Analogias no processo de ensino e de aprendizagem: um estudo a partir de textos produzidos



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ANALOGIAS NO PROCESSO DE ENSINO E DE APRENDIZAGEM:

UM ESTUDO A PARTIR DE TEXTOS PRODUZIDOS

POR ALUNOS DO CURSO DE PEDAGOGIA
Andréa Silva Gino - FaE-UEMG

Ronaldo Luiz Nagem - CEFET-MG


Introdução

Este trabalho tem como objetivo discutir sobre o uso de analogias no processo de ensino e de aprendizagem na área da educação. Tendo como referência o material produzido em pesquisa desenvolvida por Gino (2002), acredita-se que o uso de analogias no processo de ensino e de aprendizagem contribui com os alunos no acesso aos conhecimentos veiculados na escola. Nesta perspectiva o trabalho apresenta uma proposta metodológica com analogias para construção de conhecimentos, desenvolvida com alunos do curso de pedagogia. Apresenta uma escala de classificação dos textos produzidos pelos alunos pesquisados, o que permitiu a avaliação dos sujeitos envolvidos no estudo.

Um dos grandes problemas que a educação enfrenta está relacionado com a atribuição de significado aos conhecimentos veiculados na escola e com a aplicação deles na vida pelos alunos.

A partir da leitura das práticas pedagógicas, observa-se que a escola tem se esforçado, apresentando propostas pedagógicas que consideram o aluno como sujeito histórico, cultural e social como por exemplo, a proposta político-pedagógica apresentada pela rede municipal de ensino de Belo Horizonte. No entanto, os problemas relativos ao acesso e à significação do conhecimento escolar por todos os alunos continuam sendo um grande desafio para os profissionais da educação.

Estudos sobre a formação do professor alertam para a necessidade de aproximação das instituições de ensino superior com a educação básica na perspectiva de pensar um currículo de formação docente mais integrado e conectado com a realidade das escolas, principalmente as das redes públicas de ensino.

O currículo do curso de pedagogia propõe disciplinas importantes para a compreensão da educação na contemporaneidade. É relevante a contribuição da psicologia para a formação do profissional da educação, possibilitando o entendimento dos processos cognitivos, das etapas do desenvolvimento humano, da aprendizagem sob diferentes prismas teóricos, dentre outros. A antropologia, a sociologia e a história também contribuem apontando para uma leitura mais realística da educação, dos sujeitos da escola, do contexto sócio-histórico e cultural.

No contexto político-pedagógico, a formação do profissional da educação passa pela compreensão dos fatores políticos que influenciam a concepção de educação, de sociedade, de educador e de relação com o trabalho. Sobre esse assunto Connel, 1996 discute a exclusão realizada na escola e o papel do professor nestas discussões. Do ponto de vista da influência do momento político na formação do educador, várias considerações científicas contribuem para a análise do papel da escola, do professor, da relação ensino-aprendizagem e das práticas educativas.

Como outra particularidade, observa-se que a organização da prática educativa ainda sofre influência dos especialistas da escola, tirando do professor o significativo fazer pedagógico. A ausência dos professores em todas as discussões parece sofrer efeitos de um processo de formação que excluiu um saber fazer docente, que desconsidera o professor como sujeito pleno no processo educativo, deixando-o à margem das questões político-pedagógicas. Importa destacar que um movimento contrário a essa lógica tem sido observado na política de educação apresentada no ensino público por algumas prefeituras. Isso indica uma iniciativa de incluir o professor no cenário político-pedagógico rumo à construção e ao significado do seu fazer pedagógico.

Observa-se, portanto, que essas contribuições representam avanço, possibilidade de reflexão, criação de metodologias e alternativas pedagógicas, de posições políticas frente às questões educacionais. São novas diretrizes indicando possibilidades de intervenção.

No entanto, o problema de acesso ao conhecimento continua sendo o grande entrave das discussões educacionais. Responsabiliza-se o professor, os métodos, os alunos, as famílias, os governos. Os alunos passam pela escola e, muitas vezes, não atribuem nenhum significado aos conhecimentos por ela veiculados. O professor, por sua vez, é o que mais de perto presencia o sofrimento da exclusão ao conhecimento relegada ao aluno, deparando-se com a sensação de falta. Falta com explicação diferente em cada teoria.

Pode-se notar que várias possibilidades têm sido apontadas ou adotadas pelas diversas áreas do conhecimento que fundamentam e discutem a educação. Cabe destacar que as áreas de conhecimento e os estudos mencionados são apenas poucos exemplos dos inúmeros relacionados à educação e à construção de conhecimentos por parte dos alunos.

O presente trabalho considera muitas dessas contribuições e se fundamenta em algumas delas. No entanto sugere, uma atenção mais específica acerca do estudo sobre o acesso ao conhecimento. Propõe, no contexto dessa discussão, uma intervenção no processo de formação inicial do profissional da educação, na perspectiva de indicar uma metodologia que permita o acesso ao conhecimento cientificamente convencionado a partir de conhecimentos já familiares. Apresenta-se o estudo sobre a elaboração de analogias como recurso metodológico para a construção de conhecimentos, a fim de possibilitar a todos os alunos o acesso ao conhecimento. Propõe que na formação docente é emergente a adoção de metodologias voltadas para a inclusão do conhecimento no meio social.


Desenvolvimento

Este trabalho utiliza o termo analogia tendo como referência o significado adotado por Abbagnano (1999: 55), quando afirma que “o termo analogia tem o sentido de extensão provável do conhecimento mediante o uso de semelhanças genéricas que se podem aduzir entre situações diversas”.



O uso de analogias no ensino tem sido abordado por diversos pesquisadores como alternativa metodológica adequada a construção de conhecimentos. Alguns estudiosos, como Bachelard (1970) Nascimento (1997), alertam quanto às desvantagens e à precaução no uso, revelando a necessidade de estudos mais sistemáticos que possam garantir sua eficácia metodológica.

Observa-se, portanto, a preocupação acerca do alcance das analogias nos processos de construção de conhecimentos nos trabalhos de Abdounur (1997), Cachapuz (1989), Nagem (1997), Nascimento (1997), Terrazan (1996).

Os autores concebem o uso de analogias nos processos de aprendizagem como recurso possibilitador de significação de conhecimentos, uma vez que consideram que as analogias permitem ao sujeito da aprendizagem transitar do conhecimento que lhe é familiar ao desconhecido, significando-o. Dessa forma, compartilha-se com Abdounur (1997), Cachapuz (1989), Nagem (1997), Gonçalves e Nagem (2000), Gino e Nagem (2000), Gino (2002), Nascimento (1997), Terrazan (1996) que relacionam o uso de analogias como parte integrante dos processos de conhecimento.

Nesta perspectiva desenvolveu-se um estudo sistemático a fim de verificar se o uso de analogias no ensino contribui para a construção e significação do conhecimento.

A pesquisa pretendeu identificar o uso de analogias no ensino sustentado por uma concepção epistemológica que privilegiasse a construção do conhecimento numa perspectiva sócio-interacionista, considerando os sujeitos envolvidos no processo de aprendizagem como sujeitos cognitivos, históricos, sócio-culturais.

Pretendeu ainda, indicar uma proposta pedagógica para os cursos de formação do profissional da educação tendo como referência o trabalho realizado no curso de Pedagogia da faculdade de educação de uma universidade pública, por acreditar que a intervenção pedagógica no ensino se fundamenta na organização do conhecimento pelo professor.

Buscou verificar o acesso ao conhecimento cientificamente estabelecido, utilizando analogias nas aulas expositivas do professor pesquisador e nas produções dos alunos, como recurso à construção e à significação dos conhecimentos.

Buscou ainda estudar a transposição do conhecimento originado de uma analogia ao conhecimento cientificamente convencionado.

A hipótese levantada durante o processo de pesquisa foi que o uso de analogias seria mais significativo para a construção e a significação do conhecimento quando a elaboração de analogias fosse realizada pelo professor na exposição do assunto, a partir das questões sinalizadas pelos alunos e, mais sistematicamente, a elaboração de analogias fosse realizada pelos alunos, oralmente ou em produções escritas.

Partindo desta hipótese e de uma concepção de ensino e de aprendizagem que considera a construção de conhecimentos pelos alunos, mediada e problematizada pelo professor e colegas, adotou analogias no ensino como recurso na construção de conhecimentos.

Com o trabalho, pretendeu encontrar conhecimentos familiares aos alunos e que poderiam ser buscados no contexto, para significar aquilo que ainda não tinha sentido para eles.

O estudo demonstrou que a elaboração de analogias pode funcionar como suporte à construção de conhecimentos. A proposta apresentada aos alunos permitiu o trânsito através da zona de desenvolvimento proximal Vygotsky (1996: 113). Para esse autor, os conhecimentos que podem ser alcançados pelo sujeito, sem ajuda de outra pessoa, estão num nível de desenvolvimento real. Aqueles conhecimentos que podem ser alcançados, mas que necessitam da intervenção, estão no nível de desenvolvimento proximal. A ZDP indica a distância entre o nível de desenvolvimento real e o nível de desenvolvimento proximal.

O sujeito no processo de elaboração de analogias parte do conhecimento real, ou seja, conhecimentos que já foram organizados, e que lhe são familiares, para alcançar aqueles que estão num nível proximal, que estão em via de serem organizados, mas que necessitam de alguma contribuição. Essa contribuição poderá ser encontrada no trabalho em grupo através da expressão das idéias e pensamentos dos colegas, por meio de comparações para trabalhar os conhecimentos propostos.

Os conceitos somente serão adequadamente trabalhados e desenvolvidos se pelo menos um dos elementos do grupo tiver construído o conceito alvo e se posicionar como suporte à construção de conhecimentos.

A proposta de trabalhar com analogia no ensino é de partir de algo familiar ao sujeito que será utilizado como veículo para compreender o que não é familiar. “...analogias são recursos poderosos que podem favorecer o processo de construção de novos conceitos apoiados sobre os já familiares.” (Abdounur, 1997: 60). A analogia é o veículo utilizado com a finalidade de significar o novo conhecimento.

Cabe ressaltar que os conhecimentos abordados por meio de analogias se referiam àqueles previstos no plano de curso da disciplina “Processos de Aprendizagem”, indicada no currículo obrigatório do curso de pedagogia. Foram analisados 84 textos produzidos por alunos do núcleo formativo IV em duas turmas do curso de Pedagogia.

O padrão da análise dos resultados decorreu das produções que desenvolveram os conceitos referentes à concepção de aluno, professor e aprendizagem, nas perspectivas do Empirismo, do Racionalismo, do Interacionismo e do Sócio-Interacionismo, por serem conceitos abordados e desenvolvidos.

Os resultados levaram a construção de uma escala de classificação com dez níveis para análise dos textos com analogias (Gino, 2002). Esses níveis foram identificados de acordo com as idéias desenvolvidas pelos alunos. A partir desta escala procedeu-se um reagrupamento:



  1. Nível 1: não se referem à concepção proposta.

  2. Nível 2: apresentam idéias referentes ao conceito, mas não fazem analogia nem citam exemplos.

  3. Nível 3: estão mais próximas de exemplo ou de metáfora.

  4. Nível 4: apenas comparam

  5. Nível 5: expressam analogias seguidas de explicações

  6. Nível 6: expressam analogias seguidas de explicações que movimentam veículo e alvo e podem ser utilizadas como recurso à transmissão de conceitos.

Segue um exemplo do tipo de produção encontrada em cada nível. A escolha dos exemplos que foram selecionados da produção dos alunos se deu de forma aleatória, sendo que em cada um deles, há uma indicação da concepção de aluno, professor e aprendizagem, de acordo com a abordagem.
Nível 1: não se referem à concepção proposta.

“João de Barro. Em um vilarejo, longe do centro urbano, João de Barro, um passarinho muito alegre, teve a necessidade de construir uma casa para abrigar sua nova família. Escolheu uma linda mangueira que ficava perto de um riachinho. Aos poucos, com sua vontade de criatividade foi construindo sua casinha, onde até hoje mora com sua família. Através dessa metáfora, passamos a idéia que o João de Barro constrói sua casa por meio de conhecimentos de “engenharia” elaborados por ele mesmo. No caso da educação, o próprio aluno é quem constrói seus conhecimentos, passando pelos processos de assimilação, acomodação e adaptação.” (Sujeito 1 – produção escrita - turma 4 – abordagem: Racionalismo)


Nível 2: apresentam idéias referentes ao conceito, mas não fazem analogia nem citam exemplos.

“Para o aluno se desenvolver é necessário que antes ele adquira um aprendizado mínimo e inevitável para que desenvolva funções psicológicas culturalmente organizadas e humana. A partir deste desenvolvimento mínimo, ele deverá adquirir conhecimentos mais avançados e alcançar um nível superior de desenvolvimento. O sujeito se constrói a partir do que adquire do meio sócio-cultural e histórico em que cria.” (Sujeito 4 – produção escrita - turma 4 - abordagem: sócio-interacionismo)


Nível 3: estão mais próximas de exemplo ou de metáfora.

“Durante toda a vida as pessoas realizam aprendizagens de diversas naturezas. Clara é uma aluna da 2ª série de uma escola bem conceituada. Na sua turma, ela se destaca pela comodidade, por não questionar o que é imposto, aceitando tudo e repetindo as idéias do professor. Sua passividade faz com que ela pareça um bicho preguiça. Na terça-feira passada, a professora propôs uma atividade de português, escrevendo várias palavras no quadro como (PR). Exemplos: prova, prato, processo, presidente, prudente. Pediu que todos repetissem com ela e treinassem no caderno. Logo depois a professora explicou o significado de cada uma, sendo que mais tarde ela iria fazer uma prova oral. Atenção alunos! Chegou a hora da prova oral. Vamos começar com a Clara. Me diga, por favor, o que significa a palavra prudente. Imediatamente Clara disse o que significava a palavra prudente. Havia falado como se tivesse decorado, memorizado e a professora achou ótimo, pois considera Clara uma aluna exemplar e disciplinada. (Sujeito 3 – produção escrita - turma 1 - abotdagem: Empirismo)

“A aprendizagem é o brinquedo “vai e vem”. O aluno e o professor são os jogadores. No ritmo do “vai e vem”, os jogadores interagem para que a brincadeira prossiga.” (Sujeito 43 – produção escrita turma 4 abordagem Interacionismo)
Nível 4: apenas comparam

“O aluno é como um robô. Ele recebe todas as mensagens; as memoriza com atenção e sai repetindo mecanicamente. O professor é controlador. Com o controle remoto em mãos, ele determina as repetições do robô.” (Sujeito 27 – produção escrita. abordagem: Empirismo)


Nível 5 expressam analogias seguidas de explicações

“Sendo o Empirismo uma doutrina que privilegia a experiência sobre a razão, percebem-se, nela, as seguintes concepções: a mente do aluno é vista como uma “folha de papel em branco” e este é percebido como um ser passivo, em que são depositados conhecimentos previamente definidos. Sendo moldados de acordo com o resultado de experiências vividas. “Nesse processo, a educação pode ser comparada a uma máquina de refrigerante: o professor tem o papel daquele que deposita a ficha na máquina. O aluno é aquele que “engole” as informações formatadas de forma passiva e sem nenhuma crítica. A aprendizagem como produto final do processo é como a latinha e refrigerante, sempre contendo “300 ml do líquido.” (Sujeito 25 – produção escrita)

“O processo ensino-aprendizagem na tendência sócio-interacionista pode ser comparado à estrutura de uma colméia, em que o aluno se posiciona como uma abelha operária, na estrutura social. Interage com o mundo buscando elementos para construir seu objetivo, aprender e aperfeiçoar-se cada vez mais, a partir de processos biológicos, sociais e exigências coletivas. O professor assemelha-se à abelha rainha que coordena todo o processo, orientando as demais. O aprendizado se completa quando se obtém o produto final, o mel, que, para o aluno, é o desenvolvimento. Este mel sofre processos diferenciados de acordo com sua finalidade, tipo e tempo de formação, condizendo com os processos subjetivos vivenciados pelo aluno.” (Sujeito 24 – produção escrita turma 4 abordagem sócio interacionismo)
Nível 6: expressam analogias seguidas de explicações que movimentam veículo e alvo e podem ser utilizadas como recurso à transmissão de conceitos.

“O processo de aprendizagem interacionista é como um muro de arrimo do tipo gabião. Este se estrutura a partir de pedras sobrepostas com amarração de telas de arame dando solidez e segurança ao muro de contenção. Pela própria natureza de superposição de pedras, há um espaçamento entre elas, dando ao muro a maleabilidade necessária frente às condições geológicas e climáticas. Dessa forma, evitam-se fraturas (rachaduras) como ocorreria no muro de concreto, por sua rigidez. Neste caso, somente o meio afetaria o muro, este apenas estaria submetido às condições do ambiente, como ocorre no Empirismo.

O  S

(meio ambiente) (muro)

O muro “gabião é indicado e utilizado em terreno onde há movimentações constantes do solo e com grande incidência de chuvas. Esses fatores associados requerem um muro que tenha as características de assimilar e acomodar mudanças constantes a partir das alterações climáticas. Ele se deforma, se formata pelo meio, e também sofre alterações. Há uma relação de ação e reação interacionista entre o muro e o meio no qual está inserido. O muro representa o sujeito no processo educacional, sua capacidade de assimilar as mudanças necessárias cognitivamente diante da exigência do meio. As condições climáticas e geológicas representam o meio ambiente que interagirá com o sujeito (muro). O processo de aprendizagem interacionista é a própria capacidade de interação do sujeito (muro) frente ao meio ambiente e vice-versa. A tela de amarração seria o professor que fornece a estrutura de apoio a todo o processo. O muro gabião reflete a construção do conhecimento na abordagem Piagetiana.” (Sujeito 27 – produção escrita turma 4 abordagem Interacionismo)

Considerações finais

Partindo do princípio de que, no processamento e na organização do conhecimento, a construção e a significação são necessárias, para permitir ao sujeito se posicionar frente a ele, será necessário atribuir-lhe significado. Acredita-se que as analogias podem constituir ferramentas valiosas para a compreensão e o significação do conhecimento.

Machado (1994) apud Abdounur (1997: 55) discorrendo a respeito da construção de significados lembra que “compreender é apreender o significado”. De acordo com Militão, (1996) o significado é construído especialmente em um processo de negociação entre leitor/ou autor e o texto. Estes aspectos foram considerados no trabalho, onde se utilizou de uma metodologia que considerou esta relação dialógica do sujeito da aprendizagem com a produção científica em espaços de autoria.

A partir deste estudo pareceu conveniente afirmar que o uso de analogias, como recurso pedagógico está relacionado com o movimento cognitivo do sujeito. Acredita-se que, para que um conhecimento possa ser concebido como conhecimento cientifico, terá que ser colocado de forma objetiva. Diante disso, acredita-se que para alcançar o campo da objetividade, o conhecimento parte de estruturas subjetivas que permitirão ao sujeito atribuir algum significado. Sendo assim, a elaboração de analogia, em sua gênese, parece partir de estruturas subjetivas do sujeito articuladas com as estruturas cognitivas, possibilitando a construção de uma hipótese (analogia). Esta última parece se expressar através de uma imagem, um modelo mental, uma analogia verbalizada ou qualquer outra forma de expressão do pensamento analógico. O sujeito envolvido no processo de construção de conhecimentos estará submetido ao desequilíbrio do conhecimento que já lhe é familiar e será introduzido em novo processo de “assimilação-acomodação” Piaget (1987:381), para assim dar significado ao que até então era desconhecido: a novidade, ou o novo conhecimento. Nessa perspectiva, a novidade chega como um desafio ao conhecimento já familiar e equilibrado. Promove um conflito cognitivo e desencadeia os processos de assimilação e acomodação, para que o conhecimento desconhecido possa ser significado a partir dos conhecimentos já organizados pelo sujeito.

Dessa forma, acredita-se que a elaboração de analogias possa ser considerada como etapa necessária ao sujeito no processo de construção e significação do conhecimento.

O trabalho com analogias demanda um investimento por parte do professor a fim de permitir ao aluno o espaço para elaboração de questões originárias de hipóteses. A concepção epistemológica que se aproxima desta demanda de trabalho encontra-se em afinidade com os princípios Interacionistas e Sócio-Interacionistas. Encontram-se também grandes contribuições em outras correntes teóricas que fundamenta discussões sobre relação do sujeito com o conhecimento no processo de aprendizagem, como a psicanálise e a psicopedagogia.

Outro aspecto a destacar foi sobre a função avaliativa percebida no trabalho com analogias. Apesar da ênfase no processo de construção de conhecimentos, através dos textos produzidos pelos sujeitos envolvidos no estudo, foi possível avaliar o conhecimento. O olhar avaliativo voltou-se mais para a qualidade deste conhecimento, em termos de conceitos e concepções adequadas às abordagens propostas, do que para a análise do tipo de analogia empregada.

No entanto, pelos resultados, pode-se considerar que a elaboração de analogias pelos alunos é um importante recurso para avaliação do conhecimento. Os resultados revelam que, do total de alunos que produziram textos nas duas turmas, somente 4,7% produziram textos em que as idéias desenvolvidas não se referiam à concepção proposta.

Observou-se que 2,4% não fizeram analogias e 92,4% expressaram o conhecimento através de uma linguagem própria, com recurso próprio, diferente da linguagem e das expressões apresentadas pelos autores estudados.

Percebeu-se também que muitos conhecimentos estavam em processo de construção e encontravam suporte para a significação através da discussão da teoria frente à indicação de analogias. Acredita-se que este exercício tenha favorecido para a significação do conhecimento dos alunos.

Através do estudo, foi possível perceber um avanço por parte dos alunos, que expressaram conhecimento indicando a compreensão do tema. Foram capazes de descolar dos aportes teóricos para produzirem um texto próprio, mesmo que de forma bastante simples. Foi possível observar a aplicação do conhecimento, pois o texto consistiu em veículo para o reconhecimento dos próprios conceitos.

Acredita-se que a revisão desses textos, fundamentada por uma orientação sistemática, possa lançar valiosos recursos para a utilização pelos professores, nos cursos de formação de professores, pedagogia e licenciaturas, em suas aulas.

Nessa perspectiva, torna-se possível indicar o uso de analogias no ensino. Entretanto, recomenda-se a utilização de uma metodologia que possa sistematizar a elaboração de analogias pelos alunos, sendo-lhes possível apontar para as semelhanças e as diferenças entre a elemento análogo e o alvo, podendo contribuir para a construção de conhecimentos e organizar conhecimentos a serem abordados nas aulas.

A partir deste trabalho, identificaram-se várias questões férteis com possibilidades de estudo e/ou investigação como:



  1. o desdobramento deste trabalho com alunos do Ensino Fundamental;

  2. a aplicação de uma metodologia para a sistematização das analogias produzidas;

  3. a verificação de tipos de conceitos / conhecimentos acessíveis ao trabalho com analogias.

Com base nesse estudo, pode-se identificar o uso de analogias como recurso metodológico capaz de viabilizar ao aluno as conexões entre conhecimento escolar e sua vida prática, verificando a eficácia do uso de analogias no contexto da sala de aula, recomendando, no entanto, a utilização de uma metodologia que possa dar uma sistematização ao trabalho.

O trabalho com analogias demostrou ser fértil recurso à construção e significação de conhecimentos.

Vale ressaltar a recomendação de vários pesquisadores, como Cachapuz (1989) e Dagher (1994) entre outros, que insistem na continuidade das investigações relativas ao uso de analogias no ensino.

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