Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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Referências bibliográficas

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O CONCEITO DE EDUCAÇÃO FÍSICA NAS TESES DA

FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO NOS ANOS 1840

Aristóteles Vandelli Carneiro

Vítor Marinho de Oliveira

Resumo : O objetivo a que nos propomos foi verificar o conceito de Educação Física veiculado nas teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro nos anos 1840. Partindo da perspectiva do Materialismo Histórico e Dialético, recorremos à categoria de análise da Totalidade Social, de Goldmann (1991), que nos permitiu analisar as teses em suas relações com as diversas determinações presentes no período imperial. Chegamos à conclusão de que o conceito de Educação Física era amplo e pautava-se em um modelo higiênico, transplantado para o país pelos médicos higienistas daquele século. Neste modelo, a categoria da Gesta (prescrição de atividades físicas), pode ser considerada como o elo mais próximo do conceito atual de Educação Física.

Introdução

Nos últimos anos temos observado diversos trabalhos publicados acerca da temática da Educação Física no século XIX. Dentre os estudos temos os de Góis Jr. (2000), Cunha Jr. (1998), Melo (1998), Moraes (1997), Salles Filho (1996) e Soares (1994),entre outros.

As teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (FMRJ) já produziram alguns trabalhos relativos à Educação Física no século XIX, onde a comunidade acadêmica buscou fontes primárias para a consecução de suas pesquisas, encontrando interesse apenas no período a partir dos anos 1850, entre eles, Mourão (1998) e Pagni (1997).

Como desdobramento do projeto do Grupo de Estudo e Pesquisa em História da Educação Física e do Esporte (GEPHEFE), temos alguns trabalhos referentes às teses da FMRJ, dentre eles os de Oliveira e Castro (2000), e Malina e Azevedo (2000).

O Projeto-mãe do GEPHEFE estudou as origens da relação Educação Física e saúde, a partir das teses da FMRJ, donde saíram as dissertações de Carneiro (2003) e Castro (2002), além da tese de Silva (2003).

Ainda com relação às teses da FMRJ, temos também estudos de outras áreas, como o trabalho de Costa (1999) e a tese de Gondra (2000).

O Higienismo, que começava a penetrar no meio acadêmico brasileiro, teve na associação dos médicos, através da Academia Imperial de Medicina (AIM) e da FMRJ os porta-vozes dos seus ideais, que grassavam por esta época em nosso país.

A aliança com o governo, veio facilitar a penetração deste ideário na sociedade brasileira, intervindo não apenas individual, mas também coletivamente, no combate a diversos “males” que ameaçavam a saúde pública.

Vimos então, que muitos foram os caminhos percorridos para que esta disciplina fosse normatizada como parte integrante do currículo das escolas durante o século XIX, principalmente em sua segunda metade.

Verificou-se a produção de alguns trabalhos que buscavam nas teses da FMRJ, elementos que pudessem nortear o entendimento do que era a Educação Física nesta época. Estes investigavam suas relações com o desenvolvimento da nova sociedade brasileira, através dos ideais médico-higienistas, propostos para a população de maneira sistematizada.

Percebemos, porém, que a primeira metade do século XIX é praticamente esquecida no que se refere a estudos relativos à Educação Física.

Apesar das poucas teses existentes neste período encontramos diversas delas reportando-se ao higienismo e, também, algumas especificamente à Educação Física, pois esta integrava o conteúdo da disciplina de higiene.

Partindo dos estudos publicados relacionados à prática físico-esportiva no século XIX, sentimos a necessidade de investigar a gênese da construção do que era na época denominada Educação Physica.

Levando-se em consideração que os médicos, provavelmente, foram os primeiros a proporem, na defesa de suas teses, um conceito inicial do que era Educação Física, propomo-nos a investigar o conceito de Educação Física nas teses da FMRJ nos anos 1840.



Metodologia

Esta pesquisa caracterizou-se como uma investigação qualitativa, de natureza descritiva. A análise dos dados está fundamentada na categoria da Totalidade Social de Goldmann (1991), onde iremos contextualizar as teses de acordo com as circunstâncias materiais presentes à época da escrita destas.

Com Goldmann (1991), a pesquisa histórica parte da leitura inicial do material empírico, ou seja, a manifestação do fenômeno, para chegar à sua essência conceitual. Desta forma, podemos dizer que o trabalho de pesquisa histórica inclui-se nestes termos.

Para que todas as determinações possíveis sejam significativas com o contexto histórico devemos estabelecer relações constantes do todo com as partes, e das partes com o todo. As diversas partes deste todo, em constantes idas e vindas entre si, formam encadeamentos e fazem sucessivas aproximações da essência desta totalidade.

Assim, trabalhamos na perspectiva do Materialismo Histórico e Dialético, com o conceito de historiador filósofo, de Goldmann (1991), distinguindo os mesmos em eruditos e filósofos. Estes trabalham sobre os mesmos fatos, “mas as perspectivas de que eles abordam esses fatos e os fins que se propõem são totalmente diferentes” ( p. 4).

Desta forma, ainda com Goldmann (1991, p. 4),

o historiador erudito fica no plano do fenômeno empírico abstrato que ele se esforça para conhecer nos mínimos detalhes, fazendo assim um trabalho não só válido e útil, mas, ainda indispensável ao historiador filósofo, que quer, a partir desses mesmos fenômenos empíricos abstratos, chegar à sua essência conceitual”

Os que analisam a história através apenas da erudição colecionam fatos, sem considerar sua significação concreta, acreditando assim que a simples ordenação dos mesmos produz história.

Esta história factual está em consonância com os interesses das classes dominantes, que para manterem suas idéias como hegemônicas, produzem-nas parcial e descontextualizadas, sendo apresentadas como a história da humanidade, para afirmar seus pensamentos como universais e únicos verdadeiramente válidos.

Já o historiador filósofo busca o fato concreto, sem prescindir do trabalho empírico, procurando interrelacionar as múltiplas determinações do fenômeno estudado, realizando uma síntese dos mesmos.

Podemos concluir, então, que os dois se complementam, pois um fornece informações indispensáveis para o outro fazer as múltiplas associações, separando o essencial do secundário.

Convém lembrar que a erudição e a pesquisa filosófica podem ser realizadas pela mesma pessoa, fato este que só vem a enriquecer o trabalho do pesquisador.

A partir destas considerações, diremos que qualquer fato estudado, permanecendo em sua abstração, sem relacionar suas partes com o todo, será superficial e parcial. Mas, a partir do momento em que os diversos fenômenos interagem entre si e com o todo aproximamo-nos de sua essência concreta.

Diante das observações acima, podemos dizer que a realidade político-social da produção das teses médicas, no período imperial, foi determinada pelas circunstâncias materiais presentes nesta época.

A divisão social do trabalho era bastante visível. Escravos e população livre das camadas populares realizavam o trabalho manual, e parte da elite imperial o trabalho intelectual.

Entendemos assim, que as teses produzidas neste período representavam o pensamento de um determinado grupo ou classe social e, não apenas dos médicos isoladamente, expressando a concepção de mundo que os mesmos possuíam.

Deste modo, Goldmann (1972) assegura que “um comportamento ou um escrito só se tornam expressão da consciência coletiva na medida em que a estrutura que exprime não é particular a seu autor mas comum aos diferentes membros constituintes do grupo social” (p.107).

Esta concepção de mundo transcende o indivíduo, aproximando-o da visão social de mundo que representa os interesses de determinada classe ou grupo social.

Goldmann (1972) denomina esta categoria máximo de consciência possível, que pode ser entendida como o limite de consciência de um determinado grupo ou classe social. As suas múltiplas determinações, em um dado momento histórico, não permitem que os seus representantes avancem além de sua visão de mundo.

Teses analisadas

Analisamos um total de quatro teses, estas que são: 1ª- Hygiene relativa ás diversas condições sociaes (João Duarte Dias – 1844); 2ª- A puberdade em geral (Antonio Pedro Teixeira – 1845); 3ª- Algumas considerações sobre a Educaçam Physica (Manoel Pereira da Silva Ubatuba – 1845); 6ª- Generalidades acerca da Educação Physica dos meninos (Joaquim Pedro de Mello – 1846).

Dentre as teses analisadas encontramos duas cujo tema central era a Educação Física. As duas restantes são complementares às primeiras, dando-nos uma amostra mais ampla da diversidade histórico-social presente neste período.

Considerações finais

Percebemos que o termo Educação Física, freqüentemente utilizado pelos médicos higienistas, possuía um significado bastante ampliado à época da escrita das teses.

Os referidos médicos recomendavam que o desenvolvimento do físico deveria ser preponderante em relação ao intelectual até o final da segunda infância. Estes preceitos foram teorizados por Rousseau no “Emilio ou da educação”, base para grande parte das recomendações ditadas pelos médicos relativas à educação.

Vimos pelas palavras acima que Rousseau, direta ou indiretamente, era uma das maiores referências - senão a maior - das teses que foram analisadas, tendo como pilar de sustentação teórica sua obra educacional.

Isso nos faz crer que esse filósofo, não só influenciou intensamente a Europa do século XVIII, como também foi difundido em nosso país, principalmente após a chegada da Corte Imperial.

Notamos que o conceito de Educação Física nos anos 1840 não é o mesmo dos dias atuais, posto que veio sofrendo reformulações e sendo cada vez mais restrito às atividades físicas. Mas, a prática da ginástica ou de exercícios ginásticos já era recomendada pelos médicos higienistas em diversas teses deste período.

Visto isto, percebemos que a conceituação do que era Educação Física já estava inserida em algumas destas teses, mesmo que de forma não sistematizada. Porém, este é um conceito mais abrangente do que o atual, fundamentado principalmente no paradigma da atividade física e saúde.

A Gesta (prescrição de atividades físicas) é o termo que mais se aproxima do conceito de Educação Física atualmente. Esta integra todo um modelo higiênico que foi transplantado para nossa cultura, principalmente através dos higienistas franceses.

Os higienistas propunham cuidados físicos e morais desde o momento em que a mulher engravidasse, mas principalmente após o nascimento da criança, até que esta chegasse à fase adulta. Neste período, seriam colhidos os frutos da boa Educação Física a que haviam sido submetidas até aquele momento.

Como não poderia deixar de ser, em um país escravocrata como o Brasil, onde as classes dominantes não estavam preocupadas com a educação da maioria de seus habitantes, os médicos recomendam a seus pares os preceitos do novo homem, burguês e citadino.

Desta forma, a Educação Física viria ocupar um papel de destaque na consecução dos propósitos de criação deste homem forte, física, intelectual e moralmente, pronto para servir à nação com todo seu vigor.

Os autores, professsor Ms Aristóteles VANDELLI CARNEIRO leciona na Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro e o Dr. Vítor Marinho de Oliveira é docente da Docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense - UENF



Referências bibliográficas

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O DESAFIO DA APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA EM TURMAS DE 5ª E 6ª

SÉRIES DO ENSINO NOTURNO NO MUNICÍPIO DE BELFORD ROXO – RJ

Anderson Paulino de Souza



Resumo: A construção de aprendizagens significativas, com qualidade formal e política, têm emergido freqüentemente no cotidiano escolar brasileiro sendo considerado um dos pontos cruciais para a consolidação de um ensino público de qualidade. É necessário desfazer a noção de aluno como sendo alguém subalterno, tendente a ignorante, que comparece para escutar, tomar nota e fazer provas. O presente estudo apresenta os ´ranços e avanços` da experiência implementada em turmas de 5ª e 6ª séries do ensino noturno do município de Belford Roxo, onde observou-se que embora seja difícil lutar contra aquela cultura arraigada do imaginário escolar de educação física apenas como sinônimo de futebol, ping-pong ou do ´faz quem quer`, sempre haverá uma possibilidade de se cultivar novas idéias e práticas pedagógicas transformadoras que colaborem na formação de sujeitos capazes de construir sua própria humanidade histórica.

1. Considerações iniciais

Em seu interessante livro “Os conteúdos na reforma”, referindo-se a idéia da aprendizagem significativa, César Coll apresenta aquilo que passou a ser o parâmetro norteador da nossa prática pedagógica: “o que importa é que os alunos possam construir significados e atribuir sentido àquilo que aprendem. Somente na medida em que se produz este processo de construção de significados e de atribuição de sentidos se consegue que a aprendizagem de conteúdos específicos cumpra a função que lhe é determinada e que justifica a sua importância: contribuir para o crescimento pessoal dos alunos, favorecendo e promovendo o seu desenvolvimento e socialização” (p.14).

Podemos afirmar que o objetivo da nossa experiência, para além de transmitir e reproduzir os saberes constituídos e legitimados socialmente, têm sido o de garantir condições para que o aluno desenvolva suas potencialidades, suas capacidade cognitivas, afetivas, sociais e também motoras. Nosso desafio central é fazer com que o conteúdo ministrado não se torne um fim em si mesmo, mas sim, que sirva de instrumento para auxiliar o aluno a compreender o seu próprio corpo, o seu agir no mundo e suas relações no meio escolar, familiar, profissional e outros.

2. A educação física no imaginário escolar

Ao ingressar na rede, em Maio de 2002, encontramos uma realidade escolar um tanto desafiadora: uma escola sem PPP, não havia diário escolar, uma quadra sem iluminação (impossível de ser utilizada no turno da noite!). Era preciso investigar aquele novo ambiente, com o intuito de identificar e reconhecer os saberes e fazeres construídos naquele espaço até o momento da minha chegada.

Na primeira aula, pedi que eles me respondessem (por escrito e sem identificarem-se) duas perguntas, quais sejam: “Educação Física: o que é? Para quê serve?”, nesta questão eu desejava saber qual era a imagem e a idéia de educação física que eles traziam consigo. Já na última questão: “O que faria se você fosse o novo professor de educação física da escola?” eu pretendia levantar algumas das expectativas que eles certamente depositariam na minha pessoa e na disciplina.

O resultado mostrou que a grande maioria relaciona a educação física da seguinte maneira (por ordem de importância): “exercitar o corpo e manter a forma”, “praticar esportes e aprender as regras”, “manter a saúde física e mental” e “se divertir e distrair a mente”, essas foram as quatro respostas mais freqüentes. Quanto à expectativa em mim depositada, as respostas mais freqüentes foram (em ordem de importância): “Dar mais aulas práticas e menos aulas teóricas”, “fazer a chamada rápido e depois dar futebol, ping-pong, vôlei...”, “ensinar vários esportes e as regras” e “fazer vários torneios”.

Não satisfeito com os resultados obtidos e diante de um grupo tão heterogêneo, aplicamos o questionário extraído do Método Likert (Mathews,1980), cuja análise através da escala Adams permite a medição de atitudes dos alunos em relação a um programa de educação física. Para deixa-los à vontade, novamente solicitei que eles não se identificassem, pois o que interessava realmente era a sinceridade de todos em relação às perguntas apresentadas. Os resultados obtidos neste segundo questionário nos encorajaram a dar prosseguimento a proposta de aprendizagem significativa, pois embora fosse possível perceber que a maioria dos alunos eram favoráveis a aulas práticas, achavam que, no fundo, a educação física era uma coisa boa, que desenvolve o bom caráter e que não desejavam desistir da educação física etc..., havia também um certo ar de preconceito e desconhecimento da relevância da disciplina quando para uma das questões que tratava do que eles achavam da educação física ser oferecida no ensino noturno, a maioria dos alunos confessaram que “para alunos do ensino noturno, a educação física teria muito pouco a oferecer”. Foi justamente este o ´gancho` que nos levou a pensar em desenvolver algo que pudesse dar maior significado às nossas aulas tornando-se um ´algo a mais` para oferecer e encantar os nossos alunos.

3. O contexto escolar e seus atores

As pesquisas anteriores nos ajudaram muito a compreender um pouco da maneira como o aluno do ensino noturno vê a educação física e do valor que atribui a ela. Faltava agora iniciar o processo de construir consensos, a partir dos dissensos observados e colhidos nos questionário. Vale lembrar que embora boa parcela dos alunos manifestassem certa simpatia para com a disciplina, isso nem de longe representava algo consensual. Mais importante do que isso é o fato de que a grande maioria que se revelara simpatizante da educação física no ensino noturno traziam consigo ranços arcaicos do seu passado recente que projetaram em seus imaginários a idéia da educação física como pura prática desportiva e aprendizagem de regras.

Resolvemos, então, eleger como ponto de partida algo que fosse comum a todos nós: o nosso corpo. Nos parece um consenso indiscutível que todos nós possuímos um corpo ! Logo, surgiram as questões: Quem mora em cada corpo? e, conseqüentemente, Que corpo mora em que pessoas? Costumo dizer que o corpo é o nosso segredo revelado. Possuímos uma história de vida, de emoções, afetos, desafetos, de estruturas cognitivas e de esquemas motores, corpos enrijecidos ou flexíveis, mais ou menos ágeis, podem indicar formas diferentes de se relacionar consigo, com o outro e com o mundo.

Lembrando que meu contato com o grupo estava apenas no início e que faltava ainda uma aproximação mais subjetiva, mais humana, elaboramos uma pesquisa para verificarmos como eles lidavam com seus corpos e com a vida. Resolvemos iniciar por uma questão bastante freqüente no senso comum que é a preocupação de grande parte das pessoas com suas medidas de massa corporal e sua altura. Embora se trate de uma análise essencialmente quantitativa e objetiva, resolvi adotá-la para perceber o quanto eles sabiam falar do seu próprio corpo, aproveitando-me desse saber para construir uma ponte para questões mais qualitativas e profundas. Conforme pudemos observar, a grande parte dos alunos desconheciam suas medidas corporais. Não estou querendo dizer que todo ser humano deveria saber seu peso e sua altura, mas considerei um gancho interessante para interrogá-los sobre uma das perguntas que considero essencial que saibamos responder, porém falaremos disso mais adiante.

Quando questionamos se eles estavam contentes com o próprio corpo, o resultado foi no mínimo curioso. Posso estar enganado, porém o que se espera de alguém que se diz satisfeito com seu corpo é justamente o desejo de não modificá-lo. Conforme os números da tabela pudemos verificar que dentre todos os que se disseram satisfeitos com o próprio corpo, 49% deles disseram que, se pudessem, fariam alguma modificação. Em seguida tratamos de investigar como andava o sentimento de felicidade na vida do grupo perguntando-lhes: “Considera-se feliz?”. Para adentrar ainda mais um pouco mais nesse “terreno misterioso” chamado felicidade, acrescentamos o seguinte sub-item: “O que é felicidade para você?”. Os resultados apontaram que uma grande parcela dos alunos relacionam sua sensação de felicidade aos seguintes itens (em ordem de preferência): “Ter saúde”, “Ter uma família”, “Ter Deus e/ou Jesus no coração” e “Amar e ser amado”.

Já a investigação de como eles se sentiam em relação ao ambiente escolar foi um tanto decepcionante. Iniciamos com um teste sociométrico proposto por Mathews (1980), cujo objetivo é o de identificar o nível de desenvolvimento social, isto é, o volume de relacionamento do grupo onde o trágico resultado (apenas 3 alunos sabiam dizer o nome de mais um companheiro de classe!) nos sinalizou que o relacionamento do grupo encontrava-se num nível extremamente baixo e tal constatação foi reforçada pelo resultado do teste elaborado a partir do mito Platônico do “anel da invisibilidade” onde apenas 10% dos alunos, ao encontrarem o tal anel da invisibilidade, não modificariam em um milímetro sequer a sua conduta e iriam para escola (resta saber se para aprender algo!). Não me restou outra opção senão a de tomar por hipótese que, naquele contexto, o ambiente escolar não reunia elementos capazes de atrair, encantar e (re)unir os nossos alunos.

Diante das informações apresentadas acima, percebi que ainda faltavam algumas questões para que eu pudesse compreender melhor a história e as necessidades dos alunos. Desta forma elaboramos uma última pesquisa, cujos resultados ajudaram a esclarecer alguns pontos tais as diferenças de idade, número de trabalhadores, pais de família, etc.

A partir desse momento, acreditávamos possuir uma quantidade de informações satisfatória que nos permitisse traçar o perfil dos nossos alunos e, conseqüentemente, um planejamento que viesse a atender toda essa múltipla diversidade cultural, sem esquecer ainda da estrutura física e material que possuímos na unidade. Apresentaremos, a seguir, o planejamento que foi implementando na época.


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