Anais VII encontro fluminense de educaçÃo física escolar VII enfefe dificuldades e Possibilidades da Educação Física Escolar no Atual Momento Histórico



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Referências bibliográficas

Berger, K.S. O desenvolvimento da pessoa da infância à terceira idade. 5ª ed., Rio de Janeiro, LTC, 2003.

Costa, T. et.al. “Projeto Sou feliz...ensino educação física”. I simpósio em educação Física – EEFD/ Universidade Federal do Rio de Janeiro. Abril, 2003. Anais.

Darido, S.C. Educação física na escola – questões e reflexões. Rio de Janeiro, Gunabara Koogan, 2003.

Oliveira, V.B. de (org.) O brincar e a criança do nascimento aos seis anos. 4ª ed., Petrópolis, Vozes, 2002.

A EDUCAÇÃO FÍSICA NAS ESCOLAS TÉCNICAS:

ANALISANDO A PROPOSTA DOS CETEPS

Bruno Lima Patrício dos Santos

Dauana da Cunha Pessoa

Resumo: O trabalho é proveniente de um estudo situado na proposta de educação física escolar das escolas técnicas de ensino médio, em especial a que vem sendo desenvolvida pelos CETEPs (Centro de ensino Técnico e Profissionalizante) do Rio de Janeiro, tendo como campo de privilegiado das observações o CETEP Quintino. Sendo este o campo da investigação, buscaremos apresentar um breve histórico da educação física em torno de algumas discussões que perpassam o contexto escolar para nos servirem enquanto referenciais na tentativa de analisar alguns dos pressupostos que fundamentam o seu papel na escola, considerando os objetivos traçados pela instituição (CETEP) no respaldo às atividades da disciplina Educação Física e o modo como ela se assenta no cotidiano entre professores e alunos.

Nas últimas décadas tem-se discutido abertamente sobre o papel da educação física no âmbito escolar. Muitas discussões se tornaram pioneiras neste sentido, questionando algumas concepções que fundamentavam leis e decretos bem como a prática cotidiana de professores de Educação Física. Isso de deve ao fato de que a educação física, durante muito tempo, ficou subordinada a uma visão estritamente biológica (ou ainda pode está?) , cujo objetivo encontrava-se na melhoria da aptidão física e da performance técnica do movimento, assim automaticamente contribuiria para o desenvolvimento social do ser, estando mais apto para servir aos interesses da sociedade capitalista, principalmente através da sua força de trabalho ( Bracht, 1992, p.57).

Estas concepções pareciam atender a esse modelo de sociedade, vinculado à capacidade produtiva, interessado em formar indivíduos fortes, habilidosos e saudáveis, fazendo-se necessário estabelecer tais qualidades como um padrão a ser construído e cultivado. Logo, na escola, considerado lugar privilegiado da educação, a educação física tendo por atividades básicas o esporte, a recreação, a ginástica etc, passa a seguir estes parâmetros através da exigência do alto rendimento e da técnica, ofuscando as individualidades e as desigualdades sociais, sendo transformadas segundo Adam, apud Moreira (1991, p.174) em mercadorias destinadas à manutenção dos interesses das elites.

Na perspectiva de uma compreensão geral da Educação Física no Brasil, é interessante destacar algumas tendências, não sendo tomadas como estanques, que marcam momentos históricos retratando sob diferentes paradigmas o papel da educação física, trazendo em seu bojo concepções corporais e valores ideológicos, notadamente, dirigidos pela necessidade do pensamento dominante em determinada época. Tais tendências são identificadas, de acordo com Júnior (1997, pg. 16), em: “Educação Física Higienista (até 1930); Educação Física Militarista (1930-1945); Educação Física Pedagogicista (1945-1964); Educação Física Competivista (pós 1964) e (...) Educação Física Popular”.

Tendo visto este breve contexto histórico, determinados aspectos que foram mencionadas serviram enquanto crítica para alguns autores questionarem o modo como a educação física foi concebida em diversas instâncias sociais, em especial na escola, não obstante conduzida para a elaboração de valores e comportamentos que restringem as possibilidades de experimentação, de espontaneidade, de liberdade, em função da reprodução de modelos e estereótipos. Outro aspecto a ser considerado e o fato de desconsidera os aspectos da vida cotidiana em sociedade (as desigualdades, injustiças, problemas que afligem a população e, não obstante, a educação) bem como aspectos culturais, políticos e econômicos na ação pedagógica (Medina, 1983, p.82).

A partir dessas referências históricas, pretendemos abordar neste trabalho uma análise da identificação da proposta de educação física escolar dos CETEPs (Centro de Educação Tecnológica e Profissionalizante) que compõem a rede FAETEC de ensino (Fundação de Amparo às Escolas Técnicas), no Rio de Janeiro, enfatizando os objetivos traçados para esta disciplina e tal como ela se estrutura na prática cotidiana entre professores e alunos. Pautando-se em observações sistemáticas das aulas de Educação Física e do projeto para essa disciplina nas instituições. Porém, dadas as condições favoráveis de acessibilidade temos como base para o estudo o CETEP Quintino.

Os CETEPs são instituições de ensino médio que tem por objetivo a formação de técnicos especializados para o mercado de trabalho. No âmbito desta realidade institucional, buscamos observar como vem sendo tratada a educação física escolar, ou seja, para quais atitudes, comportamentos e valores ela está sendo direcionada? Já que, a priori, de acordo com o exposto na Minuta (documento cedido pala própria instituição) este tem como objetivos gerais e específicos, respectivamente:

Aquisição e capacidade de habilidades motoras, compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores (...), o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em assenta a vida social (...) ;



Possibilitar o desenvolvimento das condições orgânicas (...), proporcionar apática de atividades físicas respeitando o princípio da especificidade e da adequação à individualidade biológica, favorecer as atividades físicas específicas que melhor se adaptem ao desenvolvimento de estado saudável, e que possibilitem a integração social ;”(pg. 4).

Baseando-se nos objetivos acima transcritos, os CETEPs nos parecem utilizar de muitos recursos para alcançá-los. Possuindo uma infra-estrutura favorável, adequada a realização de várias modalidades esportivas, entre elas artes marciais, Dança, Natação etc. Para cada uma das modalidades possui um professor (especializado) destinado a ministrar aulas de apenas uma delas. Assim, mesmo que ele seja formado em Educação Física e apto a trabalhar com outras possibilidades (além de esportes e outras atividades) ele fica restrito a “sua modalidade”.

Apesar de tantas modalidades oferecidas, os alunos só podem escolher uma como prática da Educação Física. Podendo transferir-se de modalidade após um ano letivo. Assim, percebeu-se que eles tendem a escolha daquelas que mais se afeiçoam, às vezes pelo fato de que já a pratica fora da escola. Nesse caso, os alunos reconhecem o professor pela modalidade específica, sendo transmitida a idéia de uma identificação profissional muito mais próxima da figura de um treinador. De modo geral, reforçando aos alunos a compreensão da educação física enquanto disciplina voltada ao aperfeiçoamento, à performance e à especialização.

Essa proposta, segundo seus idealizadores, vem acarretando a diminuição do desinteresse por parte dos alunos, que até então se sentiam desestimulados a participar das aulas em função da preferência por algum esporte, ou senão uma prática esportiva. Apesar disso, parece continuar havendo as aulas de educação física comum, voltada para o ensino de diferentes atividades, enquanto outra opção. Porém, a adesão é muito menor se compararmos com a anterior. Tão logo, os alunos dispõem de algumas opções que norteiam as suas escolhas, levando em consideração o interesse próprio adquirido anteriormente à escola, quando não, raras vezes despertado pela educação física escolar.

Para que ele de fato comece na modalidade escolhida é necessário o preenchimento de uma “ficha de anamnese” coletando informações de sua individualidade biológica, como por exemplo: possíveis problemas de saúde apresentados e outras informações que pretendem aferir o estado de saúde e seu condicionamento físico. Tal ficha caracteriza-se num importante documento de identificação do aluno para o professor de educação física, como medida de cuidados, que dependendo das informações apresentadas, podem comprometer a participação do aluno durante as aulas.

Estando apto a fazer as aulas, os alunos são observados de acordo com o seu desempenho técnico e sua participação. Os mais habilidosos na execução dos movimentos mecânicos esperados, geralmente, são convidados pelo professor para que o auxilie na tarefa de ajudar os companheiros menos habilidosos. Além disso, estes são os mais indicados a compor a equipe de atletas que representará sua entidade (CETEP), mediante eventuais competições e dos JETES (Jogos das Escolas Técnicas), o qual acontece anualmente. Vislumbrando o propósito da formação de atletas no campo da disciplina escolar, nesse particular, em pleno acordo com o que é dito na Minuta: “festivais esportivos que permitam aos alunos, participar de elaborações, como também atuar na posição de atleta” (pg.7).

Tendo em vista o contexto desta investigação, podemos observar que algumas concepções e discussões que são pertinentes ao histórico da educação física encontram-se não superadas, mas presentes e difusas na cotidianidade da relação ensino-aprendizagem (professor e aluno) consentida pela própria escola. Desde o princípio, dos objetivos traçados para esta enquanto disciplina, explícitos na Minuta, de certo modo, são contraditos pela realidade concreta das aulas de educação física senão também pela estrutura tal qual ela foi implementada (valorizando as particularidades em detrimento do todo).

Considerando alguns dos aspectos levantados sobre esta proposta, procuramos identificar se há a valorização da especificidade técnica e do componente “biológico” para estruturação das aulas de Educação Física e possíveis comprometimentos de outras dimensões que pleiteiam as formações integrais, culturais e críticas do alunado, sob pena de ficarem somente no discurso, e na prática, anulados em função da preocupação constante com a elaboração técnica e formal de gestos mecânicos específicos. O que pode, no ambiente escolar, promover a criação de um espaço fecundo ao cultivo do “ser-atleta”, desprezando outras dimensões que contribuem também para a formação da vida humana em sua plenitude.

Levando em conta essa discussão, na busca de significados e sentidos mais profundos para a ação educativa na escola, com a prática esportiva e demais atividades da educação física, faz-se necessário estarmos atentos aos valores e interesses que estão determinados/determinantes em nossa sociedade. Que de algum modo influenciam o projeto de professores e alunos, implicando no contexto político da educação. Sendo tarefa primordial questionar “o para que, o por que e o para quem se dirige à educação”, a fim de nos aproximarmos sensivelmente da questão que perpassa a realidade do corpo como um todo, incorporando o resultado destas reflexões no agir diário (Medina, 1983, pg. 32).

Os autores, Bruno Lima Patrício dos Santos e Dauana da Cunha Pessoa são da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro



Referências bibliográficas

BARBOSA, Cláudio L de Alvarenga. Educação Física; as representações sociais. Rio de Janeiro: shape, 2001.

BRACHT, Valter. Educação Física; aprendizagem social. 2ª ed. Rio Grande do Sul: Magister, 1992.

COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992.

FERREIRA, Vera L. C. Prática da Educação Física no 1º grau; modelo de reprodução ou perspectiva de transformação?. São Paulo, Ibisa, 1984.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 25ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1983.

JÚNIOR, Paulo G. Educação Física Progressista; a pedagogia crítico-social dos conteúdos e a educação física Brasileira. 6ª Ed. São Paulo: Loyola, 1997.

LAKATOS, E. M. e MARCONI, M. A. Fundamentos de Metodologia Científica. 3ª Ed. São Paulo: Atlas, 1991.

MEDINA, João Paulo. A Educação Física Cuida do Corpo... e “Mente”. São Paulo: Papirus, 1983.

MOREIRA, Wagner Wey. Educação Física Escolar; abordagem fenomenológica. Campinas, Unicamp, 1991.

OLIVEIRA, V. M. Educação Física Humanista. Rio de Janeiro: Ao livro Técnico, 1985.

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A EDUCAÇÃO FÍSICA NO COLÉGIO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO

Ana Flávia Souza Sofiste



Resumo: Trata em investigar a esfera da prática pedagógica do professor, tentando compreender como as políticas educacionais, inseridas no projeto político-pedagógico, foram apropriadas e desenvolvidas pelos professores de Educação Física do Colégio Estadual do Espírito Santo em suas ações pedagógicas.O objetivo geral deste estudo é identificar os principais fatores de diálogo entre o projeto político-pedagógico do Colégio e a prática pedagógica dos professores. Os objetivos específicos são: a) pesquisar a relação do conteúdo das aulas de Educação Física com o projeto político-pedagógico do colégio; b) analisar a visão dos professores de Educação Física acerca da interpretação do projeto político-pedagógico em suas aulas; c) focalizar o processo de seleção e desenvolvimento dos conteúdos escolares na prática pedagógica dos professores de Educação Física. Em termos metodológicos será realizado uma análise qualitativa do objeto e o método empregado será o estudo de caso. Serão necessários analisar os documentos oficiais do colégio (projeto político-pedagógico) e a prática pedagógica dos professores por meio de pesquisa documental e entrevistas semi-estruturadas. Para isso foram delimitados para as coletas de dados: a)os documentos do colégio, entrevistas semi-estruturada com o pedagogo, os coordenares e o diretor, análise do projeto político-pedagógico do ano de 2002, entrevistas semi-estruturas com quatro professores de Educação Física, análise dos registros de pautas e planos de trabalhos pedagógicos e observação dos encontros pedagógicos com a disciplina. Para a construção da narrativa, trabalharemos com o aporte teórico de Certeau (1994), Forquin (1992), Vago (2000), Chervel (1990) e Nóvoa (1997). Este estudo tem a pretensão de compreender as relações internas que se estabelecem no Colégio Estadual do espírito Santo.

Introdução

Nos anos de 2001 e 2002, foi realizada a pesquisa “Itinerários da Educação Física na escola: um estudo de caso do Colégio Estadual do Espírito Santo” (BRACHT et al., 2002) com o apoio do CNPq, da qual participamos como bolsista. Tal pesquisa pretendeu resgatar o percurso da disciplina Educação Física nas décadas de 1970, 1980 e 1990, no Colégio Estadual do Espírito Santo, com a intenção de analisar determinações macro e micro, destacando os discursos e as práticas utilizadas para justificar-se como disciplina curricular no colégio.

Nesse sentido, foi realizada uma revisão no contexto histórico-político da legislação normatizadora da Educação Física, no período de 1970 a 2000, para, em seguida, analisar como essa legislação se apresentou no Colégio, de acordo com depoimentos de ex-professores, ex-alunos, ex-diretor, supervisora, coordenadora, e também por meio de consultas nos registros de pautas e planos de trabalhos pedagógicos. Para a construção da narrativa teórica apropriamo-nos, dentre outros, do referencial teórico constituído pela tradição dos estudos da história das disciplinas escolares (CHERVEL, 1990; GOODSON, 1992; SANTOS, 1992).

Os resultados encontrados trouxeram algumas possibilidades de interpretação acerca de como o Colégio Estadual se apropriou das políticas educacionais nos períodos de 1970 a 2000, estabelecidas para a disciplina curricular Educação Física, e, também, trouxeram possibilidades de novos questionamentos sobre o contexto microestrutural do Colégio. A questão parte agora para a esfera da prática pedagógica do professor, tentando compreender como essas políticas, inseridas no projeto político-pedagógico do Colégio, foram apropriadas e desenvolvidas pelos professores de Educação Física nas suas ações pedagógicas.

O objetivo geral deste novo estudo é identificar os principais fatores de diálogo entre o projeto político-pedagógico do colégio e a prática pedagógica dos professores, tentando verificar o que está proposto pelo colégio e o que está sendo desenvolvido na ação pedagógica dos professores de Educação Física .Dessa forma, será necessário analisar os documentos oficiais do colégio (projeto político-pedagógico, currículo e conteúdo de ensino) e a prática pedagógica dos professores por meio de pesquisa documental e entrevistas semi-estruturadas.

A pesquisa “Itinerários da educação física na escola: estudo de caso do Colégio Estadual do Espírito Santo”

A escolha desse colégio se deve á sua tradição histórica e social. Ele foi fundado em 1906, na cidade de Vitória, Capital do Espírito Santo, como uma instituição pública de responsabilidade do Estado, permanecendo sob essa condição até hoje. O Colégio, na década de 1970, tinha um reconhecido prestígio devido ao ensino de qualidade que ofertava.

A escolha dos anos de 1970, 1980, 1990 e 2000, para a realização desta pesquisa, não foi aleatória. Esses períodos representaram, para a história da educação brasileira e em particular para a Educação Física, importantes rupturas, no tocante ao papel por ela desempenhado. A década de 1970 foi marcada pela ditadura militar que, com suas medidas políticas, afetou a educação e especialmente a Educação Física. Nos anos de 1980, a educação recebe críticas quanto ao papel conservador que o sistema educacional vinha desempenhando na sociedade capitalista brasileira, que também influenciou a Educação Física. A década de 1990 representou, para a Pedagogia Crítica (progressista), o desafio de operar mudanças concretas na política pedagógica no Brasil.

Este recorte sobre o contexto histórico político se faz muito importante, na medida em que tentamos compreender as relações que se estabeleceram entre o macro e o microestrutural de uma instituição educacional pública.

Os resultados desta pesquisa mostraram que, apoiado pela política militar da época, o esporte competitivo implantado nas escolas, que significou para o Governo um veículo de desenvolvimento do País, tornou-se uma prática muito presente no Colégio Estadual do Espírito Santo. A disciplina Educação Física, para o Governo, serviu como suporte legal para a instalação do esporte nas escolas. Naquela época, o esporte refletia respeito e prestígio para o Colégio. Até os anos 1970, o grêmio estudantil do Colégio se incumbia da contratação de professores que atuavam no treinamento esportivo, da distribuição da carga horária e da organização dos campeonatos, sob a orientação, fiscalização, inspeção e normatização do Departamento de Esporte Amador do Espírito Santo (DEARES).

A era do prestígio esportivo no Colégio Estadual deixou marcas profundas e muitas saudades. Segundo a fala dos entrevistados, ficou no imaginário dos professores de Educação Física que a disciplina só tornará a ser realmente reconhecida e valorizada no interior do Colégio se voltar a ter os bons desempenhos esportivos que tinha anteriormente. Isso nos leva a pensar que havia, e talvez ainda haja, uma forte influência do esporte sobre a Educação Física no interior desse Colégio, estabelecendo relações de cooperação e subordinação. Os campeonatos esportivos serviam para a Educação Física “[...] estar mostrando o seu valor, seu trabalho. Foi uma forma por ela encontrada para se legitimar no interior da instituição como disciplina fundamental para a educação do homem” (BRACHT et al., 2002, p. 70).

Assim o que os professores buscam agora é a volta dos campeonatos esportivos internos e a participação dos alunos em campeonatos externos que, nos anos 1980, deixaram de acontecer, eles acreditam que o esporte traz para a Educação Física e para o Colégio valorização perante a comunidade e, conseqüentemente, a volta do ensino de qualidade.

A pesquisa “O projeto político-pedagógico e a ação dos professores de educação física no Colégio Estadual do Espírito Santo”

Os resultados encontrados na pesquisa anteriormente citada trouxeram novas possibilidades de investigação acerca do universo microestrutural do Colégio Estadual. O nosso interesse parte agora para questionamentos sobre como os professores da disciplina Educação Física se apropriaram dessas determinações macrossociais, analisando de perto as suas ações pedagógicas acerca da interpretação que tiveram do projeto político-pedagógico instituído no colégio. Dessa forma, as nossas questões de estudo se contextualizam no cenário micro do colégio, pesquisando a relação do projeto político-pedagógico com elementos da cultura escolar relacionados com o trato do conteúdo nas aulas de Educação Física, trazendo à cena o cotidiano da ação pedagógica.

Assim, surge como problemática: quais as relações que se estabelecem entre o projeto político-pedagógico e a ação pedagógica dos professores de Educação Física do Colégio Estadual do Espírito Santo? Para investigar a organização escolar e a ação docente no percurso da disciplina Educação Física no Colégio Estadual, traçamos os seguintes objetivos: a) pesquisar a relação do conteúdo das aulas de Educação Física com o projeto político-pedagógico do colégio; b) analisar a visão dos professores de Educação Física acerca da interpretação do projeto político-pedagógico em suas aulas; c) focalizar o processo de seleção e desenvolvimento dos conteúdos escolares na prática pedagógica dos professores de Educação Física.

Para a construção da narrativa, trabalharemos com o aporte teórico de Certeau (1994), Forquin (1992), Vago (2000), Chervel (1990) e Nóvoa (1997). Esses autores compreendem o cotidiano como um modo de fazer e criar conhecimento e esse conhecimento se soma com outros elementos da cultura que serão transmitidos na escola e juntos vão construir uma cultura escolar, na qual interfere nos meios e modos de transmissão dos conteúdos escolares.

Seguindo essa interpretação, pode-se afirmar que cada escola, apesar de ser regida por uma mesma política educacional, apresenta uma cultura própria, porque cada realidade escolar está composta por um tipo de ação do professor, pelos meios e métodos, de como o conhecimento é transmitido para o aluno seguindo as exigências dadas no currículo e ao tipo de conhecimento que vai ser transmitido. Vago (2000) também interpreta a escola como um instrumento social de produção/reprodução da cultura que acontece nos seus tempos e espaços e a cultura escolar produzida no seu interior penetra, molda e modifica a cultura da sociedade global.

Em termos metodológicos, será realizada uma análise qualitativa do objeto e o método de pesquisa será o estudo de caso. A escolha desse método ocorreu por entendermos que esse é o que melhor contempla o estudo de uma realidade específica com suas particularidades para, enfim, compreender a representação do objeto dentro de um contexto maior. Foram delimitados para as coletas de dados: a)os documentos do colégio, entrevistas semi-estruturada com o pedagogo e os coordenares, análise do projeto político-pedagógico do ano de 2002, entrevistas semi-estruturas com quatro professores de Educação Física, análise dos registros de pautas e planos de trabalhos pedagógicos e observação dos encontros pedagógicos com a disciplina.

Alguns dados, que também serão utilizados para a elaboração deste estudo, já foram coletados na pesquisa “Itinerários da Educação Física na escola: um estudo de caso do Colégio Estadual do Espírito Santo (1970-2000)” (BRACHT et al., 2002), que são entrevistas com três ex-professores de Educação Física e dois coordenadores do colégio e análise de documentos, como planos pedagógicos dos anos de 1999 e 2000.

A autora, Ana Flávia Souza Sofiste é do LESEF/CEFD da Universidade Federal do Espírito Santo


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