Análise literária de Nota de rodapé para Uivo, de Allen Ginsberg



Baixar 60.99 Kb.
Encontro20.07.2016
Tamanho60.99 Kb.
Análise literária de Nota de rodapé para Uivo, de Allen Ginsberg

Arthur Victor Ferreira Tertuliano1


Nota de rodapé para Uivo
Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!

O mundo é santo! A alma é santa! A pele é santa! O nariz é santo! A língua e o caralho e a mão e o cu são santos!

Tudo é santo! Todos são santos! Todo lugar é santo! Todo dia é eternidade! Todo mundo é um anjo!

O vagabundo é tão santo quanto o serafim! O louco é tão santo quanto você minha alma é santa!

A máquina de escrever é santa o poema é santo a voz é santa os ouvintes são santos o êxtase é santo!

Santo Peter santo Allen santo Solomon santo Lucien santo Kerouac santo Huncke santo Burroughs santo Cassady santos os mendigos desconhecidos sofredores e fodidos santos os horrendos anjos humanos!

Santa minha mãe no asilo de loucos! Santos os caralhos dos vovôs de Kansas!

Santo o saxofone que geme! Santo o apocalipse bop! Santos a banda de jazz marijuana hipsters paz & droga & sonhos!

Santa a solidão dos arranha-céus e calçamentos! Santas as cafeterias cheias de milhões! Santo o misterioso rio de lágrimas sob as ruas!

Santo o solitário Jagarnata! Santo o enorme cordeiro da classe média! Santos os pastores loucos da rebelião! Quem saca que Los Angeles é Los Angeles!

Santo Nova York! Santo San Francisco Santo Peoria & Seattle Santo Paris Santo Tânger Santo Moscou Santo Istambul!

Santo o tempo na eternidade santa a eternidade no tempo santos os despertadores no espaço santa a quarta dimensão santa a quinta internacional santo o anjo em Moloch!

Santo o mar santo o deserto santa a ferrovia santa a locomotiva santas as visões santas as alucinações santos os milagres santo o globo ocular santo o abismo!

Santo perdão! Misericórdia! Caridade! Fé! Santo! Nossos! corpos! sofrendo! magnanimidade!

Santa a sobrenatural extra brilhante inteligente bondade da alma!
Allen Ginsberg – Berkeley, 1955
Uma introdução
O poema em análise faz parte da obra Uivo e outros poemas, de Allen Ginsberg, publicada pela primeira vez em agosto de 1956. Tal como uma nota de rodapé, ele segue o longo poema Uivo, imortalizado por suas famosas declamações em público2, pelo processo judicial que o acusou de obscenidade a fim de que fosse censurado, e pelos seus icônicos versos iniciais, que o tornaram hino de uma geração.

Ainda que os 15 versos com 309 palavras do poema em análise não o caracterizem propriamente como “comentário, achega ou explicação relativa a alguma passagem do texto”3 posicionado ao fim de uma página impressa, suas dimensões são certamente menores do que as de Uivo, que possui 140 versos.

Essas menores dimensões, contudo, não fazem com que a complexidade do poema seja menor.
Aspectos formais
No decorrer do poema original, o adjetivo “holy” é repetido 77 vezes – sua tradução para o português (“santo”) sofre leves variações em virtude da concordância. Praticamente apenas um verbo é utilizado: o verbo “ser”, sempre no presente do indicativo, aparece 18 vezes até o quinto verso e aparece só mais uma vez, no décimo. As exceções encontram-se no verbo “gemer” (v. 8), “sacar” (v. 10) e “sofrer” (v. 14). Há clara predominância das classes gramaticais dos adjetivos e dos substantivos.

Os versos são livres, ou seja, sem regularidade métrica e sem rimas externas. A grande extensão de cada verso aproxima-se do tamanho de um fôlego (breath-length)4. A falta de regularidade métrica talvez tenha permitido uma maior liberdade da tradução para o português, principalmente por haver um grande número de palavras e expressões de cunho coloquial.

No que se refere à pontuação, é possível estabelecer dois padrões: o uso predominante de exclamações e a falta de outros sinais de pontuação intermediários, como vírgulas, travessões e parênteses, com a notável exceção do chamado e comercial (&), nos versos 8 e 11. A falta desses sinais aumenta as possibilidades de interpretação de trechos como o do final do verso 4: é possível lê-lo como “O louco é tão santo quanto você; minha alma é santa” (em que há duas orações distintas) e também como “O louco é tão santo quanto você, minha alma, é santa” (em que “minha alma” é a interlocutora do eu lírico e aparece na oração como vocativo).

O principal recurso formal que dá ritmo ao poema é, claramente, o da repetição (“santo” e suas variações – 77 vezes; “ser”, no presente do indicativo – 19 vezes; “!” – 55 vezes). A elipse do verbo “ser”, a partir do verso 6, quase não é perceptível em virtude de ele ter sido tão repetido junto do adjetivo “santo”: essa ação, algo parecida com o condicionamento pavloviano, provoca um efeito em que o leitor/ouvinte “completa” mentalmente o termo faltante que antes tinha sido repetido exaustivamente. O interessante é que a palavra mais repetida – em português, “santo”, e em inglês, “holy” – é dissílaba e paroxítona – e, quando repetida seguidas vezes, nela some, aos poucos, o som da sílaba átona (dessa forma, o som da palavra torna-se algo como [t’san] e [l’rôu]).

Algumas figuras de linguagem são perceptíveis no decorrer do texto poético: metáforas (“Todo dia é eternidade!”, v. 3), comparações (“O vagabundo é tão santo quanto o serafim!”, v. 4), personificações (“Santo o saxofone que geme!”, v.8) e enumerações (v. 6 e 11, por exemplo) são alguns dos exemplos.
Sobre o sobrenatural
Há diversos elementos de aspecto sagrado, divino, religioso e/ou mitológico no decorrer do poema. Não bastasse a constante adjetivação de “santo” para caracterizar substantivos diversos e que consta em cada um de seus 15 versos, apresenta-se as figuras do “anjo” (v. 3, 6 e 12), do “serafim” (v. 4), da “eternidade” (v. 3 e 12), da “alma” (v. 2, 4 e 15), do “apocalipse” (v. 8) e da fé (v. 14), por exemplo. Além dessas imagens, destacamos alguns versos em que o caráter sobrenatural é eminente.

Do verso 2 ao 4, há uma extensa caracterização de diversos entes como “santos”: desde a “alma” (v. 2) – um termo mais facilmente identificado com esse adjetivo, por ser um substantivo abstrato – até partes do corpo humano (v. 2), pronomes de aspecto geral (v. 3) e classes de indivíduos marginalizados pela sociedade (v. 4).

No verso 10, há os termos “Jagarnata” (uma divindade oriental), “cordeiro”, “pastores” (ambos fortemente ligados ao imaginário cristão e subvertidos pelos seus complementos: “da classe média” e “loucos da rebelião”, respectivamente) e “Los Angeles” (nome de uma cidade, que significa “os anjos” em espanhol – significado que se acaba esquecendo pelo constante uso da expressão como nome próprio).

Finalmente, entre os versos 12 e 14, há variações sobre os temas da eternidade (caro a diversas religiões e, no poema, misturado a “despertadores”, algo mundano), das experiências sobrenaturais (“alucinações”, “visões” e “milagres”, em meio à tecnologia – “ferrovia”, “locomotivas”), do “anjo em Moloch”5 e de certos sentimentos/atos amplamente relacionados à religião (“[...] perdão! Misericórdia! Caridade! Fé!”).

A presença dessas imagens, submetidas à caracterização apontada (a princípio eminentemente antitética), subverte o sentido tradicional de “santo” como algo “especial”, algo “essencialmente puro, perfeito”6. Se tudo aquilo que é aparentemente oposto pode ser comparado e até igualado, se tudo é especial, também significa que nada é ordinário. Se tudo é santo, nada é profano. Se tudo é nivelado, nada é sobrenatural: tudo é natural, tudo é normal.

E essa será uma informação importante para a conclusão de nossa análise.


Sobre a metalinguagem
Michel LAUB (2011), em sua coluna intitulada “10 pedidos de fim de ano para o meio literário”, fez o seguinte pedido:
5. Editores, prefaciadores e escrevedores de orelha: sigam o conselho de Nick Hornby e não entreguem metade da trama, de preferência nem 1% dela. Também evitem dizer que a história que temos em mãos é “em última instância, sobre a própria literatura” ou “em última instância, sobre a própria linguagem”. (grifo nosso)
Com isso, o romancista parece denotar o uso constante – e, talvez, abusivo – da interpretação metalinguística no meio editorial. As frases entre aspas – que podem ser classificadas como o tipo de afirmação que normalmente não é acompanhado do embasamento apropriado e que se tornou chavão, portanto – relacionam-se profundamente com a ideia de metalinguagem na literatura. A fim de explorar esse viés de forma não leviana, buscamos apontar onde observamos o uso da metalinguagem, num trecho que possibilitaria tal leitura/interpretação do poema.

No verso 5, a lista de substantivos considerados “santos” é a seguinte: máquina de escrever, poema, voz, ouvintes e êxtase. Podemos considerar a sequência como uma progressão do fazer poético/literário, desde o processo de criação até o momento em que literatura se “concretiza” na figura do leitor/ouvinte.

A “máquina de escrever” faz referência ao momento em que o poeta passa suas ideias para o papel. Tanto quanto hoje se pode utilizar a ferramenta do processador de texto no computador, durante muito tempo se utilizou a máquina de escrever7 como alternativa para a escrita manuscrita. Da máquina de escrever, surge o “poema” – não sem uma série de revisões, de períodos de maturação (até que se desenvolva um distanciamento crítico), de buscas pela palavra correta a se utilizar.

Pronto o poema, ele pode ser lido calmamente, no conforto do lar ou na sala de espera do dentista. Mas a poesia de Ginsberg, a poesia beat, não se contenta com a leitura silenciosa, com o lar e a sala de espera8: ela passa pela voz de seus autores, resgatando uma antiga tradição de leituras públicas e repaginando esta. A indicação do tom exaltado, declamatório, em que a Nota de rodapé para Uivo deve ser lida é apreensível porque o poema funciona como ponto alto e final do longo Uivo que o precede nas famosas leituras públicas feitas por Ginsberg.

Além disso, o constante uso de pontos de exclamação no texto dá a ele ardor suficiente para que tenha autonomia (isto é, consiga cativar o ouvinte) em uma eventual leitura desacompanhada do outro poema, mais extenso. E isso é perceptível em apresentações públicas que relembram a forte relação entre poesia e música, como a ocorrida em 2000, pela voz de Patti Smith9, uma grande admiradora do poeta, que conheceu ainda jovem10.

“Cativar o ouvinte”, como dissemos anteriormente, é necessário. Tal como o propósito do livro é ser lido11, o poeta que declama seus versos quer ser ouvido e capturar a atenção do ouvinte. Quando escreve “os ouvintes são santos”, o autor/eu-lírico aponta a primazia do leitor, anos antes da teoria (e da estética) da recepção entrar em voga.

Por fim, resta o êxtase (“estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente etc.”12): o clímax; o resultado da comunhão entre poeta e leitor, entre quem declama e quem ouve; o terreno do extra ordinário, do fora do comum – ainda que construído com vocabulário coloquial e acessível.
Sobre a função político-social da poesia
Uma carta de amizade àqueles nominados no verso 6, os demais membros da Geração Beat – uma interpretação de cunho mais biográfico em que não nos detemos no presente trabalho. Uma ode à poesia – como visto no verso 5. Uma longa sessão de improvisação poética, à maneira dos grandes jazzistas – tal como visto pela estrutura sem metrificação regular, que abandona aos poucos a construção de orações em favor do ritmo e da velocidade do texto (e como sugerida no verso 8).

Todos estes são modos possíveis de se interpretar a Nota de rodapé para Uivo. Ainda que admitamos a (grande) probabilidade de haver inúmeras outras interpretações em que não pensamos, encaminhamo-nos para a última das que apresentaremos, já prenunciada em uma das notas de rodapé da seção 4: uma função político-social da poesia.

Longe de apresentar algo puramente panfletário (como uma paráfrase ou um verso equivalente ao famoso grito de protesto “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” do Manifesto do Partido Comunista), o poema possui momentos em que podemos inferir o posicionamento político do autor.

Nos versos 3, 4, 5 e 12, todos os seres humanos são equalizados: vagabundo e anjo, poeta e ouvintes. Para ser exato, “Tudo [ente, pessoa, lugar, tempo] é santo!”. No verso 6, junto daqueles que Ginsberg denominou “expoentes da minha geração” (nos versos iniciais de Uuivo), estão “os mendigos desconhecidos sofredores e fodidos” e “os horrendos anjos humanos”.

Nos versos 9 e 10, o eu-lírico fala ao homem contemporâneo: só no meio da multidão (“a solidão dos arranha-céus e calçamentos”), tentando manter-se acordado para a longa jornada de trabalho (“as cafeterias cheias de milhões”) para manter um padrão de vida mediano/medíocre (“o enorme cordeiro da classe média”), mas que ainda possui em seu interior algo inconsciente, um turbilhão oculto de sentimento (“o misterioso rio de lágrima sob as ruas”).

No verso 11, ele mostra que somos todos iguais, seja em Nova York (com sua efervescência cultural), San Francisco (terra pioneira na questão da liberdade sexual), Peoria, Seattle (cidades menos conhecidas), Paris (que durante muito tempo foi o local para a qual convergiam os escritores e que abrigou a famosa “Geração perdida”), Tânger (cidade oriental onde Burroughs morou durante muito tempo), Moscou (capital do mundo socialista) e Istambul (reiterando que não há diferença entre Ocidente e Oriente).

No verso 14, preceitos costumeiramente ligados à religião cristã (ainda que não exclusivos dela) são transformados em uma série de brados que envolvem a todos – brados tão enfáticos que chegam a separar, com pontos de exclamação, aquilo que nos parece a última oração do poema (transcrita a seguir sem a pontuação intermediária): “Santo(s) nossos corpos sofrendo magnanimidade!”

Ginsberg parece depositar nas palavras do eu-lírico uma apaixonada defesa de um mundo utópico. Sua poesia, segundo Claudio Willer (GINSBERG 2010: 10),


“Representou uma etapa decisiva na complexa relação entre o mudar de vida da rebelião romântica individualista e o transformar a sociedade através da revolução política. Mostrou que ambos podem ser a mesma coisa; ou que mudar de vida já é revolucionário, ao projetar-se na sociedade e na História.”
Como uma das explicações para tal, Willer aponta a origem de tal posicionamento como familiar13. Se seu pai não é citado diretamente no poema analisado – ainda que sua influência provavelmente seja perceptível justamente por estarmos analisando um poema14 –, a mãe o é. No verso 7, ele proclama “Santa minha mãe no asilo de loucos! Santos os caralhos dos vovôs de Kansas!”. O sentido libertário político-social que Ginsberg almejava, segundo exposto anteriormente, tem certa conotação para WILLER (2009: 34) – conotação com a qual concordamos:
Orientou-o a ideia de ser possível uma sociedade na qual, harmoniosamente, coubessem os loucos, como sua mãe, e, por afinidade, todas as modalidades e conduta estranha. Seu messianismo consistiu em haver-se atribuído a missão de realizar essa utopia.
Nesse ensejo, ele quer um mundo onde tenha lugar para loucos como sua mãe, onde “os caralhos dos vovôs de Kansas” sejam respeitados – ainda que impotentes, pois o desejo não acaba com a idade –, onde todos sejam santos. Ainda que tais ideias tenham sofrido certo recrudescimento após o fim da geração beat e da geração hippie (que veio em seguida), seus reflexos são são visíveis até hoje.15

Parece um pouco ilusório acreditar na mudança do mundo através da poesia, mas isso diz muito a respeito do modelo de literatura para os beats16 e da visão desconstrutivista da linguagem, difundida por Burroughs entre os amigos e cúmplices17. Eram homens que perceberam, na linguagem, um poder transformador da realidade. E aqui relembramos um trecho, já citado, de Blake: “Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita. Pois o homem se enclausurou a tal ponto que apenas consegue enxergar através das estreitas frestas de sua gruta.”


Referências bibliográficas

BUENO, André; GÓES, Fred. O que é geração beat. São Paulo: Brasiliense, 1984.

COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

GINSBERG, Allen; GINSBERG, Louis. Negócio de família: Cartas selecionadas de pai e filho. Trad. Camila Lopes Campolino. 1. ed. São Paulo: Peixoto Neto, 2011.

GINSBERG, Allen. Uivo, Kaddish e outros poemas. Trad. Claudio Willer. Porto Alegre: L&PM, 2010.

HOUAISS. Dicionário eletrônico. 2009.

LAUB, Michel. “10 pedidos de fim de ano para o meio literário”. Disponível em: . Acesso em: 15 de dezembro de 2011.

MILES, Barry. Ginsberg: A Biography. London: Virgin Publishing Ltd.

SARTRE, Jean Paul. Qu’est-ce que la littérature? Paris: Gallimard, 1948

SMITH, Patti. Só garotos. Trad. Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

WIKIPEDIA. “Howl”. Disponível em: . Acesso em 15 de dezembro de 2011.

WILLER, Claudio. Geração Beat. Porto Alegre: L&PM, 2009.



YOUTUBE. “Patti Smith – spell (Footnote to Howl) (2000/06/23)”. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=SaY7P4kqxCw>. Acesso em 15 de dezembro de 2011.

1 Bacharel em Direito. Mestrando em Estudos Literários da Universidade Federal do Paraná (pesquisados bolsista da CAPES/REUNI – Fomento 2012). Graduando do Curso de Letras da Universidade Federal do Paraná.

2 “O poema mais famoso e de mais fôlego de Ginsberg é certamente o Howl (Uivo, que está para ser lançado no Bra­sil), de 1955 e que teve duas leituras públicas marcantes na história da Geração Beat: uma em 1955, na ‘Galeria Six’, de São Francisco e outra, em 1956, também na Califórnia, desta vez no ‘Gallery Theatre’, em Berkeley.” (BUENO; GÓES 1984: 68)

3 Nota. (HOUAISS 2009)

4 MILES, 2001 (WIKIPEDIA)

5 “Moloch – divindade amalequita ou canaanita citada na Bíblia (Levítico 18:12), para a qual eram feitos sacrifícios humanos. Sob o efeito do peiote, Ginsberg viu, em 1954, em um prédio de San Francisco, o Sir Francis Drake Hotel, as feições do deus-devorados, inspirando o trecho”. (GINSBERG 2010: 95)

6 Santo. (HOUAISS 2009)

7 “Howl é o correspondente poético da prosa espontânea de Kerouac, e foi escrito por sugestão do próprio Kerouac: ‘Ele me sentou diante da máquina de escrever e disse: ‘Escreva um poema, só isso’. E dessa maneira o poema Howl, que sintetiza uma geração inteira, foi loucamente datilografado numa tarde; uma trágica comédia de pastelão de frases selvagens e imagens sem sentido pela beleza da poesia abstrata da mente correndo solta, fazendo combinações desengonçadas como o andar de Charlie Chaplin e longos fraseados como de um saxofone cujo som, eu sabia, seria ouvido por Kerouac – tirando de sua prosa inspirada uma poesia realmente nova.’ ” (BUENO; GÓES 1984: 68-69)

8 “[...] o alcance da recitação de poemas mudou a partir da beat, desde a subsequente proliferação de sessões em pequenos locais, cafés ou livrarias, algo que acontecia, mas não na mesma escala, até as grandes manifestações ao ar livre, no mundo todo. Houve reintegração da poesia à fala.” (WILLER 2009: 27-28)

9 YOUTUBE.

10 “Eu estava sempre faminta. Meu metabolismo era muito rápido. Robert [Mapplethorpe] conseguia ficar sem comer muito mais tempo do que eu. Se estávamos sem dinheiro, a gente simplesmente não comia. Robert ainda conseguia funcionar, embora ficasse um pouco agitado, mas eu parecia que ia desmaiar. Uma tarde chuvosa fiquei com desejo de um daqueles sanduíches de queijo e alface. Procurei em nossas coisas e achei exatamente 55 centavos, coloquei as moedas em minha capa de chuva cinza, com meu chapéu de Maiakóvski, e fui ao Automat.

“Peguei minha bandeja e depositei as moedas, mas o vidro não abriu. Tentei de nodo sem sorte e então reparei que o preço havia súbito para 65 centavos. Estava desapontada, para dizer o mínimo, quando ouvi uma voz dizer: ‘Posso ajudar?’.

“Virei-me e ali estava Allen Ginsberg. Nunca havíamos nos encontrado antes, mas sem dúvida era um dos grandes poetas e ativistas do país. Olhei para aqueles intensos olhos castanhos envolvidos por uma barba escura e cacheada e simplesmente assenti. Allen acrescentou os dez centavos que faltavam e ainda me pagou um café. Sem palavras, acompanhei-o até a mesa, e então ataquei o sanduíche.

“Allen se apresentou. Ele falava sobre Walt Whitman e comentei que havia sido criada perto de Camen, onde Whitman fora enterrado, quando ele se inclinou para mim e olhou com mais atenção. ‘Você é menina?’, perguntou.

“‘Sou’, falei. ‘Algum problema?’

“Ele só deu risada. ‘Desculpe. Achei que você fosse um menino bonito.’

“Então entendi tudo.

“‘Bem, isso quer dizer que devo devolver o sanduíche?’

“‘Não, aproveite. O engano foi meu.’

“Ele me contou que estava escrevendo uma longa elegia para Jack Kerouac, que havia morrido recentemente. ‘Três dias depois do aniversário de Rimbaud’, falei. Apertei a mão dele e nos despedimos.

“Algum tempo depois, Allen se tornou meu bom amigo e professor. Vez por outra lembramos de como foi nosso primeiro encontro, e ele uma vez me perguntou como eu descreveria quando nos conhecemos. ‘Diria que você deu de comer quando eu estava com fome’, respondi. E de fato foi assim. (SMITH 2010: 118-119)


11 “O ato criador não é senão um momento incompleto e abstrato da produção de uma obra; se o autor existisse sozinho, ele poderia escrever tanto quanto quisesse, nunca a obra como objeto seria conhecida e seria preciso que ele desistisse de escrever ou se desesperasse. Mas a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético e estes dois atos conexos necessitam de dois agentes distintos.” (SARTRE 1948; citado por COMPAGNON 2010: 143)

12 Êxtase. (HOUAISS 2009)

13 “Na gênese do poeta rebelde está a tentativa de incorporar e ultrapassar duas imagens conflitantes: o intelectual cerebral, contido, simbolizado pelo pai, e a frenética irracionalidade encarnada na loucura da mãe.” (GINSBERG 2010: 10)

14 “Allen Ginsberg sempre enfatizava que fazer poesia era “negócio de família”. Seu pai, Louis, ganhou uma modesta reputação como poeta lírico [...].

“Ainda assim, a dívida de Allen para com Louis é inegável, e vai muito além do fato de Allen ter seguido os passos do pai como poeta e, mais tarde, como professor. Allen teve diversas influências literárias, mas a de Louis foi a primeiro e, mesmo depois de ter feito amizade com outros poetas importantes de sua geração, como Jack Kerouac e William S. Burroughs, que influenciaram de maneira profunda a direção de sua escrita, Allen continuou discutindo sua obra com o pai. Talvez o debate contínuo sobre temas políticos fosse ainda mais importante. Já que nem Burroughs nem Kerouac gostavam de política, Allen usava seu pai como caixa de ressonância, o que ficou bem evidente neste volume de cartas. Aqui é possível sentir Allen trabalhando com seu material, submetendo algumas frases à apreciação de seu pai e desenvolvendo a posição que assumiria em textos e declarações políticas posteriores.” (GINSBERG; GINSBERG 2011: xxi)



15 “O fim da euforia contracultural não fez com que a atuação pública de Ginsberg, McClure, Ferlinghetti ou Snyder parasse. Todos estiveram presentes para protestar contra o recrudescimento, nas últimas décadas, do espírito da Guerra Fria. Importa, porém, que as obras deles estão aí para estimular a criação, ampliar a consciência e, de modo muito coerente com o espírito beat, oferecer exemplos, lições de viva e matéria para reflexão. Trata-se de contribuição poética. Mas a poesia é onde a linguagem se refaz: por isso, produz consciência e se projeta na diacronia. De modo coerente com a recusa beat de separar os planos simbólico e da vida, dela faz parte sua contribuição à agenda dos temais propriamente sociais. Citando novamente Ginsberg, no já mencionado The Beat Book, sobre alguns ideais essenciais do movimento artístico original, que se tornaram temas mobilizadores nas décadas seguintes:

“ ‘O espírito de investigação da natureza da consciência, levando à aproximação com o pensamento oriental, à prática da meditação, à arte como extensão ou manifestação da exploração da textura da consciência, daí resultando a liberação espiritual. Isso levou à liberação sexual, particularmente a liberação gay, que historicamente desempenhou um papel como catalisadora da liberação da mulher e da liberação do negro. Uma visão tolerante, não-teística, advinda da exploração da textura da consciência, por isso um antifascismo cósmico, uma abordagem pacífica, não violenta, à política; multiculturalismo; a absorção da cultura do negro ao mainstream da literatura e da música.’ ” (WILLER 2009: 111-112)



16 “Os beats chegaram a ser acusados de iletrados. Na verdade, são um exemplo de crença extrema na literatura, atribuindo-lhe valor mágico, como modelo de vida e fonte de acontecimentos.” (WILLER 2009: 52)

17 “[...]a linguagem não como reflexo da realidade, mas, ao contrário, como algo que cria a realidade, ao produzir consciência e cultura.” (GINSBERG 2010: 13)

“Se a palavra, mediação entre o sujeito e a realidade externa, não é um instrumento do conhecimento, mas sim, uma barreira, um obstáculo interposto entre o ser humano e o mundo, então a tarefa do criador literário é promover seu desmanche; é destruí-la para chegar a algo menos ilusório.” (GINSBERG 2010: 14)





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal