Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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Avaliação

A avaliação que propomos, embora esteja num contexto escolar que ainda possui muitos vícios da avaliação classificatória, meritocrática, está voltada para facilitar a todos, professor e aluno, a serem sujeitos capazes de dizer os rumos que poderemos seguir. Em outras palavras, que ela deixe, segundo Luckesy (2000), de ser “seletiva e excludente” mas que deva ser “não pontual, diagnóstica e inclusiva” (JB, Caderno Educação).

O planejamento apresentado pode contribuir decisivamente para que a avaliação ocorra a todo o momento, uma vez que o direcionamento do mesmo será dado pelos questionamentos apresentados a cada aula, o que permitirá constante diagnóstico assim como eventuais alterações de estratégias.

Através das questões apresentadas, das discussões suscitadas pelas mesmas e posterior tomada de decisão a respeito de que atividades atenderão os anseios do grupo, é que poderemos verificar o nível de compreensão e aprendizagem de cada um.

De acordo com Luckesy (idem), a avaliação “está a serviço de um projeto pedagógico construtivo que olha o ser humano como um ser em construção permanente”, o que nos leva a pensar a respeito da importância de juntamente com os alunos, utilizá-la como balizadora do processo, sem preocupação com o produto final.

Nesse sentido é que, além da verificação do caminho percorrido e da direção a tomar, através da avaliação realizada em conjunto, a cada aula, proponho a auto-avaliação como forma de o aluno poder perceber-se antes, durante e ao final do período letivo. Afinal, se falamos em sujeitos autônomos, nada mais justo que o aluno participe desse processo enquanto sujeito do seu próprio destino e que junto com o grupo busque “solucionar as dificuldades encontradas na aquisição e construção do conhecimento” (Gomes,1996:106).

Creio que, através da auto-avaliação, o aluno estará desenvolvendo a autocrítica, o respeito ao outro e a si mesmo além de outros valores fundamentais para a construção de sua cidadania.

Atualmente estamos buscando outras formas de avaliação através da produção de textos como resultado de discussão de temas sugeridos pelos alunos. Esses assuntos são desenvolvidos a partir das saídas culturais, da seleção e projeção de filmes de curta e longa metragem com o auxilio do vídeo-cassete. Os “passeios” têm a função de permitir a eles conhecer os espaços educadores que a cidade oferece. Com relação aos filmes, é a partir do tema proposto que fazemos a escolha de filmes onde tais questões apareçam e permitam travar o debate. Ao final de cada bimestre há produção de textos individuais onde os alunos desenvolvem a capacidade de síntese e análise, além do exercício da escrita e construção de textos.



Considerações finais

A finalidade desse trabalho é permitir a discussão a respeito de outras possibilidades de práticas docentes da educação física escolar, a partir dos chamados esportes cuja prática nas escolas está homogeneizada e de certa forma. Esse fazer pedagógico parece ainda estar consolidado pela formação docente que ora ainda percebemos em algumas universidades.

Nesse contexto é que sugerimos a prática escolar a partir daquilo que os alunos trazem como bagagem esportiva. Sabemos que é muito difícil romper de forma imediata com essas práticas que, de forma excludente, “deformam” e limitam as potencialidades que se apresentam para o ensino da educação física na escola. Por outro lado, é preciso ressaltar que tornou-se lugar comum responsabilizar os professores pelo “engessamento” de suas práticas docentes, voltadas para o rendimento sem, contudo, haver políticas públicas que permitam a atualização desses, assim como a discussão de diferentes caminhos para a educação física da escola. Assim, acreditamos que, juntamente com a organização desse evento de renome nacional, estaremos dando a nossa contribuição com a apresentação dessa proposta que, certamente apresentará diversas possibilidades de adaptação de acordo com as realidades de cada profissional. Os caminhos são vários, assim como as formas de caminhar.

Queremos lembrar ainda que, o que propomos tem a pretensão de funcionar como possibilidade de rompermos, num futuro próximo, com as práticas esportivas que teimam em selecionar e excluir uma enorme parcela da população que já nasce excluída dos direitos básicos fundamentais para viver com o mínimo de dignidade. É possível mudarmos de forma gradativa para conteúdos que contemplem a efetivação da educação física da escola, tendo como eixo central a cultura corporal inserida em outras formas de culturas populares. Essa é a nossa utopia.

O autor, Carlos Henrique dos Santos Martins é professor das redes municipal do Rio de Janeiro e da FAETEC , especialista em educação física escolar ( UFF) e mestrando em educação pela UFF.

Referências bibliográficas

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O CONTEXTO SOCIAL E AS AÇÕES PEDAGÓGICAS COTIDIANAS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: (IM)POSSIBILIDADES

Martha Lenora Q. Copolillo



Caminhando pelas “avenidas da complexidade” ...

Participar de uma mesa que tem como proposta potencializar um debate acerca da complexidade que se impõe no cotidiano das aulas de Educação Física na escola, é para mim tarefa difícil, porém instigante.

Diante de tamanha provocação, acho fundamental para que o diálogo se estabeleça, explicitar o caminho que optei por percorrer, trazendo à tona questões que considero ser relevantes e que estão enredadas quando pretendo colocar no cerne da discussão a relação da teoria com a prática, ou talvez dito de outra forma, da prática com a teoria com a prática, no atual momento histórico.

Ao optar por um caminho, assumo como referencial teórico o “ paradigma da complexidade” (Morin,2000) e reconheço que o caminho escolhido é apenas um entre tantos possíveis. Portanto, não cabem generalizações, não existem verdades absolutas e não trago respostas definitivas.

Segui com Morin (2000), que através de sua obra me indicou “diferentes avenidas que conduzem ao “desafio da complexidade”(p.177). Desafio, porque esses caminhos não nos levam a encontrar um método, uma fórmula pronta para ser posta em prática. Ao assumir esse desafio, me senti motivada a pensar partindo de meus pensamentos desordenados e compreendi que o “pensamento complexo comporta em seu interior um princípio de incompletude e de incerteza”(p.177).

Reconheço o caráter multidimensional da realidade e, consequentemente, dos fenômenos sociais; portanto, a complexidade não pretende esgotar a questão que está sendo estudada, até porque isso não seria possível, mas sim abordá-la, respeitando os diversos contextos que a envolvem. Volto a Morin (2000), para chamar atenção ao alerta que nos faz acerca de alguns mal-entendidos que circundam a complexidade, principalmente no que “consiste em confundir a complexidade com a completude”(p.176). Os sujeitos que buscam o exercício do “pensamento complexo” devem abrir-se a discutibilidade e a reflexão “bioantropológica” do conhecimento, partindo do princípio que “o homem é um ser biológico-sociocultural, e que os fenômenos sociais são, ao mesmo tempo, econômicos, culturais, psicológicos etc.”(p.177). Em meio a tal complexidade, é fundamental prestar atenção ao que nos diz esse autor:

Acontece que o problema da complexidade não é o da completude, mas o da incompletude do conhecimento. Num sentido, o pensamento complexo tenta dar conta daquilo que os tipos de pensamento mutilante se desfaz, incluindo o que eu chamo de simplificadores e por isso ele luta, não contra a incompletude, mas contra a mutilação”(p.176).

Por isso, que para falar com os professores(as), ainda que a partir de uma temática específica, tornou-se, para mim, imprescindível compreender que o cenário dessa discussão é composto por múltiplos contextos que, por sua vez, estão imbricados nas diversas dimensões da sociedade. Considero com Morin (2000), quando nos fala sobre essa relação todo/partes, que se tornou importante para esse estudo “abandonar um tipo de explicação linear, por um tipo de explicação em movimento, circular, onde vamos das partes para o todo, do todo para as partes para entender um fenômeno”(p.182).Isso significa que para entender o todo é preciso conhecer suas partes, mas que só se pode conhecer as partes se compreendermos o todo.

Procuro falar sobre essa temática sem “olhá-la do alto” (Certeau,1998), ou seja sem aquele olhar reducionista que olha mas não vê, não sente, não vive, não investiga; e assim sendo, diante das dificuldades se torna paralisador e não se abre as possibilidades de mudanças.

Dentro dessa lógica, parto do princípio que para pensar na escola é preciso refletir sobre os fios que puxados de múltiplos contextos tecem as tramas do seu cotidiano, e a fazem existir.

“ A escola na tessitura do contemporâneo: local da ordem e da desordem”

A escola enquanto instituição social só existe quando pensada e vivida na complexidade das relações que são permanentemente tecidas com o contexto sociocultural. Pensando com Certeau(1996) “... em nenhum momento uma unidade de ensino por mais autônoma, marginal ou nova que seja, pode evitar o problema de sua relação com o poder existente” (p.137).

Vivemos numa sociedade globalizada que produz uma pobreza estrutural globalizada, politicamente produzida por um sistema de governo neoliberal, que fomenta e ainda pior, naturaliza as desigualdades socio-econômicas no nosso país. Segundo Santos(1996), está posto um paradoxo; os avanços das possibilidades técnicas que poderiam trabalhar a favor de uma sociedade mais justa e menos desigual, na verdade acabaram por contribuir para uma impossibilidade política de sua concretização. Estamos falando da “ globalização como perversidade”.(Santos,2000), estamos falando do que vivemos, de uma sociedade capitalista cujo objetivo principal é produzir para acumular e concentrar a produção de bens materiais, ou seja, é pautada no lucro que faz com que o capital e, consequentemente o poder se acumule nas mãos de uma minoria.

O projeto da política neoliberal deixa seus reflexos em todos os contextos sociais. A ausência das políticas públicas pode ser vista no descompromisso do Estado em diversos setores públicos da sociedade, o que permite aos setores privados uma invasão e um domínio da economia, ditando normas e regras para uma sociedade onde tudo passa ser “ mercadorizável” e, portanto, o mercado passa ser o centro nervoso das políticas econômicas e sociais, tendo o consumo como elemento básico para a manutenção desse sistema.

Essa lógica excludente é que precisamos compreender para podermos lutar por transformações; a busca por mudanças só se torna possível quando ampliarmos a nossa participação política. Enquanto cidadãos não podemos perder a capacidade de nos indignar, há que se buscar estratégias de resistências diante das armadilhas do projeto neoliberal que tentam banalizar a miséria, a fome, o desemprego, o crescimento da violência, o trabalho infantil e a atual situação em que se encontram a saúde e a educação. Há que se entender que um projeto alternativo de sociedade, que se diferencie do cenário atual por colocar em primeiro lugar os seres humanos e a dignidade dos mesmos, e não a economia produtiva e o mercado, pressupõe uma luta que vai para além da busca por uma competência profissional, e implica numa “ capacitação construída, sobretudo, através da participação em organismos coletivos como sindicatos, movimentos sociais, associações científicas e culturais e partidos portadores de um projeto alternativo de sociedade”.(Frigotto,1996).

A partir dessa realidade é que devemos pensar na escola, os conflitos sociais que se configuram no cotidiano dessa instituição não desceram do céu de pára-quedas, são históricamente construídos. No entanto, a história se constrói e se reconstrói cotidianamente, mediada por sujeitos que a produzem e são ao mesmo tempo produtos dela. Nós educadores somos sujeitos do mundo e, com nosso inconformismo e a nossa rebeldia, temos que olhar, viver, sentir a escola como sendo um local onde se mantém viva a luta pelos direitos à cidadania e o sonho de uma vida digna e mais solidária para os até então excluídos.

Para aqueles(as) que querem contribuir para um projeto político-pedagógico emancipatório a escola tem que ser vista como uma arena de lutas políticas (Moreira,1998), e torna-se necessário e urgente enfrentarmos o desafio de fazer com que essa instituição assuma integralmente suas conexões com a dimensão vida e, que o conhecimento se transforme numa prática social. Concordo com Santos(1996), quando nos fala da educação para o inconformismo, a partir de uma prática pedagógica que se recusa a trivialização do sofrimento, da opressão e da banalização da miséria.

O campo educativo deve ser um espaço de conflitos sociais, éticos, estéticos, raciais, etc., para que o ambiente escolar se torne um espaço de opções e com isso abra múltiplas possibilidades; e, nós profissionais da educação, orgulhosos da nossa condição de educadores, possamos fazer mais do que mediar conteúdos, pois estaremos brigando por uma prática docente compromissada com a promoção de mudanças no nosso contexto sócio-histórico. Enfim, ou melhor dizendo, sem fim, por uma prática educativa inclusiva e promotora da vida e do ser humano.



Os professores(as) de educação física e as “táticas” do cotidiano: alguns caminhos possíveis

A opção de começar esse texto por uma reflexão crítica do atual momento histórico e da escola inserida nesse contexto, foi uma opção política, por pensar com Freire(1996), que todo ato educativo é um ato político, e que a educação tanto pode estar a serviço da dominação e reprodução social, quanto pode ser emancipadora.

No entanto, esse caminho nada tem a ver com um discurso de desqualificação da categoria docente. Ao longo da minha trajetória pessoal/profissional, desde os tempos de professora no espaço escolar até os dias de hoje puxo os fios que vão me ajudando a tecer uma tapeçaria que de diversas formas vem me mostrando que os(as) professores(as), apesar das desvalorizações que sofrem tanto do ponto de vista financeiro, quanto do ponto de vista do reconhecimento e importância das múltiplas possibilidades de trabalho dessa categoria no ambiente escolar, estão interessados em buscar espaços para refletirem, discutirem sobre suas práticas e em dar continuidade aos seus processos de formação. Prova disso, é o Curso de Especialização em Educação Física Escolar do Departamento de Educação Física, que se encontra à caminho da sua décima terceira edição.

A oportunidade que tenho em trabalhar no referido curso enriquece o meu processo de formação cotidianamente. Nas relações de trocas das nossas ações/reflexões e das experiências vividas, potencializa-se um espaço de relações dialógicas onde compartilhamos nossas dúvidas, dificuldades, os impasses e também os saberes, as criações e as alternativas que se produzem no cotidiano escolar e que apesar do instituído fazem a escola acontecer. Esses docentes criam, inventam e dessa forma, movidos por uma sensibilidade e pelo desejo de resistir e buscar uma prática pedagógica mais conseqüente, produzem “novas maneiras de fazer”. É o que Certeau(1998), em sua obra A invenção do cotidiano, vem chamar de “táticas” , que são movimentos, indicativas de resistências dos atores sociais que dão vida ao cotidiano escolar. Esse cotidiano de que falo, é o “ lugar praticado”, é o dia-adia que se tece e se retece escapando de mesmices e de banalizadas repetições para se mostrar a todo momento novo e surpreendente.

Pois apesar do cenário inicialmente configurado produzido pelo discurso oficial e por quem faz as políticas públicas educacionais, pensando na escola de forma reducionista e homogênea, as marcas do cotidiano são as imprevisibilidades. Dos imprevistos e das incertezas vão brotando as diversidades, as heterogeneidades e apontando que não é possível dar conta da complexidade das relações e tramas que se tecem no cotidiano escolar. E, ainda que aqueles que ocupam o lugar de dominantes nessa estrutura de classes que se configura na nossa sociedade, se pensem onipotentes, mas não o são.

Tendo como ponto de partida a inserção da Educação Física com a Sociologia, Betti(2001) nos fala sobre novas e velhas questões; ao discorrer sobre velhas questões, como as que ligam diferentes correntes de pensamentos acerca da Educação Física escolar às possibilidades de transformações sociais, nos diz:

Há, ainda que considerar o contexto histórico atual; em tempos de globalização e neoliberalismo paira um certo ceticismo no ar quanto às possibilidades de promover as transformações propostas na década de 80, em geral ligadas à superação do capitalismo. A inércia é, contudo, a pior opção. É preciso prosseguir por caminhos mais criativos” (p,158.)

Nesse sentido, nos remete ao que Moreira(1998) fala do “ professor/a como pesquisador/a em ação”, como sendo aquele/a que refletindo sobre sua prática, produz conhecimento, para reformulá-la, com vistas a trabalhar como um “ intelectual transformador”. Esse professor/a é o perfil do profissional que se coaduna com uma proposta que contemple, por exemplo os princípios da inclusão e da diversidade, como a “abordagem sociocultural da Educação Física escolar” , de que nos fala Betti(op. cit.).

Quando visualizamos algumas pistas e apontamos alguns caminhos possíveis, estamos também fazendo nossas opções, compactuando com alguns e nos afastando de outros, mas se assim fazemos, é porque acreditamos que essas escolhas são possíveis; contudo, não quero trazer para essa discussão um olhar simplificador. Sabemos da complexidade que enfrentamos ao nos depararmos com a problemática histórico-sociocultural, na qual a educação se insere, que passa pelo descaso e a omissão dos nossos governantes e chega ao nosso cotidiano, evidenciada nas precárias condições de trabalho, na baixa remuneração dos docentes, na falta de uma política pública de educação de qualidade...

Essas reflexões estão enredadas em tantas outras que sugerem, instaladas nessa rede de complexidades, devo aqui salientar que é preciso, ainda pensar além...Qualquer proposta que traga um outro olhar, sentir, pensar acerca dessa relação prática/teoria/prática no cotidiano das aulas de Educação Física nas escolas e suas conseqüentes possibilidades de transformações, perpassa, também, por uma ampliação dessas discussões no que tange aos processos de formação dos docentes desse área, de um novo currículo, da diversificação de estratégias pedagógicas, da inclusão de novos conteúdos... Mas, apesar do caminho ser longo, não é uma utopia. É preciso sonhar, lutar, trabalhar muito e, sobretudo acreditar que é possível.

A autora, Professora Ms. Martha Copolillo é docente do Departamento de Educação Física e Desportos da UFF.

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PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA: UM SER NO MUNDO

Maneca da Cruz



Nosso Tempo

Este é tempo de partido,

Tempo de homens perdidos.

Em vão percorremos volumes,

Viajamos e nos colorimos.

A hora prescindida

esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.

As leis não bastam.

Os lírios não nascem da lei.

Meu nome é tumulto,

e escreve-se na pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Estamos aqui discutindo “O Contexto social e as ações pedagógicas cotidianas na Educação Física Escolar: (im)possibilidades”. Isso ocorre depois de termos debatido, neste Encontro, as dificuldades e possibilidades da Educação Física Escolar; as propostas pedagógicas para a área e ainda tendo pensado a Educação Física nos cursos de formação de professores. Agora nos cabe, portanto, considerando o conhecimento produzido nestes dois dias pelo conjunto dos participantes do VII EnFEFE, produzir uma reflexão sobre a nossa condição de Professores de Educação Física. Em alguns casos, sobre a condição de futuros professores.

Dando início à essa conversa, a primeira idéia que me ocorre é justamente falar de ação. Isso nos remete a um brevíssimo mergulho na complexidade de nossa existência. Pensando inicialmente em nossa condição humana, começo reafirmando aqui nossa igualdade, nos seguintes termos: somos, enquanto espécie humana, todos possuidores de uma mesma condição, qual seja aquela que nos garante uma dada singularidade. Em outras palavras, somos todos iguais porque somos todos diferentes.

Julgo importante explicitar essa noção — da diferença como sendo, possivelmente, o único traço definidor de uma chamada natureza humana — para contrapor à idéia de natureza que tentam nos empurrar como definidora de nossas vidas e, por conseqüência, definidora também de nossa condição social. Essa “natureza” seria capaz de definir a priori, às vezes mesmo antes de nos tornarmos humanos, o nosso lugar no mundo.

Considero importante essa reflexão porque há uma constante campanha tentando nos fazer acreditar que o mundo é do jeito que é em virtude de uma dada natureza humana. Há também na sociedade uma manifesta intenção de nos fazer crer que tudo de ruim que um ser humano comete, é uma “desumanidade”, como se fosse possível atribuir as mazelas do mundo à natureza, ou ainda, à alguma entidade externa à própria humanidade. Pensando dessa maneira podemos ser levados a nos despir de nossa condição humana e assumirmos uma postura de meros “passantes” por esta existência, o que convenhamos é muito pouco diante das possibilidades que se colocam à nossa disposição durante toda a nossa vida. Uma delas, a de nos assumirmos plenamente enquanto agentes das mudanças urgentes, necessárias e plenamente realizáveis, desde que assumamos no todo a nossa condição humana e localizemos na própria humanidade as (im)possibilidades de transformação do mundo. Essa compreensão nos remete a pensar sobre a nossa condição de agentes culturais, seres produtores e ao mesmo tempo produto das culturas.

Sendo possuidores e conhecedores da condição anunciada há pouco estaremos bem encaminhados para encontrarmos as respostas aos problemas do nosso dia-a-dia. Problemas como: falta de solidariedade, violência, tráfico de drogas, corrupção, insegurança, guerras, produção de armas, estresse, ausência de sensibilidade, fome, abundância de grãos, miséria, opulência, pobreza, riqueza, erotismo precoce, falta de amor, falta de prazeres, excesso de trabalho, falta de lazer, entre outros.

Esse conjunto de problemas — frutos da ação humana — afeta, embora às vezes possa passar despercebido por muitos, o nosso fazer pedagógico. Afeta os nossos relacionamentos na escola, na família, na sociedade. A quem, senão a nós mesmos enquanto agrupamento humano ciente de que podemos ser a mudança ou a conservação dessa realidade, cabe a ação para melhorar o mundo? Ou vamos aceitar que ainda continuem nos vendendo impunemente a idéia da “naturalidade” dos fatos sociais e das misérias humanas?

O que podemos fazer, enquanto professores de Educação Física, para contribuir para a felicidade das pessoas? Essa pergunta, formulada por um colega há mais de uma década, continua a perseguir-me, como que a exigir ações diárias e concretas. Ela surge prá mim como a utopia, ou, no dizer de Eduardo Galeano, como o horizonte que nos faz sempre caminhar no seu encalço. Achar respostas prá essa pergunta tem me feito pensar, dia após dia, a respeito do que tenho feito em minhas aulas, também sobre o que não fiz ou deveria ter feito. Sinto-me também pressionado a responder, a mim mesmo, qual tem sido minha ação na escola e ainda, qual tem sido minha ação na sociedade.

Se eu sei que a sociedade injusta em que vivemos é fruto da organização humana e não da natureza, portanto compartilho da idéia que a humanidade pode optar por diferentes formas de organização, cabe a mim fazer as escolhas que possibilitem a mim contribuir para um mundo melhor. Aqui faço questão de frisar a ação individual porque essa é uma decisão íntima, que cabe a cada pessoa fazer diante dos argumentos expostos pela história e pela realidade atual, a qual ainda não conseguimos perceber como história, posto que estamos imersos no aqui e agora.

Na escola, agente e paciente da realidade, nossa ação pode ser desdobrada em pelo menos dois momentos: nas aulas e fora das aulas. Podemos transportar para as nossas aulas a reflexão que Rubem Alves coloca em relação à escola: enquanto professores, queremos ser asas ou gaiolas? Como vivemos nossas aulas? Que significados estamos atribuindo para esse espaço que marca a vida da maioria de nossos alunos? Valores como autonomia, solidariedade, democracia, respeito, dignidade, liberdade, estão presentes nesse espaço que é nosso — de professores e alunos — ou já nos convertemos ao conformismo e abandonamos nossa heróica resistência diante da avalanche de políticas desanimadoras implementadas pela imensa maioria dos que nos governaram ao longo desses 503 anos de dominação?

Sendo resistência a resposta, ótimo! Somos companheiros, somos milhões de companheiros que se unificam no dia-a-dia do fazer pedagógico. Ainda que não nos conheçamos a todos, sabemos que pelo mundo a fora nos encontramos na realização de cada professor que solidifica sua ação pedagógica nos valores há pouco referidos. Hoje é muito mais fácil de comprovar essa afirmação, visto que as trocas de informações se fazem em maior número e em maior velocidade.

Agora, se a resposta é conformismo, ótimo também! O positivo é termos uma resposta! Ruim seria não assumir essa situação. Ao fazê-lo, abre-se a possibilidade da mudança. Surge a possibilidade de criarmos asas. Identificar o problema é o primeiro grande passo rumo à sua resolução. Portanto, se nos vemos como gaiolas, precisamos encontrar as saídas, as chaves, e então nos dispormos a transformar nossa aula em asas, permitindo também aos nossos alunos experimentar os mais altos vôos, porque quanto mais alto voamos, mais e melhores chances temos de ver e perceber o mundo.

E fora das aulas? Participação parece-me ser a palavra-chave. Não podemos de modo algum aceitar os papéis que não raras vezes são reservados para nós professores de Educação Física. Precisamos participar efetivamente da vida da escola, seus conselhos, sua direção, seus problemas e soluções. O sucesso de nossas aulas depende do sucesso da escola no seu conjunto. Ainda que de início possamos parecer isolados, não podemos jamais esquecer que somos milhões mundo a fora. Talvez, em alguns casos, ainda não tenha surgido a oportunidade do encontro, mas vale a pena perseverar e estar atento para ao menor sinal agarrarmos as oportunidades e começarmos a construir e organizar o grupo. Criar um coletivo, fortalecer a ação organizada e traçar metas a partir das reflexões conjuntas parecem-me ser os passos que devemos trilhar para vencer aquela sensação de impotência que teima em se aproximar de nós a cada eventual fracasso.

Não nos basta criar asas, é preciso que a escola enquanto instituição desista de ser gaiola e também assuma a condição de asas. Por isso devemos lutar todos os dias no interior da escola. Talvez assim possamos encontrar a forma de responder àquela pergunta acerca da nossa participação na felicidade das pessoas.

Mas parece que ainda falta conversamos sobre um aspecto. Podemos mudar nossas aulas, mudar nossas escolas, mas se não mudarmos ou se não tentarmos mudar a sociedade, teremos um sério limitador de nossas boas intenções pedagógicas. Só poderemos realizar plenamente nosso ideal de uma educação pública, gratuita, de qualidade socialmente referenciada, laica, universal, quando tivermos realizado nossa utopia de começarmos a construir uma sociedade diferente. Aproveito aqui para resgatar uma expressão um pouco esquecida: queremos uma sociedade sem explorados e sem exploradores. Uma sociedade recriada a partir da intenção humana de abrir caminhos para que cada pessoa possa desenvolver todas as suas potencialidades, onde a liberdade de um comece com a liberdade do outro. Uma sociedade fundada na mais radical democracia.

Nossa jornada é longa, nossa tarefa é árdua, mas concordo com Martin Luther King quando disse:

é melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão, que sentar-se fazendo nada até o final. Prefiro na chuva caminhar que dias tristes em casa me esconder. Prefiro ser feliz embora louco, que em conformidade viver”.

O autor, professor Maneca da Cruz é docente de educação física da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Rio Grande (RS) e mestre em educação e cultura - UDESC (1999)


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