Anais do I encontro mineiro



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IN-COMUM

Sérgio Augusto Chagas de Laia (*)


Durante todo o primeiro semestre deste ano, na disciplina Psicologia Comunitária I, pude trabalhar, juntamente com outros colegas, alguns textos e ouvir algumas pessoas que nos falaram sobre o tema comunidade. Durante o curso pudemos, também, percorrer temas mais específicos tais como: comunidades alternativas, ecologia, psicologia comunitária e outros.

Algo que, a meu ver, atravessou grande parte das nossas conversas (direta ou indiretamente) foi uma problemática que resumirei numa pergunta: o que é comum? Este texto pretende discutir essa pergunta, acrescentando-lhe uma outra: o comum é, realmente, comum?


(*) Aluno da disciplina Psicologia Comunitária e Ecologia Humana. UFMG
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Tais questões também puderam se e apresentar pra mim a partir de um contato que venho tendo com uma outra forma de encararmos as formações sociais, tendo em vista a autonomia, do social. Aqui, as discussões nos seminários de Filosofia da Ciência no Mestrado de Filosofia da FAFICH/UFMG tiveram uma grande importância.

Essas perguntas sobre o comum e a constituição dos grupos estão muito presentes, tanto nos textos que vão tratar do social, do grupo, da comunidade, etc., como nas discussões que são travadas a nível do senso comum. Tanto em um campo como no outro, podemos perceber uma forte tendência de pensar o grupo, a comunidade a partir do que é comum e central a todos. Chamarei, como SIBONY (1982) esta tendência de sistema solar; através dela, o grupo (ou á comunidade, para utilizar o tema desse texto) se constitui, por exemplo a partir de um chefe, de uma idéia, de algo que é comum a todos. Esta posição encontramos, por exemplo, em FREUD (1923): amassa se une em torno de um chefe (ou algo similar) que se constitui como ideal do eu de cada indivíduo dela, tornando-se ideal do grupo e a possibilitando o laço libidinal e identificatório, isto é, a identificação com o chefe se articula com a identificação com os membros entre si e vice-versa.
O texto de FREUD (1923), contudo, não nos mostra apenas algo da ordem do mesmo, pois este ponto comum - em torno do qual os indivíduos se unem uns por amor aos outros - só é capaz de ­ser comum porque é diferente dos outros. Assim, desde já, penso que podemos encontrar algo precioso em Freud: a identidade se dá via a diferença. Freud, contudo, é adepto ao modelo do sistema solar, percebendo as massas como se constituindo a partir de algo exterior, de fora.Tal caminho tem sido questionado por autores como SIBONY ( 1982),DUPUY(1983), Célio GARCIA (1984) e outros. Pretendo, então, a partir de alguns textos deles, continuar as indagações, complexificar o assunto, como nos sugere DUPUY (1983).

Sibony, Dupuy e Célio Garcia, nos textos citados, trabalham com a noção de pânico, mencionada por FREUD(1923). O pânico, para este último, ocorre; por exemplo, quando a massa perde o chefe, a idéia unificadora, seu centro - ou como DUPUY (1983) o chama, sugestivamente, seu ponto fixo - entrando num processo de destruição enquanto massa. Todavia, como nota DUPUY (1983), é neste momento em que se expressa com mais força uma importante característica das formações sociais: o contágio, isto é, a homogeneização de certos comportamentos, de certas idéias, etc. O grupo, por exemplo, perde o chefe, mas nessa perda, continua se manifestando como uma formação social de uma forma muito intensa.


No pânico, então, o grupo regride para um estado narcísico, que o senso comum irá representar com a frase: foi cada um por si e Deus por todos. A figura de Deus ai, aparece – num segundo
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momento da frase - como um atrator para os membros do grupo no estouro da boiada. Penso que é como se a comunidade não suportasse o cada um por si, a autonomia de seus movimentos e apelasse para algo transcendente exterior, imprevisível e inacessível com o intuito de se recompor. E como se o acontecimento de se ver marcada por uma falta tivesse que ser imediatamente recalcado. Assim, concordo com Célio Garcia quando diz que o grupo se reúne em torno daquilo que os seus membros se calam, mas, gostaria de indagar sobre o que eles se calam?

Penso que, aqui, o texto de DUPUY (1983) e a conhecida expressão popular que citei acima podem esclarecer esse calar. O que ambos mostram é que, usando as palavras de DUPUY (1983),é necessário conceber a capacidade de todo grupo "en effervescence" e creio que posso dizer que todo grupo está efervescente, umas vezes mais, outras menos: "não há grupo descontraído", nos diz SIBONY (1982), Célio Garcia (1983) a se projetar fora dele mesmo, e sua propensão a tomar por sinais exteriores as projeções do interior. Em outras palavras: a comunidade CONSTRÓI esse ponto fixo.

Ora, se a comunidade o constrói, podemos pensar em comunidades que não se pautariam, talvez, sobre o paradigma do ponto fixo, mas que se arriscasse a se confrontar com sua falta e sua autonomia. Penso que este é um passo extremamente político e libertário, em se tratando de comunidade, país trata-se de um certo conhecimento do não-reconhecimento (méconnaissance). Os efeitos desse conhecimento - que não passa, não é um projeto de conscientização, pedagogização, etc. - é uma tarefa a ser sempre feita e que está sempre presente. Politicamente, nos leva a lutar por uma sociedade em que, como nos diz CASTORIADIS (1983), haja um processo continuo de auto-organização e de auto instituição e a capacidade de transforma-los, de agir a partir daquilo que já esta dado e através do que já está dado, mas sem se assujeitar a ele. Em outras palavras, o conhecimento de nosso não-reconhecimento (méconnaissance) pode nos levar a articular uma comunidade que se paute pela instituição de suas próprias leis e prática de sua autonomia continuamente, pois o conhecimento do não reconhecimento é conhecimento de um objeto real (DUPUY, 1983) e, como tal, é um trabalho infinito.


BIBLIOGRAFIA
CASTORIADIS, C. Socialismo ou barbárie. São Paulo, Brasiliense

1983, pp.211-256.

DUPUY, J. P. Totalisation et méconnaissance, Comunication au Colloque de Cerisy: Autor de René Girard, juin 1983. (xerox)

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FREUD, S. Psicologia de grupo e análise do ego. Obras Completas:

ESB. Rio de Janeiro, Imagor 1914, vol. 18, pp. 91·119.

GARCIA, C. A questão da Identidade como objetada Psicanálise. In: BIRMAN, J. e NICEAS,C. A. Teoria e prática psicanalítica. Rio de Janeiro, Campus , 03, 1984, pp . 110-127.

SIBONY, D.Topologia, I azos y grupo in: TUSQUETS, J.L.M.y SATNE, L. Desarrolos en psicoterapia de grupo y psicodrama. Barcelona, Gediza, 1982.

MOVIMENTO DOS FAVELADOS EM BELO HORIZONTE


(Um relato segundo o topógrafo da UTP, Sr. Barnabé)
Cleide R. Andrade ( * )
O primeiro registro que se tem do movimento feito por favelados em Belo Horizonte, data de 1948, quando no atual bairro Barroca, ocorreu uma ordem de despejo das pessoas que viviam ali. Eram famílias pobres que disputaram na Guerra dos Bodoques o seu direito de ocupar aquele terreno.

Em 1950, se dá realmente o início do movimento favelado, com a participação de pessoas como Edgar da Mata Machado, Dimas Perrin, Padre Laje, que .se dispuseram a trabalhar (questionar) os direitos de habitação, saúde e condições de vida do favelado de BH. Entre os moradores favelados destaca-se Vicente Gonçalves que desde este tempo se pós a lutar.

No bairro D. Cabral cresce a Vila dos Marmiteiros, composta por pessoas de baixo poder aquisitivo e que vivem em péssimas condições de vida.

Cria-se a UDC- União de Defesa Coletiva que se propõe a lutar em prol dos direitos do favelado.

Em 1963, o movimento favelado cresce com as grandes invasões realizadas em terrenos de Antonio Luciano, ligados a Fayal, essa, uma grande construtora. Muitíssimos favelados se dispõem a não abrir mão da região em que habitam (atual Cabana Pai Tomás e Vila 31 de Março ) e lutam unidos pela posse do terreno.

O país passa por um momento de repressão e morte. Alguns líderes do movimento favelado são mortos e outros correm riscos. Cria-se o Movimento Clandestino Favelado que trata em sigilo do problema favelado.


( *) Aluna da disciplina Psicologia comunitária e Ecologia Humana.

Depto. de Psicologia - UFMG.

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Em 1919, com a abertura democrática do país, a lei da anistia, um novo direcionamento da política social do governo, surge um espaço que busca congregar o movimento favelado: cria-se UTP, União dos Trabalhadores da Periferia. Surge, a princípio, com o apoio da ARENA, quando o seu presidente Chico Nascimento sabe que é preciso decisivo contar com as forças do poder para que se constitua um movimento organizado do favelado. As críticas ao apoio do governo são muitas, mas a União espera um momento em que se possa constituir livremente.

Em 1981, cria-se o Decreto-lei do Pró-Favela. Em 1982, quando o panorama político muda no país a UTP não mais precisa do apoio governamental estrutura-se como movimento autônomo.

Em 1983, o Decreto·lei do Pró - Favela ( •• ) torna·se Lei Nacional. Em 1984, o movimento favelado reivindica ativamente a regulamentação e aplicação do Pró-Favela, luta-se pela indenização mínima por terreno desocupado, os despejos judiciais são enfrentados.

Em 1985, a UTP continua em sua luta pela real aplicação do Pró­Favela em BH (usa do dinheiro da AVIS (* ** )em sua atuação).

A UTP, das 129 favelas que existem em BH, congrega 96 delas.

A prioridade.é dada a posse do terreno.

Muitas lutas ainda virão.

2) LIDERANÇAS: Se no princípio do movimento foi preciso a colaboração de lideranças universitárias, políticas, partidárias, porque o favelado era carente de informação, esclarecimento e o acesso ao poder se fazia pelo uso destas outras lideranças, atualmente, têm-se um quadro diferente: a longa caminhada do movimento favelado proporcionou um grande nível de conscientização dos direitos que possui o favelado e sua luta atual é marcada pele grande participação de todos e a resistência , exploração, seja ela econômica, social ou ideológica.

Os líderes favelados surgem no maio das favelas e conta com a confiança dos habitantes da favela.

3) ASSOCIAÇÕES DE BAIRRO FAVELADOS: A estrutura de funcionamento de uma Associação de Bairro favelado é semelhante em certos aspectos ao movimento de Associações de Bairro da Grande BH, mas marcado por uma diferença fundamental. Assim como nas Associações de Bairro de BH na Associação de Bairro favelado há disputas de chapas que concorrem numa eleição, em que os habitantes da região participam, através do voto direto, escolhendo os representantes que irão atuar frente aos órgãos do poder estadual e convocar os habitantes do local para reuniões onde as diretrizes do movimento são discutidas. A diferença fundamental entre os dois tipos de associação é que as
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Associações de bairros favelado não são como as outras Associações, atreladas, mantidas ou criadas por grupos políticos que buscam manter-se no poder (ou o almejam).

A Associação de Bairro favelado nasce da necessidade da união dos favelados em torno de objetivos comuns, sejam eles, desde a posse de terreno em que habitam ate a organização de uma infra­-estrutura da habitação sadia, com posto medico, esgoto canalizado, luz, e etc .

4) IGREJA: A Igreja já exerceu um papel de paternalismo ­assistencialismo, fruto do seu pacto com o poder com os atuais caminho da Igreja, a pastoral cristã que fez a sua opção pelos pobres (a luta por seus direitos) tem contribuído ativamente com a participação de padres que se engajaram na luta do favelado.

5) A QUESTÃO POLÍTICA : Diversidade de posições políticas dos elementos favelados e não –filiação a nenhum partido político.

A sua força reside justamente no seu não-atrelamento a grupos de poder. Reside no favelado, na questão da sua sobrevivência.

FINAL : O favelado, ciente dos seus direitos, da torça de sua união, prossegue reivindicando o que a sociedade lhe deve.


(**)Pró"Favela:Estabelece que nas áreas ocupadas pelos favelados, em caso de desapropriação por parte do dono do terreno, só será permitida a construção de casas para pessoas de baixo poder aquisitivo.

(***)AVIS: Verba dos países europeus (3%de sua renda bruta) aplicada no desenvolvimento dos países carentes.



A REPÚBLICA DOS GUARANIS

  1. 1768)

Vander Marcelo de Paula Oliveira ( *)

Na América do Sul do século XVII, teve início a existência de uma comunidade que, durante mais de 150 anos, mexeu tanto com o mundo e que até hoje mostra alguns de seus reflexos. Fala-se inclusive, que a grande richa existente entre os brasileiros, especialmente os do sul e os povos platinos, deve-se muito à forma bárbara com que os paulistas (ou portugueses ) trataram a comunidade guarani dessa época.
(*) Aluno de Psicologia Comunitária e Ecologia Humana - Depto, de Psicologia – UFMG

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A existência da República Guarani (carga de 34 cidades ou missões ou reduções) foi o resultado da combinação de forças: índios guaranis-Estado Espanhol - Companhia de Jesus. Nesse momento, estava se processando a colonização da América Latina e a Igreja procurava difundir o cristianismo pelo mundo. Sendo assim o expansionismo europeu associado aos interessas evangelizadores dos Jesuítas e à limitação de escolha por parte dos índios serão ai bases nas qual a República Guarani se apoiará.

Num primeiro momento, a necessidade de se barrar os desejos de expando territorial portugueses na América irá explicar a aceitação pelo reino espanhol do surgimento da República Guarani. Outro fator importante foi a incapacidade espanhola de submeter os índios à escravidão. Foi ai, que os Jesuítas com todas as suas habilidades (Inclusive políticas) conseguem se insinuar, primeiro frente ao rei espanhol e, posteriormente, frente aos índios. Prometendo salvá-los da degradação física decorrente da escravidão e lhes acenando para condições de vida melhores das que vinham tendo, foi que os jesuítas se estabeleceram entre os índios e foram construindo a República Guarani. Por isso tudo, chega-se facilmente conclusão de que os índios se encontravam entre a cruz e a espada. É claro que essas comunidades apresentaram inúmeros fatores positivos, mas tudo isso foi pago com a submissão dos índios aos valores cristãos e europeus do século XVII, ou seja, observou-se uma desculturação dos índios, que se deu principalmente através do teatro e da música (artes que eram muito apreciadas pelos Guaranis).

A situação da República Guarani era bastante parecida à de um domínio do império britânico, o Canadá ou a Austrália, por exemplo. A República Guarani desfrutava de uma liberdade pelo menos tão completa, visto que possuía uma constituição original, suas próprias leis civis e penais, suas próprias autoridades, juízes, orçamento, exército, polícia e chefes militares próprios. A República Guarani tinha suas fronteiras bem delimitadas e definidas. Sua economia era a mais autônoma que a de todos os outros Estados do mundo.

Em termos econômicos, notamos que não há propriedade privada (assim que o índio se casa, ganha um terreno que lhe pertence até a morte; sendo sua viúva deslocada para a casa das viúvas da comunidade), não há circulação de dinheiro dentro das comunidades e não existem índios desempregados (tendo direito aos mantimentos somente aqueles índios que trabalhem); e o comércio interno funcionava na base da troca de produtos (o indivíduo era rico na proporção de sua assiduidade ao trabalho (Lugon, 154). Essa uma das reduções tivesse algum problema que atetasse a sua produção, as outras a ajudavam, pedindo somente que quando elas se encontrassem em situação semelhante, que esta as ajudasse também.
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AGRICULTURA : muito rapidamente se tornaram no conjunto agrícola mais completo e melhor organizado da América, apesar da dificuldade de formar agricultores com os caçadores-guerreiros das antigas tribos nômades.

INDÚSTRIA : apesar da falta de metais brutos, a República Guarani teve um equipamento industrial tão completo quanto o de qualquer nação européia nos séculos XVII e XVIII. Fabricando armas, munições, sinos, embarcações, etc., reduzindo, assim, sensivelmente, a importação de objetos manufaturados.

Nessa República havia mestres profissionais (primeiramente foram os padres e depois operários do mundo colonial) que ensinavam os mais Úteis e variados ofícios para os índios guaranis.

Uma orientação mais geral das profissões e uma especialização por redução eram estabelecidas de acordo com as condições do solo, clima, gosto dos habitantes (as criança sejam mandadas para , diversas oficinas e fixadas nas quais demonstravam maior inclinação) e necessidades do conjunto da República. (Lugon, p.139).

O TRABALHO E A REPARTIÇÃO DA RENDA... O gênero de vida diferia segundo o gênero de trabalho, mas não se considerava útil conceder rendas privilegiadas a nenhuma categoria profissional. (Lugon,p.194). Geralmente trabalhavam 4 hs/dia e tinham 2 horas de descanso (se permitindo a esses horários elásticos devido à completa utilização da mão-de-obra).

Para o comércio exterior, só eram enviados os índios que apreenderam melhor o Evangelho a, mesmo eles, apenas contabilizavam os ganhos da Comunidade, sendo que o dinheiro propriamente dito só circulava pelas mãos dos Jesuítas. Esses fatos, por sua vez, levantavam diversas suspeitas quanto a possíveis ganhos monetários por parte da Companhia de Jesus, que até hoje não foram devidamente esclarecidos e, que, na época, foram fartamente utilizados com o objetivo de desestabilizar os Jesuítas junto ao rei e, conseqüentemente, acabar com a República Guarani.


O FIM
O fim da República Guarani também envolve uma considerável gama de fatores.

Internamente, a ausência de uma autoridade federal indígena, já que a integração das reduções era feita pelo Superior da Companhia de Jesus e, o medo dos Jesuítas de desagradarem às autoridades coloniais, impediram que as reduções tivessem uma coordenação militar durante a guerra contra as tropas coloniais, facilitando assim a sua destruição.

Externamente, o Tratado dos limites (1750) que dava 7 reduções situadas na margem esquerda do Rio Uruguai (região do atual RS)
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para Portugal, em troca da cidade de Sacramento (extremo - sul do atual Uruguai); além da ameaça que os Jesuítas estavam se constituindo para o Estado Espanhol, ao fazerem da República ­Guarani um verdadeiro Estado Independente; soma-se ainda as animosidades suscitadas entre os colonos da América do Sul e os Jesuítas, devido ao fato desses últimos terem se colocado contra os movimentos de emancipação sul-americanos. Sendo assim, enfrentando o ódio colonial e a desorganização militar interna dos próprios - guaranis, no início do ano de 1768 tem fim a mais antiga experiência de sociedade igualitária e ecológica que se tem notícia na América do Sul.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA:

1 - Lugon, Clovis. A República comunista cristã dos guaranis:1610- 1768. 3 a. edição - Rio de Janeiro, editora PAZ E TERRA, 1971.


AGRADECIMENTOS:

à Professora MARIA EFIGÊNIA LAGE DE RESENDE , à Professora: ELIZABETH BOMFIM.


CANUDOS
Robson P. Perry ( * )


Canudos foi a efetiva implantação de uma comunidade igualitária no sertão da Bahia, apesar de sua curta existência de alguns poucos anos na última década do século passado. A implementação do ideal igualitário só se tornou possível pela conjunção dos anseios dos camponeses nordestinos e da figura singular de Antônio Conselheiro.

O regime de exploração semi-feudal imposto aos camponeses até a época da proclamação da República não se extinguiu com esta: com efeito, a nova classe que ascendeu poder político não cumpria sua. tarefa histórica de realizar a reforma agrária na consolidação da nova ordem sócio-econômica. A burguesia ascendente aliou-se aos latifundiários que vinham descontentes com a monarquia e a abolição da escravatura. Produziu·se assim uma nova forma de poder político que não alterou a situação dos camponeses explorados, que continuaram vivendo em condições de extrema pobreza, desprovidos de terras e à mercê dos grandes proprietários do nordeste.

( * ) Aluno de Psicologia Comunitária e Ecologia Humana - Departamento de Psicologia - UFMG

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Antônio Conselheiro era um homem de grande magnetismo pessoal e de imensa compreensão da realidade social de sua época. Conhecia os textos clássicos, à Bíblia e a Utopia de Thomas More; salientou-se pela fluência oratória e pela excepcionalidade de seu comando militar. Nasceu em uma família nordestina que, pela própria, história da luta a que se impôs peta posse de terras com outra família da região, mostrava-lhe o conteúdo da ordem social e toda a mesquinharia que envolviam o prestigio político e o poder econômico: Teve vida inconstante permeada de reveses que se alternavam desde a tenra infância pelos anos que se seguiam: a perda da mãe ainda novo, os maltratos da madastra ,a traição da esposa, enfim, sua experiência familiar, sua experiência no foro, suas andanças pelo nordeste e a humilhação e calúnias sofridos quando da prisão sob acusação deter matado a mãe e a esposa, todas essas experiências passadas já davam forças ao caminho a seguir. Após a prisão, peregrinou pelo nordeste em missão de fé, construindo obras de fins coletivos e reunindo vários adeptos ao seu redor; seus conflitos desenvolveram-se à partir daí, primeiramente com a igreja e continuaram quando se rebelou contra a ordem instituída arrancando e queimando , junto com seus seguidores, editais de cobrança de impostos afixados num município nordestino que então visitava. Enfrentou uma força policial destinada a prende-lo e a desmanchar seu bando e, em seguida, dirigiu-se ao empreendimento do ideal comunitário que comungava com inúmeros nordestinos.

Canudos foi. erguida num local estratégico do ponto de vista militar: era de difícil acesso e circundavam-na vários acidentes geográficos que facilitariam sua defesa contra um possível ataque inimigo; além disso, suas casas eram dispostas de forma irregular, não sendo possível distinguir na cidade nenhuma planificação que resultasse em ruas bem definidas, apenas becos entre as casas que se amontoavam como que jogadas ao acaso. Abrigaram-se ali cerca de vinte e cinco mil pessoas. O produto das atividades agropecuárias e artesanais era da coletividade. A propriedade individual se restringia aos bens pessoais e à moradia. A comunidade subsistia com certa tranqüilidade; os bens excedentes eram comercializados no mercado das cidades próximas, onde também eram adquiridos os bens de que necessitavam e não podiam produzir; mantinha-se, até mesmo, um comércio regular com a Europa através da exportação de couro.

A afluência de nordestino à cidade era enorme. Constituía-se livremente de brancos, negros e mestiços. Esses buscavam ali a possibilidade de uma vida na qual estivessem libertos da exploração a que estavam submetidos, uma vida de igualdade e respeito do homem pelo homem. Em Canudos a opção pelo não-casamento não importava em nenhum estigma social: uma mãe que não possuísse marido era tratada com o mesmo respeito, em termos de igualdade com uma mãe que o possuísse. O casamento era apenas na ordem


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religiosa. E toda essa comunidade era gerida pela devoção, fé, aplicação da força de vontade desses nordestinos empenhados numa vida melhor e temerosos da pena de explosão da comunidade que cabia a quem cometesse. ato julgado crime - uma falta grave como o estrupo, e assassínio ou outro tipo de violência. Era ainda pelo magnetismo pessoal exercido por Antônio Conselheiro e pelo seu empenho prático na construção e organização da comunidade que ela se comportava dessa forma.

Contudo, a própria história da comunidade e o contexto em que se erigiu determinaram o processo de luta que levou ao seu aniquilamento pelas demais forças sociais existentes. Canudos era uma comunidade revolucionária, abrigava os descontentes, servia de experiência e exemplo aos explorados, polarizava a atenção dos poderes instituídos, principalmente, era razão de insegurança dos latifundiários nordestinos. Porém, foi ainda, dentro da conjuntura política do país na época, usada como trampolim para uma tentativa golpista de implantar uma ditadura militar frente à expectativa democrática brasileira. Dessa forma, travou-se uma verdadeira guerra civil no país, que durou cerca de um ano e terminou com a destruição, total da cidade. Organizaram-se quatro expedições militares à Canudos, sendo que a última, incluindo ar uma quinta expedição que lhe veio de reforço, contava da um efetivo de cerca de doze mil homens. Os sertanejos empenharam-se veementemente nessa guerra e demonstraram, com Antônio Conselheiro, grande habilidade tática e estratégica nas operações de guerra, além de comprometimento e solidariedade em torno do ideal comunitário. Finalmente foram derrotados e mortos e a cidade completamente arrasada. Antônio Conselheiro morreu em dia próximo ao fim da guerra devido a algum problema de ordem interna no seu corpo. A propaganda e lendas em torno de Antônio Conselheiro e de Canudos encarregaram-se, então, de distorcer o sentido dessa experiência histórica.




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