ANÁlise de vidas secas de graciliano ramos



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OBRAS

DA UNIT VESTIBULAR 2007 1




ANÁLISE DE VIDAS SECAS

DE

GRACILIANO RAMOS



I – O AUTOR


Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais "Correio da Manhã e A Tarde", passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927. Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu "Memórias do Cárcere", um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro. Graciliano estreou em 1933 com "Caetés", mas é São Berdado, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram "Angustia" (1936) e Vidas Secas (1938) inspirando-se em Machado de Assis.

II – RESUMO DO ENREDO


A obra começa com a fuga de uma família da trágica seca do sertão nordestino: Fabiano, o pai, Sinhá-Vitória, a mãe, os dois filhos e a cachorra Baleia. Fabiano é um vaqueiro, homem bruto que tem enorme dificuldade em articular palavras e pensamentos, que se sente um bicho e muitas vezes age como tal, grunhindo e se portando como um selvagem. Não tem aspirações e nem esperanças, do mesmo modo como não se tolera e não tolera o mundo em que vive. Sinhá-Vitória, sua esposa, se sai melhor em seus pensamentos e diálogos, apesar de restritos. Seu sonho é uma cama de couro, como a de um homem chamado Tomás da bolandeira. Essa personagem, que nunca aparece a não ser na memória das outras personagens, é também uma espécie de herói e modelo para Fabiano: culto, detentor de sabedoria, da arte da palavra e do pensamento, por isso mesmo admirado.

O menino mais novo parece não ter nome e nem uma forma comum de se comunicar. Sua única aspiração é ser como Fabiano. Nas mesmas situações está o filho mais velho, que só quer um amigo, conformando-se com a presença da cachorra Baleia. Esta, muitas vezes, parece ter um pensamento mais linear e humano que o resto da família, portando-se não só como um bicho, mas como um ente, uma companheira que ajuda Fabiano e sua gente a suportar as péssimas condições.

A história se desenvolve com o estabelecimento da família numa fazenda e a contratação de Fabiano como vaqueiro. Este, certa ocasião, vai até a venda comprar mantimentos e se põe a beber. Aparece um policial, chamado por Fabiano de Homem Amarelo, que o chama para jogar baralho com outros. O jogo acontece e, numa desavença com o Soldado Amarelo, Fabiano acaba sendo preso, maltratado e humilhado. Aumenta sua insatisfação com o mundo, com sua própria condição de homem bruto e selvagem do campo, e o desprezo de outras pessoas, encarnadas agora na figura do Soldado Amarelo.

Solto nosso herói, a vida segue na fazenda. Sinhá-Vitória começa a desconfiar do patrão, que parece roubar nas contas de Fabiano. Este se aborrece, mas não pode fazer nada. Não entende as complicadas contas que o patrão faz, e não sabe dialogar com ele. A festa de natal na cidade só serve para aumentar o descontentamento de Fabiano e sua família com o resto do mundo. Sentem-se diferentes, inferiores, desprezados e humilhados por milhares de "patrões" e "soldados amarelos". Baleia adoece e Fabiano e vê na árdua tarefa de sacrificá-la. Fere o pobre bicho com um tiro, mas não consegue matá-lo, já que este foge para longe. Baleia vem a falecer durante a noite, perto da casa, sonhando com um mundo cheio de lebres...

Sentindo-se cada vez mais lesado pelo patrão, Fabiano resolve argumentar contra esse, mas, sob ameaça de despejo, resolve deixar o assunto quieto, o que lhe causa uma indignação cada vez maior. Sua indignação com o mundo chega ao extremo quando encontra, na volta da venda após ter tomado alguns goles, o Soldado Amarelo, que estava perdido no mato. Fabiano percebe o seu medo e seu corpo franzino em relação ao seu, e tem a idéia de matá-lo, descontar toda a sua raiva e seu descontentamento. Sentindo-se, entretanto, fraco e impossibilitado, resolve deixar pra lá, ensinando o caminho de volta para a cidade ao soldado. Seu sentimento de revolta é agora intensificado pela impotência...

Como não bastasse, a seca atinge a fazenda e faz com que toda a família fuja novamente, só que esta vez para o sul, em busca da cidade grande, sem destino e sem esperança de vida.



III – UM ROMANCE ENGAJADO


Publicado em 1938, Vidas secas denuncia, por meio do destino da família de Fabiano, os dramas das populações miseráveis nordestinas. Mais que acuadas pela seca, elas sofrem por conta de uma ordem social e econômica injusta, que se mantém desde o período colonial brasileiro. A obra de Graciliano Ramos filia-se, assim, à tendência, predominante na 2.a fase do Modernismo, à literatura engajada, isto é, literatura como instrumento de análise e conscientização crítica dos problemas políticos e sociais da nação. Nesse aspecto, os chamados "romances dos anos 30", como ficaram conhecidos os textos em prosa dessa fase, dão continuidade à tradição cultivada durante o Realismo do século XIX e ao Pré-modernismo do século XX, momentos em que se desmistificou a idealização de um Brasil paradisíaco, "poético", destinado à prosperidade e de um povo brasileiro destemido, saudável e satisfeito. Inspirados em larga escala pela crítica marxista ao sistema capitalista, os escritores de 30 - em grande parte provenientes do Nordeste - abordaram o Brasil da seca, do messianismo e do autoritarismo dos coronéis, transformaram em protagonista o brasileiro "não-cidadão", desamparado, vítima da distribuição desigual do capital e dos meios de produção.

IV – A MODERNIDADE DE VIDAS SECAS


A obra é composta de modo que o período de chuvas, que permite um mínimo de conforto à família, seja limitado por dois momentos de desespero causado pela seca. O capítulo inicial "Mudança" e o capítulo final "Fuga" apresentam a mesma situação: a família, expulsa pela estiagem, está em busca de um local onde possa dar continuidade a uma existência de todo modo precária. Dessa maneira, a estrutura da narrativa estabelece um ciclo, como que simbolizando o próprio ciclo natural e, mais importante, a ausência de escapatória, a inevitabilidade da miséria.
Cada um dos 13 capítulos que compõem a novela é independente, apresentando unidade interna e autonomia de enredo. Em muitos deles apenas uma personagem da família merece destaque. Note-se que inclusive há um capítulo reservado a cada personagem principal: "Fabiano", "Sinha Vitória", "O menino mais novo", "O menino mais velho". Nos capítulos em que toda a família está reunida, ou se trata de uma situação de necessidade ("Mudança", e "Fuga"), ou a família como um todo é que está isolada, opondo-se ao mundo ameaçador da cidade ("Festa"). Dito de outro modo, é como se a obra fosse uma colagem de flashes da realidade, cada qual tendo como centro uma personagem, técnica que enfatiza o isolamento de cada um dos membros da família de Fabiano. De fato, ainda que formem uma família, as personagens principais pouco se aproximam umas das outras, quase não conversam, não manifestam carinho. São mais um "bando" de gente, que um grupo social.

V – RESUMO DOS PRINCIPAIS CAPÍTULOS

No primeiro capítulo, MUDANÇA há a apresentação dos elementos básicos da narrativa. Fica-se conhecendo a família de Fabiano, retirante por causa da seca. O mais interessante é o narrador informar que eram seis sobreviventes: o papagaio, a cadela Baleia, Fabiano, sua esposa Sinha Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho. Dessa forma, igualam-se animais e humanos no massacre da seca. É também importante lembrar que, no desespero da fome, o papagaio havia sido comido antes de iniciada a narrativa, pois era inútil: não sabia falar; latia. Sua incapacidade, no entanto, deve ser vista como perfeitamente lógica, pois não podia aprender a falar se o uso da linguagem é a principal dificuldade na família em que estava. O único integrante mais sociável, mais afetivo, é justamente Baleia.


O terceiro capítulo, “CADEIA”, já mostra Fabiano na cidade, fazendo compras. É convidado pelo Soldado Amarelo a participar de uma partida, em que acaba perdendo. Levanta-se exaltado, pois imagina a bronca que receberá de Sinha Vitória. No entanto, para o soldado aquilo foi interpretado como uma ofensa, uma afronta. Vai tomar satisfações com o cabra, pisando-lhe o pé. De alpercata (alpargata), o coitado não agüenta a pressão da botina e acaba berrando, o que provoca sua prisão por desacato. No cárcere, mostra-se indignado por tudo aquilo ter acontecido por não saber falar direito. Revela-se, além da questão da opressão, a idéia, cara ao autor, de que o domínio da linguagem é sinônimo de poder, no mínimo de liberdade ou de não-exploração.
O quarto capítulo é “SINHA VITÓRIA”. Apresenta-se nele o grande sonho da protagonista: possuir uma cama de couro igual à do seu Tomás da bolandeira. Aqui também se manifesta o aspecto de a felicidade ser colocada num futuro intangível. Outro elemento a ser notado no capítulo é a maneira desconexa e primitiva do pensamento da personagem, que aqui se manifesta do mesmo nível do de Fabiano, que curava os animais com reza. Em “CONTAS”, ela leva vantagem, graças à habilidade matemática.
O capítulo mais tocante é o nono, “BALEIA”, dono da narrativa que deu origem ao romance. Nele, a cadela, doente, precisa ser sacrificada para não colocar em risco os meninos. Fabiano vai cumprir sua missão, com o propósito de expedir um tiro certeiro na cabeça do animal, o que evitaria sofrimento. No entanto, erra e acerta-lhe os quartos (região lombar). A primeira intenção da cadela é atacar quem a feriu. Porém, quando percebem quem foi o autor, justo quem cuidou dela desde filhote, não consegue fazer nada. A partir deste capítulo um novo enfoque, talvez mais cruel e crítico, vem à tona para se associar à temática da opressão: a submissão. Baleia tem em sua mente, em seus últimos momentos, a imagem do que seria o seu paraíso, um lugar cheio de preás grandes, suculentos. Consegue superar, em sua capacidade de raciocínio transcendental, os membros da família de Fabiano.
O décimo primeiro capítulo, “O SOLDADO AMARELO”, mostra o reencontro de Fabiano com o seu opressor. Agora, com a vantagem do vaqueiro, pois seu opositor está em meio da caatinga, sem o apoio dos companheiros de tropa. O oficial percebe sua desvantagem e passa a tremer, o que deixa Fabiano enraivecido, pois não entende como um tipo que se arvorava tanto na cidade agora tremia vergonhosamente. Ainda assim, mais uma vez o novo tempero dos dois capítulos anteriores manifesta-se: Fabiano fora “adestrado” a respeitar gente do governo, a respeitar farda. Não reage, pois. Mostra-se submisso e o soldado aproveita-se da vantagem.
No último capítulo, “FUGA”, ocorre o que já estava previsto no anterior: a família de Fabiano é expulsa mais uma vez pela seca, tornando-se retirante. A diferença, se há, é que agora alimentam esperanças de um futuro melhor, pois partem em direção ao sul (Região Sudeste, provavelmente). Contudo, deve-se notar o distanciamento que o narrador mantém, principalmente graças à manipulação das formas verbais, em relação aos sonhos de Fabiano e Sinha Vitória. Outro elemento digno de nota é o caráter cíclico que se estabelece, pois a família foge da seca no último e no primeiro capítulo. Tal aspecto é uma das explicações para o adjetivo “secas” do título da obra: reforça a idéia de que são vidas que não frutificam, não têm perspectiva de futuro.




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