Anais do I encontro mineiro



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COMUNICAÇÕES

ROQUE SANTEIRO: O NOVELO, A NOVELA E A VERDADE EM QUESTÃO

Sérgio Augusto Chagas de Laia (1)
“ Je dis toujours la verité: pas toute, parce que toute la dire, on n'y arrive pas, La dire toute, c'est impossible, meterielllmente: les mots y manquent. C'est même par cet impossible que la verité tiente au réel” (J. LACAN) (2)
Gostaria de iniciar este texto a partir de urna citado de LACAN (1957) a propósito da cadeia de significantes e da linguagem: o que esta estrutura da escola significante descobre é a possibilidade que eu tenho, justamente na medida em que sua língua me é comum com a de outros sujeitos, isto é, em que esta língua existe e dela me sirvo para significar inteiramente outra coisa que aquilo que ela diz. Função mais digna de ser sublinhada na fala que aquela de mascarar o pensamento (0 mais frequentemente indefinível) do sujeito: a saber, aquela de indicar o lugar deste sujeito na busca do verdadeiro.

Se escolho esta citação é devido tanto a sua beleza e ao impacto de verdade que ela traz consigo, como pelo que pretendo tratar aqui, neste texto, sobre a linguagem e a verdade, usando como campo de trabalho a história de Roque Santeiro, que vem sendo levada ao ar, sob a forma de novela, pela Rede Globo de Televisão.

A história de Roque Santeiro se passa em Asa Branca, uma cidade povoada de tipos característicos do interior do Brasil ( o cego da igreja, as beatas fofoqueiras, o homem que vira lobisomem, etc.), com seus sotaques e costumes mineiros, paulistas, nordestinos, etc. Esta cidade vive do mito de Roque Santeiro: há dezessete anos atrás, ela foi Invadida por bandidos e bravamente defendida por Roque, até então um simples habitante da cidade. Durante a invasão, Navalhada e seus homens, aproveitando o esvaziamento da cidade, resolvem saquear também a igreja,. Após a invasão, os habitantes de Asa Branca encontram, perto do rio, o corpo de um

* Aluno da disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana Departamento de Psicologia - UFMG


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homem, sem cabeça e vestido com o gibão de Roque: defendendo a cidade, Roque acabara por ser cruelmente assassinado pelos bandidos. Algum tempo depois, Roque aparece a uma menina doente, na beira do rio, e diz para ela passar a lama do rio em seu corpo, a menina sara e a fama de Roque - agora Roque Santeiro - se espalha pelo Brasil. Asa Branca prospera à sombra da imagem de Roque Santeiro, é alvo de romarias e milagres diversos e até mesmo da produção de um filme sobre a vida de seu herói e agora santo; o pai de Roque se torna um beato - Beato Salu-, se isola numa casinha pobre às margens do rio e recebe caravanas de fiéis que vêm pedir sua benção e/ou agradecer as graças recebidas de seu filho. Dezessete anos depois da tragédia ocorrida com Roque, um homem chamado Luiz Roque Duarte aparece na cidade, com ele surge também o antigo ostensório de ouro que fora roubado pelo bandido Navalhada. A cidade entra em frenesi com o advento desse novo milagre, liderada pela beata Pombinha, mas para alguns de seus habitantes - o Padre Hipólito, o Coronel Sinhozinho Malta, a Viúva Porcina, o Prefeito Flor e o prospero comerciante José das Medalhas - este é o início de um enorme problema que pode detonar Asa Branca, pois Luis Roque Duarte é Roque Santeiro que, ao contrário da história que vinha sendo contada até então, aproveitou, há dezessete anos atrás a presença dos bandidos, roubou o ostensório e fugiu para Europa onde enriqueceu e, agora, retorna à cidade natal no intuito de pagar a dívida que contraiu com seu povo.

Há, assim, várias versões da história de Roque a partir de algo que terá ocorrido: a história contada pelos habitantes de Asa Branca {história oficial}, a história relatada pelo filme (que é o representante da representação oficial) e a história que Luiz Roque Duarte traz consigo; estas três versões se enovelam na história contada por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. O que amarra essas histórias? O que as articula? O que as faz. estarem presentes ao mesmo tempo, num mesmo lugar, uma (des)conhecendo a outra? A meu ver, é algo da ordem de uma verdade que as possibilita, isto é, elas se presentificam - ainda que para um certo processo secundário, consciente, isso se dê contraditoriamente: - porque têm, cada uma a seu modo, a busca do verdadeiro como caminho e, se são contadas diferentemente, é porque os sujeitos que as contam ocupam posições diferentes, neste contar e a língua existe para significar inteiramente outra coisa que aquilo que ela diz .

Diante disso, o que se pode extrair dessas histórias é algo da ordem do deslize do significante e da busca do verdadeiro, pois na passagem de Roque para Roque Santeiro para Luis Roque Duarte, significantes aparecem/desaparecem, modificando o sujeito em questão e visando dizer o que terá acontecido.

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A passagem de Roque para Roque Santeiro se encontra presente na história que os habitantes de Asa Branca contam. São eles que significam a representação oficial da história de Roque, a partir de um espaço vazio, isto é, a partir da descoberta de um corpo de um homem decepado, vestida com um gibão de Roque e o aparecimento de Roque - e a cura feita por ele - para a menina Lulu. Há, pois, a partir de espaços em branco, produção de um sentido que vai ser apresentado como uma verdade histórica, contada pelo povo de Asa Branca e do Brasil. Esse é um dos níveis que podemos ver operar o que LÉVI·STRAUSS (1958) chamou de eficácia simbólica. Esta pode ser vista também nos próprios efeitos do mito de Roque Santeiro. LÉVI·STRAUSS (1958) nos diz que são necessário três elementos para que a magia tenha uma eficácia: a crença no feiticeiro na sua técnica, as exigências de uma comunidade e a crença do doente (ou da vitima) no poder do feiticeiro; na história de Roque Santeiro, encontramos esses três elementos: Asa Branca é uma cidade que vive á sombra da imagem e dos milagres feitos por Roque Santeiro e tanto fiéis da cidade como os romeiros cultuam, creem e demandam os poderes desse homem santo. São esquecidos, então, certos acontecimentos que sobram, que não convêm muito à imagem de um santo: o casamento de Roque com Porcina concomitantemente ao seu namoro com Mocinha que D. Pombinha vai logo explicando que não devemos julgar Roque como os outros porque Roque era um homem diferente, além do nosso entendimento. Há, pois, todo um processo de cultualização, de invenção de certos pedaços mal contados da vida de Roque para que a imagem do santo permaneça. Quanto ao elemento referente á crença do feiticeiro na sua técnica, este não aparece encarnadamente na figura de Roque Santeiro, uma vez que Roque está morto e toda essa história se dá apesar dele, há, contudo personagens que - com maior ou menor intensidade - se posicionam como intermediários de Roque Santeiro: o Beato Salu, Pombinha, Mocinha, Padre Hipólito entre outros.

Assim, o que importa nessa história não é uma causa objetiva dos milagre, a realidade dos fatos acontecidos, mas a articulação sistêmica que ela imprime aos estados confusos e inorganizados das pessoas de Asa Branca frente ao horror da invasão e do encontro do corpo decepado, e dos romeiros que chegam à cidade, desesperados, demandando cura, prosperidade, agradecendo o que receberam, etc. É essa articulação quer possibilita a eficácia simbólica, o aparecimento dos milagre, o progresso da cidade, etc. Diante desses afeitos, da maneira pela qual cada habitante da cidade conta o que terá acontecido com Roque, o nome de Roque apenas já não basta, dai, a partir da profissão que o antigo e quase esquecido Roque desempenhava, acrescenta-se seu nome Santeiro e a cidade apaga de vez os outros nomes que designavam o seu herói (Luis, Roque, Duarte): é de um outro

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sujeito que se trata agora. Está construído o mito de Roque Santeiro.

A fama de Roque Santeiro faz com que um cineasta se interesse em fazer um filme sobre a vida desse santo brasileiro. A equipe de filmagem, artistas, diretor, etc. invadem Asa Branca com seus equipamentos e o roteiro do filme já delineado. Ao iniciarem as filmagens surge um problema com Porcina,, a viúva do falecido via uma certidão falsa forjada pelo amante Sinhozinho Malta, que exige ler o roteiro antes, para ver se aprova a filmagem da vida do seu marido. Após ler, a viúva exige o corte das cenas em que Mocinha aparece (temos aqui um outro ótimo exemplo de como a verdade histórica desempenha uma eficácia simbólica); o diretor acha absurdo tal ciúme, mas consente para que possa filmar em paz e, aproveitando certas brechas, certos descuidos da Viúva, grava as Cenas de Mocinha.

À medida em que o filme vai sendo rodado e a equipe vai entrando mais em contato com Asa Branca, um confronto aparece entre aquilo que o filme representa -a história que o filme conta - e os milagres de Asa Branca que se apresentam de uma forma multo mais complexa do que a retratada pelo filme. O diretor vive o drama da complexidade da realidade de Asa Branca e representação que seu filme pretende dar a ela, mas sem copiá-la. O filme surge, então, penso, como um representante da representação, uma tentativa de representar a representação que os habitantes de Asa Branca têm do que terá ocorrido. Nesta tentativa, elementos se deslocam e se condensam, fazendo surgir, a partir dos personagens da cidade, personagens outros: o Sinhozinho Malta do filme é por demais calmo em relação ao de Asa Branca, a atriz Linda Bastos faz, no filme, uma Porcina bem diferente da fogoza viúva do falecido, o Roque Santeiro do filme usa brinco e o bandido Navalhada é representado pelo delegado de polícia de Asa Branca. Assim, nesta história, outros personagens são construídos, outros sentidos aparecem e isso é possível em virtude de que o sujeito que conta essa história ocupa um lugar diferente em relação aos que contam a história oficial : O diretor do filme, e sua companhia, não são de Asa Branca, vêm de um outro mundo (metropolitano), com um outro discurso, uma outra maneira de dizer as coisas que terão se passado a se passam em Asa Branca. Meio a esses acontecimentos, surge, inesperadamente, Luis Roque Duarte e, com ele, uma outra história. O aparecimento desse novo personagem faz revelar o paradoxo contido na palavra sagrado que, como já havia notado FREUD (1939), se deriva de sacer que tem tanto o sentido corriqueiro que damos a sagrado - consagrado, bento, dos santos - como um sentido antitético a este - infame, detestável. Luis Roque Duarte revela esse paradoxo e põe em risco toda a história oficial e seus efeitos (os milagres, o progresso, etc.). Ao retornar a Asa Branca, ele vive todo um processo de

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deformação, pois não é o que terá sido até hoje : ele está vivo (o corpo morto é de um preso que agonizava na cadeia quando se deu invasão), roubou o ostensório e se enriqueceu com esta roubo; já não mais um rapaz simples, da roça, mas um homem elegante, fino, viajado. A partir desse processo de deformação, digo - ­utilizando uma terminologia freudiana – que Luis Roque Duarte (e agora é imprescindível nomeá-lo de uma outra maneira, é um outro sujeito que sé encontra em questão) pode ser visto como um delírio; assim, quando ele visita o Beato SaIu - que desde a morte do filho passa a investir numa vida religiosa - e lhe diz que é Roque e que está vivo, o Beato se desespera, não acredita e ao sair proclamando que foi visitado pelo demônio no corpo de seu santo filho, o Beato é tido como um louco e Internado: acho muito significativo que, para um beato, o aparecimento de um fragmento da verdade material, considerando o sistema discursivo dele, se dê sob a forma do demônio. Contudo, enquanto Luis Roque Duarte traz, com e no seu discurso, um passado, o material que ele traz pode ser chamado de verdade. Quando digo isso, quero apontar o caráter de verdade material presente no discurso e no aparecimento do corpo (vivo) de Luis Roque Duarte e que esta, quando aparece, imprime uma mudança na cadeia: já não se pode contar a história da mesma forma. Esta verdade, contudo, lá estava lá, no relato da história oficial, ainda que sofrendo um processo de ocultamento pela religião; aqui, vale a pena lembrar que a canção do cego Jeremias, o ABC de Roque Santeiro, diz que Roque Santeiro é UM HOMEM de baixo de um santo.

A questão que fica agora é: qual é a verdade nessa história toda revelada por Dias Gomes / Aguinaldo Silva? Creio que não são eles que, como eu poderão responder isso uma vez que o poder criativo de um autor não obedece à sua vontade: o trabalho avança como pode e com freqüência se apresenta a ele como algo independente ou até mesmo estranho (FREUD, 1939) Assim,os autores da novela têm, estruturalmente, o mesmo lugar dos personagens criados por eles: todos contam uma história e esta se desenrola apesar deles, em diversas versões a, enquanto tais, estas versões não são totalmente falsas ou totalmente verdadeiras, LÉVI-STRAUSS (1958) diria que todas as versões pertencem ao mito e, com isso, a partir do lugar que cada um ocupa; cada um significa o acontecimento de uma forma, como na historinha que LACAN (1957) nos conta da casa de irmãos dentro do trem. Diante disse, o que a meu ver a novela Roque Santeiro nos mostra - e talvez seja possivelmente por isso que ela foi proibida nos repressivos anos 70, que ela, atualmente, nos cause tanto impacto, nos faça tanto rir ­é que, como já disse FREUD (1939), aquilo que é provável não é necessariamente a verdade; e que a verdade nem sempre é provável.

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NOTAS:


1. Estudante do curso de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais; texto adotado na cadeira de Psicolingüística, ministrada pela prof. Leila Mariné da Cunha Guimarães.

  1. Eu digo sempre a verdade: não toda, porque dize-la toda, é impossível, materialmente: as palavras falam. É por esse impossível que a verdade se sustente no real (J.LACAM).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


1) FREUD, S. Moisés e o monoteísmo (1939). In: obras completas,

Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro, Imago, \/ol. XXIII, 1975, pp.13-161 .


2) LACAN, J. L’instance de la iettre dans I’inconscient ou la raison depuis Freud (1957), In: Écrits, Paris, Seuil, 1968, pp. 493-528.
3) LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia Estrutural (1958). Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, vol. I, 1975, pp. 193-266.

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FORMAÇÕES COMUNITÁRIAS EM BElO HORIZONTE


Elizabeth de Melo Bomfim

Este é o segundo trabalho desenvolvido na disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana iniciada, juntamente com Marilia, no inicio deste ano. De certa forma, ele dá prosseguimento, ao estudo realizado no primeiro semestre que denominamos Comunidades Alternativas: uma reflexão em torno do tema e que foi apresentado na 37° Reunião Anual da SBPC, em julho de 1985.

Tal como o primeiro, este estudo foi elaborado ao longo do curso, num processo de auto-gestão pedagógica, onde o tema e suas diferentes abordagens foram discutidos por todo o grupo, num processo de escuta e de desafio às diversidades. E, foi este mesmo processo que utilizamos no confronto comunitário: a escuta numa relação de troca e contato sedutor.

Partindo do nosso não saber e, algumas vezes, dos nossos preconceitos, montamos um dispositivo metodológico baseado, essencialmente, em observações, entrevistas e análise de algumas fontes documentais.

Tentamos, em alguns momentos, refazer a história das comunidades, em outros , uma análise do atual momento social. Partimos, para a escolha das comunidades, da existência de uma relação vivencial e/ou profissional que algum de nós já mantinha com elas.

Ao longo do estudo elaboramos e desistimos de várias hipóteses de trabalho. A cada nova hipótese refazíamos a nossa ida às comunidades em busca de novas informações. E, à cada ida nos transformávamos, procurando entender o que não nos espelha.

Algumas informações consumiram, para serem digeridas, algumas sessões pessoais de terapias, outras fizeram-nos abandonar fantásticas hipóteses de resistência e luta política de um grupo social. Outras vieram chocar com o monoteísmo de um dos nossos ao constatar, ainda surpreso, a miscibilidade religiosa de um povo que é, ao mesmo tempo, católico, umbandista, espírita, etc. Em certo momento tivemos que desacreditar no discurso de um líder comunitário e ir buscar no discurso da danada casa ou da criança, a angústia e a tristeza de ter de morar, com oito pessoas, numa casa de madeirit de 3mx3m.

O que ora apresentamos não está terminado. São anotações às quais deveremos dar uma melhor estruturação teórica. Portanto, quaisquer comentários serão muito bem-vindos.


(*) Professor adjunto do Departamento de Psicologia - UFMG


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HORTO: DE FERRO E FÉ


Antonio Car/os Ferreira

Margareth A. Toledo (*)
No começo desse século, esse lugar onde hoje é região do Horta era um imenso matagal, entremeado pelos capinzais que alimentavam as vacas que com o tempo foram dando lugar às casas que compõem atualmente os bairros Sagrada Família, Santa Tereza, Horta, Boa Vista , Santa Inês e outros.

Dessas pessoas que hoje habitam essa região, uns poucos viveram esse tempo em que tudo era um extensa colônia, a colônia América Werneck, que ocupava uma área que ia desde onde é hoje a rua Salinas em Santa Tereza e, que subindo à direita divisava com a fazenda do João da Cunha.

Os que viveram essa época não se esquecem do tempo das chácaras cujos moradores levavam. milho e outros alimentos para trocar por fubá na casa do Capitão Castro. Como também não se esquecem das estradas margeadas por mato e capim, por onde passavam as tropas e os carros de boi que transitavam de Belo Horizonte para General Carneiro, Gorduras e outras partes além daquela região e, nem se esquecem, também, dá tromba d'água que em 1907 entupiu o bueiro que havia ali onde hoje está a linha de trem e que deixou intransitável por três meses esse caminho.

Onde é hoje o Museu de História Natural, era naquele tempo, a fazenda do Guimarães, que era toda a área que ia desde as terras do Carvalho de Brito que deram lugar aos bairros Santa Inês, Nova Vista e Bela Vista. Essa fazenda foi comprada pelo Estado que a dividiu entre a FEBEM, SENAI, CETEC, POLlVALENTE, SOBENCA, TV Educativa, Fundação João Pinheiro e Museu de História Natural da UFMG. Foram construídas também, algumas casas para os funcionários do estado daquele tempo e seus filhos que até hoje moram por lá.

Em 1919, começaram a se fazer o levantamento para a construção das oficinas da Central do Brasil, que adquirira as terras que pertenciam á fazenda do Agenor. Como o terreno era muito acidentado e cheio de barrancos e não havia naquele tempo as facilidades de mecanização a terraplanagem foi feita por meio de Desmonto hidráulico (um sistema de terraplanagem no qual utiliza-se duas bombas d'água de alta pressão: uma que arrebenta as barreiras e outra que empurra os destroços). Em 1925/26, ficou pronta a esplanada, mas que
Alunos da. disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana. Departamento de Psicologia UFMG
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antes de ser utilizada para as construções, serviu de pista de pouso para os primeiros aviões que vieram para Belo Horizonte procedente do Rio de Janeiro pelos ares. Pois antes disso os aviões vinham por via férrea, transportados sem asas e chegando aqui, eram levados para o Prado e montados. Seus primeiros vôos eram feitos utilizando as pistas de corrida de cavalos, como pista de pouso e decolagem.


E era para trabalhar nessas construções das estradas de ferro e das oficinas que vinha gente de cidades desse Interior de Minas tais como Sete lagoas, Curvelo, Corinto, Alvinópolis, conselheiro Lafaiete e tantas outras. Vinham, como aventureiros em busca de trabalho. E com um misto de esperança e necessidade de compartilhar dessa façanha. É talvez por isso que nunca vinham sozinhos. Cada um trazia junto consigo vários outros amigos e familiares cuJos corpos eram, também, sua força de trabalho e fé. era isso que tinham para oferecer.

Então quando no fim da década de vinte e início de trinta ficam prontas as oficinas, o povo vinha em levas e mais levas e agora, também, já de outras cidades um pouco mais distantes nas quais haviam oficinas menores. Mas era aqui na capital que estavam as duas, grandes oficinas IFL II e IFL III (Inspetoria Ferroviária de Locomoção) que faziam o trabalho de reparo dos vagões de todas as outras estações de Minas e até mesmo de outros estados.


Esse pessoal vindo de tantos cantos, chegava e recebia autorização do engenheiro da Central para a construção de suas casas, praticamente sem nenhum planejamento de urbanização. E em meio àquele enorme brejo ia nascendo a vila Edgard Werneek, às margens da linha por onde passavam as Maria-fumaças movidas a carvão e lenha, mas que foram perdendo seu lugar para as modernas máquinas a Diesel Junto com os homens que foram perdendo seus lugares para os computadores. Assim, aquilo que era uma grande comunidade de trabalhadores da companhia de ferro vai se transformando em um bairro operário cujos moradores buscam trabalhos cada vez mais longe de suas casas.

Existe em toda essa 'história uma constante luta para a preservação dessas raízes, desses costumes luta essa sempre permeada pela união de todos. E não são poucos os que trazem vivas em suas memórias lutas como foi, por exemplo, a greve dos operários da Central, que foi a primeira grande greve de funcionários públicos em nosso pais, com duração de 12 dias. E como é importante, também, estarmos atentos para toda essa capacidade de organização, numa época em que toda comunicação era feita através de cartas, telegramas e telefones, mas é claro, com muito mais dificuldade do que em nossos dias de hoje. Essa greve termina quando o então governador Milton Campos, diante do grande empasse das máquinas parada


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terem de se movimentar, criado nas negociações, faz uma intervenção que foi para aquele momento a mais oportuna para a resolução da questão; para que os funcionários retomassem ao trabalho ele diz: para que tudo voltasse à sua normalidade, não seria melhor que mandassem primeiro o carro pagamento?

Essa greve que aconteceu em 1951 é depois julgada no governo Dutra, com ganho de causa para esses operários que trabalhavam até 16 horas por dia sem receber horas extras, sem seguros de acidentes, etc. Porém, mesmo assim, muitos deles pagaram um preço muito alto. Por dela terem participado, alguns foram dispensados, outros removidos por um período de até 6 meses, para outras cidades. Era preciso muita união para conseguir resistir e sobreviver a todos essas intempéries da vida.

Mas nem só de suor e lutas viveram essas pessoas, presente em suas memórias está, também, a Banda de Música fundada em, 1934 por um morador da comunidade que sonhando com uma grande banda foi reunindo todos aqueles que moravam por ali que tocassem algum instrumento. Dois anos depois o seu sonho já era realidade.

Essa banda acompanhou Juscelino Kubitscheck em sua campanha para o governo do estado e para a presidência da República. Foi convidada de honra para tocar em sua posse como presidente na capital, então Rio de Janeiro. Depois foi convidada, também, para tocar na inauguração da Nova Capital Federal, Brasília.

Mas mesmo a banda teve seus problemas. Após a apresentação em Brasília, devido a uma série de dificuldades, esta ficou desativada por muito tempo, tendo depois retomado a continuidade de seus trabalhos há oito anos atrás, estando até hoje em franca atividade. Com toda uma estrutura hierárquica de funcionamento, a corporação musical 1o de maio é uma fiel representação da resistência e manutenção da arte à despeito de toda e qualquer interferência desastrosa. Os homens passam e a banda contínua tocando a vida como o soar de um canto desse povo que vai fazendo dia após dia sua história.

Trabalhadores, aventureiros, gente simples que fazia compras nas vendas, mas que precisavam de um lugar que fosse ­condizente com o tamanho de sua grande fé. Então, em 1945, nesse lugar onde hoje é a Igreja do Horto, já havia uma capelinha que pertencia à paróquia de Santa Tereza. Mas a comunidade crescia e com ela, também, sua fé. Fazia-se então necessário um espaço ainda maior para que todas aquelas pessoas pudessem se reunir para as práticas religiosas dos rituais e sacramentos do catolicismo.


Então em 1946, inaugura-se a Igreja Senhor Bom Jesus do
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Horto, que fora construída com os esforços dos próprios paroquianos. Eram promoções, grandes festas, doações de materiais vindos de particulares e da prefeitura e a força de trabalho era, também, fornecida pelos próprios fiéis que trabalhavam enquanto havia um fio de luz no céu.

Em 1o de maio de 1943 os funcionários promovem a grande festa de Páscoa que viria a se tomar uma tradição e que não se perderá facilmente através do tempo, sempre arrastando gente de várias partes do país para o 1o de maio elas oficinas.

A igreja que estende seus braços sobre aqueles de pura fá, também os estende aos festivos. Assim, cria-se , também, suas festas tradicionais como, por exemplo, a festa do padroeiro do bairro. Senhor Bom Jesus do Horto além de todas as ­promoções peculiares às festas de igreja. culminou com a celebração de uma missa campal na porta dessa.

Mas até mesmo na igreja nem tudo se resume a fé e festas. Em 1967, três recém-chegados padres franceses aquela paróquia, empolgados pelo momento político que atravessava tanto o nosso país quanto o seu de origem, envolveram-se em mobilizações e organização dos jovens que se juntaram através do J.O.C. (Juventude Operária Católica). e assim, a comunidade jovem da região do Horto, estimulada pelos padres e sedentos pela concretização de seus ideais de justiça social, ia passo a passo adquirindo uma enorme capacidade de organização, cujo apogeu é atingido em 1972.

Os soldados do exército com armas em punho invadem a Igreja e a deixa fechada por seis meses, dispersando assim, todo o foco de união dessa juventude. os padres foram presos e até mesmo expulsos do nosso país. Uma atitude que entristeceu os jovens e deixou os mais velhos perplexos. Essa garra de luta e impotência diante dos duros métodos repressivos, de um passado que se tenta incessantemente apagar da lembrança, mas que é como uma ferida que de quando em quando sangra e dói.

Diante de tão grave incidente, o povo dessa religião ficou privado de qualquer assistência religiosa, tendo que buscá-la em outras paróquias. mas esse povo com usa fé de ferro não se esmoreceu. Ainda nesse mesmo ano, com a vinda do Padre Roque, a igreja agora voltada para as atividades de cunho mais puramente religioso, consegue arrebanhar seus fiéis, principalmente os mais velhos. Assim em pouco tempo, apesar de todas as dificuldades com que se deparou inicialmente o Padre Roque, a igreja apoiada na força de seus paroquianos se ergue não só em si mesma, como também, na construção de um prédio, de posto de saúde, creches, centro social como um grande

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braço de força e fé que hoje ecoa em longíquas terras através da onda rural de urna emissora de rádio.




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