Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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Sobre a “história que não se conta”

Nascia em Lins, no interior paulista, no dia 4 de abril de 1944, aquele que anos mais tarde viria a ser conhecido como um dos grandes nomes do Atletismo mundial: Nelson Prudêncio. Não diferente da maioria dos meninos de sua idade, Nelson era, além de entusiasta, praticante de futebol, desconhecendo - como infelizmente ainda ocorre com muitos - o atletismo, cujo contato viria a ocorrer somente após seus 20 anos de idade. Residindo em Jundiaí e mais tarde em São Carlos onde concluiu o Curso de Graduação em Educação Física, Nelson foi, como ele próprio costuma dizer, escolhido pelo salto triplo. Ainda que tenha participado de algumas competições nacionais com resultados expressivos nos 100 metros rasos, salto em distância, salto em altura e revezamentos, Nelson tinha uma habilidade toda especial para o desenvolvimento das especificidades requeridas no salto triplo. Em 1965 e 1967, por exemplo, Nelson chegou a saltar 16m46 em campeonatos sul-americanos, melhorando cada vez mais essa marca até conquistar o recorde mundial, na época 17m03, pertencente a outro brasileiro, Adhemar Ferreira da Silva. Aos 24 anos, ao lado de outros grandes nomes do salto triplo, tais como: o soviético Viktor Saneyev e o italiano Giuseppe Gentile, Nelson, que saltou 17m27, contribuiu para que o recorde mundial fosse quebrado por 5 vezes num intervalo de aproximadamente 4 horas, passando de 17m03 a 17m39, numa das competições mais emocionantes dos Jogos Olímpicos do México em 1968. Foi nessa competição que nos encheu de orgulho ao conquistar sua primeira medalha olímpica e uma das poucas do Atletismo brasileiro: a medalha olímpica de prata do salto triplo dos Jogos de 1968. Numa época em os recursos eram muito precários, o treinamento desportivo e a tecnologia eram bem diferentes do estágio atual e dividindo seu tempo entre o estudo, os treinamentos e o trabalho, Nelson continuou se dedicando ao Atletismo prosseguindo em suas conquistas. Logo ocuparia o 2o lugar no podium nos Jogos Pan-Americanos e representaria o Brasil em outros dois Jogos Olímpicos: Munique, em 1972 onde conquistou sua segunda medalha olímpica, a medalha de bronze, após atingir a marca de 17m05; e Montreal, cidade que sediou os Jogos Olímpicos em 1976. Esses são apenas alguns exemplos das conquistas e vivências de Nelson Prudêncio no campo do Atletismo. Ao lado dos saudosos Adhemar Ferreira da Silva, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque em 1952 e Melbourne em 1956 e João Carlos de Oliveira, também medalhista olímpico e detentor do recorde mundial de 17m89 por cerca de 10 anos, Nelson é uma das grandes figuras do atletismo, em especial, da prova de salto triplo, cujo recorde atual é de 18m29, do inglês Jonathan Edwards, estabelecido em Gotemburgo, no dia 07 de agosto de 1995.



Memórias do salto triplo: entrevista com Nelson Prudêncio

SQM- Nelson, gostaria que você contasse a história de seu encontro com o atletismo.

NP- Bem, o primeiro contato meu com o atletismo ocorreu em 1964, isso já com 20 anos de idade. Até então, eu desconhecia realmente o que era o atletismo. Eu me lembro que quando eu apareci na pista, um dos atletas me perguntou se eu sabia o que era salto triplo. Eu disse que não. Aí ele demonstrou a técnica. Por ter saltado 11 metros e pouco da primeira vez, ele se entusiasmou comigo e me chamou para fazer o treinamento. Isso foi uma identificação do acaso. É dito no esporte que é a prova que escolhe o atleta e não o atleta que escolhe a prova. Pode até gostar de outra prova, mas, não tem um potencial, nem um bom rendimento na prova. Naquele momento, creio eu, o que beneficiou para que me mantivesse na prova foi o resultado da performance. Não sabia o significado de quanto era 16 ou 17 metros, mas, quem estava há mais tempo, já sabia o quanto valia essa marca.

SQM- E a sua participação em Jogos Olímpicos, como foi?



NP- Em 68, já nos Jogos Olímpicos, eu saí daqui do Brasil sem um resultado expressivo. Saí daqui com 16m20. Meu negócio, na época, era apenas bater o recorde sul-americano, que era de 16m56. Nos Jogos Olímpicos fui assistir a um show e quando saí, notei que havia no saguão uma exposição do México, em que havia um podium. Nesse podium, é claro, havia um mexicano em primeiro lugar, do lado direito, um americano e, do outro, havia um negro de camisa amarela. Identifiquei-me com isso e três dias antes da competição falei para meu técnico: “Eu vou subir no podium!” E ele disse: “Que bom, estou gostando de ver!” O índice das eliminatórias era de 16m20, sendo que o italiano Giuseppe Gentile abriu-a logo de cara com 17m10... novo recorde mundial e olímpico! Mas, meu objetivo era apenas passar para a final; era para isso que eu estava lá. No segundo salto, eu consegui! Havia feito 16m57 e batido o recorde brasileiro e sul-americano. Já tinha colocado meu nome na história da América do Sul com o recorde brasileiro e sul-americano, mas era na final que iria começar a competição mesmo. Voltei para o alojamento e no outro dia estavam lá os finalistas, eram 12 os classificados para a final. Primeiro salto do Gentile: 17m22... novo recorde mundial e olímpico! Hoje em dia eu penso: “O que eu estava fazendo naquele disco?” No desenrolar da competição, Viktor Saneyev fez 17m23 e, em meu segundo salto, fiz 17m05. Já estava dentro daquela premonição que eu havia visto, pois, eu estava entre os três primeiros. Portanto, cumpria-se a profecia, se é que eu a posso chamar assim. Eu praticamente já me sentia acomodado, pensando: “quem sou eu para saltar 17 metros!” Mas, felizmente, eu não saí da concentração. Quando eu fiz 17 metros sabia que a briga ia ser boa, porque eu estava em condições de igualdade com os outros competidores. Na quarta rodada de saltos, um outro russo fez 17m09 e eu caí para o 4º lugar. Pensei: “Desse jeito, eu estou fora da jogada!” E eu saltei. Você não percebe quando faz um grande salto. Só ouvi a exclamação do público... era o novo recorde mundial e olímpico anunciado. Eu não tinha preparação psicológica para a coisa, mas, naquele instante, eu era o novo recordista mundial e olímpico! Eu fiquei extasiado, abobado! Fiquei parado pensando..., mas, naquele momento, eu sabia que a competição ainda não havia acabado, pois, faltavam duas rodadas. Todos os atletas estavam presentes e motivados e isso permaneceu até a última série. Na 5a rodada, o Viktor Saneyev fez 17m39 e eu estava com 17m27. Eu disse: “bem, está ótimo!” Mas ainda faltavam outras pessoas com reais chances de saltar acima disso e, no último salto, eu saltei 17m15. Bem, havia terminado e eu já podia desligar o circuito. Para mim estava ótimo! Chorei que nem criança, justamente pelo fato de saltar acima de 17 metros ... e nas Olimpíadas! Pensei: “Estou no podium olímpico!” O sonho de todo atleta é estar numa Olimpíada, deixar o nome no livro da história e com a medalha olímpica. Ter ficado como o melhor do mundo naquele instante foi muito gratificante!

SQM– E os outros Jogos Olímpicos?

NP–Na Olimpíada de 72, disseram: “Vamos levar Prudêncio pelo o que ele simplesmente fez no passado.” Eu havia trocado de técnico e disse a ele: “Vou à Olimpíada e vou saltar!” Então, eu disse para mim mesmo: “Vou subir no podium!” Na Olimpíada de 1976, em Montreal, como já existia o João, me puseram para escanteio, mas, quando saiu a relação dos convocados, eu estava entre eles. Fui mais para estimular o João. Não fui para a final. Não deu tempo para que eu me preparasse melhor e senti que os Jogos Olímpicos haviam terminado para mim. Com família constituída, os interesses passaram a ser outros. Minha passagem pelo esporte, creio eu, foi muito boa, abrindo um horizonte muito grande, não só em termos geográficos, como também, para o trabalho e integração com as pessoas.

Os autores: Sara Quenzer Matthiesen e Augusto César Lima e Silva pertencem ao Grupo de Estudos Pedagógicos e Pesquisa em Atletismo do Departamento de Educação Física da UNESP-Rio Claro



Referências bibliográficas

CASTELLANI, Lino. Educação Física no Brasil: a história que não se conta. Campinas: Papirus, 1988.

JONATH, Ulrich. Atletismo: Corrida e Salto. Casa do livro Editora, Lisboa, 1977.

MCNAB, Tom. Atletismo, Saltos e Lançamentos. Talus, Porto 1979.


MENORES INFRATORES VERSUS EDUCAÇÃO FÍSICA:

EXPECTATIVAS, REFLEXÕES, CONFLITOS E POSSIBILIDADES.

Peterson Vieira C. Silva

Yuri Henrique A. Amorim

Resumo: Viemos por meio deste trabalho desmistificar um pouco “o mundo“ dos menores infratores do Centro de Reabilitação de Crianças Infratoras de São Gonçalo, onde os trabalhos internos são cumpridos a contra gosto e a educação escolar quase não existe. Ao começarmos o nosso trabalho enfrentamos vários desafios tais como: discriminação, preconceitos, pré-conceitos, agressividade, falta de conhecimento e individualismo. Em meio a esta diversidade concluímos um aspecto que é comum entre as crianças e adolescentes, a maioria tinha uma verdadeira paixão pelo futebol, e com bases nesse ponto de partida demos início ao resgate desses menores infratores promovendo a cidadania, o espirito ético, a credibilidade, à expectativa de vida, afeto, esperança e companheirismo, onde acabamos descobrindo que a expressão “Marginal” é a condição de sobrevivência que lhes está socialmente reservada.

O pressuposto tema vem a tratar de um trabalho realizado com menores, no Centro de Reabilitação de Crianças Infratoras de São Gonçalo, com uma óptica de educação voltada para os integrantes da instituição, imbuído de formar agentes transformadores sociais, utilizando a Ed. Física como instrumento catalisador do processo ensino-aprendizado.

Este Centro de reabilitação acolhe crianças menores de dezoito anos que praticaram atos considerados crimes pela Lei Penal. Se fossem adultos estariam num estabelecimento prisional. Mas são apenas jovens, algumas crianças, mesmo assim são peritos no crime e grandes mestres da vida. Conhecedores do mundo, estes rapazes tocaram no fundo da moral e chamaram de nomes as regras orientadoras da democracia. Quebraram todas as leis e mostram a quem quer ver aquilo de que são capazes. Não matar e não roubar, são fábulas para estes jovens. O martelo de um juiz deu o veredicto. As aulas não são desejadas e as regras são cumpridas contragosto. Ali, os jovens fazem uma pausa no crime, mas geralmente, apenas uma pausa.

Com dificuldade na educação dos jovens, a instituição não tem pleno controle na regeneração dos detentos, e visão que se tem deles, é que abandonados pela sociedade e obrigadas a seguir ordens, na forma de um quartel eles são prisioneiros de um sistema social.

Com trabalho árduo, de segregar a criminalidade dos jovens, a sociedade acaba marginalizando e discriminando. Os jovens não têm mais oportunidade de representar e expressar, são sufocados com adjetivos desqualificantes. Dando ênfase na marginalização sem esperança de retorno a sociedade, são considerados com anti-sociais, drogados, agressivos etc.

Fundamentados numa concepção de que separando as pessoas da sua realidade não fornece benefícios à educação temos, Thompson, Augusto que nos relata “Segregar não é educar”.

A criminalidade é encontrada como fuga de seus problemas sociais. E a lei encontra a separação deles como uma panacéia. Praticando um retroalimentação nos problemas sociais. Conseguimos buscar em nosso trabalho a expectativa de formar um cidadão participativo, respeitador e criativo em seus momentos.

De forma dialética conseguimos abordar algumas características de nossos alunos (desacreditado, desestimulado, sem credibilidade, sem expectativa de vida, sem amor, sem esperança e individualista). Essas características encontradas nas aulas diagnóstica foram primordiais para utilizarmos uma concepção metodológica original para cada integrante.

A didática formal, conta com uma ação interpessoal do corpo discente com docente, deixando interagir em seu desenvolvimento. Buscamos através de uma “paixão nacional” , o futebol, recursos de intercâmbio do conhecimento.

Em meio a esta diversidade de condutas concluímos um aspecto que é comum entre as crianças, adolescentes. Todos estão envolvidos com o comércio e o uso de drogas, que é ilegal perante a sociedade, além de destacar que os infratores conhecem os efeitos que podem provocar.

Propondo uma visão e uma participação educacional na sociedade, pretendemos através do esporte auxiliar os adolescentes na sua escolha de vida. Contudo, sugerir um deslocamento dos jovens que aceitaram o trabalho, com o apoio da Secretaria Municipal de Educação (projeto especiais) de São Gonçalo e a própria instituição.

Com condições precárias do local para as aulas de Educação Física, conduzimos com criatividade e prazer transformando em uma proposta significativa para os adolescentes. Apesar da instituição não ter condições de oferecer um aspecto didático necessário influenciando na forma de educar, a Educação Física traz uma idéia de regeneração dos integrantes. Segundo Violante:

A institucionalização da marginalidade do menor deve-se ao modo dominante de interpretar as manifestações de suas condições marginais de sobrevivência – o trabalho não produtivo de seus familiares, o alcoolismo, a prostituição, o abandono, a separação do casal, e, neste contexto, os comportamentos do próprio Menor.” (1985, p.23)

Percorrendo esta idéia, destacamos uma etnometodologia que cabe ao professor compreende-los e assimila-los dentro de sua cultura, para que com isso saiba usar de maneira psicológica e prática a vivência do menor.

Expressões que pouco são variáveis nos discursos de alguns autores como: desenvolvimento emocional incompleto, ausência de referencial próprio, estrutura de personalidade lábil, imaturo, influenciável, de ego frágil, infantil, ou carente ou estruturado ou em vias de estruturação, agressivo, com senso crítico precário, angústia primordial básica, contato inadequado com a realidade, déficit de julgamento, crítica e senso ético , dificuldade em aceitar a realidade, apático, desinteressado e inibido, isso tudo reprime seus afetos, com isso procuramos trabalhar o lado mais carente observado dos menores detentos, propondo uma Educação através do futebol, o qual foi o esporte de maior aceitação.

O futebol por ser um esporte coletivo, de “paixão nacional”, de vibração, contagiante, prazeroso, e o qual os Menores detentos têm maior identificação, procuramos explorar, a fim de obter um melhor resposta dos Menores no meio prático, com isso demos oportunidade para aflorar e melhor trabalhar o lado afetivo, cognitivo e psicomotor, onde o primeiro podemos identificar logo na aula diagnóstica como o mais deficiente, e até então pouco sendo trabalhado. Tivemos até o presente momento um melhora significativa no lado afetivo, onde através de nossas orientações alguns “conseguem” se destacar da marginalidade, no lado cognitivo conseguimos melhoras em alguns, pelo simples fato que o próprio esporte pode oferece, jogadas, dribles e etc; no motor “pouco temos” o que trabalhar, afinal a vida de onde o Menor mora lhe oferece um campo bastante amplo onde já foi bastante trabalhado.

Contudo, concluímos que um método baseado na cultura esportiva, poderíamos tirar os recursos necessários para alvejar os objetivos almejados. Promover a cidadania e suscitar um espirito ético que prevaleceria. Essas características exigem que o corpo docente goste de seu trabalho e que tente romper uma barreira ainda muito obscura, goste das pessoas, e que tenha esperança no futuro, respeitando a cultura e sabendo trabalhar com a mesma, destacando que cada um integrante, terá seu direito de participar e criticar a sociedade. “Marginal” não é o indivíduo que produz sua condição marginal de sobrevivência ao emitir determinados comportamentos, ao não se submeter passivamente à sua condição insólita de vida. Marginal é a condição de sobrevivência que lhe está socialmente reservada.

Os autores: Acadêmicos Peterson Vieira C. Silva e Yuri Henrique A. Amorim, da Universidade Salgado de Oliveira ( UNIVERSO )



Referências bibliográficas

VIOLANTE, Maria Lúcia V. O dilema do decente malandro. São Paulo: Cortez, 1985.

THOMPSON, Augusto. A questão penitenciária: de acordo com a constituição de1988.RJ: Forense, 1991.

ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Cortez, 1991.

LAPLANTINE, françois. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2000.

PICCOLO, Vilma L.Nista. Educação Física Escolar: Ser ...ou não ter?.São Paulo: Unicamp, 1995.



NOVAS POSSIBILIDADES PARA O ENSINO DA EDUCAÇÃO FÍSICA:

UM RELATO DE EXPERIÊNCIA DA ABORDAGEM CRÍTICO-SUPERADORA.

Glauber dos Santos Ferreira da Silva

Vinícius Costa Pereira

William Rogers Lopes.



Resumo: Na última década muitas reflexões e propostas foram construídas sobre a especificidade da Educação Física (EF) escolar que permitiram um salto de qualidade da área, possibilitado, sobretudo pela definição de identidade no campo escolar e construção de sua autonomia pedagógica. No entanto, a essência deste debate nem sempre se manteve articulado com a transmissão/assimilação do conhecimento elaborado. A Abordagem Crítico-Superadora, que tem uma concepção de ensino, de currículo, conteúdo e princípios metodológicos, possibilita legitimar a EF enquanto disciplina escolar, centrada na função da escola. O objetivo deste trabalho é socializar uma experiência de ensino que articula teoria pedagógica da EF com teoria da Educação, explicita os procedimentos metodológicos no trato com o conhecimento e aponta as possibilidades de uma nova EF. Acreditamos que esta experiência vem somar à tentativa de se criar uma práxis pedagógica que esteja firmemente articulada com a função da escola, garantindo a EF enquanto disciplina e a escola como instrumento que pode estar a serviço da transformação social.

Na última década muitas reflexões e proposições relativas à Educação Física (EF) permitiram um salto de qualidade da área, possibilitado, sobretudo pela definição de identidade no campo escolar e construção de sua autonomia pedagógica.

No entanto, acreditamos que nem todas as produções da última década garantem a definição de um projeto político-pedagógico comprometido com a formação humana para a transformação social e muito menos reconhece a escola enquanto instituição social comprometida com a transmissão do saber produzido pela humanidade.

Diante do quadro teórico-metodológico da EF, defendemos que esta lacuna só é superada pelas definições conceituais e metodológicas da Abordagem Crítico-Superadora, centrais para o avanço da EF enquanto disciplina curricular.

Com o objetivo de confirmar esta tese, buscamos por meio deste trabalho, socializar uma experiência de ensino que articula teoria pedagógica da EF com teoria da educação, explicita os procedimentos metodológicos no trato com o conhecimento e aponta as possibilidades de uma nova EF.

1. Função da escola

De acordo com Enguita (1989), nas primeiras organizações sociais, os conhecimentos necessários para formação das crianças e adolescentes eram adquiridos no cotidiano do processo de trabalho, ou seja, na (re)produção da própria existência. O trabalho de caráter artesanal somado à própria dinâmica político-social-econômica do mundo não estabelecia exigências para a qualificação baseada no conhecimento científico e filosófico. Os saberes primordiais estabelecidos pela elite limitavam-se a dimensão prática circunscrita a andar a cavalo, manusear armas e tocar um instrumento musical, relegando a escola um papel marginal na sociedade.

Com o surgimento de novas formas de produção e diante das mudanças na dinâmica do mundo, exigindo um novo perfil de trabalhador, a escola passa a ser um instrumento importante, geradora de hábitos e costumes que fossem de interesse da indústria crescente (obediência à carga horária, não contestar ordens, submissão dentre outros) contribuindo para a supremacia da classe burguesa.

As mudanças provocadas pela revolução industrial que apontam para superação do trabalho-arte em nome do trabalho-ciência, e o alargamento progressivo da socialização política sob a ótica burguesa de mundo constituem-se nos novos determinantes para a configuração de escola enquanto espaço de formação do cidadão/trabalhador referenciado numa determinada perspectiva de ciência. Nesse contexto, Neves (1991), afirma que para a burguesia a escola se constitui como meio de organizar o consenso moral e político e a formação técnica para a produção de acordo com o seu projeto. Para a classe trabalhadora, a escola se constitui, no plano imediato, a forma de vender melhor sua força de trabalho e no plano mediato, como formadora das condições que elevem sua condição enquanto classe dirigente.

Saviani (1991), afirma que a escola deve criar possibilidades para a transmissão/assimilação do saber elaborado. Para o autor, o conhecimento espontâneo que produz palpites não justifica a existência da escola. O que a faz existir é a necessidade pela apropriação do conhecimento sistematizado por parte dos educandos, assim como instrumentos que os permitem acesso ao saber elaborado.

Considerando que a escola é uma instituição social responsável pela formação humana dos futuros cidadãos-trabalhadores livres, e esta formação só se justifica a partir da especificidade do conhecimento, acreditamos que a inserção pedagógica de qualquer outra área, em especial a EF, não pode se constituir por fora desta definição histórico-conceitual defendida pela pedagogia histórico-crítica.

Desta forma, acreditamos que a Abordagem Crítico-Superadora se constitui na principal e mais completa referência para o ensino da EF.

2. Analisando a abordagem

Essa abordagem, além de definir a EF em outras bases filosófica, ético-política e pedagógica, garantiu a mesma uma articulação com a função da escola, através da definição do campo de conhecimento (cultura corporal) e o objeto de estudo (o movimento enquanto linguagem).

A definição de ensino defendida pelos autores supera a forma verticalizada e descontextualizada dos modelos que se baseiam na fórmula restrita de transferir conhecimentos e desenvolver habilidades. Para a abordagem, o ensino é a atividade docente responsável pela transmissão/mediação do conhecimento, através de uma lógica, de uma pedagogia, da apresentação do saber elaborado e criação de possibilidades que permitam ao aluno a assimilação do conhecimento. Por sua vez, o conteúdo da EF, denominado cultura corporal, é necessário para a compreensão do mundo a partir da especificidade dos processos de transformação das atividades corporais e seus significados. A concepção de currículo, que representa o caminho pelo qual se dá o processo de escolarização do homem, criando possibilidade para uma reflexão pedagógica do aluno, permite desenvolver uma leitura da realidade, dentro da perspectiva da lógica dialética, a partir da constatação, interpretação, compreensão e explicação da realidade social, comprometido com os interesses populares.

A abordagem possui alguns princípios curriculares que ajudam a organizar, selecionar e sistematizar os conteúdos a serem ensinados, garantindo por sua vez uma ligação com significados sociais. Essa orientação destaca dois princípios curriculares importantes que se articulam: o da relevância social do conteúdo, que garante ao aluno a explicação da realidade social possibilitando-o lutar pelos seus interesses de classe e a contemporaneidade do conteúdo, que implica em manter a atualização dos conhecimentos referentes aos acontecimentos modernos (científicos e tecnológicos) assim como o que é considerado clássico. Um outro princípio indicado resgata a necessidade de adequação às possibilidades sócio-culturais de entendimento do aluno, o que significa criar condições para o aprender. Todos são requisitos fundamentais para a seleção dos conteúdos a serem transmitidos/assimilados. Para o seu tratamento e organização, dois princípios são determinantes: o da simultaneidade e a espiralidade. No primeiro, os dados da realidade não se transmitem isoladamente, confrontando com as idéias do currículo conservador (etapismo) e o segundo rompe com a linearidade com que é tratado o conhecimento, assegurando ao aluno uma organização mais ampla do mesmo. Por fim, a provisoriedade garante que o conteúdo de estudo seja visto sempre como algo inacabado, em construção.

Quanto à linha metodológica, a Abordagem Crítico-Superadora – inspirada na Teoria Histórico-Crítica de Saviani (1995) – define os seguintes procedimentos: identificação do conteúdo na prática social, que significa estabelecer as relações entre conteúdo/sociedade e vivência dos alunos. O segundo é caracterizado pela definição de problemas pedagógicos, de relevância social, que vai orientar toda perspectiva de ensino e aprendizagem, articulada com a totalidade. O terceiro consiste na transferência das ferramentas culturais (conteúdos) necessárias para a solução dos problemas pedagógicos. Este procedimento denomina-se de instrumentalização. Por último, procura-se elaborar uma síntese superior, permitindo um salto de qualidade. Isso significa retornar aos problemas pedagógicos e sua contextualização na prática social, a partir da aproximação de novos conhecimentos na busca de novas respostas pedagógicas e sociais.

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