Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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RECREAÇÃO E ATIVIDADES PSICOMOTORAS

NA FORMAÇÃO DE POFESSORES

Marcos Miranda Correia



Resumo: este trabalho constitui-se do relato da experiência com a elaboração e a realização do Curso de Recreação e Atividades Psicomotoras, destinado a professores de 1a à 4a série do ensino fundamental, em um município da Baixada Fluminense, no estado do Rio de Janeiro. Apresentamos o planejamento do curso, fazemos algumas considerações e avaliações sobre o desenvolvimento do mesmo e apontamos algumas sugestões para novos cursos de formação e capacitação de professores.

Introdução

As questões relacionadas ao corpo e ao movimento, ainda hoje, encontram muitas resistências e dificuldades para serem discutidas e assumidas por muitos profissionais e escolas dos dois primeiros ciclos do ensino fundamental. Apesar dos Parâmetros Curriculares Nacionais de 1a à 4a série apresentarem um volume exclusivo sobre a Educação Física (Brasil, 1997), no cotidiano escolar de algumas escolas de um município da Baixada Fluminense do estado do Rio de Janeiro, observamos muita dificuldade e resistência dos professores para trabalharem com atividades recreativas. Daí surgiu a nossa vontade de interferir nessa realidade.

Partindo da observação da dificuldade das professoras em lidarem com a “excessiva” mobilidade e energia das crianças e, também, do fato de existir um horário formalmente disponível para recreação com as crianças dentro do horário escolar, iniciamos no município de Japeri, no estado do Rio de Janeiro, no dia 12 de março 2002, um curso de recreação e atividades psicomotoras, dirigido aos professores dos dois primeiros ciclos do ensino fundamental, na tentativa de reduzir essas dificuldades e resistências apresentadas.

Projeto de capacitação de profissionais do ensino fundamental

É sabido que os problemas financeiros e econômicos atingem uma grande maioria de municípios do Brasil e que a educação sofre as maiores e piores conseqüências desses problemas. Mas, apesar dessas dificuldades, a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Japeri reconheceu a importância e a necessidade de investir na formação de seus profissionais da área educacional. Assim, durante o ano de 2002, diversos profissionais foram incentivados e puderam participar de diversos cursos, congressos, seminários e oficinas.

Mais especificamente, para os professores de 1a à 4a séries da rede municipal, com o apoio da Coordenação de Educação Física, oferecemos o I Curso de Recreação e Atividades Psicomotoras que apresentamos a seguir.

Curso de recreação e atividades psicomotoras

Como não conhecíamos de perto as condições das escolas que pretendíamos interferir e reconhecíamos como nós (seres humanos) somos céticos à novas propostas e a resistência à temática corpo/movimento, precisávamos de uma estratégia que nos aproximasse dos professores. Sabíamos que essa estratégia deveria valorizar aquilo que os professores já sabiam e faziam.

Paulo Freire sempre nos disse para respeitarmos o conhecimento trazido por nossos alunos (Freire, 1999) e Arroyo (2000), em sua atuação como secretário de educação, procurou nas escolas e no trabalho dos professores as mudanças que pretendia realizar. Inspirados nessas duas concepções, estabelecemos que o curso deveria estar inteiramente e constantemente interligado com a realidade das escolas e dos professores. Então, definimos o seguinte tema para orientar nossas ações e estratégias pedagógicas: REPENSANDO A TEORIA! REFAZENDO A PRÁTICA!

Procurando seguir essa diretriz e prevendo atividades teóricas, vivenciais e de supervisão, o curso foi realizado seguindo o seguinte planejamento:

ESTRUTURA DO CURSO: 5 (cinco) etapas:

1a ETAPA

Discussão e reflexão sobre a realidade da educação brasileira e municipal. Sugestões e perpectivas de ação.

2a ETAPA

Desenvolvimento humano: aspectos sociais, culturais e biológicos. Desenvolvimento motor. Psicomotricidade. o corpo e o movimento como expressão e linguagem.

3a ETAPA

A ludicidade, o brincar e o prazer. o jogo na formação humana. jogos cooperativos x jogos competitivos.

4a ETAPA

Apresentação e vivências de atividades recreativas, jogos e brinquedos para o 1o e 2o ciclos do ensino fundamental.

5a ETAPA

Construção e vivências de atividades para o 1o e 2o ciclos do ensino fundamental. Elaboração de caderno de atividades psicomotoras. avaliação. Projeto de encerramento.

DIVISÃO DAS ETAPAS: cada etapa constará de duas partes.

PARTE TEÓRICA E VIVÊNCIAS

6 horas semanais, aos sábados.

SUPERVISÃO E ORIENTAÇÃO

3 horas em cada escola e em horário de aula.

OBJETIVOS:

GERAIS

Identificar as questões surgidas no cotidiano escolar e discuti-las à luz das teorias apresentadas em consonância com a realidade onde atuam;

Fazer com que o professor percebesse seu potencial transformador.



ESPECÍFICOS

Resgatar e vivenciar jogos, brincadeiras e atividades recreativas, e adequá-los a realidade de cada escola;

Fazer com que os professores percebessem a importância do movimento e corpo no desenvolvimento e na formação do aluno;

Ajudar os professores a fazerem adaptações dos jogos e atividades às condições de cada escola;

Elaborar, junto com os professores, um caderno de atividades para ser utilizado no cotidiano, utilizando material disponível nas escolas.



METODOLOGIA: foi realizada em função da divisão teórico/vivencial e supervisão.

PARTE TEÓRICA

E VIVÊNCIAS



Criar situações que estimulassem a solução de problemas relativos ao cotidiano escolar, utilizando aulas expositivas; debates; atividades práticas; leitura de livros, textos e artigos referentes ao curso; dinâmicas de grupos; filmes e músicas populares.

SUPERVISÃO

E ORIENTAÇÃO




Acompanhar as professoras nos horário de recreação com as crianças e discutir individualmente as dificuldades encontradas. Identificar nesses horários questões para os encontros com o grupo.

RECURSOS MATERIAIS

1 Televisão; 1 Video-cassete; 1 Retroprojetor; 1 CD player; 10 Bolas de frescobol; 10 Bambolês; 5 Cordas elásticas; 5 Cordas de sisal ou nylon; 2 Bolões de praia coloridos; 100 balões de aniversário; 2 rolos de barbante; 500 folhas de papel tamanho ofício ou A4; 2 Jogos de caneta Pilot; 5 tubos de cola Prit; 2 Bolas de futebol; 2 Bolas de volei; 2 Bolas de Basquete.

REFERENCIAL TEÓRICO: selecionamos um referencial básico, com alguns autores e princípios que norteassem nosso trabalho dentro de nosso tema e de uma perspectiva transformadora da escola e da educação.

TEORIAS CONSTRUTIVISTAS

Jean Piaget;

Lev S. Vygotsky;

Henry Wallon;

João Batista Freire.



CRÍTICOS

Rubem Alves;

Paulo Freire.



PRINCÍPIOS DA DIVERSIDADE E INCLUSÃO

Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física.

Observações, considerações, avaliações e sugestões

Foram convidados os professores de 24 escolas da rede municipal que atuavam de 1a à 4a série. A participação não foi obrigatória e a previsão inicial era de atender os 426 (100%) professores docentes II, conforme dados da Secretaria de Educação. No entanto, das 25 escolas da rede municipal, duas escolas não enviaram nenhum professor e apenas 69 (16,2%) professores concluíram o curso (Japeri, 2002).

Apesar do pequeno número de participantes e considerando a não obrigatoriedade da participação, esses dados revelam duas interpretações pertinentes e que merecem um aprofundamento (em outros estudos) para entender-se o porque da pouca participação. De um lado, aparentemente, podem demonstrar um descaso e/ ou descomprometimento dessa maioria de professores com a própria formação. Mesmo considerando o fato do curso ter sido realizado aos sábados, isso não é significativo para nós, porque ele comprometia apenas 5 (cinco) desses dias no ano. Por outro lado, pôde também revelar um grupo (apesar de pequeno) considerável de professores comprometidos com a sua própria formação. Mesmo sendo aos sábados, este grupo de professores manteve uma freqüência alta, procurando soluções para superar alguns obstáculos e não perderem as etapas – algumas professoras chegaram a levar seus filhos quando não tinham com quem deixar.

Embora em número pequeno, esse grupo de professores participantes demonstrou que a rede municipal possui profissionais capazes de contribuir para melhor qualificar a educação do município. Ressalta-se, nesses professores a dedicação, a boa vontade e o interesse por adquirir conhecimentos que melhorem e suas atividades docente e sua formação pessoal, mesmo lutando contra as dificuldades comuns à maioria das escolas públicas brasileiras. Isso demonstra que ainda é possível manter a esperança em uma educação transformadora e que esses professores podem ser os agentes da transformação se forem formados nesse sentido.

A supervisão, apesar de não ter sido possível com todos os professores, foi bem aceita por aqueles que foram acompanhados. Esse acompanhamento, mesmo restrito, mostra que a formação de professores não deve se restringir apenas à fornecer informação; ela precisa ser vivida, experimentada, avaliada e reelaborada a partir da prática do professor na escola e com acompanhamento de um profissional mais experiente (Leal, 2003).

Não foi possível ainda uma avaliação mais precisa e direta dos resultados desse projeto. Mas, visitando algumas escolas e ouvindo o relato de algumas orientadoras, professoras e diretoras, encontramos depoimentos de que atividades dirigidas com os alunos estão sendo realizadas nos horários disponibilizados para a recreação. Isso demonstra que o nosso objetivo de interferir na problemática corpo e movimento pôde ser, ao menos, parcialmente alcançado. Assim, vale ressaltar que a capacitação, a formação e a valorização dos professores é fundamental para iniciar-se processos de mudança.

Na avaliação dos participantes, estes destacaram a combinação entre atividades vivenciais e teóricas como o ponto mais positivo do curso e sugeriram a realização de mais encontros desse tipo. Realmente, durante as aulas, eram nas atividades vivenciais (pular corda, jogar peteca, futebol, etc.) que se estabeleciam as melhores oportunidades para a reflexão da teoria e que o grupo ficava mais integrado e participativo. Mas, também vale destacar que algumas professoras relataram jamais ter pulado corda ou jogado queimado e que tinham bastante dificuldade em orientar e organizar atividades onde as crianças não estavam sentadas. Vemos, com isso, que é importante incluir esse tipo de vivências recreativas na formação dos professores, uma vez que, nas primeiras séries escolares, a brincadeira e o jogo exercem um papel fundamental no desenvolvimento da criança (Freire, 1997).

De uma forma geral, a realização do curso não ocorreu integralmente e fielmente como foi concebida. Mas, apesar de não conseguirmos atingir os 40% de professores inicialmente previstos, conseguimos com os participantes chegar o mais próximo de nossos objetivos. As considerações anteriormente apresentadas apontam indicativos bastante positivos de que a nossa opção pelo tema (REPENSANDO A TEORIA! REFAZENDO A PRÁTICA!) foi acertada, visto que esta associação da teoria com a prática foi bastante destacada pelos participantes e, também, por ser esta, atualmente, a principal tendência para a formação de professores (Leal, 2003).

O autor, professor Marcos Miranda Correia é da Universidade Iguaçu

Referências bibliográficas

ALVES, Rubem. Primeira lição para educadores. Aprendiz. Rio de Janeiro, ago. 2002. Disponível em: http://www.uol.com.br/aprendiz/n_colunas/r_alves/index.htm. Acessado em: 05 ago. 2002.

ARANHA, Maria L. A. Filosofia da educação. 2a ed. São Paulo: Moderna, 1996.

ARROYO, Miguel. Entrevista concedida à Eliane Bardanachvili. Jbonline. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: http://www.jb.com.br. Acessado em: 06/12/2000.

BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física, v.7. Brasília: MEC/ SEC, 1997.

BROTO, Fábio O. Jogos cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar. Santos: Renovada, 1997.

BROWN, Guillermo. Jogos cooperativos: teoria e prática. 2a ed. São Leopoldo: Sinodal, 1995.

CORREIA, Marcos M. Curso de recreação e atividades psicomotoras: material didático para o curso de capacitação. Japeri, Coordenação de Educação Física, SEMEC, 2002.

FREIRE, João Batista. Educação de corpo inteiro. São Paulo: Scipione, 1997.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. 11a ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

HUIZINGA, Johan. Homo ludens. 4a ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.

JAPERI, Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Relatório anual referente a curso de capacitação dos professores 2. Japeri, 08 de dezembro de 2002. Coordenação de Educação Física/ SEMEC, 2002.

LA TAILLE, Yves de, OLIVEIRA, Marta K., DANTAS, Heloysa. Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.

LEAL, Maria C. A construção de competências em cursos de formação de professores: a busca de uma base comum de formação. Nova Iguaçu, 2003, 77 p. (Relatório de pesquisa apresentado ao Mestrado em Educação, Faculdade de Educação e Letras, UNIG- Campus Nova Iguaçu).

MERANI, Alberto L. Psicologia e pedagogia: as idéias pedagógicas de henry wallon. Lisboa: Editorial Notícias, 1977.

ORLICK, Terry. Vencendo a competição. São Paulo: Círculo do Livro, 1978.

SANTIN, Silvino. Educação física: uma abordagem filosófica da corporeidade. Ijuí: Unijuí, 1987.

UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS DO MUNICÍPIO DE BELFORD ROXO

Marta Gonçalves Franco de Saboya



Resumo: O presente texto, é um relato de experiências que tem como objetivo apresentar como está sendo construída a Proposta Pedagógica da Educação Física Escolar na Educação de Jovens e Adultos, ( EJA ) do Município de Belford Roxo, frente à necessidade de termos um currículo significativo e que esteja a serviço das necessidades e especificidades, deste grupo de formação.

Inicialmente, estaremos traçando um histórico da EJA do município, trazendo sua forma atual de organização em ciclos de formação, para logo a seguir, defender a importância da Educação Física Escolar desta modalidade, no período noturno, uma vez que segundo a LDB Art. 26 parágrafo 3º, a Educação Física é apresentada em caráter facultativo.

Apresentaremos também neste relato, de que forma encaminhamos a construção dos pressupostos curriculares na Educação Física Escolar da EJA, comprometida em romper com o reducionismo específico da disciplina, para assumir, enfim, sua real função formadora, tendo os sujeitos que compõem este referido segmento de ensino como o centro das discussões, em detrimento ao elenco de conteúdos a serem definidos.

I. A história da EJA no município de Belford Roxo

O Município de Belford Roxo, segundo dados do IBGE/1996, ocupa uma área de 80.000 km com uma população de 399.319 habitantes. Localizado na região da Baixada Fluminense, onde as condições de vida (saneamento, educação, saúde, lazer, entre outros) tornam-se entraves para o desenvolvimento social e dos indivíduos, de modo que esta população historicamente está marcada por um passado de violência e descaso, marginalizadas socialmente.

A Educação para Jovens e Adultos no Município de Belford Roxo trouxe sua herança organizacional do Município de Nova Iguaçu, ao qual pertencia antes do processo de Emancipação.

A EJA desde 1990 era organizada de forma seriada, atendendo ao primeiro e segundo segmentos do Ensino Fundamental.

A partir de 2001, durante diversos grupos de estudos, foi abordada a necessidade de reformular esta modalidade, dando uma nova característica a este ensino, cuja opção deu-se sob a forma de Ciclos de Formação, implementada na Rede no primeiro segmento em 2002, com os ciclos I, II e III, e no segundo segmento em 2003, com os ciclos IV e V que passam a atender cerca de 8.417 alunos oriundos de 22 Unidades no noturno e 04 turmas no diurno, com características de atendimento especial diferenciado.

Através da oferta de escolarização, sob a forma de Ciclos de Formação, é evidenciado o rompimento com a estrutura centrada exclusivamente na transmissão de conhecimentos e é demonstrado, através da sensibilização dos professores, o sentido de entender a vida adulta como tempo específico de formação. Os saberes escolares ganham novas configurações nas experiências e vivências dos nossos alunos.

Hoje, o Ensino na modalidade de Educação para Jovens e Adultos oferece o tempo de escolaridade reduzido de 8 (oito) anos para 5 (cinco), unidos aos interesses dos discentes, às perspectivas dos docentes, aliadas a uma prática mais dinâmica pautada na pedagogia de projetos interdisciplinares, com referencial de Rede Temática, tornando as escolas de Belford Roxo mais autênticas na busca de um Ensino de Qualidade.

II. A importância da educação física escolar na educação de jovens e adultos

A Educação Física Escolar nos últimos anos vem discutindo sobre sua função e importância na educação.

As discussões, a cerca do seu objeto de estudo e dos conteúdos pertinentes à sua área de conhecimento, têm provocado um movimento de busca da identidade da Educação Física Escolar entre os profissionais da área. Movimento este que avançou consideravelmente no campo teórico, mas não o suficiente para transformar, na prática, ações pedagógicas coerentes com as concepções defendidas em diferentes tendências e teorias pedagógicas da Educação Física.

É necessário rompermos com paradigmas meramente de transmissão, repetição e imposição, para assumirmos a função social e cultural da Educação Física que deve ter como centro da sua proposta pedagógica os sujeitos históricos e sociais que compõem a comunidade escolar, em detrimento ao elenco de conteúdos a serem transmitidos. Não que estes conteúdos não tenham que ser elencados, porém estes devem estar a serviço da formação do ser humano, numa visão holística e de complexidade.

Desta forma, a importância da Educação Física Escolar não tem idade. Ela se faz necessária em todos os grupos de formação, considerando suas necessidades e especificidades, para então servi-los.

Na Educação de Jovens e Adultos, no período noturno, a Educação Física se apresenta segundo a LDBEN nº 9.394/96 de forma facultativa.

A Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da educação básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos, (LDB, Art. 26 parágrafo 3º ).

Sem querer discutir o caráter excludente e contraditório da lei citada acima, a Rede Municipal de Ensino de Belford Roxo, através do seu Regimento Escolar e da sua Proposta Pedagógica, garante a Educação Física Escolar na EJA noturno, por entender a concepção pedagógica da disciplina para este grupo de formação.

A Educação Física Escolar da EJA deve, segundo Proposta Curricular do MEC (2002), “ se constituir num instrumento de inserção social, de exercício da cidadania e de melhoria da qualidade de vida”. (pg.193). Deve ainda priorizar a vinculação das práticas corporais com as práticas sociais, políticas e culturais, de forma reflexiva, critica e desalienadora, a fim de propiciar uma leitura da realidade, capaz de interferir nos rumos da vida privada e social.

O ensino da Educação Física, segundo O Coletivo de Autores (1992), tem também “um sentido lúdico que busca instigar a criatividade humana à adoção de uma postura produtiva e criadora de cultura, tanto no mundo do trabalho como no do lazer”,(pg.40) justificando, assim, os benefícios pertinentes à realidade deste grupo da EJA que atinge uma camada significativa da força de trabalho.

Os alunos da EJA já possuem uma representação da escola e da Educação Física, de acordo com suas vivências e experiências que podem ter sido tanto positivas quanto negativas. O que eles trazem na sua memória deve constar como ponto de partida do planejamento do professor, para então (re) dimensioná-lo e (re) significá-lo. Muito mais do que isto, o professor deve problematizar, interpretar, relacionar, compreender junto com os alunos as amplas manifestações de sua área de ensino, compartilhando temas, objetivos, conteúdos, projetos e emoções. Importante, portanto, estar atento à historicidade tanto do aluno quanto do meio em que ele se desenvolve.

III. Uma proposta pedagógica, na educação física escolar, para a EJA

Antes de relatarmos como está acontecendo a construção da Proposta Pedagógica da Educação Física Escolar, no município de Belford Roxo, se faz necessário relatar os movimentos realizados na EJA, na busca de uma reestruturação curricular que rompesse com as estruturas vigentes de organização dessa modalidade de ensino.

Antes organizada em séries já citadas anteriormente, a EJA no município de Belford Roxo se revelava em crise, apresentando uma necessidade urgente de transformação. Os encontros pedagógicos, realizados com a comunidade escolar, revelaram insatisfações, incertezas e angústias ao concluírem que não havia para o ensino noturno, uma política pedagógica diferenciada para esta clientela, tendo reuniões e planejamentos adaptados a essa modalidade. Na escola, essa crise se manifestava de muitas formas, mas com certeza uma das mais difíceis de enfrentar era a falta de sentido e significado para o ensino, em relação aos nossos jovens e adultos.

O município vivenciou um profundo mal estar, não havia proposta para mudanças.

O intuito era reestruturar a perspectiva de educação e conseqüentemente a prática pedagógica. Diante dessa necessidade, foi criada uma comissão, formada por docentes, especialistas e diretores da rede de ensino, em grupos de estudos, que nas discussões fizeram surgir acordos conceituais, dando um novo olhar para a Educação de Jovens e Adultos, a partir de discussões e questionamentos como:

Escola, que espaço é esse?

É local de formação da cidadania?

Para que tipo de cidadão?

É lugar de preparação para o trabalho?

Para que sociedade?

Para que tipo de aluno?

É local de democratização ou de exclusão?

A passos largos a nova estrutura de Educação na EJA era pautada em Ciclos de Formação

Desejava-se ajudar a formar um aluno com capacidade de refletir, compreender o mundo que o cerca, tomar decisões, desenvolver valores, ser mais solidário, crítico, comprometido com a transformação e intervir na realidade.

É preciso apontar para a possibilidade da escola como elemento de mudança das relações sociais, de tal forma que se possa voltar a esperança de um futuro melhor. Em todo processo histórico, precisamos levar em conta a dialética de continuidade-ruptura, qual seja que o “novo” se faz a partir do “velho” e que durante algum tempo os dois vão conviver, só que tensamente, visto o compromisso com a superação. Assim, de imediato, não podemos abrir mão das tarefas que estão colocadas (o mercado de trabalho, etc). Todavia, não podemos também deixar de lutar para que o novo possa emergir, na forma de novas relações entre homens, o que vai nos levar a realizar tarefas postas de forma crítica e inovadora; esse é o polo da ruptura”. (Vasconcellos, 2001 pg. 41)

E esta ruptura com o estabelecido, fez-se emergir na Educação de Jovens e Adultos da Rede Municipal de Belford Roxo, a Escola por Ciclos de Formação, mostrando que outro caminho é possível, oferecendo uma educação voltada para a formação humana numa proposta inovadora que vá ao encontro das necessidades e anseios do perfil de educandos e educadores da rede.

A organização da rede por Ciclos de Formação possibilita o aluno a percorrer sua escolaridade de forma contínua, em seu ritmo, defendendo a idéia de que cada aluno progride de maneira personalizada, de acordo com sua maturação biológica e com suas vivências e experiências sociais e culturais.

Desta forma, o currículo deve estar sempre inserido em um projeto educacional mais amplo. Por trás da elaboração do mesmo, está a concepção do ser humano em desenvolvimento. Partindo desta concepção, segundo Lima (2000), “ o currículo é o recorte do conhecimento humano acumulado que será trabalhado na ação educativa”.(pg.21)

Dentro de cada Ciclo de Formação, deve-se respeitar a organização dos grupos, de modo a atender ao ciclo da vida de jovens e adultos. Esta estrutura flexível facilita maior aprofundamento de identidades. Facilita um maior respeito às diferenças, às condições sócio-culturais.

Foram criados pelo Serviço de Atendimento à Educação de Jovens e Adultos espaços de socialização, oportunizando aos docentes momentos de reflexão sobre sua prática diária, estudo da proposta e as discussões pertinentes aos pressupostos norteadores que embasariam a mesma. Entre estes pressupostos, discutem-se os eixos filosóficos, antropológicos, epistemológicos e didático-metodológicos que devem nortear o Projeto Educativo de cada unidade escolar.

A partir da visão dos pressupostos norteadores e da necessidade de se reformular o currículo, os docentes das diferentes áreas, mediados pelo Serviço de Atendimento à Educação de Jovens e Adultos passaram a discutir objetivos, temas, conceitos, conteúdos, de cada disciplina para cada Ciclo de Formação, numa visão interdisciplinar., Neste momento, entra em cena o grupo da Educação Física que, juntos precisavam compreender as formas com que deveriam tratar a seleção, organização e sistematização dos conhecimentos, relevantes ao ciclo IV e V. Como na rede não existia um currículo norteador em Educação Física Escolar para a EJA, as rupturas precisavam acontecer no interior de cada um. E para que estas reflexões emergissem nos professores, compreendeu-se que esta seria a oportunidade de mediar este processo e contribuir na (re) significação da Educação Física Escolar na EJA do município.

Tentando compreender minha colaboração enquanto responsável, na Secretaria Municipal de Educação, pela Educação Física Escolar de toda a rede de ensino, tive a sensibilidade de reconhecer que uma proposta pedagógica, e um currículo significativo, por mais progressista que seja, não acontece no interior da escola se vierem na vertical, de cima para baixo, ou seja, das Secretarias e Coordenadorias para as Unidades Escolares. Eles precisam ser elaborados a partir das ações inovadoras e experiências bem sucedidas dos professores que estão em cada sala de aula , em cada quadra, (re)significando suas práticas pedagógicas, transformando a Educação Física Escolar numa disciplina que ganha um sentido e significado de igual importância, em relação às demais , para a formação e desenvolvimento dos nossos jovens e adultos. Foi desta forma que em um dos nossos encontros pedagógicos, convidei os professores Anderson Paulino de Souza da Escola Municipal Belford Roxo e Luciane da Silva Lacerda da Escola Municipal Tenente Mozart para relatarem suas experiências bem sucedidas ao grupo de professores de Educação Física da rede, abrindo, então, espaços de socialização e reflexão das práticas pedagógicas de todos, de acordo com cada realidade vivida.

O relato do professor Anderson, antes apresentado no projeto (Abram Alas Que Eu Quero Falar), organizado pelo Serviço de Atendimento à Educação de Jovens e Adultos no final de 2002, nos trouxe a convicção sobre a necessidade de conhecermos a realidade vivida dos nossos alunos para melhor servi-los. Seu trabalho apresentou uma pesquisa sócio-antropológica realizada com seus alunos, que tinha como objetivo compreender quais eram as relações que seus alunos estabeleciam em suas vidas, para então compreender de que forma a Educação Física poderia estar a serviço dos mesmos. Como fazer com que a Educação Física tivesse significado para os seus anseios, suas necessidades, dentro e fora da escola?

As perguntas se reportavam a compreendê-los nas suas relações com sua própria vida, com sua família, com sua comunidade, com suas fantasias, com seus desejos, com seu corpo, com a escola, com a própria Educação Física e outros.

Foi a partir do relato do Profº. Anderson e da Profª. Luciane, junto aos relatos e experiências dos professores do grupo, que chegamos ao consenso de que Uma Proposta Pedagógica na Educação Física Escolar para a Educação de Jovens e Adultos no Município de Belford Roxo deveria apresentar-se como promotora da saúde, qualidade de vida e formação da cidadania de forma reflexiva, crítica e se possível, emancipatória.

Interessante ressaltar que, do grupo de professores da EJA, vários por consciência, outros por intuição, já apresentavam um trabalho com seus alunos, seguindo esta proposta em Educação Física Escolar; outros porém, se perdiam em práticas reducionistas e esvaziadas. No entanto, a preocupação de adaptar tempos, espaços, metodologias, conteúdos às condições do jovem e adulto trabalhador, foi uma constante em todas as experiências relatadas.

Concluímos que, para uma transformação necessariamente marcante na Educação Física Escolar para Jovens e Adultos, será preciso (re) criar, (re) significar o ensino, para atender a função social e política, necessárias à educação, rompendo com práticas esvaziadas, tecnicistas e alienadoras para então renová-las, comprometida com as práticas sociais e culturais que segundo Taffarel (2000) “alicerçam valores, sedimentam saberes, incentivam práticas humanizantes, desalienadoras e emancipatórias”.

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