Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



Baixar 2.22 Mb.
Página18/41
Encontro18.07.2016
Tamanho2.22 Mb.
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   41

Referências bibliográficas

VOTRE, Sebsastião; COSTA, Vera Lucia (Org). Cultura, Atividade Corporal e Esporte. Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1995.

SILVEIRA,Cleia (Org). Circo – Educação com Arte. Rio de Janeiro: FASE, 2001.

HOFFMANN, Jussara. Avaliação Mediadora: Uma prática em construção da pré escola à universidade. Porto Alegre: Ed. Mediação, 1998.

HILDEBRANDT, Reiner. LAGING, Ralf. Concepções Abertas no Ensino da Educação Física. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1986.

FREIRE, João Batista. Educação de Corpo Inteiro: Teoria e prática da educação física. São Paulo: Ed Scipione, 1989.



CONCEPÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

ENTRE DOCENTES UNIVERSITÁRIOS: O CASO UNIFOA

Coriolano P. da Rocha Junior

Alexsandro B. Leal

Edgar M. Ribeiro

Fernanda D. de Oliveira

João A. de Araújo

Melissa L. Lima

Willians da S. Perina



Resumo: Este estudo se refere às concepções sobre Educação Física Escolar (EFEsc) e objetiva identificar e analisar que concepções os docentes do Curso de Educação Física do Centro Universitário de Volta Redonda tem sobre o tema. O presente texto justifica-se pela necessidade de uma leitura mais ampla sobre o assunto, em se tratando de uma Instituição de Ensino Superior em Educação Física (IESEF). A metodologia adotada foi o estudo de caso, com o uso de questionários numa análise qualitativa. Como resultados preliminares, visto ser esta uma pesquisa ainda em andamento, podemos ver que os docentes investigados ainda trazem conceitos e noções sobre o papel e participação da Educação Física na escola, pautados em preceitos apontados como tradicionais, com pouco conhecimento sobre as discussões e literaturas em debate no campo pedagógico da Educação Física.

Palavras-chaves: Educação Física escolar, concepções, docentes, CEF – UniFOA

Introdução

O texto aqui apresentado é parte de uma pesquisa maior em andamento que tem como tema às concepções sobre Educação Física Escolar (EFEsc) entre professores do Curso de Licenciatura em Educação Física (CEF) do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA).

Este estudo traz como problema, quais as concepções sobre EFEsc entre docentes do CEF - UniFOA? Consideramos como hipótese que estes profissionais têm ainda concepções sobre EFEsc pautadas em perspectivas tradicionais, ou seja, reduzidas “... ao entendimento do homem na sua dimensão biológica e de desempenho físico/atlético.” (Muniz, 1998, p.30).

Temos como objetivos para o desenvolvimento desta pesquisa, a idéia de poder identificar e analisar as perspectivas que se tem sobre EFEsc dentro de um cenário de estudo específico, no caso, o CEF - UniFOA. A este objetivo soma-se à justificativa de se ter uma leitura do tema em estudo em um cenário real e específico. Para possibilitar a realização desta pesquisa, usamos como método o estudo de caso, tendo como técnica de investigação o questionário aberto, com uma análise qualitativa dos dados, justo por crer que estes procedimentos investigativos nos permitem uma maior percepção da realidade estudada. (Lüdke e André, 1986).

A pesquisa está sendo realizada com professores do CEF – UniFOA que tem graduação em Educação Física, para tanto, estes em tempos diferentes serão submetidos à investigação de acordo com as divisões dos departamentos (são três ao todo) na Instituição em estudo, para se ter uma visão do todo e assim, facilitar o acesso aos mesmos. O primeiro departamento investigado conta com nove professores e cinco graduados em Educação Física, nosso interesse. Adiante, traremos uma breve mostra de como é hoje o CEF – UniFOA e como se deu sua trajetória.

Uma breve descrição do cenário de estudos

O CEF – UniFOA existe desde 1971, sendo o segundo mais antigo de todo o estado do Rio de Janeiro; apenas a Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro é mais antiga.

O CEF – UniFOA sempre existiu como um curso de Licenciatura Plena, tendo passado por quatro reformas curriculares neste tempo, atendendo as exigências legais, sempre tendo como prioridade à formação de professores para atuar no espaço escolar.

Na atualidade o curso trabalha com uma matriz curricular de 3.200 horas/aula, distribuídas em oito semestres atendendo as exigências da Resolução nº 03 de 16 de Junho de 1987. As disciplinas que compõe o curso são distribuídas em três departamentos, a saber: Departamento de Fundamentos Biodinâmicos e Funcionais, Departamento de Fundamentos Sócio-Antropológicos e Pedagógicos e Departamento de Fundamentos Esportivos e Culturais.



A educação física escolar em questão

No desenvolvimento deste estudo estamos considerando a EFEsc como uma das várias opções de intervenção docente por parte do professor de Educação Física, dentre outras tantas práticas sociais possíveis e que neste caso se dá nos espaços formais.

Partindo do pressuposto acima, podemos dizer segundo Caparroz (1997) que a Educação Física brasileira em seu processo de incorporação e sistematização pela escola passou por várias influências, influências estas que caracterizam e sistematizam a atividade docente na escola, dentro de princípios e valores comuns a cada influência, sendo estas: a médica, a militar e a desportiva.

Na seqüência da análise da Educação Física na escola, Rocha Junior (2000, p. 1) nos diz que em tempos recentes,

... a Educação Física vem fazendo uma auto-análise sobre a constituição de seu campo de estudos e de seus espaços de intervenção. Neste caminho, diversas correntes que pensam a Educação Física em si e seus espaços de atuação profissional tem, de formas diferentes, se apresentado e tentado criar modelos de intervenção para a área.”

No caso brasileiro, é a partir da década de oitenta que se tem notável avanço nos estudos sobre a EFEsc, incluindo aí edição de livros, realização de eventos acadêmicos, titulação acadêmica de professores universitários, tudo isto em consonância com a mudança no cenário político pelo qual passava o país.

Segundo Resende (1992), toda esta produção pode ser enquadrada no que este chama de Pensamento Pedagógico Renovador da Educação Física Brasileira (PPREFB) e ainda ser dividida em fases segundo as características de sua produção, que vão desde a crítica até a proposição de modelos e análise de resultados de experiências.

Numa análise da recente produção teórica em Educação Física, podemos identificar obras que centram suas análises na questão escolar tentando apontar modelos e propostas de intervenção, dentre estas podemos apontar: humanista (Oliveira, 1985), desenvolvimentista (Tani, 1988), construtivista (Freire, 1989), fenomenológica (Moreira, 1991), sistêmica (Betti, 1991), crítico-emancipatória (Kunz, 1991), crítico-superadora (Coletivo de Autores, 1992) e antropológica-cultural (Daólio, 1995).

Com o visto, podemos perceber que são inúmeras as possibilidades de se conceber e tratar a EFEsc. Sendo assim, por considerar que a Educação Física em seus cursos de Licenciatura Plena devem capacitar alunos e alunas para atuação no espaço escolar, também estamos considerando que os saberes que pensam essa atuação devem estar contidos nas mais várias disciplinas que compõe a matriz curricular de uma IESEF, independente de seu campo de conhecimento e, portanto, devem constar dos conhecimentos tratados pelos professores em seu cotidiano docente, mesmo entendendo que podem existir diferentes compreensões e tratamentos acerca deste conhecimento.

Aqui é onde centramos o foco deste estudo, ou seja, identificar que concepções os docentes do CEF – UniFOA tem da EFEsc e é isto que veremos abaixo.



Os dados da pesquisa e sua análise

O que estaremos apresentando agora são os dados coletados junto aos professores de um dos departamentos do CEF – UniFOA que possuem graduação em Educação Física, como uma primeira parte da pesquisa.

As perguntas do questionário trataram de aspectos como: vínculo da(s) disciplina(s) ministrada(s) com a formação para atuação no espaço escolar, considerações sobre as propostas pedagógicas em Educação Física, objetivos da EFEsc e ainda conhecimentos sobre as referências da literatura pertinente a EFEsc.

Numa análise dos dados obtidos através da aplicação do instrumento selecionado, algumas considerações podem ser feitas no que concerne a temática da EFEsc e suas compreensões por parte de uma parcela dos docentes do CEF – UniFOA.

Na parte referente ao vínculo entre o que é tratado no ensino ministrado na Universidade e a formação para atuação docente, vimos que os professores (exceto um), apenas apontaram aspectos de natureza técnica e biomédica, referendando posturas já tradicionais. Ainda se identificou uma compreensão estanque dos domínios do conhecimento e uma noção dualista de corpo, numa noção instrumental do ensino da Educação Física.

No item do questionário que tratava as propostas pedagógicas, vimos que existe uma clara dificuldade de identificar e apontar as propostas pedagógicas para a área escolar, sendo que um chegou a afirmar não conhecer as propostas pedagógicas e outro manifestou conhecer apenas os PCN’s. Identificamos ainda uma nítida confusão teórica entre propostas pedagógicas e métodos de ensino, além de uma carência de definição de um projeto histórico próprio, dizendo que proposta pedagógica deve se amoldar ao projeto da escola seja este qual for. Nesta parte, de novo apenas um professor (o mesmo) demonstrou conhecer as propostas pedagógicas e foi capaz de apontar uma que considera mais adequada à atuação docente.

Já sobre objetivos da Educação Física na escola, mais uma vez se caracterizou a vinculação aos aspectos técnicos e ao desempenho atlético. Aqui, alguns apontaram elementos de formação social, porém sem caracteriza-los de forma coerente, mostrando então fazer apenas o uso de jargões já comuns no meio. Objetivos como obediência a regras, formação de bons costumes e adaptação à sociedade foram citados. Mais uma vez, só um pode apontar de forma concreta objetivos que se ajustam a uma determinada proposta pedagógica, saindo do que já é tradicionalmente apontado e que se referencia no desempenho atlético ou na performance esportiva.

Sobre a literatura específica, dos cinco investigados um apontou algumas, mas trazendo erros quando da ligação da obra ao autor, outros dois apenas apontaram literaturas de sua área na Universidade, mas não indicou nenhum livro dos já clássicos na área escolar, seja na Educação ou na Educação Física, outro só indicou um livro, que também não é notoriamente da área escolar e mais uma vez, só um indicou referências em Educação e Educação Física que são reconhecidas nos debates da área.



Considerações preliminares

A partir do que foi visto acima, que é parte inicial do estudo podemos apontar que entre os professores investigados existe um claro e preocupante desconhecimento das questões e das literaturas que tem norteado os debates acerca da Educação Física escolar, demonstrando uma vinculação e dependência aos fatores de influência técnica. Esta consideração nos leva a crer que por conseqüência se caracteriza no ensino universitário uma formação desvinculada daquilo que vem sendo alvo de estudos em tempos mais recentes, sendo adotado como referências modelos e matrizes de ordem técnica, tão somente. Estes resultados são ainda iniciais, sendo necessário a complementação através da investigação junto aos docentes dos demais departamentos, mas sem dúvida nos traz um indicativo que merece atenção e cuidado no que se refere ao modo como o CEF – UniFOA tem tratado a questão escolar na formação de seus acadêmicos e mais ainda, através disto podemos fazer inferências quanto ao modo de atuação dos egressos deste curso, na escola.

Os autores, Coriolano P. da Rocha Junior, coordenador, e os acadêmicos pesquisadores Alexsandro B. Leal, Edgar M. Ribeiro, Fernanda D. de Oliveira, João A. de Araújo, Melissa L. Lima, Willians da S. Perina são do Curso de Educação Física e do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Física do Centro Universitário de Volta Redonda – UniFOA

Referências bibliográficas

BETTI, Mauro. Educação Física e sociedade. SP: Movimento, 1991.

CAPARROZ, Francisco E. Entre a Educação Física na escola e a educação Física da escola. Vitória: CEFD-UFES, 1997.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino da Educação Física. SP: Cortez, 1992.

DAÓLIO, Jocimar. Da cultura do corpo. SP: Papirus, 1995.

FREIRE, João. Batista. Educação Física de corpo inteiro: teoria e prática da Educação Física. SP: Scipione, 1989.

KUNZ, Elenor. Educação Física: ensino e mudanças. Ijuí: UNIJUÍ, 1991.

LÜDKE, Menga & ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. SP: E.P.U, 1986.

MOREIRA, Wagner W. Educação Física escolar: uma abordagem fenomenológica. Campinas: UNICAMP, 1991.

MUNIZ, Neyse Luz. Influências do pensamento pedagógico renovador da educação física escolar: sonho ou realidade? (Dissertação de Mestrado). RJ: PPGEF/UGF, 1996.

OLIVEIRA, Vítor Marinho. Educação Física humanista. RJ: Ao livro técnico, 1985.

ROCHA Junior, Coriolano P da. Propostas pedagógicas em Educação Física: um olhar sobre a cultura corporal. (Dissertação de Mestrado). RJ: PPGEF/UGF, 2000.

TANI, Go, et all. Educação Física escolar: fundamentos de uma abordagem desenvolvimentista. SP: E.P.U, 1988.

CONSTRUINDO UM NOVO SIGNIFICADO

PARA A PRÁTICA DO VOLEIBOL: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

Antônio Carlos Vaz

Adilson Silvestre Jr.

Resumo: Este trabalho é a reflexão sobre uma experiência docente, que pretende contribuir para um novo significado para a prática do voleibol. Esta experiência foi adquirida por meio de um projeto desenvolvido pelo curso de Educação Física da Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL/SP), proporcionando, a partir das discussões anteriores acerca de uma Educação Física comprometida com as transformações, colocar em prática, em situação de aula, uma nova proposta de aula, que não promova a exclusão, a individualidade, ressaltando o conflito como recurso pedagógico, para explorar as decisões coletivas, e, assim, elaborar uma nova expectativa sobre a prática esportiva.

Introdução

A experiência em questão, foi adquirida por meio de um projeto desenvolvido pelo curso de Educação Física da Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL/SP), denominado de “Projeto Esportes”. Este projeto que oferecia bolsas de estudos aos alunos selecionados para atuarem nos diversos programas, oferecia a toda comunidade acadêmica e aos funcionários da própria instituição, diferentes atividades da cultura corporal como ginástica, dança, esportes e programas de condicionamento físico. O referido projeto proporcionou aos alunos envolvidos diretamente um nível de reflexão e atuação que nos permitiu perceber diferentes possibilidades para a docência no esporte.

É esta experiência e a reflexão sobre ela que pretendemos relatar e compartilhar nossas reflexões.

Aporte teórico

Os meios de comunicação de massa, em especial a o rádio e a TV, desempenham um papel nada desprezível no que diz respeito ao estímulo ao individualismo. Seus programas esportivos apresentam, em geral, um apelo à mitificação dos ídolos, para tanto, expõem vigorosamente a vida daqueles que se destacam no que o esporte tem de principal, ou seja, daqueles que fazem gols, pontos, cestas ou recordes.

Dentre os estudantes de Educação Física, é possível identificarmos um bom número de pessoas que escolheram esta carreira por terem sido atletas, ou mesmo por terem atuado em jogos regionais ou abertos do interior, ou simplesmente por terem participado de competições escolares. Isto, evidentemente, produz um indivíduo com uma visão sobre a Educação Física estritamente vinculada à busca incessante do sucesso, ao vencer sempre. Ou seja, uma visão conservadora do papel da Educação Física na formação humana.

Um dos principais problemas da nossa sociedade é o individualismo. Como educador crítico eu me pergunto: o que tem feito a educação pela formação societária e pela cidadania? Ela parece estar voltada muito mais para a reprodução do individualismo, hierarquizando a força de trabalho, do que propriamente para educar para uma vida comunitária, solidária. A educação tem-se centrado em seu papel de preservação da sociedade e seu potencial transformador tem sido quase sempre ignorado” (GADOTTI, 1998, p. 73)

O contato com os primeiros textos de cunho crítico, encontra grande resistência entre estes alunos, e é só na medida em que as mediações com a realidade começam a ser percebidas pelos próprios alunos, é que estes vão elaborando uma nova perspectiva de sociedade, de humanidade. O contato com diferentes matrizes do pensamento pedagógico e científico também colabora para uma certa dificuldade inicial do corpo discente em formação. Isto muito mais em função da ausência do pensamento dialético na vida destas pessoas.

A pedagogia da práxis é a teoria de uma prática pedagógica que procura não esconder o conflito, a contradição, mas, ao contrário, os afronta, traz às claras os interesses antagônicos. Mas a pedagogia da práxis não é uma pedagogia inventada a partir do nada, ela tem uma história, ela se inspira na compreensão dialética do mundo (GADOTTI, 1998). É, justamente, por estas características que a pedagogia em tela pode ser facilmente empregada pela Educação Física, pois no ensino do esporte está sempre presente os interesses antagônicos, os conflitos, que precisam, nesta perspectiva, de saídas construídas coletivamente, sempre no campo democrático (TAFFAREL, 1993).

A educação não reproduz integralmente a sociedade, e tampouco é a alavanca, por excelência, da transformação social. A escola, como um sistema, é apenas um subsistema do sistema social e, portanto, essa relação não é simétrica. A educação vive uma contradição interna, que é reproduzir a sociedade por meio da cultura, portanto, uma ação conservadora; e, ao mesmo tempo, responde à necessidade de uma nova cultura, uma ação revolucionária. Uma destas tendências é sempre dominante (GADOTTI, 1998).

Para Giroux (1997, p. 56), “as duas principais tarefas dos educadores de estudos sociais são identificar os processos sociais que operam contra a finalidade política e ética da escolarização em uma sociedade democrática, e construir novos elementos que forneçam as bases para novos programas em estudos sociais”.

É preciso garantir no exercício da aula, um ambiente que favoreça a contestação, por parte dos alunos, aos professores e aos colegas, pois é este exercício que colocará a aula numa perspectiva transformadora. A dialética intranqüiliza e perturba os comodistas, os preconceituosos, os pragmáticos, para eles, a dialética é subversiva, põe em risco o status quo (KONDER, 1985), e para isso os docentes precisam também estar preparados para o debate, e entendê-lo como próprio do mundo social.

Afinal, ninguém jamais conseguirá domesticar a dialética, ela deve atacar tanto o conservadorismo dos conservadores como estremecer o conservadorismo dos próprios revolucionários. “Este método não se presta para criar cachorrinhos amestrados” (KONDER, 1985, p. 87).

E o que não se pode tolerar é professores comprometidos, no discurso com a transformação social, mas que se mostram incapazes de conduzir um processo educativo, e, portanto social, sem divergências, sem conflitos, sem debates, que tente com todas as forçar eliminar a contradição do contexto social. E certamente não são poucos os que se enquadram nesta situação.

A experiência

A preocupação inicial era com relação à própria inexperiência, uma vez que tínhamos que atuar diferentemente do que sempre vimos, o que provocava um medo enorme de errar, de fazer algo que fosse contraditório com o que se buscava no projeto.

Aulas iniciadas e desafio lançado, conhecer a turma que estava inscrita para as aulas de Voleibol, era a primeira missão. Para nossa surpresa, foram inscritas trinta pessoas entre alunos e alunas, todos do curso de Odontologia. Estavam ali para serem treinados para o campeonato Inter-odonto que se realizaria alguns meses depois. O treinamento desportivo não era a proposta inicial do Projeto, então como elaborar, ou melhor, reelaborar a proposta pedagógica face ao novo dado.

Problema lançado, a primeira decisão foi questionar o objetivo da competição que eles fielmente visavam. Procurou-se levá-los a refletir sobre estes objetivos, visto que não havia seis ou doze jogadores, mas trinta pessoas entre homens e mulheres, a maioria com enormes dificuldades.

Quando foi dito que as aulas não seriam voltadas para treinamento, e sim para uma atividade coletiva que atingisse a todos, sem exclusão, respeitando as dificuldades dos colegas e que fosse, antes de tudo, divertido, a maioria da turma se exaltou e quis se retirar. Demovidos da idéia de desistirem, foram convencidos a experimentarem uma aula.

A idéia foi começar com brincadeiras, algo bem descontraído até atingir o esporte com suas regras tradicionais. Assim, imaginou-se que apareceriam os problemas de um jogo extremamente competitivo disputados por pessoas que queriam apenas vencer. Sabia-se que não tardariam a aparecer os problemas relativos às práticas discriminatórias. Os alunos com maior dificuldade para o jogo, logo se sentiriam expostos e poderíamos, desta forma, introduzir a discussão acerca da individualidade e competitividade.

Uma forte cortada que acertou o rosto de uma das meninas, que não tinha nenhuma intimidade com voleibol, foi motivo de chacota pelos colegas, intimidando, a mesma, de participar do jogo. Este fato, provocou, por medo, a saída de colegas que também apresentavam dificuldades com o jogo. Os habilidosos colaboraram muito com a saída destas pessoas, pois se irritavam com facilidade, gritando exageradamente com os colegas que não apresentavam o rendimento que “eles” esperavam.

Estes acontecimentos geraram, ao final da aula, uma calorosa discussão, porém, muitos alunos não quiseram  como eles próprios disseram  “ouvir sermões” e deixaram a aula. Assim, os problemas ficaram evidentes aos olhos dos que permaneceram, e pudemos, então, demonstrar o que pretendíamos com as aulas.

Procurou-se, naquele momento, ouvir, primeiramente, o que os jogadores com maior habilidade tinham a dizer, o que achavam da exclusão dos colegas com dificuldades? E se achavam justo que essas pessoas, por se sentirem envergonhadas, desistissem da atividade?

É oportuno revelar que do ponto de vista técnico, até mesmo os alunos mais habilidosos apresentavam algum tipo de dificuldade para a prática do voleibol. A partir da indicação de suas deficiências, pudemos mostrar que todos tinham como melhorar seu desempenho. Esta estratégia foi adotada para que todos se sentissem iguais, e estabelecesse, assim, relações mais respeitosas.

Conseguiu-se naquele momento, mesmo com medo de inverter os papéis e excluir aqueles habilidosos, que também não era nosso desejo, fazer com que muitos ouvissem aos professores e aos próprios colegas, entendendo a proposta inicial, e intensificando o respeito aos colegas, a importância à ajuda ao outro, o que sensibilizou efetivamente os alunos com maiores dificuldades, fazendo deles alunos permanentemente presentes às aulas.

Considerações finais

Acreditamos que um dos maiores problemas, era atingir nossas próprias expectativas, e tentar lidar com nossos limites, que nos fazia duelar com o permanente medo de errar. Esta experiência que nos foi muito rica, pode ser facilmente estendida ao universo escolar, uma vez que as determinações ideológicas que incidem sobre as práticas esportivas, a fazem sob qualquer contexto, inclusive o escolar. Portanto, a intervenção didático-pedagógica, baseada na pedagogia do conflito é um importante instrumento para os professores e professoras de Educação Física na escola.

Esta experiência pode ser comparada a uma turma de trinta crianças ou adolescentes de uma escola de bairro de periferia de São Paulo, com todos os problemas estruturais, pedagógicos e sócio–culturais que a envolve, pois as determinantes ideológicas que afetam os estudantes de odontologia, no que diz respeito ao modelo hegemônico de esporte, são rigorosamente as mesmas que afetam a todos jovens brasileiros.

Nas atividades livres do brincar/jogar, o tempo e a forma ou a complexidade dessas atividades dependem em grande parte do contexto cultural, especialmente da cultura corporal da sociedade, ou do segmento da sociedade a que pertence. Conflitos e contradições existentes nestas culturas, assim como relações de poder e controle social das instituições, normalmente se refletem ou se repetem, também, na brincadeira e no jogo, o que não deixa de ser uma boa oportunidade pedagógica para o esclarecimento de questões políticas e culturais para as crianças e os adolescentes (KUNZ,2000).

Finalmente, é importante ressaltar que, nesse projeto não tivemos preocupação com material didático, e muito menos com os equipamentos físicos da escola. Mas reconhecemos a enorme probabilidade de que professores e professoras deparem-se com problemas estruturais que dificultem o exercício didático-pedagógico, que é algo comum nas escolas públicas, especialmente as da periferia. Mas isso não impede o professor de realizar suas aulas, claro que o uso de material alternativo é bastante disseminado entre esses professores, entretanto, é fundamental, a partir de nossa perspectiva política, problematizar com os próprios alunos, levando-os a se interessar pelas políticas públicas e, principalmente, a questioná-las.

1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   41


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal