Anais do I encontro mineiro



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NOTAS
(1) - COSTA, Jurandir Freira - Ordem Médica e Norma Familiar Editora Graal, Rio de Janeiro, 1983.

(2) - COSTA, Jurandir Freire - A História da Psiquiatria no Brasil, Editora Documentário, Rio de Janeiro, 1976.

(3) - Idem.

(4) - Grande Enciclopédia Delta Larousse: Ciências que estuda as condições mais favoráveis á reprodução e aprimoramento da raça humana, pelo cruzamento de indivíduos selecionados. O mesmo que ortogenia, seleção humana.

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FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda - Novo Dicionário da língua portuguesa: Ciências que estuda as condições mais propícias á reprodução e melhoramento da raça humana.



(5) - A L.B.H.M. apresenta um discurso fortemente influenciado pela psiquiatria alemã que subsidiou ideologicamente o movimento nazi-fascista europeu, que tomou a forma de um saneamento social. A intelectualidade brasileira enfrentava, na época, graves problemas ideológicos que a eugenia ajudou a selecionar. O regime republicano atravessava, as duas primeiras décadas da década; enfim, os efeitos econômicos da industrialização nascente agravava as tensões sociais e colocavam em procurava justificar pó todos os meios. (Costa, Jurandir Freire vide item(5).

(6) - O grifo é a titulo de acentuação – Relatório de atividades dos psicólogos dos Centros de Saúde do Centro Metropolitano de Saúde de Minas Gerais. Numa segunda versão este relatório reescreveu este período da seguinte forma: ... onde as necessidades, tanto quanto psicológicas, são econômicas, sociais e pedagógicas.

(7) - O grito é meu.

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ANÁLISE INSTITUCIONAl - ROTEiRO HISTÓRICO

Vera Zavarise

INTRODUÇÃO
Este trabalho é apenas um roteiro histórico na medida em que indica os pensamentos, os acontecimentos que contribuíram para formação da Análise Institucional, sem no entanto, aprofunda-los, e sem a pretensão de ter esgotado todas as contribuições. Constitui, basicamente, uma sistematização do que se encontra disperso nos textos dos autores indicados na bibliografia básica da cadeira de Intervenção Psicossociológica, ministrada pela Profa. Maria Regina Godoy Almeida, no curso de Psicologia da UFMG, ano de 1985. Não sendo possível proceder uma extensa pesquisa sobre os trabalhos com grupos no Brasil, particularmente com Análise Institucional, limitei-me a indicar a pioneira experiência de Minas Gerais. Agradeço à profa. Marília Mata Machado pela orientação e gentileza de ceder parte do material consultado.
ANÁLISE INSTITUCIONAL - ROTEIRO HISTÓRICO
Das várias definições dadas sobre Análise Institucional podemos apreender o seguinte: é um método de análise social, que privilegia um conceito de instituição, diz respeito à grupos, organizações e instituições, intervém ao nível de elucidar e/ou mudar, relações, isto é, tem um caráter intervencionalista e político. Esse aspecto político é enfatizado por René Lourau (1977), socioanalista francês, quando diz: a questão política se acha no centro da Análise Institucional.

Pelos elementos destacados acima, vemos que para melhor situar essa prática devemos recuperar seu caminho histórico. A história da Análise Institucional está com a história do desenvolvimento do capitalismo, dos estudos dos grupos, dos movimentos contestadores, na forma que, resumidamente, tentaremos mostrar.

George Lapassade (1983) ao historiar o seu movimento, entre 1963 e 1964, distingue três períodos no desenvolvimento econômico-social do mundo ocidental capitalista, tal como os formulou Alain Touraine (Guilherm, 1976), determinantes para o nosso estudo.

O primeiro período, séc. XIX, tem a marca de uma fase ainda inicial do Capitalismo, com o início das transformações sociais decorrentes da grande indústria, uma abundante força de trabalho, um operariado que tem ainda um ofício, e um sindicalismo incipiente.

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São importantes nesse período as ideologias anarquistas e a formação das primeiras doutrinas sociológicas e políticas da sociedade.

Fourier, filho da Revolução Francesa, socialista utópico, propõe uma sociedade formada por pequenos grupos, os Falanstérios, e é contestado por Proudhon, auto proclamado o primeiro anarquista, que sem negar a instância grupal da sociedade, propõe a Associação mútua como solução para o problema social. (Guillerm, 1976).

Lapassade (1983) considera Fourier como o verdadeiro precursor da psicossociologia dos pequenos grupos e mesmo das técnicas grupais.

Saint-Simon (Lapassade, 1983) introduz a idéia de Organização, de substituição do político pelo gerente, e assim é tomado como o precursor de uma corrente tecnocrata que no século seguinte viverá seu apogeu.

Augusto Comte cria a Sociologia e a define como a ciência das instituições. Afirma que caberá aos sociólogos educar o proletariado nos pequenos grupos que se organizam espontaneamente. E a proposta da Sociocracia, que Lapassade (1972) resgata para afirmar que desde o início a Sociologia tem a intervenção como intenção.

Karl Marx rejeita as propostas, até então formuladas da organização da sociedade, e da ênfase à auto formação do proletariado, à discussão, à consciência social e a crítica das ideologias (Lapassade, 1972). Prega a mudança radical com a eliminação do sistema capitalista. Para ele a sociedade de grupos; nasceria após a decadência do Estado e da Burocracia. Coloca as Instituições na superestrutura,. mas não aprofunda este conceito. Bakunin, promove à síntese anarquismo-marxismo-comunismo. Critica violentamente o Estado e vê em Marx manifestações burocráticas (Guilherm, 1916)

O segundo período, início do séc. XX, é marcado pela evolução do capitalismo para uma forma imperialista, de grandes empresas multinacionais. Forma onde a burocracia condenada por Marx e elogiada por Max Weber se impõe, tornando-se um problema fundamental da organização e do poder. É o período da racionalização, da necessidade de regulação em todos os estágios da produção, do operário profissional.

Rosa de Luxemburg tenta revalorizar a idéia de espontaneidade das classes operárias, que teria como resultado a gestão, da sociedade pelos produtores, uma auto-gestão, através de uma forma institucional nova, o conselho operário (Guillerm. 1976).

O conceito da Sociologia como ciência das Instituições é sistematizado por Durkheim, que se interessa por grupos como a expressão dinâmica social e outros conceitos importantes para

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a compreensão dos processos coletivos, formando assim uma base para a psicossociologia dos pequenos grupos (Saidon, 1983).

Lapassade (1983) considera clássica e conservadora a concepção de Durkheim e Weber sobre instituições e contrapõe à ela a concepção dinâmica e revolucionária de Rousseau, (Guillerm, 1916), neste período adotada apenas pelos anarquistas e grupos libertários do movimento operário. À esses primeiros sociólogos é imputada uma visão objetivista das Instituições onde não são consideradas as determinações das relações de produção, a psicologia Individual, o momento atual e a luta de classes. Apesar das críticas, Lapassade assinala que a escola francesa de, sociologia sempre reservou um lugar aos processos de consciência coletiva.

De capital importância neste início de século é o surgimento da Psicanálise de Sigmund Freud. Ele cria um método que leva ao conhecimento da mente humana e diz que o auto conhecimento á transformador.

O desenvolvimento da Psicanálise será fundamental para a Análise institucional.

Lapassade (1983) considera J. Pratts o pioneiro das psicoterapias de grupo, com os trabalhos que realizou em grupos de tuberculoses em 1906.

A partir de 1924, no bojo das críticas à burocracia, surgem a Sociologia Industrial, buscando métodos de tratamento, e a Psicossociologia, buscando solucionar problemas de rendimento na produção. Essa psicossociologia industrial, segundo Touraine (Lapassade, 1983), desde o seu nascimento definiu a Empresa como uma organização, um sistema de redes, status e papéis.

Os trabalhos de Elton Mayo para a Western Elétric Company, examinando problemas relacionados com o rendimento na produção, marcam o movimento da Relações Humanas, o nascimento de uma psicossociologia industrial centrada na análise dos grupos de trabalho (Lapassade, 1983), com a qual foi possível analisar a vida social da equipe, seus conflitos internos, seus jogos, suas relações.

Desde 1920, J.L. Moreno desenvolve técnicas de investigação social chamadas sociométricas e toma como fatores terapêuticas principais a catarse e a dramatização dos conflitos psicológicos. Em 1931 ele cunha a expressão Psicoterapia de grupo.

A Sociometria de Moreno á interpsicológica, intui a dimensão institucional nos grupos e se apresenta como técnica de mudança social.

Em 1936 P.Wender e P. Schilder utilizam técnicas psicanalísticas com grupos terapêuticos. É a primeira referência de utilização das técnicas e teoria psicanalítica para um trabalho não individual

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Kurt Lewin, inicialmente psicólogo experimental interessado na psicologia individual desenvolve, a partir de 1938, a teoria da dinâmica de grupo aparece em 1924. Lewin introduz o conceito de pesquisa ativa, Action research, comprometida com as mudanças que pode desencadear, tendo a investigação e a intervenção uma estreita relação. Detecta que constituem aspectos essenciais na vida dos grupos a mudança e a resistência à uma mudança. Estuda a questão da decisão e da liderança. O campo social é o objeto do seu interesse nos últimos anos de vida. Em 1946, a partir de uma investigação sobre conflitos raciais conduzida por Lewin, Lippit, Benne e Bradford, é criado o National Training laboratory in Group Development, N.T.L. (Ardoino, 1967).

A partir da década de 40 a Psicoterapia de grupo adquire o status de cientificidade. Vemos a consolidação das idéias de grupo como algo mais que a reunião de pessoas, e a intervenção como trabalho do psicólogo. Os trabalhos de Mayo, Moreno, Lewin Freud são determinantes nessa passagem da agrupação para o grupo.

A segunda Guerra mundial nos remete para o terceiro período. Mudanças tecnológicas transformam a produção e a gestão. Nasce a sociedade neo-capitalista, onde a burocracia perde a sua rigidez e é capaz de assimilar os desvios e praticar a dinâmica de grupos. Os sistemas de controle social se modernizam e os conflitos econômico-político-ideológico se transformam em problemas de psico-profilaxia e psicoterapia. O operário é agora, especializado.Na verdade é alienado.

Multiplicam-se as práticas grupais. A necessidade de extensão do atendimento em saúde mental á setores mais: amplos da população, e a necessidade de recuperação rápida da mão-de-obra deteriorada, determinam, entre outras, o surgimento de programas comunitários e o desenvolvimento das técnicas terápicas de grupo.

O NTL , em 1947, em Bethel, promove um seminário experimental onde é testado um novo, método de trabalho com grupos, o Training Group (T.Grupo), que visava uma modificação profunda das atitudes dos elementos de um grupo através de uma formação experimental. Seriam programas de formação centrados sobre a experiência, métodos adequados de análise e feed-back (Ardoino, 1967). Fela Moscovici (1965) que 15 anos mais tarde executará no Brasil uma série de treinamentos com o método de Laboratório de Sensibilidade, uma variante do T. Grupo. assim o define:o objetivo do T. Grupo. era mobilizar forças de grupo para apoiar o crescimento dos membros como indivíduos singulares, simultaneamente com o crescimento como colaboradores.


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Osvaldo Saidon (1983), psicanalista argentino, historiando o Movimento Institucionalista, assinala nesse começo do terceiro período o encontro entre a indústria e a psicossociologia. A psicologia desempenhando a função de ocultamento do político, do social, do econômico; tomando os problemas humanos exclusivamente na linguagem da subjetividade e delegando ao especialista técnico o encargo, de resolvê-los.

O desenvolvimento da Psicanálise e da Microssociologia de Kurt Lewin permitem, no entanto, um pensamento original nas teorias de grupo. grande a influência de Lewin sobre os psicanalistas europeus. W.R. Bion, na Tavistock Clinic de Londres partindo de um trabalho de readaptação de prisioneiros pelos métodos de grupo, desenvolve um novo método que tem de peculiar a utilização de conceitos psicanalíticos, especialmente da psicanálise de Melaine Klein. Destaca a importância das atitudes do monitor e da relação que o grupo estabelece com ele, tal como na transferência psicanalítica (Weil, 1967).

Em 1948 alguns ideólogos marxistas desencadeiam uma grande crítica r Psicanálise e a Psicanálise e a psicossociologia das Relações Humanas. São estas acusadas de substituir a infelicidade coletiva, de ordem política, por uma infelicidade individual, afetiva, fazendo cessar a luta de classes na empresa. A negatividade é considerada como desvio, pelos sociólogos, e como esquerdismo, peJos marxistas ortodoxos(Lapassade 1983).

Elliott Jaques, psicanalista inglês, diretor do Tavistock Institute for Human Relation, onde pesquisa com Bion, desenvolve um método para o qual utiliza sua experiência de psicoterapeuta e conhecimentos de teoria das organizações. Denomina-o Sócio-análise e afirma: o papel do socioterapeuta deve ser um papel de esclarecedor, que através de atitudes interpretativas apropriadas, visa tornar manifesto o que está latente. (Dubost, 1968).

Surgem propostas de um trabalho ideologizante no campo da saúde mental.Pichon-Riviére, na Argentina, inicia uma convergência da Microssociologia de Lewin e da Psicanálise com os conceitos do materialismo histórico. Cria a teoria dos Grupos Operativos onde é realçado o aspecto da inter-dependência grupal. Na França, Jacques Lacan desenvolve uma escola de psicanálise que será influente em momento posterior.

Em Bethel, 1955, são formuladas as primeiras elaborações teóricas sobre o T. Grupo, por Brandford, Shepard e outros do NTL, num seminário internacional do qual participam os franceses R. Pagés, M. Pagés e C. Faucheaux. Divulgado na França a partir da 1956, o método de T. Grupo torna-se, neste país, base para o desenvolvimento de quatro correntes:


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Groupe Français d’Estudes de Sociometrie, dirigido por A. Ancelin-Schutcemberger: Mouvement Sócio-Analytique de M. e J. Van Bockstale; Association pour la Recherche et L’Intervention Psychosociologiques (A.R.I.P.) de M. Pagés; e Association National pour lê Developpement des Sciences Humaines Appliqués (A.N.D.S.H.A.) dirigida por J. Ardoino (Ardoino, 1967).


A sócio-análise de Van Bockstale visa uma modificação do grupo e não do indivíduo de um grupo. Trabalha com os chamados grupos naturais, aqueles que existem antes da experiência e irão continuar juntos depois. As intervenções do socianalista se fazem exclusivamente ao nível do grupo, diferentemente do T. grupo que trata do nível individual e grupal (Weil, 1967).
No Brasil, início de 1960, professores da UFMG trabalhando para o Banco da Lavoura de Minas Gerais S.A., realizaram a mais ampla experiência brasileira de dinâmica de grupo aplicada a Relações Humanas. Dirigida por Pierre Weil e tendo como colaboradores imediatos Célio Garcia e Rui Flores, que haviam estudado em Paris no Centro de Sócio-Análise, essa experiência tinha por objetivo a formação e o aperfeiçoamento de chefes. Utilizavam uma técnica própria denominada Desenvolvimento em Relações Humanas (DHR), onde estavam integradas as técnicas de T. grupo e da sócio-análise de Van Bockstale (Weil, 1967).
A década de 60 é de suma importância e nela se situa o nascimento de novas e significativas correntes do pensamento dos grupos e das terapias. As conturbações desse período fazem com que alguns autores localizem nos anos 60 o terceiro momento da sociedade capitalista, ao contrário dos que o situam após a 2a. guerra mundial.
Armando Bauleo (1977) afirma que sempre existiu uma Psicologia Social Oficial, institucionalizada, e outra marginal. Enquanto a Psicologia Social Oficial de definia como ciência da interação, o pensamento marginal se definia a partir da relação psicanálise-materialismo histórico, revelando as relações de poder e a luta da classe. Vale observar as críticas de Jean Paul Sartre à Moreno e lewin, e suas idéias sobre a constituição de um grupo (Weil, 1967).
A revista Socialismo ou Barbárie, publicada na França desde 1948 e da qual fez parte Lapassade, veicula as idéias de Claude Lefort e Cornelius Castoriadis e questiona o poder. E o lugar da interrogação radical sobre as Revoluções, da contestação da tradição autoritária reacionária e da autoridade de movimento operário em suas formas de organização e em sua ideologia marxista tradicional (Matos, 1981). A palavra auto-gestão aparece na língua francesa, traduzida literalmente do

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palavra servo-croata que designa a experiência político–econômico social da Iugoslávia dirigida por Tito.



O conceito atual de auto-gestão, no entanto, nada mais é que a fim de um longo processo, muitas vezes reprimido desviado e deformado, que poderíamos dizer que começa com Pitágoras ao enunciar que o homem é a medida de todas as coisas, e tem como axioma fundamental a igualdade das pessoas. Não se trata apenas de uma outra forma de fazer funcionar e administrar as empresas, exige uma transformação completa da sociedade em todos as planos (Guillerm,1976), a eliminação da relação de poder, uma nova relação com o saber, etc.

A Psicoterapia Institucional, na. França, nos paises anglo-saxões e na Itália, aprofunda a crítica dos antigos manicômios e concebe o efeito terapêutico como efeito institucional e não como ato localizado, restrito ao grupo. Tem como experiência a psicanálise, o marxismo e o lacanismo, e como expoentes, entre outros, Tosquelles, J. Oury, G. Michaud F. Guatarri. Trabalha como o conceito de analisador desenvolvido inicialmente por Paviov como um dispositivo experimental intermediário, mediador entre realidade e o conhecimento. Esse conceito após a influência da psicanálise passa a se referir à algo, natural ou construindo, capaz da revelar o oculto e desencadear mudanças (Lapassade, 1979 ).

Paralelamente desenvolve-se a Pedagogia Institucional, com propostas de pedagógica uma crítica ao ensino conservador, á ciência e ao saber a serviço do Poder. São dessa corrente Lapassade e René lourau.

Em 1961, Carl Roger, psicoterapeuta americano introduz o conceito de não-diretividade nas práticas terápicas e torna o centro das análises não apenas a compreensão da dinâmica grupal, mas o questionamento da relação terapêutica. Suas idéias vão influenciar profundamente os movimentos de contestação psiquiátrica.


Desenvolve-se as chamadas técnicas de Potencial Humano (Roger, Gestalt-terapia, bioenergética, grupos de encontros, etc). Uma outra corrente retoma Reich articulando os conhecimentos psicanalíticos sobre o inconsciente grupa com a concepção materialista-histórica.

São condenadas as correntes de Potencial Humano e a Psicossociologia. Uma pelo apolitismo e psicologismo, e outra por desconsiderar a dimensão institucional nos grupos.

Em 1962 surge na França a corrente de Análise Institucional, com Lourau, Lapassade, Guatarri, Deleuze, M.Pagés etc. A análise Institucional vai procurar abordar o grupo na relação instituinte-instituído, com uma leitura dialética, colocando a instituição como lugar de reprodução das contradições sociais. A

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instituição é então definida como forma que assume a reprodução e a produção das relações sociais num modo de produção. (Lapassade, 1972).



Esse movimento institucionalista desenvolve-se como opção não oficial dentro do capitalismo do Estado. Tem como referencial ideológico a sociologia materialista-história , e busca o revolucionário ente saberes e que fazeres. A psicoterapia institucional e a pedagogia institucional estão na sua origem. Se num dado momento a sociologia e a psicologia social fazem do conceito de grupo o rival do conceito de instituição, a Análise Institucional vai, ultrapassando o sociologismo, rever essa colocação. A Análise Institucional se coloca como método de intervenção no terreno e não mais apenas como método terapêutico ou pedagógico. O grupo como intermediação entre as estruturas individuais e a estrutura social, segundo Bauleo (1977). A Análise propiciando o reencontro entre o significante (normas da empresa)e o significado (a vida do grupo ) segundo Célio Garcia (1970).

Lapassade (1972) define a Análise Institucional como método de Análise social com base em observação e documentos centrada no conceito de instituição. Tomada num sentido mais restrito, na situação de instituição na prática social dos grupos das organizações, é então denominada Socioanálise.

De 1962 a 1968 o terreno da intervenção da socioanálise na França é quase sempre o meio universitário. No Brasil, desde 1965, o grupo de psicologia social da UFMG, chefiado por Célio Garcia, desenvolvia estudos e experimento. Influenciados pelos trabalhos de mudança planejada dos discípulos de Lewin e pela equipe da A.R.I.P.; utilizava o referencial psicanalítico desta e dos trabalhos de Bion e Elliott Jaques. Um convênio com a vinda de professores francesa lhes facilitava a aquisição de livros, a vinda de professores franceses e a ida de bolsistas (Mata Machado, 1985).

Em 1964 diz Lapassade: o psicossociólogo é primeiramente aquele que, mediante a sua prática, institui na sociedade um certo campo da palavra. A regra do grupo de análise é “tudo dizer”, o princípio da intervenção é acolher a palavra do grupo e colocá-la em circulação, o propósito é a liberação de uma palavra plena, além das ideológicas, além do conhecimento, além da utilização da palavra nos grupos para efeito de dominação.

Esse discurso antecipa e repercute no movimento francês de maio de 1968. Vemos esse movimento como um símbolo daquele movimento social, pois vários outros movimentos de contestação eclodiram no mesmo ano.

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O Maio francês contesta o fenômeno burocrático, criticas as formas tradicionais da política o autoritarismo: recusa-se vida burguesa, medíocre, reprimida e opressiva. Geismar, professor e líder marxista, afirma - a partir daquele momento, luta de classes (entendida, como luta entre á burguesia e o proletariado)deixou de ser a única chave para interpretara história. Os protagonistas de 68 foram os considerados secundários sob o ponto de vista da luta de classe: os estudantes, os intelectuais, os jovens (Matos, 1981).

Nos grafites desse movimento percebemos idéias comuns ao Movimento Institucionalista (Análise Institucional):

CHEGA DE ATOS QUEREMOS PALAVRAS. A PALAVRA É UM COQUETEL MOLOTOV.

AQUELE QUE FALA DE REVOLUÇÃO SEM MUDAR A VIDA

COTIDIANA TEM NA BOCA UM CADÁVER.

ABRIR AS PORTAS DOS ASILOS DAS PRISÕES E OUTROS LICEUS.

CONSTRUIR UMA REVOLUÇÃO E TAMBÉM ROMPER TODAS

AS CORRENTES ANTERIORES.

É PROIBIDO PROIBIR, LEI DE 10 DE MAIO DE 19684

A partir de 68 a Análise lnstitucional se institucionaliza sob forma de associações. A análise dos acontecimentos políticos de maio de 68 e suas consequências, modifica as concepções de alguns institucionalistas como Lapassade, que nos diz: a repressão da sociedade instituinte não pode ser suprimida nem por uma análise intelectual e puramente teórica, nem por uma tomada de consciência. A analise não pode preparar a crise das instituições, e esta ao contrário, que provoca a análise, a produz e a Socializa. (Baremblitt, 1972).

O objetivo da Socioanálise pasta a ser a própria instituição da análise em seus aspectos ocultados ou reprimidos. O conceito de analisador se impõe como uma necessidade para compreender acontecimentos sociais. A auto-gestão é o excelente analisador histórico e crítico dos sistemas capitalistas e burocrático, transversos no grupo.

Iniciam-se os movimentos anti-institucionais tais tomo a anti-psiquiatria, anti-escola etc, através de Coopér, Basaglia, lllich, Szasz, Berlingue, Deleuze, etc. (Baremblitt, 1982).

René Lourau (1977), a partir das análises de Castoriadis, considera o conceito de instituição, dialeticamente, expresso em três momentos; instituindo, instituinte e institucionalizado.

O primeiro momento - o da Universalidade – onde a instituição é a ordem estabelecida, os modos de representações e organização ditos normais, tais como o casamento, o salário, a educação. E o instituído.

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O segundo momento - o da particularidade - onde as determinações materiais e sociais vão negar o momento anterior exprimindo a negação do momento precedente, o instituído. É o instituinte.

O terceiro momento – o da Singularidade - é onde encontramos a instituição nas formas sociais visíveis, dotadas de organização jurídica e/ou material. É o institucionalizado.

Lapassade afirma então:

Isolar o momento da Universidade para criticar o conceito de instituição é cair numa concepção positivista, erro dos sociólogos idealistas e marxistas ortodoxos, isolar o momento da Particularidade é cair na ideologia das "necessidades", erro dos economistas e da psicologia dos grupos, isolar o momento da Singularidade é autonomizar a racionalidade e a positividade das formas sociais, em detrimento da história das contradições e da luta de classes, erro da sociologia das organizações.

(Lapassade, 1972).

A forma de atuação da Socioanálise fica bem clara na exposição feita por lapassade (1972), ao comparar as três formas de intervenção sociológica - a intervenção organizacional, a intervenção psicossociológica e a intervenção socioanalítica:

A intervenção organizacional é definida como uma entrevista de longa duração efetuada em terreno social determinado e por solicitação do cliente. Os sociólogos da organização privilegiam as reformas do organograma, limitam sua atuação à estrutura formal.

A intervenção psicossociológica é definida como uma série de atos efetuados por uma equipe mediante solicitação de um "cliente" que pode ser uma organização social ou mesmo um governo. O trabalho de Kurt lewin é o exemplo dela. Nesta intervenção M. Pagés distingue 3 fases: uma tomada de consciência, um diagnóstico a uma ação. Essa ação, no entanto, não vai além da reforma do organograma, do estabelecimento de comissões e da mudança de algumas normas.
A intervenção Socioanalítica, ou Análise Institucional, ao contrário das outras, tem uma, constante preocupação em analisar sua própria implicação no progresso da intervenção. Teríamos uma Análise Institucional ao proceder da seguinte forma:

- análise da demanda oficial formulada pelos responsáveis pela organização, e da demanda implícita que se encontra atrás da demanda oficial;

- auto-gestão da intervenção, onde o grupo cliente vai determinar os horários, no de reuniões, pagamento etc;

- a regra do tudo-dizer, tentativa de explicitação do não-dito. Esses não ditos são tomados como reveladores da estrutura.

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institucional e do não-saber que rege as organizações;



- elucidação da transversalidade, isto é, revelação dos reflexos, na organização, das funções macro-sociais de produção, educação, ideológicas, divisões de classe etc. A análise da transversalidade provocará resistências que revelarão as relações dos clientes com o micro-sistema social;

- elaboração da contratransferência - análise das respostas que o grupo fornece:

- elaboração ou elucidação dos analisadores, elementos que enunciam as determinações da situação, por sua conduta de rompimento com a lógica da organização. A Análise Institucional trabalha com o que chamamos três níveis de análise - o grupo, a organização e a instituição. Não se trabalha com esses níveis em separado, nem cronologicamente nem em termos de objetivos são instâncias de um desenvolvimento do determinante – a dimensão institucional, lugar onde se encontra o inconsciente político, onde se cruzam as transversalidades sociais e as instâncias do modo de produção. (Garcia et alli,1973).
Em 1971 Lapassade distingue duas tendências de Analise Institucional na França: a Análise Institucional dos sociólogos e dos Institucionalistas.

Max Pagés critica a Análise Institucional acusando-a de eliminar ou ocultar o psicobiológico. Em 1974 nos diz: do massagista, do dançarino, do artista ao agitador político, passando pelo psicanalista, não se sabe mais hoje em dia o que vem a ser o psicossociólogo. (Saidon, 1983).


O convênio entre a UFMG e a Embaixada Francesa possibilitou a vinda ao Brasil de M. Pagés (1968). André Levy (1969) e Lapassade (1972). Célio Garcia participou, em 1971, dos trabalhos de Lapassade e Lourau em Bruxelas. Em 1972 vários professores da equipe estavam em Paris fazendo cursos e entre entrevistando-se com Foucault, Lourau, Levy, etc. quando da visita de Lapassade, vivenciaram, como treinamento, um trabalho de Análise Institucional. O grupo desenvolveu uma produção teórica e prática reconhecida no país.
Em 1978 é realizado, no Rio de Janeiro, o Primeiro Simpósio Internacional de Psicanálise, Grupos e Instituições, com a presença de Basaglia, Guatarri, Bauleo, Rodrigué, Baremblitt, etc. Pouco depois é criado o IBRAPSI, Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições do Rio e de São Paulo, que vai trabalhar com o método de Análise Institucional.
Gregório Baremblitt, na sua exposição sobre o II Simpósio internacional de Psicanálise, Grupos e Instituições, de 1982; assinala que no espectro de posições que integram o que

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denominamos Movimento Institucionalista, pode-se encontrar uma gama variada no que diz respeito a alcances, propósitos e resultados. O movimento precisa ainda de muita confrontação interna e externa, assim como de muita experiência prática para aproximar-se da maturidade.

A fala da Baremblitt nos remete a pensar a Análise Institucional como uma teoria não fechada, que provavelmente hoje continua se reformulando. Esse estar-se-fazendo nos leva a esperar e ensejar novas colocações da Análise Institucional para os fazeres desses anos 80.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ardoino, J; El grupo de diagnóstico Instrumento de Formação. Madrid:

Rialp. 1967.

Baremblitt, G.; Grupos, Teoria e Técnicas, Rio de Janeiro:

Graal - IBRAPSI, 1972.

Baremblitt, G.; O Inconsciente Institucional, Petrópolis:

Vozes, 1984.

Bauleo, A.; Constrainstituicion Y Grupos, Madrid: Fundamentos, 1977. Dubost, J.; Os Métodos de Intervenção Psico-Sociológica, 1968 (mimeo).

Garcia, C e outros; Análise Institucional: Teoria e Prática, Revista de Cultura Vozes, no 4, ano 67, 1973.

Garcia, C.; Conjuntura Teórica e Controvérsia Experimental, 1970 (mimeo).

Garcia,C,:; Análise Institucional, 1970 (mimeo).

Guillerm, A. e Boudet, Y; Autogestão: Uma Mudança Radical, Rio de

Janeiro: Zahar, 1976. -

Lapassade, G.; Grupos, Organizações e Instituições, Rio de Janeiro:

Francisco Alves, 1983.

Lapassade, G. e Lourau, R.; Chaves da Sociologia, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.

Lapassade, G.; El Analisador y el Analista, Barcelona: Gedisa, 1979.

Lourau, R.; Analisis Institucional y Socioanálisis, México: Nueva Imagem, 1977.

Mata Machado, M. N; Mudanças em Organizações Sociais; Uma avaliação crítica, Rio de Janeiro, 1972 (Tese mimeo).

Mata Machado, M.N.; Transversos do Social e Alquimias da Prática em Psicossociologia, 1985, (mimeo).

Matos, O.C.F.; Paris 68, as barricadas do desejo, São Paulo: Brasiliense,

1981.
99
Moscovici, F.; Laboratório de Sensibilidade, um estudo exploratório, Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1965.

Saidon, O.; Práticas Grupais, Rio de Janeiro: Campus 1983.

Weil, P. e outros; Dinâmicas de grupos e Desenvolvimento em Relações Humanas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1987.

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OS TEXTOS DO PAINEL
HERESIAS A UM QUADRO:

PERCEPÇÃO SINGULAR DE UMA INSTITUIÇÃO


Concluímos, numa das sempre, tumultuadas reuniões no setor de "Psicologia Social, que algumas associações de Imagens ou palavras não poderiam ser feitas no interior da Universidade. Entre xícaras, ou melhor copos, de chá, pão de queijo e uma revista aberta num artigo sobre bruxarias, concordamos que um certo pensar deve, necessariamente, ser processado fora dos muros imaginários - pois os reais já foram abolidos por um arquiteto mais audacioso - da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Para mantermos mais arejadas as nossas mentes pensantes teríamos que investir no além muro, cujos resultados dificilmente retornaria ao saber acadêmico.

Em minha casa, despindo-me das roupas de trabalho e usando uma malha justa e confortável, relacionei tal fato à nossa Impotência de retirar um quadro da parede. Uma antiga pintura que representa Kant falando aos seus colegas ou discípulos e que está fixada numa sala do saguão principal. Os que chegam de fora se espantam com a representação pictórica e ao comentar o seu desagrado recebem, imediatamente, a aprovação de todos. Mas o quadro persiste ali fixado e com o tempo vamos nos acostumando a ele. O incômodo passa a desapercebido em pouco tempo. Os de fora que, por acaso, permanecem iniciam, por um processo ritualísco, a sua reverência ao conhecido quadro. Caso contrário, são detonadas as fórmulas misteriosas (ou nem tanto? ) de exclusão.

Uma instituição do saber, sobre a estética, a comunicação, a sociologia, a psicologia, a história, a política, etc, mantêm aquele grande quadro na sala de reunião da congregação, órgão máximo de seu funcionamento. Mantén-o ali, como um símbolo da razão crítica, desta razão que é a razão máxima do seu existir. Símbolo de uma instituição da racionalidade oriunda da ilustração e que tem na dialética sua conquista mais recente. Uma Instituição da modernidade que, com toda sua força, propõe um determinado pensamento filosófico-estético, fundado na razão técnica-científica para o domínio da natureza exterior e humana. Fundada no princípio racional que tem produzido, como fruto do seu próprio pensar dialético, a irracionalidade da destruição constante. Pois sabemos que a modernidade com toda sua, utopia, sua luta contra

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o passado, sua crítica e sua estética de vanguarda não conseguiu produzir um momento ou um instrumento eficaz de contra dominação. Por isso, aquele símbolo continua ali, intocável, inquestionável.

Nenhum dos belos audio-visuais da estética de um Laterza, nenhum doa traços ainda indecisos dos cartazes do laboratório de Comunicação, nenhuma pesquisa historiográfica de um Inglésias, nenhum argumento político de Sandra, nem o toque feminino de Celina, nem a fúria do inconsciente psicanalítico de Célio substitui aquele quadro. Nada toca nele. O todo Poderoso patrimônio. A cada dia, como que martelado à noite, o prego que o sustenta penetra ainda mais fundo na parede parda.

Ninguém pergunta pelo autor da obra. Não importa quem construiu o objeto sacro. Ele continua como totem da nossa adoção.

Não perguntem pelas expressões, pela relação figura-fundo ou luz-sombra. Evidente que ele não existe como arte, senão como objeto sagrado. Como controlador de um pensar possível dentro da Universidade. É ele que vela por nossas mentes pensantes, que dita as normas do viável na casa. Como deus-pai, onipresente, mantêm-se imperturbável às diferentes camadas de tinta que são acrescidas à parede ao seu redor.

É hora de voltar ao trabalho. Coloco minha. larga calça jeans e, de súbito, lembro-me da poesia-ciência de Lúcia Afonso, minha discípula maior. De repente cresce a esperança de que, dedicando-lhe esta nota, a gente possa, um dia assistir a retirada de tão horripilante objeto e quem sabe, constituir alguma alternativa, que, ao ser emoldurada, possa substituir o terrível quadro.

Elizabeth de Melo Bomfim Novembro-1985


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MANIFESTO SOL-AR: EM PROL DO PÓS-MODERNO
Para que entre o sol nas instituições, quebrando a separação energia-matéria. Que invada as mentes pensantes, recriando as filosofias e ciências humanas. Que outra arte, não-moderna, vá de encontro às heresias da modernidade, questionando a super-importância da história, o hiper-racionalismo e o endeusamento da contradição dialética. Que possamos viver o presente sem necessidade de utopias, desfocando o futuro do centro de nossas atenções. Que a felicidade seja sentida e não consumida e que o homem tenha um valor além de uma embalagem descartável. Que seja importante o sentir, que um novo espetáculo possa mudar o gesto narcisista. Que possamos transpor as barreiras da forma-conteúdo, da figura-fundo, da luz-sombra. Que á arte, ao sair dos museus e casas de espetáculos, possa alcançar as ruas, praças e casas embelezando o cotidiano. Que o todo seja cada um, cada um o todo, o todo o nada, refazendo o lógica formal. Que possamos vislumbrar a

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saída, ponto de chegança e abrir os corações às novas visões. Universalismo no eu, eu no universal, que possamos revirar as legitimações éticas e estéticas do grande princípio racionalizador da tecnologia moderna. Que os movimentos ondulados possam questionar validade do progresso técnico desvairado. Que possamos reconhecer que a era das ideologias trouxe a sombra e a tristeza nas grandes metrópoles que a gerou. Que possamos recompor o sentimento autóctone da coletividade, e resistir ao impuro ar nos nossos pulmões. Que, além do direito á diferença cultural, possamos estabelecer o contato desafiador e sedutor. Que haja luz nos fins dos labirintos desta idade da crítica, da crítica, da crítica. Que a alegria, além do riso explodido, seja a aprovação da vida singularizada. Que a agradável sensação do sol em nossas peles possa enfrentar a guerra nas estrelas. Para que a distância entre as razões possa aproximar os corações, dedico esta manifestação à REGINA HELENA CAMPOS.


Elizabeth de Melo Bomfim

Outubro-1985

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"-,
PRAÇA DA LIBERDADE (para Beth Bomfim)



Lúcia Afonso/85
Tenho um caso de amor com a praça

da liberdade que amei

de amores muitos na praça:

A imaginou a praça e ali,

eu passei com B, ocasionalmente C. me levava a ver

a fonte que hoje não trabalha.

E não amava a praça

o que me revelou suas falhas. J. e R. eram plantas vivas que só existiam na praça.

E até os meus amores noturnos, soturnos, se esvaíram e não por seu duplo caráter de amor e prostituição,

mas simplesmente enfraqueceram de uma doença rara:

ficando sempre na cama,

eles nunca foram à praça.

É os tristes estrangeiros minguaram porque lha faltava

a luz da lua minguante

que só penetra na praça.

A mesmo na memória

dos amores que eu não tive

mas circularam por mim,

a praça é quase tudo:

é noite que me embala,

o footing, a liberdade, o espaço amplo onde braços e olhos dados

se procuram e se encontram.

Como um gato ama a casa, Eu amo a praça.

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E NÓS NA CONSTITUINTE?


À Comissão Mineira para a Constituinte A/c. do Prof. Edgard G. da Mata Machado

CAPITAL
Belo Horizonte, 31 de outubro de 1985.


Dentre as várias sugestões que poderíamos dar para a Constituição Brasileira, gostaríamos de destacar duas:

- Que a nossa constituição abra espaço para uma maior participação direta da sociedade brasileira nas decisões que afetem a nação como um todo (referendos, plebiscitos). Alguns países da Europa já facilitam esta participação, e alguns pensadores vêem ar um progresso no sistema democrático (ex. Jean Paul Sartre e a democracia direta). Os meios eletrônicos de telecomunicação viabilizam e barateiam estes sistemas de consulta aberta.

- Que os direitos da criança sejam contemplados na nova Carta Magna. para tanto, os direitos da criança elaborados pala ONU/Unicef poderiam servir de sugestão.

Na Oportunidade, assinalamos o nosso protesto pela maneira como o Governo e os grandes partidos têm tentado se apropriar da Constituinte, recusando a consulta popular que, já se sabe de antemão, decidiria por uma Assembléia Nacional Constituinte autônoma.


Atenciosamente,

Júlio de Miranda Mourão Professor do Depto, de Psicologia FAFICH - UFMG


Em tempo, uma terceira sugestão:

- Que o Meio Ambiente tenha também os seus "direitos" e não seja tão degradado e vilipendiado como vem sendo, por sistemas irracionais de explorações dos recursos naturais.

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OS TEXTOS ANEXOS

SUGESTÕES PARA A DISCIPLINA DE PSICOLOGIA COMUNITÁRIA E ECOLOGIA HUMANA


Marilia Novais da Mata Machado
As sugestões que se seguem foram apresentadas oralmente em aula ministrada no encontro de 1985 da SBPC, em Belo Horizonte, na abertura do curso Psicologia Social e Educação Popular, promovido pela ABRAPSO (Associação Brasileira de Psicologia Social). Foram apresentadas sob o título de Reflexões sobre a Psicologia Comunitária. Decorrem da prática didática de um semestre na disciplina que tem o sugestivo nome de Psicologia Comunitária e Ecologia Humana.

A disciplina funciona no curso de Psicologia da UFMG desde 1974, tendo ar aparecido a partir de longos estudos e discussões em grupos de encontro envolvendo professores e alunos. O tema ecologia apenas começava a ser discutido no Brasil. A Junção dos dois temas - comunidade e ecologia - foi bastante oportuna. Em primeiro lugar, as questões de comunidade diretamente ligadas a problemas ecológicos, levou a abandonar imediatamente o modelo de desenvolvimento comunitário oriundo de trabalhos norte - americanos, bastante diretivos e visando sobretudo progressos definidos em termos de desenvolvimento econômico. O chamado desenvolvimento econômico vem quase sempre acompanhado de desenvolvimento de problemas ecológicos.

Em segundo lugar, o nome da disciplina, colocou para os professores ­e alunos a necessidade de articular os dois temas. Algumas vezes o curso foi dado levando-se em conta apenas a questão da comunidade - trabalhou-se sobretudo com problemas de saúde pública (mantidas as devidas ligações com os órgãos governamentais ligados à saúde pública), ou de questões sociais, especialmente urbanas. Outras vezes, na disciplina, discutiu-se quase que só a questão ecológica.

No primeiro semestre de 1985, Beth Bonfim e eu resolvemos aceitar o desafio de pensar os dois temas conjuntamente e neste trabalho estamos empenhadas.

O não saber

Trabalhos efetivamente realizados em comunidades brasileiras (alguns relatados em Boletim da ABRAPSO, de abril de 1985) e estrangeiras usualmente são assistencialistas, paternalistas e protecionistas. Uma equipe de cientistas sociais (sociólogos,


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antropólogos, assistentes, psicólogos e outros) organiza-se com o objetivo de ajudar a comunidade e lá atravessam suas ideologias, valores, técnicas, conhecimentos, modelos e modos de vida.

A sugestão aqui é iniciar qualquer trabalho com a certeza do não saber do cientista social a respeito das comunidades junto às quais deve atuar.

Refiro-me aquele não saber que Freud tão bem demonstrou como relação aos sonhos. Sonhos são realizações de desejos inconscientes. Apenas um elaborado trabalho de psicanálise permitirá saber que desejos são estes.

Apenas um cuidadoso trabalho de socioanálise levará o cientista sociais saber a respeito da sua comunidade. Seu não saber decorre de sua própria inserção em um determinado lugar da sociedade, de sua posição(frequentemente privilegiada) na estrutura social.

A análise da posição do cientista social é parte de seu trabalho comunitário, uma vez que as comunidades detém também, com relação ao cientista social, um não saber relativo às suas técnicas, expectativas, valores e conhecimentos.

Uma vez que o cientista social sabe que não sabe a respeito das comunidades e de si próprio na estrutura social, vai buscar saber. A psicologia tem dispositivos e todo um instrumental de auxílio nesta busca. Trata-se de um instrumental de escuta (dinâmica de grupo, medidas, entrevistas e questionários não diretivos) e de devolução (análise do discurso , relatórios, documentação e discussões).

Hipóteses de base


Aqui são sugeridas algumas hipóteses para se trabalhar junto às comunidades:

1. As comunidades tem um saber, frequentemente desconhecido pelas Ciências Sociais e ás vezes pela própria comunidade. Cabe ao cientista, juntamente com a comunidade, descobrir este saber.

2. Qualquer comunidade tem uma cultura própria isto é, tem traços que lhe são característicos e uma criatividade ligada às suas estratégias de sobrevivência (Demo, 1982). Cabe ao cientista fazer surgir esta cultura, retirá-la de dentro da comunidade.

3. A cultura e o saber comunitário são a vida da comunidade como tal es energia. para. a sua transformação.

4. Qualquer comunidade tem um projeto autogestionário inconsciente. Cabe ao cientista, juntamente com a comunidade, explicitar tal projeto. Cabe ao cientista acompanhar a comunidade em suas soluções autônomas e, portanto, abandonar qualquer perspectiva de controle comunitário. Se o projeto autogestionário da comunidade não lhe agradar, resta-lhe apenas abandonar o trabalho.

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A socioanálise

No instrumental da Psicologia Social, a socioanálise aparece como especialmente adequada a trabalhos junto a comunidades.

Na socioanálise, usa-se o analisador como dispositivo provocador de mudança, sem o apoio em qualquer postura assistencialista, paternalista ou protecionista. E analisador tudo aquilo que faz surgir os não-ditos da comunidade, levanta as lebres, mostra sua estrutura.
São analisadores especiais (Lapassade e Lourau, 1972);

1. Análise da demanda. Se não há demanda de trabalho, o psicólogo nada tem a fazer na comunidade. Se há, cabe a ele analisá-la e distingui-la da encomenda, Usualmente a encomenda vem de uma parte da comunidade (em geral líderes dirigentes) ou mesmo de fora dela. A demanda , própria da comunidade como um todo: todos os que fazem parte dela formam o coletivo cliente.



  1. Autogestão do trabalho. É o coletivo cliente que se autogestiona, determinando número, local e duração de reuniões, ritmo de trabalho, distribuição de encargos, questões financeiras, etc. A equipe de cientistas sociais pode também, perfeitamente se autogerir.

  2. Livre expressão. Segue-se a regra de tudo - dizer. Os não-ditos, os escondidos e disfarces são trazidos à luz.

4. Análise da transversalidade. Os atravessamentos da estrutura social (isto é, pertinências a diferentes grupos, ideologias e políticas) são descobertos e apontados.

5. Análise da transferência e contratransferência institucionais. Analise-se as relações que a comunidade mantém com a equipe de cientistas, que esta mantém com a comunidade e ambas com a instituição da análise.



  1. Criação de outros dispositivos analisadores. Por exemplo, a análise das relações de dinheiro, idade, sexo, e cor são analisadores de grande potencial transformador. Dispositivos de escuta, pesquisa e devolução são também bons analisadores.

O Saber


De forma não impositiva, nem controladora, os cientistas sociais não apenas começam a aprender sobre a comunidade, como também a acompanham em sua transformação.

Abandonam todo e qualquer projeto pré-elaborado (que, em última instancia, diria respeito apenas a eles próprio e ao seu saber), trabalham sem objetivos fixados a priori. Usam instrumentos de trabalho, mas não tem modelos pré·fixados. Colocam-se, portanto, longe daqueles técnicas já consagradas pelas ciências sociais, em especial pela administração (administração por objetivos, por exemplo).


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Respeitam a comunidade, seu saber, sua cultura, suas técnicas. Ai adotam uma postura realmente ecológica (Ecologia é a ciência da casa/grupo/comunidade ).

Finalmente, os cientista sociais aprendem a respeito de si próprios e dos grupos aos quais pertencem. Passam a conhecer seus valores, sua cultura, seu saber. Com sorte, podem até descobrir por que estão tão apegados e aderem tanto a seu modo de vida.

Referências


Boletim da ABRAPSO. Ano III Abril de 1985 no 10 Demo, P. Educação política e política da educação Niterói:

FUBRAE, 1982.


Lapassade, G. e Lourau, R. Chaves da sociologia, Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 1972.

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COMUNIDADES ALTERNATIVAS:

UMA REFLEXÃO EM TORNO DO TEMA (1)

Elizabeth de Melo Bomfim(*)

A disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana é oferecida, como disciplina optativa, no curso de Psicologia da UFMG, desde a reforma curricular de 1914.

No início deste ano, eu e Marilia Mata Machado resolvemos arriscar num programa diferente, que foi proposto aos alunos e incrementando a partir da colaboração dos mesmos. Em meados do curso, iniciei com a minha turma um trabalho comunitário dentro de sala de aula, a partir da decisão de transformar o trabalho final que, como de praxe, é individual, num trabalho comum a ser desenvolvido por todos. À este projeto, que visando ser comum, nada mais é que a Interpenetração de nossa diferenças, demos o nome de Comunidades Alternativas - uma reflexão em torno do tema.

Esteve presente, em vários momentos do curso, a discussão em torno da noção de comunidade.

Desde sua origem etimológica, a noção de comunidade está relacionada ao estado do que é comum, à reunião de interesses de identidades, crenças e ideais. Aparece sempre com especificidades tais como, herança cultural e histórica espaço físico, forma de governo, etc.

Contudo, a partir de uma perspectiva dialética, está presente e nas comunidades a todo momento, caracterizando uma relação dinâmica de forças, a desunião ,a diferença, o incomum.

E é ai que localizamos as alternativas comunitárias. Na relação, denominada pela sócio-análise de instituído-instituinte e pela lingüística de significante-significado, que entendemos à questão da comunidade-alternativa.

Observamos sempre presente nessa relação, a dialética do comum­incomum, individual-coletivo, numa situação de alternância e revezamento periódico. A alternativa não é passageira mas, ao contrário, sempre presente na comunidade. Ainda que, utilizando um termo da Medicina, como medicamento alternante que, sem produzir efeito imediato sensível, modifica de maneira persistente a natureza do sangue e dos humores.


( * ) Professor Adjunto do Departamento de Psicologia - UFMG
(1) Trabalho apresentado na 37 a Reunião Anual da SBPC - julho/1985.
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Na possibilidade de revezamento que iremos situar, outra questão proposta no curso, a da autogestão comunitária.

O momento da autogestão coincide com o momento do instituinte, do significante, ou mais especificamente, da diversidade comunitária. E é pelo seu reconhecimento que constata-se a diferença entre o discurso dos lideres e o discurso da comunidade, que em si é um discurso da diversidade.

E nos perguntemos, pelos momentos históricos, onde foi possível, a manifestação da autonomia comunitária. Os exemplos de Andaluz a Aragão (Espanha) e Comuna de Paris (França), nos fazem questionar: Por quanto tempo as comunidades suportam a sua autonomia? Ou, retomando uma frase medieval: Se o prazer permanece, será que permanece prazer?

Contudo, o trabalho de melhoria das condições de vida, leva-nos ao terceiro objetivo do curso: a crítica á visão do desenvolvimento exógeno que, com sua imposição de tecnologia, mais suga do que incrementa. Dar a importância de discussões sobre tecnologias alternativas e questões ecológicas que propiciem ver com nossos próprios olhos e criar com os nossos recursos.

Em quarto lugar, pareceu-nos importante a discussão de metodologias e trabalhos realizados em comunidades, nas áreas de:

a) educação comunitária: retomando a dialética do educare, entre o nutrir (preserva) e o tirar (criar, transformar); relacionando o saber comunitário com o saber acadêmico (aceito e valorizado universalmente (?); não esquecendo que a educação, como a ciência, é, irremediavelmente, ideológica, e o lugar da escuta é necessariamente o da fala. A fala do educador, ainda que o silêncio é ideológica; reconhecendo que o não saber, revelando diferenças e dificuldades, não significa ignorância.

b) Psicologia Comunitária: com toda a metodologia-ação (pesquisa ativa - pesquisa participante – crítica á pesquisa participante); com conhecimento de técnicas e práticas grupais ( que nos orientam nos trabalhos de reuniões, visitas e mesmo terapias grupais); e a sócio-análise {estudo das transversalidades) gera a visão social mais ampla.

Em quinto lugar, pareceu-nos pertinente discutir os movimentos alternativos, estes projetos autonomamente organizados, não necessariamente apolíticos, com propostas culturais diversificadas. Como: feminismo, movimento pacifista, movimento dos homossexuais, movimento Pugwash (organizados a partir do fato de que a desconfiança, o medo e a propaganda influenciaram na criação da bomba atômica e têm contribuído para a corrida armamentista, cujo arsenal, atualmente, é de 50.000 armas nucleares, com potencial para destruir de 4 a 5 vezes cada habitante da terra). E aqui encontramos o movimento psi alternativo, que parece

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tratar-se de uma revolta contra o intelectualismo racional e analítico. Talvez numa busca do entendimento (togspa tibetano) e não só do raciocínio. Nas tentativas da busca da saúde mental ­essa utopia dos psicólogos destacam-se terapias energéticas e a meditação transcendental.

Finalmente, o estudo de algumas formações comunitárias não passaram sem consideração. A proposta dos cristãos primitivos, cujos ideais foram revividos por S. Francisco, em suas comunas de ofício. Os Sete povos das missões que entre a cruz dos jesuítas (interessados em renda e catequese) e a espada dos colonizadores constituíram, o que ficou conhecido como a república socialista cristã dos guaranis. Canudos, a tão discutida comunidade brasileira, através da figura de Antonio Conselheiro e sua proposta socialista e religiosa, inspirada na Bíblia e na Utopia de Thomas More, se manteve, após a morte de seu líder , até o massacre final pela 5 a. expedição militar. Canudos que tinha 30.000 habitantes, pode ser comparada, relativamente, à cidade de Belo Horizonte hoje, já que na ocasião, São Paulo tinha 50.000 habitantes.

Enfim, no aqui e agora, um levantamento da formação do movimento dos favelados em Belo Horizonte que poderá abrir a discussão da relação Estado X Associação de bairros e favelas.





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