Anais do I encontro mineiro



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O Presépio do Pipiripau
Toda essa devoção religiosa não é expressa apenas através da Igreja, mas também através da arte e dedicação do Sr. Raimundo.

O Sr. Raimundo, quando ainda menino de uns 11 ou 12 anos, ao ver um presépio, desses que pessoas religiosas fazem em suas casas na época de Natal, teve, então, a idéia de fazer em Sua casa na Sagrada Família um presépio: O Presépio do Pipiripau. Com todas as dificuldades de uma criança daquele tempo, com dinheiro juntado através da venda de garrafinhas de óleo de rícino, começava o menino a ver seu sonho tomar corpo de realidade,

O pequenino boneco-menino Jesus, colocado numa caixa de sapatos fofada de capim discretamente deixada debaixo da mesa, ganha altura expondo-se, então, sobre essa mesa.

As visitas achavam interessante, assim, era necessário amplia-lo para que pudesse atrair ainda mais a atenção das pessoas. Assim, durante todo o correr de cada ano, o presépio ganhava uma novidade, Mas isso não era suficiente para aquele incansável sonhador. Tudo quanto é vivo, bicho, gentil e paisagem estão parados na linearidade de sua história. Era preciso dar vida e movimento à todos os personagens e à natureza.


E foi a partir da observação do mecanismo de funcionamento do moinho do Capitão Castro que o Sr. Raimundo resolveu reproduzir em miniatura aquele moinho movido exclusivamente à água que poderia ser o início movimento de pelo menos parte daquela história fantástica e tão viva na cabeça daquele homem.

Dessa vez. a novidade foi muito ousada, não foi mais possível parar por aí. Os conhecidos cobravam mais e mais a cada ano e ele tinha que ser cada vez mais brilhante. É, então, uma máquina de gramofone que faz girar uma cena, é um motor elétrico que a partir de 1947 movimenta todos aqueles bonecos-gente. Assim, a história do nascimento de Cristo acontece em. meio a um riquíssimo cenário que retrata simultaneamente a vida modesta e simples, bela e difícil do homem do campo em sua rotina de labor e fé.

O presépio é a própria história e não se desvincula dela. Nem mesmo o seu nome é por acaso. Desde os primórdios de sua existência, quando ainda na casa do Sr. Raimundo, as pessoas
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pipiripau. Então, na primeira reportagem feita à respeito do presépio em 1925, o seminário Tribuna, refere-se a ele com o nome do presépio do Pipiripau. Várias outros matérias foram feitas sobre esse mesmo assunto em revistas, jornais e TV, e pelo interesse que despertam, sempre se repetem.

Esse monumento histórico que nasceu um dia na casa do Sr. Raimundo, além de receber visitas onde quer que fosse por parte de conhecidos, amigos de conhecidos, turistas vindos de tantos lugares, e autoridades como J.K., que Inclusive o homenageou dando esse mesmo nome a um rio em Brasília, também já esteve no parque da Gameleira, viajou representando o folclore mineiro em São Paulo exposto no parque Ibirapuera. Em 1976 foi comprado por um preço simbólico pela U.F.M.G. e instalado no Museu de História Natural dessa Universidade. Em 1983, foi tombado pelo patrimônio histórico, ficando assim protegido e assegurado de conservação, não podendo ser modificado em sua composição por ninguém, exceto pelo seu próprio idealizador e executor.
O Horto Florestal

O nome da região do Horto deriva-se dessa verdadeira reserva florestal que o bairro abriga e preserva contendo inclusive os paus-brasil mais antigos de nosso país, com exceção dos de Porto Seguro.

O progresso que se expande por todos os bairros de nossa Capital, desde os fins da década de trinta com a extensão das linhas dos saudosos bondes aos bairros distantes do centro para a época, o computador que chega e toma o lugar do operário, os apartamentos que aos poucos substituem aquela paisagem interiorana das casas dos povos simples, tudo isto não e o bastante para mudar um modo de vida provinciana de toda uma comunidade cuja origem é fortemente marcada pelo mineirismo, que mesmo acompanhando todas as evoluções, mantém em si mesma os vínculos com seus antepassados.

Talvez venha de sua própria história, essa capacidade de crescimento e preservação, ao mesmo tempo, de tantas riquezas e conquistas. Não é por acaso que encontra-se ali os postos de saúde, as igrejas, a resistência do verde como não mais visto por tão perto em nossa cidade e tantas outras forças desse povo que é claramente demonstrada através da crença, das lutas, do trabalho de cada dia, da banda de música, do estádio de futebol que ganha nova dimensão, do presépio como cartão de visita de Belo Horizonte e tantas outras coisas.

Só mesmo um povo de ferro consegue manter tão viva e forte, sua capacidade de expressão da fé, da arte e de lutas
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construindo e preservando dessa forma às margens da linha por onde passavam as Maria-fumaças e ainda há de passar muitos trens. Ficam as homens e os seus e, com esses a história viva do lugar.

Agradecemos e dedicamos essa história aos seus legítimos autores: Padre Roque (Bispo Sebastião Roque de Leopoldina); Sr. Raimundo do presépio e seus auxiliares, Emanoel; Sr. José Carlos da banda de música e Sr. Nogueira, sem os quais o registro da história dessa comunidade não nos seria possível.

DA VILA SÃO GABRIEL AO BAIRRO NAZARÉ; DA CAPELA À PARÓQUIA

Jorge Luis da Costa (*)
Localizada à margem da BR 262, um pouco à frente do trevo de Sabará, lado oposto ao bairro Gorduras, encontra-se a Vila São Gabriel. Seus antigos moradores são pessoas vindas do interior de Minas, da região de Santa Maria do Itabira, Ferros, Passabém, em busca de emprego. Ali instalados foram aos poucos trazendo os seus parentes do interior e assim a Vila foi crescendo. No começo não havia um projeto para a construção das casas. Após adquirir uma parte do terreno, cada um construía seu barraco. Como a Vila estava crescendo e havia interesse em se vender mais lotes, foi feito projetos de ruas e remarcação dos lotes. As pessoas continuavam a vir do interior, sempre em maior número, e ali eram acolhidos pelos parentes que muitas vezes deixavam os que chegavam irem construindo nos fundos dos seus lotes. E assim a Vila cresceu ...

Os meus primeiros contatos com a Vila foram em 1978 quando então eu era seminarista. Um dos Padres da nossa congregação foi certa vez, a pedido de alguém, celebrar numa capeta lá na Vila, e ficou impressionado com a pobreza e união das pessoas...; então resolveu lá desenvolver o seu trabalho.


• Aluno da disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana.
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RELIGIOSIDADE DO POVO


O pessoal da Vila parece grande preocupação com a religião. O próprio povo se uniu e construiu a sua cape/a, mesma não tendo padres. Isto se falando daqueles que professam a religião católica.

Nesse tempo, muita outras igrejas foram lá construídas: Igreja Pentecostal de Oração, Igreja Presbiteriana, Igreja Batista, Igreja Batista da Renovação, Assembléia de Deus, Igreja Evangélica Quadrangular, Igreja da Profecia, dentre outras. Surgiram também alguns, terreiros de Umbanda. Aqui acontecia um fenômeno religioso interessante; as pessoas que freqüentavam os terreiros de umbanda eram também participantes das igrejas, mais comumente da Igreja Católica. Paralelamente as festas religiosas; forrós, fogueiras. barraquinhas, com os batuques dos terreiros e as rezas.


BREVE HISTÓRICO
Para se chegar ai Vila era uma dificuldade. A rua que ligava a Vila à BR 262 era só buracos. Mas isso era o de menos. A Vila quase não possuía ruas. apenas projetos de ruas. Eram caminhos que se ligavam à rua principal, cheios de mato e buracos. Outro sério problema era o ribeirão que corta a Vila de ponta a ponta. Não havia pontes; a própria comunidade construía pinguelas para saltar a ribeirão. Quando chovia, o ribeirão enchia, transbordava, entrava nas casas próximas à sua margem e, ainda por cima, levava as pinguelas na sua forte correnteza. Então, o pessoal era obrigado a dar volta longe, lá na BR 262 para poder chegar em casa.

Água e esgoto inexistiam. A água era conseguida em profundas cisternas à base de cordas e baldes, apenas alguns possuíam bomba elétrica. Quanto ao esgoto, aqueles que moravam próximo ao ribeirão canalizavam para lá os seus detritos; os moradores mais distantes usavam o sistema de fossas.

A Vila não possuía telefone, nem posto médico, nem posto policial. O comércio era reduzido a uns poucos e pequenos armazéns, botecos e uma farmacinha.
Aos poucos, às vezes liderados pelo padre, a Vila em mutirão, a comunidade construiu uma ponte, o salão comunitário e outras pequenas obras. Com as reivindicações da comunidade conseguiu-se água canalizada.

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Em 1978, época das enchentes, os moradores da Vila sofreram com ai chuva. Os danos foram incalculáveis à favela que fazia parte da vila. Tendo sido construídas nos terrenos da RFFSA, os barracos sobre o aterro da estrada de ferro começaram a descer e caiam uns sobra os outros. Os flagelados foram transferidos para a escola e igreja. Terminado o tempo das chuvas, surge um novo problema: a RFFSA não deixa os flagelados reconstruírem seus barracões. A comunidade procura autoridades da prefeitura, de Diocese e da RFFSA e, depois de muitas reuniões, conseguem licença para a reconstrução dos barracões.

Nesse meio tempo, a comunidade começou a trabalhar no projeto de um. curso supletivo. Devido a dificuldade da ordem estatal, fomos obrigados a ministrar as aulas no salão da Igreja e em uma outra sala de um barracão oferecido por um dos membros da comunidade para este fim.

Aos poucos, uma nova reorganização se estabelecia: o curso supletivo e a feira comunitária com seus preços mais acessíveis.


O GROTESCO DO POLÍTICO

Com o movimento constante de membros do Centro Social da Vila na prefeitura, alguns políticos começaram a ouvir, falar da Vila São Gabriel. E houve quem fosse ver para crer.

Começaram ar as ajudas e facilitações nos empreendimento, em troca de uma placa com o nome do político próximo às obras, ou comentários do nome do dito cujo nas reuniões comunitárias. Deste modo alguns políticos estavam conquistando prestígio. As assistentes sociais e o padre procuravam sempre conscientizar as pessoas para esse tipo de coisa, mas ingenuamente eles sempre caíam, Há casos até grotescos, como o de certo político que, sabendo que seria feita a procissão de um santo, ajudou na compra de foguetes e bandeirolas e prometeu até mesmo participar da procissão; e deu a seguinte sugestão: a procissão sairia da casa de um certo '''fulano'' rumo à igreja e no meio do caminho pararia por um tempinho para ele fazer um pequeno discurso para o povo. O padre ao ver tal programação não concordou; o que causou grande raiva a muita gente. Outro político, em uma reunião do Centro Social, virou-se para o Presidente do centro social, que era um homem simples e batalhador, e elogiou o seu trabalho nos seguintes termos: - O seu lugar não e só aqui: o seu lugar é junto com a gente na Prefeitura. Bastou isso. A partir daí o pobre coitado só sonhava com o seu lugarzinho na prefeitura; e tornou-se um pequeno corrupto dentro do centro social.

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DISCÓRDIAS NA COMUNIDADE


Alguns episódios começaram a causar discordâncias entre o presidente do Centro Social e o padre. Houve o problema de um lote doado para a Igreja e que o presidente do Centro Social registrou, sem consultar ninguém, em nome do Centro Social. Houve também o problema de uma eleição para a presidência do Centro Social. Toda a comunidade deveria votar. A votação foi feita sem comunicado à comunidade e o presidente foi reeleito. O padre foi contra a votação e aí começou a briga entre a igreja e o Centro Social. A briga durou alguns meses e revoltou toda a comunidade que preferiu apoiar o padre. Como o ambiente estava tenso, a congregação resolveu transferir o PADRE e colocar outro padre em seu Lugar. A comunidade protestou contra a saída do padre mas nada adiantou. Com a sua saída, a comunidade se voltou contra o Centro Social, não dando o seu apoio e criticando; muitos membros abandonaram a igreja. Sem o apoio da igreja e da comunidade, o Centro Social perdeu sua voz ativa. A feira aos poucos foi se desorganizando até acabar, assim como o curso supletivo.
Mas o tempo passou e a comunidade persistiu. Hoje a Vila São Gabriel tem a maioria das suas ruas calçadas ou asfaltadas, O antigo córrego foi canalizado e sobre ele está sendo construída uma avenida. Agora, a comunidade tem água, telefone, luz, escolas maiores com ensino até a 8 a série, posto médico {naquele salão que a comunidade construiu} e outras benfeitorias pelas quais a comunidade lutou com todas as forças.

Há um projeto, que já foi aprovado na prefeitura, em que a Vila São Gabriel e adjacências passará a se chamar Bairro Nazaré. Aquela capelinha, hoje, é sede da Paróquia Santa Maria de Nazaré. O Centro Social voltou a trabalhar em conjunto com a igreja, e está ligado a outras associações de bairros. Está funcionando sob a sua liderança a Sopa Comunitária, que atende a mais de 200 pessoas carentes; isto com a ajuda da Secretaria do Trabalho. Há projetos de organização de cursos profissionalizantes como Corte e costura, eletricista, bombeiro hidráulico. Há, também, o plano de construção de uma área de fazer com quadras e parque infantil. Nestes projetos estão empenhados a igreja, o centro social e a escola. E na clássica junção igreja/estado a antiga Vila São Gabriel passa a Bairro Nazaré com uma dose de autoritarismo num discurso pretensamente co-gestionado:


Nós, padres da Paróquia Santa Maria de Nazaré, temos a grata satisfação de convida-los para um encontro que promoveremos com todas as Associações e Movimentos Comunitários dos bairros existentes na área de nossa paróquia.

Queremos, participar com vocês das duras partidas que as várias associações têm e irão enfrentar, diante dos vários problemas que afligem nossa religião. Acreditamos na força que vocês têm e na força da união. Queremos estar ao lado, de quem realmente quer trabalhar pelo bem-comum de todo um povo que sofre no seu dia a dia. Queremos nos comprometer com vocês.. (Convite do Vigário a todos os membros da comunidade)

VILA, MISÉRIA, MARIA

Eny Barbosa( * )

Valéria Marques ( * )

Em 1979 foi criado o projeto de construção de 824 casas para abrigar os flagelados da enchente que se abateu sobre Belo Horizonte.


A maior parte dos desabrigados não aceitou a idéia de ocupar tais casas, retornando ao seu local de origem.

As casas eram pequenas, de madeirit, sem divisões internas, nem banheiro. O orçamento unitário ficou em Cr$ 27.000 (vinte e sete mil cruzeiros) e a obra foi realizada no bairro Gorduras, localizado na periferia de Belo Horizonte. Ali fora aproveitada uma área com serviço de terraplanagem e captação de águas. Foram construídos 6 chafarizes. Depois da obra concluída e ante á recusa dos flagelados em ocupar as


( * ) Alunas da disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana.

Departamento de Psicologia da UFMG.


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casinhas, a imprensa divulgou a existência desse aglomerado habitacional, O noticiário atraiu a atenção de pessoas carente de habitação e logo foram chegando os primeiros necessitados, que pretendiam ocupar as mini-casas. Entre eles o senhor José da Costa Santos que, com sua família, ocupou um barraco em Setembro daquele ano. Vindos dos diversos locais de Belo Horizonte e do interior, novos pretendentes apareceram, surgindo assim o conjunto.

A comunidade passou a receber recursos financeiros através da Chisbel e do DNER. Estes recursos iam para a Igreja de Santo Antonio localizada num bairro próximo. E isto acontecia por não existir ali uma Associação de moradores capaz de administrar os problemas daquele recém-nascido núcleo social.

A partir de então, um grupo de pessoas começou a fazer campanha para criar uma Associação Comunitária que cuidasse dos interesses da Comunidade. Em 1980 foi criada a Associação de Moradores do Conjunto Residencial dos Gorduras-Vila Maria. O nome surgiu como homenagem a uma das moradoras da vila, Da. Maria Alves, pessoa ativa e dinâmica nas buscas de melhores condições para aquela comunidade. Graças ao seu empenho pessoal e ao esforço de outras pessoas, a vila começou a experimentar melhorias.

Um primeiro passo foi a promoção de cursos profissionalizantes: bombeiro hidráulico, eletricista, pedreiro, mestre de obras, corte e costura e outros. Cursos que posteriormente caíram no descrédito, porque os moradores profissionalizados não conseguiram emprego.

Mas em seguida vieram o Posto de Saúde, uma Escola e mais 99 casas novas construídas com recursos e projeto do BNH. A comunidade passou a receber uma cesta de alimentos básicos e uma sopa.

Contudo, a miséria persiste, como se a sopa, a cesta, o posto de saúde fossem paliativos passageiros. E na verdade o são, pois por mais que parecem ser supridas as necessidades, elas são enormes. E isto se vê na vida diária daquelas pessoas que conseguem sobreviver ali.

Num espaço pequeno, famílias grandes vêem seus problemas multiplicados. Compartilham a falta. Comungam o desconforto, inertes e impotentes ante adversidades invencíveis decorrentes do desemprego, da extrema pobreza e da falta de oportunidades. A inexistência de saneamento básico espalhando doenças, disseminando o desânimo e estabelecendo uma condição de vida contemplativa das mais desesperadoras. A fome e o sofrimento ali são gêmeos nascidos de uma gestação de infortúnios que se repete a cada dia, meses e anos a fio.

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Paradoxalmente, o topônimo Gorduras sugere abundância, fartura.


Mas o que há mesmo é um sofrimento calado, sufocado, de um povo que não pode - porque não sabe - comunicar a sua necessidade de viver e progredir. Que se acomoda num parco sobreviver. Que. não possui a linguagem para fazer chegar até aqueles que deveriam lhes dar condições menos sob-humanas de vida. E quando podem exprimir o que sentem, através da próprio situação no mundo, sua comunicação não sensibiliza a indiferença dos poderosos.

Num dos barracos, mora Da. Maria, viúva, 5 filhos. Divide o barraco, com ela, uma cunhada; com marido e filhos, são mais 8 pessoas. De um lado só um cômodo. Do outro, o quarto e uma saleta para a televisão. O espaço é mínimo, não há banheiro e são ao todo 14 pessoas que usam o banheiro da vizinha em frente á casa, um pequeno jardim.

Ali elas se ajudam mutuamente, olhando os meninos, cuidando da casa.

As crianças ficam mais na rua quando não estão na Escola. Ficar em casa só mesmo na hora de dormir. Hora em que todos se aglomeram naquele pequeno espaço, pois a noite lhes oferece a magia de abrigar a todos sob o manto do esquecimento temporário das angústias que o clarear de todo o dia teima em evidenciar.

A vida e o trabalho de casa: lavar, passar, cozinhar, além da preocupação com as crianças e os filhos mais velhos, crescidos e desempregados desesperançosos tristes, vítimas em potencial de vícios e da marginalidade.

De outro lado da vila, as casas de alvenaria, a área dos privilegiados; com um pouco mais de segurança, ali eles vivem dias de esperança, sonhando com um futuro menos penoso para seus filhos.


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CASAS MALDITAS: RENDEZ VOUZ DE DESENCONTROS



Elizabete B. Assis ( * )

Marcia F. Azevedo ( * )

Introdução:

Chegamos afinal à parte prática do trabalho: sair em busca desses lugares e dessas pessoas que povoam em fantasias o universo mental de tantos (incluídas nós próprias, que, não por acaso, resolvemos fazer esse trabalho).

Tomadas de atração e repulsa e medo, nos lançamos à cata do misterioso mundo da prostituição. Muitas vezes, como fruto mesmo dessa nossa ambivalência, estivemos muito entusiasmadas com a idéia em alguns momentos; em outros, o que sentíamos era desânimo, vontade de abandonar, buscar algum tema, menos perigoso, mais leve sabíamos que estávamos mexendo com alguma coisa que nos tocava, e isso atestávamos no Suor frio das mãos e no disparar louco do coração, meio apertado, diante da porta das casas que visitávamos.
De uma visita:
O Antes:
Muitas fantasias. Expectativa e ansiedade. Medo? Indagações não faltaram... Como seríamos recebidos? De que assuntos tratar: o individual, o coletivo? Deixa rolar... e chegamos. Aos trancos e barrancos, escalamos a escadaria que conduz à entrada principal. Escuridão, um peso no ar, local carregado e bastante opressor. Seriamos vistas entrando num local como aquele? E se encontrássemos alguém ali? E num ímpeto de acabar logo com aquilo, um gesto mecânico de levar a mão à campainha. Um portão de ferro, uma pequena janelinha de grades - ( como num presídio? ) se interpunha entre nossa ansiedade e o alvo de nossa curiosidade. Uma porteira desconfiada e mal encarada nos pergunta da janelinha o que queremos. Vai chamar a Dona, não sem antes passar uma olhadela minuciosa em cada um de nós, da cabeça aos pés. Alguns segundos (que nos pareceram horas. ) e a figura simpática, meio sem graça da Dona nos convidando para entrar e finalmente o confronto .

( * ) Alunas da disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana. Depto. Psicologia .- UFMG.

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De Durante:

Caímos numa sala, que, afora nossos conhecimentos anteriores nada de mais nos sugerir. Um som ambiente (baixinho) quebrava um pouco o silêncio do local. Algumas mulheres, sentadas na sala de espera, olhares curiosos analisavam-nos. Figuras estranhas atacam novamente, quem serão, o que mais querem de nós, que já vivemos doando. Apresentados pela Dona da casa, esclarecidos nossos objetivos, algumas se levantavam prontamente, num ato de coragem e por que não dizer fé. Outras murmuravam qualquer coisa e continuavam em seus lugares, recusando em deixarem levar por mais essa invasão de suas privacidades. Vamos passando por um comprido corredor que vai terminar numa espécie de área de serviço, onde nos acomodamos numa mesa para conversarmos.


O Discurso:

Aqui é um lugar que tem tudo de ruim, que você pode imaginar, intrigas, tudo de ruim, e é aqui, neste trecho do depoimento de uma prostituta, que já podemos começar a imaginar o universo de contradições no qual estão inseridas, posto que pouco antes a conversa era outra: vamos conhecer o que se chamam o lado alegre da vida, a mulher da vida fácil.

De fato, em nossas entrevistas fomos assaltadas várias vezes por um certo tipo de estranheza diante das falas que nos surpreendiam, ou que reviravam de repente alguma idéia que nos parecia muito certa até então. Era uma escuta em que éramos surpreendidas a todo instante, e a impressão que tínhamos era que estávamos tratando de uma coisa muito mais complexa do que podíamos imaginar.

Encarada por algumas prostitutas como uma vida muito triste, cheia de desgraças, que não deve ser especulada por ninguém, e por outros como uma profissão qualquer, o que podemos notar é que a profissão de prostituta não é uma carga muito leve e fácil de ser carregada.

O lado da vida fácil nos pareceu um lado difícil e sofrido, posto que ali tudo é conquistado com esforço e sacrifício.

A obsessão genital que é atribuída a essas mulheres por projeção já foi por elas praticada demais para ainda despertar algum prazer. Elas não participam do gozo de seus clientes, e talvez seja por isso que possam tirar um lucro com isso: Aqui

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a vida da gente é só dinheiro, então o dinheiro nem todas as vezes preenche aquilo que você precisa; dinheiro não traz satisfação total.

E é em busca de dinheiro, que repetem mecanicamente o mesmo ritual várias vezes por dia com seus clientes: uma entrega do corpo completamente desprovida de qualquer tipo de gozo, uma mera repetição de um gesto já automático. Mas nem por isso esse gesto pode ser por elas desvalorizado: a sua estratégia de sobrevivência consiste na exaltação sistemática do sexo, seja no seu modo escandaloso de vestir, seja no modo como descrevem e oferecem o programa para os seus clientes (Vem fazer gostoso ), seja no modo como fingem o prazer que não alcançam.

Definido como uma prática comercial ou profissional, o sexo passa a ser um artigo que necessita de uma certa estratégia de venda, de uma certa publicidade para vender bem. Com nas leis de mercado, é um objeto que deve ser anunciado como um portador imediato e continuo de satisfação.

Na batalha por essa estratégia alguma das moças define a prostituição como um grande teatro: Tudo aqui é teatro, representação. Nós somos atrizes.

Para eles - (sociedade em geral) somos uma espécie de monstros, mulheres completamente estragadas que tem uma mentalidade monstruosa, mas é na cabeça deles que tudo isso acontece.

Conscientes do preconceito e da discriminação que sofrem por parte da sociedade, não se julgam meras destruidoras de lares, maníacas sexuais, desonestas, perigosas, monstruosas.

Pelo contrário, se defendem ( e não sabemos até que ponto elas realmente acreditam na sua defesa) dizendo ser (ou serem?) a salvação de tudo: Os homens casados vim aqui, reclamam do mau comportamento dos filhos, dizem que não suportam mais as esposas... Chegam aqui e desabafam tudo pra gente/ aqui é igual a uma sacristia: a gente ouve as confidências, dá conselhos, dá carinho... E muitas vezes é isso que salva o casamento deles. Eles ficam mais calmos e podem ir para casa ficar com sua família

Tem muitos homens carentes, que não tem ninguém, ar eles vem aqui buscar carinho, atenção. Nossa missão aqui é só dar, e não receber. Aqui não podemos estar tristes: temos que estar sempre alegre, os nossos problemas tem que ser esquecidos, temos de fazer de conta que eles não existem. São os ossos do ofício.


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Se sentindo muito carentes afetivamente, mostram-se extremamente desconfiadas frente à possibilidade de uma relação afetiva: acham em geral, que os caras se aproximam delas aproveitando-se do fato delas serem carentes; mas na verdade eles só querem explorá-las, conseguir dinheiro ou conseguir programas sem ter que pagar. Isso dificulta e reforça ainda mais o vazio afetivo em que vivem.

Na busca de cobrir um pouco essa carência efetiva às vezes amigas de uma ou outra das moças com quem convivem na mesma casa; nesse ponto podemos perceber implicitamente nas nossas visitas, uma relação bastante hostil das moças entre si: um certo clima de desconfiança e hostilidade.

Em geral acreditam e confiam segredos para as cafetinas, a quem, de certa forma, é atribuído o papel de uma grande mãe. Essas, por sua vez, só vê nas prostitutas a perspectiva de lucro certo. Dessa forma o afeto parece ser conquistado numa troca lucro x afeto.

Nas relações com a família ou a identidade profissional é encoberta e substituída por ,uma outra, falsa, ou é revelada e compactuada pela família ( a cumplicidade - em troca de bens de consumo mais sofisticados e que tem acesso através das prostitutas.) .

Aqui parece que a relação de troca lucro x afeto se repete várias vezes: da mesma forma que as prostitutas vêm nos seus clientes só o comércio, uma ponte entre elas e o dinheiro, elas também funcionam como ,essa ponte muitas vezes, em se tratando das relações com as cafetinas, com algumas famílias e com os gigolôs.

Mesmo segregada por alguns segmentos da sociedade, a prostituição carrega consigo o que é da própria estrutura social: um conjunto de valores, de regras, de posições hierárquicas, a divisão em classes, etc...

Sendo assim, o funcionamento de uma casa de prostituição, por exemplo, se baseia no cumprimento de rituais firmemente estabelecidos. O cumprimento de horários; o domingo, como dia de folga; a forma estereotipada com que se dá o contato com os clientes; o respeito pela dona da casa; a obediência a certas proibições...

Numa casa de prostituição existe também uma adequação a um certo padrão de moralidade, que deve ser cumprido ( não beber, não fazer arruaça, não romper o trato feito com os clientes... )

E várias vezes, quando querem se defender de preconceitos de que sabem ser vítimas, argumentam em cima da sua competência moral, atacando a incompetência moral da sociedade:

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tem mocinha burguesa aí que faz coisas num bar que eu não teria coragem de fazer. Nós somos putas daqui pra dentro. Lá fora nós somos tão respeitáveis quanto qualquer pessoa, porque a gente sabe se comportar. Essas mocinhas de hoje só querem saber de andar na garupa de moto, tirar sarro com o namorado e fumar maconha.



Final

Mesmo sendo alguma coisa inscrita na ordem do proscrito e do maldito, a prostituição é um lugar também demandado pela sociedade que dá certas concessões e um espaço para existir.

Falamos então de um duplo lugar: da alguma coisa associada ao lixo, a sujeira, mas também de alguma coisa que tem uma certa função e uma existência - podemos até arriscar a dizer intensamente desejados.

Na geografia das cidades o bordel sempre foi tão indispensável quanto a igreja, o cemitério, a cadeia e a escola, integrando-o à paisagem ainda que, muitas vezes, significativamente localizado nas fronteiras da cidade. A sociedade elabora procedimentos de segregação visível a integração invisível, fazendo da prostituta peça fundamental da lógica social.


Fragmentos:

O homem de grandes negócios fecha a pasta de zíper e toma o avião da tarde. O homem de negócios miúdos enche o bolso de miudezas e toma o ônibus da madrugada. A freira faz orações diariamente em horas certas. A prostituta faz o Trottoir todos os dias em certas horas. O operário joga bilhar e faz amor nos feriados.

Homens, mulheres e crianças - todos com seus dias previstos e organizados, As obedientes engrenagens da máquina funcionando com suas rodinhas ensinadas, umas de ouro, outras de aço, estas mais simples, mais complexas e aquelas lá adiante ajeitadas para o movimento que é uma fatalidade: taque-taque, taque-taque. Apáticos e não apáticos, convulsos e apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo implacável. (Extraído de A Disciplina do Amor de Lygia Fagundes Telles).

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SAÚDE MENTAL E SAÚDE PUBLICA:

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES


Maria Stella Brandão Goulart*
O enfoque sobre o tema Saúde Mental decorre de preocupações que se articulam com questões conjunturais de grande importância na administração pública em saúde, como, por exemplo, a participação da população no planejamento, execução e avaliação de serviços: a preocupação de alguns grupos com a integração, ou compensação de esforços, a nível institucional (como a criação do Sistema Unificado de Saúde e também o Programa de Ações Integradas de Saúde}; e os esforços no sentido de entender e tratar a prestação da assistência em Saúde enquanto uma responsabilidade do governo e não como uma mercadoria submetida ás leis de mercado do modo de produção capitalista. Estas são questões sobre as quais se exige uma tomada de posição, tanto do ponto de vista acadêmico, como profissional, reconhecendo, sempre que possível, suas repercussões a nível nacional e a nível do trabalho quotidiano dos diversos agentes envolvidos.

Diante da possibilidade de um governo democrático, de uma constituinte, devemos avaliar os limites, as possibilidades os discursos buscando fazer do nosso trabalho um instrumento de conhecimento e de democratização do saber.

Neste contexto analisemos algumas questões. A Saúde Mental, como pensá-la no bojo das transformações das políticas de Saúde? Quem se preocupa com a saúde mental da população? E por que motivo? Com relação ás prioridades na administração pública dos serviços de saúde que lugar a saúde mental ocupa? Deva ser tratada como um sub-projeto no campo da Assistência médica? Será ela uma decorrência imediata da malharia das condições de vida?

É notório que as ações em saúde mental tem ganhado expressão significativa na administração dos. serviços de saúde. O Estado tem assumido, particularmente nos últimos cinco anos, responsabilidades crescentes neste setor. Antes disto os serviços públicos saúde mental se resumiam ás internações em hospitais psiquiátricos, à assistência na área psicopedagógica, (bastante precária) e a alguns convênios de assistência

* Psicóloga com formação em Saúde Publica Professora do Curso da Pedagogia do Instituto Cultural Newton de Paiva e do Departamento da Psicologia da PUC - MG. Membro do CEPEP (Centro de Estudos e pesquisas em Educação e Psicologia)
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psicoterapêutica. Notava·se, de maneira significativa, a precariedade e a limitação de oferta de serviços bem como a inexistência de planos e projetos que integrassem ou mesmo organizassem os serviços em torno de uma política assistencial coerente.

Atualmente a situação tem uma configuração diferente. Assistimos por exemplo, em Minas Gerais, à implementação de um plano de reorientação da assistência em saúde mental.

Este plano propõe sistematizar as ações em saúde mental que já existiam a mais tempo (internação psiquiátrica) e as ações que nos últimos cinco anos, aproximadamente, foram sendo construídas de forma quase ocasional por profissionais (psicólogos enfermeiros) da área de saúde nos centros de saúde. Propõe também estender estes serviços a todo o Estado de Minas Gerais constituindo equipes de saúde mental articuladas a centros de saúde (unidade de prestação de serviços da Secretaria de Saúde do Estado de Minas Gerais).

Vai-se insinuando nos serviços públicos o perfil de uma prática que, ao contrário do que possa parecer, está mal acabada cor precedentes históricos e que revela contradições sociológicas que vem se desenvolvendo na sociedade brasileira.

Atualmente, por ações em saúde mental entende-se na área de saúde pública práticas muito diversas, como por exemplo, atendimentos psicoterapêuticos individuais e grupais, distribuições de psicofármacos, assessoria a instituições educativas psicometria, que incidem sobre outros agentes de saúde (treinamentos em saúde mental), etc.

Convém enfatizar que estas práticas orientam-se de forma muito diversificada do ponto de vista teórico e se dão em dois níveis asilar e extra-muros ou ambulatorial, os quais são respectivamente nomeados em saúde púbica, por analogia á organização da assistência médica. nível terciário e secundário/primário.

A analogia à organização da assistência médica não é circunstancial ou gratuita. A medicina ocupa um lugar de relevo técnico-político nas ações em Saúde mental apesar destas também envolverem outros corpus de conhecimento, ou corpus discursivos, como a psicologia, a enfermagem, o serviço social a terapia ocupacional.

Ao situar os precedentes históricos do planejamento público notoriamente político - em saúde mental é importante apontar para alguns aspectos da relação entre Estado e ação médica no Brasil do inicio do século, período que marca um estirão de industrialização e de urbanização.

Nesse período encontramos a preocupação governamental com a saúde sempre articulada á necessidade de controle social. A
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medicina foi ocupando em grande medida, um lugar onde anteriormente se encontrava a justiça e a polícia. Jurandir Freire Costa, em seu livro Ordem Médica e Norma Familiar coloca a questão nos seguintes termos: O Estado aceitou medicalizar suas ações políticas reconhecendo o valor político das ações médicas.

A palavra de ordem, por exemplo, neste momento, foi a SALUBRIDADE, que viria fazer frente às epidemias, febres, fogos de infecção e contágio do ar e da água. A higiene revelava a dimensão médica de quase todos estes fenômenos físicos, humanos e sociais, e construía para cada um deles uma tática específica de abordagem, domínio e transformação.1

A assistência em saúde mental sempre esteve ao que parece também a reboque da prática higienista articulada ao estado, Uma instituição que ilustra esta posição é a L.B.H.M.- Liga Brasileira de Higiene Mental. Fundada em 1923, tinha o objetivo inicial de melhorar a assistência aos doentes mentais através da renovação dos quadros profissionais e dos estabelecimentos psiquiátricos.2 Seu fundador, o psiquiatra Gustavo Riedel, já desenvolvia, na ocasião, atividades que hoje em dia são consideradas absolutamente inovadoras como: ambulatório de profilaxias das doenças mentais, serviço aberto para psicopatas, laboratório de psicologia e uma escolha de enfermagem onde eram formadas as monitoras de higiene mental. 3

Já em 1926, a L.B.H.M. desdobrava sua área de intervenção caminhando no sentido da prevenção, eugenia 4 e educação dos indivíduos, associando saúde mental a problemas de ordem cultural e social.5 Ora, este discurso ressoa coma atual. Vejamos o caso da psicologia que tem investido substancialmente no setor público, ocupando lugar de destaque com uma prática extra-muros. Ou seja, o atendimento ambulatorial e comunitário tem ficado a cargo do profissional de psicologia que vai ganhando um perfil muito interessante, que poderíamos chamar de Psicólogo generalista: um técnico polivalente e barato.

Supostamente este profissional da área da Psicologia deveria trazer para O seio da prática médica algo novo, uma leitura específica de seu objeto de intervenção. Ocorre, entretanto, um desdobramento, um alargamento da Instituição Psiquiátrica (médica) como se os fenômenos psicopatológicos ganhassem, recorrentemente, mais e mais expressão e reeditassem uma prática intervencionista sem limites (como a L.B.H.M.). Onde anteriormente se apontava o louco, agora está a gestante a mãe a criança, o adolescente, o leproso, o tuberculoso e seus respectivos grupos, como também a família, o casal, a igreja, a comunidade, até a mais completa difusão do objeto de trabalho da Psicologia: os fenômenos psíquicos, isto é nítido no relato dos profissionais de psicologia: A título de ilustração, vejamos o


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Que está expresso no relatório dos psicólogos dos Centros de Saúda de Centro Metropolitano de Saúde – CMS –: no questionamento constante das atividades desenvolvidas e através de se observar o tipo de clientela atendida, as condições físicas e o número reduzido de profissionais em proporção à enorme do demanda, concluiu-se que o trabalho do psicólogo, neste contexto é bastante abrangente e dirigido a uma clientela, onde as necessidades, antes de psicológicas são econômicas, sociais e culturais. 6


Qual é a lógica que regula esta hierarquização?
Por que se comparar, ou se reduzir a termos de semelhança, fenômenos tão diversos?

O discurso oficial chega a ser mais expressivo ainda . No documento do Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária (CONASP), na defesa da criação do Programa de Reorientação da Assistência Psiquiátrica Previdenciária, encontra-se o seguinte texto: a severa desigualdade na distribuição de renda, a acelerada expansão demográfica, a progressiva urbanização da populações, o afrouxamento dos vínculos familiares, a precariedade das habitações, a carência alimentar, as dificuldades de transporte e o desemprego, são fatores de tensão e condicionadores da demanda crescente por assistência psiquiátrica. Á pobreza, em si e por si mesma, 7 coloca essa população mais vulnerável aos distúrbios psíquicos e empresta a estes um caráter de maioridade.


Quais as consequências da associação; carência, tensão e assistência psiquiátrica? Por que se Justifica a assistência em Saúde Mental tomando a vida psíquica do ponto de vista sócio-econômico? Podemos supor que por detrás deste discurso, sustentando-o, existe um levantamento epidemiológico que trabalha este tipo de variáveis, ou seja., as relações entre saúde mental e condições de vida?
Este discurso impele a responder à severa desigualdade na distribuição de renda através da prestação de assistência na área da saúde mental. Não seria um convite à psicopatologização de questões políticas, econômicas e sociais? Em que argumentos se apóiam as afirmações do discurso oficial?
Absorvido por esta frente de trabalho, o que resta ao profissional da área de saúde pública senão se agarrar a esta fatia de mercado de trabalho compondo projetos muitas vezes inocentes de organização da comunidade, educação para saúde mental e de prevenção de doenças mentais?

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O profissional de saúde pública corre o risco de perder a dimensão de seu objeto ou trabalho a se vê encurralado entre a militância - na qual se sente na obrigação de conscientizar seus clientes - e a mistificação técnica de sua profissão - na qual deverá patologizar a pobreza. Desde sua inserção no mercado, seu objeto de trabalho toma um cunho eminentemente imaginário e dá lugar às variadas práticas profissionais em saúde mental .E quem tem fica do lado de fora de todas estas estratégias se não o próprio louco, o psicótico e derivados?

Por outro lado, será que os setores populares desfavorecidos realmente enlouquecem mais facilmente que os setores dominantes? O que se chama de loucura. de distúrbios psíquicos, no caso?

Seria interessante fazer uma breve projeção deste tipo de hipótese: diante da afirmação de que saúde mental e condições sócio-econômicas estão associadas, articuladas por uma relação de causa e efeito, não seria surpreendente o fato de pelo menos 90 % da população ainda estar fora dos hospitais psiquiátricos? Isto considerando a não atualidade do fenômeno pobreza. Recordando aqui a fabulosa obra de Machado de Assis, O ALIENISTA, que comenta sobre as aventuras de um estudioso diante da conceitualização e definição de uma política coerente de intervenção na área da saúde mental, não deveríamos, pois, nos questionar quanto à natureza e coerência destas postulações?

Devemos repensar em que se apóia o discurso oficial sobre saúde mental para não correr o risco de nos alinhar politicamente - mesmo à revelia de nosso desejo - ao lado daqueles que pensam que os setores populares desfavorecidos, depauperados, não tem competência para o gerenciamento de seu destino. Como poderiam ter, se estão na melhor das hipóteses a um passo de loucura!

Imaginemos, pois, que estamos diante de mais uma proposta de intervenção normatizadora. A extensão dos serviços de saúde mental não viria, na atual conjuntura, implementar um neo-higienismo que serviria de estratégia de controle e normatização social?

É importante acentuar aqui que não faço, exclusivamente, uma crítica à extensão dos serviços, pois estaria me contrapondo a conquistas significativas da classe trabalhadora que apontaram para a relevância da prestação de assistência em saúde.

Observo, entretanto, que a prática em saúde mental desdobra-se em áreas muito diversas, promovendo uma indefinição do objeto de intervenção. Se tudo á patológico, o que é especificamente patológico? A intervenção perde seus contornos para abrigar

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uma produção generalizada de significados que se ramifica pelos diferentes níveis do quotidiano.



Ou pelo menos que se pense sobre quem deverá incidir a política de saúde mental !

- Sobre os sadios? Quem são?

- Sobre os doentes? Onde estão? ...

Penso, que ao final deste texto, deveria apontar duas questões sobra as quais devemos deitar olhares cautelosos.


A primeira reinscreve uma das preocupações iniciais deste artigo: A Participação Popular. Ora, quais são as reais necessidades da População no que diz respeito especificamente à assistência em Saúde Mental? 0 que a população tem a dizer e quais seriam seus possíveis canais de expressão? Aqui, estaríamos reafirmando um comprometimento político com os setores populares, como desdobramento de uma postura que deveria ser determinante em todo é qualquer planejamento em saúde.

A segunda diz respeito à questão da normalização e regulação da clientela coberta, Levanto a possibilidade de que esteja havendo uma intervenção acionada pela extensão dos serviços de saúde mental que desloca e retraduz hábitos quotidianos segundo uma linguagem médica/psicológica. A ordem cultural sofreria os efeitos desta intervenção como um incitamento à mudança. Resta-nos saber em que sentidos e para qual usufruto tais mudanças ocorreriam bem como que contradições arrasta consigo.

A terceira questão é um convite de continuidade a este artigo, endereçado aos profissionais de saúde mental e, especificamente, endereçado aos psicólogos: não seria o momento de se repensar o nosso objeto de trabalho? Fugindo de todas as históricas repetições e descaminhos metodológicos, não seria o momento de nos exercitar para além da instituição médica e para além da racionalidade administrativa estatal?




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