Anos 20 identidades e nacionalidade em discussão no paraná



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VII SEMINÁRIO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS

HISTÓRIA, SOCIEDADE E EDUCAÇÃO NO BRASIL - CAMPINAS



ANOS 20 - IDENTIDADES E NACIONALIDADE EM DISCUSSÃO NO PARANÁ

Valquiria Elita Renk, PUCPR/ UFPR

valquíria.renk@pucpr.br

As idéias de formação de uma identidade cultural regional que foram defendidas pelos intelectuais paranaenses, através do Movimento Paranista. Inúmeros intelectuais das artes e da literatura endossavam estas idéias na busca da originalidade da formação do homem paranaense e do progresso. Criaram elementos de uma identidade, como o hino, o brasão e adotaram o pinheiro como o elemento símbolo do Paraná e os divulgaram no espaço regional. Estes intelectuais, em sua maioria funcionários públicos, com o ideário Positivista, buscavam na Ordem e no Progresso divulgar a cultura paranaense. O governo, paralelamente, defendia a nacionalização das escolas de estrangeiros e incentivava as atividades cívico patrióticas através dos currículos escolares. A imprensa divulgava o perigo que representavam as escolas de imigrantes, por não ensinar em língua portuguesa, entendida como o principal elemento formador da nação. Paralelamente a discussão sobre nacionalização das escolas étnicas, a legislação Educacional do Estado foi mais incisiva principalmente no que se refere ao ensino em Língua Nacional, aulas de História, Geografia, Moral e Cívica. Às escolas caberia o ensino em língua nacional, aulas que incentivassem o civismo e a formação do sentimento de nação. As fontes de pesquisa são os jornais: Diário da Tarde e Gazeta do Povo de Curitiba que revelavam o cotidiano da vida do Paraná e em especial as grandes comemorações cívico patrióticas. Também a Revista Illustração Paranaense que a porta voz das idéias do Movimento Paranista, a legislação educacional estadual de 1900 até 1919 e os Relatórios do Inspetor Geral de Ensino. Estas fontes nos permitiram compreender o posicionamento dos intelectuais acerca da política de nacionalização do ensino e da escola como espaço de formação cívico patriótica e também das intenções governamentais através da legislação que controlava cada vez mais o espaço da sala de aula com a imposição dos programas de ensino.




Educação Moral e Cívica para formar a Nação

Na década de 1920, os intelectuais defendiam a idéia de que o problema do atraso do Brasil não estava na raça, mas, sim a falta de saúde e educação para o povo. Já haviam propostas para resolver este “mal“, principalmente investir na educação e na formação moral da juventude, como o serviço militar obrigatório. Para Olavo Bilac, o exército era o único caminho para a falta de patriotismo. Ele entende que deveria haver uma formação moral para os jovens, este intelectual defendia que a escolarização e o serviço militar obrigatório fariam frente aos inimigos internos e externos. Para concretizar suas idéias criou o movimento patriótico denominado Liga de Defesa Nacional (OLIVEIRA, 1997).

A criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1938, e a literatura foram importantes contribuições na construção da identidade nacional. Na Primeira República, intelectuais como Monteiro Lobato, Olavo Bilac, Alberto Torres, “denunciam o Brasil como arcaico, atrasado, comandado por uma política incompetente e que comandam renovações, reformas para a sociedade brasileira” (OLIVEIRA, 1997, p. 139). Após a Primeira Guerra Mundial, os intelectuais perceberam que era preciso voltar às origens, à autenticidade e buscar as raízes nacionais. A Primeira Guerra Mundial trouxe a questão da nacionalidade à ordem do dia, como a necessidade de criar uma identidade nacional. “Este novo nacionalismo envolveu a busca de uma identidade e teve como parâmetro a recusa dos modelos biológicos que embasavam o pensamento racista (...) defendia a consciência de uma identidade nova (...) (SKIDMORE, 1976, p. 163-191). Neste novo pensamento nacional, a saúde e a educação ganharam o status da receita para curar os males da nação.

A saúde e a formação do corpo saudável da juventude ganhavam destaque. O país precisava formar trabalhadores saudáveis, dóceis, disciplinados e aptos para o trabalho nas indústrias. No espaço escolar as matérias formadoras do caráter nacional, em especial, História e Geografia do Brasil, Moral e Cívica, Canto, declamação e ginástica, passam a ter um olhar especial do Estado. A Educação Física será importante na formação dos corpos saudáveis, ágeis, fortes e flexíveis e Pátria necessitava.

A Educação Física, considerada como base da educação moral e intelectual, deve merecer os mesmos cuidados da educação do espírito, isto é, desenvolver harmônica e progressivamente a robustez e a destreza do corpo, de acordo com as condições anatômicas e fisiológicas do educando. Se há uma Ciência da educação, ela abrange a aptidão física e estabelece leis tão rigorosas, postulados os mais exigentes, para que esta aptidão realize verdadeira obra de aperfeiçoamento. (PARANÁ, 1921, p. 58)
O cidadão que a Pátria desejava deveria ter o corpo forte e saudável, mas, também ser disciplinado. No relatório do Inspetor Geral do Ensino do Paraná, de 1920, Martinez já avaliava que a música era um instrumento de divulgação das canções patrióticas e com grandes contribuições na formação cívica dos alunos. Mais uma vez, a escola é o espaço de formação do cidadão nacional e as aulas de música irão fortalecer a formação dos valores cívicos e morais. O Inspetor Geral de Ensino, César P. Martinez descreveu, em 1920, os benefícios das aulas de canto: no desenvolvimento do aparelho respiratório e aperfeiçoamento do aparelho auditivo; na influência pedagógica, facilitando a disciplina e inspirando amor pela causa da instrução; na formação do civismo pelo entusiasmo que despertam as canções patrióticas;a influência sobre o moral, provando o aparecimento e reforço das boas inclinações, dulcificando o caráter, predispondo o afeto, atenuando os maus instintos, sobre tantas e tão consideráveis vantagens atua de maneira preponderantemente na formação de sentimentos estéticos. (PARANÁ, 1920)

A educação e a saúde também estavam nos discursos de Getúlio Vargas como instrumentos apropriados à “valorização do homem e melhorar a condição de vida dos brasileiros sob o ponto de vista moral, intelectual e econômico” (HORTA, 1994, p. 01). Portanto o adestramento do corpo do ponto de vista físico e intelectual deveria ser cumprido pela escola como disciplinadora dos jovens.

Segundo Lúcia Lippi Oliveira, nos anos de 1920, os intelectuais produziram diagnósticos sobre a situação do país e também passaram a defender as soluções destes problemas para a formação da nação. Portanto, os intelectuais “descobriram” que o problema do Brasil não era por causa da raça, mas, sim pela falta de saúde e de educação da população e engajaram-se nas lutas e na defesa destas idéias. Segundo Julien Benda, “a partir do século XIX os intelectuais começam a fazer o jogo das paixões políticas (...) o intelectual moderno não deixa mais o leigo ir à praça pública desacompanhado, ele pretende reivindicar sua alma de cidadão e exercê-la com vigor” (p. 67, 68). Assim, no Brasil, os intelectuais também abraçaram e defenderam idéias políticas, governos e muitos assumiram cargos públicos. Segundo Sérgio Miceli, são intelectuais cooptados pelo poder.

O discurso dos republicanos era o da escolarização para todos. “Apresentara-se como responsável pela ‘inauguração de um novo tempo’ tornou-se marco característico da fala de vários republicanos... (FREITAS, 2005, p. 165). Nos anos de 1920, ocorreram inúmeras reformas educacionais nos estados, lideradas por intelectuais, como Anísio Teixeira, Francisco Campos, Fernando de Azevedo, com identidades teóricas e políticas diferentes, apesar de serem todos considerados ‘escolanovistas’. Também em 1924 foi fundada a ABE, onde os intelectuais católicos e não católicos ou liberais, disputavam os espaços. “O refazer da República interessava a educadores, à Igreja Católica, ao exército, ou seja, interessava a diferentes frentes políticas, ao mesmo tempo.” (FREITAS, 2005, p. 167). O cultivo das idéias nacionalistas estava presente na Primeira Conferência Nacional de Educação, em 1927, também com o ensino rural e com os currículos diferenciados.

No final da década de 1920, o descaso com a educação nos meios rurais altera-se pouco, tendo em vista o fortalecimento das concepções nacionalistas. Desenvolve-se no país a idéia de ensino rural, voltado á defesa do nacionalismo, em busca da construção de uma identidade do povo brasileiro e da nação brasileira. (ALMEIDA, 2005, p. 281,281).
O Estado teve papel importante na formação da nação, sendo apoiado pelos intelectuais e pela imprensa.

O Estado passa a agir para juntar estas pessoas em um povo que se sente unificado pelas origens comuns, passa a falar um língua comum, aprende uma história comum (...) A língua nacional escrita e uma língua falada, compreensível para a massa, passam a ser a fronteira natural da nação. A bandeira e o hino nacional, os feriados nacionais são parte deste processo de construção de uma memória nacional capaz de organizar e de disciplinar os indivíduos. (OLIVEIRA, 1997, p. 186).


A escola foi um espaço onde o Estado difundiu os ideais cívicos para formação da nação. Era necessário que através das matérias curriculares como História e Geografia conhecer o espaço e o tempo da nação e através da Educação Moral se cultuassem personalidades e eventos que a representassem simbolicamente. A Língua Nacional deveria ser a língua ensinada nas escolas, falada e entendida por todos os cidadãos. “A língua de um povo é um sistema simbólico que organiza sua percepção do mundo, e é também um diferenciador por excelência (...) e os governos nacionais combatem o polilingüismo dentro de suas fronteiras” (CUNHA, 1986, p. 100).

As resistências em falar a língua portuguesa e aceitar a cultura nacional, nas áreas de imigração estrangeira precisavam ser vencidas. A escola pública e a adoção de um currículo único eram medidas que contribuiriam para a formação dos ideais de nação. Em 1921, o Inspetor de Ensino do Paraná, em Relatório sobre suas atividade, informava que havia ordenado o fechamento de inúmeras escolas de estrangeiros e também duplicado o número de matrículas.1




Patriotismo e identidade cultural regional: Formar o homem paranaense
Ao longo das três primeiras décadas do século XX assiste-se no Paraná um movimento em prol da nacionalização do ensino nas escolas de imigrantes e de formação de uma identidade cultural regional. A imprensa foi o grande veículo de divulgação e defesa das idéias, através dos jornais de circulação estadual e também nas revistas. Dario Vellozo, um dos expoentes do movimento anticlerical no Paraná, em 1909, afirma que a instrução é importante na construção da cidadania e também dever do Estado. Clama pela necessidade de escolas, proposta do ideário da República, como possibilidade de desenvolver a ordem e o progresso.

O ensino é a mais preciosa das preciosas fontes de renda. Negar o ensino é faltar aos mais elementares dos deveres cívicos; é sancionar a rotina e alienar o progresso. A instrução popular visa a educação cívica. Armar o futuro cidadão para vencer na vida é promover a prosperidade do Estado, primordial dever dos governos. (VELLOZO, 1909, p.55)


No início do século XX faltavam muitas escolas no Paraná, assim como o número de analfabetos aproximava-se dos 80%. Mas, em 1908, o Inspetor Escolar do Paraná, já identificava a importância da escola como instrumento de moldagem do caráter dos cidadãos. Entendida como obrigação do Estado, a abertura de novas escolas deveria contribuir para o aprimoramento físico e moral.

Todos repetem que o Estado, instruindo, se propõe formar cidadãos úteis ao lado de espíritos esclarecidos; educar intelectual e moralmente, preparar no indivíduo as condições necessárias a realizar, na Pátria, o lema de nossa bandeira: Ordem e progresso. Ordem garantida pela edificação moral e progresso, provável, pela aquisição dos conhecimentos das leis naturais, a fim de atuar no mundo exterior. (D”ALBUQUERQUE, 1908, p.56)


A necessidade de consolidação do nacionalismo e também a formação cívico patriótica, por meio da educação se intensificou no período da Primeira Guerra Mundial. O civismo e o patriotismo exaltados pelos educadores “ganharam nova concepção em virtude do nacionalismo crescente, que atribuía à escola o papel de transformadora da sociedade” (OLIVEIRA, 1994, p. 53). As lições de civismo eram construídas de forma solene nas comemorações de datas importantes e com a representação simbólica do hino e da bandeira Nacional. Intensificavam-se os desfiles e comemorações das datas e eventos cívico patrióticos, com a participação dos estudantes das escolas públicas da Capital.

Por iniciativa de V.Exa. foi, a 19 de novembro próximo passado, realizada nessa Capital, imponente festividade com o concurso de todas as escolas simples e grupos e alguns Colégios, em homenagem à data, sendo em todos os edifícios escolares hasteado o Pavilhão nacional, ao som do hino da Bandeira, cantado pelos alunos em forma à frente do Grupo, seguindo-se conferência pela alusiva data. A Bandeira nacional, é conservada em sala de aula, nos grupos, à vista dos alunos, ficando assim, numa belíssima e solene lição de civismo, instituídos nas escolas o culto à Bandeira. (PARANÁ, 1917, p. 217)


A imprensa divulgava os eventos comemorativos das cívico-patrióticas em que a pompa dos desfiles dos escolares demonstrava o amor à Pátria, a ordem e a disciplina.

A parte que mais curiosidade despertou ao espírito da nossa população, pela sua originalidade, foi a passeada no mundo infantil das escolas da capital. Desde as 16 horas turmas e turmas de crianças, todas vestidas de branco e uniformizadas, iam chegando à Avenida Luiz Xavier, que era o ponto de conjunção. (...) (...) rumando, então o préstito à Praça Municipal. Cerca de 3.000 crianças reuniram-se no espaçoso largo, da seguinte forma: postadas defronte ao Paço Municipal, dividiram-se em dois grupos, os meninos do lado direito e as meninas do lado esquerdo separados todos da multidão por um cordão de isolamento. (...) Era um espetáculo inédito assistir-se aquela multidão infantil cantar o Hino da Independência, em conjunto (...). 2


De forma ufanista o espetáculo cívico era divulgado pela imprensa, destacando a participação dos alunos e sua entusiástica apresentação. As ruas centrais da cidade eram a passarela do desfile da ordem e a Praça Municipal, representam a manutenção da hierarquia social. DA MATTA afirma que “nas festas da ordem a ênfase é sempre colocada na ordem, na regularidade, na repetição, na marcha ordeira, no cântico cadenciado, no controle do corpo, remete à idéia de sacrifício e disciplina.” (1986, p. 85)

Ganhavam espaço na imprensa do Paraná as idéias em defesa da nacionalização do ensino. O jornal Diário da Tarde, de Curitiba, durante a Primeira Guerra Mundial e na década de 1920, publicou inúmeros artigos clamando pela nacionalização do ensino, nas áreas de colonização estrangeira. Em plena Guerra Mundial, dia 13 de abril de 1917, este jornal publicou um artigo intitulado “As manifestações patrióticas populares degeneram em arruaças”. Este assinado por Medeiros de Albuquerque, descreve que a Praça Tiradentes foi o palco das manifestações “para exteriorizar o patriotismo” com bandeiras, gritava palavras de ordem e proferiam-se discursos. Neste dia, diante do Paço Municipal estava a Liga de defesa Nacional e que o Sr. Hugo Simas, pediu ordem à população que estava muito exaltada. Ainda descreve que o ato público terminou em distúrbios. A participação do intelectual neste ato público, reitera as idéias Julien Benda, de que “a adesão do intelectual às paixões dos leigos, as fortalece no coração deles.” (p. 68).

No período da guerra as tensões étnicas estavam presentes e as identidades étnico-culturais ficavam mais visíveis. Segundo POUTIGNAT e STREIFF-FENART (1998) nos momentos de crise é que emergem as identidades étnicas. A imprensa registrou as manifestações cívicas durante a Primeira Guerra Mundial e a participação popular, empunhando a Bandeira Nacional, cantando hino nacional. A nacionalização do ensino era debatida através da imprensa, que questionava as escolas de estrangeiros. Em 16 de fevereiro de 1918, em matéria de capa, intitulada “Nacionalização das Escolas” este jornal assumiu a defesa deste tema, de forma veemente.

Urge nacionalizar o Brasil – eis a questão capital. Nacionalizar, por que? Porque devido à incurta governamental, formaram-se no seu território quistos reacionários, núcleos rebeldes ao abrasileiramento (...) Ao governo do Brasil cumpria o dever de atuar para a integral nacionalização desses elementos.(..) O procedimento brasileiro foi o mais reprovável dando origem a atual e imprescindível necessidade de nacionalização de quistos estrangeiros estabelecidos no Brasil tenham se mostrados refratários à assimilação da nossa vida. (..) Será pela escola e quase só por ela que nacionalizaremos e chamaremos ao grêmio da nossa civilização os estrangeiros. Compreendendo também a eficiência da escola como fator de nacionalização, o governo da república, por intermédio do Ministro do Interior, determinou o fechamento de institutos de ensino onde não se ministrasse o conhecimento da língua portuguesa. No Paraná não foi pequena a quantidade de escolas fechadas. 3


A imprensa, a partir da primeira Guerra Mundial, passou a defender o fechamento das escolas de imigrantes e também endossou a nacionalização, pela via escolar. Em matéria de 04 de agosto de 1915, o projeto apresentado por Barbosa Lima sobre a obrigatoriedade da Língua Nacional em todas as escolas do país .Em 28 de setembro de 1916 um artigo assinado por V. de Souza, intitulado “Instrução Pública” alertava sobre os perigos que representavam as escolas de estrangeiros e que estas deveriam sujeitar-se ao controle estatal ou serem fechadas, como já havia sido na Argentina, México e Uruguai.

A participação da imprensa nestas primeiras décadas do século XX, no Paraná foi de apoio às medidas de nacionalização do ensino e da formação cívico-patriótica da juventude. À medida que os jornais demonstravam a discussão política da questão, em nível nacional e estadual, o governo estabelecia leis sobre a obrigatoriedade do ensino em Língua Nacional.

No Paraná a campanha pelo uso da Língua Nacional nas escolas, ganhava mais espaço e o aval das autoridades. Em 1918, o Governador Afonso Alves de Camargo, já preconizava pela obrigatoriedade do ensino da língua portuguesa nas escolas de estrangeiros e que todas as disciplinas fossem ministradas em língua vernácula. O Relatório do Secretário dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública, de 1917, afirmava que já haviam sido fechadas quatro escolas de imigrantes e que as autoridades estavam dispostas a fechar aquelas que não cumprissem os dispositivos legais. Neste mesmo Relatório, ele informava que o poder público tinha a competência de aprovar os programas de ensino das escolas particulares e as aulas de História, Geografia e Língua Portuguesa deveriam ser ministrados por pessoas de competência reconhecida pelas autoridades.

O Código de Ensino de 1917, aprovado pelo Governo, através do Decreto no. 17, de 09 de janeiro do mesmo ano, estabeleceu no artigo 4º. que era competência do poder público inspecionar os estabelecimentos particulares de ensino. Este mesmo artigo ainda previa a ênfase à propagação do ensino e à promoção de conferências educativas sobre instrução pública e festas cívicas, com o intuito de divulgar as realizações do governo. Intensificou-se o controle estatal sobre a educação, através das lições ensinadas e do registro da escrituração do cotidiano escolar. Também as lições de civismo e patriotismo eram estimuladas, principalmente nas escolas públicas e o controle da escrituração e dos registros pedagógicos deveriam ser efetuados pelo poder público e os livros adotados.

O amor à Pátria deveria ser cultivado nas aulas de Civismo e os livros didáticos tinham papel importante, conforme consta do Relatório do Inspetor do Ensino do Paraná, no ano de 1921.

Outros livros são ainda necessários para completar a leitura. (...) Outros finalmente, formam o civismo: o amor da Pátria e das instituições: o respeito às leis e à ordem; o cumprimento do dever acima de todos os interesses pessoais; o culto pelo passado. Cada um deles deve cingir-se a um só programa: ou se destinam a formar corações ou tem por fim abrir os olhos à inteligência, ou então, cuidam da nacionalidade e da Pátria.4


As comemorações cívicas e patrióticas tiveram importante papel na formação moral do povo do Paraná. Os republicanos instituirão as datas referentes à República e aos povos, como 21 de abril, 14 de julho (Queda da Bastilha) e 15 de novembro. A cidade precisa ser preparada para as festas e o povo também, além de envolver-se na organização da cerimônia. As praças públicas da região central, foram o palco para as demonstrações cívicas e patrióticas e deveriam ter a participação dos estudantes. É a ritualização do espetáculo.

O ensino de música e canto nas escolas públicas do Paraná, desde a década de 1920, era instrumento de disciplina e de formação cívica. O relatório do Inspetor Geral do Ensino do Paraná, em 1920, já divulgava sobre os benefícios do uso racional da música, “da influência pedagógica, facilitando a disciplina e inspirando amor pela causa da instrução; da influência na formação do civismo pelo entusiasmo que despertam as canções patrióticas”. De todas as formas, o civismo foi se construindo como uma ação pedagógica no Estado, devendo formar uma geração mais apegada aos valores culturais da Pátria e também aos valores regionais do Paraná.

Ainda na década de 1920, os educadores também eram ‘estimulados’ a formar o cidadão nacional, forte, robusto e ágil. Os programas escolares determinavam o ensino de História, Geografia, Moral e Cívica, estudos de Canto, Música, Declamação, Ginástica e Esportes.

A Educação Física considerada como base da educação moral e intelectual, deve merecer os mesmos cuidados da educação do espírito, isto é, desenvolver harmônica e progressivamente a robustez do corpo, de acordo com as condições anatômicas e fisiológicas do educando. Se há uma Ciência da Educação, ela abrange a aptidão física e estabelece leis tão rigorosas, postulados os mais exigentes para que esta aptidão realize a verdadeira obra de aperfeiçoamento. (PARANÁ, 1921) 5

O espaço escolar era o de disciplina e ordem sob os rigores da ciência.
1922 – O ano do Centenário da Independência do Brasil

O Centenário da Independência do Brasil, em 1922, foi bastante comemorado com várias festividades cívicas e patrióticas. Nesta data houve a determinação de que todas as escolas do Estado plantassem um pinheiro, que foi escolhida como a árvore da Independência. Foi inaugurado o Palácio da Instrução e inaugurada a Avenida da Independência.

Segundo Luís Pereira (1998) as festividades em comemoração ao Centenário da Independência, em 1922, recebem a contribuição das colônias de imigrantes, em espécie ou obras, como o monumento do Semeador, doado pela colônia polonesa, que se transformará num símbolos do Estado. Também o Semeador está repleto de representações: o que semeia o futuro, o trabalho para construir uma nova sociedade e a luta pelo amor ao Paraná. Muitas colônias de imigrantes contribuiram com os festejos, pois, desde a década de 1910, a imprensa já registrava o perigo das colônias de imigrantes. 6

Nesta data as comemorações tomam conta das principais ruas e praças. A participação popular e dos escolares era necessária para dar mais visibilidade e importância à cerimônia. As bandas de música, os estandartes, as bandeiras, os estabelecimentos de ensino e o exército desfilaram pelas ruas centrais até o Palácio. Este evento levava a população às ruas para saudar e aplaudir a comemoração. As praças da região central da cidade transformam-se em apoteoses. Na Praça Santos Andrade, o então Governador Munhoz da Rocha plantou um pinheiro, como símbolo máximo do regionalismo paranaense em outras inauguraram-se as estátuas de Emiliano Perneta, Emílio de Menezes e Domingos Nascimento, produzidas por atistas paranaenses. A participação dos estudantes também foi significativa: mais de cinco mil crianças entoaram o Hino da Independência, desfilando na rua XV de Novembro. (PEREIRA, 1998, p. 163,168).

Os festejo do Centenário da Independência transformou-se num marco histórico, na festa da “invenção das tradições” do Paraná: a criação e apresentação pública dos símbolos, do brasão, a criação do hino, a homenagem aos grandes homens que contribuíram com a educação e a cultura paranaense. Segundo Roberto Damatta, nas festas da ordem a ênfase é sempre colocada na ordem, na regularidade, na repetição, na marcha ordeira, no cântico cadenciado (...) do corpo que repete a idéia básica de sacrifício e disciplina (1981, p. 85). A presença da Igreja pode ser observada na realização de missa em praça pública, demonstrando as posições sociais do Estado e da Igreja. Deus, Pátria e Educação estavam representados nestes festejos.

As comemorações deste evento foram entusiásticas no Estado. Neste mesmo ano, o Governador Munhoz da Rocha, assinou o Decreto Lei no. 2.157, sobre o ensino, intensificando o processo de nacionalização através da escola e controle estatal sobre os programas e matérias escolares. Aumentava o controle sobre o civismo e patriotismo e a moral, inclusive dos professores e diretores que deveriam ter idoneidade moral e assumir por escrito o compromisso de respeitar os feriados nacionais, ensinar em língua nacional e incluir no programa semanal pelo menos quatro aulas de Língua Portuguesa, de Geografia, Corografia do Brasil e História do Brasil, que deveriam ser ministradas por professores de reconhecida competência. Também traz um item importante: as escolas deveriam adotar os programas oficiais de ensino.

O ensino da língua estrangeira dentro do território brasileiro era entendido como um obstáculo à formação da nação brasileira. Para WEBER, “o Estado nacional e o Estado tornaram-se hoje conceitualmente idênticos com base na homogeneidade da língua”. Para a formação da nação era imprescindível que todos compreendessem e falassem a língua portuguesa, no território nacional.

Movimento Paranista: Idéias sobre o tipo do homem paranaense e o Paraná

Nas primeiras décadas do século XX, o Paraná não tinha uma identidade regional cultural. Era preciso criar esta imagem através de símbolos, hino e brasão para que a população a reconhecesse, na natureza e nas suas riquezas. Assim, entre os intelectuais anticlericais, republicanos e positivistas fomentava-se a necessidade de aglutinar os homens que tinham amor ao Paraná para formar um movimento onde pudessem contribuir para o progresso com sua colaboração moral, intelectual e cívica.

Em 1927, foi fundado o Movimento Paranista, pelo Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Paranaense e Sociedade de Agricultura. O termo Paranista, foi pela primeira vez lançado publicamente em 1906, por Domingos Nascimento, para designar quem era “natural do Paraná, tomado de amor erangé pelo seu estado, por cujo progresso, prestígio e integridade envida todos os seus esforços” (IHGE, 1974, p. 69). Para os fundadores deste Movimento, o Paranista é aquele que tem afeição sincera ao Estado e demonstra isto de uma forma digna e útil à coletividade paranaense. É aquele que trabalhou pelo Estado, expressou o sentimento através das artes, pelas letras e pela justiça. Paranismo é “o espírito novo, de enlace e exaltação, idealizador de um Paraná maior e melhor pelo trabalho, pela ordem, pelo progresso, pela bondade, pela justiça, pela cultura e pela civilização” (1974, p. 69). Na construção de um Paraná melhor o ideário positivista estava presente, principalmente pela grandeza com ordem e o progresso com paz. Segundo Brasil Pinheiro Machado “O Paraná é um estado typico desses que não tem um traço que faça delles alguma coisa de notável” (In PEREIRA, 1998, p. 64).

Os grupos étnicos eram vistos como um aglomerado, um mosaico de diferenças culturais, sem formar uma paisagem única e nem um homem típico. Tanto que o ideário Paranista almeja no futuro um tipo étnico ideal, deste amálgama de culturas sairia o homem paranaense, “ com a eugenia de todas as raças e com os nobres sentimentos (...) da vontade realizadora, da cooperação fraternal, da cultura generalizada, da beleza física e moral – de um Paraná erguido no ápice de sua própria grandeza “(IHGEP, 1974, p. 70)

O artigo 1º. do documento de fundação do Movimento Paranista estabelecia que o objetivo era promover e estimular todas as iniciativas ao progresso e à civilização do Estado. O artigo 7º estabelece que o Conselho Superior Paranista será constituído pela seleção “de valores comprovados em todas as manifestações eugênicas da sociedade paranaense (...) ao mesmo tempo constituirá uma homenagem prestada aos que colaboram no progresso e na civilização do Paraná”. Ainda o mesmo documento apresenta que o trabalho que se desenvolverá nas seguintes teses: meio físico e vital, meio econômico, meio social, meio educativo e intelectual e meio cívico e moral.

Na tese do meio social, estava descrita a necessidade de um estudo sobre a população do Estado e formação de um tipo original do homem paranaense, pelo caldeamento da cultura ibérica, africana e aborígine e também um estudo sobre as diferentes formas de estabelecimento de núcleos coloniais de imigrantes e trabalhadores nacionais. Na tese do meio cívico e moral estava delimitado o estudo da melhor forma de comemorar as datas que assinalavam os grandes momentos do Brasil e do Paraná, também dos grandes homens nacionais e estaduais e das modificações necessárias para garantir o regime republicano e consolidar no povo o amor pelo regime.

Faziam parte do Movimento Paranista vários intelectuais do Paraná de diversas áreas desde a História até as Artes Plásticas e buscava formar uma identidade regional essencialmente com valores paranaenses. A busca pelo futuro, pelo progresso estavam presentes na construção desta identidade e a educação considerada como o motor do desenvolvimento social. O positivismo e anticlericalismo foram as marcas deste movimentos, através dos documentos escritos e obras produzidas pelos intelectuais, que o formavam, como Dario Velozo, Emiliano Perneta, Brasil Pinheiro Machado, Wilson Martins, Romário Martins, João Ghelfi, João Turin, Zaco Paraná, Lange de Morretes, só para citar alguns.

A Revista Ilustração Paranaense e a circulação das idéias sobre a formação da identidade cultural do Paraná

A Revista Ilustração Paranaense foi porta voz das idéias dos intelectuais do Movimento Paranista. Circulou mensalmente no Paraná de 1927 a 1930, e divulgava de forma ufanista, todo o crescimento, industrialização e urbanização de Curitiba e do Paraná, como tentativa de criar a imagem de Estado em franco desenvolvimento. Os artistas e os poetas marginalizados pela historiografia nacional, criarão a identidade cultural do Paraná, com raízes no imaginário da população. Identidade esta nas idéias de progresso, civilização, trabalho e ordem e na cultura paranaense. Os símbolos “tem a mesma função pedagógica que a construção de uma história regional: criar uma tradição paranaense e acima de tudo, fazer com que a população se reconheça em tais construções” (PEREIRA, 1998, p. 121,122).

O formato da Revista Ilustração Paranaense merece ser mais detalhado. A capa da Revista era um desenho feito por João Turin, “é um verdadeiro manifesto paranista que insere o homem em harmonia com os pinheirais, onde parece mesmo que o homem paranaense seria fruto dileto da árvore (...) (PEREIRA, 1998, p. 124). O primeiro texto ou poema sempre nas edições desta Revista são assinados por Romário Martins e sobre o povo ou a natureza do Paraná.7 (PEREIRA, 1998, p. 71). Haviam as páginas de coluna social sobre a vida das pessoas com importância social e econômica, devidamente fotografadas no carro, em família ou jogando tênis; as mansões dos bairros do Batel ou do Alto da Glória, que representam a modernidade ou o estilo luxuoso de vida; os textos sobre algum fato histórico importante da história do Paraná, as lendas e mitos do Estado; textos sobre os Museus do Paraná; sobre personalidades relatando sua importância na vida paranaense, os poemas sobre a natureza, a população ou as cidades. As idéias que eram veiculadas enalteciam os atos de bravura dos homens importantes do Paraná, o progresso e a modernidade estavam representados nas matérias dobre abertura de estradas, asfaltamento de Curitiba e os telefones. Os mitos de origem indígena estão muito presentes, como Naipi e Tarobá, as congadas da Lapa, a arte Guarani, a lenda caingang sobre Curitiba, sob uma perspectiva de busca da ancestralidade, da originalidade a ser resgatada.

Os diferentes grupos étnicos europeus e asiáticos que formaram o povo paranaense estavam pouco presente nas páginas da revista. Não há propaganda pela nacionalização de forma visível. Mas, a busca das origens indígenas está muito presente, através dos textos e poesias. Para os intelectuais que assinavam os textos desta revista, o novo homem paranaense seria formado a partir da comunhão dos povos aqui existentes, mas, reconhecendo as origens indígenas.

Os textos e poemas desta revista são assinados por Romário Martins, Emiliano Perneta, Joel Collaço, Davis Carneiro Filho, Euclides Bandeira, Pamphilo d’Assunção, Raul Gomes, Jayme Balão Júnior, João Cândido, Ermelino de Leão, Emílio de Menezes e as ilustrações são de Alfredo Andersen, Zaco Paraná, A. Nísio, João Turin, Lange de Morretes e as fotos de J. Groff (que também era Diretor da Revista). Estes intelectuais eram funcionários públicos, professores, poetas, escritores, que tem ampla divulgação de suas idéias em nível de Estado e não o reconhecimento de suas obras em nível nacional. Os temas preferidos destes intelectuais são: o progresso, os lugares pitorescos, a natureza, os mitos, as lendas e os grandes feitos e os homens incomuns da história. O ideário da criação da identidade regional não deixava transparecer problemas sociais ou econômicos e havia uma necessidade de divulgar as belezas e as paisagens do Paraná, como se a falta desta divulgação representação a ausência de uma identidade cultural.

Os textos sobre os museus buscavam ‘organizar’ a história e a cultura do Paraná, na proposição de David Carneiro e Romário Martins. O estilo de vida das famílias de classe média ou alta era divulgado através das fotografias e coluna social. As representações eram das pessoas jogando tênis no clube, veraneando no litoral, as famílias nas suas mansões, as festas de batizado, casamentos e noivados. Nesta época a fotografia ainda era considerada um artigo de luxo e de difícil acesso a toda população, portanto eternizar momentos da vida era privilégio de poucos.Segundo PÉCAUT (1990) os intelectuais e as “opiniões ideológicas que professam seriam, no essencial, apenas o produto de uma estratégia para preservar suas posições nas elites dirigentes. (p. 20)

As moças das ‘melhores famílias’ da elite Curitibana sempre apareciam nas fotografias em poses angelicais, como candidatas ao título de “miss” Curitiba e Paraná ou das participantes do Grêmio das Violetas. Os espaços sociais freqüentados pelas moças eram os saraus com declamações, ou as vendas de violetas para a caridade, os bailes no Clube Curitibano, a saída da missa com elegantes chapéus, as celebrações de batizados, noivados e casamentos.

Na difusão das imagens do lugar, associada às síntese da vida coletiva na metrópole, são veiculados estilos de vida e, sobretudo, hábitos de apropriação do espaço e de consumo de bens e serviços urbanos que pertencem, claramente, a segmentos de classe média. A veiculação destes hábitos constitui-se em estímulos que amplia o poder de penetração das imagens sintéticas no imaginário popular. O conteúdo simbólico das imagens da cidade reelabora e reproduz, em todos os níveis da vida social, as relações de dominação existentes baseando-se no fato que reproduz um imaginário subjacente. (GARCIA, 1997, p. 71)


O estilo de vida das famílias de sobrenome Leão, Caillet, Munhoz da Rocha, Gomm, Hauer e outras representantes da elite política e econômica Paranaense era ’naturalizado’.Era o espetáculo da ostentação do luxo naturalizado nas páginas e para ser admirado pelos leitores.

A maioria dos textos e poemas eram assinados pelos intelectuais homens e poucas eram as mulheres que tem publicações na mesma. Podemos citar, Júlia da Costa que publicou o poema ‘Um raio de sol’, Anita Philipovski publicou um texto sobre o Tibagi e Maria Amélia D’ Assumpção teve uma pintura reproduzida.

Na edição de junho de 1930, chama a atenção uma matérias sobre as mães e filhos do Paraná, e na legenda das fotos o nome das senhoras não é mencionado, apenas elas são identificadas, como Sra. Bento Munhoz da Rocha Neto, Sra. Francisco Hauer e Sra. Tenente Moreira. As mulheres tiveram pouco espaço, visibilidade e participação na revista. Aquelas que tinham suas fotos publicadas eram moças de famílias ricas ou candidatas ao título de ‘miss’.

A vida urbana das primeiras décadas do século XX era associada á modernidade e as mulheres passaram a ter mais espaço nas cidades. A modernidade estava identificada com a possibilidade de fazer esportes, participar de saraus, ir ao cinema, fazer footing na rua XV, ir ao hipódromo, mas também se uma mãe amorosa e esposa dedicada.

A ginástica, os esportes, a dança, o contato com a natureza, os banhos de mar, os passeios ciclísticos, as caminhadas, o cinema, o ‘footing’, os saraus, os desfiles de moda, os concursos de beleza, as viagens, a patinação, o corso, conduzir o automóvel e motocicleta, ao lado de práticas de lazer e divertimento, desenham o elenco das novas necessidades sociais, ao mesmo tempo que potencializam a visibilidade das mulheres no espaço urbano. (GOELLNER, 2003, p. 25).
A vida das mulheres urbanas é marcada por significações simbólicas, num processo constante de criação e recriação do estilo de vida. Roger Chartier (1991) entende que na análise das culturas se apreendem dos bens simbólicos, produzindo assim usos e significações diferenciadas. Ele também aborda que

no espaço assim traçado se inscreve todo trabalho situado no cruzamento de uma história das práticas, social e historicamente diferenciadas e de uma história das representações inscritas nos textos ou produzidas pelos indivíduos (CHARTIER, 1991, pg. 179)


Roger Chartier, citando Foucault, usando o termo “a apropriação social dos discursos” referencia que é preciso entender como os discursos são dominados e confiscados pelos indivíduos ou instituições. Portanto os intelectuais do Movimento Paranista se apropriavam de certas idéias e as divulgavam como criadoras de uma identidade regional e de um estilo de vida. Mesmo que as mulheres tivessem pouco espaço nos textos escritos ou nas suas opiniões esta revista foi generosa na divulgação das imagens da vida da jovens das famílias abastadas. A necessidade de ter uma imagem símbolo do Paraná estava evidenciada na quantidade de imagens e textos sobre o pinheiro, reproduzidos na Revista. O pinheiro foi elevado à condição de símbolo do Estado, tendo seu sentido ressignificado, era a representação simbólica do estado. Em todos os números da Revista, há menções ao pinheiro. O Paraná imaginário divulgado pela revista deveria ser apropriado pela população.

O discurso dominante manipula, intensamente, a associação entre a positividade do lugar e a positividade da identidade social coletiva. A exacerbação da positividade permite a defesa da identidade da cidade frente ao olhar externo, mesmo quando a realidade cotidiana da cidade existente, com suas contradições e conflitos sociais no espaço, encontra-se em franco contraste com qualidades presentes na imagem construída. (GARCIA, 1997, p. 67),


Observamos uma associação entre a positividade do lugar (Paraná) veiculada nas páginas da Ilustração paranaense e a positividade da identidade a ser construída: o amor ao Paraná e o orgulho de ser Paranaense. O texto ou o poema, aparentemente inocentes tem intenções bem objetivas: a formação da identidade regional da cultura e do homem paranense.

O civismo e o patriotismo estão presentes na forma de textos, como “Escola Sagrada” de Raul Gomes, que tem as fotografias das crianças das escolas públicas de Curitiba cantando o Hino nacional, no dia da criança, em frente ao edifício da UFPR 8. Em fevereiro de 1928, foi publicado por João Cândido um texto sobre o heróico Cerco da Lapa; a edição de abril de 1928 traz o texto assinado por Ermelino de Leão sobre o ‘Regresso dos voluntários da Pátria’; o poema ‘Semeia’ com a imagem da estátua do ‘Semeador’ que foi doada pela colônia polonesa e com pequeno texto de Afonso Camargo; a edição de dezembro de 1929 tem uma matéria sobre o ‘Dia do Paraná’ com muitas fotografias de alunos desenvolvendo a ginástica sueca, danças rítmicas, as alunas da escola normal fazendo ginástica, outros escolares em fila e cantando o hino. Estas fotografias são bastante significativas e demonstram que a disciplina está presente nas comemorações, nos estudantes em fila alinhados e uniformizados e nas apresentações de ginástica em trajes próprios. São os festejos pela emancipação política do Estado e os alunos representam as luzes e o corpo do homem sadio e disciplinado.

Ainda o civismo esteve presente na edição de dezembro de 1929, nos textos, músicas e fotografias. Os temas recorrentes eram as riquezas do Paraná e a música cívica. O texto ‘Dezenove de dezembro’ assinado por Claudino dos Santos e também a partitura do ‘Canto Patriótico do Paraná – Dezenove de Dezembro’ com a letra de Delly de Carvalho e a música de Romualdo Suriani, foram representativos da necessidade de construir o amor ao Estado. Intelectuais empenhavam-se em criar uma situação de divulgação dos momentos importantes da história do Paraná, como a Emancipação política, através da música e poesia. Ainda nesta mesma edição havia um texto sobre a ‘Erva Mate’, assinado por Raul Gomes, com a divulgação do produto que era conhecido desde os tempos imemoriais pelo indígenas e que tornou-se em riqueza no Estado. Torna-se visível o empenho dos intelectuais na criação e difusão da imagem símbolo do Paraná: o Pinheiro.

O Prefeito de Curitiba e o Governador do Estado foram homenageados nas páginas com textos e fotografias. Em dezembro de 1927, a Primeira Conferência Nacional de Educação estava descrita de forma sucinta com fotografia de Lysimaco Ferreira da Costa, em texto assinado pelo Prof. Lourenço Filho.

As fotografias demonstravam o progresso conseguido pelo trabalho e as transformações no espaço urbano com o crescimento da cidade. A imagem da estátua de Tiradentes estava na edição de abril de 1928 e na edição de março de 1930. As alianças entre intelectuais e a divulgação das boas relações com os representantes dos poderes políticos. Os professores com representação regional também assinavam os textos, como Dario Vellozo, Lysimaco Ferreira da Costa reforçam o pensamento de Gramsci sobre o papel do intelectual enquanto porta voz de certas idéias. Também é importante lembrar Julien Benda quando escreve que o intelectual moderno adota paixões políticas e torna-se o porta voz do cidadão leigo ao falar e discursar por ele.

A identidade regional paranaense precisava ser constituída na população, que era formada por inúmeros grupos étnicos, que mantinham a sua especificidade cultural. Era preciso inventar as tradições.

Por tradição inventada entende-se um conjunto de práticas normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição o que implica automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás sempre que possível, tentar-se estabelecer continuidade com um passado histórico produzido (HOBSBAWN, 1984, p. 9)

Outro item importante da agenda do Movimento Paranista era a criação de símbolos oficiais do Paraná. Estes símbolos deveria ter a natureza regional e deveriam refletir os atributos da natureza. “O primeiro símbolo paranaense foi a Bandeira, que nas palavras de Romário Martins são símbolos místicos, emotivos, políticos e representativos (...) O amor à bandeira é uma forma superior de idolatria” (PEREIRA, 1998, p. 34). Além da Bandeira foram criados o Brasão do Estado do Paraná, por Romário Martins, a coluna Paranista por João Turin, na década de 20.

A confraternização dos povos ocorreria em terras paranaenses, nas ricas terras de pinheirais, este miscigenação geraria um novo homem – o homem ideal. Ele seria a mistura das diferente etnias que aqui conviviam em harmonia e ordem. Esta representação de equilíbrio, ordem e harmonia está presente nos textos divulgados pela Revista Ilustração Paranaense. Há o enaltecimento do indígena, seus mitos, sua arte, em menor proporção a matriz africana, com a realização da Congada da Lapa e a matriz européia com as mulheres imigrantes.
Para concluir
A idéia de uma nacionalidade brasileira foi objeto dos discursos políticos e intelectuais desde o século XIX e se estendeu na Primeira República. Estava muito presente no ideário dos intelectuais republicanos, primeiramente com a necessidade de formação da nação pelo critério biológico da raça. Depois houve um deslocamento do olhar e vários intelectuais concluíram que os problemas deste país eram a falta de escolaridade e de saúde da população. Os intelectuais estavam engajados na defesa desta idéia e com propostas para a superação destes males da nação. Portanto, para nacionalizar a juventude era necessário incutir o amor à Pátria através de lições de civismo e patriotismo, e a escola era o caminho, através da organização curricular. Não foram poucas as tentativas legais de inserir mais aulas de civismo e patriotismo, de Geografia e História e Língua Nacional, para a construção da nacionalidade, no Estado do Paraná.

Em âmbito federal os intelectuais endossavam este ideário e no Congresso nacional os Deputados propunham leis que construíssem este ideário. No Paraná as atitudes políticas determinavam o cumprimento das leis com medidas nacionalistas, como o aumento das aulas de História, Geografia, Moral e Cívica.

Ainda nos anos da primeira Guerra Mundial começam as mobilizações em Curitiba pelo fechamento das escolas de estrangeiros, entendidas como a prestação de um desserviço à Pátria. A imprensa apoiava a nacionalização do ensino e bradava pelo perigo da desnacionalização da infância. Muitos editoriais inflamados faziam a defesa de uma escola nacional com um currículo único. Os intelectuais apoiavam estas idéias nos discursos das praças ou nos editoriais dos jornais. Ainda sob a forma de lei, o Governo Estadual recrudescia o controle sobre as matérias escolares e as lições de civismo e patriotismo deverias estar presentes.

Os festejos do Centenário da Independência do Brasil tiveram grande repercussão no Paraná, com a população acompanhando os desfiles, os festejos e as inaugurações. Foi um momento de construção de símbolos no imaginário popular, como o hino, o brasão, a bandeira e por que não as estátuas em praça pública, de homens que contribuíram coma república e com o Paraná. Estas celebrações demonstram a necessidade da ordem e da hierarquia ser demonstradas nas ruas centrais e praças públicas, com a presença dos estudantes. Os escolares eram chamados para sua cota de participação nos festejos cívico-patrióticos, onde o projeto de nacionalização estava em andamento.

Paralelamente, a ausência de uma identidade paranaense também era sentida. Os intelectuais criaram o Movimento Paranista que visava a união dos que amavam o Paraná e criar uma identidade. A ação do Movimento Paranista envolveu artistas, escritores, professores, literatos e outros que conclamavam o amor pelo Paraná e a criação de elementos simbólicos para a construção de uma identidade paranista. Entre seus expoentes podemos citar Romário Martins que por muito tempo lutou e empenhou esforços na criação da identidade regional paranaense. Escreveu livros de história e como Diretor do Museu paranaense deu grande contribuição à causa. Julien Benda já analisou bem a situação dos intelectuais que se posicionam politicamente e falam em nome do povo e no Paraná esta situação se confirma: os intelectuais defendendo projetos políticos.

A Revista Illustração Paranaense foi o meio de divulgação do projeto de criação da identidade regional e cultural do Paraná. Através da revista o pinheiro e todas as formas de estilização dele derivadas como a pinha e o pinhão ganharam destaque nas artes paranaenses. Os intelectuais do Estado não mediram esforços em demonstrar o seu amor ao Paraná, que era o ideário do Movimento Paranista, através de poemas, fotografias e textos na revista. Ao invés da praça pública, a revista foi a porta voz dos anseios deste movimento. Na revista a fina flor da sociedade e da intelectualidade paranaense se expressavam e se empenhavam na divulgação dos símbolos do Paraná e na criação de elementos desta identidade. O Pinheiro do Paraná mereceu destaque da mesma forma que os textos assinados sobre os mitos de criação do Estado, buscando a matriz indígena e a essencialidade do pinheiro na vida dos habitantes deste Estado. A importância da Revista como fonte de pesquisa foi a de ter circulado num período de efervescência das idéias de identidade regional e ter a adesão dos intelectuais e políticos da época.

Ao mesmo tempo em que era gestado o ideário de nacionalização, no Paraná a necessidade de formação cívica da juventude estava sendo implantada pelo governo, através da legislação educacional. As leis e decretos que gerenciavam a vida escolar do Paraná nas primeiras décadas do século XX representam os ideais de formação do homem nacional, que deveria ser saudável, forte, viril e acima de tudo conhecedor de sua pátria.

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1 Relatório do Inspetor Geral de Ensino, César P. Martinez, em 1921. DEAP.

2 Gazeta do Povo, Curitiba, 08/09/1920.

3 Diário da Tarde, Curitiba, 16/02/1918

4 Relatório do Inspetor Geral do Ensino do Paraná, 1921.

5 Relatório do Inspetor Geral do Ensino do Paraná, C.P. Martinez, em 1921.

6 Sobre o usa da língua nacional nas escolas públicas e partículas, ver as leis estaduais no. 356, de 11/04/1900, 894 de 119/04/1909 que versam sobre o ensino em língua nacional.

7 Illustração paranaense, Fev/1928, no. 02.

8 Ilustração paranaense, ano 1, no. 1, nov. 1927.



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