Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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Considerações finais

Como principal conseqüência da referida estrutura das escolas somadas a coesão e empenho do grupo, constatamos o surgimento de situações cada vez mais freqüentes de interdisciplinaridade, que está corroborando a participação, o interesse e a iniciativa dos alunos.

Podemos afirmar que as escolas de período integral favorecem o desenvolvimento dos conteúdos de maneira que estes rompam com os objetivos e os sequenciamentos individuais das disciplinas, superando assim o ensino fragmentado.

Pretendemos aprimorar o que já vem sendo desenvolvido no contexto da cultura corporal, debatendo a concepção de lazer e oficinas em relação ao nosso projeto educacional, construir caminhos para a transdisciplinaridade, aumentar o número de aulas semanais de educação física, ampliar a visão dos demais educadores sobre o conceito da dualidade corpo/mente ainda presente na nossa educação, com a intenção de minimizá-lo cada vez mais dentro do processo escolar, enfatizando assim o desenvolvimento global do indivíduo.

Estamos conscientes do grau de complexidade das escolas públicas, mas entendemos que é no ambiente escolar que se forjarão as mudanças necessárias para que o aluno e a comunidade sejam os principais beneficiados.

Os autores, João Francisco Magno Ribas, Andréa S. Elias Dollo, Valéria Maciel Battistuzzi, Débora A. Marchini Bortoletto, Maria Estela Deltrégia Gioia, Elaine Rosaura Juliani, Marydalva A. Nogueira Meneghel, Silvana Zanellato Michelani, Walfredo Soares Nascimento e Eliana P. Silva são da Secretaria de Educacão e Cultura de Americana – S. Paulo



Referências bibliográficas

DARIDO, Suraya Cristina, Educação Física na Escola: Questões e Reflexões, Araras, SP-Brasil. Ed. Topázio, 999.

FREIRE, João Baptista. Educação de corpo inteiro, teoria e prática da educação física, Campinas, SP, Brasil. Ed. Scipione, 1999.

DAÒLIO, Jocimar. Da cultura do corpo, São Paulo, SP, Brasil. Ed. Papirus, 2000.

DAÓLIO, Jocimar. Cultura – Educação Física e Futebol. Campinas, SP, Brasil. Ed. da Unicamp, 1997.

RIBEIRO, Darcy. O Livro dos CIEPs. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Ed. Bloch, 1986.

LEENHARDT, Pierre. A criança e a expressão dramática. Tradução de Maria Flor M. Simões. Editorial Estampa, 1974.

BRIKMAM, Lola. A linguagem do movimento. Tradução de Beatriz A. Cannabrava.São Paulo, SP. Editora Summus, 1989.

PARÃMETROS CURRICULARES NACIONAIS, PCN. Educação Física. Secretaria de Educação Fundamental, MEC/SEF, Brasília, DF, Brasil, 1997.

CARLINI, Herb. Revista “10 Anos Ciep Americana”. Secretaria Municipal de Educação e Cultura, Americana, SP, Brasil, dez. 2001.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA- IBGE – ( on line).Disponível no site www. Ibge.net/home/default - junho de 2002.

A EDUCAÇÃO FÍSICA COMO INSTRUMENTO DE INSERÇÃO SOCIAL

A EXPERIÊNCIA DO PETI

(PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL)

Leonardo Silveira da Silva



Resumo: O presente artigo objetiva discutir a temática da Educação Física Escolar como possibilidade de inclusão social. O texto reúne algumas experiências vivenciadas no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), que, sob uma análise teórica, possibilitam apontar questionamentos que necessitam ser aprofundados por essa área. Lançar um olhar sobre estas crianças, é dialogar com o conflito, e no tocante às ações que visem diminuir este flagelo (desigualdades sociais), sinalizo algumas possíveis intervenções que se materializaram na minha prática docente.

"A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar "quase natural". Paulo Freire

Trabalhar no PETI é um exercício diário de superação, é deparar-se continuamente com a injustiça social, com as privações. É vivenciar a realidade dos "esfarrapados do mundo" - como quer FREIRE - que até então eu só incorporava no exercício de minhas leituras.

As atividades pedagógicas são elaboradas em horário complementar à escola, visando a ampliação dos conteúdos culturais, lúdicos e informativos das crianças e adolescentes durante seu processo de desenvolvimento, através da oportunização de atividades artísticas, desportivas e/ou de "aprendizagem" (grifo meu). As tais "aprendizagens" referem-se a: reforço escolar, aulas de informática, línguas estrangeiras, educação para a cidadania, saúde e direitos humanos, educação ambiental e outros.

A integração das atividades junto às instituições escolares é realizada através de parcerias pedagógicas, assegurando o cumprimento dos dias letivos e horário estabelecidos, promovendo recuperação paralela dos alunos com menor rendimento e integrando a escola com as famílias e a comunidade. (MPAS - SECRETARIA DE ESTADO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CENTRO NACIONAL DE FORMAÇÃO COMUNITÁRIA, 2002.) As diretrizes que norteiam a área de Educação Física, e que se postam numa relação de complementaridade à escola, privilegiam os conteúdos da cultura corporal do movimento, objetivando principalmente, estreitar o "desenvolvimento da autonomia, da cooperação social e da afirmação de valores e princípios democráticos." (Caderno Pedagógico: jornada ampliada do PETI, 2002 ). E nesse convívio é construída a cidadania. (Ibid)

Minha atividade como "educador social" - denominação dada pelo projeto aos profissionais envolvidos com estas crianças - situa-se no Município de Belford Roxo, antigo distrito de Nova Iguaçu, nos bairros Xavante e Lote XV, às quartas e sextas, no horário de 08h:00 as 12h:00, onde atendo aproximadamente 40 crianças.

O polo Babi, localizado no bairro Xavante, compreende uma casa simples - área, cozinha, banheiros e varandas - e uma extensa área gramada que a margeia.

O polo Lote XV, localizado no bairro de mesmo nome, aloca-se no térreo de uma casa de dois pavimentos e compreende sala, copa, cozinha e banheiro. O que o distingue do Polo Babi, é que o espaço destinado às práticas físicas situa-se logo a frente da mesma - do outro lado da rua - na quadra de uma escola particular desativada, de estrutura física precária.

Ambos os polos carecem de instrumental adequado para a prática de atividades físicas. Material este, resumido em uma rede de voleibol, cordas e algumas bolas.



Público alvo

São crianças oriundas - em sua maioria - de famílias paupérrimas, desagregadas e sub-empregadas, muitas habitando em invasões e ou em regiões de intenso conflito social, parcial ou totalmente carentes das necessidades básicas de subsistência/sobrevivência.

Apresentam sérios distúrbios de comportamento, precário senso de coletividade e extrema violência. São indivíduos com vidas permeadas por todo o tipo de exclusão e privadas da ordem fundamental de convívio em sociedade: a cidadania.

A educação física com instrumento de intervenção:

Posto sim, a intervenção torna-se um exercício de superação; e, na ordem mesmo, de construir mecanismos concretos que dêem materialidade à transformação destes sujeitos, faz-se viável resgatar nestes indivíduos, os resquícios de suas apreensões culturais, pois, como afirma DAÓLIO: a cultura é a própria condição de existência do homem, exatamente aquilo que o diferencia de outros animais. (CARVALHO e RÚBIO (orgs.), 2001). E qualquer abordagem de educação que negue esta dinâmica cultural inerente à condição humana, (...) correrá o risco de o desumanizar. (Ibid)

Ciente destas responsabilidades, assumo que educação física incorpore estas prerrogativas, e questiono: O que fazer (como diria Freire), para que esta prática educativa transforme a vida destes sujeitos, que altere seu(s) estado(s) de consciência?

Que conceitos, conteúdos e métodos subsidiarão estes "fazeres"?

Partilho a idéia, de que a construção deste planejamento, deve privilegiar todas as vozes que partilham da vivência destes alunos, e que traduzidas e posteriormente compactadas em trajetória comum, forjarão e constituirão meta para uma futura atuação em consonância com sua(s) realidade(s). Pois, tenho comigo, que os espaços possíveis de intervenção, só ganham volume, na medida em que o singular dê visibilidade ao plural, onde se possa construir um planejamento participativo (...)

"em que todos, com seu saber próprio, com sua consciência, com sua adesão específica, organizam seus problemas, suas idéias, seus ideais, seu conhecimento da realidade, suas propostas e suas ações. Todos crescem juntos, transformam a realidade, criam o novo, em proveito de todos e com o trabalho coordenado." (GANDIM, 2000: 57)

Quando se assume que a Educação Física é eminentemente cultural, há de se considerar, primeiro, a história, a origem e o local daquele grupo específico e, depois, suas representações sociais, emolduradas pelas suas necessidades, seus valores e seus interesses. (CARVALHO e RÚBIO (orgs.), 2001) Já consciente do cotidiano destas crianças, necessitei dimensionar as ações práticas que caminhem juntas às minhas assunções político-pedagógicas. Neste sentido, encontro na tendência crítico-superadora de educação, subsídios que justificam minhas intencionalidades. Se busco - com a Educação Física - atitudes que explicitem minorar as condições opressivas das existências sociais destes indivíduos, concordo que meu agir (...) deverá estar vinculado à explicação da realidade social concreta e oferecer subsídios para a compreensão dos determinantes sócio-históricos do aluno, particularmente a sua condição de classe social. (COLETIVO DE AUTORES, 1992) Se consignatários dos ideais pedagógicos de Freire, somos tentados a engendrar aspectos políticos às nossas ações; e manifestar esta tendência, é ambicionar que os conteúdos educacionais estejam impregnados de valores que sejam intervenientes na vida destas pessoas, e que sejam gestados no calor de suas necessidades, conjugadas à um bem coletivo. Através deste panorama, o paradigma da cultura corporal desvelou-se como uma atitude possível. Através de um pesquisa prévia com os alunos, identifiquei as práticas físicas comuns aos seus cotidianos, traduzindo o seu folclore, folguedo e regionalidade. A partir daí, de posse destes dados preliminares, procurei mediar nas aulas, atividades que partiam dos seus interesses e àquelas que eu entendia que podiam suscitar o gosto pela participação coletiva e solidariedade.

O fascínio pela competição expressa de sobremaneira as condutas corporais destas crianças, e o embate físico é o resultado comum de resolução de seus conflitos internos e/ou com o outro. Porém, seria demagogia senão puro cinismo, esperar que estes sujeitos, "órfãos de pais vivos", expressem o mínimo de sociabilidade, se no tempo do(s) seu(s) dia-a-dia, no cotidiano de suas vivências, não experimentam/experimentaram o gosto da cidadania.

Resolvi então, incorporar nos nossos encontros, os jogos cooperativos como instrumento de ação, desvinculando a competição dos jogos, multiplicando os "vencedores". Nas aulas, somente são possíveis de materialidade, as atividades que necessitam do outro para acontecer, redefinindo o papel dos sujeitos e refletindo sobre sua participação. No começo, a resistência foi grande, aumentando até as atitudes agressivas, pois o medo dificulta a cooperação, mas como nos sinaliza BROTTO, "sempre que sentimos que nossa segurança está ameaçada, tornamo-nos defensivos, hostis, agressivos.” (BARBIERI e BITTAR (orgs.), 1996) Entendo que as carências que estes sujeitos experimentam já são suficientes para os oprimir, e não posso, com a Educação Física, potencializar a perda. Posto sim, utilizar os jogos cooperativos é acreditar que tais atividades, (...) eliminam o medo do fracasso e o sentimento de fracasso. Eles reforçam a confiança em si mesmo, como uma pessoa digna e de valor. (ORLICK citado por BROTTO, 1995)

No tempo presente - após 8 meses de intervenção - já experimento a colheita de resultados satisfatórios, e percebo que, apesar dos comportamentos agressivos ainda se cristalizarem em alguns momentos, suas manifestações já se fazem minorar sensivelmente.

Múltiplas são as possibilidades de intervenção, porém, o despertar do novo, somente ganha vida quando o compromisso for a principal meta dos educadores.

Espero sinceramente que as idéias lançadas aqui multipliquem-se em novos fazeres. Novos por contemplar a infinita capacidade dos homens em criar.

Referências bibliográficas

BARBIERI, Cesar Augustus S.; BITTAR, Ari Fernando. (orgs). Esporte Educacional: uma proposta renovada. Recife: Universidade de Pernambuco/UPE-ESEF: MEE/INDESP, 1996.

BROTTO, Fábio Otuzi. Jogos Cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar. São Paulo: CEPE/USP, 1995.

CARVALHO, Yeda Maria de; RUBIO, Kátia (orgs.). Educação Física e Ciências Humanas. São Paulo: Hucitec, 2001.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino da Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 15ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

GANDIM, Danilo. A prática do Planejamento Participativo: na educação e em outras instituições, grupos e movimentos dos campos cultural, social, político, religioso e governamental. 8ª ed. Petrópolis. RJ: Vozes, 2000.

MPAS - SECRETARIA DE ESTADO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. CENTRO NACIONAL DE FORMAÇÃO COMUNITÁRIA. FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. A gestão social e a política da assistência social para crianças e adolescentes: caderno do agente. Brasília: MEC, 2002.

MPAS - SECRETARIA DE ESTADO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL. Caderno Pedagógico: jornada ampliada do PETI. Brasília: MEC, 2002.

A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR:

PROMOVENDO O DESENVOLVIMENTO E O RESGATE DA CIDADANIA

Tonia Costa

Luciana Bernardes Vieira de

Marcos Jorge Ulberg Rezende

Giselle Kicia de Almeida Pereira

Juliana Ferreira Barral

Diogo Hersen Monteiro

Flávia Palhaes Vidal



Resumo: Através de brincadeiras, a criança se humaniza, aprendendo a conciliar a afirmação de si mesma `a criação de vínculos afetivos duradouros. O crescente cerceamento à liberdade de brincar, principalmente nas grandes cidades, nas últimas décadas, é causado, dentre outros fatores, por questões de limitação de espaço, aumento de violência urbana, ou, ainda, por uma má compreensão do processo de alfabetização, que, muitas vezes, suprime o lúdico da vida da criança. A educação física escolar, mesmo fora dos muros da escola, pode não apenas proporcionar possibilidades de brincar, mas também de complementar trabalhos visando o pleno desenvolvimento de crianças e, sobretudo, pelas questões referentes à cultura, permitir a inserção social de forma crítica e emancipadora, o que compreende o resgate à cidadania destas. O “Projeto Sou feliz...ensino Educação Física” tem desenvolvido trabalhos na área da Educação Física escolar no Instituto Presbiteriano Álvaro Reis (INPAR), Jacarepaguá, Rio de Janeiro. O objetivo é, através da Pesquisa-Ação, desenvolver atividades esportivas e de recreação orientada a partir de exercícios de coordenação motora, lateralidade, ritmo, noções de regras e limites e estimular o interesse das crianças em novas formas de descobrir o mundo, de relacionar-se e de iniciar-se com dignidade como cidadão brasileiro. Atualmente, 320 crianças vêm realizando atividades que propiciam um desenvolvimento global através do movimento, da ação, da experiência e da criatividade, beneficiando, de forma indireta, outras áreas do conhecimento ou mesmo relacionamento. Através de questionários semi-orientados, foram constatadas a importância que as crianças atribuem à educação física escolar e, especificamente, ao brincar, bem como modificações comportamentais por elas observadas. Uma educação física escolar comprometida com a questão social da educação se dá através de atividades específicas que possibilitam ao aluno a tomada de consciência de seu corpo nas diversas dimensões: culturais, sociais, políticas e biopsicológicas.

Através de brincadeiras, a criança se humaniza, aprendendo a conciliar a afirmação de si mesma `a criação de vínculos afetivos duradouros. No brincar, aliam-se a espontaneidade e a criatividade com a progressiva aceitação de regras sociais e morais. Assim, molda a cultura contextualizada no tempo e no espaço, mas também dela deriva.

Não sendo uma prerrogativa humana, porque mais amplo e precoce, o lúdico afirma suas raízes em sociedades animais compreendendo uma preparação à vida adulta e, sobretudo, uma atividade que contém sua finalidade em si mesma, “buscada no e para o momento vivido” (Oliveira et.al., 2000, p. 7).

O brincar da criança permite a continuidade de características válidas para outras espécies vivas, mas, além disso, as prolonga, aperfeiçoa e especializa, tendo, portanto, se convertido numa das estratégias selecionadas pela natureza e pelo próprio homem para a formação de sua autonomia e sociabilidade.

É brincando que a criança pequena elabora progressivamente o luto pela perda relativa dos cuidados maternos, assim como encontra forças e descobre estratégias para enfrentar o desafio de agir e pensar, assumindo a responsabilidade por seus atos. Constitui preciosa ferramenta de que dispõe para aprender a viver.

A busca da própria independência, desenvolvida através de conquistas do dia-a-dia, torna-se muito mais fácil quando às crianças são dados de forma clara e complementar liberdade e limite. Esta combinação é inerente ao espírito lúdico, onde quem brinca espera de si mesmo e do outro o vibrar, o se envolver e criar situações divertidas, assim como o respeitar o combinado, ou seja, assumir um contrato social.

O crescente cerceamento à liberdade de brincar, principalmente nas grandes cidades, nas últimas décadas, é causado, dentre outros fatores, por questões de limitação de espaço, aumento de violência urbana, ou, ainda, por uma má compreensão do processo de alfabetização, que infelizmente, muitas vezes, suprime o lúdico da vida da criança.

Face a esta situação, criar condições para o brincar transfere-se cada vez mais da esfera exclusivamente familiar e escolar para a sócio-cultural-institucional, como um todo, onde entidades públicas e particulares necessitam de uma progressiva tomada de consciência da importância do lazer e, sobretudo, de suas estreitas relações com aspectos de saúde física e mental, e suas possíveis interações.

A educação física escolar, mesmo fora dos muros da escola, pode não apenas proporcionar possibilidades de brincar, mas também de complementar trabalhos visando o pleno desenvolvimento de crianças e, sobretudo, pelas questões referentes à cultura, permitir a inserção social de forma crítica e emancipadora, o que compreende o resgate à cidadania destas crianças.

Desde março de 2001, o Projeto “Sou Feliz...ensino Educação Física tem desenvolvido trabalhos na área da Educação Física escolar por estudantes universitários da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ. Objetiva, através da tríade Ensino – Pesquisa - Extensão Universitária, complementar a educação básica de Instituição que acolhe menores socialmente desfavorecidos – o Instituto Presbiteriano Álvaro Reis (INPAR) – através de atividades esportivas, artísticas e de recreação orientada.

Inicialmente, uma turma de 22 alunos (meninos e meninas) de 7 – 8 anos compreendia os atores. Este número foi ampliado e hoje todas as 320 crianças (3-16 anos) vem sendo atendidas. A partir da Pesquisa-Ação, é possível desenvolver iniciação esportiva através de atividades lúdicas, exercícios de coordenação motora, lateralidade, ritmo, noções de regras de jogos e de limites e, também, estimular o interesse das crianças na procura de novas formas de descobrir o mundo, de relacionar-se consigo e com os outros e de iniciar-se com dignidade como cidadão brasileiro. As atividades compreenderam encontros semanais, com duração de 2 horas.

Foram realizados questionários orientados com 51 crianças, cujas idades variavam de 7 a 14 anos, com o intuito de perceber a própria visão das crianças sobre o “Projeto” em questão. Com relação às atividades propostas de educação física, as crianças se colocaram muito favoráveis, com um percentual de aceitação em torno de 100%. Quando questionadas em relação ao porquê desta aceitação, algumas colocaram, recorrentemente, que, antes do “Projeto” “ficava muito na sala” (A., 9 anos) ou que agora “não fica na sala o dia todo” (M., 10 anos). Com relação à importância e às atividades desenvolvidas, o brincar foi amplamente salientado, como pode ser evidenciado em algumas falas: “A educação física é importante porque tem brincadeiras para brincar” (M.F., 9 anos), “é brincadeira de brincar” (P., 9 anos), “é uma hora alegre” (T., 10 anos), “é importante porque a gente brinca” (S., 7 anos). Uma criança ressaltou que “ajuda nosso corpo” (T., 11 anos) e outra “porque a gente pratica esportes” (l., 10 anos) e ainda outra colocou que “é bom para o desenvolvimento” (M., 10 anos).

Quando indagadas sobre o que aprenderam a partir da participação nas aulas de educação física e se algo mudou em suas vidas, muitas mantiveram-se ligadas à questão do brincar, respondendo que aprenderam “a brincar” (M., 8 anos; P., 9 anos; S., 7 anos; M., 9 anos; J.L., 8 anos; M.F., 7 anos; R.L., 7 anos, por exemplo).

Sobre as mudanças por eles mesmos observadas, podem ser destacadas ainda questões relativas ao próprio brincar (“não brincava e agora brinco” – M, 9 anos/ “brinca em casa com as brincadeiras do Projeto” – R.L.,7 anos/ “mudou a vida porque brinca mais” - M., 8 anos), mas também mudanças de atitudes e comportamentos. “Aprendi muita coisa: brincar, estudar, obedecer as tias, não brigar com os colegas” (J.L., 8 anos). “Mudou, era teimosa, abusada, batia nas colegas. Aprendi a respeitar os outros, não bater , não ligar para xingamentos, não xingar os outros, não se meter em conversa, brincar, respeitar a mãe, não ser abusada” (A.B., 7 anos). “Não fazer bagunça, jogar bola sem brigar, pular corda em fila” (R.L, 7 anos). “Ser amigo” (M., 10 anos). Mudou “o meu respeito” (D., 10 anos). “Me sinto mais feliz” (N., 9 anos). “Eu estou alegre”(T., 10 anos).

Através do “Projeto Sou Feliz...ensino educação física” as crianças do INPAR vêm realizando atividades que propiciam um desenvolvimento global através do movimento, da ação, da experiência e da criatividade, beneficiando, de forma indireta, outras áreas do conhecimento ou mesmo relacionamento. As mudanças de comportamento durante o período observado referem-se especialmente a questões cognitivas e de relacionamento aluno-aluno e aluno- professores/ dirigentes da Instituição. Alguns pais já se posicionaram e coadunam este resultado.

Assim, os objetivos do Projeto vem sendo plenamente atingidos, incluindo as referidas mudanças observadas nas crianças. É importante desenvolver senso de respeito ao próximo, além de motivar a criança a praticar esportes e ter contato com a natureza, despertar a criatividade e a coordenação motora, e ainda desenvolver sua personalidade aumentando seu senso crítico e sua autonomia. Assim, a Educação Física possui local de destaque para a formação do futuro cidadão, destacando um trabalho que desenvolva não só o aspecto físico, mas também a dimensão sócio-educativa.

Uma educação física escolar comprometida com a questão social da educação se dá através de atividades específicas que possibilitam ao aluno a tomada de consciência de seu corpo nas diversas dimensões: culturais, sociais, políticas e biopsicológicas.

Faz-se necessária, para viabilizar a continuidade deste Projeto, a maior participação da comunidade acadêmica e de outras instâncias com o intuito de permitir sempre a ampliação do número de crianças atendidas, mas também a participação de maior número possível de estudantes de Graduação, como embasamento para suas futuras vidas profissionais, bem como maiores possibilidades no tocante a aquisição de novos comportamentos por parte dos atores e integração entre diferentes áreas do conhecimento (música, artes, educação ambiental, educação em saúde, por exemplo).

Os autores: Tonia Costa, Professora Assistente IV - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luciana Bernardes Vieira de Rezende, Giselle Kicia de Almeida, Marcos Jorge Ulberg Pereira, Juliana Ferreira Barral, Diogo Hersen Monteiro são graduandos de licenciatura em Educação Física– EEFD/ UFRJ; Flávia Palhaes Vidal é graduanda de licenciatura em Educação Física na Universidade Castelo Branco

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