ANÁlise tecno-tipológica dos artefatos líticos lascados do sítio sc-rf-01: rio fortuna sc



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ANÁLISE TECNO-TIPOLÓGICA DOS ARTEFATOS LÍTICOS LASCADOS DO SÍTIO SC-RF-01: RIO FORTUNA SC


Fabrícia Machado Fernandes1

Daniela da Costa Claudino2

Deisi Scunderlick Eloy de Farias3


RESUMO

Ao propor a análise tecno-tipológica do material lítico do sítio SC-RF-01, levamos em conta que os artefatos líticos integrados a um conjunto de evidências materiais e ambientais, podem ser indicadores do papel de cada sítio na trama dos assentamentos regionais e nos elementos simbólicos do grupo. A coleção lítica resgatada do sítio SC-RF-01 é composta por 1524 peças coletadas na superfície e que foram avaliadas tecno-tipologicamente, utilizando-se de uma lista de atributos adaptada ao sítio pesquisado.


PALAVRAS-CHAVE

Análise tecno-tipológica. Sítio arqueológico. Artefatos líticos.



1 - INTRODUÇÃO


O sítio Rio Facão 01 foi identificado e analisado no âmbito do Projeto AMA (Arqueologia na Mata Atlântica). Esse projeto foi iniciado em 2003 pelo Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia com o objetivo de detalhar a encosta catarinense e evidenciar elementos da cultura material que comprovem ter sido local de ocupação permanente. As características geográficas e a grande quantidade de vestígios arqueológicos corroboram com as pesquisas na região.

Schmitz (2007 apud Farias 2005) elucida que “esses sítios coincidem com os lugares em que, no século XIX, foram registrados conflitos entre os índios Xokleng, da família lingüística Jê, e os colonizadores europeus, principalmente alemães da colônia de Blumenau”.

Com isso, os materiais arqueológicos, que foram resgatados do sítio SC-RF-01, foram analisados a partir de um pressuposto tecno-tipológico. A análise foi realizada com base na tipologia relacionada à tecnologia utilizada pelo artesão na produção de seus artefatos.

O material lítico desse sítio esta sob a guarda da UNISUL (Universidade do Sul de Santa Catarina) no GRUPEP-Arqueologia (Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia).


2 - O SÍTIO SC-RF-01: RIO FORTUNA E ANÁLISE TECNO-TIPOLÓGICA DOS ARTEFATOS LÍTICOS

O sítio SC-RF-01 está localizado na comunidade de Rio Facão, município de Rio Fortuna – SC, entre as coordenadas UTM: (22J) 0678511 / 6886894. Este sítio lítico está em céu aberto nas terras do Sr. Paulo Bloemer. Encontra-se a 251 metros do rio principal. Durante as intervenções realizadas, as primeiras evidências encontradas foram artefatos líticos.







Foto 1: Sítio Rio Facão 01.

Foto: Daniela da Costa Claudino. GRUPEP- Arqueologia.



Foto 2: Sítio SC-RF-01.

Foto: Daniela da Costa Claudino. GRUPEP – Arqueologia



No sítio SC-RF-01 foram encontrados aproximadamente 13 manchas, e aberto dois perfis. Na mancha 02, UTM: (22j) 0678448 / 6886208, foi aberto um perfil evidenciando as camadas estratigráficas de uma parte do sítio. Desta mancha foi retirada uma amostra do carvão, e datada4 de +/- 980 AP.

A coleção lítica resgatada do sítio arqueológico SC-RF-01 do Projeto AMA – Arqueologia da Mata Atlântica – é composta de 1524 peças coletadas na superfície e foram avaliadas tecno-tipologicamente. O material arqueológico passou por três etapas básicas em laboratório: higienização, catalogação e análise tecno-tipológica.

Para Dias (2007) compreender a tecnologia lítica como integrada aos sistemas tecnológicos de uma dada sociedade permite situar a variabilidade observada como uma construção social resultante de escolhas culturalmente determinadas.

Assim, a análise do material lítico é um procedimento que visa estruturar as informações obtidas através do material arqueológico, servindo de base para a reconstrução cultural de um ou vários grupos (MILLER JR. 1969, Apud CLAUDINO; FARIAS, 2005).

Mansur (1986/1990, p. 115) menciona que todo artefato é resultado de uma cadeia gestual que vai desde a sua concepção, a idéia de confecção desejada ou planejada, até sua perda ou abandono.

Para Vialou (1980, p.62) a tecno-tipologia é o estudo raciocinado. Em primeiro lugar deve se pensar no lascamento e no talhe da matéria-prima, em segundo nos retoques intencionais, em terceiro, nas marcas deixadas pela utilização e em último, nos utensílios numa perspectiva de classificação.

Todos os materiais arqueológicos resgatados receberam tratamento em laboratório: higienização, catalogação e análise tecno-tipológica.







Foto 3: Material higienizado e catalogado.
Foto: Fabrícia Machado Fernandes

Foto 4: Material acondicionado.
Foto: Fabrícia Machado Fernandes

Após o término da catalogação, os artefatos líticos foram submetidos à análise tecno-tipológica, obtida através de uma lista de atributos adaptada ao sítio pesquisado.


4 RESULTADOS
Para a análise tecno-tipológica foi utilizada uma lista de atributos baseada nos trabalhos de CLAUDINO E FARIAS (2005), FARIAS (2005), CLAUDINO (2006), HOELTZ (2005), DIAS (1994).

Para obtenção dos resultados, foi montado um banco de dados no software Microsoft Excel, que possibilitou o cruzamento de dados e obtenção de gráficos. Utilizamos o método quantitativo para avaliar as semelhanças e diferenças do material analisado e qualitativo, quando o material foi submetido a uma análise antropológica, visto que, todo artefato arqueológico é resultado de ações humanas.

A matéria-prima predominante é o quartzo leitoso (90,2%), seguido de diabásio (4%) e arenito (2%). A grande maioria das peças encontram-se incompletas (87%). Isso está associado à atividade agrícola da região, principal fator de destruição desse sítio arqueológico.






Foto 5: Ponta de projétil do sítio SC-RF-01. Fonte: GRUPEP-Arqueologia

Foto 6: Foliáceo do sítio SC-RF-01.

Fonte: GRUPEP-Arqueologia


As principais modificações evidenciadas nas peças foram a fragmentação (53,9%), oxidação (3,9%) e as marcas de arado (1,3%). Poucos artefatos apresentaram marcas de queima (0,4%).


5 CONCLUSÕES
Com os resultados obtidos através da análise técno – tipológica e a quantidade de material lítico (lascas, núcleos, artefatos, dentre outros), é possível afirmar que o mesmo está caracterizado como um sítio oficina.

A técnica predominante no sítio SC-RF-01 é o lascamento bipolar, sendo que a maioria dos artefatos analisados foi confeccionada com utilização desse tipo de suporte. O lascamento unipolar e o polimento também foram utilizados, mas se mostram como uma opção secundária do grupo.

A técnica do lascamento bipolar está relacionada ao quartzo, matéria-prima predominante no sítio em forma de seixos e afloramentos. Isso infere na preferência do artesão na confecção de seus artefatos, tanto na facilidade de lascamento quanto na aquisição da matéria-prima. Bueno (2007) afirma que “o quartzo representa a matéria-prima na qual encontramos a maior freqüência de vestígios produzidos pela técnica bipolar. A aplicação desse procedimento normalmente aparece associada à exploração de seixos globulares de pequenas dimensões”. Outras matérias-primas foram evidenciadas, porém nenhuma é exótica.

Em relação aos artefatos polidos, há presença de poucas lâminas de machado e mãos-de-pilão em diabásio oxidado. Os artefatos brutos são pouco abundantes no sítio. Isso pode estar relacionado com o uso de madeiras, ossos e/ou outros materiais para a confecção de seus utensílios e a acidez do solo e o clima subtropical pode ter provocado a destruição tais vestígios.

A presença de pontas de projétil caracteriza este sítio como sendo de ocupação de caçadores – coletores do interior. Essas pontas podem ainda ser atribuídas aos Xokleng (SANTOS, 1978 apud CLAUDINO e FARIAS 2005).

As principais modificações evidenciadas em toda a coleção foram a fragmentação e as marcas de arado. Isso está relacionado à atividade agrícola intensa da região, principal fator de destruição desse sítio arqueológico.



6 REFERÊNCIAS
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CLAUDINO, Daniela da Costa. Arqueologia no município de Flor do Sertão, extremo oeste catarinense: enfoque no sítio SC-FS-01. 2006. Monografia (Graduação em História). Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, 2006.
CLAUDINO, Daniela da Costa; FARIAS, Deisi Scunderlick Eloy de Farias. Análise Tecno-tipológica da amostra lítica dos sítios arqueológicos mapeados em Maracajá. In: FARIAS, Deisi Scunderlick Eloy (Org.). Maracajá: Pré-história e Arqueologia. Tubarão. Ed. Unisul, 2005.
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MANSUR, M. E. Instrumentos líticos: Aspectos da Análise Funcional. Arquivos do Museu de História Natural. Belo Horizonte, Universidade de Minas Gerais,1986/1990.
PERIN, Edenir Bagio. Análise espacial dos sítios líticos do alto curso do vale do rio Tubarão – municípios de Grão Pará e Rio Fortuna-SC. 2007. Monografia (Graduação em Geografia). Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, 2006.
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_________. Os artefatos líticos, elementos descritivos classificatório.

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1 Acadêmica do curso de História e bolsista de iniciação científica no GRUPEP-Arqueologia, Unisul Campus Sul Tubarão. fahhh.fernandes@gmail.com.

2 Mestranda em arqueologia pela Unisinos e coordenadora do GRUPEP-Arqueologia, Unisul, Campus Sul Araranguá. nielacc@hotmail.com.

3 Arqueóloga e Coordenadora do GRUPEP-Arqueologia, Unisul, Campus Sul Tubarão. deisi.farias@unisul.br.

4 Data encontrada através do método de datação de C14.



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