Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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4. O planejamento

Tomando como eixo central o que havia de consensual, isto é, o fato de todos possuirmos um corpo, criamos uma ficha de avaliação funcional (Anexo 1) onde foram realizadas uma bateria de testes e entrevistas (massa corporal, altura, percentual de gordural, perimetria, flexiteste e histórico familiar), coletadas várias informações que foram analisadas e interpretadas ao longo do período letivo que nos restava. Percebemos que essa medida contemplou a maioria dos alunos e isso nos levou a crer que estávamos no caminho certo.

Tomando “O CORPO” como eixo central, o segundo passo foi selecionar o sub-tema “SÁUDE” como caminho possível, pois os alunos atribuem uma importância considerável à saúde, seja no que se refere a função da educação física, seja quanto ao papel que ela representa nos seus conceitos de felicidade para suas vidas.

A fim de contemplarmos aqueles que preferem as aulas práticas e também aos que optam pela aula eminentemente teórica, tomamos a opção de trabalharmos no primeiro tempo de aula os aspectos teóricos da disciplina (ampliando a visão de EFI, relacionando-a com as questões do corpo, saúde, família, etc...) para no segundo tempo de aula trabalharmos a “teoria na prática”, ou seja, materializar as idéias com uma atividade prática que nos permita reconhecer e melhor compreender aquilo que fora discutido em sala.

Para dar conta daquele “vício” arraigado do passado recente, impregnado na mentalidade da maior parte dos nossos alunos levando-os a acreditar que a educação física escolar traduz unicamente em jogar futebol, ping-pong (um hábito particular daquele contexto!), vôlei,... combinamos que toda última aula do mês seria o que chamaríamos de a “aula da turma”. Isto significa que naquele dia a aula seria escolhida e organizada pelo grupo. Foi a solução que me ocorreu para evitar aquelas impertinentes e, muitas vezes, deseducadas e insistentes perguntas: “Hoje vai ser futebol professor?”.

Certamente ainda há muito que ser feito, revisto e (re)construído. Confesso que não foi fácil chegar até o estágio atual. A avaliação do processo que será apresentada a seguir revela o quanto ainda há para percorrer nessa longa estrada da construção de uma aprendizagem significativa, ainda mais quando se trata de adultos, trabalhadores, chefes de família compartilhando o mesmo espaço com jovens, desempregados, solteiríssimos e ávidos em “curtir a vida adoidado”, num ensino noturno que por característica própria e, do contexto da realidade local, traz consigo um sentimento de insegurança, baixa auto-estima e pobreza política (baixa participação).



5. Avaliando o processo:

Passados dois bimestres, ao avaliarmos todo o processo, por coerência à nossa função de avaliador, solicitamos ser, igualmente, avaliado pelos nossos alunos acerca de tudo o que vimos construído até ali. O resultado foi o seguinte:






A

B

C

D

Pergunta: Avaliando a atuação do seu professor de educação física, que conceito você atribui a ele?

34

26

06

01

Solicitamos que os alunos avaliassem o processo, aproveitando para deixar críticas, sugestões e/ou sugerir novas idéias que pudessem ser colocadas em prática no próximo (e último!) bimestre, o resultado foi o seguinte (em ordem de preferência): “somente aula prática”, fazer outras atividades (musculação e ginástica), “continuar dessa forma atual”, “somente aula teórica”.

6. Conclusão

A título de conclusão (ou seria inconclusão?), nos parece útil ressaltar que, definitivamente, não se trata de fórmula mágica, tampouco de tarefa fácil. Analisando todos os quadros, diante de tamanha diversidade e de tantas adversidades veremos que se trata de uma dura missão. Considero a pobreza política um dos maiores obstáculos a serem vencidos. É assustador o número de alunos que não participam das decisões do grupo, seja por total desinteresse e alienação, seja pela baixa auto-estima (vergonha de expressar-se), seja pelo estresse do dia-a-dia ou quaisquer outros motivos, o fato é que se subestimam e terminam cultivando um dos piores tipos de pobreza: a pobreza do SER. Não se sentem dignos de opinarem e decidirem por seus próprios meios os caminhos que desejam seguir. Não possuem visão crítica, nadam a favor da maré, dançam conforme a música, não tomam seus destinos nas próprias mãos.

Analisando os últimos resultados pudemos perceber que ao menos houve um ligeiro avanço no que se refere a solicitação de aulas de musculação e ginástica (já que no início a preferência massiva era de futebol, ping pong,...). Além disso houve um aumento nos pedidos de aulas teóricas e um considerável pedido para mantermos o mesmo planejamento. Minha hipótese é a de que nossa discussão acerca de temas ligados à saúde tais como: percentual de gordura, índice de massa corporal, emagrecimento, obesidade e outras questões afins, despertaram a curiosidade de parte do grupo para essas outras modalidades esportivas. A avaliação da atuação do professor também sugere um bom nível de satisfação. Curiosamente boa parcela dos alunos solicitam que as aulas sejam somente práticas mas, paradoxalmente, quando isso ocorre não conseguimos reunir nem um terço do grupo no pátio. Há muitos “mistérios” a serem desvendados, até porque, mudar o hábito de seres humanos demanda muito tempo (os terapeutas que o digam!!). De todo modo, lembro-me sempre daquela história do filho que perguntou ao pai quanto tempo levaria para colher os frutos daquela semente de abacate que ele trazia consigo. O pai respondeu-lhe que levaria por volta de uns 4 anos aproximadamente. O filho espantado, demonstrando um profundo abatimento pensou logo em desistir. Nisto o pai lhe retrucou: Tudo bem meu filho, mas se você não planta-la o tempo passará do mesmo jeito!

Oxalá estejamos plantando hoje as sementes de um futuro cada vez mais belo, bom e verdadeiro. O tempo dirá!

O autor, Anderson Paulino de Souza é professor das Redes M de Belford Roxo e a do Estado.

Referências bibliográficas

COLL, César & col. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.

MATHEWS, Donald. Medida e Avaliação em Educação física. 5ª ed. – Rio de Janeiro: Interamericana, 1980.

GIANNETTI, Eduardo. Auto-engano. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.



Anexo 1 - Ficha de avaliação funcional.

ALUNO(A):




TURMA:

Data de Nascimento: / /19

1. Nível de atividade física: ( ) Ativo ( ) Inativo / Nº de refeições diárias:_________

2. Histórico familiar:

Diabetes

Sim ( )

Não ( )

Pai ( )

Mãe ( )

Avô ( )

Avó ( )

Hipertensão

Sim ( )

Não ( )

Pai ( )

Mãe ( )

Avô ( )

Avó ( )

Infarto cardíaco

Sim ( )

Não ( )

Pai ( )

Mãe ( )

Avô ( )

Avó ( )

Derrame cerebral

Sim ( )

Não ( )

Pai ( )

Mãe ( )

Avô ( )

Avó ( )

Obesidade

Sim ( )

Não ( )

Pai ( )

Mãe ( )

Avô ( )

Avó ( )

3. Quanto tempo disponível e quantos dias na semana você possui para praticar uma atividade física ?

____________________________________________________________________



4. Composição corporal:




Ago / 2002

Nov / 2002




Ago / 2002

Nov / 2002

Peso:







Altura:









Mulher

Subescapular

Supra ilíaca

Coxa

Abdominal




























Homem

Peitoral:

Suprailíaca:

Coxa:

Abdominal




























5. Medidas de circunferência:




Ago / 2002

Nov / 2002




Ago / 2002

Nov / 2002

Braço Dir.







Ant. Br. Dir.







Braço Esq.







Ant. Br. Esq.







Coxa Dir.







Perna Dir.







Coxa Esq.







Perna Esq.







Cintura







Quadril







6. Avaliação Postural:

Ombros:




Quadril




Coluna:




Escápulas




Joelhos




Pés:




7. Flexiteste:




Ago / 2002

Nov / 2002




Flexão de Quadril










Flexão de Tronco










Extensão + Abd. Post. Tronco










Extensão posterior de ombro










OBSERVAÇÕES:








O ESPORTE NA ESCOLA NUMA PERSPECTIVA CRÍTICA:

UM RELATO DE EXPERIÊNCIA

Hildebrando Souza Santos



Resumo: Relata uma experiência de aula de educação física (EF) na escola, realizada pelo projeto de ensino estruturado numa perspectiva crítica relacionada ao esporte. Durante o segundo semestre de 2000, a disciplina “Educação Física Escolar de 5a a 8a série”, possibilitou a elaboração desse projeto. Baseado numa abordagem histórico-crítica o projeto foi planejado com: pesquisa com os alunos, fundamentação teórica, aplicação e balanço final das aulas. Na problematização utilizou-se a questão social: a violência, contextualizada ao esporte. Os resultados são considerados animadores e indicam possibilidades no trato do conteúdo esporte, coerente com os objetivos de uma educação cidadã e crítica.

Introdução

Muito se tem discutido sobre as abordagens críticas que surgiram no Brasil ao longo das décadas de 70 e 80. Essas concepções iam de encontro as ideais de EF como: o homem biológico – “ [...] biologização do movimento humano, utilizando o paradigma biológico de forma exacerbada quase como a única maneira para orientar o desenvolvimento da atividade física” (CAPARROZ, 2001, p. 20); “ [...] o homem militar e seus métodos ginásticos (FERRAITA NETO, 1997, p. 111); o homem esportista – “ [...] escola enquanto celeiro de atletas” (DA COSTA, 1987, p. 3).

Por sua vez, debruçando-se sobre os conteúdos da EF física na escola, cabe aqui um direcionamento à instituição esportiva, que aparece arraigada de significados, como: utilitarista, alienante, mercadológica e como elemento “legitimador” da EF escolar (CAPARROZ, 2001). “ [...] esses e outros adjetivos foram suficientes para tornar o esporte um conteúdo de dimensão exclusiva e hierárquica (OLIVEIRA, 2001, p. 16).

A esse conteúdo críticas continuaram a surgir. Na década de 90, é lançado o trabalho Coletivo de Autores (1992) – movimento “renovador”, liderado por um conjunto de pensadores que sugerem um “novo” caminho a ser seguido, por meio de questionamento dos já traçados até então. Esse trabalho propõe a abordagem histórico-crítica que discute/tenta discutir em seu âmbito mais amplo a forma de tratar os conteúdos dessa disciplina (componente do currículo), que é legalizada atualmente pela LDB/96 (CASTELLANI FILHO, 1998, p. 22).

Embasado na proposta do Coletivo de Autores, partimos para construção desse projeto de ensino, que agrega a questão da violência (aqui adotada como “problema”) ao esporte (um dos conteúdos da disciplina educação física).

Esporte e violência

Na tentativa de nos reportar a um tema que fizesse parte do cotidiano dos alunos, que pudesse transitar pelo conteúdo esporte e que fosse minimamente atrativo, potencializando uma repercussão em sua prática social, focalizamos a questão da violência, pois consideramos que a violência está cada vez mais presente em nosso dia-a-dia.

Planejamos, então, um conjunto de onze aulas para o desenvolvimento do projeto. As aulas foram ministradas numa turma masculina, de dezessete alunos, da 7a série do ensino fundamental, uma vez por semana no próprio horário das aulas de EF do Colégio de Aplicação João XXIII (escola de ensinos fundamental e médio da rede pública da Prefeitura Municipal situado na cidade de Juiz de Fora – MG).

Com o objetivo de trabalhar o conteúdo esporte nas aulas de EF, focando a temática violência, fundamentamo-nos na proposta histórico-crítica, norteada pelo Coletivo de Autores, pois, como processo de formação, percebemos quão relevante é essa proposta.



Recursos estratégicos didáticos / estratégias didáticas

À equipe de trabalho (os alunos do curso de EF: Hildebrando S. Santos e Renato V. Linhares, orientados por André Martins, professor da matéria) coube a pesquisa inicial para organização das aulas, levantamento de dados a serem convertidos em material didático, análise sobre as possibilidades de estudo de cada esporte, bem como as definições das mediações necessárias para tratar da temática violência no conteúdo esporte (questão-probrema).

Ao final de cada aula, retornávamos à questão-problema, procurando apresentá-la a partir de dados concretos, ou seja, as manifestações referentes, direta ou indiretamente, à violência. Os depoimentos eram registrados e, após cada aula, discutidos pela equipe de trabalho com o objetivo de estabelecer os passos seguintes. Ao final dessa fase, os alunos adquiriram referências importantes para tratar do tema central com mais propriedade. Os argumentos eram mais bem estruturados, os problemas discutidos coletivamente, as experimentações ricas em dados, etc.

Como registro, vale destacar que a violência física e simbólica (os “xingamentos”) esteve mais presente nas aulas em que tratamos o futsal. Os próprios alunos também chegaram a essa conclusão. Diferentemente das expectativas e curiosidades, em nossas versões do hóquei, de rúgbi e lutas, as manifestações de violência foram pequenas e explicadas pelos alunos mais como simples acidentes decorrentes das desatenções e da falta de habilidade técnica do que de fato por ações intencionais.

A equipe de trabalho contou com sala de aula, sala de vídeo (TV e Vídeo), laboratório de informática (internet), quadra poliesportiva, salão, anfiteatro e com o material disponível (cabos de vassoura, bolas de meia, bola de superbol). Esses elementos foram necessários para o desenrolar das aulas.

Planejamento das aulas

O planejamento é, antes de tudo, uma tomada de posição político-pedagógica (LUCKESI, 1992) que não pode ser difundida como instrumento burocrático ou como mais uma “receita didática” que engessa a ação inventiva do professor e dos alunos. Pelo contrário, é um parâmetro que, fundamentado na teoria de educação denominada de histórico-crítica serve para balizar a construção do trabalho pedagógico, incentivado com referências claras a criatividade dos sujeitos do processo. Esse parâmetro pode ser destinado a qualquer série (ou ciclo) de escolarização, desde que os conteúdos e procedimentos sejam adequados às possibilidades de aprendizagem dos alunos, tenha relevância social, apresente-se como algo de nosso tempo definido a partir das determinações históricas.

Portanto, planejar o trabalho é uma forma de garantir a aplicação do eixo curricular apresentada pela abordagem histórico-crítica, qual seja: constatar-interpretar-compreender-explicar a realidade. Consideramos também que essa referência metodológica permite a transmissão de conhecimentos científicos, éticos e culturais, mantendo a EF vinculada ao núcleo central da escola e afirmando a função social dessa instituição identificada aos interesses dos trabalhadores.

As onze aulas foram planejadas e distribuídas da seguinte forma: uma aula para tratarmos (grupo e alunos) da identificação do projeto. Em outra aula foi dada a tarefa aos alunos: desenvolver uma breve redação dissertando sobre as seguintes perguntas: De onde nasce a violência e como ela se manifesta? Quando você perde a paciência? Isso porque a equipe estava suspeitando do fato de que a violência está sendo parte da cultura do ser humano, em específico dos alunos do projeto. Em uma análise conjunta, nós, professores, traçamos um perfil de alguns alunos da turma, chegando à conclusão de que a violência vem sendo carregada pelos meios de comunicação e muitas famílias estão sendo testemunhas desse fato, o que pôde ser constatado na coleta dos dados, pois, dos dezessete alunos da turma, sete se julgaram pacientes (desde que não pisem seus calos). Já os outros dez se julgaram impacientes (verdadeiros estopins). As outras oito foram divididas em quatro blocos, a seguir: a) duas aulas do esporte hóquei; b) duas aulas do esporte rúgbi; c) duas aulas de lutas; d) duas aulas do esporte futsal. Esses blocos constaram dos seguintes passos: apresentação expositiva sobre a origem e inserção cultural; apresentação e discussão sobre a forma de jogar; adaptações e possibilidades oferecidas pela escola; principais regras; experimentações; balanço das experiências, tendo como referência a questão-problema: violência. Já a ultima aula foi destinada à avaliação e encerramento do projeto.



Avaliação

Com base nessas referências concretas, apresentamos uma tarefa para os alunos: realizar um julgamento do esporte e sua relação com a violência. Optamos pela dinâmica do Júri Simulado.

Os três grupos (“advogados de defesa”, “promotores” e “jurados”) trabalharam com grande afinco o que permitiu que o “julgamento” transcorresse de forma surpreendente.

Após a encenação, fizemos uma discussão final sobre o tema do trabalho que foi objeto de “julgamento”. Como resultado do projeto, os alunos e professores estabeleceram que:

[...] existem esportes em que o contato físico está mais presente o que não significa necessariamente atos de violência. A aplicação de uma determinada técnica no caso das lutas, com o objetivo de imobilizar o outro, constitui uma possibilidade que os participantes conhecem, sabem dos riscos e dos limites que não devem transgredir. Quando essas ações não constituem a dinâmica do esporte, devem ser encaradas como atos de violência. Entendemos a violência como algo estabelecido pelo princípio da desigualdade entre os sujeitos e como algo que extrapola as condições normais da vida. É importante lembrar que mesmo a linguagem falada ou gestual (forma simbólica) pode tornar-se forma de violência quando ameaça, intimida ou ainda desqualifica o outro. No plano do esporte, a violência vai estar presente em função das opções éticas dos jogadores (como vêem o esporte e o adversário), e ainda pelas orientações e pressões externas exercidas. No plano social mais amplo, a violência gira em torno das pressões exercidas por grupos sociais, pelas situações familiares, pelas condições objetivas de vida não favoráveis à existência humana e pela falta de perspectivas de futuro. A violência é um fenômeno social”(texto produzido por todo o grupo)”.

Mediados pela equipe, os alunos não só construíram uma explicação qualitativamente diferente daquela apresentada no início do trabalho, como incorporaram referências superiores de pensamento a partir do conhecimento científico e ético, permitindo-lhes abrir caminho para uma nova leitura e novas atitudes na prática social, posicionando-se de maneira crítica e consciente.


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