos ao longo deste contínuo; é ali que se situaria a 'tecnologia intermediária' (2}. Schumacher indica algumas características deste tipo de tecnologia:

... Eu chamei 'tecnologia intermediaria’ (ou de nível médio) para indicar que ela é muito superior à tecnologia primitiva dos séculos passados, e sendo, ao mesmo tempo, muito mais simples mais econômica e mais independente do que a super-tecnologia dos ricos. Podemos também chamá-la de tecnologia do ajudai-vos mesmos, ou tecnologia democrática, ou ainda tecnologia do povo: uma tecnologia á qual todo mundo pode ter acesso e que não é reservada aos que são já ricos e poderosos. (3). Haveria também uma tecnologia da máquina, característica da produção de massa, e uma tecnologia da ferramenta, implicando numa produção pelas massas.

Depois de mencionar a definição de Schumacher, Stewart reporta também a de Marsdens, a 'tecnologia progressiva' a proposição de Marthur, 'uma tecnologia do Terceiro Mundo que consiste em adaptar os métodos modernos ás condições especiais dos países em desenvolvimento'; aquela frequentemente empregada pelos economistas, 'tecnologia intensiva em mão-de-obra'; e a de Dickson, 'tecnologia alternativa'. Stewart não formula uma definição única, e propõe trabalhar sobre a ‘tecnologia apropriada' e às vezes, sobre a ‘tecnologia alternativa’.

Assim como Stewart, lllich prefere caracterizar seu conceito em lugar de defini-lo. A ferramenta é convivial , diz ele, na medida em que cada um pode utiliza-la sem dificuldade, tão frequentemente ou tão raramente como o desejar, para os fins que ele mesmo determinar (4). E também: A ferramenta convivial será incomparavelmente mais eficaz que a ferramenta primitiva e, diferente da ferramentaria Industrial , estará ao alcance de cada um. E ainda; A ferramenta justa responde a três exigências: é geradora de eficiência sem degradar a autonomia pessoal, não suscita nem escravos nem mestres, alarga o raio de ação pessoal.
A íntima relação que existe entre a escolha de técnicas e a
24

Organização social é bem ilustrada na proposição de John Todd, onde ele prega o desenvolvimento de uma ciência que possa ser apropriada pelo povo:... Na base deste projeto encontra-se a criação de uma biotecnologia que, por sua própria natureza, poderá:


- funcionar de maneira eficaz nos níveis sociais mais baixos;

- ser compreensível e utilizável pelas populações as mais pobres;

- ser baseada em realidades tanto ecológicas como culturais,

levando a um desenvolvimento das economias locais;

- permitir a evolução de pequenas comunidades descentralizadas que, por seu lado, pudessem desempenhar um papel de farol para um futuro mais adequado para a maioria da população mundial, e - ser criada localmente e demandar poucos recursos financeiros. Isto daria a possibilidade às regiões ou nações pobres de se lançar na criação de biotecnologias indígenas (51).

lllich trabalha também sobre o conceito de pesquisa radical, que não deveria ser nem uma nova disciplina científica, nem um empreendimento interdisciplinar: é a análise dimensional da relação do homem com sua ferramenta. Esta pesquisa radical persegue dois objetivos; por uma lado fornecer os critérios que permitam determinar quando uma ferramenta atinge seu limite de nocividade; de outro lado, inventar ferramentas que otimizem o equilíbrio da vida, e portanto maximizem a liberdade de cada um. A pesquisa radical é resposta a uma ameaça importante que ele chama monopólio radical, situação que se caracteriza quando uma ferramenta toma o controle exclusivo satisfação de uma necessidade (6).


Bibliografia citada:

1- Sach., Ignacy - ''Stratégies de l'écodéveloppemente" ­– Les Éditions Ouvriéres, 1980, Paris.

2- Stewart, Francis – ”'Technology and underdevelopment”- ­The Macmilian Press Ltd., 1977, Londres.

3- Schumacher, E. F. - "Small is beautiful - une société à mesure de I’homme - Le Seuil, 1978, Paris.

4-lllich, lvan - "La convivialité" – le Seuil, 1973, Paris.

5- Todd, John – “A modest proposal: science for the people” in “Radical agriculture” - Merril, R. et al. - Harper and Row publ,, 1976, Nova yorque

6-lllich, Ivan, citado por Simmonet, D. - "L'écologisme" - Que sais-je?

PUF, 1979, Paris.

25
PARA-PAIXÕES/ESPELHOS PARALELOS

Lúcia Afonso/85

Qualquer maneira de amor vale o canto qualquer maneira me vale cantar.
Este artigo, embora pequeno, é dedicado a duas grandes pessoas. A Maria Auxiliadora Bahia: todos os grandes e pequenos engodos. A Marilia Mata Machado, quem primeiro vi usando o termo não-desejo em um polêmico artigo, intitulado "Sexualidade e Instituições."
Eu sei muito pouco sobre o Desejo. Eis aí uma frase que a própria autora estará fadada a cunhar pele resto do artigo senão da vida. Ai onde o pouco pode ser muito, o muito Pouco. Também sei pouco muito sobre o não-desejo. Já aprendi que os dois andam sempre juntos assim como o saber e o não-saber, o amor e o não ­amor e outros casais de oposição. Tudo indica que uma influência subreptícia da ficção científica atravessa a teoria social: é como se para tudo existira um paredro no universo paralelo. Deveríamos então sugerir as expressões para: para-desejo), para-saber e assim por diante? Será que todo desejo engendra (nos meandros do nosso pensamento) um não desejo, um meta-desejo, um para-desejo? 2 É como diria Caetano Veloso, o avesso do avesso do avesso do avesso. Mas não estou nessa página para brincar com essas palavras. Além do mais, resumamos O assunto para não cansar o freguês.

A história desse artigo começa muito antes que ele tenha sido engendrado, mas o causo começou quando a minha amiga Doía ironizou dizendo que a amor é um grande engodo e que a paixão é o que realmente conta. Dei um pulo do universo paralelo e pus os pés no chão ou, em outras palavras, na terra, ou melhor dizendo no planeta Terra, o qual, por estar solto no espaço, me tirou imediatamente o chão. Me deu um tchan e cheguei a algumas chãs conclusões.

Brincando, brincando, eu me lembrei do fascinante achado teórico de Foucault 3, o qual afirma que nossa época é de grande controle/manipulação da sexualidade é que ainda assim nunca se falou tanto sobre o sexo. É por ai que passeiam meus temores quando ouço alguém (mas não a minha amiga Doía) discursar sobre O Desejo, a Paixão. Eu me pergunto que estrada é essa e onde me leva. Qual é o fascínio de se falar sobre o deseja, a amor,
1.Professora de Psicologia Social, Psicologia, UFMG.

Membro do CEPEP (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação e Psicologia)



  1. A expressão para desejo é usada aqui como um termo de retórica, alusão à estória do para·universo, onde o nosso universo, encontra a sua negação. Chamo atenção para o fato de que a realidade existe em várias dimensões do real.

26
a paixão? Caberia uma analogia a Foucault e sugerir que, nessa época onde se fala tanto sobre o Amor, a Paixão, o Desejo, estes três personagens vivem debaixo de grande asfixia?

Não faltariam argumentos para se discutir este aspecto da vida das Sociedades industrializadas, urbanizadas, e mesmo aquelas em que essa industrialização é menor mas que estão integradas ao sistema mundial. Desagregação de instituições como a família, de traços culturais, massas de menores abandonados, instabilidade no emprego violência sexual em alto índice, e outras coisas mais. Alguém mais cínico do que eu afirmaria que as concepções sobre o amor são mais instruídas pelos processos de divórcio e partilha de bens do que por qualquer registro teórico. A paixão teria ao menos essa vantagem: não deixa pecúlio.

Quando um amigo meu me diz, falando de seu penoso processo de separação, que o bom mesmo e ter relacionamentos sem levar a escova de dentes, eu me pergunto sobre o sentido de sua opinião. Seria uma crítica ao modelo conjugal burguês? Uma teoria sobre o amor ou sobre a impossibilidade amorosa? Sobre a para-paixão? Não sei. Quem sabe? Os discursos sobre o desejo, amor ou paixão não .me falam muito sobre meu amigo. Eles rezam sobre categorias abstratas, esses grandes personagens de um drama que á absolutamente humano mas onde os atores ficam por se conhecer. Discursar será também tentar aprender, perseguir, mas por vezes esconder. Como criança presa ao fascínio da peça eu me sinto tentada a subir ao palco e ir conhecer os atores. Os personagens eu conheço, mas quem são Protagonistas do drama?

Pensemos, então, nas Pessoas-que-amam, nas pessoas-apaixonadas. Pensemos em meu amigo e em sua escova de dentes, em minha amiga que se deita com amantes ocasionais mas escreve poemas angustiados sobre o amor que ela não tem, em minha amiga que batalha por seu casamento. Pesemos em nós, em nossos pensamentos.4 Teorias sobre os nossos sentimentos devem provar do variado cardápio de nossa culturas de nossa história.

Alguns afirmam que toda produção de um saber gera um não-saber.5 Acrescentemos também um para-saber. Conhecemos então nossos avessos. Uma construção teórica sobre A paixão e outros termos estabeleceria as relações entre eles, talvez hierarquias. Ao proclamar a superioridade da paixão entre os elementos do drama faz-se uma escolha fundadora do ser humano. Ao escolher O Desejo como objeto privilegiado, as construções teóricas lançam uma pedra fundamental. Entretanto, as moradias teóricas são feitas




  1. Ver Michel Foucault. A História da Sexualidade, vol.1 Ed.Graal, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1980,

  2. Alusão ao trabalho teórico de G.Bachelard. Ver por exemplo,

L’Engagement Rationaliste. Presses Universitaires de France, Paris, 1972.

  1. Ver por exemplo H-G. Gadamer. Reason in the Age of Science. The MIT Press, Cambridge, Mass., 1982, pp 104·7

27
de éter, vivem por um triz6. A analogia da construção não se inspira na construção civil mas em uma geometria espacial onda em cima e embaixo se confundem. É uma construção do universo que cria seus para-universos, - tudo continua a existir em muitas e simultâneas dimensões.

Brincando, brincando, a gente pensa que chamar a qualquer coisa de engodo é lhe designar uma existência e lugar nesse e no para­universo. Fica fundada a pessoa-paixão. As outras lhe rendem vassalagem. Eu cismo sobre as historinhas que já ouvi. Giordano Bruno enfrentando a fogueira por amor as suas idéias onde está a pessoa-trabalho, -arte, -amor, -ciência, - religião? Dizer, como minha amiga, que o amor é um grande engodo tem como conseqüência reconhecer que todas essas categorias são em si grandes engodos. E, entretanto, é através delas, com elas que vivemos. Como dizer qual prevalece? Qual é o maior/menor engodo?

Se determinadas visões, hoje, privilegiam a paixão como mais verdadeira que o amor, .ou que a razão, isto se deverá a um tanto de razões que não pretendo perseguir aqui. Da ênfase de uma biologia evolutiva na atividade sexual às vicissitudes da sociedade industrial-moderna, estende-se um vasto campo para se tentar entender porque o Desejo se tornou tão relevante em nossos discursos. Mas eu pretendo tomar outra via para sair desse artigo.

Repetindo concordo com minha amiga que o amor é um grande engodo. Mas penso o mesmo da paixão, do desejo, da própria filosofia e da ciência. “Como diria Bachelard, o conhecimento científico é sempre a reforma de uma ilusão. Isto não quer, evidentemente, dizer que sejam puras mentiras, sem consequências para o nosso mundo e vida. Vivemos de tais engodos em nada me leva a concluir que, falando de uma maneira absoluta, no plano geral de nossas vidas, um seja maior que o outro. Tentamos contato com nosso universo paralelo. Ali se encontram as nossas negações: para-desejo, para-amor, para-paixões. Ali eles estão descritos pelo avesso, em seu brilho ilusório. Ali está inscrita, nos buracos negros do universo a de nossa consciência, amoral dessa fábula: Tudo é ilusão, o resto é ilusão.
6 . Alusão à música Boatriz de Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento.
Aliás, quero crer que o leitor não se deixou enganar até agora pelos aspectos mundanos deste artigo. Minha intenção não é, desde o inicio dar lugar a uma discussão vazia entra o amor e paixão.

O que desejo frisar é que não podemos tomar estas categorias como reais em si mesmas. Ao contrário, a sua realidade só se encontra nas práticas . dos sujeitos sociais.


28

DES-RAZÕES DE GRUPOS OPERANDO EM UMA INSTITUIÇÃO PSIQUIÁTRICA


Maria Regina Durães de Godoy Almeida *
Este recorte pretende ser um momento de reflexão sobre o trabalho do qual participei durante um ano, em um Hospital Psiquiátrico de Belo Horizonte. o H.G.V. ( Hospital Galba Veloso).

Em primeiro lugar devo caracterizar esta organização como uma instituição previdenciária, por onde todos aqueles que ingressam na procura de um tratamento psiquiátrico, via INAMPS, devem passar. O Hospital possui um Posto de Urgência Psiquiátrico (PUP). algumas unidades de triagem onde ficam os pacientes até serem deslocados para outro Hospital da rede privada conveniada com o INAMPS, ou mesmo para as enfermarias existentes dentro do H.G.V. Para isto, esta Instituição que é um dos Hospitais da FHEMIG (fundação Hospitalar de Minas Gerais órgão ligado á Secretaria de Saúde do Estado), conta com um quadro de pessoa constituído por psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, psicólogos e atendentes hospitalares.

O nosso trabalho foi solicitado pelo Diretor da Unidade que havia recentemente assumido o cargo imbuído do espírito de democratização, tal como ele próprio relata em um certo momento, referindo-se ao projeto que ali fora discutido e implantado. O Projeto G.O (Grupo Operativo) deve ser uma estratégia para democratizar o hospital psiquiátrico, a instituição “psi” como um todo e com a sociedade. O mesmo Projeto sugere formar os técnicos de nível universitário em G.O., tendo como um dos objetivos iniciar um processo de integração de todo o hospital através de aulas teóricas e serviço. para tanto foram contratados seis profissionais com práticas de trabalhos em grupos, que se encontraram no H.G.V. diante da encomenda de G.O., formulada pelo Diretor.

Duas de nós possamos começar pela escuta da demanda do sistema cliente que seria formado inicialmente por P.N.U. (profissionais de nível universitário). De seu lado, o Diretor


* Professora assistente do Departamento de Psicologia- UFMG área de Psicologia Social

29

iniciou o processo convidando-nos, a falar sobre Grupo Operativo, em seminário promovido pelo mesmo.

Seminário se transformou no local onde a encomenda do Diretor foi colocada para todos os funcionários do Hospital, e onde podemos ouvir o que demandavam .

O projeto que no seu original seria destinado apenas aos técnicos de nível universitária, foi ali revertido para atender a todos que, desejavam falar sobre, os problemas do Hospital, da Saúde Mental, da loucura, de suas experiências na instituição e ainda se formarem em G.O. Aí a heterogeneidade seria sinal de riqueza, segundo a teoria que nos ensinara Pichon Riviére. Os grupos se formariam não apenas de técnicos universitários, mas contariam também com os auxiliares de serviços e atendentes. Para a diretoria o objetivo, que anteriormente era o de formação de pessoal técnico em G.O., passou a ser o de Grupos de Formação através de G.O.

Foram formados seis sub-grupos com cerca de quinze participantes cada, coordenados por dois supervisares.

Trabalhamos assim durante todo o tempo, reunindo nos em grupos, por três horas semanais, mesclando teoria, prática e supervisão de, experiências emergentes que se operavam no H.G.V. Nós da equipe de coordenadores, por nossa vez, éramos supervisionados pelo psicanalista Célio Garcia.

De um lado, havia uma. encomenda do Diretor no intuito de, em última instância, efetivar uma proposta política que passasse pela Formação em G.O Por outro lado, um desejo, uma demanda dos diversos setores do H.A.V. de participar de uma experiência grupal, repensar o atendimento assistencial e o lugar e papel que cada um deles ocupava no instituição. Estávamos diante de um projeto político que ao mesmo tempo demandava uma formação e uma supervisão que, sabíamos, havia de ser construída e analisada ali.

O enfoque utilizado foi o grupalista: convivemos com problemas como o de Grupo de Formação e as transversalidades institucionais que passavam.o grupo. Por exemplo a formação de técnicos ou terapeutas foi debatida, o que sempre ocorre quando se trata de Grupos de Formação em Instituições Públicas.

Em muitos casos o coordenador ou, supervisor, aparece, como a pessoa mais bem formada e experiente, que vem oferecer um modelo de trabalho. Entretanto, estamos diante de uma instituição pública, cujo único modelo é o de atendimento médico psiquiátrico, que não se presta ao atendimento à comunidade.

30
Não há instituições de formação que forneçam modelos ou técnicas capazes de equipar e formar pessoal para atendimento psicoterapêutico de uma comunidade. Os subsídios são trazidos da prática consultorial, que nem sempre se adequa e serve para analisar e responder as demandas que se originam na assistência publica, onde tais demandas são desde as de ordem Social até psíquicas.

Tratando-se de uma Instituição Psiquiátrica, o atendimento que ali se faz não pode ser pensado apenas nos moldes privados consultorias. Tem–se que privilegiar a dimensão institucional, começando da análise do próprio nome: Instituição Psiquiátrica.

E a partir deste corpo teórico conceitual que refletia a prática:

- o Grupo como um lugar atravessado pelas angústias, desejos e pelo projeto político – as relações de poder

- o Grupo como um lugar de tratamento - transformação – da própria instituição, ao mesmo tempo que atende aos pacientes.

- o Grupo onde aparecem os analisadores – a análise a fazem os analisadores (Saidón) - o analisador que implica o analista. - o Grupo por onde ocorre a transferência individual mas também e fundamentalmente uma transferência institucional.

Daí a necessidade da análise da implicação do ‘como' o analista, ou o coordenador, está inserido no trabalho de formação, à ser realizada através da contra-transferência institucional. Isto significa escutar e analisar, a própria instituição de análise – o grupo aquilo que esta institui. Observei isto fazendo a análise da implicação política e ao mesmo tempo, histórica da realidade presente da Instituição psiquiátrica e das transversalidades que surgem nos Grupo, muitas vezes via analisadores.

Nesta direção, tentarei transcrever três exemplos de experiências com grupos que emergiram no hospital, onde verificamos a dimensão institucional, política e assistencial.

Por diversas vezes os participantes, do G.O. tentaram diferenciar e explicitar as três maneiras de atendimento grupal que acontecia no hospital. O que marcava a diferença entre as formas de funcionamento dos grupos (Grupo, Fórum, Assembléia) tomava como referência o fato do grupo ter ou não algum efeito terapêutico.

Assim, a primeira frase do projeto de atendimento às famílias dos pacientes, montado pelas assistentes sociais é a seguinte: este não pretende ser um grupo terapêutico. Estariam elas negando o valor terapêutica dos grupos? Ou elas não se achavam autorizadas para este tipo de atendimento? Ou, ainda,

31
estariam se dirigindo ao Grupo Operativo do qual participavam e perguntando aos coordenadores que tipo de grupo era aquele?


No momento, levantei a hipótese de que isto ocorre quando estas práticas se instauram como ameaçadoras no marco institucional.
No H.G.V., encontramos três denominações para as formas de atendimento grupal: fórum, assembléia e grupo.

Fórum: Este foi criado inicialmente com o objetivo de escutar as expectativas dos pacientes em relação ao atendimento previdenciário - INAMPS. Avaliado este primeiro momento, mudou-se o objetivo e se transformou o fórum em um grupo de recepção e ao mesmo tempo de diagnóstico, Era realizado pela equipe do PUP (médicos, assistentes Sociais, enfermeiros e atendentes) e diversificava na forma de atendimento aos pacientes. Algumas equipes trabalhavam com grupos maiores com todos os presentes na sala de espera (pacientes e familiares).Outras com grupos menores (entre 8 e 10 participantes) onde a decisão da internação ou não, era tomada no próprio grupo. Este tipo foi

denominado grupo de diagnóstico.
Assembléia: com objetivo definido de manter as regras as normas das organização hospitalar, a assembléia apareceu com a função de organizar as enfermarias, seja de triagem ou de média permanência onde estas eram realizadas (Elas eram constituídas pela equipe e por todos os pacientes quê estavam na ala no dia de sua realização), A equipe coordenadora tinha um controle total das decisões. Ali não era permitida a escuta do delírio. Os pacientes orientados eram utilizados como agentes de controle para a normatização. Estas constatações podem Ser identificadas em algumas falas, tais como, A assembléia tem ajudado a discutir as agitações nas alas e como os pacientes e devem proceder diante destas. Eles discutem e depois opinam sobre as atitudes a tomar diante destes pacientes. Eles se protegem e tentam proteger os outros (pacientes e atendentes) dos mais agitados. A argumentação era que só daquela maneira haveria uma participação dos pacientes na organização na assembléia, a equipe pode escutar-lhes as Reivindicações e decidir o que era considerado o melhor para eles.

De outro lado, a assembléia era para alguns membros de equipe um lugar de atendimento. Por exemplo, o que nos relata uma terapeuta ocupacional: - Nas assembléias, na medida que o paciente está ali falando, mesmo queixando das más condições das alas, ele está sendo atendido. Disse-nos ainda.:

- Quando fazemos uma assembléia a gente coloca os pacientes
32
ali, sem objetivo comum. Acontece que a medida que eles vão participando destas assembléias eles começam a falar de nós, começam a se organizar, o que no início era desorganizado. Sinto que estamos atendendo, que nós somos mediadores, facilitadores, para que os pacientes possam falar do que quiserem. Esta organização é uma necessidade deles, nós não temos uma direção, fica muito mais para eles resolverem.

Grupo: o trabalho com grupo, para que participavam do G.O., era algo que tinha a ver com o número de participantes, com o querer ser atendido em grupo, com a continuidade no atendimento - mais sistemático. O grupo era também o lugar onde acontecia uma relação transferência pode ser trabalhada.

A transferência passou a ser o ponto central para o trabalho com os grupos. Nos grupos de Formação, seus participantes explicitavam que a transferência era diferente em cada tipo de reunião, assembléia ou grupo. A transferência era o que daria o 'enquadre', ou seja, o que definiria o que se realizava era grupo ou não. Por exemplo: - Na triagem não haveria enquadre para grupo – não existe uma situação de grupo – não há condições de haver uma concentração de violência para o coordenador. A violência é mais dispersa. O mesmo ocorre a transferência.

Vejam, a definição tenta ser construída pela diferenciação dos outros grupos que são realizados no hospital. Desta maneira, dizem que o grupo é mais terapêutico. Que na assembléia o coordenador não precisa ser um técnico e a coordenação é menos rigorosa.

Há uma grande preocupação em como coordenar um grupo. Quais são as técnicas? O que fazer? E como se existisse algo de mágico, um saber sobre o grupo que é imaginado e não ocorre na prática.

FÓRUM - ASSEMBLÉIA - GRUPO. O fórum acontecia no PUP, no momento da internação. A assembléia nas enfermarias de média permanência. E o grupo? Em algum outro lugar, as vezes no PUP, com caráter de decisão sobre a internação, as vezes no auditório ou em alguma outra sala ou enfermaria.

Os atendimentos em grupos de pacientes, egressos e internos, continuavam ocorrendo no H.G.V., mas era. difícil relatar como se realizava o grupo, o que o tomava um instrumento terapêutico. Não havia apenas uma razão que pudesse definir o grupo, mas quem sabe razões ou des-razões...
33

Perguntava-me o que terá instituído estes grupos? Em um de nossos encontros uma assistente social nos disse: - Às vezes é preciso ouvir os pacientes com seu próprio enquadre, tal como ele faz, e não coloca-lo em nosso enquadre.O hospital psiquiátrico é feito para a internação. O paciente não sabe o que e terapia, este é um enquadre nosso de técnico.

Continuava no ar a indagação de ‘como funciona um grupo’.Ora, bem sabemos ou não sabemos (sic?) o que é estar em grupo.Os que participavam do G.O. também sabiam... Desde sempre tivemos experiências com grupos. Seja nas nossas reuniões de trabalho, nas familiares, nos grupos de amigos e tantas outras que já experenciamos.

Entretanto a função que nos demandava era a de técnica, a do saber sobre o grupo. Lembro-me de uma vez um comentário que o Célio Garcia fez, sobre esta demanda que ocorria no nosso trabalho. Ele relatou:-Não vamos recusar esta demanda... vamos considerar esta demanda como sendo simplesmente um dos aspecto dos discurso que chega até nós. Além da demanda que faz de nós (psicólogos ou médicos) especialistas ou técnicos, vamos detectar outra fala. Esta tem a ver com o Desejo. Ainda neste mesmo comentário, o Célio nos lembra: -A demanda que eles trazem representa o discurso de onde temos que partir, cabendo a nós o lugar de’ detentores de um suposto saber ‘Verdade que não acreditamos que existia este suposto saber sobre os grupos, nem sabemos como operar com os grupos... no sentido que não há operacionalização em se tratando de grupos. E foi por esta trilha que tentei caminhar, vendo o grupo como um dispositivo analítico, por onde perpassaram os desejos, a dimensão política, a institucional. Essencialmente ocupei o lugar da escuta. Ali onde o próprio trabalho com grupo foi um analisador, enquanto revelou as fraturas profissionais, ou as lutas entre as diferentes camadas de profissionais de saúde (médicos x atendentes, médicos x psicólogos, médicos e para-médicos.) Fraturas que, muitas vezes, apareceram como uma diferenciação de racionalidades científicas (psicanalistas, organistas, fenomenológicas e outras). O grupo foi também o lugar onde me sentia levada a pensar nos meus referenciais teóricos e práticos: Análise institucional.

34
a Psicanálise, o Grupo operativo, e a minha prática enquanto professora da UFMG.

E o que fica? Aqui, re-cortes daquela experiência.


OBS: Foram utilizados para consultas documentos internos do H.G.V., correspondência do Dr. Célio Garcia ao Dr. Armando Bauleo (Itália): 'texto sobre Supervisão e Formação em Instituições Públicas de Osvaldo Saidon e anotações pessoais.

35


TRANSVERSOS DO SOCIAL E ALQUIMIAS DA PRÁTICA

EM PSICOSSOCIOLOGIA 1 .

Marília Novais da Mata Machado*
Esta á a segunda vez que venho a Ribeirão Preto como membro da equipe de Psicologia Social da UFMG. Aproximadamente há quinze anos atrás, juntamente com outros colegas, que relatamos o que vínhamos fazendo em Belo Horizonte. Naquela ocasião veio também Célio Garcia., o chefe do grupo de Psicologia Social, em torno de quem alunos, jovens auxiliares de ensino e professores horistas se reuniram a partir de 1965, formando uma equipe interdisciplinar bastante dinâmica. O grupo participava ativamente não apenas de atividades de magistério, como também atendia a encomendas de trabalho junto à comunidade externa à universidade.

Inicialmente nos cursos de Ciências Sociais e Psicologia, a equipe trabalhava em sala de aula ensinando, traduzindo e escrevendo texto montando repetições de experimentos de Psicologia Social já consagrados nos Estados Unidos e na Argentina, construindo escalas para medida de atitudes, fazendo análises da conteúdo, realizando treinamentos mentais, sessões de psicodrama e dinâmica de grupo.

Programas de curso, de aproximadamente um ano e meio, costumavam iniciar-se com uma parte de prática (laboratório, construção de escalas de atitude, análise do conteúdo de material qualitativo) passavam por uma parte teórica (história da Psicologia Social; Psicologia Social e personalidade -­incluindo a tese freudiana,' metodologia - incluindo análise multivariacional e perspectiva estruturalista) e desembocavam na apresentação de trabalhos extra-classe realizados durante o ano de estudos. À medida que os cursos prosseguiam, alunos especialmente interessados na matéria integravam-se à equipe do setor de Psicologia Social. Pouco a pouco, diferentes cursos da UFMG solicitaram também nossos trabalhos: Pedagogia, Odontologia e outros.

Aos sábados a equipe toda se reunia; trocávamos nossas leituras, estudos, relatos de pesquisa e, sobretudo, repartíamo-nos em equipes pequenas de trabalho para atendimento de demandas do mercado, Realizávamos, na época, intervenções psicossociológicas, seminários de formação e sensibilização, dinâmica de grupo, pesquisas de opinião e atitudes, levantamentos. O andamento de cada sub-equipe era checado nas reuniões semanais, Nossos clientes eram empresas, hospitais, congregações religiosas, escolas,

36

bancos, penitenciárias e organizações governamentais de saúde, Tal como no forno dos alquimistas, trabalho e estudo, teoria e prática eram reunidos.



Tínhamos uma pequena renda advinda dos trabalhos: parte do que cada um recebia ficava em conta conjunta. Além disso, tínhamos convênio com a Embaixada. Francesa através do qual obtínhamos livro, financiamento da vinda de um professor francês por ano e ida para França de um bolsista por ano. Desta forma, aprendemos muito com Max Pagês, André Levy , Roger e Georges Lapassade. A venda de cursos, estágios de treinamento e apostilas destes conhecidos professores alimentava nossa conta bancária que, por sua vez, pagava serviços de secretaria, monitoria e outros.
O grupo era, do ponto de vista financeiro, quase autônomo. Do ponto de vista de organização, embora centralizado em torno de Célio Garcia, balançava entre tentativas de organização burocratizada e manutenção de uma estrutura permissiva. Sempre ficou ligado ao Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia.
Em 1987, o chamado Setor de Psicologia Social, "com experiência de prestação de serviços, fundou o CEPSA (Centro de Psicologia Social Aplicada), dedicado a pesquisa e aplicação; as atividades de magistério, que teriam ficado ligadas apenas ao setor, continuaram entretanto a atravessar as atividades práticas; organização era informal, não- estruturada.
Em 1968 houve uma tentativa de formalização/estruturação com a fundação do Centro de Pesquisas em Ciências Sociais. Tal centro aparece também, nos documentos, com os nomes de Centro de Pesquisa em Psicologia e Sociologia e Centro de pesquisas Psicossociológicas. Ele representou quase que a partição teoria/prática. Ganhou estatuto e pereceu. Resultaram dele uma autorização do Diretor da FAFI, Pedro Bessa, para aceitar propostas de serviços, o que já vinha sendo feito informalmente, lembranças das acaloradas reuniões em uma fazenda na Serra do Cipó e o projeto de um Mestrado em Psicologia Social e Sociologia.
Tudo Isso foi uma experiência que deu certo, enquanto durou. Da mesma forma que, como hoje, analiso minha relação com a instituição que foi aquele grupo, outras cem pessoas poderiam fazer o mesmo, de forma diferentes. Estão agora nas universidades brasileiras e estrangeiras lecionando diversos cursos, estão servindo nas secretarias do governo estadual, nos órgãos federais, nas burocracias em geral e na prática psicanalítica; estão treinadas, profissionalizadas. Foi este o objetivo.
O CEPSA também morreu. O Setor de Psicologia Social,

37


entretanto, como o alquimista que aquece, cozinha , esfria e reaquece a sua matéria meses e anos a fio, continuou seu trabalho de transformação e criação, ora se decompondo, ora se reconstituindo .
As divisões sociais atravessaram aquele grupo, como de resto, atravessam qualquer outro. Por exemplo, apareceram hierarquias formais e informais e as tarefas eram distribuídas segundo sexo, antiguidade e posição no grupo.

As decisões tomadas dentro da equipe eram às vezes livres, em grande parte autoritárias.


Os homens eram os chefes das mini-equipes; eram possessivos ciumentos com relação às mulheres. Elas, por sua vez, tinham suas estratégias femininas, entre as quais, esconder deles detalhes de trabalhos. Não tínhamos condições de analisar nossas diferenças, na época.
As hierarquias externas ao grupo também atravessavam nossos trabalhos. Por exemplo, foi montada uma equipe só-homens para atender a demanda da Escola da Preparação Cadetes do Ar, de Barbacena. A equipe, atuando dentro do modelo de grupo de sensibilização, tentou estabelecer na Escola a conhecida regra lewiniana: não há hierarquias no grupo. Imediatamente o superior da Escola de Cadetes telefonou para o Diretor da Faculdade perguntando o que aquela meninada estava fazendo lá e se era possível mandar um psicólogo. O diretor contornou a situação e a equipe prosseguiu sem maiores atropelos.
Naquela ocasião, nutríamo-nos dos trabalhos mudança Planejada norte-americanos, conduzidos pelos discípulos de Kurt Lewin e fomos também fortemente influenciados pela equipe francesa da ARIP. Usávamos ao mesmo tempo o referencial psicanalítico, tomado emprestado da ARIP, e dos trabalhos ingleses de Bion e Elliott Jaques. Célio Garcia, por sua vez, continuou sempre com sua prática de terapeuta psicanalista, o que refletiu bastante sobre o grupo.
Nossas relações com a Faculdade de Filosofia e, depois, com a FAFICH eram boas; éramos bem vistos. De uma pequena sala no segundo andar, mudamo-nos para um conjunto de salas com telefone no subsolo. Aí recebemos em 1968 a visita de Leon Festinges e outros norte-americanos. Mas foi ai também que fomos impedidos de trabalhar á noite devido à determinação do DOPS-MG, que considerava o subsolo um antro de subversivos e preferia ver trancada a área ao entardecer; ai também fomos informados que o diretor da FAFI havia sido cassado pelo governo militar e que a faculdade seria dirigida por um interventor.
O milagre brasileiro levou parte da equipe a se reunir, em 1972
38

em Paris. Acompanhamos curso e seminários de Michel Foucault, tivemos entrevistas com Robert Pagés, Michel Pêcheux. René Lourau e André Levy, jantamos na casa de Roger Lambert e visitamos os laboratórios da Sorbonne. Cruzamos com Pierre Weil, igualmente em visita a Paris. Pierre também lecionava psicologia social na UFMG. Ensinara-nos o psicodrama analítico; com ele enveredamo-nos no campo do desenvolvimento organizacional.

George lapassade veio em modelos de 1972, quando a repressão política, ou melhor, á Lola, como falávamos e escrevíamos, chegava perto.

Lapassade foi desagradável, inconveniente, chato, interessante, espaçoso e rico. Com ele, o grupo se treinou em socioanálise, apreendeu a análise institucional, trabalhou demais e efetivou a sua partição: brancos e pretos. Branca, a elite que ia estudar em Paris, detinha a conta bancaria, as chefias e decidia as diferentes questões. Preta a ralé instituinte que passava a se autogestionar, visitava os terreiros de macumba e levava a autogestão á Universidade Católica, FUMEC, DA-FAFICH, DCE, escolas, centros, hospitais e cursos. Pretos também os

homossexuais que se liberavam.

O grupo de Psicologia Social se separou em dois grupos. Para o alquimista, a essência de sua arte está justamente na separação e na solução, na composição e na solidificação. Em um estado Inicial, as forças opostas estão em luta entre si, mas o alquimista pesquisa o processo para chegar á unidade dos elementos. O ouro alquímico do estado final só será obtido após prévia deterioração.


Assim, transformamo-nos em opostos: brancos e pretos, sol e lua, corpo e alma, consciente e inconsciente, luz e sombra.

Ao ver nosso laboratório experimental dividido um espelho de visão unilateral, George lapassade berrou: coisa de polícia. Os artefatos do laboratório estão hoje no Museu da Psicologia Social.

Lapassade acusou-nos de auto-repressão. como bom analista institucional, provocou-nos. Fazendo de conta que não sabia por que estávamos reunidos em uma casa discreta, longe da universidade, perguntou-nos por que não íamos juntos levar a análise até a favela. Silêncio. Dentro do Departamento de Psicologia e na FAFICH Já éramos discriminados. O Departamento de Sociologia pedira-nos as salas do subsolo. Acomodamo-nos no quinto andar Lapassade gostou muito, pois o banheiro tinha o mesmo número do banheiro de Montreal, onde ele realizara uma análise alvoroçante.
39

Como os primeiros alquimistas, estávamos marcados e, como eles, formos maltratados, Alguns mestres da ciência alquímica foram assediados pelos monarcas, presos, torturados e executados. Algumas de nossas casas passaram a ser vigiadas pela polícia, outras revistadas, alguns de nós éramos chamados para depor nos órgãos policiais, éramos investigados. Sobre mim pesou uma desagradável e morosa investigação policial que quase envolveu parte da equipe de psicologia Social. Queriam saber quem me enviara documentação sobre grupos clandestinos no Brasil. Eu mesma o fizera, de Paris. Finalmente, descobrimos que aos sábados sentava-se conosco, em nossas reuniões, o informante policial que já fora um amigo nosso. Idalísio morreu no Araguaia, Edna entrou na clandestinidade e Hélvia fez de sua vida uma fuga constante da polícia,

Lapassade nos ajudou a ver que a Reforma Universitária proposta pelo governo em 1968, .embora sob forma de Decreto-lei, era deselitizante e criava uma universidade mais democrática do que fora até então. Analisamos juntos o projeto governamental. Alguns dos membros do grupo de Psicologia Social já vinham trabalhando nas equipes do ICB (instituto de Ciências Biológicas) e da Escola de Medicina que implantavam na UFMG a Reforma Universitária. Nos anos que se seguiram o pessoal da Psicologia Social colaborou intensamente com as equipes de implantação da Reforma nas Escolas de Biblioteconomia e Veterinária, na Faculdade de Direito e no ICEX (Instituto de Ciências Exatas). Faziam diagnósticos da situação de ensino, participavam da formulação de projetos, auxiliavam nas mudanças planejadas.
O setor de Psicologia Social passou assim a ter contatos diretos com a administração central da universidade, o que lhe permitiu contornar os embates vindos da Departamento de Psicologia. Para trabalharem nos NAPs (Núcleos de Assessoramento Pedagógico), que implantavam a reforma universitária, os professores de Psicologia Social conquistaram o Regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva, pedido anualmente e negado sistematicamente pela Câmara Departamental.

O Departamento cada vez mais tentava controlar as atividades do setor de Social, já então considerado sumariamente subversivo. Tirou-nos do quinto andar e nos colocou no segundo, junto à administração, numa enorme sala de porta de vidro. Desfilávamos diariamente pelo corredor do Departamento e nos encontrávamos naquela vitrine abarrotada de arquivos, armários e mesas, brancos e pretos a se trombarem, sem a menor condição de trabalho. Muitas brigas ocorreram dentro do grupo. Era difícil conciliar os opostos, ainda sem re-união.

40

Leon Festinger deixara-nos contatos com a Ford Foundation e ainda tínhamos o convênio com a Embaixada Francesa. Ao Departamento de Psicologia não interessou a vinda de Michel Foucault. O convênio foi emprestado ao Departamento de Filosofia, que trouxe Foucault ao Brasil. Usando os dois canais - Ford e Embaixada Francesa - seis brancos saíram



concomitantemente para cursos no exterior: Bélgica, França e Estados Unidos. Ao mesmo tempo, voltava o primeiro bolsista do convênio com a Embaixada Francesa, Júlio.

Os que ficaram tiveram que enfrentar batalhas homéricas, não apenas com a censura política, mas também com o Departamento de Psicologia e diretorias da FAFICH. Foram chamados de melancia - Verde por fora e vermelha por dentro. O jeito foi beber ainda mais, fumar quando possível e pirar.

Mesmo assim, os trabalhos nos NAPs prosseguiram bem, o Curso de Psicologia fez uma bela reforma curricular, com grande participação das melancias. Os setores do Departamento, incluindo o Setor de Psicologia Social, foram reconhecidos para fins administrativos. Assim, o grupo se segurou, conquistou novas acomodações fora do prédio principal da FAFICH e sobreviveu. Ainda recebia demandas de pesquisa, mais não mais de intervenções psicológicas e dinâmica de grupo. O Departamento pouco a pouco cortou as monitorias e cortou colaboradores, sem permitir substituições. Célio Garcia discretamente, após um ano nos Estados Unidos, moveu-se, para o Departamento de Filosofia, que o recebeu de braços abertos. Legou-nos uma biblioteca . Paulinho e Antônio Augusto foram para o Departamento de Sociologia. Rosa e Maria Emilia decidiram ficar na França. José Renato e eu recebemos carta ordenando-nos que voltássemos.

A abertura política encontrou um Setor de Psicologia Social resistente, ecológico, analítico, parcialmente macrobiótico, entendido em psicologia comunitária, mas muito reduzido. O espaço no magistério foi aumentado, graças ao novo currículo e ao bom afinamento com o corpo estudantil. A maioria dos professores era de colaboradores. As demandas do mercado de trabalho quase desapareceram: não aceitamos mais encomendas de dinâmica de grupo nos moldes de ajustamento e adaptação e a poucos interessava a socioanálise. As salas do setor, na época, abrigaram então um curso de gafieira.

Em 1980, graças ás conquistas da greve da professores universitários, os colaboradores entraram para o quadro permanente da Universidade. Apenas menos um problema. O
41

Departamento de Psicologia continuou sua murrinha de perseguição. A Câmara fez que não entendeu por que Bete participou de confecção de livros didáticos para comunidades rurais. Pararam-lhe um processo porque não se continham de rir quando liam os títulos dos livros (O Milho. O Feijão, o Arroz. A Mandioca), condizentes com o cotidiano das comunidades.

Porém; algumas teses foram defendidas e mais gente saiu para doutoramento fora. Os que ficavam davam aulas e mais aulas. Desapareceu a inspiração (e o tempo) para pesquisar. Romu decidiu sair e dedicar-se inteiramente à macrobiótica. Quatro anos depois ainda não conseguimos substituí-lo. Desapareceram giz e apagadores das salas de aula - concretamente. Começaram a faltar carteiras para todos os estudantes.

Internamente o Setor de Psicologia Social passou a se autogestionar. As chefias eram mensais, decididas por sorteio e tinham a finalidade apenas de lidar formalmente com o Departamento. Mesmo assim concedemo-nos um secretário, conseguindo junto à diretoria da FAFICH. O Departamento protestou (eles não tem direito... São apenas um setor... Se todo setor quisesse... Os argumentos são sempre legalistas).

Mudou o diretor, o outro tirou-nos o secretário, mandou-nos avisar que a água do nosso prédio estava contaminada, tirou.nos uma sala, tirou-nos o acesso ao telefone e ao banheiro, tirou-nos a limpeza é se empenhou em regularizar a situação de Maria Emilia, que teve Que exonerar às vésperas de defender - brilhantemente, nas palavras do Prof. André Levy – a sua tese de doutoramento na França. Não tem importância, sabemos varrer, queimar lixo, para que servem telefone, banheiro, papel, borracha, lápis, giz. apagador e cursos no exterior? Finalmente, o diretor “permitiu·nos" mudar. Estamos mudando para dentro do prédio, irmã e civilizadamente, próximos aos colegas da Psicologia, decentemente instalados. Mas, nesse intervalo, o Departamento se partiu. Surgiu uma coisa que se quis chamar Departamento de Estudos Dialéticos.

Descobrimo-nos também dialéticos, matamos o setor, particularizamo-nos; dissolvidos, vivemos novamente os opostos; quem quis levantou sua bandeira branca para os estudos dialéticos, juntou-se a eles, com eles bolou outra coisa chamada Departamento de Psicanálise e psicossociologia.

Estamos batalhando novamente, voltamos a escrever, pesquisar, gentes voltaram de estudos fora, mais gente saiu para estudar, apareceram muitas demandas por intervenção, socioanálise e grupo operativo, embora ainda sem grandes
42

remunerações; fundamos uma revista, iniciamos um internato rural e uma de nós, conquistou a chefia do Departamento de psicologia, acreditem. E isso, sem água, telefone, nem banheiro.


Ecologicamente discutimos a vinda a Ribeirão Preto no sítio que Júlio tem nos Macacos. Levamos as crianças e os meninos infernizaram o Passeio das meninas. Para matar saudades, bebi muito ficamos sem decidir se, em Minas Gerais, é o milho ou feijão o mais importante, se, na, terra o vegetal ou o mineral. Mas abandonamos as comparações e cá estamos.




43

HISTÓRIA SOCIAL E LEITURA DE PROCESSOS DE GRUPO

Regina Helena de Freiras campos *
A questão da relação entre o estudo da História Social e a leitura dos processos de grupo pode ser colocada a partir da famosa terceira tese de Marx sobre Feuerbach, aquela que diz que os homens, que são constituídos em e por circunstâncias históricas concretas, são os mesmos que transformam estas mesmas circunstâncias, A contradição, expressa por esta tese, tem estado presente e tem sido pensada de maneiras diversas nos estudos que lidam coma interpretação de ideologia e da cultura.

Duas tendências podem ser acompanhadas neste tipo de estudo: a que privilegia a ação dos homens enquanto determinada pelas estruturas sociais e econômicas, e a que enfatiza o papel dos sujeitos como produtores ativos de sua própria história. Penso que a tarefa de deslindar o sentido das praticas culturais que constituem parte significativa da experiência dos grupos sociais dificilmente pode ser satisfatoriamente encaminhada sem o recurso á história social destes grupos.

Em minha experiência como historiadora da psicologia, e em minha experiência de intervenção psicossociológica na escola, pude observar, em diferentes momentos, a maneira como o estudo da história dos grupos com os quais se trabalha ilumina a compreensão do sentido de suas práticas. É através deste estudo que se pode compreender a trajetória do grupo em relação à dinâmica da contradição instituído-instituinte apontada por Marx.

Estudando as condições sócio-econômicas e culturais que determinaram a entrada em cena da Psicologia Educacional como disciplina científica e foco de preocupação de educadores, em Minas Gerais, nos anos 20 e 30, impressionou-me a poderosa articulação então montada entre interesses de classe, aparelho de estado e constituição de espaço para o desenvolvimento daquela área de conhecimento.

Com efeito, as demandas pelo trabalho de psicólogos no Estado, naquele período se deveram basicamente à conjugação de fatores ligados à expansão do sistema público de ensino primário - ideal das massas populares recém-urbanizadas e das elites políticas interessadas na implantação de seu projeto industrial - e aos problemas que esta expansão gerava .

* Professora Adjunto do Departamento de Psicologia - UFMG

44
Problemas de aprendizagem nas camadas populares então admitidas no interior do sistema escolar, problemas de descontinuidade entre sua experiência da socialização primário na família e a experiência de socialização secundária na escola, problemas políticos ligados legitimação da seletividade do sistema escolar.

A Psicologia Educacional, ao elaborar os conceitos de inteligência e aptidão como atributos naturais, hereditários, e ao trabalhar com os problemas de aprendizagem dentro da dicotomia normal excepcional, constituiu-se rapidamente em forte instrumento de legitimação para a ideologia sobre a qual se estruturava a escola pública: oportunidades iguais para todos/ a cada um conforme suas próprias habilidades e dons. A transparência desta ideologia para os grupos sociais envolvidos no processo histórico então em curso tornava-se possível na medida em que as estruturas institucionais então montadas passaram efetivamente a produzir as chamadas diferenças individuais, que os psicólogos eram chamados a registrar.

Entretanto, logo a hipótese da hereditariedade seria questionada, e a hipótese da determinação predominante do ambiente sobre as possibilidades do sujeito começaria a se afirmar nas discussões dos psicólogos. A própria Helena Antipoff, responsável pela Introdução da Psicologia Educacional nas escolas públicas mineiras, e pela formação de toda uma geração de educadores preocupados com a aplicação da Psicologia à escola observou que a inteligência está longe de representar uma entidade sui-generis, independente do meio em que a criança se forma, independente da instrução e da educação (muito pelo contrário). (Antipoff; 1937). Entretanto, apesar do fato de a controvérsia hereditariedade/meio ter continuado a se desenvolver nos meios acadêmicos e científicos, o dispositivo seletivo e excludente da escola... pública mineira. continuava a' Ser construído, e além

Do mais referendado pela vulgarização da Psicologia. Há certas características estruturais do sistema público de ensino que decorrem quase que diretamente da ideologia dos dons e aptidões tidos como naturais, como por exemplo: a homogeneização das classes por nível intelectual, a ênfase no trabalho individual, a organização de Sub-grupos dentro da sala de aula por critérios derivados do êxito acadêmico.

Voltei a me encontrar com esta problemática ao orientar o trabalhada alunos em uma escola pública. da periferia de Belo Horizonte. A escola se situava na divisa entre um bairro de classe média baixa e uma favela, recebendo, assim, crianças provenientes dos dois mundos. Fomos chamados a trabalhar na escola porque as crianças de 1o ano apresentavam um índice de repetência da ordem de 70 % . Para o pessoal da escola

45
(supervisora e professoras), estávamos diante de uma população constituída em 70% por crianças excepcionais, necessitadas de cuidados de psicólogos. Verificamos rapidamente que a maior parte das crianças que apresentavam problemas de aprendizagem provinham das famílias de nível sócio econômico mais precário e que não precisavam propriamente de bons psicólogos, mas de bons professores, sensíveis à problemática da descontinuidade entre socialização primária e secundária. Diante desta situação no entanto, chamava a atenção o fato de que, por' mais esforços que fizéssemos para mudar o registro da discussão, da argumentação psicologizante - falta de prontidão para a alfabetização, problemas psicomotores, falta de concentração ­para uma perspectiva sócio psicológica, a argumentação do grupo-cliente era sempre calcada naquilo que um de nossos alunos chamou de registro de separação. A instituição escolar que conhecemos só opera por uma lógica: separar os bons dos maus, os inteligentes dos nem tanto; os bem comportados dos irriquietos, pois este é o seu papel na sociedade.

Cabe aqui, todavia, outra ressalva. A mesma surpresa que tive ao ver que Helena Antipoff, chamada a justificar e a referendar urna reforma de ensino que tinha tudo a ver com um projeto Político de instauração de uma certa divisão social do trabalho, projeto claramente explicitado na fala de seu criador Francisco Campos, questionava o pressupostos da hereditariedade , a mesma surpresa eu tive ao escutar de um grupo de especialistas da secretaria de educação observações como as seguintes: professoras alfabetizadoras? Mas como? Quando fui professora (final dos anos 60) dei aulas para crianças de favelas e todos meus alunos se alfabetizavam durante o primeiro ano! Esta fala se referia à recente preocupação dos especialistas educacionais do Estado, com a busca das professoras que se revelam capazes da proeza de alfabetizar as crianças, em um sistema que opera com taxas de repetência no 1o ano da ordem de 50 a 70%. E elas me levavam cartas de alunos seus, guardadas com o maior carinho, para comprovar a afirmação. Outras me diziam: Eu queria­ mesmo era estar na sala de aula, na regência de Classe, expressando suas frustração em participar de um sistema que progressivamente implantou uma rígida divisão do trabalho interna entre as funções de planejamento e de execução do trabalho docente, por meio inclusive de nítida distinção salarial entre o grupo de especialistas e o de professoras primárias. Assim, mesmo querendo, estas professoras não podem voltar á sala de aula. Por que? Ah, perderíamos a complementação de especialistas.

Assim fui procurando entender o jogo de contradições que veio constituindo a escola pública mineira ao longo de sua

46

história, e que constitui na mesma medida o discurso, a ideologia e as práticas daqueles que a constroem e reproduzem no cotidiano. Um jogo que supõe as categorias da hegemonia e da contra-hegemonia da dominação e da resistência. Sem que possamos distinguir com segurança.o momento da reprodução e o momento da transformação sem recorrer à história: história das ideologias e das práticas que nela se fazem e se expressam, história dos grupos sociais que a construíram tal como a. conhecemos, história dos projetos e das utopias que estes grupos produziram e vêm produzindo, em sua relação com suas condições de existência concretas.


Desta maneira fui me aproximando do estudo da história social para compreender os grupos com os quais venho trabalhando. E fui também me aproximando da 11a tese sobre Feuerbach, aquela que diz\que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transforma-lo (Marx 1979).
BIBLIOGRAFIA
Antipoff, Helena. O Desenvolvimento Mental das Crianças de Belo Horizonte. Revista de Ensino 134-136, Belo Horizonte, jan./mar 1937.
Campos, Regina H.F. Psicologia Ideologia: um estudo da formação da Psicologia Educacional em Minas Gerais. FAE/UFMG. Belo Horizonte, 1980 mimeo.
Marx, K. & Engels, F. A Ideologia Alemã. Liv. Ed. Ciências Humanas, São Paulo, 1979.
Novais, Maria Eliane. Professora primária: mestra ou tia. Cortes: autores Associados, São Paulo, 1984.
47

OS AUDIOVISUAIS



Marcos Vieira Silva

A programação de nosso Encontro contou com um item especial: a apresentação de audiovisuais e de um filme, que mostraram temáticas pertinentes à Psicologia Social.


A seguir apresentamos um pequeno relato desses trabalhos.
Audiovisual - "MODELO DE MULHER: O MITO DE NOSSA SENHORA"
Realizado no Centro de Audiovisual da UFMG, por Maria Nazaré Dias Paes Leme Pinheiro Moreira, o audiovisual "Modelo de Mulher: o Mito de Nossa Senhora" é parte de uma pesquisa em andamento, realizada na Arquidiocese de Belo Horizonte. Aborda a questão de Nossa Senhora enquanto fantasia coletiva sobre o feminino, representação simbólica construída historicamente e propõe uma reflexão sobre a relação entre esse mito e a organização social, política e econômica, bem como a internalização do papel feminino através da ideologia religiosa.

Audiovisual - UNIVERSIDADE: PARA QUÊ? PARA QUEM?

Uma produção coletiva dos professores Marcos Vieira Silva e Antonio Aurélio O. Costa e alunas Dehonara de A. Silveira, Luciana S. Gontijo. Mônica M. Nachado F. Dias e Rosângela N. Maciel realizando a partir da experiência de trabalho desenvolvida no curso de Serviço Social da PUC/MG, onde os alunos do 3° período desenvolvem um projeto de pesquisa internação durante o semestre letivo, o projeto é desenvolvido em comunidades ou instituições, de forma interdisciplinar, acompanhado pelos professores de todas as disciplinas e tem como eixo central o tema: Estratégias de sobrevivências das classes populares .

O audiovisual foi produzido Com objetivo de fundamentar o projeto do trabalho, e através das imagens, músicas e pensamentos de vários autores, pretende colocar em discussão a relação Universidade - Sociedade.

48

.


A quem serve a Universidade? Quem tem se beneficiado com os conhecimentos que ela produz? Qual tem sido a preocupação dos professores e pesquisadores universitários com as chamadas classes populares? Os profissionais que estão sendo formados na Universidade estão preocupados com as finalidades do conhecimento que produzem?
Filme - O ROSTO DO ABANDONO
Documentário Super 8, rodado na Colônia de hansenianos São Francisco e Assis, em Bambuí/MG. Foi realizado pelos professores, Antônio Aurélio O Costa, Marcos Vieira Silva, Maria Clara Gallupo Viana e Maria Cristina S. Magalhães e por um grupo de 18 alunos do curso de Serviço Social da PUC/MG. E um dos projetos de trabalho Interdisciplinar desenvolvidos, no 3° período do curso. Discute a questão da Hanseníase como doença social, retrata a condição de vida dos internos é propõe um estágio interdisciplinar na área.

O filme retrata com bastante clareza os efeitos da internação na instituição total e os próprios internos apresentam depoimentos importante sobre suas história de vida e apresentam reivindicações de um melhor tratamento por parte do Estado e de um melhor atendimento por parte de profissionais mais bem treinados e comprometidos com seu trabalho.

Após a exibição do filme e dos audiovisuais foram realizados debates em torno das questões surgidas. As possibilidades de atuação da Psicologia foram bastante discutidas, principalmente no que diz respeito á perspectiva de que os estágios e trabalhos dos alunos dos cursos de psicologia sejam desenvolvidos através de projetos que possibilitem a prestação de serviços á comunidade e a pesquisa deixando simplesmente trabalhos para cumprir créditos e currículos importante salientar que vários projetos desenvolvidos pela Psicologia Social já vêm, há bastante tempo, se caracterizando desta forma, e os resultados têm sido muito interessantes.

Acreditamos que a experiência de exibição de filmes e audiovisuais num Encontro como o nosso foi bastante positiva e, certamente, voltará a acontecer.


49
DEBATE: PSICOLOGIA SOCIAL E EDUCAÇÃO
Coordenadora: Regina Helena de Freitas Campos FAFICH/UFMG Expositores: Carlos Henrique de Souza Gerken – Prefeitura Municipal de Ibirité.

Elza Maria Cataldo – FAE/UFMG

O objetivo desta comunicação foi discutir as perspectivas de trabalho do psicólogo na escola, tendo em vista o contexto histórico no qual se desenvolveu, no Brasil, a demanda pelo trabalho deste profissional e as possibilidades que se apresentam hoje para sua atuação.

Para tanto, foram apresentados dois re/atos de trabalhos desenvolvidos na área:

- um relato da história da Educação Especial no Brasil, e sua articulação com o trabalho do profissional psicólogo:

- um relato de experiência de intervenção psicossociológica no sistema de ensino da Prefeitura do município de Ibirité - MG.

A seguir, serão descritas sumariamente as principais questões abordadas e discutidas nos dois relatos apresentados.

1. PERSPECTIVA HISTÓRICA:


Expositora: Elza Maria Cataldo

Uma vez que nosso objetivo aqui é discutir a inserção da Psicologia na área educacional, torna-se necessário partir de uma perspectiva histórica.

A educação especial tem se constituído, ao longo da história da educação brasileira, ao mesmo tempo em espaço reservado aqueles que não conseguem viver ou sobreviver dentro de uma escola regular e em espaço reservado aos profissionais encarregados de explicar e resolver a questão do fracasso escolar: os psicólogos.

Ao seguir a trajetória da educação especial, Procuramos analisar principalmente a questão da integração das crianças com dificuldades de aprendizagem dentro das estruturas educacionais regulares.

50
Procuramos detectar o surgimento do conceito de Integração dentro dos primeiros movimentos em favor da criação de serviços de atendimento ao excepcional, e as transformações deste conceito em cada momento histórico específico.

As diversas representações da integração foram concretizadas em medidas administrativas e em propostas de ação que foram construindo estruturas institucionais específicas para lidar com o problema.

Constatamos que a história da educação especial no Brasil coincide com a história da marginalização e da exclusão das crianças com as dificuldades de aprendizagem da escola pública regular, e com a sucessão de tentativas - muitas vezes contraditórias - de reintegrá-las ás salas de aula normais.

Constatamos também que o psicólogo - profissional responsável pelo diagnostico e encaminhamento das crianças "problema" ­atuou predominantemente como elemento de preservação e de legitimação dos mecanismos de marginalização acionados pelas diferentes políticas de educação especial.

Este trabalho sugere que o psicólogo redimensione a sua atuação, contribuindo não só para identificar e encaminhar as crianças com dificuldades, mas também. participando efetivamente do planejamento, discussão e implementação do processo de ensino - aprendizagem no âmbito da escola regular.

2. PERSPECTIVAS DE TRABALHO NO ATUAL SISTEMA DE ENSINO PÚBLICO BRASIlEIRO - RELATO DE EXPERIÊNCIA :


Expositor:Carlos Henrique de Souza Gerken
Esta exposição foi dedicada ao relato de trabalho desenvolvido nas escolas da rede municipal de ensino do município de Ibirité.

Desde 1983, a Prefeitura Municipal de Ibirité, através do Departamento de Educação, tem desenvolvido ações no sentido de construir uma prática pedagógica, nas escolas da rede municipal, que corresponda aos interesses e às demandas de escolarização formuladas pelos diferentes setores da classe trabalhadora.

Tendo este objetivo em mente, procuramos, em um primeiro momento, apreender a realidade do trabalho do professor e as suas referências para o desenvolvimento das, atividades em sala de aula quanto a objetivos, conteúdos e recursos utilizados para dinamizar o processo de ensino.

51

Constatamos logo a urgência de se problematizar a prática do professor, a fim de reverter os efeitos impostos pela fragmentação e empobrecimento do saber transmitidos.



Decidimos então elaborar propostas de trabalho que partissem do saber do professor, para transformar a realidade na escola.

Estávamos conscientes de que, apesar da fragmentação e empobrecimento dos conteúdos transmitidos, é o professor que integra em sua ação cotidiana uma compreensão da vida da criança, da comunidade e do processo de ensino­ aprendizagem, fatores que são determinantes do processo de escolarização.

Depois de dois anos de investimentos sistemáticos na problematização da prática do professor e na instrumentalização dele para uma redefinição de sua prática, o Departamento deu início, no ano de 1985, a um esforço para organizar e sistematizar uma proposta de trabalho alternativa, começando pela alfabetização. O processo de apropriação da linguagem escrita constitui um dos elementos da terminantes das altas. taxas de repetência e evasão na escola fundamental.

Ao longo desta experiência, o psicólogo procurou atuar simultaneamente ao lado do supervisor da ensino no sentido de dinamizar o trabalho de reflexão. Esta atuação se deu basicamente em três níveis:

- problematização da prática: neste nível, procura-se discutir a prática educativa em curso, com objetivo de explicitar os conceitos e as regularidades concretas inerentes ao trabalho da escola, atuando ao nível da representação que os agentes pedagógicos produzem sobre o seu próprio trabalho e que determina a prática do planejamento dos conteúdos, as diferentes formas de enfrentamento dos conflitos que emergem na relação professor-aluno, na relação com a comunidade, etc.;

- informação: neste campo, procura-se instrumentalizar o professor em termos de conteúdo e metodologia, buscando dar suporte ao espaço grupal de descobrir alternativas pedagógicas capazes de produzir mudança qualitativas em sua prática;

- nível do grupo: nesta instância, procura-se intervir nos conflitos institucionais que obstam a realização do trabalho. Procura-se intervir no sentido de explicitar e compreender conflitos que emergem na relação de trabalho dos professores coordenadores, professores - técnicos, Departamento de Educação, relação escola-comunidade, etc.
Em relação ao processo de alfabetização, especificamente, foi proposto um trabalho junto ás professoras responsáveis pela regência de todas as turmas de 1° ano na rede municipal. O acompanhamento das professoras busca promover a reflexão

52
sobre três problemas que se articulam e se complementam, a saber:



  • o saber que a criança traz para a escola, construído a partir de sua inserção concreta na vida de seu grupo e classe social:

  • o objeto de conhecimento a linguagem escrita, a relação entre a fala, a leitura e a escrita, a questão dialetal, etc.

- o processo de transmissão/assimilação ou construção do conhecimento: aqui se busca refletir sobre as proposições concretas que o professor está implementando em sala de aula, a forma como ele representa a criança e intervem junto a ela, procurando a articulação destes itens com as teorias que os sustentam e justificam.

As estratégias de trabalho utilizadas nos grupos de trabalho são: - discussão da prática;

- leitura e discussão de textos;

- oficinas de trabalho para:

· elaboração de atividades para modificar e dinamizar o processo de ensino-aprendizagem;

· exercícios de problematização e compreensão da produção da criança.

Os resultados deste trabalho são visíveis uma vez que os professores se sentem mais seguros para propor alternativas de trabalho na escola, no sentido de criar espaços vivos de transmissão e construção de conhecimento significativos para os alunos.

Em levantamento feito no mas de outubro de 1985, verificou·se que as crianças estão apresentando um aproveitamento mais efetivo, além de o indica de problemas de aprendizagem ter decrescido de 50 a 60% para 20% na maior parte das turmas.

Deste 20% que apresentam problemas de aprendizagem, 80% são crianças que estão vivendo a sua primeira experiência escolar. Isto significa que os repetentes estão superando as suas dificuldades.

Esta experiência de trabalho demonstra com ênfase que o profissional psicólogo pode colaborar significativamente para a democratização da escola, se compreendermos como uma das dimensões da democratização a garantia de acesso ao saber proporcionada pela experiência escolar. O psicólogo pode atuar como profissional responsável pela elaboração de instrumentos de análise e de intervenção que possibilitem apreender, de forma dinâmica, os determinantes do fracasso escolar, a partir de um esforço de integrar em um só dispositivo de análise/intervenção a dimensão da escola enquanto instituição socialmente determinada, e o aluno enquanto sujeito concreto e ativo de seu processo de construção de conhecimento.

53
Nesta perspectiva. O psicólogo deixa da ocupar o lugar do diagnóstico e do tratamento da criança-problema para tornar sujeito fundamental na discussão e na busca de alternativas concretas para mobilização do processo ensino-aprendizagem .

54




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal