Analisando os Impactos Sócioambientais Resultantes do Uso de Agrotóxicos num Assentamento de Reforma Agrária



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III Encontro da ANPPAS

23 a 26 de maio de 2006 - Brasília-DF


Analisando os Impactos Sócioambientais Resultantes do Uso de Agrotóxicos num Assentamento de Reforma Agrária
Silvia Lima de Aquino1, Marcos A. Pedlowski1, Maria Cristina Canela2, Isabela Leão Amaral da Silva2.

1Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico, Centro de Ciências do Homem, Universidade Estadual do Norte Fluminense

2Laboratório de Ciências Químicas, Centro de Ciência e Tecnologia, Universidade Estadual do Norte Fluminense
Resumo: A partir da Revolução Verde iniciada na década de 60 do Século XX as atividades agrícolas passaram por uma profunda transformação, que foram causadas também por causa dos avanços conseguidos na indústria química. O amplo uso de agrotóxicos na agricultura aconteceu na maioria dos países do mundo e, conseqüentemente, também atingiu o Brasil, tanto em grandes plantações como em pequenas propriedades familiares. Diferentes estudos têm apresentado evidências de que no interior dos assentamentos de Reforma Agrária, os agricultores estão envolvidos numa crescente utilização de agrotóxicos. Neste sentido, o objetivo do presente estudo foi o de analisar a utilização de agrotóxicos num assentamento de reforma agrária, localizado no Norte Fluminense. Além disso, buscou-se avaliar os possíveis impactos sócioambientais causados pela utilização destes produtos pelos assentados. Os resultados deste estudo demonstram que o paradigma tecnológico difundido pela Revolução Verde se estendeu ao assentamento de Reforma Agrária, o que foi evidenciado pela intensa utilização de agrotóxicos na área de estudo. A ampla difusão de agrotóxicos no assentamento reflete uma ruptura nas formas tradicionais de produção e disseminação de conhecimentos, influenciando as atividades agrícolas desenvolvidas pelos assentados.


Introdução


Durante as últimas décadas o mundo vem passando por diversas inovações tecnológicas, e por causa disto, a maioria dos setores da economia mundial está sofrendo as influências advindas de tais inovações e a agricultura não foi exceção (Chaim, 1999). A agricultura foi atingida especialmente por causa dos avanços conseguidos na indústria química. Estas modificações foram intensificadas em virtude do processo de Globalização econômica ocorrida a partir do inicio da década de 90 do século XX, o que contribuiu para o aumento na disponibilidade de agrotóxicos em regiões onde anteriormente o seu consumo era impossibilitado por uma série de razões econômicas e políticas.

Ainda que a difusão de novas tecnologias agrícolas tenha ocorrido inicialmente em países desenvolvidos, os impactos promovidos por essas inovações também foram sentidos nos chamados países em desenvolvimento, e o Brasil não foi exceção. Em conseqüência das pressões produtivas oriundas do processo de Globalização, os países em desenvolvimento se tornaram altamente dependentes do uso de agrotóxicos em sistemas agrícolas que paulatinamente incorporaram a lógica produtiva disseminada pelos países desenvolvidos. Um fato de extrema importância para a cristalização de tal dependência foi à implementação da chamada Revolução Verde a partir da década de 60. A Revolução Verde era na prática constituída por um grande pacote de insumos, que foi elaborado pelos países desenvolvidos e difundido em todo o mundo. O pacote tecnológico da Revolução Verde era composto de sementes melhoradas, sistemas de irrigação e maquinários modernos, acompanhados da adoção de uma ampla gama de agrotóxicos. O suporte ideológico da Revolução Verde era de que a mesma tinha objetivo central aumentar a produção de alimentos para erradicar a fome que assolava (e assola) diversas regiões do planeta.

No Brasil, a Revolução Verde também foi iniciada na década de 60. No momento inicial da Revolução Verde, o governo brasileiro oferecia aos agricultores interessados em adotar o pacote tecnológico oferecido, um financiamento destinado à compra de sementes. Uma pré-condição para que um agricultor recebesse financiamentos associados à adoção dos princípios da Revolução Verde era o direcionamento de uma parte dos recursos concedidos para a aquisição de adubos e agrotóxicos. De acordo com Fier (1999), essa medida adotada pelo governo federal brasileiro incentivou a prática da monocultura voltada para exportação, e promoveu altos índices de degradação e contaminação ambiental. Neste sentido, Ecobichón (2001) afirma ainda que os objetivos da Revolução da Verde impuseram uma grande diversificação dos agrotóxicos, que acabaram incluindo pesticidas, herbicidas e fungicidas. Atualmente, passadas algumas décadas do inicio da adoção do pacote de insumos promovidos pela Revolução Verde no Brasil, surgiram grandes preocupações relacionadas aos problemas sócio-econômicos e ambientais provocados por este modelo, que gerou um modelo de agricultura calcado na utilização maciça de fertilizantes químicos e agrotóxicos.

Diante desta situação, uma questão de interesse é estimar até que ponto os assentamentos de Reforma Agrária estão inseridos neste contexto de adoção de um processo produtivo calcado na adoção dos princípios da Revolução Verde. Os assentamentos de reforma agrária possuem uma especial relevância nesta análise porque diferentes estudos têm apontado que nestas áreas, as atividades agrícolas estão concentradas na produção de alimentos e que, por isto, possuem um impacto direto no consumo interno. Por outro lado, o estudo da adoção de agrotóxicos por assentados de reforma agrária é importante porque a maioria de seus beneficiários possui um baixo nível educacional, e não costuma receber o devido treinamento para o manuseio de substancias químicas por parte de agências governamentais de extensão rural. Nesta perspectiva, o objetivo do presente estudo foi analisar a utilização de agrotóxicos em um assentamento de Reforma Agrária. Para tanto, o Projeto de Assentamento (PA) Zumbi dos Palmares, localizado no município de Campos dos Goytacazes, foi utilizado como área de estudo. Este estudo visou identificar tanto os possíveis impactos sócio-econômicos como os epidemiológicos causados pelo uso dos agrotóxicos..


O Uso de Agrotóxicos pela Agricultura Contemporânea

Um panorama histórico acerca do desenvolvimento da sociedade humana indica que o mesmo sempre esteve intimamente ligado à obtenção de alimentos, e que, por conseguinte, gerou uma atividade fundamental para a produção alimentar direcionada a população em crescimento, que é hoje denominada de agricultura. O crescimento da população humana alcançou um nível sem precedentes após o advento da Revolução Industrial e, como em outras áreas produtivas, também teve forte impacto sobre a atividade agrícola ao permitir a inserção de implementos, fertilizantes e agrotóxicos na agricultura. Em conseqüência da exigência de uma demanda cada vez maior de alimentos, práticas agrícolas apoiadas na adoção de monoculturas em grandes extensões foram amplamente utilizadas como estratégia para fornecer alimentos para os grandes mercados urbanos. Entretanto, com o passar do tempo, o que ocorreu foi também uma constante e crescente utilização de fertilizantes químicos e agrotóxicos. (Chaim 1999).

No entanto, o uso de agrotóxicos é uma prática que remonta ao Império Romano, onde a fumaça proveniente da queima do enxofre era utilizada para combater insetos que atacavam a lavoura. Já os chineses, no início do século XIX, também utilizavam meios para combater pragas que atacavam as plantações e, para tanto, preparavam uma mistura de água e arsênico. Entretanto, foi somente em 1874 que o composto orgânico conhecido como DDT (Dicloro difenil tricloroetano) foi sintetizado por Othomar Zeidler. Além disso, foi mais precisamente durante a Primeira Guerra Mundial, que os estudos sobre a produção de agrotóxicos tiveram um grande avanço e, já na Segunda Guerra Mundial, os agrotóxicos foram amplamente utilizados, não como ferramenta para o aumento da área em produção, mas como arma química (Fier, 1999).

Após o término da Segunda Guerra Mundial, os agrotóxicos foram definitivamente inseridos na agricultura. Após o conflito armado, os países vitoriosos tinham o objetivo de expandir seus negócios e, para tanto, deram grande ênfase à produção industrial. Uma área que recebeu especial atenção no pós-guerra foi a indústria química, que precisava escoar a matéria-prima que não fora usada durante o conflito. Desta forma, nas décadas seguintes observou-se na agricultura a introdução de um grande número de agrotóxicos, cada vez mais específicos e baseados num entendimento científico acerca dos mecanismos químicos, físicos e biológicos que controlam a existência dos seres vivos. O resultado desta associação entre a indústria química e a produção agrícola foi a difusão de milhares de formulações no mercado internacional, o que culminou na já mencionada Revolução Verde. Assim, em menos de 40 anos, os agrotóxicos transformaram-se em elementos fundamentais para a maioria dos agricultores. (Peres, 1999).


A Utilização de Agrotóxicos e os Possíveis Impactos Causados A Saúde Humana

Segundo o World Resources Institute, a maioria dos agrotóxicos comercializados nos países subdesenvolvidos consiste de organoclorados e carbamatos, e que são conhecidos por sua alta toxicidade (WRI, 1998). De acordo com Waichman et al. (2003), a alta toxidade de tais produtos associada à falta de informações sobre possíveis riscos envolvidos na sua utilização e à carência de informações acerca da maneira correta de aplicá–los tem sido responsável por altos graus de contaminação ambiental, além de causar diversos danos à saúde. O Manual de Vigilância da Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, produzido pela Organização Pan-Americana de Saúde (1996) classifica os problemas à saúde causados pela utilização dos mesmos em três níveis de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. Ainda de acordo com o OPAS, os danos causados por estas intoxicações têm uma alta variabilidade em virtude de fatores como às características fisiológicas do indivíduo exposto, os atributos químicos dos produtos e as condições de exposição. Por isto, a combinação destes fatores dificulta a imediata identificação destes danos como sendo resultado da intoxicação provocada pelo uso de agrotóxicos. Neste sentido, diante da dificuldade de diagnóstico, Reeves et al (1999), ressaltam a dificuldade de se identificar principalmente os efeitos causados pela intoxicação crônica. Isto ocorreria porque os efeitos deste tipo de intoxicação se manifestam através de doenças como câncer, defeitos de nascimento e danos ao sistema nervoso. Tais enfermidades podem se desenvolver após serem passados longos períodos decorridos da exposição aos agrotóxicos, bem como surgir por motivos totalmente distintos.

Além dos impactos diretos causados em virtude da aplicação de agrotóxicos, o uso destes produtos pode contaminar os alimentos obtidos nos sistemas agrícolas onde são aplicados, visto que seus resíduos podem permanecer nos alimentos, causando prejuízos à saúde de seus consumidores. Desta forma, as populações consumidoras de alimentos contaminados por agrotóxicos muitas vezes serão acometidas por doenças. O problema encontra–se novamente no fato de ser muito difícil relacionar a origem de tais doenças à contaminação por agrotóxicos, pois na maioria dos casos o contato é pequeno ou moderado, e os efeitos se expressam através de dores de cabeça, tonturas, mal-estar, que são problemas corriqueiros na vida dos seres humanos. No Brasil, a classificação toxicológica dos agrotóxicos está a cargo do Ministério da Saúde. A Legislação Brasileira determina que todos os produtos classificados como agrotóxicos devem apresentar nos rótulos uma faixa colorida indicativa de sua classe toxicológica. A OPAS também estabelece tal classificação, bem como as doses fatais de agrotóxicos para seres humanos (OPAS, 1996).

Em função do contato contínuo com agrotóxicos, muitos com alta toxidade para a saúde humana, Reeves et al. (1999) ressaltam que o trabalho na agricultura pode ser considerado hoje como uma modalidade de alta periculosidade. Para tanto, Reeves e seus colaboradores argumentam que basta analisar o exemplo dos Estados Unidos, onde a taxa de mortalidade entre os trabalhadores rurais em 1996 foi estimada em 20,9 em cada grupo de 100 mil trabalhadores, enquanto no mesmo período tal taxa nas indústrias não passou de 3,9. Esta situação seria agravada porque muitos agricultores consideram os sintomas provocados pelos agrotóxicos na sua saúde como partes intrínsecas ao seu trabalho.


Os Impactos Ambientais Causados pela Contaminação através de Agrotóxicos

De forma a diminuir os impactos ambientais causados pelos agrotóxicos existe uma preocupação mundial com a caracterização do potencial de periculosidade ambiental dos agrotóxicos, antes que um dado produto possa ser disponibilizado no mercado. No Brasil é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, quem estabelece tal classificação. As tipologias existentes baseiam-se em uma série de parâmetros que incluem: a taxa de bioacumulação, a persistência dos agrotóxicos ou seus componentes no meio ambiente, o tipo de transporte, o nível de toxicidade para diversos organismos, os potenciais mutagênico, teratogênico, carcinogênico. Com base nestes parâmetros os agrotóxicos são divididos em quatro classes: I - produto altamente perigoso; II - produto muito perigoso; III - produto perigoso; e IV - produto pouco perigoso.

Em função do seu potencial de toxidade ambiental, a presença de agrotóxicos no ambiente pode afetar um grande número organismos vivos e não simplesmente as pragas agrícolas. De acordo com Uska (1987), há várias formas de contaminação ambiental por agrotóxicos, mas que podem ser divididas em dois grandes grupos: contaminação direta e contaminação indireta. A contaminação direta resulta da aplicação do agrotóxico para controle de pragas agrícolas e a indireta deriva de outras fontes não resultantes da aplicação direta para o controle de pragas. Alguns exemplos de contaminação indireta incluem o lançamento de resíduos industriais contendo agrotóxicos diretamente nos rios, as partículas de agrotóxicos suspensas após pulverização, o descarte de sobras de agrotóxicos, a lavagem dos aplicadores em córregos, valas e o lançamento de agrotóxicos em esgoto doméstico. Destes dois tipos de contaminação derivam os mais variados problemas ambientais que incluem a poluição do ar, dos solos e das águas.
METODOLOGIA

ÁREA DE ESTUDO


A área de estudo do presente trabalho foi o Projeto de Assentamento (PA) Zumbi dos Palmares que se localiza entre as coordenadas 21o 32’ e 21o 45’ S e 41o 11’ e 41o 16’ W, englobando território dentro dos municípios de Campos dos Goytacazes e São Francisco do Itabapoana (Figura 1).


Figura 1. Localização do Assentamento Zumbi dos Palmares no Município de Campos dos Goytacazes no Estado do Rio de Janeiro.
O Projeto de Assentamento Zumbi dos Palmares foi resultado da ocupação organizada pelo MST em 12 de Abril de 1997 no complexo de terras da Usina São João, que havia entrado em processo falimentar alguns anos antes. A área de aproximadamente 8.500 ha. havia sido usada historicamente para o plantio de cana e para a prática da pecuária. Apesar disto, no interior da área ainda existem fragmentos de Mata Atlântica, bem como um grande número de lagoas, que tem sofrido impactos a partir da ação antrópica, especialmente pela deposição de matéria orgânica de esgotos residenciais in natura, e muito possivelmente pela contaminação por agrotóxicos comumente usados na cultura da cana-de-açúcar e nas diversas práticas agrícolas hoje empreendidas pelos assentados.

A posse de terras ocupadas pelo MST foi transferida para o INCRA em Outubro de 1997, e o órgão começou a cadastrar os futuros assentados em Novembro de 1997, e novas famílias entraram no Zumbi dos Palmares para se juntar às famílias trazidas pelo MST. Dentre as famílias que formaram o contingente inicial de ocupantes estavam membros do Sindicato de Trabalhadores Rurais de São Francisco de Itabapoana que foram incluídos no cadastro de assentados pelo INCRA, como uma forma de contrabalançar (e mesmo opor) a influência do MST sobre os assentados. Um terceiro grupo de ocupantes era formado por ex-trabalhadores da Usina São João (muitos já residindo previamente na área), que foram orientados por seus advogados a se alinharem aos novos ocupantes. Em 1998, por inspiração do MST, a área foi dividida em cinco núcleos, de acordo com a decisão de uma assembléia geral dos assentados para acomodar um número estimado de 504 famílias (FAO/INCRA, 1999).


Métodos e Instrumentos de Coleta de Dados

A coleta de dados para esta pesquisa foi feita através de um questionário projetado especificamente para este estudo. O questionário incluiu as perguntas abertas e fechadas e visava obter informações sobre as características demográficas, socioeconômicas, principais sistemas agrícolas que estão sendo adotados, utilização de equipamentos de proteção por parte dos agricultores assentados, tipos de agrotóxicos utilizados, possíveis evidências dos problemas de saúde causados pela manipulação dos agrotóxicos e problemas ambientais. O questionário foi aplicado em cem famílias entre julho 2003 e janeiro 2004. Os agricultores foram selecionados aleatoriamente, e a amostra foi estratificada espacialmente para incluir assentados de todos cinco núcleos do assentamento. Os dados coletados mediante aplicação do questionário foram tabulados e arquivados num computador. Para permitir uma tabulação consistente e com um mínimo de erros foi elaborado um livro de códigos para as perguntas fechadas. Já as perguntas abertas foram categorizadas, codificadas e depois tabulados. No que se refere ao tratamento estatístico dos dados, no âmbito do presente trabalho foram apenas utilizadas técnicas descritivas.


APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Caracterização demográfica e educacional dos assentados

A primeira parte do questionário utilizado para a coleta de dados do presente trabalho, incluiu um levantamento demográfico da família dos entrevistados. Neste primeiro segmento, as principais variáveis mensuradas foram a faixa etária, sexo e o nível de escolaridade das unidades familiares que participaram do estudo. Estas variáveis são fundamentais para compreendermos como o trabalho dentro lote é organizado, bem como a disponibilidade de mão-de-obra familiar. No caso da utilização de agrotóxicos, estas variáveis apoiarão a explicação de como estes produtos estão sendo assimilados dentro dos sistemas agrícolas praticados pelos assentados. No que se refere à composição etária dos assentados do Zumbi dos Palmares incluídos na amostra, identificamos que a população é composta majoritariamente por pessoas adultas, ainda que o grupo etário com maior número de indivíduos seja o de 0 a 8 anos (Figura 2).

Figura 2. População do P.A. Zumbi dos Palmares, distribuição sexo por faixa etária.


Segundo Andrade e Pierro (2004), nos assentamentos da Reforma Agrária distribuídos pelo Brasil vivem hoje mais de quinhentas mil famílias, que demandam a efetivação do direito constitucional a uma educação básica que atenda suas necessidades para alavancar o desenvolvimento sócio-econômico e cultural das comunidades de modo sustentável. Entretanto, na prática, o nível de escolaridade no campo e, consequentemente, entre os assentados é visivelmente baixo em todo país. No Assentamento Zumbi dos Palmares os dados indicam uma situação semelhante ao cenário nacional, pois mais de 60% dos entrevistados e seus familiares residentes no assentamento cursaram apenas os primeiros anos escolares (Figura 3).




Figura 3. Nível de Escolaridade dos Assentados.

A hipótese derivada da análise destes resultados é a de que a baixa escolaridade contribuirá para o despreparo no manuseio e utilização dos agrotóxicos. Esta inferência se baseia no fato de que na condição de portadores de um nível de educação relativamente baixo, a maioria dos agricultores não compreenderá os símbolos existentes nos rótulos dos produtos que utilizam e, tampouco seguirão corretamente as orientações ali oferecidas acerca das dosagens adequadas que deveriam aplicar. Neste sentido, a relação entre o baixo nível de escolaridade e a falta de preparo para o manuseio e utilização dos agrotóxicos acaba potencializando uma situação de alto risco no que se refere ao uso de substancias de alta toxidade ambiental e para a saúde humana.



Intensidade e Distribuição Espacial da Utilização de Agrotóxicos


No que se refere à utilização de agrotóxicos pelos assentados, o questionário utilizado procurou identificar não apenas os tipos de agrotóxicos utilizados, mas também quaisquer culturas eram aspergidas e os cuidados adotados pelos envolvidos em sua utilização. Os dados coletados permitiram estabelecer que 46% dos agricultores estudados fazem uso dos agrotóxicos em seus sistemas agrícolas. Esta é uma quantia significativa que reflete a intensidade do uso de agrotóxicos no assentamento. Além disso, entre os 54% dos entrevistados que declararam não utilizar agrotóxicos no Zumbi dos Palmares, um número alto declarou que só não faziam uso dos produtos por falta de condições financeiras para adquiri-los, e que pretendiam utilizá-los futuramente, caso acumulassem o capital necessário para este tipo de investimento.

Por outro lado, quando perguntados sobre o porquê da utilização de agrotóxicos, 30 % dos assentados afirmaram que um dos motivos seria o combate as ervas daninhas, o que proporcionaria a diminuição do trabalho com a capina do lote, trabalho este, que despenderia muito tempo e esforço físico. Assim, a solução mais viável, segundo os assentados, seria utilizar uma grande quantidade de herbicidas que, num curto espaço de tempo permitiriam o extermínio de todas as ervas daninhas sem a exigência de um trabalho braçal intenso. Em função desta característica, o uso de agrotóxicos está distribuído em um grande número de culturas (Figura 4).


Figura 4 Destino dos agrotóxicos utilizados no Assentamento Zumbi dos Palmares.


Por outro lado, um fator que contribui para a intensa utilização de agrotóxicos por parte dos assentados é a existência de extensos plantios de abacaxi no assentamento, já que de acordo com os assentados, esta é uma cultura que requer a utilização de agrotóxicos em todas as fases do seu cultivo para que possa ser uma atividade economicamente viável. A relação entre os plantios de abacaxi e o uso de agrotóxicos possibilitou ainda a identificação de lotes onde há aplicação concomitante de diversos produtos. Assim, a utilização de agrotóxicos no Assentamento Zumbi dos Palmares está concentrada entre assentados que residem nos núcleos IV e V do assentamento, cujos sistemas agrícolas incluem extensas áreas de maracujá e abacaxi. A abrangência e variedade de culturas onde os agrotóxicos são utilizados demonstram que estes produtos se tornaram uma peça chave pra viabilizar sistemas agrícolas tradicionalmente marcados pelo baixo uso de tecnologia, o que pode estar relacionada a uma mudança nos mecanismos de geração de renda que regem o trabalho agrícola em pequenas propriedades rurais.
Os Mecanismos de Financiamento e a Mão-de-obra utilizada

No que se refere ao financiamento para a aquisição de agrotóxicos, 89% dos assentados afirmaram ter adquirido os produtos através dos recursos próprios, que foram obtidos com a comercialização de sua produção agrícola, e o restante utilizou recursos obtidos com o financiamento PRONAF. Uma justificativa quase unânime para essa situação entre os assentados é a de que os recursos financeiros obtidos com o PRONAF seriam muito escassos, o que não permitiria seu uso para a aquisição de agrotóxicos. Estes resultados indicam que os conceitos da Revolução Verde realmente estão inseridos entre os beneficiários da reforma agrária, o que é demonstrado pelo fato de que apesar de não contar com o mesmo tipo de apoio governamental das décadas iniciais no que tange ao financiamento voltado para a compra de agrotóxicos, os assentados estão comprando agrotóxicos com recursos próprios. No tocante à mão-de-obra utilizada na aplicação de agrotóxicos, apenas 20 % dos assentados contrata mão-de-obra não-familiar para a tarefa, ao passo que o restante utilizou mão-de-obra familiar para realizar as atividades relacionadas ao manuseio, utilização e descarte de vasilhames. Um fato interessante é que esta alta preponderância de mão-de-obra familiar ocorre num contexto em que a maioria dos usuários reconhece indiretamente que a exposição constante ao produto pode resultar em danos à sua saúde, na medida em que muitos declararam que evitam comer frutos e legumes oriundos dos plantios cultivados com auxílio de agrotóxicos.

Principais tipos, funções e culturas onde agrotóxicos estão sendo utilizados.


Após a identificação dos agrotóxicos encontrados nos assentamentos, os produtos foram classificados quanto sua função, praga a ser combatida e, por último, cultura aspergida. Os resultados demonstram que no que se referem às funções, os produtos utilizados no Zumbi dos Palmares englobam uma ampla gama de tipos, que se destinam a combater ervas daninhas, fungos e insetos (Tabela 1).
Tabela 1 - Agrotóxicos utilizados no assentamento Zumbi dos Palmares e suas funções.

Função




Praga


Produto


Cultura aspergida

Espalhante adesivo

Ervas daninhas

Herbitensil

Abacaxi

Fungicida

Brocas e Fungos

Benlate, Bravic 600, Cercobin, Folicur, Folidol

Folisuper e Orthocide 500



Abacaxi, Abóbora e Cítricos

Herbicida

Ervas daninhas


DMA 806 BR, Gesapax

Glifosato (Roundup), Karmex

Krovar, Padron, Tordon, Velpar


Abacaxi, Cana-de-açúcar,

Cítricos e Pastagem



Inseticida

Brocas, Lagartas, Formigas e Insetos em Geral


Decis 25 CE, Dipterex, Expurgran, Lebaycid

Nor-trin, Tamaron BR, Trigard



Abacaxi, Abóbora, Aipim, Coco, Feijão, Maracujá


Inseticida/Acaricida

Lagartas, Ácaros

Hostation

Cítricos, Milho

Regulador de Crescimento

-

Ethrel

Abacaxi

Por outro lado, como já foi discutido anteriormente, o abacaxi foi a cultura que mais recebeu a aplicação da maior quantidade de tipos de agrotóxicos no P. A Zumbi dos Palmares, o que evidencia não só a dependência existente em relação ao uso de substancias químicas em todas as suas fases, como também que tal cultura é a que os assentados demonstraram estar mais dispostos a investir. Contudo, além da categorização das funções dos agrotóxicos encontrados, separamos os produtos levando em conta sua classificação toxicológica e sua classificação ambiental. No que se refere à classificação toxicológica, dentre os agrotóxicos encontrados no P. A Zumbi dos Palmares há uma prevalência de produtos situados na faixa III. Produtos classificados na Faixa III são moderadamente tóxicos para a saúde humana. Por outro lado, encontramos também produtos de Faixa I que são considerados altamente perigosos para a saúde humana. (Tabela 2).



Tabela 2 - Classificação Toxicológica Humana e Ambiental dos produtos identificados no Assentamento Zumbi dos Palmares.


Produto

Toxicidade Humana

Toxicidade Ambiental

Benlate

-

-

Bravic 600

I

* - Registro Decreto 24.114/34

Cercobin

IV

II

Folicur

III

II

Folidol

II

II

Folisuper

I

* - Registro Decreto 24.114/34

Herbitensil

IV

* - Registro Decreto 24.114/34

OrthocIde 500

III

* - Registro Decreto 24.114/34

2,4 D

I

III

DMA 806 BR

I

* - Registro Decreto 24.114/34

Gesapax

IV

II

Glifosato, Roundup

IV

III

Karmex

III

II

Krovar

III

II

Padron

III

II

Tordon

I

* - Registro Decreto 24.114/34

Velpar

III

* - Registro Decreto 24.114/34

Decis 25 CE

III

I

Dipterex

II

III

Ethrel

III

III

Expurgran

III

III

Hostation

I

II

Lebaycid

II

II

Tamaron BR

II

II

Trigard

IV

III

Uma hipótese derivada da análise de nossos resultados é que a presença destes produtos no Zumbi dos Palmares tem seu potencial de risco agravado pelo nível de escolaridade dos assentados, e o conseqüente impacto sobre a habilidade dos agricultores em manuseá-los de forma segura. Já quanto à classificação da toxidade ambiental, a maioria dos produtos enquadra-se na classe II, ou seja, são produtos considerados muito perigosos ao ambiente. Tal fato representa um aspecto potencialmente grave para a saúde dos assentados, uma vez que observamos que as embalagens desses produtos estão sendo descartadas de forma inadequada, o que poderia promover a contaminação do solo e dos recursos hídricos do assentamento.

Além disto, muitos produtos utilizados no Assentamento Zumbi dos Palmares pertencem ao grupo dos organofosforados, que são compostos orgânicos derivados do ácido fosfórico, do ácido tiofosfórico ou do ácido ditiofosfórico. Este fato é particularmente importante porque segundo o Manual de Vigilância da Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (1996), este é o grupo de agrotóxicos responsável pelo maior número de intoxicações e mortes no país. Produtos deste grupo, cujos nomes fantasias incluem Folidol e Tamaron, são muito utilizados nas lavouras de abacaxi e maracujá, que são difundidas na área de estudo.
Treinamento para Uso e Manuseio de Agrotóxicos e Utilização de Equipamentos de Proteção
No que se refere à participação de cursos ou treinamento para o manuseio e utilização de agrotóxicos, cerca de 80% dos assentados declararam nunca ter participado deste tipo de atividade. Além disso, os assentados afirmaram desconhecer as leis que controlam o manuseio e uso de agrotóxicos. Isto se deve em parte ao fato dos assentados encontrarem grande facilidade em adquirir agrotóxicos nas lojas de artefatos agrícolas existentes no município de Campos dos Goytacazes e São Francisco de Itabapoana. Através de um trabalho de campo realizado nos principais estabelecimentos destes dois municípios pudemos observar que diversos aspectos importantes da legislação que regula o uso de agrotóxicos não são cumpridos pelos mesmos (e.g., orientações e informações técnicas sobre a utilização dos produtos por parte dos comerciantes, recebimento de vasilhames vazios).

Devido o seu baixo nível de educação e informação sobre os perigos envolvidos no uso de agrotóxicos, os assentados acreditam que somente o consumo das frutas, legumes e verduras cultivados com o auxílio de agrotóxicos pode causar males a saúde humana. Assim sendo, um número significativo assentados declarou que cultiva áreas para consumo próprio sem a utilização dos agrotóxicos. Entretanto, quando o assunto é equipamento de proteção para a aplicação dos agrotóxicos 20% dos assentados declarou não utilizar nenhum dos três equipamentos de segurança mais básicos como luvas, botas e máscara , e menos da metade usava todos (Figura 5).


Figura 5. Uso de Equipamentos de Proteção para aplicação de agrotóxicos.


Deste modo, ainda que não tenhamos realizado nenhum tipo de exame de sangue ou mesmo exames fisiológicos, a possibilidade de que os assentados dos Zumbi dos Palmares envolvidos estejam propensos a sofrer impactos em sua saúde como resultado da utilização de agrotóxicos nos parece significativamente alta.

Conclusões

Ao fim deste trabalho é possível concluir que de fato o paradigma tecnológico difundido pela Revolução Verde se estendeu ao assentamento de Reforma Agrária estudado, o que foi evidenciado através da intensa utilização de agrotóxicos pelos assentados. O impulso dado à utilização de agrotóxicos acontece atualmente de forma muito mais sutil do que no início da Revolução Verde, cujos exemplos são a pressão do mercado por produtos esteticamente mais atrativos; a propaganda das grandes corporações que fabricam os agrotóxicos e a falta de auxílio técnico adequado nos assentamentos. Por outro lado, apesar do incentivo ao consumo de agrotóxicos dado por estas esferas, os agricultores que foram o objeto do presente estudo não contam com assistência técnica permanente, capaz de orientá-los a promoverem uma utilização mais segura dos agrotóxicos, ou mesmo desenvolverem e valorizarem uma atividade agrícola sustentável. O resultado deste processo de assimilação tecnológica por uma população sem o devido preparo pedagógico é que a ampla difusão de valores associados à modernização da agricultura desencadeou uma ruptura nas formas tradicionais de produção e disseminação de conhecimentos, influenciando diretamente as atividades desenvolvidas pela agricultura familiar. Assim, a força ideológica das informações produzidas pela Revolução Verde interferiu no próprio imaginário dos agricultores assentados que assumiram uma relativa descrença nas formas tradicionais de produção, como a rotação de culturas, os métodos preventivos de combate às pragas; a capina para eliminação de ervas daninhas, etc.


Finalmente, diante da intensa e inadequada utilização de agrotóxicos verificada neste estudo, fica demonstrada a existência de um descompasso entre o que realmente acontece nos assentamentos de reforma agrária e a agenda ecológica preconizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, que por sua vez defende a utilização de técnicas de conservação ambiental, o combate ao uso de agrotóxicos, o desenvolvimento e aplicação de métodos alternativos de produção e de controle de insetos, enfim, a produção de tecnologias agrícolas não agressivas ao meio-ambiente e a saúde humana. Este descompasso revela a dificuldade que os movimentos sociais atuando no campo enfrentam na luta pela implementação da reforma agrária, na medida em que têm de se defrontar com a lógica produtivista que é fomentada a partir do governo federal.
Referências Bibliográficas

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