ANÁlise documental e história oral: algumas abordagens metodológicas na pesquisa em história da educaçÃO



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ANÁLISE DOCUMENTAL E HISTÓRIA ORAL: ALGUMAS ABORDAGENS METODOLÓGICAS NA PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
Vanessa Barrozo Teixeira1

Elomar Tambara2


Palavras-chave: Análise documental; História Oral; História das instituições escolares;
Resumo

Este trabalho tem como objetivo evidenciar a importância do uso da entrevista, com base na metodologia de História Oral, e da análise documental em pesquisas que abordam instituições escolares, no âmbito da História da Educação. Logo, é importante salientar que no ponto de vista de Gil (1999), a análise com base nas fontes documentais, possibilita ao pesquisador a investigação dos processos de mudança social e cultural, a obtenção de dados com menor custo e uma possível leitura do que foi produzido no passado. Já em relação ao uso de entrevistas, o mesmo autor afirma que a entrevista é uma das técnicas de coletas de dados mais utilizadas em pesquisas qualitativas, além de ser uma técnica flexível e muito eficiente para a obtenção de dados em profundidade acerca do comportamento humano. Nessa perspectiva, é preciso ressaltar que a tipologia de entrevista que almeja-se discutir nesse trabalho são aquelas embasadas pela metodologia da História Oral, a qual, segundo Ferreira e Amado (2006) permiti a coleta de dados e a análise dos mesmos com problematização histórica. Assim, podendo favorecer a análise de outros documentos através do cruzamento destes com as fontes orais, possibilitando novas interpretações, bem como a construção de novas fontes a partir do documento transcrito. Dado o exposto, é pertinente frisar que essa discussão tem como cenário uma pesquisa de dissertação, que tem como objeto a Escola de Engenharia Industrial, primeira instituição de ensino superior da cidade de Rio Grande, criada na década de 1950. Por meio desta temática, a opção pela indissociabilização desses métodos permitiu perceber sua importância, em relação à compreensão do processo histórico da Escola de Engenharia Industrial e auxiliou a problematização das fontes materiais existentes, formulando questões sobre a história institucional. Essa metodologia produz as fontes a partir da oralidade, contudo, como todas as fontes, a análise teórica deve ser feita, a partir da História, em específico, da História da Educação. A partir dos testemunhos de sujeitos que vivenciaram a trajetória desta instituição, será possível adquirir novas leituras, novas reflexões acerca da temática, além de auxiliar na complementação da própria análise documental.


Introdução
Este trabalho visa destacar o uso das metodologias de entrevista, baseadas no método de História Oral, juntamente com a análise documental no âmbito da História da Educação. Enfatizando a aplicação destas metodologias em pesquisas que abordam a questão das instituições escolares, objeto que envolve tanto as fontes materiais, como por exemplo, documentos oficiais produzidos pela instituição, como os próprios sujeitos que vivenciaram a trajetória da mesma, como, por exemplo, ex-professores e ex-alunos.

Desse modo, a análise documental associada às entrevistas que serão desenvolvidas ao longo da pesquisa, proporcionarão uma análise mais profunda e complexa, por meio do entrecruzamento das fontes materiais com as fontes orais, criando uma problematização necessária e de caráter científico para a pesquisa qualitativa. O presente estudo se refere ao questionamento relativo à constituição do primeiro curso de ensino superior da cidade do Rio Grande na década de 1950, a Escola de Engenharia Industrial. Esta investigação, recentemente iniciada, utiliza a análise documental e almeja utilizar ao longo do desenvolvimento do trabalho, entrevistas com a metodologia da História Oral visando contribuir na construção e na interpretação das fontes documentais que constituem a história desta instituição. Com isso, pretende-se compreender um pouco mais sobre a trajetória desta instituição de ensino superior, além de possibilitar novas interpretações sobre a mesma, o contexto histórico da época e trazer a possibilidade de se trabalhar com diferentes fontes documentais em uma pesquisa sobre História da Educação.

Portanto, em um primeiro momento pretende-se destacar o objeto de análise desta pesquisa qualitativa, a Escola de Engenharia Industrial, e a possibilidade de fontes documentais sobre esta instituição. Logo em seguida será abordada a relevância das instituições escolares enquanto fontes de pesquisa. Posteriormente, serão discutidas as duas metodologias que serão utilizadas nesta pesquisa, a análise documental e a entrevista. Seguindo esta mesma ideia, será abordado o uso de entrevistas com base no método de História Oral, que será conceituado e serão demonstrados alguns motivos que, possivelmente, levarão à aplicação desta metodologia ao longo da pesquisa.


  1. Escola de Engenharia Industrial: fontes materiais e orais

A Escola de Engenharia Industrial (EEI) foi o primeiro curso de ensino superior da cidade do Rio Grande. Criado na década de 1950, já vinha sendo pensado desde o final do século XIX, quando o comerciante Antônio de Lemos Júnior (BORTHEIRY, 2008, p. 186), deixa em testamento uma relevante quantia de dinheiro para a Intendência, atual Prefeitura Municipal, para que esta providenciasse a instalação de um Curso de Engenharia. O dinheiro não foi suficiente para a criação de uma faculdade, mas deu origem a uma escola de nível médio, o Ginásio Municipal Lemos Júnior, em 1906.

No início da década de 1950, conforme Magalhães (1997) costumavam se reunir nos cafés da cidade engenheiros, químicos e outros profissionais de nível superior que residiam e trabalhavam nas indústrias locais, para discutir sobre a necessidade da criação de uma faculdade. E pensar em uma Escola de Engenharia era bastante plausível, afinal nesta época Rio Grande possuía um parque industrial de grande valor.
Mesmo que começasse sem patrimônio aparente, uma escola de engenharia teria à disposição, desde logo, os muitos bilhões de cruzeiros aplicados nos laboratórios e na maquinaria moderna de setores como a Usina Elétrica, a Hidráulica, as instalações portuárias, as fábricas de tecidos, os grandes frigoríficos, a destilaria de petróleo, as fábricas de produtos alimentícios [...] (MAGALHÃES, 1997, p.18).
Este movimento reuniu grandes profissionais locais, como o Engº Cícero Marques Vassão, que era diretor do Departamento Nacional de Portos, Rios e Canais, Fernando Duprat da Silva, Fernando Abott Torres, Alfredo Huch, Heitor Amaro Barcellos, Fuad Abdalla Nader, Roberto Bastos Telechea, Thomas Paes da Cunha, Eliézer de Carvalho Rios e o Engº Francisco Martins Bastos, representante da Refinaria de Petróleo Ipiranga. Este seleto grupo passa então a pensar em na criação de uma Faculdade de Engenharia e também na fundação de um Museu Oceanográfico (MAGALHÃES, 1997, p. 18).

O Engº Francisco Martins Bastos, então diretor-presidente da Refinaria de Petróleo Ipiranga S/A, foi um personagem importante nesta ação, participando ativamente das questões burocráticas e políticas que envolveram a criação da EEI, bem como do apoio capital fornecido pela empresa, uma das principais indústrias petrolíferas do Brasil3.

Inicialmente projetou-se a idéia de criação de um curso em nível técnico para preparara auxiliares de engenheiro, o que teria um rápido retorno às indústrias. No entanto, após uma reunião com o então Reitor da URGS (Universidade do Rio Grande do Sul) Eliseu Paglioli, surge a idéia de se criar uma fundação privada que pudesse, dessa forma, manter a Escola de Engenharia.

Em julho de 1953 fica instituída a Fundação Cidade do Rio Grande sob a presidência do Engº Francisco Martins Bastos (MAGALHÃES, 1997, p. 20), que tinha como principais metas promover a criação de um curso superior de Engenharia, além de poder instituir, de acordo com as necessidades, outras escolas de caráter técnico ou superior. No dia 8 de setembro deste mesmo ano, é fundado na Praça Tamandaré, o Museu Oceanográfico, deixando claro que a Fundação Cidade tinha reais intenções de acrescentar ao município de Rio Grande, uma mudanças culturais e educacionais de qualidade.

Conforme Altmayer foram oito os instituidores que fizeram parte da constituição e manutenção da Fundação Cidade do Rio Grande: Prefeitura Municipal do Rio Grande, então representada pelo Prefeito Frederico Ernesto Buchholz; Ipiranga S/A Cia Brasileira de Petróleos, representada pelo Engº Francisco Martins Bastos; Cia União Fabril e Cia Fiação e Tecelagem Rio Grande, representada pelo Engº João de Miranda Rheingantz; Câmara do Comércio da Cidade do Rio Grande, representada pelo Dr. Jorge da Cunha Amaral; Luiz Loréa S/A Comércio e Indústria, representado por Eurico Bianchini; Abdalla Nader, representado pelo Economista Fuad Nader e Cunha Amaral e Cia Ltda, representada pelo Sr. Jorge José Amaral Hormain. Além da Shell do Brasil Ltda, da ESSO Standard Oil do Brasil e da Viação Férrea do Rio Grande do Sul como colaboradores na criação da EEI (ALTMAYER, 2003, p. 16-19).

O decreto de autorização da Escola foi assinado por João Café Filho em 1956 e o decreto de reconhecimento em 1959, aconteceu na segunda metade do mandato de Juscelino Kubitschek (MAGALHÃES, 1997, p. 25). Logo após a formação da primeira turma da EEI em 1960, acontece a federalização da Escola, em maio de 1961, ligando-a diretamente à Diretoria de Ensino Superior do Ministério da Educação e Cultura, como uma faculdade isolada. Com esta nova denominação, a Faculdade de Engenharia Industrial do Rio Grande passa a manter os cursos de Engenharia Industrial Mecânica, Engenharia Industrial Química e o Instituto de Pesquisas e Orientação Industrial (IPOI), responsável por mais tarde implementar o Colégio Técnico Industrial de Rio Grande (CTI).

Durante alguns anos, a Escola funcionou em um espaço cedido pela Biblioteca Rio-grandense, onde mantinha sua secretaria, salas de aula, biblioteca específica e os laboratórios para as aulas práticas eram cedidos pelas empresas industriais locais4. No entanto, já no primeiro ano da EEI, a Fundação Cidade compra um terreno de 56.000 m² para a instalação da Escola. Em 1960, juntamente com a graduação da primeira turma de engenheiros, é inaugurado o prédio da EEI, com as oficinas, laboratórios, salas de aula e biblioteca.

Conhecer a história desta instituição e sua relevância como sendo a primeira instituição de ensino superior da cidade do Rio Grande, faz com que seja necessário a problematização das fontes documentais que serão analisadas no decorrer da pesquisa. Tais fontes podem ser encontradas em diferentes locais de pesquisa, como, por exemplo, Arquivo Histórico da Prefeitura Municipal do Rio Grande, Biblioteca Rio-Grandense, entre outros. Entretanto, um museu em específico guarda uma documentação fundamental sobre esta memória institucional, este local é o Núcleo de Memória Engº Francisco Martins Bastos (NUME). Museu pertencente à Universidade Federal do Rio Grande (FURG) possui em seu acervo a história da universidade e a história das primeiras instituições de ensino superior da cidade, dentre as quais se encontra a EEI.

Um acervo que reúne objetos da cultura material escolar, como instrumentos de cálculo, flâmulas e uniformes, um acervo fotográfico que reúne além de fotografias individuais, alguns álbuns e também documentos redigidos pela própria instituição, como atas, regimentos e relatórios. Por esta diversidade e relevância histórica, este acervo museológico acabou se transformando na fonte principal de análise da pesquisa, onde dela partem questionamentos, novas interpretações e direcionamentos para diferentes acervos.

O contato com estas fontes em um primeiro momento foi fundamental para conhecer a instituição através dos documentos produzidos pela mesma, mas é importante que se busque um “distanciamento” do olhar da instituição para poder problematizá-la e assim produzir um trabalho científico e significativo no âmbito da História da Educação. Logo, a realização de entrevistas associadas com a análise documental possibilitará esse novo olhar a partir dos sujeitos que participaram da trajetória e da história desta instituição, possibilitando novas versões, novas interpretações e novos questionamentos acerca de um documento dito oficial, ou seja, um documento que foi produzido pela Escola de Engenharia.




  1. As instituições escolares como fonte de pesquisa em História da Educação

A pesquisa sobre instituições escolares surge dentro da História da Educação como uma possibilidade de análise de uma história institucional que corresponde à memória de um local, de um contexto e de indivíduos. Como afirma Magalhães, “a instituição é contexto, representação, materialidade e é apropriação” (2004, p. 67) e dentro dessa perspectiva é que se pretende considerar este objeto, buscando problematizar a trajetória desta escola.


A história das instituições educacionais integra uma tendência recente da historiografia, que confere relevância epistemológica e temática ao exame das singularidades sociais em detrimento das precipitadas análises de conjunto, que, sobretudo na área educacional, faziam-se presentes (GATTI JÚNIOR, 2002, p. 4).

Pesquisar uma instituição escolar, neste caso específico esta Escola de Engenharia, visa contribuir para a construção de narrativas acerca desta escola, bem como formular novas interpretações deste local significativo para a história da educação da cidade do Rio Grande. Este novo foco da historiografia, característico da História Cultural5, mudando a perspectiva do geral ao particular tem a intenção de demonstrar as diferenças e as semelhanças existentes nas singularidades de cada objeto de análise, privilegiando as instituições como “um arsenal de fontes e de informações fundamentais para a formulação de interpretações sobre elas próprias e, sobretudo, sobre a história da educação brasileira” (GATTI JÚNIOR, 2002, p. 4).

Importante ressaltar que a história das instituições dentro da História da Educação engloba uma série de análises possíveis, como a arquitetura do prédio, a cultura material escolar, as relações sociais e políticas, dentre outras. Essa gama de possibilidades é justificada através da própria constituição da História da Educação como domínio científico, enfatizada por Justino Magalhães como “[...] um campo em aberto, marcado pela construção de novos campos e objetos de investigação, por uma associação investigação-ação, por uma renovação conceitual e epistêmica de base interdisciplinar” (2002, p. 71).
O regresso aos arquivos a partir de problemáticas complexas, interpretadas mediante uma hermenêutica de presente-passado e informadas numa base de abertura e de cruzamento de fontes orais, museológicas, imagéticas, compreendidas e explicadas por meio de uma dialética entre historicismo e hermenêutica, vê fomentando uma história conceitualizante e aberta à interdisciplinaridade, que permite articular, de forma substantiva, e integrar, de forma intelectiva, os processos de institucionalização e de inovação do educacional (MAGALHÃES, 2002, p. 92).

A história das instituições escolares também necessita da memória individual e coletiva daqueles que vivenciaram as diferentes épocas da instituição. Através das narrativas orais, realizadas por meio de entrevistas, a memória a partir da experiência do indivíduo, torna-se um importante aliado do pesquisador na construção do discurso. Werle (2002) defende que apesar da subjetividade que envolve as narrativas orais, com seus esquecimentos e silêncios, é importante levá-las em consideração, como uma das possíveis fontes de pesquisa. Novamente a autora ressalta a pluralidade de histórias e leituras que podem ser feitas sobre a história das instituições escolares, e que não se pretende construir uma visão objetiva e verdadeira.

Toda essa pluralidade de fontes possíveis é uma especificidade da História da Educação, que permite novas investigações e também o entrecruzamento de diferentes tipologias documentais. Desse modo, estudar a história de instituições escolares, espaços repletos de valores e ideias educacionais, possibilita novas interpretações e compreensões acerca da história da educação brasileira e as metodologias utilizadas para analisar estas fontes precisam ser definidas e possíveis de aplicação de acordo com o objeto de pesquisa.


  1. O uso dos métodos de análise documental e de entrevista em pesquisa qualitativa

A pesquisa qualitativa em educação envolve coleta de dados e análise das informações, André respaldada por Eisner (1983, p. 66), afirma que o uso dos dados qualitativos possibilita capturar os diferentes significados das experiências vividas no ambiente escolar de modo a auxiliar a compreensão das relações entre indivíduos, seu contexto e suas ações. Também é considerada uma pesquisa de caráter específico e que não deve ser generalizada.

Quando definido o tipo de pesquisa que se pretende realizar, é necessário que se definam os métodos que serão utilizados durante o desenvolvimento do trabalho. A utilização dos métodos da análise documental e da entrevista pode ser considerada de grande relevância para pesquisas que tem como objeto de investigação as instituições escolares, um novo foco na historiografia da educação e que reúne uma variedade de fontes de análise.
A história das instituições educativas constitui um domínio do conhecimento em que se tem operado uma profunda alteração metodológica, uma vez que a uma narrativa de natureza cronística e memorialista, que enforma as representações e os relatos orais dos actores, se preocupa em contrapor uma base de informação arquivística, sob uma heurística e uma hermenêutica complexas, problematizantes e centradas na instituição educativa como totalidade em organização e desenvolvimento. Uma história construída da(s) memória(s) para o arquivo e do arquivo para a memória, intentando uma síntese multidimensional que traduza um itinerário pedagógico, uma identidade histórica, uma realidade em evolução, um projecto pedagógico (MAGALHÃES, 1998, p. 61).

O método de análise documental, segundo Lüdke e André (1986, p. 38) pode ser definido como uma “técnica valiosa de abordagem de dados qualitativos, seja completando as informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema”. Além disso, os autores reforçam que o uso de documentos oferece uma maior estabilidade aos resultados que são obtidos, assim como:


[...] constituem também uma fonte poderosa de onde podem ser retiradas evidências que fundamentem afirmações e declarações do pesquisador. Representam ainda uma fonte “natural” de informação. Não são apenas uma fonte de informação contextualizada, mas surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto (idem, 1986, p. 39).
Através desta definição constata-se a possibilidade da utilização da entrevista associada com a análise documental, como forma de problematizar as fontes e aprofundar as questões acerca do objeto em questão. A entrevista também é um método bastante utilizado em pesquisa qualitativa, como forma de coleta de dados e construção de narrativas. Além dessas considerações, a entrevista aborda a interação entre pesquisador e entrevistado, e a subjetividade existente na entrevista e nos documentos que são constituídos a partir dela.
A entrevista como fonte de informação pode nos fornecer dados secundários e primários de duas naturezas: (a) os primeiros dizem respeito a fatos que o pesquisador poderia conseguir por meio de outras fontes como censos, estatísticas, registros civis, documentos, atestados de óbitos e outros; (b) os segundos – que são objetos principais da investigação qualitativa – referem-se a informações diretamente construídas no diálogo com o indivíduo entrevistado e tratam da reflexão do próprio sujeito sobre a realidade que vivencia. Os cientistas sociais costumam denominar esses últimos de dados “subjetivos”, pois só podem ser conseguidos com a contribuição da pessoa. Constituem uma representação da realidade: ideias, crenças, maneira de pensar; opiniões, sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; condutas; projeções para o futuro; razões conscientes ou inconscientes de determinadas atitudes e comportamentos (MINAYO, 2009, p. 65, grifos da autora).
Essa associação entre essas duas metodologias possibilita um maior aprofundamento analítico das fontes disponíveis ao pesquisador, além de serem trabalhadas e abordadas juntas em uma mesma pesquisa.


  1. A entrevista e a História Oral

A entrevista pode ser estruturada em diferentes níveis, e como ressalta Gil (1999, p. 117) “ela é uma das técnicas de coleta de dados mais utilizada no âmbito das ciências sociais”. No entanto, o estudo sobre a história das instituições escolares requer um método em específico para a construção e coleta de dados, trata-se da História Oral.

A reintrodução das fontes orais, produzidas por meio de entrevistas, como fontes possíveis de análise vem sendo abordado e questionado no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, em específico na História, desde a década de 19506. O uso dessas fontes como documentos são balizadas pelo método de História Oral, método este que aborda o uso dos testemunhos orais como fontes documentais. Considerada como metodologia, conforme Ferreira e Amado7, baseada na realização de entrevistas e na análise das mesmas, a História Oral pode favorecer a análise de outras fontes através do cruzamento destas com as fontes orais, possibilitando novas interpretações. Segundo Thompson:

A história oral não é necessariamente um instrumento de mudança; isso depende do espírito com que seja utilizada. Não obstante, a história oral pode certamente ser um meio de transformar tanto o conteúdo quanto a finalidade da história. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria história e revelar novos campos de investigação (THOMPSON, 2002, p.22).


A escolha desse método para compreender o processo histórico da Escola de Engenharia Industrial pode auxiliar a problematizar as fontes materiais existentes, formulando questões sobre a história institucional. Formando esta ponte entre teoria e prática, expressão usada por Ferreira e Amado, já que esta metodologia produz as fontes, contudo, como todas as fontes, a análise teórica deve ser feita, a partir da História, em específico, da História da Educação. A partir dos testemunhos de sujeitos que vivenciaram a trajetória desta instituição, será possível adquirir novas leituras, novas reflexões acerca da temática, sem buscar a verdade absoluta, mas sim, uma leitura, dentre tantas possíveis de serem feitas. A subjetividade encontrada nestas fontes enriquece o trabalho, acrescenta informações, emoções e valores simbólicos à história da instituição.
[...] a subjetividade existe, e constitui, além disso, uma característica indestrutível dos seres humanos. Nossa tarefa não é, pois, a de exorcizá-la, mas (sobretudo quando constitui o argumento e a própria substância de nossas fontes) a de distinguir as regras e os procedimentos que nos permitam em alguma medida compreendê-la e utilizá-la. Se formos capazes, a subjetividade se revelará mais do que uma interferência; será a maior riqueza, a maior contribuição cognitiva que chega a nós das memórias e das fontes orais (PORTELLI, 1996, p. 3-4).
Portanto, o uso da História Oral no decorrer desta pesquisa irá fundamentar a compreensão do processo histórico da Escola de Engenharia Industrial, processo este que envolveu indivíduos ao longo desta trajetória. Conforme ressalta Magalhães (2002, p. 67) “a história das instituições educativas é um campo de investigação em que a instituição e a educação se articulam por ação dos sujeitos”.

Utilizar as fontes orais, por meio da realização de entrevistas, como mais uma possibilidade de análise dentro da pesquisa em História da Educação é válido e positivo. Este domínio científico da História permite que sejam analisados diferentes contextos, objetos e fontes relativos à educação e seus processos históricos. Ao ser interpretada e reconhecida como uma historiografia marcada pela História Cultural (MAGALHÃES, 2002, p. 91), corrente histórica da segunda metade do século XX, definida por Peter Burke8 como sendo um novo paradigma dentro da História, principalmente pela sua interdisciplinaridade e por se interessar por toda atividade humana, acaba possibilitando uma série de novos objetos, fontes e métodos.

[...] a historiografia da educação abriu-se à filosofia, à sociologia, à psicologia, à antropologia, à linguística, alcançando uma (re)valorização conceitual e uma maior centralidade nos discursos, nas práticas educativas e nas representações simbólicas – uma historiografia marcada pela História Cultural (MAGALHÃES, 2004, p. 91).
Ao pesquisador de hoje, mais do que nunca, coloca-se o problema de analisar como a História Cultural enfrenta os desafios dos múltiplos cruzamentos possíveis a serem realizados entre os discursos que, a partir de outros pontos de observação e de compromisso com a realidade, dizem, falam e expressam sensibilidades sobre o mundo. Assumindo esta abordagem, a História Cultural se obriga ainda a defrontar-se com as outras linguagens pelas quais se representa o real e que se tornam, também, objeto da história (PESAVENTO, 2004, p.8).
Pensando por um viés antropológico, o uso das fontes orais sempre foi utilizado como documento, principalmente no que diz respeito à Etnografia. O próprio método da História Oral caracteriza-se como um método etnográfico de pesquisa, já que considera todas as observações realizadas durante a entrevista, como, por exemplo, os gestos, as emoções, os silêncios e as pausas do sujeito entrevistado. O antropólogo Clifford Geertz assinala a importância de ser realizada uma “descrição densa” àqueles relatos que têm a profundidade e os contornos que permitem uma análise antropológica substancial (BURKE, 1992, p. 193), ou seja, todo testemunho deve ser observado, analisado e problematizado com o devido embasamento teórico-metodológico necessário.

A oralidade sempre que possível, deve ser abordada, principalmente no que tange a problematização das fontes e os novos caminhos de pesquisa que podem surgir a partir dela. Os relatos orais servem como forma de auxiliar as interpretações e observações, além de possibilitar novas leituras quanto aos objetos de pesquisa. Afinal:


A história oral é uma história construída em torno de pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. [...] Paralelamente, a história oral propõe um desafio aos mitos consagrados da história, ao juízo autoritário inerente a sua tradição. E oferece os meios para uma transformação radical do sentido social da história (THOMPSON, 2002, p. 44).

Considerações finais
A pesquisa qualitativa engloba uma série de metodologias possíveis de serem aplicadas em pesquisas educacionais, contudo, tratando-se da análise sobre a história de uma instituição escolar no âmbito da História da Educação, a escolha pela análise documental associada às entrevistas baseadas na História Oral poderá auxiliar na problematização e na compreensão das fontes documentais relativas a esta instituição.

No caso da Escola de Engenharia Industrial, primeiro curso de ensino superior da cidade do Rio Grande, a coleta, a análise e a interpretação dos dados será realizada tanto pela análise documental como pelas entrevistas. Nesse caso específico, a conexão entre as duas metodologias proporcionará novas interpretações, a construção de novas narrativas e uma contribuição científica para a historiografia da educação brasileira.



Como a história da educação e neste caso, a história das instituições escolares, faz parte de um contínuo, portanto não podendo ser considerada uma seqüência linear, utilizar essas duas metodologias como base para coleta, análise e interpretação das fontes acaba sendo fundamental para poder compreender a trajetória desta instituição. Afinal, a Escola de Engenharia foi e é uma construção social, consolidada a partir de indivíduos que vivenciaram essa história e que podem contribuir para a análise e crítica aos documentos existentes, por meio das entrevistas e do entrecruzamento com a análise documental, desse modo, auxiliando o pesquisador na construção do conhecimento histórico.


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1 Bacharel em Museologia/UFPel; Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Faculdade de Educação (FAE), UFPel; Bolsista CAPES; Linha de pesquisa: Filosofia e História da Educação; Bolsista CAPES; Membro do Centro de Estudos e Investigação em História da Educação (CEIHE); Orientanda do Prof. Dr. Elomar Antonio Callegaro Tambara; vteixeira2010@gmail.com.

2 Professor Titular da Faculdade de Educação (FAE) e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) UFPel; Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Linha de pesquisa: Filosofia e História da Educação; Membro do Centro de Estudos e Investigação em História da Educação (CEIHE); tambara@ufpel.edu.br.


3 A Refinaria Ipiranga S.A. Companhia Brasileira de Petróleos é criada em 06 de agosto de 1936 e inaugurada em 07 de setembro de 1937 (ASSIS, 1997, p. 16-17).

4 Informações encontradas no Relatório de Inspeção de 1954 da Escola de Engenharia Industrial. Acervo do Núcleo de Memória Engº Francisco Martins Bastos (NUME).

5 O conceito de História Cultural e mais abordagens sobre este paradigma histórico serão explicitados no item 4.

6 JOUTARD, 2006, p. 43-46.

7 FERREIRA; AMADO, 2006, p. XIV- XV.

8 BURKE, 1992, p. 7-37.


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