Andrea Chénier a sinfonia do Terror



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Andrea Chénier - A Sinfonia do Terror
Por Caroline Pimentel, Marja Cardoso e Pedro Mota.
Este artigo tem como objetivo traçar um paralelo entre a chamada Revolução Francesa com a ópera Andrea Chénier, do compositor Umberto Giordano. Este trabalho também propõe uma maior interação entre Arte e História, visando um enriquecimento intelectual e cultural de seu leitor.
A Revolução e o poeta
Personagem real de uma época turbulenta, o poeta André Marie Chénier (1762-1794) viveu nos tempos de uma revolução que marcaria profundamente os rumos políticos, sociais, culturais e ideológicos da história do Ocidente - A Revolução Francesa. Mas para entendermos a militância do poeta na época revolucionária, precisaremos compreender as realidades da sociedade francesa pré-revolucionária.

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O poeta André Marie Chénier


aís símbolo do Absolutismo até fins do século XVIII, a França caracterizava-se por uma forte concentração de poderes nas mãos do rei, e por uma sociedade altamente hierarquizada, dividida em estamentos, onde grandes privilégios eram concedidos à nobreza e ao clero. De modo que, a parte da população francesa não pertencente a esses grupos sociais se encontrava abarrotada de muito trabalho e impostos, pois se viam obrigadas a manter o alto padrão de vida dos eclesiásticos e da aristocracia.

A economia francesa, fundamentalmente, agrária era alvo de constantes crises, muitas delas ocasionadas por fatores climáticos, que tinham como conseqüência a perda das colheitas e alta nos preços dos gêneros alimentícios, sendo mais um fator que dificultava a vida de grande parte do povo francês que não possuía condições financeiras para comprar alimentos.

É nesta situação de instabilidade econômica e tensão social, que se inicia o processo revolucionário. Em maio de 1789, o rei Luís XVI convoca os Estados Gerais como forma de tentar resolver o problema financeiro do país, ocasionado pela supracitada crise agrária e agravado pelas guerras que a França tinha se envolvido. Os Estados Gerais eram uma instituição representativa de toda a sociedade. Esses se dividiam conforme a hierarquia social, sendo o Primeiro Estado representado por membros da nobreza, o Segundo pelo clero e o Terceiro pela grande maioria da população que incluía camponeses, burgueses, artesãos, entre outros. O conflito de interesses e a busca por benefícios eram grandes entre os Estados e seus membros. A nobreza era intransigente e não queria saber de pagar impostos, de modo que se suscitou a hipótese de esses serem aumentados para o Terceiro Estado, a fim de manter o padrão de vida dos outros dois.

Em 17 de junho, esta situação começa a mudar. O Terceiro Estado reúne-se e cria a “Assembléia Nacional”, com a proposta de criar uma Constituição, a qual representaria toda a nação. A burguesia tomando a frente desse processo reivindica o fim dos privilégios dos nobres e clérigos. O rei ordena a dissolução da Assembléia Nacional, no entanto encontra resistência. O povo invade arsenais e confisca armas. Em 14 de julho, a Bastilha - prisão para onde eram levados os inimigos políticos de Luís XVI - cai nas mãos dos populares e é derrubada simbolizando assim o fim da tirania real e o início da Revolução.




A população francesa invade a Bastilha
Estes acontecimentos só eram a primeira parte de um longo período revolucionário. Em agosto, a Assembléia Nacional aprova a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, que estava repleta de princípios iluministas como o direito às liberdades individuais, incluindo a liberdade de expressão, o fim de direitos feudais, a igualdade de tipo civil e não social, entre outros. Em 1791, a Constituição estava pronta e se baseava nessa declaração.



A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

Todavia, estas novas medidas agradaram diretamente as camadas mais importantes do Terceiro Estado - que eram a grande e média burguesia - deixando de lado grande parte dos que fizeram a Bastilha cair. Trabalhadores e camponeses ao perceberem que continuariam subordinados as elites nobres ou burguesas e que seus interesses divergiam da classe que estava liderando a revolução, decidem se unir na chamada “Convenção” e proclamar uma República liderada pelo partido político jacobino, a qual ficaria marcada por ser a fase mais radical da revolução. Com a instauração de um novo poder político, deu-se inicio ao Ano II da Revolução.

Devido à grande perseguição e assassinato de seus oponentes políticos, esse período também ficou conhecido como Terror. Qualquer pessoa que fosse suspeita de conspiração poderia ser presa e guilhotinada no novo governo liderado por Maximilien Robespierre.

É nessa conjuntura revolucionária que o poeta André Marie Chénier ganha destaque. Seus versos retrataram a pobreza da sociedade. Em tempos de agitações sociais, André Chénier usou as palavras como arma, denunciando as mazelas e os crimes cometidos pelo governo da França, por conta dessa postura adotada foi preso e assassinado a mando de Robespierre.

Por suas sátiras e por seus escritos não foi esquecido. Sua poesia foi enaltecida por escritores como Victor Hugo, Lamartine e Chateaubriand. E sua vida virou tema da ópera Andrea Chénier do compositor Umberto Giordano, sendo lembrada até hoje nos teatros do mundo inteiro.
O compositor: Umberto Giordano


U
O compositor Umberto Giordano


mberto Giordano nasceu em 1867, em Foggia - Itália. O compositor em questão é uma das personalidades que fizeram parte do movimento verista, ou seja, uma escola que surgiu na Itália, no final do século XIX e que tem como característica mais marcante o intenso realismo do libreto – texto usado em peças musicais – associado a um vivo sentimentalismo. Iremos tratar aqui sobre a ópera Andrea Chénier, a qual possui o libreto escrito Luigi Illica. Baseada na vida do poeta francês Andrea Chénier (1762 – 1794), executado durante o chamado período do Terror, que se situou no Ano II da Revolução Francesa, essa se tornou a obra mais consagrada de Umberto Giordano. Mas antes disso, precisamos esclarecer algumas questões básicas: O que é um libreto e uma ópera? Como essa se configura?

A palavra ópera, em italiano e em latim significa “obra”. A primeira ópera surgiu na Itália e ao longo do século XVII, se espalhou pela Europa, se tornando uma das principais formas de entretenimento, principalmente, da aristocracia e da burguesia.

Uma ópera consiste em um espetáculo teatral geralmente dramático. No entanto, a letra da ópera - conhecida como libreto - é cantada, diferentemente das peças de teatro comuns que apresentam seus diálogos falados. Seguindo, basicamente, uma programação padrão, essas se estruturam em atos que contarão ao espectador a história da encenação.

A ópera: Andrea Chénier


O tenor Giuseppe Borgatti que representou o poeta na primeira montagem da ópera, em 1896



Era final do século XVIII, a França se encontrava num conturbado período de instabilidade política. Novas ideologias surgiam e uma revolução estava acontecendo...
Sob o rigoroso controle de um arrogante mordomo, os serviçais da condessa de Coigny arrumam o castelo para o baile que lá ocorrerá. Entre eles, encontra-se Gérard que carrega um pesado sofá, com a ajuda de alguns outros empregados. Do jardim surge um senhor com uma idade avançada e aparência frágil. Indignado com o sofrimento do homem, o qual é seu pai, Gérard brada versos contra a aristocracia.

Mesmo diante de toda sua revolta, Gérard se acalma e volta ao trabalho depois de ver Maddalena, filha da condessa de Coigny, por quem ele é apaixonado.

As horas passam. O baile começa. Quando os convidados chegam, um típico coral pastoral canta músicas rústicas enquanto o ballet representa uma história de amor rural. Entre importantes convidados, encontra-se o poeta Andrea Chénier o qual desperta a curiosidade de Maddalena. Interessada em Andrea, a moça se insinua e pede a ele que improvise alguns versos, versos esses que ela havia apostado com seus amigos que seriam sobre o amor. Entretanto, as palavras que saem da boca do poeta não tratam desse sentimento, mas sim da indignação do mesmo pela condição de exploração, pobreza e miséria que assola grande parte da população francesa. (http://www.youtube.com/watch?v=XgM1V3wjNJI&feature=related Link para a ária “L’ Improvviso”. Montagem realizada no Teatro alla Scala, com o tenor Jose Carreras interpretando o poeta Andrea Chénier)
Pelo amor inspirado, eu procurei rezar;

Rapidamente por uma porta de igreja eu passei

Um padre colhia oferendas para a Virgem

De todos os que tiveram fé; mas nunca foram atendidos

Ou ouviram seu triste suplico

De um pobre velho pedinte

Com as mãos erguidas em vão

Então na cabana de um trabalhador entrei

Onde ele em desespero, em voz alta amaldiçoava

Seu país;

Amaldiçoava seus ricos chefes, em fúria;

Para Deus

E até homens ele arremessou a Ele

As lagrimas amargas de suas crianças.

Ah! Mimados patrícios

Como vocês permitem toda essa injustiça?”
Rapidamente, todos os convidados se voltam para o homem que vos fala e - com exceção de Maddalena - se sentem ofendidos pelas crenças e ideais sociais do mesmo. Neste momento, Gérard aparece liderando irados empregados do castelo que haviam escutado as palavras do poeta e se deram conta da situação em que viviam. Depois de uma discussão com a condessa, os revoltosos são expulsos do castelo.

Após o ocorrido no palácio, Andrea segue sua vida sem esquecer-se de Maddalena, por quem ele se apaixonou. O sentimento da moça era recíproco e os dois passam a viver um romance. Romance esse que despertará a ira e os ciúmes de Gérard, o qual agora é membro do governo jacobino e preside um tribunal revolucionário.

Em meio à conturbada fase da revolução, Andrea é capturado pelo governo. Seus versos ousados que denunciavam as crueldades de Robespierre eram considerados subversivos. Acusado de traição, o poeta é julgado e condenado a morte. Desesperada, Maddalena recorre a Gérard, como tentativa de salvar seu amado da guilhotina. Mostrando-se piedoso, o ex-serviçal que teve sua vida mudada pelos versos de Chénier, intercede pelo rival. Mas sua tentativa é em vão.

Encarcerado na prisão de San Lazzaro, Chénier espera a sua execução. Passa suas últimas horas escrevendo versos que expressam sua fé na verdade, na beleza e no amor. Maddalena entra na prisão e pede a Gérard que a leve para ver o amado. Os amantes têm um breve momento juntos, onde Maddalena conclui que é incapaz de viver sem o seu poeta. Em um ato arrebatador, a mulher toma o lugar de um condenado à morte e é executada junto ao seu amor. (http://www.youtube.com/watch?v=q1Mb7NVKsz4&feature=related - Link para o último ato da ópera. Montagem realizada em 1981, no teatro Vienna State Opera, com o tenor Placido Domingo, interpretando o poeta Andrea Chénier e a soprano Gabriela Benackova Interpretando Maddalena)


A arte, o poeta e a História
Umberto Giordano, ao escrever sua ópera, busca reproduzir a vida de um poeta que de fato viveu e morreu na época da Revolução. Porém, sua reprodução não é fiel. ¹ Sabemos sim, que Chénier se estabeleceu como um grande poeta satírico e que sua poesia tornou-se uma crônica sobre os grandes acontecimentos da Revolução. Todavia, não encontramos fontes históricas que indiquem que Maddalena de fato existiu, o que temos conhecimento sobre o verdadeiro André, é que esse teve diversas amantes, alguns amores e nunca se casou. Com relação à prisão de Chénier em 7 de março de 1794, especula-se que essa se deu acidentalmente, sem acusações formais, apenas com suspeitas de envolvimento com grupos moderados. De modo que, eventualmente ele foi acusado de ser cúmplice de uma conspiração e autor de escritos subversivos, levando-o assim, a ser guilhotinado em 25 de julho de 1794, sendo uma das últimas pessoas a serem executadas por Robespierre. Hoje, seu corpo se encontra no cemitério de Picpus - Paris.

Muito mais que uma simples representação teatral, a ópera de Umberto Giordano - Andrea Chénier possui um caráter informativo uma vez que aborda um tema real. Todavia, sempre precisamos ter cautela ao analisar uma obra de arte traçando um paralelo desta com a História, pois se trata de um fato contado sob o ponto de vista de um autor o qual é influenciado por sua época, de modo que esse possui total liberdade para incluir em sua obra elementos fictícios.



1 Entre os poemas mais proeminentes estão: Ode à Versailles e La Fête de l'Être Supremo.
Cronologia:


  • 1762: Nasce o poeta André Marie Chénier.

  • 1789:

17 de junho – Criação da Assembléia Nacional

14 de julho – Tomada da Bastilha

26 de agosto – Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

  • 1791: Constituição baseada nos Direitos do Homem e do Cidadão

  • 1793: Oficialização da República e morte do Rei Luís XVI; 2ª Constituição; Início do período do Terror.

  • 1794:

7 de março – André Chénier é preso e escreve seu poema mais famoso durante seus 140 dias na prisão.

25 de julho – Morre André Chénier, guilhotinado.

28 de julho – Morre Maximilien de Robespierre, guilhotinado.


  • 1867: Nasce Umberto Giordano

  • 1896: Estréia da ópera Andrea Chénier, no Teatro alla Scala em Milão, Itália.


Bibliografia:
AUERBACH, Erich. Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental. São Paulo: Editora Perspectiva.

FURET, François. Pensando a revolução francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

GODECHOT, Jacques. As Revoluções: 1770-1799. São Paulo: Pioneira, 1976.

HOBSBAWM, Eric. A Revolução Francesa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

-------------------------. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

LOGGINS, Vernon. André Chénier: His Life, Death and Glory. 1965

SCARFE, Francis. André Chénier: His Life and Work, 1762-1794. 1965

Links para baixar a ópera completa:

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