Anarquismo e



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O ANARQUISMO HOJE

UMA REFLEXÃO SOBRE AS ALTERNATIVAS LIBERTÁRIAS


"Somos, pois, anarquistas, porque queremos uma sociedade sem governo, uma organização livre, indo do indivíduo ao grupo, do grupo à federação e à confederação, com desprezo das barreiras e fronteiras, sendo a associação baseada sobre o livre acordo e naturalmente determinada e regulada pelas necessidades, aptidões, idéias e sentimentos dos indivíduos.

Neno Vasco


1. UMA REALIDADE SOMBRIA E CONTRADITÓRIA
"O criado arrebatou ao amo seu chicote e se fustigou com ele para assim poder ser amo."

Kafka
Vivemos uma época de profundas mudanças, da tecnologia às relações sociais, da economia à política. Transformações que não têm, no entanto, qualquer sentido de superação do Sistema - de suas injustiças e irracionalidades -, antes pelo contrário, são condicionadas pelos seus interesses estratégicos de preservar a Ordem Reinante.

A derrocada do socialismo de estado no Leste, é uma dessas mudanças decisivas que marcarão a nossa época. Um processo de auto-reforma iniciado pela oligarquia burocrática, saiu do controle e acabou pulverizando um sistema estatista e autoritário que alguns teimavam em chamar de socialista. Este acontecimento, inegavelmente positivo para os povos que se libertaram daquele sistema terrorista de dominação, não deixou de ser contudo, ao mesmo tempo, uma vitória de setores dessa mesma burocracia que conseguiram preservar seu poder. Mais uma vez, como tem ocorrido nas últimas décadas, os diferentes grupos das classes dominantes vão-se alternando no poder em resultado da exaustão política ou da sua luta interna. Como no caso das ditaduras ibéricas e dos governos militares latino-americanos, não foi a luta dos explorados e dominados que determinou as mudanças e o fim desses regimes. Quando o povo se apresentou no cenário, foi para sufragar os novos sistemas de dominação, ou para ser usado como carne para canhão em lutas fratricidas, como assistimos na Romênia, Geórgia e Iugoslávia.

Também a ideologia liberal saiu vitoriosa, pois a derrota simbólica das idéias de uma alternativa social, que estiveram presentes nos primórdios da Revolução Soviética, será por muito tempo o tema central da propaganda capitalista e razão da descrença e desesperança de muitos dos que lutam contra este sistema.

O socialismo autoritário saiu do cenário social derrotado, dando dessa forma a sua derradeira contribuição ao status quo; ao mesmo tempo que impulsionou a uniformização e homogeneização do sistema capitalista à escala universal. Uma nova conjuntura assente na mundialização da divisão do trabalho e na segmentação do mundo - e de cada região - em guetos de riqueza cercados de miséria.

Um panorama internacional, marcado por uma convergência quase total entre os principais centros de poder em torno do Washington Consensus, e administrado pelos Sete Mais que usarão seus organismos internacionais: ONU, CEE, NATO, FMI, BIRD, como instrumentos de gestão, de polícia e companhia de seguros da Ordem Internacional.

A instrumentalização da ONU durante a Guerra do Golfo e nos diversos conflitos regionais dos últimos anos; a manutenção e alargamento da NATO após a dissolução do Pacto de Varsóvia; a recusa dos EUA de desmantelar o arsenal nuclear; bem como as pretensões hegemonistas da Alemanha dentro da CEE, são entre muitas outras manifestações, demonstrativas desta nova rearticulação do Capitalismo Internacional sob comando de Washington.

Neste contexto de restauração, principalmente nas sociedades de consumo, massificadas e manipuladas por uma rede de propaganda e informação dirigida, as possibilidades de uma alternativa social, se afunilam. Já que os valores libertários da autonomia, da solidariedade, do livre pensamento e do autogoverno, são dificilmente inteligíveis ou aceites pela maioria dos cidadãos amestrados, desamparados e perdidos num contexto social de individualização e atomização extrema. Tornando-se assim incapazes de qualquer reflexão crítica, afundados que estão no minimalismo ético e no cinismo pragmático. O que exprime a maior vitória do sistema: a homogeinização ideológica e cultural das sociedades onde predominam o individualismo, a concorrência e a esquizofrenia dionisíaca para usar as palavras de Carlos Díaz.*

Só os excluídos dessa sociedade (e que não aspiram a se integrar no reino da sujeição conformista), ou os que nela não se reconhecem - uma pequena e desarticulada minoria - podem se identificar potencialmente com esses valores libertários. Em termos objetivos essa é a nossa margem de atuação nas sociedades do chamado Primeiro Mundo. Mesmo que saibamos que esse conformismo majoritário é cíclico e pode ser abalado, quer por alterações socio-económicas, quer pelo aprofundamento gradual da crise civilizacional que vivemos.

Outra é a situação vivida nos países do hemisfério sul - com algumas semelhanças em alguns países do Leste Europeu - onde a super-exploração, a não satisfação das necessidades básicas e a flagrante desigualdade social, que se traduz num verdadeiro apartheid social, abrem espaço para a continuidade de movimentos sociais anti-capitalistas mais amplos.

Olhando ao nosso redor, não seria excesso de pessimismo afirmar que nunca como hoje, as forças do Estado e do Capitalismo foram tão fortes e as tendências libertárias da alternativa social, tão fracas.

No entanto, e apesar disso, persistem contradições e tensões fundamentais no sistema dominante, que se vão acumulando e adquirindo uma visibilidade até hoje nunca vista. A miséria absoluta da maioria da população mundial, que contrasta com a riqueza ostensiva e delapidatória de uma minoria; a marginalização de jovens, desempregados e velhos nos países ricos, que aponta os limites de assimilação do sistema; o desenvolvimento da tendência de crescimento dos empregos informais e precários; a desqualificação profissional, o aviltamento do trabalho e o desemprego estrutural, resultante da introdução da automação e das novas tecnologias e, por fim, a violência e a criminalidade presentes em todas as grandes cidades, demostram a impossibilidade de soluções no quadro do sistema capitalista.

A natureza predatória da sociedade capitalista e sua ilusão no crescimento infinito, só pode levar ao esgotamento de recursos, à destruição do meio ambiente, reverso destrutivo desta forma de "progresso", que junto com a utilização arbitrária e irracional das tecnologias, impõe aos gestores da desordem industrial o uso instrumental de políticas de restrições ambientalistas. É nesse sentido que deve ser entendido a panacéia do "desenvolvimento sustentável" presente do discurso atual dos donos do Poder e em particular do Banco Mundial. Discurso ideológico que, contudo não aponta uma solução harmoniosa para o problema da pobreza, do desenvolvimento humano e da utilização das tecnologias, questões centrais da nossa época.

O capitalismo pode sentir a necessidade de contabilizar os prejuízos ou as ameaças futuras, mas não pode assimilar os questionamentos radicais levantados por libertários e ecologistas. Esses problemas só podem ser resolvidos no contexto de uma sociedade descentralizada e autogerida, capaz de criar e controlar formas tecnológicas adequadas a um desenvolvimento integrado, auto-sustentado e solidário. Nem o crescimento zero, nem o desenvolvimento sustentável são possíveis numa economia determinada pelo lucro e num mundo marcado pelo absurdo do consumismo e do desperdício das sociedades ricas e pelas necessidades básicas não satisfeitas das sociedades pobres.

De Bopal e Chernobyl ao contrabando de plutônio, a sociedade industrial manifesta-se intrinsecamente desordenada e ameaçadora para o futuro dos povos.

Ao nível político há uma tendência generalizada para a restrição das liberdades e garantias conquistadas em outras épocas. O que se reflete diretamente no ordenamento jurídico, com a reintrodução de conceitos e práticas autoritárias e inquisitórias no direito penal e processual e com o desmantelamento dos direitos sociais e trabalhistas que as lutas operárias impuseram a partir do século XIX.

A democracia representativa se esvazia face à inexistência de escolhas reais e à transformação das eleições em simples competições de marketing, onde o resultado é sempre inócuo para as elites e burocracias dominantes. Uma crise de legitimidade que é ampliada pela crescente burocratização do Estado e pelo fato das decisões econômicas e políticas mais importantes serem tomadas, tanto no nível privado, como no nível internacional, fora do chamado controle do Estado de Direito. O mesmo ocorrendo com a maioria das decisões eufemisticamente chamadas de técnicas e com aquelas que são tomadas no complexo de segurança, onde predomina o princípio do segredo. A corrupção, por sua vez, afirma-se como tendência endêmica do estado moderno, do Japão ao Brasil, da Venezuela a Espanha, França e Portugal, comprometendo as várias correntes políticas com práticas fraudulentas e ilegais, sem que com isso seja afetada essencialmente a credibilidade que os cidadãos-espetadores têm em seus partidos. Até porque há muito as oligarquias políticas da representação abdicaram de mascarar com a aritmética do voto seu mandato eleitoral, como já demonstrou há muito tempo o anarquista ibérico Ricardo Mella *. A "lei do número" é um falso instituto democrático, tanto mais que até as maiorias eleitorais estão encolhendo a olhos vistos, sendo o governo efetivamente exercido por minorias, credenciadas minoritariamente nas chamadas eleições democráticas e o Poder por organizações e instituições que estão longe do controle dos cidadãos.

Mesmo face a esta realidade cada vez mais visível no mundo contemporâneo, a descrença na política, que se traduz no crescente abstencionismo em quase todos os países, no contexto atual só serve para reforçar o cinismo individualista do egocentrismo dominante: "cada um por si, e deus contra todos."

Afirma-se assim a tendência para um estatismo autoritário de novo tipo, afastado do modelo de Estado de Direito clássico e mais ainda do Welfare State, um Estado já não mais preocupado com a participação e os direitos dos cidadãos. Mas tão só em garantir as condições de produção, reprodução e movimento do Capital: um novo tipo de Estado-Polícia, que vem perdendo a sua dimensão nacional, para se tornar a repartição local de uma nova forma de Estado supranacional em gestação.

Os fenômenos incontrolados da violência e da guerra demonstram, de forma inequívoca, que nenhum Estado ou governo mundial poderá administrar sociedades cindidas pela miséria e injustiça. A ruptura dos laços tradicionais da solidariedade social, agravada por uma cultura de concorrência, só pode levar a uma guerra de todos contra todos, que se manifesta na indiferença perante os miseráveis, no consumo generalizado de drogas, na violência desesperada das grandes cidades, em guerras fratricidas como na Iugoslávia e nos genocídios de África. As metrópoles - mesmo dos países ricos - com seus bolsões crescentes de miseráveis e marginalizados tendem a constituir-se como um cenário de violência onde nenhum exército particular, ou condomínio das elites, desses que proliferam em Madri, Rio de Janeiro, ou Los Angeles, poderão garantir uma existência segura e despreocupada como a que as classes dominantes se habituaram a usufruir no passado.

Neste panorama sombrio, o caminho que estamos a percorrer pode abrir, mesmo assim, novas possibilidades: o esvaziamento do sentido social do Estado e sua crise de legitimidade, pode facilitar a reaproximação dos movimentos sociais do pensamento e da prática anti-estatista libertária.

Também a derrocada do mito do socialismo de Estado, deixa em aberto o campo da alternativa real aos sistemas de dominação, onde se poderá afirmar o socialismo libertário. Com a derrota da estratégia leninista de tomada do poder, de utilização do Estado para a criação de um "socialismo" por etapas, e da derrocada do mito da excelência da economia centralmente planejada, que só gerou instabilidade, desigualdade e burocracia, a pertinência dos valores anarquistas, do socialismo orgânico, federalista e descentralizado, torna-se ainda maior para os que não abdicam de pensar e lutar por uma alternativa ao que aí está.

O capitalismo que persiste como barbárie perdura ante uma contradição básica do nosso tempo que pode ser resumida nas palavras de Marcuse: "A revolução mais necessária, parece ser a mais improvável." Improvável porque somente fortes movimentos sociais autônomos e libertários poderiam romper radicalmente a teia de um sistema repugnante que envolve todas as classes e grupos sociais. E hoje eles são minoritários.

A partir daqui, de uma realidade adversa mas contraditória, o anarquismo pode lutar por retomar o seu papel nos movimentos sociais - nos velhos e nos novos movimentos -, o que vai depender, pelo menos em grande parte, da vontade, lucidez, e ação, dos libertários.

Por mais que os ideólogos do Poder e a corte de acólitos arrependidos, proclamem o fim da História, ela teima em afirmar que só morrerá com o próprio homem. Mesmo que não possamos descartar a hipótese já um dia levantada por Mannheim de o mundo "estar entrando numa fase de aparência estática, uniforme e inflexível."

Mesmo assim o futuro será sempre uma possibilidade em aberto onde os seres humanos, com todas as condicionantes culturais e materiais, poderão realizar suas utopias. Para nós anarquistas, o socialismo libertário, a comunidade orgânica da Humanidade, continua sendo um imperativo para a humanização das sociedades.



2 O DECLÍNIO DO ANARQUISMO, ALGUMAS DE SUAS CAUSAS
"Mas uma grande idéia não pode germinar num só dia, por mais rápida que seja a elaboração e a difusão de idéias durante os períodos revolucionários."

Piotr Kropotkin


O declínio histórico do anarquismo tem sido ao longo de décadas apresentado por seus opositores - em particular os marxistas - como uma decorrência do processo histórico de transição de sociedades pré-capitalistas para o capitalismo, e de substituição dos artesãos pelo proletariado industrial. Essa tese que tem como expoentes historiadores do tipo de Eric Hobsbawn dificilmente resiste a uma análise mais detalhada. Apresentando-se sob o rótulo da cientificidade da história e sua "neutralidade", mas logo denunciada pelos impulsos exegéticos da dogmática leninista de Hobsbawn sempre que se refere ao anarquismo, chegando às raias da má-fé e de distorção da realidade histórica em vários de suas obras*. Outros historiadores mais conhecedores do anarquismo como Rudolf de Jong ou Carlos da Fonseca já demonstraram como o movimento anarquista do século XX estava amplamente implantado entre os tralhadores industriais e nos principais centros operários da época: "Que Paris, Toulouse, Barcelona, Milão, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Montevideo ou Tóquio aí ocupem lugares de grande importância constitui a negação das raízes rurais do movimento." **

Mas se para os pensadores liberais ou para os marxistas o declínio do anarquismo é uma natural inevitabilidade histórica, para muitos anarquistas é um incompreensível acidente, nos dois casos tem ficado sistematicamente ocultas as razões que explicam tal declínio.

Para compreendermos a situação atual do anarquismo, os principais problemas com que se confronta e as possibilidades que se abrem, teremos de rever sua fase de declínio, que se estendeu pelas décadas de 20 e 30 e culminou com a derrota da Revolução Libertária de 1939 na Espanha.

A conjugação de múltiplos fatores adversos, que os anarquistas foram incapazes de entender ou de contornar na conjuntura política e social da época, é o que explica esse esvaziamento progressivo do movimento.

a) Se existe uma causa que deva ser apontada em primeiro lugar essa é a resultante das transformações sofridas pelo capitalismo e pelo Estado, nessas primeiras décadas do século.

A intensificação das lutas operárias a partir de finais do século XIX, o espectro da Revolução Social e as mudanças tecnológicas e organizacionais levaram o Capital a iniciar uma política redistributiva nos países industrializados, o que permitiu uma expansão do processo produtivo e acima de tudo a adesão dos trabalhadores ao sistema. O acesso ao consumo tornou-se assim o antídoto contra a revolta e foi um fator primordial para a adesão dos trabalhadores à lógica normativa do capitalismo.

O surgimento do Estado intervencionista, que se insere neste processo de mudanças estruturais - seja na sua versão corporativista-fascista, seja na de Estado de Direito Social -, levou ao reconhecimento dos direitos econômicos e sociais dos trabalhadores e a uma demarcação de limites ao capitalismo de livre concorrência e livre exploração do século XIX.

A educação e a saúde pública tornaram-se objetivos de Estado e os direitos trabalhista: descanso, férias, assistência social e reforma, passaram a fazer parte das políticas de governo. O movimento operário conseguiu impor algumas das suas reivindicações históricas, mas a troco de uma sujeição ao Estado que se traduziu na institucionalização dos conflitos laborais, através de regras de arbitragem ditadas por esse mesmo Estado. Os governos criaram um novo departamento da conciliação social: o Ministério do Trabalho, que juntamente com tribunais e outros órgãos especializados passaram a interferir nas lutas operárias, na tentativa de desarticular a tática radical do confronto de classes aplicada pelo sindicalismo revolucionário e pelo anarco-sindicalismo.

O ordenamento jurídico passou a reconhecer como direitos as organizações operárias, as reuniões, as manifestações e greves, mas deu-lhes um enquadramento legal que lhes retirava todo o potencial conflitivo. Em contrapartida a ação direta, a sabotagem, o boicote e a greve de solidariedade passaram a ser criminalizadas e reprimidas de forma ainda mais violenta, estabelecendo-se claramente o limite admissível para o sindicalismo: a representação corporativa dos problemas operários.

Também o capital passou a aceitar o sindicalismo dentro desses limites, usando um duplo critério negocial: ao fazer concessões às exigências de sindicatos confiáveis e reprimir as que tivessem uma dinâmica radical. Os episódios do "pistoleirismo" capitalista nessa época, da Espanha aos EUA, são por demais conhecidos. O sindicalismo que nascera como emanação da vontade de emancipação do movimento operário, e sua forma auto-organizativa por excelência, tornou-se a partir de então um reflexo das intervenções - diretas e indiretas - do Estado e seu ordenamento jurídico.

O direito trabalhista, a institucionalização das negociações sindicais, sujeitas a ardilosas análises jurídicas e econômicas, favoreceram a burocratização dos sindicatos e em muitos casos exigiram-na. Só através da criação de estruturas administrativas e de assessoria de especialistas do acordo: advogados, economistas, sociólogos e um sem número de funcionários exteriores ao movimento operário, poderiam os sindicatos enquadrar-se neste contexto negocial e nele obter vantagens. A tentação corporativista que nunca chegou a desaparecer do sindicalismo, mesmo nas fases em que se potenciavam mais as formas revolucionárias do confronto de classes , tendo inclusive originado em quase todos os países históricas polêmicas entre anarquistas e sindicalistas, tornavam-se agora preponderantes. *

A combatividade dos sindicatos e dos militantes operários, passava a não ter correspondência direta com a eficácia na conquista de melhorias contratuais. Os mais eficazes passaram a ser os mais hábeis nas negociações, o que normalmente se traduzia na cedência sistemática perante as imposições estratégicas do Capital.

Estavam assim criadas as condições para a derrota do sindicalismo anarquista, que se sustentava na consciência revolucionária, na ação direta e na auto-organização. Tornava-se "impossível" um sindicalismo onde não cabiam funcionários e dirigentes profissionais e para quem - evocando a consigna do sindicalismo revolucionário dos EUA da IWW - "trabalhadores e capitalistas não têm nada em comum".

Neste panorama de conciliação, em que o Estado ganhava uma autonomia relativa em relação às classes dominantes, assumindo um rosto pacificador, independente, social, deixava de haver condições para a inteligibilidade do discurso anti-estatista dos anarquistas. A maioria dos trabalhadores começaram a ver o Estado como uma entidade beneficente que garantia a educação, a saúde, a habitação e a velhice dos cidadãos e não mais como aparelho central de gestão da dominação.

b) Uma segunda causa pode ser apontada: o aparecimento de ditaduras terroristas em várias regiões do mundo. Desde logo o nazi-fascismo e suas variantes ibéricas, bem como os governos de ocupação resultantes da expansão alemã. As ditaduras na América Latina de Vargas e Perón e na Rússia dos burocratas comunistas.

A repressão desencadeada tornava impossível a sobrevivência do anarquismo como movimento amplo e aberto, principalmente das organizações anarco-sindicalistas. O anarco-sindicalismo que foi a estratégia que abriu caminho à influência generalizada das idéias anarquistas na maioria dos países, não tinha condições de sobreviver em tal situação de repressão. Só um movimento estruturado clandestinamente baseado em grupos de afinidade poderia resistir. * Mas, mesmo nesse caso, a sobrevivência dependeria a longo prazo de apoio externo, seja na forma de auxílio material, seja na de território de exílio e articulação. E os anarquistas jamais dispuseram de forma continuada dessas condições. **

A prisão, morte e exílio de um número incalculável de militantes, juntamente com a impossibilidade de manter a propaganda e intervenção no movimento social, iria levar, em muitos países, ao quase esvaziamento do movimento e a uma ruptura entre gerações.

Quando se tornou possível a rearticulação, os anarquistas estavam cindidos em duas gerações distanciadas por décadas, que só com dificuldade se comunicavam e relacionavam.

c) Finalmente a terceira causa teve a ver com a vitória na Revolução Russa do leninismo e a subsequente criação dos partidos comunistas. Ao se tornar a estratégia da vitória sobre a burguesia - ou ao ser interpretado como tal - reintroduziu o marxismo com carisma revolucionário no movimento operário internacional. A ilusão de que era esse o melhor, ou o mais eficiente, caminho para chegar ao socialismo, somado à falta de informação sobre os rumos da revolução soviética, levou muitos anarquistas e outros trabalhadores ao leninismo. Uma adesão mais pragmática que teórica, que os fazia ver na sociedade russa uma concretização das idéias libertárias. E os empurrava à criação de organizações que misturavam na sua forma e no seu discurso os princípios anarquistas com um maximalismo ou leninismo incipiente. Em muitos países os partidos comunistas nasceram de rupturas no seio da corrente social-democrata, mas em quase todos houve uma participação significativa de trabalhadores oriundos do anarco-sindicalismo. No caso de Portugal e do Brasil, os Partidos Comunistas foram uma criação de anarquistas. Esta atração pelo leninismo viria a ser ainda maior entre os intelectuais anti-capitalistas que se deixaram conquistar pela idéia de criar o socialismo a partir do Estado, uma manifestação de despotismo esclarecido, baseado na concepção de que o marxismo seria a "ciência" da transformação social; e que aos intelectuais estaria reservado um papel especial na vanguarda dirigente. Nascia assim o "socialismo dos intelectuais", tão bem dissecado por Makhaiski.

Mas foi no movimento operário que as divisões introduzidas pelas divergentes concepções de socialismo, teriam maiores conseqüências, já que diminuíram a própria capacidade de resistência às ditaduras que se começavam a instalar. Esta situação se agravou após a adoção pelos comunistas de uma estratégia internacional definida pelo COMITERN e ISV de infiltração e cisão dos sindicatos de orientação anarco-sindicalista.

A ação insidiosa dos comunistas foi determinante para desarticular o anarco-sindicalismo e possibilitou-lhes a criação dos sindicatos atrelados, correias de transmissão do partido, já que para o leninismo era essa a função instrumental das organizações operárias.

Com o agudizar da repressão e, na medida em que os comunistas conseguiram sobreviver na clandestinidade, tornaram-se para muitos trabalhadores a única força capaz de articular as lutas operárias contra as ditaduras e o capitalismo. Soma-se a isso a maleabilidade tática que os levava a não desprezar a luta pelas pequenas reivindicações e a integrar conceitos conservadores e nacionalistas em seu discurso, o que se adequava a um movimento social em que se expandia o reformismo. Começava assim a dar-se a hegemonia comunista nos meios operários, processo que estava concluído nos finais da década de 40.

A derrota da Revolução em Espanha, foi o culminar desta tendência e sua mais evidente demonstração. Aquele que foi o mais avançado esboço de transformação social libertária, foi empalmado entre fascistas e estalinistas, ante a indiferença conivente dos Estados democráticos, na mais sinistra combinação de forças contra-revolucionárias de nossa época. Essa seria a última grande mobilização popular das idéias anarquistas e a mais trágica das derrotas. O socialismo libertário, que desde o século XIX tinha tido um dos seus bastiões na Península Ibérica, era esmagado após uma guerra civil que levaria à morte e ao exílio milhões de militantes. Episódio da história social contemporânea que reúne contraditoriamente os erros, os limites e as possibilidades criadoras do anarquismo. Nunca o anarquismo teve um papel tão decisivo nas mudanças profundas de uma sociedade quanto na Revolução Espanhola, mas também nunca ficou tão próximo de se descaraterizar como alternativa às instituições estatizantes e burocráticas. A participação de alguns de seus mais conhecidos militantes no governo, mesmo não colhendo a adesão de parte do movimento, nem chegando a gerar um anarquismo político de feição maximalista, foi um colaboracionismo que deixou seqüelas profundas no movimento libertário.* Dessa experiência também não conseguiram os anarquistas extrair uma teoria e uma prática adequada para lidar com o fenômeno do Estado e do Poder, nem desenvolverem a partir das realizações construtivas da Revolução - para empregar as palavras de Gaston Leval - uma alternativa de autogestão generalizada para as modernas sociedades complexas.

Hoje, poderemos a partir destas mesmas causas que se combinaram para debilitar o movimento anarquista, entender as perspectivas abertas pela derrocada de dois mitos: o do Estado Socialista e o do Estado do Bem Estar Social. Agora, mais de cinqüenta anos após a Revolução Espanhola de 1936, talvez os anarquistas possam refletir sobre todo esse período de esperanças e derrotas dos movimentos libertários.

Mesmo que hoje tenham desaparecido as causas fundamentais do declínio do anarquismo, isso ocorre numa fase em que o pensamento e a prática libertária atingiram seu ponto mínimo e quando a homogeneização ideológica do sistema capitalista atingiu seu ápice. Certamente por essa razão o desgaste do Estado e da representação política só tenha gerado um generalizado desinteresse cínico com os destinos da sociedade e não mais uma busca de uma alternativa ao existente.

Essa descrença generalizada, contraditoriamente, pode representar o começo de uma nova esperança: se não mais acreditamos no Estado e na democracia representativa, então podemos nos auto-organizar e começar a imaginar formas de autogoverno para as sociedades. E aí nos reencontramos com o velho desafio do anarquismo!


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