Analisando as Histórias Populares Valdemar Ferreira de Carvalho Neto Terceiro resumo



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Analisando as Histórias Populares

Valdemar Ferreira de Carvalho Neto Terceiro*



RESUMO

O presente trabalho aprecia a concepção de mito e lenda. Aqui se define a diferença entre ambas as manifestações culturais. Este estudo viabiliza a analisa de cada aspecto do que é mito e o que é lenda, baseado nos estudos feitos em sala de aula e em pesquisas relacionadas com o tema. Além disso, este estudo faz uma apreciação sobre as lendas populares e sua relação com a crença e acolhimento de lendas vindouras de outras culturas. Logo em seguida, tem-se o estudo baseado em lendas coletadas no interior do Ceará, mais precisamente na cidade de Ipu (ver anexo), para assim exemplificar o estudo com relação ao o que é mito e lenda e a expressão que ambos exercem na literatura e outra formas de artes.


Palavras-Chave: Mito, Lendas, Imaginário, Cultura, Crença Popular, Literatura.
ABSTRACT

This paper discusses the design of myth and legend. Here it defines the difference between the two cultural events. This study examines the ability of every aspect of what is myth and what is legend, based on studies in the classroom and in research related to the theme. Moreover, this study makes an assessment of the popular legends and its relation to belief and host of legends from other cultures. Soon after, the study has been based on tales collected in the interior of Ceará, specifically in the city of Ipu (see Annex), and thus illustrate the study with respect to what is myth and legend that both exercise and expression in literature and other forms of arts.

  Keywords: Myth, Legends, Imaginary, Culture, Belief People's, Literature.

*Estudante do 2º Período do curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA de Sobral e escritor, contatos no e-mail: valdemarneto_ipu@hotmail.com.

Não há nada mais fascinante do que as histórias populares. Além de serem simples e de grande contexto histórico, tais histórias remetem a um tempo onde o imaginário popular era comparável à crença antiga das forças divinas exercidas na natureza. As lendas populares procuram não só remeter aos valores históricos, como também se auxiliam do poder de percepção: o ouvinte percebe a imagem, a mensagem, ou seja, aquilo para onde a história transporta; não só no tempo, mas na mente. Aliás, tempo e espaço se confundem nesse espetáculo lendário que as histórias populares transmitem. O contexto histórico sofre mudanças, mas a mensagem ali expressa ecoa pelos anos. Sendo que, tudo o que é dito e re-dito, faz parte de uma linha de tempo. No meio dessa linha, de certo, haverá transfigurações, mas estas não serão suficientes para corromper a mensagem intrínseca. Como o mito passou de boca-a-boca, as histórias populares vão pelo mesmo caminho, não demonstrando como o mundo foi criado ou por que existe dia e noite, mas como uma forma de expandir o poder da imaginação, e o que é imaginário se torna parte da convivência do ser.
Mitos e Lendas
Antes de se analisar como se compõem as histórias populares, faça-se um breve resumo sobre o que é mito e lenda. Na idade antiga, para se chegar a uma explicação sobre determinada manifestação da natureza, o teóricos apelavam para o divino. A vontade dos deuses estava acima dos homens e é aqui onde o mito se insere. Toda cultura tem seu mito, sua designação para aquilo que é inexplicável pelos experimentos humanos. O mito nada mais é do que uma manifestação que causa espanto no ser humano, segundo a concepção de Daniela Xisto (2002/ pág. 88).
Os mitos são a concepção e a resposta humana aos acontecimentos da totalidade da manifestação, são o modo originário de os homens lidarem com o espanto, de compreenderem sua existência em meio à epifania do cosmo e de explicarem a gênese, o ordenamento e a destinação de cada elemento constitutivo da realidade.

Nessa linha de explicação, nota-se que o mito é argumentação dos acontecimentos que o homem testemunha. É uma reflexão sobre aquilo que é desconhecido. E diante de um mundo de várias culturas, há espaço para inúmeros mitos sobre diversos elementos intrínsecos à natureza humana e ao próprio planeta. O mito se diferencia por ser a retratação da admiração do homem às coisas que ele não consegue explicar. Além disso, o mito, que era praticamente oral, dizia muito sobre um povo.


É a forma mais antiga de literatura, frequentemente uma literatura oral. O mito dizia aos povos antigos quem eles eram e qual a maneira correta de viver. O mito era, e ainda é, a base da moralidade, dos governos e da identidade nacional. (CORDEIRO, 2006, pág. 05)

Pode-se dizer, então, que o mito é uma forma de como explicar a origem de uma sociedade. Um modo de explicar de onde vêem as crenças, a tradição de um povo.

Enquanto os mitos retrataram a manifestação do divino, as lendas se utilizam do mesmo argumento para se explicarem, mas não colocando em cheque o universo. Lendas são tradições populares ou histórias fabulosas sobre fatos históricos ou característicos de algumas sociedades. Afinal, todo lugar tem sua história, como as que estão retratadas neste trabalho (ver anexo). As lendas se apegam ao popular e não tentam explicar as coisas mais complexas como origem do universo, cosmos e entre outras. Lendas são fundadas naquilo que é fantástico ou folclórico. Não existem lendas que não tenham se apegado a um fato cultural ou social de determinada região. Elas podem ser bem definidas como as famosas histórias populares. Estas histórias estão inseridas em sociedades que tem grande afinidade com a própria cultura. Nestes contos populares entram tipos sociais e a partir deles as lendas se formam, os casos dizem a respeito daqueles que vivem naquele meio social e podem atingir qualquer grau de fantasioso.

Assim sendo, os mitos são a totalidade, são as histórias passadas de geração em geração sobre como são as coisas. A tentativa de explicar como o mundo teve sua origem e como funcionam as coisas do universo. Já as lendas entram no conjunto do imaginário popular, são histórias do povo sobre os mais diversos tipos sociais e sobre a sociedade em geral. Ambos os conceitos se encaixam em inúmeras manifestações de arte, incluindo a literatura, sendo esta a que mantém maior difusão de tais conceitos.



As lendas populares: a manifestação da cultura de um povo
Levando o foco deste estudo para a concepção de histórias populares, esta pesquisa se baseia em histórias orais da população do interior do Ceará (ver anexo). Pelo contexto histórico, nota-se que esta região é de grande efervescência cultural quando o assunto é lenda popular. Muitos livros foram escritos com base em histórias que povo conta, além de poesias e cordéis. As histórias populares invadem e transcendem o imaginário dos escritores de todas as regiões do país. Uma época em especial serviu de palco para a expansão das lendas populares: o regionalismo. Apesar de ter havido alguns escritores que já tivesse dado ênfase as lendas nacionais, por exemplo, Monteiro Lobato, o regionalismo colocou a vista que há mais lendas do que se podia imaginar. A população usava de toda a cultura presente para espalhar suas crenças e lendas.

Então, o regionalismo mostrou que as lendas populares não estão apenas centradas em indivíduos imaginários, mas também em crenças do meio cultural. Aqui no Brasil, país de maioria católica, as histórias populares adicionam conceitos dogmáticos desta religião. O povo coloca muito da sua crença nas histórias populares ou lendas e isso foi gradativamente enriquecido pelas culturas que aqui se homogeneizaram como a cultura africana e a indígena. Em outras palavras, muitas vezes tantas lendas, histórias e contos populares se aglutinam e se confundem devido às muitas influências vindas de outras culturas. A religião entra como um elemento de grande relevância que assume o papel central das lendas populares. Em muitas lendas, vê-se a utilização de animais que representam o bem ou mal (ver anexo), há também o uso de indivíduos santificados e isso parte para o lado da crença como exemplo a lenda do “Menino Vaqueiro” (também conhecido como “Negrinho do Pastoreio”) indivíduo que quando vivo, era bom em encontrar reses perdidas, e acredita-se que em espírito ele ainda seja bom para encontrar coisas perdidas. Porém, enfatizando as histórias que levam em conta animais, o imaginário popular vai longe. É o caso do lobisomem ou da cobra, por exemplo, esta última eternamente estigmatizada por causa da Bíblia, onde ela aparece como uma tentadora dos homens e é de papel relevante nas histórias orais coletadas para a confecção deste artigo (ver anexo).

Portanto, as lendas ou histórias orais populares fluem na cultura. Elas são a prova de que as tradições de um povo ainda vivem. Hoje em dia, podemos ainda ouvir as histórias que o povo conta apesar do advento da modernidade, muitos lugares ainda guardam suas memórias como a cidade de Ipu, onde as histórias que servem de base para este artigo foram encontradas. Estas histórias enfatizam bem como o imaginário popular invade o contexto histórico e social da cidade dando mais riqueza às lendas contadas.
As Histórias Orais de Ipu, Ceará.
Como já foi mencionado, as histórias coletadas para esse artigo são procedentes da cidade de Ipu, no interior do Ceará. As histórias (ver anexo) contam a vida desta cidade no fim do século XIX e início do século XX. O contexto onde se inserem é de uma realidade brasileira recém republicana, a identidade brasileira está se esquivando daquela influência européia e, em algumas partes, ainda há escravidão, como relata uma das lendas ipuenses da mulher que vira cobra. Uma vil proprietária de escravos que, depois que morreu, muitos dizem ter visto uma cobra sobre o túmulo. Outra história se refere ao ouro encontrado por um holandês, tal riqueza era protegida por uma cobra de aspecto demoníaco e que acaba devorando o pobre europeu e a riqueza vai parar na mão de outra pessoa. Analisando os pontos sociais e culturais de ambas as histórias, encontram-se algumas exemplificações de como são retratadas a maioria das lendas.

No contexto social, a primeira história se encaixa na época da escravidão, os negros sofriam nas mãos de seus patrões e isso refletia muito na imaginação deste povo com relação a história. Ora, pode-se dizer que a proprietária de escravos era tão ruim quanto uma cobra peçonhenta e, quando morreu, Deus a transformou em uma já que este animal é tido como amaldiçoado. Além do mais, uns escravos cantavam isso depois que proprietária morreu, segundo alguns, eles faziam isso a mando da oposição municipal que era contrária politicamente da mulher que falecera. Então, tal caso poderia ser um exemplo claro de lenda, já que o tempo passou e esta história foi sendo sedimentada, porém, a incerteza de tal fato prevalece e isso é o espírito ou essência das lendas populares. A outra história se encaixa no período em que foi encontrado ouro na cidade, muitos europeus se aventuraram nesta empreitada e alguns acabaram morrendo de causas naturais ou assassinados. O holandês pode ter tido um destes fins, já que a cobiça era grande: morria dentro das minas ou fora delas. A parte do ser demoníaco – que também era uma cobra – diz respeito a uma história dos senhores das minas para que seus empregados não os roubassem. Nas lendas populares tudo se encaixa historicamente.

O que se pode notar é a riqueza de idéias que surgem de ambas as histórias. Estas se manifestam oralmente, mas se diferenciam dos mitos, pois enfatizam o tipo social regional, folclórico e não assumem um papel explicativo como, na maioria das vezes os mitos são. As lendas ou histórias populares orais transportam o indivíduo para um mundo em que o imaginário explica fatos pitorescos e simples, enfatizando a simplicidade que as lendas trazem em si. Isso faz com que elas se afeiçoem a literatura regional ou a literatura mais voltada para o próprio povo. As histórias populares explicam na literatura como um povo se manifesta culturalmente, ou seja, onde sua cultura se alicerça. Em outras palavras: literatura e lendas populares se completam em todas as concepções. O que se pode notar com relação as estas histórias da cidade de Ipu é que há um molde para criações literárias, pois ainda existe um traço regionalista na literatura brasileira que enfatiza estas manifestações folclóricas dos povos interioranos.

Portanto, mitos e lendas são frutos humanos, sendo que o primeiro explica o homem e ajuda até na construção de sua ética e as lendas são traços de histórias populares e orais que contam a vida de uma determinada sociedade. Ambos encaixam na literatura e em outras formas de artes, enfatizando assim sua participação no círculo social.


Conclusão

Contudo, as histórias orais são exemplos claros da manifestação cultural de um povo. São modos de ver aquilo que está no imaginário e propicia uma viagem no tempo e no espaço. Todas as artes podem ser partes fundamentais dessa viagem pelo lendário mundo da imaginação. Seja mito ou lenda, o que vivenciamos nada mais é do que o homem expressando suas crenças, sua linguagem e seu modo de vida. Quando o homem se expressa a natureza ganha vida e é isso que o imaginário concede ao homem: o prazer de criar e conviver com suas criações



BIBLIOGRAFIA
XISTO, Daniela T. Ribeiro. Mito: a fala originária e sempre operante. Leopoldianum: revista de Estudos e Comunicação da Universidade Católica de Santos, Ano 27 de Abril/2002 – nº. 76.
MARTINS, Francisco de Assis. Histórias de meu pai – memórias. Ipu-Ce. Novembro/2007.
CORDEIRO, Tiago. Especial: O Livro das Mitologias. Ed. 231-A. São Paulo: Ed. Abril. 2006.


ANEXO DO ARTIGO

HISTÓRIAS ORAIS IPUENSES

Na cidade de Ipu, como em outras localidades onde o fantástico impera no imaginário popular, não poderia deixar de existir histórias surpreendentes. Algumas eu descrevo aqui, seguindo, fielmente, o que ouvi da boca da população ipuense e de um digno filho e escritor desta terra. Trago duas estórias dentre as muitas que li e ouvi. Cada uma mais fascinante que a outra, mas que, no fundo, apontam para o valor inestimável que é a cultura.




A Cobra do Sítio São Paulo.
Esta aconteceu no interior do município, no ano de 1847. Na cidade de Ipu havia várias fazendas com escravos, dentre elas havia o Sítio São Paulo, que se localizava na Serra da Ibiapaba. Lá vivia uma proprietária de escravos chamada Dona Ana Ferreira Passos que, segundo relatos da época, era severa com os criados. Ela os castigava, açoitava e dava todo o tipo de sorte de flagelos aos pobres africanos. Um dia ela morreu, para felicidade dos escravos. E, o que diz a lenda é que, tempos mais tarde, sobre o túmulo da megera, aparecia uma cobra. No imaginário popular, esta era a reencarnação de Dona Ana. Para os escravos isso foi até tratado com ironia, ganhado versão cantada por um negro poeta chamado Lourenço, que segundo as más línguas, era um protegido de uma família rival que era pago para falar mal da megera e de seus familiares. Bem, independente de rivalidade familiar ou não, a história foi passando de boca em boca e hoje se tornou uma lenda ipuense: “a lenda da mulher que virou cobra.”.


O Ouro do Holandês
Outra história que os mais velhos contam, remonta à construção da Igrejinha, marco inicial da fundação de Ipu. Dizem que um holandês enterrou na divisa entre a praça e a igreja um imenso tesouro, deixando-o sob os cuidados do padroeiro da cidade São Sebastião. Tal tesouro foi conquistado por ele depois de ter enfrentado uma terrível besta ou, nas palavras dos antigos, uma cobra de olhos de fogo que guardava tal riqueza nas redondezas da cidade. Ele descobriu como não despertar o monstro e subtraiu o ouro que havia na caverna. Como a ganância falava mais alto, ele não se contentou com aquilo e foi buscar, sendo que nesta última empreitada o bicho devorou o holandês. Tempos mais tarde, um habitante da cidade chamado José Alecrim encontrou o tesouro enterrado nas proximidades da Igrejinha e ficou rico da noite pro dia. Mas isso não o livrou do julgamento popular, sendo que quando ele passava nas ruas da cidade, as pessoas lhe davam as costas por achar que ele roubou o tesouro de São Sebastião que era visto como o verdadeiro guardião da riqueza.


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