Análise da relação entre os discursos Ortodoxos e Católicos Ucranianos



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Análise da relação entre os discursos Ortodoxos e Católicos Ucranianos

Jeanine Campos Ressetti (UEPG)

Fabio Maurício Coneglian

Introdução

O presente artigo tem como intuito analisar a Igreja Católica Bizantina de rito Ucraniano e a Igreja Ortodoxa Ucraniana, com ênfase nos aspectos discursivos produzidos pela Igreja Católica Ucraniana, contidos no recorte de 01 a 15 de março de 2012 intitulado, Ucrânia: Excelente relação com os Ortodoxos do jornal “Prácia” (O Trabalho) redigido em Prudentópolis - PR. Além desse, analisaremos o artigo Uma Visão Católica da Ortodoxia, produzido pelo Frei Aidan Nichols, traduzido pelo Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior encontrado no acervo virtual ortodoxo “Ecclesia”, pretendemos explorá-los para compreendermos a relação atual entre essas instituições.

Conforme POLAK e GOMES (2008, p.740), o jornal “Prácia” organizado pela Ordem dos Padres Basilianos Ucranianos começou a ser publicado no ano de 1912 tendo por finalidade informar os imigrantes situados no Paraná sobre a sua terra natal servindo também como difusor de questões religiosas e culturais, dando continuidade aos dogmas religiosos. O recorte analisado foi encontrado na Igreja Católica de Rito Ucraniano, Paróquia Transfiguração do Nosso Senhor em Ponta Grossa- Paraná. Percebemos que a fonte é direcionada aos fiéis da Igreja Católica e distribuída por meio de assinatura. Atualmente o jornal é publicado parte em português e parte ucraniano.

Sobre a página Ecclesia não conseguimos encontrar muitas informações sobre seu início e a finalidade pela qual foi criada, porém, ao visitar vários links percebemos uma visão ecumênica da religião ortodoxa, possivelmente com a intenção de integrar os ortodoxos do mundo todo dando informações sobre as Igrejas Ortodoxas, o acervo virtual é organizado pela Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires e América do Sul, no Brasil desde 2004. Assim como “Prácia” o Ecclesia é um difusor de doutrinas religiosas.

Dessa forma, ao folharmos muitas páginas (concretas e virtuais) percebemos que por trás do discurso existem muitas intenções que constroem o alicerce cultural e identitário dos ucranianos e descendentes, onde perpassam outros conceitos como Representação, Tradição e Nação. Esses discursos não são auto-explicativos, exigem o esforço de desfazer algumas malhas, nesse ato, encontramos um fragmento do diálogo entre essas instituições que havia sido desfeito historicamente.

Nesse sentido, o artigo, se estrutura da seguinte forma: ruptura das Igrejas Católica e Ortodoxa, discussão sobre as noções de discurso e sua inserção como fonte, os discursos e diálogos encontrados das Instituições descritas acima, dentro disso contextualizaremos essas fontes e por fim analisamos como esses discursos se refletem na representação dos fiéis.



O Cisma e a ruptura da Unidade Cristã

Nos primeiros séculos da Igreja Cristã, a comunidade se mostrava em comunhão, compartilhavam ensinamentos deixados pelos Apóstolos e se percebiam como semelhantes uns aos outros, pois a Igreja não era reservada apenas a um grupo étnico, espaço geográfico, ou conjunto de comunidades locais.

Mas, a partir de 325 d. C., foram convocadas reuniões por representantes da igreja. Nesse processo eram discutidas questões teológicas representadas por interesses comuns. Os Concílios Ecumênicos levantaram impasses para unificar pontos centrais da doutrina Cristã.

De acordo com Michel de Certeau (2000, p.132), ao refletir sobre tensões próprias do século XVII, entendemos que os critérios doutrinais se desacreditam pela sua própria oposição, e que se impõem como critérios de substituição, progressivamente, à adesão ao grupo religioso. Levando-se em conta essa abordagem entendemos que esses impasses foram expressões das divergências da Igreja Cristã.

Desse modo, sugiram novos questionamentos, os quais levaram à ruptura da Igreja Ocidental e da Igreja Oriental, fato que ocorreu entre 1054 e 1204. A partir dessa explanação, entramos no ponto crucial pelo qual passa a Igreja Cristã: o Cisma (Divisão causada por razões doutrinais). (CLAUDIONOR, 1998.p.83). Por questionamentos dogmáticos e pela diversidade de pensamentos, a Igreja primitiva passou a ter dificuldades de coexistência. Refletiremos sobre o conjunto de problemas que passaram a existir entre Oriente e Ocidente, como diferenças entre costumes, culturas, políticas dentre outros elementos que estabelecem relações de exclusividade dentro de cada grupo. De acordo com Henrique Matos (1987), elementos dogmáticos religiosos reestruturaram a igreja, o qual o autor refere-se como sendo “As feridas da Igreja no Oriente”.

Diante disso, apontamos as motivações desse desentendimento, seria o enfraquecimento do cristianismo oriental diante da expansão do Islã, o iconoclasmo, o questionamento das imagens na tradição eclesiástica, a inquietação entre os religiosos favoráveis à utilização de imagens no âmbito religioso, a rejeição da ortodoxia ao iconoclasmo e as interferências feitas pelo imperador em questões religiosas. Posteriormente é restabelecido o uso dos ícones, isto é, a igreja consegue permanecer com sua tradição, porém, a Igreja não se distinguiu do Estado, dentre esses, ainda foram discutidos a procedência do Espírito Santo (filioque), o celibato e o papado, que leva ao rompimento oficial com Roma (MATOS, 1987). Michel Certeau nos permite compreender melhor essas questões:

A partir do momento em que os princípios se relativizam e se invertem, a pertença a uma Igreja (ou a um “corpo”) tende a fundamentar a certeza, mais do que o conteúdo (que se tornou discutível porque parcial, ou comum mas oculto, “místico”) das verdades próprias de cada um. A antinomia (talvez agressividade) entre grupos vence as disputas entre “verdades” [...] (CERTEAU, 2000, p. 133).

Assim, a Igreja Oriental conservadora perde seu dinamismo e força para o seu desenvolvimento, enquanto a Igreja Ocidental perde de crescer espiritualmente com a Igreja Oriental (MATOS, 1987). Dessa forma, o lado Ocidental passa a ser reconhecida por Igreja Católica Apostólica Romana, e do lado Oriental a Igreja Ortodoxa.



Discursos e pressupostos

Vivemos atualmente em um ambiente paradoxal onde a identidade, por um lado, é fragmentada, vivida em aparências e vestida de acordo com o que convém ao indivíduo em suas relações sociais. E, por outro, há aqueles sujeitos que buscam uma identidade mais estática e menos volátil. São dois processos que ocorrem simultaneamente: “o enrijecimento de identidades locais e a ameaça de pulverização total de toda e qualquer identidade.” (ROLNIK, 1997, p. 3).

Entendemos que essa identidade é construída historicamente, dentro de jogos de poder e de legitimação de uma posição perante grupos sociais e culturais. Como menciona Bellotti (2004), o estabelecimento de representações não é pacífico nem consensual, mas conflituoso, pois se cada grupo ou indivíduo se compreende de uma determinada forma, a legitimação de uma identidade passa pela desqualificação de outras.

Esta ideia fica ainda mais clara ao analisar Roger Chartier (1990), onde define que a representação se repõe e se constrói na vida cotidiana, nas alianças e nos embates diários. Ou seja, onde o sentimento de pertença precisa ser renovado todo dia, a cada reunião, a cada oração, a cada confronto com aquele que possui uma crença diferente.

E é neste contexto que este artigo pretende se desenvolver, buscando a construção da pesquisa sobre identidade dos objetos adentrando nos campos onde o embate é mais tenso: o discurso.

E, de acordo com Foucault, compreendemos que o discurso não parte do sujeito, neste caso, o autor é aquele que dá sentido ao texto, sua coerência, porém, não é o indivíduo o seu criador. (FOUCAULT, 1996).

Partimos então para a exploração do discurso institucional, das duas organizações religiosas neste caso, os criadores do discurso que será resignificado pelo sujeito. Para tal utilizaremos como método a análise de discurso que tem por objetivo desvendar esse jogo de poder existente, seus signos e, por fim, a sua forma de afirmação.

Analisaremos primeiramente o discurso católico expresso no artigo Uma Visão Católica da Ortodoxia, produzido pelo Frei Aidan Nichols, traduzido pelo Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, presente no acervo virtual ortodoxo Ecclesia.

O Catolicismo, segundo ele, vem passando pela crise mais séria de sua existência: o secularismo. Secularismo é a "idéia de que a modernidade estaria levando ao fim a religião enquanto elemento importante na vida dos indivíduos". (CONEGLIAN, 2010. p. 25.)

E para enfrentar essa crise, ele fala que os católicos devem estreitar os laços com os Ortodoxos em detrimento dos protestantes por três fatores: histórico, teológico e prático.



"As razões históricas para preferir os ortodoxos a todas as outras comunhões separadas se resumem no fato de que o cisma entre a igreja romana e as antigas igrejas calcedonianas do oriente é a mais trágica e penosa das divisões na cristandade". ""(...) o sétimo concílio ecumênico, o Niceno II, em 787, o último concílio que os católicos e os ortodoxos tiveram em comum, concílio que (...) trouxe um final triunfante à série de definições conciliares acerca da fé cristológica da Igreja."

O fator histórico, segundo ele, se dá pela mais "trágica e penosa" das divisões no catolicismo e o sincretismo entre Ortodoxos e Católicos em relação a dogmas da Igreja Antiga, a iconografia e a vida litúrgica.



"Nenhuma Igreja poderia reivindicar agora a totalidade do patrimônio cultural do calcedonismo oriental e ocidental - quer dizer, a correta interpretação cristológica, e, conseqüentemente, trinitária e soteriológica do Evangelho. O resultado da conseqüente rivalidade e conflito foi a criação de uma invisível linha divisória no meio da Europa."

Ao analisar mais delicadamente este fragmento do discurso, percebemos a necessidade da união com os ortodoxos para reparar problemas históricos, reviver a “tradição cristã” e restaurar a comunhão da cultura patrística quebrada com o cisma. No entanto, sem mudanças na já instaurada política católica como pode ser visto no seguinte parágrafo:



"(...) deveria considerar o papel do bispo de Roma como um “primado universal” no serviço da comunhão global das igrejas. Um dos mais amados títulos do bispo de Roma para o ocidente medieval era o de papa universalis, e enquanto não se possa nem se deva resumir todos os aspectos de eclesiologia latina no período da alta Idade Média, para um cristão católico a comunhão universal das igrejas locais em sua variedade múltipla precisa de um pai no Papa, da mesma maneira que como a própria igreja local, com suas congregações variadas, ministérios e atividades, precisa de um pai na pessoa do bispo."

A razão teológica aparece em seu discurso como o grupo ortodoxo em convergência com a tradição cristã, isto é, suas práticas são autênticas na visão do Frei, mas que se separaram do 'caminho correto'.



"Pois as igrejas ortodoxas são igrejas na sucessão apostólica; elas são portadoras da Tradição apostólica, testemunhas da fé apostólica, do culto e da ordem – embora elas também estejam, ao mesmo tempo, infelizmente separadas da prima sedes, a primeira sé."

Esta ideia de tradição à qual o frei se refere nos parece que a ortodoxia é a parcela dos cristãos mais próxima aos católicos, seus ritos e práticas têm afinidade (em relação aos protestantes, por exemplo), e é disso que a Igreja Católica precisa nesse momento.

A razão prática se dá em relação à teologia e a catequese, a liturgia e a espiritualidade, a vida religiosa e a ética cristã em geral e, segundo ele, ela fornece em todos estes aspectos, um contrapeso útil, capaz de equilibrar certas características do atual catolicismo ocidental.

"Em todas estas áreas, ou ao menos na maioria delas, os ortodoxos possuem uma boa postura capaz de estabilizar o catolicismo."

"A teologia ortodoxa, em todas suas formas, é um chamado à renovação de nossas mentes em Cristo, tal renovação não tem como regra a pura razão ou a cultura secular, mas na pregação apostólica atestada pelos Santos Padres."

Este trecho nos remete novamente à ideia de que os ortodoxos são a pequena parcela de cristãos que ainda mantém alguma afinidade com os católicos. Afinidade essa chamada de Dogma (A Trindade Santa, o Deus-homem, a Mãe de Deus e os santos, a Igreja como o mistério do Reino expresso em uma vida comum na terra, os sacramentos como meios para a deificação da humanidade).



"A animosidade, na verdade a fúria mal-disfarçada, com que muitos ortodoxos reagem ao tema do uniatismo quase não tem explicação. A não ser em termos de um difundido e não prontamente defensável sentimento ortodoxo sobre a relação entre a nação e a Igreja. Na verdade, deve haver algum fator de psicologia social ou ideologia incorporada que complicam este tema."

Aqui Aidan Nichols tenta achar algum motivo para os ortodoxos rechaçarem a ideia de se unirem ao papa, colocando-o como um motivo social ou psicológico por trás da escolha.

Percebemos um contracenso do Frei neste caso, ao falar que a religião deve deixar de ser um importante aspecto da construção da identidade de um povo, seja ela ligada à terra ou à imigração (secularização) para se fundir com outra pra combaterem a secularização.

"É o vínculo íntimo entre Igreja e consciência nacional, consciência patriótica que faz o uniatismo tão absolutamente inaceitável (...) e é este fenômeno de nacionalismo ortodoxo que eu acho a característica menos atraente da ortodoxia hoje."

Em uma religião professada majoritariamente por descendentes, é inerente à prática o sentimento de consciência nacional. Elemento da construção identitária denominada "Diáspora" por Coneglian no caso muçulmano, porém são questões fundamentais comuns para grupos imigrantes e consistem nos desafios propostos àqueles na condição de imigrados, na ideia de que os valores culturais serão ameaçados de dissolução no novo ambiente, nas diferentes práticas e reinterpretações da religião.

Portanto, essa "parceria ecumênica" nos parece a utilização da Igreja Ortodoxa como um meio para alavancar e reestruturar a Igreja Ocidental, a "reforma da cúria romana" que o Frei Aidan Nichols se refere, ou seja, a união dos Ortodoxos com o Catolicismo para fortalecer este último, para manter a soberania de Roma sobre as religiões e suas divisões.

Buscamos o discurso Ortodoxo no recorte do jornal Prácia (O Trabalho), destinadas aos descendentes de ucranianos católicos que pertencem às paróquias da Ordem dos Padres Basilianos Ucranianos. O recorte se refere a uma entrevista com Sviatoslav Shevchuk, o primaz da Igreja Greco-Católica.

Shevchuck inicia dizendo que o cristianismo vem passando por um século de ateísmo agressivo, o que nos remete ao discurso católico, levantando a questão se não seria o mesmo secularismo presente atualmente.

E para conseguirem se fortalecer precisam (católicos e ortodoxos) "redescobrir a raiz cristã e encontrar novas vias para estar presente [sic], como cristãos, na sociedade", o que nos mostra, por enquanto, uma semelhança em relação ao discurso católico.



"Em uma época de insegurança, numa sociedade onde ocorrem processos que segundo muitos já não são controláveis, se confia muito nas igrejas cristãs. Segundo pesquisas, tem mais pessoas que confiam nas igrejas cristãs do que no presidente."

Nesta frase encontramos uma contradição, sendo que o grande problema é a secularização, como pode ter então essa confiança na igreja? No próximo recorte, o primaz vai contra o que o discurso católico pronunciou, dizendo que "o cristianismo desenvolve um papel chave na unidade nacional da Ucrânia", nos confirmando a necessidade da religiosidade na construção da identidade nacional e de imigrantes.

Com esta rápida análise dos discursos católico e ortodoxo, entendemos que eles convergem no momento em que identificam uma fraqueza no cristianismo na contemporaneidade frente à secularização, e que o estreitamento dos laços entre as duas vertentes do cristianismo viria ajudar no fortalecimento da igreja de Roma.

E divergem epistemologicamente ao não saberem direito o real significado de secularização e se contradizerem nas conceituações, quando se referem à ortodoxia como um importante fator na construção identitária de um povo enquanto imigrante ou no pertencimento a uma terra.

Passamos agora a pensar o sujeito em meio a esse processo de embate e construção de identidades através do seu discurso (a reelaboração do discurso ao qual está submetido) e suas práticas. Entendemos que o método de observação participante, privilegia a interação com as pessoas que participaram de acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, ou seja, aproxima o pesquisador do objeto de estudo.

No entanto, percebemos que ela não documenta nada além de uma versão do passado, assim, tomamos relatórios produzidos em campo como documento, no entanto, o objeto documentado não é “o passado como efetivamente ocorreu”, como diz Verena Alberti (1990) se referindo a uma historia positivista, mas sim as versões dos sujeitos.

Levamos, ainda, em consideração que a participação do pesquisador na produção do documento de historia presente permite uma constante avaliação deste documento ainda durante a sua construção, e esta particularidade do documento permite recuperar informações que não são possíveis de encontrar em documentos de outra natureza como, por exemplo, experiências pessoais, acontecimentos pouco esclarecidos e impressões particulares.

Verticalização dos discursos

A intenção é compreender a recepção do fiel, lembremos então de Robert Darnton (1990) ao interpretar a obra de Ginzburg, o moleiro recebia mensagens transmitidas de cima para baixo, ele lia transformando o conteúdo em material à sua disposição, logo, saiam da horizontal e se verticalizam, nesse sentido, buscamos fazer cruzamentos de intenções e interesses que caracterizam na recepção desses discursos e a percepção da identidade do grupo.

O método de observação participante nos coloca diante das experiências religiosas, possibilitando uma percepção aprofundada das representações e práticas que constituem o cotidiano dos fiéis que recebem os discursos institucionalizados.

Assim, o papel do pesquisador é compreender as palavras e os silêncios, as articulações dos dois discursos apresentados produzem um terceiro que é a tradução dessa relação entre instituição e sujeito.

Segundo Tim May (2001), a pesquisa de campo é um processo no qual investigador e sujeito estabelecem relacionamento por um longo período com atuação do objeto de estudo na sua situação natural com o propósito de desenvolver um entendimento científico do grupo.

Então, a observação participativa nos coloca atuando a partir do olhar do outro, procurando “redescobrir as significações investidas nas formas simbólicas das quais a cultura se utiliza” (CHARTIER, 1992, p.7). A utilização desse método leva o pesquisador vivenciar os eventos, agindo de acordo com as “normas”, participando das interações e dos ritos. Esse método corresponde à assimilação de tempo, lugar e circunstâncias (PROENÇA, 2008).

Desde 2009 até hoje, temos elaborado relatórios de análise das observações participantes, realizado num dos espaços dos ucranianos na cidade de Ponta Grossa – PR, na Igreja Ortodoxa Ucraniana, Paróquia São Jorge Protetor situada na rua Rodrigo Otavio - vila Marina, além desse templo, durante esse período tivemos contato com ucranianos ortodoxos de outras localidades como Apucarana e Irati (Colônia Gonçalves Junior), sendo recebidos em seus templos, acolhidos em suas casas e trabalho, ao nos inserimos em diferentes atividades do grupo podemos educar o nosso olhar a ponto de reconhecermos expressões que vão para além das palavras.

A cultura ucraniana (ortodoxa) é fundada em torno de muitos signos e imagens que caracterizam práticas religiosas e também nacionais, isso vai de encontro com aquilo que vimos na divergência dos discursos institucionais, os espaços religiosos, assim como os discursos tem função de criar estruturas de sentimentos onde os sujeitos se compreendem. Durante o processamento dos dados coletados essas estruturas se tornam mais compreensíveis para o pesquisador.

Em campo nos deparamos com vários aspectos construtivos da Igreja Ortodoxa Ucraniana e da celebração, em todo espaço vemos a preservação de uma cultura herdada de seus antepassados, em uma primeira conversa com os ucranianos percebemos a preocupação em nos situar sobre as suas origens (a Igreja Primitiva, o cisma, as dificuldades dos ucranianos na Ucrânia) eram assunto dessas conversas, muitas vezes no café, de antemão pensamos que isso acontecia por sermos historiadores, porém existe uma simbologia em suas casas e na igreja que demonstra essa preocupação, retratos, quadros, objetos que remetem a isso.

Outro ponto era quando perguntávamos sobre as distinções entre a Igreja Católica e Ortodoxa, eles nos narravam as práticas litúrgicas ortodoxas e como elas eram realizadas, o lugar de cada um dentro da Igreja, sendo mulher ou homem, a questão do celibato, a comunhão, a preparação da celebração, nessas explicações pudemos observar os bastidores desse preparo. Quando eles se referiam a Igreja Católica por mais respeitosa que fosse, eles deixavam claro que a Igreja Ortodoxa é a verdadeira Igreja Cristã, pois os ritos nunca foram modificados, “é a mesma de anos atrás”, prossegue com a mesma liturgia, rituais e símbolos. Essa afirmação ocorreu nos três locais citados anteriormente, a expressão mais interessante sobre isso foi em Gonçalves Junior, pois a Igreja Católica Ucraniana fica a poucos metros da Ortodoxa, onde ficou clara essa afirmação. Ao especular sobre a relação atualmente:

Muitas pessoas tendem a "diminuir" os fatos e criar conclusões um tanto precipitadas. Não, as coisas não estão nesse nível, apesar do diálogo ter aumentado bastante. Desde a retirada das excomunhões, foi possível que uma Igreja conhecesse melhor a outra, e que algumas coisas mal entendidas sobre elas mesmas pudessem ser resolvidas”.

Então, o que foi melhorado foi o diálogo. Fora isso, nada mudou. Continuamos sendo "Igrejas diferentes" (Relato escrito por um ortodoxo)”.

Conforme Proença (2008), um aspecto importante é a compreensão de que a vida social não é fixa, mas dinâmica e mutável”, compreendemos que mesmo havendo um diálogo entre as instituições num processo gradualmente lento, a religião é condutora desses sujeitos, os fiéis ucranianos recebem os discursos e elaboram suas noções de identidade, pertencimento, tradição que vão caracterizar as suas representações. Assim, a observação “ajuda o pesquisador a “identificar e obter provas a respeito de objetivos sobre os quais os indivíduos não têm consciência, mas que orientam seu comportamento” (LAKATOS, 1996, p.79 apud BONI e QUARESMA 2005).

Considerações finais

A intenção do nosso trabalho era confrontar os discursos de diferentes formas para compreender as necessidades desses grupos, pois eles causam impacto entre os ucranianos e descendentes que, em contraste desses, definem as suas relações e práticas sociais dentro das tensões herdadas e vão contrapor o que era conhecido pelas suas tradições.

Para analisarmos essas fontes foram utilizadas a análise de discurso e a observação participante, o discurso não parte dos sujeitos, e sim, é controlado por procedimentos que afastam as lacunas, entre os procedimentos há a interdição que delimita quando e onde o sujeito pode falar, lembramos que não é apenas a tradução de sistemas de dominação.

Diante dos nossos estudos, e a partir dos pressupostos apresentados, consideramos que há um investimento, principalmente pelo Catolicismo, por reabrir o diálogo entre as instituições cristãs, pois tem se preocupado com a existência da Igreja na modernidade devido ao secularismo. Essas investidas têm sido cada vez mais evidentes e frequentes com outras religiões pelo novo Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio).


Referencias Bibliográficas

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FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 3 ed. São Paulo, Loyola, 1996.

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Fontes:

ECLESIA: Uma Visão Católica da Ortodoxia: produzido pelo Frei Aidan Nichols biblioteca do http://www.ecclesia.com.br consultado em maio de 2013.



PRÁCIA: Ucrânia: Excelente relação com os Ortodoxos: recorte da primeira página de 01 a 15 de março de 2012.
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