Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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Referências bibliográficas

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A SISTEMATIZAÇÃO DOS CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA NA

ESCOLA: A PERSPECTIVA DOS PROFESSORES EXPERIENTES

Luis Fernando Rocha Rosário

Suraya Cristina Darido

Resumo: Ao contrário das demais disciplinas escolares, a Educação Física na escola não apresenta uma sistematização de conteúdos. Aí fica a dúvida: por onde começar? Como dar prosseguimento a estes conteúdos? O objetivo deste estudo é justamente elaborar alguns princípios básicos sobre a sistematização de conteúdos da Educação Física que possam auxiliar os professores inexperientes e recém-formados, que atuam junto à disciplina de Educação Física de 5a a 8a série. Essas informações serão obtidas através da revisão bibliográfica e da entrevista com professores atuantes em escolas e com mais de 3 anos de experiência.

1. Introdução

A Educação Física na escola possui um vasto conteúdo formado pelas diversas manifestações corporais criadas pelo ser humano ao longo dos anos. A este conjunto de práticas denominamos de cultura corporal de movimento, e atribui-se à Educação Física na escola à função de apresentar, refletir e discutir tais práticas junto aos alunos.

Embora, na prática concreta se saiba que apenas uma parcela dos conteúdos, aqueles mais tradicionais, tais como, basquetebol, voleibol e futebol são os que comparecem na maioria das escolas. Isso se deve a influência da concepção esportivista, já analisadas exaustivamente em outros estudos.

Ao contrário das demais disciplinas escolares, a Educação Física na escola não apresenta uma sistematização de conteúdos, ou seja, não existem critérios a priori que auxiliem os professores na organização do que será oferecido aos alunos. Aí fica a dúvida: por onde começar? Basquetebol ou Capoeira? Como dar prosseguimento a estes conteúdos?

Tais questões são importantes, mas deve-se reconhecer que o nosso país é muito extenso e apresenta inúmeras diferenças nos contextos culturais, portanto falar numa única sistematização pode ser se caracterizar como uma prática reducionista e descontextualizada, o que não é a intenção deste estudo. O caráter desta sistematização necessariamente deverá se apresentar de forma flexível, de tal forma que cada escola, marcada por um contexto particular tenha condições de se adaptar conforme às suas necessidades.

Apesar da produção acadêmica da Educação Física ter aumentado muito nos últimos anos, poucos estudos foram encaminhados no sentido de apontar princípios que pudessem nortear a sistematização de conteúdos.

O que se sabe é que os professores ensinam e obtêm os conhecimentos em diversas fontes tais como; a própria experiência, da troca com colegas da profissão, da experiência como ex-aluno, da leitura e reflexão de trabalhos e textos.

Neste estudo, procurar-se-á desvelar as experiências dos professores de Educação Física e a forma como eles vem realizando a sistematização dos conteúdos. Embora se reconheça que cada escola está inserida num contexto cultural único, portanto diferente dos demais. Na verdade, buscar-se-á identificar princípios gerais que possam auxiliar os professores com pouca experiência a iniciarem seus próprios trabalhos.

Assim, poderiam responder com maior propriedade: o que ensinar primeiro, Jogos ou Danças? Porquê? Como e em quê momento incluir conhecimentos sobre anabolizantes, construção cultural da beleza, influência da mídia e outros temas relevantes.

2. Objetivo

O objetivo deste estudo é elaborar alguns princípios básicos sobre a sistematização de conteúdos da Educação Física que possam auxiliar os professores inexperientes e recém-formados, que atuam junto à disciplina de Educação Física de 5a a 8a série. Essas informações serão obtidas através da revisão bibliográfica e da entrevista com professores atuantes em escolas e com mais de 3 anos de experiência.



3. Método

Serão entrevistados 12 professores de Educação Física, que atualmente lecionam no ensino fundamental II das escolas públicas ou particulares de Rio Claro. Todos formados em Educação Física, e que lecionem a pelo menos 3 anos, evitando-se analisar procedimentos de professores recém-formados e inexperientes. Os professores serão selecionados através de contatos pessoais.

Será realizada uma entrevista semi-estruturada, com um questionário que indaga a respeito da formação e atualização profissional; além dos objetivos e conteúdos da Educação Física e, principalmente, como estes são utilizados e organizados pelos professores.

Será utilizada a técnica de entrevista semi-estruturada, no qual o pesquisador possui um roteiro de questões e orienta o diálogo. É permitido também ao pesquisador repetir ou aprofundar-se em questões que não foram devidamente respondidas, pela má compreensão da pergunta ou outros motivos como a pressa, ansiedade e o cansaço. O informante por sua vez fala mais que o pesquisador.



5. Revisão de literatura

O termo conteúdo é extremamente usado no meio escolar, porém sua interpretação é muitas vezes equivocada. É necessário determinar seus conceitos, definições e dimensões. Coll et alli. (2000) definem conteúdo como uma seleção de formas ou saberes culturais, conceitos, explicações, raciocínios, habilidades, linguagens, valores, crenças, sentimentos, atitudes, interesses, modelos de conduta, etc., cuja assimilação é considerada essencial para que se produza um desenvolvimento e uma socialização adequada ao aluno. É importante ressaltar que nem todos os saberes e formas culturais são suscetíveis de constarem como conteúdos curriculares, o que exige uma seleção rigorosa da escola (Libâneo, 1994; Coll et alli., 2000).

Quais os conhecimentos que a escola deve transmitir? Evidentemente que não são todos os conhecimentos acumulados, até porque não existe currículo escolar cujo tempo comporte o universo dos conhecimentos acumulados historicamente, e porque muitos deles são superados. Por esta razão, a escola, norteada pelos seus pressupostos, deve selecionar os conteúdos clássicos necessários à formação do cidadão autônomo, crítico e criativo, para que este possa participar, intervir e comprometer-se com os rumos da sociedade possível, diante do momento histórico. (Resende, 1997).

Os conteúdos clássicos para Resende (1997) são entendidos como aqueles que não perdem sua atualidade para participação, compreensão e interpretação do mundo universal e particular do trabalho e da prática social intencional.

Libâneo (1994), do mesmo modo que Coll et alli. (2000) e Zabala (1998), entende que conteúdos de ensino são o conjunto de conhecimentos, habilidades, hábitos, modos valorativos e atitudinais de atuação social, organizados pedagógica e didaticamente, tendo em vista a assimilação ativa e aplicação pelos alunos na sua prática de vida.

Esta classificação corresponde às seguintes questões “o que se deve saber?”, “o que se deve saber fazer?” e “como se deve ser?”, com a finalidade de alcançar os objetivos educacionais (Darido, 2001).

Segundo os PCNs (Brasil, 1998), os conteúdos podem ser apresentados segundo sua categoria, que são: conceitual ligado a fatos, conceitos e princípios; procedimental ligado ao fazer; e atitudinal vinculado a normas, valores e atitudes. Caberá a este estudo identificar a forma como os professores pensam os conteúdos ao longo dos ciclos escolares.

Ao longo da História da educação, as propostas curriculares enfatizaram a categoria dos conteúdos relativa a fatos e conceitos. A dimensão do conteúdo foi, e ainda é, restrita a apenas uma de suas categorias, ignorando-se as outras duas. Esse fenômeno torna-se evidente quando observamos estudantes e professores dizerem que tal disciplina tem “muito conteúdo” por apresentar numerosas informações conceituais.

Um fator que é tão importante quanto os anos de graduação, na formação profissional, é a experiência vivida pelo profissional, durante toda sua vida, e prática da profissão.

Apesar dos esforços concentrados no sentido de proporcionar uma ampla gama de atividades da cultura corporal na Universidade, os resultados referentes a esta questão apontam para a importância das experiências vividas, anterior e paralelamente ao curso de graduação (Darido, 1999). Estas experiências formam outro tipo de conhecimento do educando, tornando seu desempenho mais eficaz. Esse conhecimento não provém das disciplinas de sua graduação ou da literatura especializada, e sim da vivência prática.

Na formação profissional, as experiências de estágio devem adquirir maior importância e parcela de tempo. Não se aprende tudo na sala de aula; a teoria não ensina tudo, seria arrogante se assim o quisesse (Betti, 1992).

Concordamos com Broekhoff (1979, citado por Betti, 1992), para quem muito do ensino é uma arte que pode ser estudada e aprendida academicamente até certo ponto, após o qual torna-se uma criação pessoal. Vivências extracurriculares e experiências de vida anteriores ao ingresso no curso também devem ser valorizadas.

Os profissionais não apenas resolvem problemas, utilizando processos e descobertas científicas, mas formulam problemas e metas, e isso requer mais que a utilização direta dos resultados da pesquisa .

Em muitos casos, o professor de Educação Física, como qualquer outro, tem muita dificuldade em relacionar o contexto teórico com o prático. Já durante a prática da profissão, este desenvolve várias formas de se resolver problemas do dia-a-dia, entende as necessidades de seus alunos e descobre quais métodos e técnicas são mais eficientes em diferentes situações.



Referências bibliográficas

BETTI, M.: Educação Física e Sociedade. São Paulo: Movimento, 1991.

BETTI, M.: Perspectivas em Educação Física. IN: GEBARA, A. et alli (org.) Educação Física e Esportes: perspectivas para o século XXI. 6ª ed. Campinas: Papirus, 1992.

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COLL, C. et alli.: Os conteúdos na reforma. Porto Alegre: ARTMED, 2000.

DARIDO,S.C. Educação Física na escola: questões e reflexões. Topázio:Araras, 1999.

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LIBÂNEO, J. C.: Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

RESENDE, H. G. Elementos constitutivos de uma proposta curricular para o ensino-aprendizagem da Educação Física na escola: um estudo de caso. Perspectivas da Educação Física escolar, UFF. Niterói, n.1, p.29-40, 1997.

ZABALA, A.: A prática educativa: Como ensinar. Porto Alegre: ARTMED, 1998.

A SISTEMATIZAÇÃO DOS CONTEÚDOS

NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: A TEORIA NA PRÁTICA

Evânia Nunes de Angeli



Resumo: Refere-se a um estudo que busca verificar como é feita a sistematização dos conteúdos nas aulas de Educação Física escolar. O proposto tema surgiu das minhas inquietações no que se refere a trato que é dado ao conteúdo nas aulas de Educação Física e a forma como estes são organizados por seus respectivos professores. A década de 80 foi considerado “um período fértil” para a Educação Física devido ao amadurecimento acadêmico caracterizado pelo grande engajamento de professores nos cursos de pós-graduação em níveis de lato-sensu e stricto-senso dentro e fora do Brasil. Diante disso, muitas propostas metodológicas surgiram, porém parece que a questão da seleção, organização e seriação dos conteúdos não ficou adequadamente resolvida. Assim, como os conteúdos foram tratados diante dessas propostas? Trata-se de uma pesquisa qualitativa que se utilizou de métodos de inquirição. A coleta de dados foi feita com aplicação de questionários e entrevistas do tipo guiada. Foi possível perceber, através da fala dos professores, que estes, mesmo afirmando utilizar alguma proposta metodológica, acabam por agir semelhantemente ao organizar seus conteúdos de aulas e que não condizem com a proposta citada por eles. As propostas ainda não conseguem ser concretizadas pelos professores e os conteúdos continuam sendo organizados segundo o grau de dificuldade da atividade proposta.

1. Introdução

O presente trabalho trata de questões pertinentes à Educação Física no que se refere ao trato que é dado aos conteúdos das aulas de Educação Física Escolar.

Apesar de terem surgido muitas propostas metodológicas nas décadas de 80 e 90 em contraposição aos modelos que até então predominavam, alguns aspectos dessas propostas não se apresentavam claramente. Um deles particularmente me chama atenção: os conteúdos das aulas de Educação Física Escolar.

O objetivo deste trabalho é compreender quais os critérios utilizados pelo professor nas aulas de Educação Física para a sistematização e construção do conhecimento desenvolvido nas referentes aulas.

As orientações, isto é, os caminhos que as propostas metodológicas apresentaram e apresentam são como norteadores para o planejamento, aplicação de conteúdos e avaliação para a escola e/ou para a Educação Física. Porém, a meu ver, a questão da seleção, organização e seriação dos conteúdos não ficou adequadamente resolvida.

Durante minha vida estudantil no ensino fundamental e médio, as aulas de Educação Física transcorriam a cada dia e a cada ano sem que nada de novo acontecesse. Os conteúdos (normalmente voleibol, basquete, handebol e futsal – aqui está outra questão, o da esportivização da Educação Física, que muito me oportuna mas que não será discutida neste trabalho) se tornavam ainda mais repetitivos durante a 5ª, a 6ª, a 7ª e a 8ª séries e então eu percebia que em nada eles (os conteúdos) se acresciam ou se delimitavam.

Já na graduação em Educação Física, durante os trabalhos de visitas às escolas e conseqüente observação das aulas, também me importunava a repetição de conteúdos que acontecia a cada ano letivo como foi apresentada nitidamente por professores e por alunos.

Daí o meu interesse nesta temática. Quais os critérios utilizados pelo professor de educação física para que haja uma sistematização e construção de conhecimentos por parte dos alunos?

De acordo com Chaves (2001, p.101) “a maneira como o conteúdo é selecionado, organizado e proposto ao aluno poderá facilitar ou dificultar sua aprendizagem, razão pela qual deve haver critérios para a seleção dos mesmos”.

É certo que algumas questões estruturais como espaço físico, materiais disponíveis, número de alunos por turma; e/ou questões institucionais como algumas conjunturas que são impostas e até mesmo o próprio Projeto Político Pedagógico (PPP) estabelecido pela escola podem interferir na escolha do conteúdo e principalmente na forma de ser desenvolvido.

Selecionar e organizar são ações que estão intimamente ligadas quando tratamos dos conteúdos, por isso muitas vezes encontraremos reflexões acerca dos dois temas, porém é na organização que desejo centrar meus estudos por perceber que a organização dos conteúdos ainda não claramente entendida.

Assim, fui a campo, tentar verificar da maneira mais sistematizada como se dava o processo de seleção e principalmente de organização dos conteúdos por parte dos professores da rede municipal de Vitória (ES).

Tendo-se em conta que o sentido de uma pesquisa qualitativa não está na obtenção do maior número de informantes, concentro minha preocupação em perceber como professor organizou seus conteúdos de 5ª a 8ª série do 1º grau.

Por fim, serão apresentados os resultados obtidos nessa pesquisa e as devidas considerações e se possível as conclusões acerca das formas de organizações dos conteúdos das aulas de Educação Física relatado pelos professores entrevistados.



2. Surgimento de propostas metodológicas

Dentro desse contexto, a década de 80 foi considerada como “um período fértil” , como afirma Muniz (1996, p.2), por apresentar um amadurecimento acadêmico nas questões conceituais referentes à Educação Física, ao esporte, ao lazer, à recreação.

O engajamento de professores em cursos de mestrado e doutorado no Brasil e no exterior, a implementação de cursos de pós-graduação em níveis lato sensu e stricto sensu, assim como um aumento significativo no número de publicações, pesquisa e eventos acadêmicos contribuíram para que a década de 80 e posteriormente a década de 90 se destacassem no contexto histórico da Educação Física.

Assim, muitas propostas foram pensadas e desenvolvidas para a Educação Física a partir da ação/intervenção no dia a dia da escola.

Entre muitas produções acadêmicas que surgiram na referida década, algumas como as propostas teórico-práticas se destacaram sendo denominadas ora de críticas, ora de renovadoras, mas sempre com o intuito, pelo menos a princípio, de crítica e superadora daquelas que comumente são chamadas de tradicionais.

Trabalhos como Muniz (1996) e Alvarenga (2002), todavia tem demonstrado os limitados impactos das propostas sobre o cotidiano da Educação Física escolar.



3. A teoria na prática

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa que se utilizou de métodos de inquirição. A coleta de dados foi feita com a aplicação de questionários aos professores de Educação Física e, em seguida, entrevistas do tipo guiada.

A população deste estudo é composta pelos professores da rede municipal de Vitória. A delimitação do grupo amostral se deu pelos docentes que se propuseram a espontaneamente responder o questionário enviado.

Os questionários foram enviados aos professores para que pudéssemos verificar, através de suas respostas, se eles utilizavam alguma proposta metodológica ou quais propostas metodológicas eram utilizadas nas aulas de Educação Física na escola.

Porém, a Educação Física, assim as outras disciplinas, enfrentam um sério problema, entre tantos outros na educação brasileira: as contratações temporárias de professores. Isto fez com que muitos professores que responderam o questionário no final do ano letivo de 2002, já não estivesse mais na escola agora em 2003, reduzindo a amostra do estudo. Assim a amostra ficou restrita a três escolas onde três professores foram entrevistados.

Não posso deixar de mencionar a limitação do meu estudo, por concentrar minha investigação na fala do professor durante a entrevista, o que necessariamente não representa a realidade dos fatos. Fica claro que a observação sistemática das aulas de Educação Física em todas as escolas do grupo amostral seria fundamental para uma real constatação das respostas apresentados nos questionários.



4. Discussão dos resultados

Percebi nas respostas obtidas uma certa confusão, ou uma verdadeira salada de propostas metodológicas utilizadas pelos professores para a realização de suas aulas.

Se tratando mais especificamente sobre conteúdos das aulas de Educação Física, os informantes foram unânimes em responder que os conteúdos se fazem repetir todos os anos letivos e que esses conteúdos normalmente se resumem os esportes. E ainda, todos os informantes mostraram, através de sua fala, que esses conteúdos são organizados baseando-se no grau de dificuldade que cada tarefa ou esporte apresenta, isto é, quanto mais elevada for a série mais difícil será atividade aplicada.

Dois dos informantes afirmaram que além do grau de dificuldade de cada atividade proposta, falam do grau de maturidade dos alunos que também são considerados no momento de organizar os conteúdos das aulas, exatamente por um estar ligado ao outro.

Notei ainda que cada respondente disse utilizar uma certa proposta metodológica para as suas aulas de Educação Física, mas a forma como é conduzida a organização dos conteúdos das aulas parece ser a mesma: todos afirmam organizar pelo nível de dificuldade da atividade proposta.

Esse aprendizado motor demonstra a que a sistematização do conhecimento se deu apenas do movimento pelo movimento, quando deveria envolver todo o contexto que cerca o movimento desde os conceitos que explicam o mesmo até as explicações político-filosóficas das existências dos modelos dos saltos.

Se a Educação Física é componente curricular dentro das escolas, ela tem um conteúdo específico para dar conta, não podendo ser repetido da forma como tem sido feito pelos professores nas redes de ensino. Ela deve contribuir para a construção do conhecimento.

É possível concluir também que, mesmo existindo propostas metodológicas que possam servir de orientação para os professores de Educação Física elas não são utilizadas. E que estas propostas ainda estão limitadas a projetos e intenções que tentam ser materializadas, longe portanto, de se constituir numa práxis que é sonho que alguns intelectuais.

Não se pode deixar de mencionar que, independente da utilização de uma proposta metodológica para as aulas de Educação Física e muito mais importante que isso, a intencionalidade do professor deve se fazer presente no intuito conseguir uma prática pedagógica onde professor e aluno possam interagir no processo de ensino e aprendizagem.

6. Considerações finais

A partir de todos os dados apresentados pode-se concluir que, hoje, mesmo que existam propostas metodológicas para a orientação da prática pedagógica do professor, os conteúdos das aulas de Educação Física continuam se repetindo nas escolas (pelo menos do município de Vitória) como aconteciam nas décadas anteriores.

Não só a repetição de conteúdos se faz presente ainda hoje, como também foi notado a predominância do esporte nas aulas de Educação Física escolar. Isso me faz refletir se consideramos a cultura corporal de movimento como sua temática observa-se uma redução e um empobrecimento dos conteúdos a serem transmitidos na escola.

Será que, com o esporte como único conteúdo hegemônico da Educação Física escolar e a repetição de conteúdos que se apresenta, é possível haver a construção de conhecimento? Parece-me que sim, todavia, claramente limitado.

Quanto às propostas metodológicas, essas parecem estar reduzidas à projetos e boas intenções dos intelectuais que as elaboraram, pois o que eu pude perceber foi uma certa indefinição no conhecimento e aplicação das propostas. Especificamente no que se refere à prática, pude perceber, através da fala dos professores, que todos “caem” na mesma forma de organizar os conteúdos, qual seja, através do grau de dificuldade da atividade proposta.

Contudo, é relevante perceber, independente da proposta adotada e de sua eficiência e eficácia, qual é a intencionalidade do professor ao planejar suas aulas, selecionar os conteúdos e conseqüentemente organizá-los. Neste sentido, minha preocupação é que a prática pedagógica seja uma possibilidade de transmissão e construção cultural, e não apenas uma recepção de movimentos como atividade unicamente motora.

A autora, Evânia Nunes de Angeli é do PET/LESEF da Universidade Federal do Espírito Santo

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ARPE - ALONGAMENTO REEDUCATIVO DA POSTURA EM ESCOLARES

André de Brito Oliveira



Resumo: Este trabalho visa levar ao público discente infantil e adolescente, informações acerca dos problemas acometidos ao longo da vida, decorrentes de uma má conservação postural. Neste contexto, a partir de um trabalho de conscientização, iniciar-se-ão atividades práticas na tentativa de despertar uma melhor consciência corporal pela criança, objetivando controlar, diminuir ou extirpar quadros clínicos de dores e/ou deformidades que se instalaram precocemente. Ao observar uma grande quantidade de educandos com dificuldades de fechamento do ângulo de flexão de quadril – o que prospera para compensações ao nível da coluna vertebral – houve uma preocupação em reeducar o indivíduo tendo em vista as posturas assumidas em diferentes momentos e posições corporais, a fim de que se evite maiores danos futuros à saúde, como discopatias, escolioses, hiper-lordoses, cifoses, artroses, artrites, entre outras doenças crônicas degenerativas do sistema osteomusculoarticular.

Atualmente, o mundo prega o conforto a partir dos avanços tecnológicos em meio à sociedade. São inúmeros produtos fabricados para que cada vez mais o homem se sinta confortável em seu ambiente de trabalho, em seu lar, em sua vida social.

Contudo, tal conforto mascara posturas que praticadas com freqüência, conduzirão o indivíduo a experimentar dores, lesões e/ou quadros clínicos agudos ou crônicos de doenças relacionadas aos ambientes em que comumente freqüenta.

LIMA (2003), ao perceber as mudanças posturais causadas pelo excesso de tempo em uma mesma posição, diz que: “(...) se uma pessoa permanece muito tempo em um determinado padrão postural, provocará uma adaptação muscular e ligamentar compatível com o referido padrão, ou seja, uma região irá se adaptar mais encurtada e outra mais alongada.” (pág. 180)

Crianças que passam de 4 a 8 horas por dia (horário integral) numa escola têm nesse momento uma atenção merecida. Tal carga-horária é basicamente vivenciada em sua maior percentagem na posição sentada (e são crianças!). E é aí que iniciam os problemas: que posturas tais crianças adotam ao sentar-se, ao passar boa parte do dia assimilando atividades cognitivas, enquanto a escola não se importa com uma postura osteomusculoarticular que sustenta todo o organismo, inclusive o cognitivo?

Ao iniciar um trabalho de ARPE (Alongamento Reeducativo da Postura em Escolares) – baseando-se em técnicas da RPG, desenvolvido com alunos da alfabetização a 4ª série, percebi que atividades que exigiam fechamento de quadril (flexão coxofemoral abaixo dos 90°) não eram executadas com eficiência por praticamente 90% do alunado pesquisado.

A maioria dos alunos apresentava até dificuldades de sustentar-se na posição sentada com as pernas esticadas, mantendo-se a 90°. Conseqüentemente, com o passar dos anos, a tendência é de que a abertura do ângulo de flexão do quadril aumente, ou seja, quanto maior for o grau de abertura maior será o quadro de dificuldades.

Conscientizar-se da própria postura não é fácil. Daí a importância que o desenvolvimento psicomotor assume diante da formação da criança.

Dentre os fatores abrangidos pelo desenvolvimento psicomotor, destaca-se neste trabalho Esquema Corporal, por meio do qual a criança toma consciência de seu corpo e das possibilidades de expressar-se por seu intermédio.

O MEC/SEESP, ao lançar Linhas Programáticas para ao Atendimento Especializado na Sala de Apoio Pedagógico Específico (1994), cita Wallon para dizer que “o esquema corporal é a representação relativamente global, científica e diferenciada que a criança tem de seu próprio corpo”. (pág. 9)

Neste aspecto, a consciência corporal, ou seja, a interpretação das diferentes partes do corpo no tempo e no espaço pela criança é fundamental para que ela saiba entender-se e corrigir-se quando necessário em se tratando de sua postura.

Paralelamente à tomada de consciência do próprio corpo, é necessário que se implante o programa ARPE (Alongamento Reeducativo da Postura em Escolares) nas escolas, com o intuito de melhorar a funcionabilidade das estruturas musculo-articulares visando uma melhor qualidade física futuramente. O ARPE baseia-se em técnicas desenvolvidas na RPG da Fisioterapia para desenvolver na criança, a consciência corporal global, através de um programa de alongamento contínuo (ver anexo) que visa trabalhar a cadeia muscular global do indivíduo para melhorar o aparelho músculo-esquelético do mesmo.

LIMA (2003) cita Guiselini para afirmar que: “O sentido cinestésico envia informações ao cérebro sobre a funcionabilidade do corpo no que diz respeito às posições, alterações posturais, grau de tensão/relaxamento, amplitude do movimento, entre outros aspectos.” (pág. 187)

Para que isto ocorra, é fundamental que tais sentidos e percepções sejam desenvolvidos quanto mais cedo melhor. É importante que desde a inserção da criança na vida escolar, seja trabalhado a importância das posturas adequadas em diferentes situações para que se tenha uma vida futura com qualidade e, despertando naqueles que tendem para o esporte de alto nível, o valor que o alongamento e a flexibilidade assumirão em seus desempenhos.

Como sabemos, não somente os cabelos envelhecem mas todo o nosso organismo. É fácil cuidarmos daquilo que a olho nu podemos ver, mas podemos sofrer conseqüências desastrosas com a saúde em idade avançada a partir de problemas que ao longo da vida, sorrateiramente foram se instalando no organismo por nossa própria culpa. E da escola! Pois é dela a responsabilidade de formação da criança, não somente intelectual, mas, sobretudo, como pessoa humana integral. Fazer com que o aluno consiga aprender a seguir aprendendo é uma das metas do ensino moderno e, um grande desafio para a escola na atualidade.

Metodologia da pesquisa

As atividades da referida pesquisa são as que se seguem e, por objetivar a consciência corporal da criança para uma melhor postura, serão a base deste trabalho prático de alongamento e estabilização das cadeias musculares alteradas ao longo da vida, respeitando a individualidade de cada um, suas limitações e/ou capacidades físicas:



Atividades

Todas as posturas deverão incluir os braços em posição anatômica para que alongue também as cadeias musculares destes membros já em contração contínua. Os tempos estabelecidos para cada postura dependerão do feeling do professor, mas não devem ultrapassar sua manutenção sucessiva por mais que 3 min, pois todas as formas posturais são mantidas por força isométrica localizada e por isso, podem levar a fadiga.



1ª atividade: sentado, mantendo a coluna ereta com as curvaturas normais realizando um ângulo de 90º em relação ao quadril, respiração apical, pernas em posição de lótus (Buda) caso esteja sentado no chão e, pernas formando ângulo de 90º com a coxa, devendo os pés estar com toda a planta sobre o solo caso esteja sentado numa cadeira ou banco.

2ª atividade: postura da bailarina, que consiste em estar de pé, com os pés às 12h e 55min ,devendo os calcanhares estar unidos, joelhos com rotação externa e semiflexão. O tronco deverá inclinar-se para frente à medida que se empina o bumbum. A flexão de tronco variará de pessoa para pessoa tendo em vista as dificuldades individuais e, seu ponto de referência será a manutenção das curvas normais da coluna vertebral. O prof. orientará o aluno para a flexão mais ou menos acentuada do tronco, permitindo um maior alongamento da cadeia muscular posterior. É ele quem irá determinar o quanto a criança pode flexionar o tronco.

3ª atividade: em decúbito dorsal, realizar-se-á uma flexão de quadril e simultaneamente de joelho, aproximando ambos os membros inferiores do peito. Deverá se ter o cuidado de não retirar a região lombar do solo.

4ª atividade: os alunos devem estar sentados em círculo, com as pernas afastadas lateralmente. Dever-se-á, em seguida, escolher uma das pernas, realizar uma flexão lateral do trono com a extensão dos braços sobre a perna escolhida. Após o tempo estabelecido pelo professor, trocar a atividade para a outra perna.

5ª atividade: ainda com as pernas afastadas, direcionar o tronco para dentro de ambas, solicitando do aluno, a manutenção da postura em seu limite individual.

6ª atividade: com as pernas em “posição de Buda”, manter-se sentado realizando uma respiração mais apical, mantendo a homeostase dos músculos anteriores e posteriores no equilíbrio.VARIANTE: manter a mesma postura, porém de pernas esticadas. Esta última é a atividade que demonstrará a evolução do trabalho realizado. O aluno deverá estar sentado, mantendo-se sem maiores esforços e dores a postura ideal.

7ª atividade: esta atividade fica a critério do professor, pois exige um nível maior de concentração, força e captação de O2 por parte do aluno. Portanto, é conveniente que se faça com crianças maiores. Utiliza-se de uma parede onde os alunos deverão estar de pé e recostados. A posição inicial deve ser a mesma descrita na postura da bailarina. O aluno deverá manter encostado na parede a cabeça com a nuca alta, toda a coluna e, com o “bumbum encaixado”, encostá-lo suavemente. As pernas em semiflexão resistirão ao peso do corpo. A respiração mantida deverá ser apical e para que a coluna esteja estabilizada na altura da lombar, os pés deverão se afastar da parede tanto quanto for necessário para que esta esteja totalmente e com suavidade, encostada também na parede. O professor deverá corrigir os possíveis erros individuais mantendo a atenção para possíveis ocorrências de quadros de tonturas ou desmaios. A atividade deve terminar com a tração que o professor fará em cada aluno, que consiste em sustentar seu peso com ambas as mãos postas com pressão nas laterais da cabeça e parte frontal da mesma, com os polegares, na porção inferior da “maçã do rosto”. O aluno, neste momento deverá arriar o corpo como se fosse sentar no chão, enquanto o professor sustenta seu peso pela cabeça. Isto levará a um alongamento de toda a coluna vertebral, sobretudo da região cervical. Em seguida o aluno, lentamente, voltará a posição ereta deslizando os calcanhares em direção à parede à medida que respira simultaneamente.

Avaliação dos resultados:

Marcar inicialmente com um lápis dermatoglífico ou caneta hidrocor as pernas do aluno após ele ter feito uma inclinação de tronco buscando deslizar as mãos pelas pernas até alcançar o seu limite máximo de flexão.

Após as atividades precitadas, realizar novamente este procedimento para avaliar quantos e qual o percentual de ganho entre os alunos.

Obs.: não se deve tomar esta postura da avaliação como uma forma de atividade para alongamentos neste programa. A mesma só será utilizada por questões avaliativas, pois a persistência da mesma pode causar deslizamentos intervertebrais.

O autor, André de Brito Oliveira leciona no CIEP 460 – Thiophyla Bragança, Araruama, RJ

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eferências bibliográficas

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SOUCHARD, Ph.E. O Stretching Global Ativo: a reeducação postural global a serviço do esporte. Ed. Manole Ltda, 1’ª ed., São Paulo – 1996.



ARTES MARCIAIS COMO EXPRESSÃO CORPORAL

E QUALIDADE DE VIDA

Luiz Alves Netto



Resumo: A instituição do Conselho Federal de educação Física e seus respectivos Conselhos Estaduais, trouxe ao meio das Artes Marciais certa instabilidade devido a desinformação e/ou informações truncadas quanto a competência daquele Conselho Fiscal.

Artes marciais como expressão corporal e qualidade de vida, aborda, embora de forma concisa, os pontos considerados tabu, que separam os instrutores de artes marciais, no caso Karate, e os professores de Educação Física, fazendo um apanhado institucional, na legislação, uma análise dos fatores psicomotores e qualidades físicas inerentes ao desporto, bem como os cuidados específicos na prática do Karate, inclusive como filosofia de vida. O karateca não aperfeiçoa para a luta, antes, luta para se aperfeiçoar.

Introdução

A prática das artes marciais melhora o desempenho intelectual e o inter-relacionamento pessoal, a medida que alicerçada na rígida disciplina oriental, aliada a princípios filosóficos milenares, exigem grau elevado de atenção e concentração na execução de tarefas de superação, consideradas impossíveis para os leigos. Assim funciona o principio de profundo respeito e gratidão que o discípulo tem em relação ao mestre, que se sente realizado com o progresso do aluno, formando uma perfeita simbiose filosófica, física e sociocultural.

Apresentamos alguns princípios legais que orientam para a qualidade de vida e implicam no ensinamento das artes marciais como objetivo.

A qualidade de vida está prevista na constituição federal art 6º, 196, 205, 206 II e VII, 215 § 1º, 216 III, 217 I.

“DOS DIREITOS SOCIAIS

Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção, à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados na forma desta Constituição.”

“DA SAÚDE

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

“DA EDUCAÇÃO

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

...


II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.

...


VII – Garantia de padrão de qualidade.”

“DA CULTURA

Art. 215 – O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso as fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.

§1º. O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência a identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I – as formas de expressão;

II – os modos de criar, fazer e viver;

III – as criações artísticas e tecnológicas;

...”

“DO DESPORTO



Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais, como direito de cada um, ...

I – a autonomia das entidades desportivas dirigentes ou associações, quanto a sua organização e funcionamento;

...”

Sobre a ação do Conselho Regional de Educação Física – CREF, este deveria ater-se aos pressupostos dos art. 215§º1º, 216 III e 217 I, e se a preocupação é com a qualidade do ensino das artes marciais, a entidade fiscalizadora deveria fomentar, junto as autoridades competentes, o oferecimento da cadeira de artes marciais nas suas variedades, para que os alunos do curso de Educação Física pudessem fazer a opção pelo desporto de combate que mais lhe conviesse e assim, cursá-lo durante o período de formação, onde sairia capacitado naquela arte. Assim, o objetivo almejado seria alcançado, de modo que a população escolheria na prática do desporto, sob a orientação de um profissional de educação física, em detrimento daqueles instrutores menos qualificados. Seria incentivo para os práticos das artes marciais a ascensão ao curso superior de Educação Física ocorrendo a seleção natural do mercado de trabalho.



O Cref e as artes marciais

Com a criação do Conselho Federal de Educação Física, foram criados os conselhos regionais, inclusive o da 1ª região, compreendendo o Rio de Janeiro e o Espírito Santo.

A legislação não é muito clara em vários aspectos, principalmente no que diz respeito a professores de educação física capacitados em artes marciais.

Há uma enorme confusão em se definir a atividade do professor de Educação física e o instrutor de artes marciais.

Como órgão fiscalizador deve ater-se na vigilância de exercício profissional, deixando o BUDÔ para aqueles que filosoficamente estão engajados naquela disciplina (modo de viver)

Modalidade a ser praticada.

A pessoa deve visitar vários DOJOS, para que possa construir o pensamento crítico, escolhendo a modalidade que mais lhe agrada e se adapta ao seu perfil fisiológico. A partir daí, deve dedicar-se a prática do desporto a princípio como recreação, e se houver identificação, pode dedicar-se à performance competitiva

Faixa etária

Não há limite de idade, respeitados as condições que se possa traçar um plano de treinamento individualizado, de acordo com a liberação médica. Porém aconselha-se a iniciação à partir do 7 (sete) anos, sempre atento para o perigo de lesões nos centros de crescimento evitando-se sobrecarga e utilizando-se de metodologia lúdica direcionada para os princípios técnicos. Somente à partir dos 12 anos, deve-se iniciar a especialização do movimento, quando o desenvolvimento neuromotor já está estruturado.

Local e prática do desporto

O Karate pode ser praticado num espaço físico plano, firme, não escorregadio, arejado e que permita a execução dos movimentos em sua total amplitude. Não é obrigatório o uso de tatames, porém este são bastantes úteis para a segurança dos atletas, principalmente crianças e idosos, em caso de queda acidental.

Objetivo

Tanto para os tímidos como para os hipercinéticos, o Karate propicia um vínculo social pela cooperação nos treinamentos resultando em maior segurança e autocontrole.

A disciplina e concentração constante no BUDÔ favorece o desenvolvimento dos fatores psicomotores da tonicidade, equilíbrio, lateralidade, noção do corpo, estruturação espaço temporal e as praxias global e fina, a saber:

Tonicidade: Organização tônico-motora do interior para o exterior, como suporte da motricidade.

Lateralização: Treinamento para a integração bilateral postural, sem anular a dominância lateral, preparando o aluno para as abordagens de ambos os lados.

Noção do corpo: indispensável para aprendizagem psicomotora e noção de limite das funções do corpo.

Percepção espaço-Temporal: Relação do corpo com objetos e ou na prática do Karate, decorre da relação lateralização e noção do corpo.

Praxias Global e Fina: Tarefas motoras seqüenciais complexas com a utilização de vários grupos musculares com integração sensorial e psicomotora, evoluindo para micromotricidade de precisão e perícia manual aliada a coordenação de movimentos oculares durante a fixação da atenção, como por exemplo, durante um combate ou arbitragem.

A Expressão Corporal: Os movimentos harmônicos dos Katas refletem a expressão corporal do BUDOKA em combate. Embora, simulado, transmite perfeitamente as reações sofridas pelo corpo durante um ataque ou defesa, dependendo da intensidade, velocidade e ou força aplicadas em cada movimento, têm-se perfeitamente a tradução cerebral da coreografia, sendo perfeitamente acompanhado pelo leigo.

Qualidade de vida: É público e notório os benefícios decorrentes da prática de exercícios físicos, principalmente se devidamente orientados. O Karate, numa visão mais ampla, pode atingir aquele objetivo, de forma criativa, não repetitiva e com múltipla finalidade, fugindo da rotina formal das aulas de ginástica e ainda proporcionando ao praticante a aquisição de conhecimentos técnicos de autodefesa.

Alguns professores de ginástica vêm utilizando em suas aulas, movimentos próprios de artes marciais, muito provavelmente sem o conhecimento técnico e fundamentos essenciais à sua execução.

Assim, os cursos de educação física deveriam disponibilizar, para seus alunos, como matérias opcionais, a partir do 1º período, dando condições ao aluno de ao final do curso, graduar-se como “faixa preta” ou professor na modalidade, após exame regular aprovado pela competente federação desportiva.

Aliada aos fatores psicomotores estão as qualidades físicas de flexibilidade, destreza, velocidade, força, potência etc..., necessárias ao desporto em questão.

Cuidados na prevenção de lesões

Estes cuidados devem ser tomados com relação a prática de qualquer desporto, através de aquecimento e alongamento apropriados, onde deve-se enfatizar as articulações e grupamentos musculares mais exigidos no Karate

Anaminase e acompanhamento médico

Todo professor deve ter em mente a grande responsabilidade que é trabalhar com o corpo humano, e principalmente com exercícios físicos. Assim, antes da prescrição de qualquer exercício, o profissional de Educação física deve solicitar ao aluno que consulte seu médico informando, aquele que pretende praticar um determinado desporto, com certeza o médico irá indicar uma atividade física alternativa àquela em que o aluno está fisicamente impedido. Jamais o profissional deve ouvidar este cuidado, sob pena de responsabilidade aos danos físicos que venha a causar ao aluno.



Doutrina do dojo

Como demonstrado anteriormente, o Karate, como arte marcial, está também perfeitamente integrado a filosofia da qualidade de vida, conforme se vê nos princípios do DOJO KUN (doutrina DOJO)

STOST – JINKAKU KANSEI NI TSUTOMORUKOTO - Esforçar-se para formação de caráter

STOST – MAKOTO NO MICHIO MAMORUKOTO - Fidelidade para com o caminho da razão

STOST – DORIOKU NO SEISHIONO O YASUNAURUKOTO - Criar o intuito de esforço

STOST – REIGUI O OMOZURUKOTO - Respeitar acima de tudo

STOST – KEKI NO YOO IMASHIMURUKOTO - Conter o espírito de agressão

( GICHIN FUNAKOSHI )



Conclusão

O trabalho apresentado não tem o condão de tomar para o Karate o privilégio da conveniência e unir a expressão corporal com a qualidade de vida. Antes, é uma proposta embrionária para a exploração técnico-científica e filosófica que englobam as artes marciais como um todo, evitando a proibição de seus ensinamentos pelos não graduados em educação física, mas pelo contrário, difundindo sua arte nas universidade e restaurando as origens do Karate moderno do Sensei Funakoshi que era praticado nas universidade e tenha como exigência na formação de um faixa preta, um diploma universitário. Deve-se priorizar o ensinamento como um todo, sem discriminação, deixando para aqueles que têm anseio de conhecimento evoluírem na pesquisa científica do desporto.

O autor, Luiz Alves Netto é acadêmico do Curso de Educação Física da Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO , Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas, Advogado e Faixa Preta 4° DAN de Karate SHOTOKAN

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ARTES MARCIAIS E ESCOLA PÚBLICA:

ESTABELECENDO RELAÇÕES DEMOCRÁTICAS DE GÊNERO

Antônio Carlos Vaz

Carlos Alberto Mariano

Resumo: Este trabalho procura, a partir de dados que consideram o taekwondo um esporte mais apropriado aos homens do que às mulheres, refletir sobre o impacto da inclusão desta manifestação da cultura corporal nas aulas de Educação Física, no que diz respeito às relações de gênero.

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