Anais do I encontro mineiro



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Encontro29.07.2016
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Como seria esta mudança? perguntam alguns... Falamos que não somos a luz, nem temos fórmulas e que essa mudança precisa ser feita junto com todos os interessados. Sugerimos mudar o esquema de escolha do chefe do posto, certas tarefas triviais que alguns não gostam de fazer etc.

Daí alguns dizem que não temos experiência em posto de saúde ou que somos muito jovens ou que queremos anarquia.

E voltam ao problema da sujeira do posto, afinal de contas havia um vômito logo na porta da entrada.

Então a servente começa a contar que ela sabe de uma pessoa do posto, mulher, que faz xixi no chão, entre a parede e a privada, só para ela limpar. E conta mil vezes esse caso, com milhões de detalhes e diz que não é cachorra para limpar xixi de mulher velha. O grupo embarca no delírio e começam a discutir se era xixi ou se era água, se era mulher ou homem que faria Isso.

Nessa fofoca se dispersam na mesquinhez da doença e a chefe proclama o fim da reunião.

A psicóloga do posto, durante a reunião, não abriu a boca, a não ser para reclamar do café que a servente fez e foi embora antes que a reunião acabasse se justificando com a chefe. Esta psicóloga chegou ao posto nas asas da política e não era bem vista pois as pessoas do posto e a clientela desejavam que o antigo estagiário de Psicologia ocupasse este lugar de Psicólogo.

Não pudemos conhecer o seu trabalho, pois ela deixou bem claro que não tinha nada a ver conosco e nos mandou procurar o Centro Metropolitano para sabermos sobre o trabalho de Psicologia no Posto. E depois que soube que íamos utilizar a sala de psicologia (a única do posto que bate sol), alguns dias


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à tarde, resolveu trabalhar de manhã, dizem as más línguas de, 11:30 às 12:00.

Mas nada disso é explicito; só se escutam rumores e antipatias sobre a psicóloga e a Psicologia lá dentro.

Dias após essa caótica reunião, pego alguns fofocando sobre nossa atuação na reunião e eles se sentem incomodados, pois insistem em afirmar que o ambiente do posto é saudável e amigável. Outros funcionários do posto chegavam a nós como aliados, conversando sobre seus problemas lá dentro e idéias de mudança. Já outros, preferiam fingir que nem nos conheciam.

Outro fato interessante é que após essa reunião, a tal servente foi mandada embora do posto e colocada à disposição do Centro Metropolitano, por decisão da chefe.

Inesperadamente, recebemos uma visita das supervisoras do estágio do Centro Metropolitano e da chefe do posto de saúde. Disseram ser uma visita de praxe e que elas iriam visitar todos os postos e começaram por acaso no Posto de Saúde Tia Amância. Queriam que nós prestássemos conta do nosso trabalho, tim-tim por tim-tim. Convidaram para a reunião, a estagiária de Serviço Social e queriam saber por que não trabalhávamos juntas.

Nos falaram que nosso trabalho era isolado e precisávamos de nos integrar com o resto do pessoal do posto.

E a nosso ver, elas tinham total desconhecimento do nosso trabalho, das nossas idéias e de nossos desejos.

A reunião nos pegou de surpresa, mas já sabíamos, por outras vias, que a chefe do posto já havia ido ao Metropolitano reclamar vagamente de nós, como por exemplo, falar que usávamos mini saia e roupas extravagantes.

Mas isto tudo não foi falado durante a reunião, até que tivemos que dizer que já sabíamos dessas reclamações.

Começaram a negar que a reunião fosse por isto e a falar que não havíamos entendido bem o que era e logo a psicóloga do Metropolitano quis ir embora. E quando sugerimos um outro encontro onde pudéssemos elucidar os fatos, disseram que estavam com a agenda cheia e que só era possível daí a uns três meses.

A chefe da Posto se mostrou interessada em o que um analista institucional pode fazer e reconheceu a esclerose do Posto e inclusive \ se dispôs a marcar, ela mesma, uma outra reunião geral, onde fosse possível retomar as coisas.

Esta reunião foi marcada e, por azar ou coincidência, caiu no meio de uma greve de funcionários e não foram tomadas as providências para uma próxima reunião.


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Pensávamos, então, que esta novela toda era analisável em si e que podíamos continuar a trabalhar.

Foi então, no ato de renovação do contrato de estágio, que soubemos que havíamos sido mandadas embora. A enfermeira chefe do Posto reclamou de nossa atuação e falou que não nos queria mais lá. Mas aceitava outros estagiários de Psicologia, mais dóceis. Achamos o caso inédito: estagiários que geralmente passam despercebidos, causando tanto desconforto.

Essa questão da nossa despedida ficou suspensa, diante de nossa indignação e nos prometeram então uma reunião com representantes da Universidade, do Posto e do Centro metropolitano.

Fomos, então, procurar o Centro Metropolitano e a Universidade. A psicóloga do Centro Metropolitano veio com panos quentes e nos disse com argumentos teóricos sobre a vida suicida de um analista institucional, nos falou das doenças crônicas das instituições e da sua própria insatisfação no seu trabalho e tentou nos oferecer a chance de trabalhar num outro posto de saúde que não o Tia Amância e com isso demonstrou sua cegueira.

O representante da Universidade no Centro Metropolitano confessou que sentia antipatia por nós: falou que éramos jovens e imaturas e que ele no seu íntimo desejava que a gente nem tivesse aparecido naquela reunião, pois éramos estagiárias que davam dor de cabeça. Falou que o nosso "caso verdade" poderia ser reestudado e que só voltaria a pensar no assunto quando entregássemos para ele um relatório falando tudo sobre nosso trabalho.

Ficou claro que se este caso fosse muito esmiuçado, iríamos nos deparar com sérios problemas institucionais, pois quantas instituições não estão envolvidas neste caso: Centro Metropo­litano, UFMG, Posto de Saúde, Brasil, Terceiro Mundo, FMI...

E todos nos deixaram explícito que mudar é impossível e que o jeito é conviver com o morto apodrecido.

E agora, pós-tudo, fico mudo.


Referências Bibliográficas



ESCOBAR, C.H. O Dossier. Rio de Janeiro: Taurus, 1984. GUATTARI, F. Revolução Molecular. São Paulo: Brasiliense, 1985.


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