Anísio Teixeira: desafios para a educação democrática e pública de qualidade



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Anísio Teixeira: desafios para a educação democrática e pública de qualidade
José Aguiar Nobre/Prof. Dr. Samuel Mendonça

PUC Campinas - Programa de Pós-Graduação em Educação - SP

Bolsista Reitoria da PUC Campinas

Eixo Temático 2: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação e Formação de Professores

Pôster

Resumo

O presente artigo discute a questão da educação democrática e pública de qualidade, entendendo que a formação do educador é condição essencial para a efetivação deste desafio. Por ocasião desta apresentação na Anpedinha 2011, faremos a exposição de aspectos da pesquisa em andamento, com ênfase na educação pública de qualidade defendida por Anísio Teixeira. O objeto de pesquisa é a educação democrática e pública de qualidade pensada pelo referido autor. O referencial teórico adotado neste exame diz respeito a Anísio Teixeira e John Dewey com seus escritos sobre a escola e a democracia. As obras que sustentam a nossa pesquisa são: Vida e Educação e Democracia e educação: introdução à filosofia da educação, de John Dewey e Educação para a Democracia: introdução à administração educacional; Educação e o mundo moderno; Em marcha para a democracia: à margem dos Estados Unidos, de Anísio Teixeira. A metodologia do trabalho que se situa essencialmente no campo da filosofia da educação será feito a partir de revisão bibliográfica. Do ponto de vista do método, portanto, a investigação realizada é fundamentalmente filosófica, isto é, consubstancia-se em uma reflexão crítica e cuidadosa quanto ao fenômeno educacional a partir do referencial teórico adotado. Os resultados esperados consistem na hipótese da construção de um perfil de educador condizente com a tarefa de promover a emancipação do homem, por meio da construção de uma educação democrática e pública de qualidade.



Palavras-chave: Educação, Anísio Teixeira, Democracia.

Introdução

No contexto das políticas públicas educacionais, tanto nas esferas municipais, estaduais, federal ou até mesmo mundial, giram discussões eufóricas sobre a educação, ditas como prioritárias. Percebemos a necessidade de discutirmos a questão da educação democrática e pública de qualidade, entendendo que a formação do educador é condição essencial para a efetivação deste desafio. Do ponto de vista formal, o problema da pesquisa consiste na pergunta: quem é o homem da educação pública de qualidade pensada por Anísio Teixeira e qual a tarefa do educador no desenvolvimento das potências deste homem na construção de uma concepção de educação que aponta para a emancipação do sujeito?

Por ocasião desta apresentação na Anpedinha 2011, faremos a exposição de aspectos da pesquisa em andamento, com ênfase na educação pública de qualidade defendida por Anísio Teixeira. É preciso esclarecer que este autor tem como fonte inspiradora o educador americano John Dewey e, portanto, o pano de fundo desta dissertação é a obra deste referido autor.
Referencial teórico

O referencial teórico adotado neste artigo diz respeito a Anísio Teixeira e John Dewey com seus escritos sobre a escola e a democracia. As obras que sustentam a nossa pesquisa são: Vida e Educação (1980) e também Democracia e educação: introdução à filosofia da educação (1959), de John Dewey e Educação é um Direito(1969); Educação não é Privilégio(1977); Educação para a Democracia: introdução à administração educacional(1997); Educação e o mundo moderno(1969); Em marcha para a democracia: à margem dos Estados Unidos(2007), de Anísio Teixeira. Esta base teórica diz respeito ao pragmatismo e, neste sentido, haverá, por ocasião do texto da dissertação, desenvolvimento desta base teórica com o devido rigor.


Objetivos:

Geral: Discutir a educação democrática e pública de qualidade pensada por Anísio Teixeira;

Específicos: contextualizar a obra de Anísio Teixeira e sua ação na luta pela educação democrática e pública de qualidade; definir qual o ‘público’ da educação pública de qualidade defendida por Anísio Teixeira; discutir as implicações da concepção de homem e de educação de John Dewey e de Anísio Teixeira como possibilidade para emancipação do sujeito; propor, a partir da concepção de homem de Anísio Teixeira, um novo perfil de educador e escola trabalhando na qualificação da educação e porque não dizer da cidadania, por meio de uma escola pública de qualidade e democrática.
Metodologia

O trabalho que se situa essencialmente no campo da filosofia da educação será feito a partir de revisão bibliográfica. É preciso esclarecer que a filosofia da educação é, antes de qualquer coisa, filosofia. Do ponto de vista do método, portanto, a investigação realizada no contexto da filosofia da educação é fundamentalmente filosófica, isto é, consubstancia-se em uma reflexão crítica e cuidadosa quanto ao fenômeno educacional a partir do referencial teórico adotado.


Desenvolvimento

O nosso estudo delimita-se na questão da educação democrática e pública de qualidade, no entendimento do educador Anísio Teixeira que foi inspirado diretamente por John Dewey. Sendo Anísio Teixeira o autor de embasamento teórico da nossa pesquisa, julgamos ser de fundamental importância apresentar o pensamento de John Dewey e de Anísio Teixeira frente à educação democrática. Ambos lutaram avidamente em prol de uma educação democrática de acesso para todos, embora em contextos distintos.

Sobre a educação democrática, Dewey pondera que o amor da democracia pela educação é um fato cediço na história e que a democracia educacional é condição para uma organização social, na qual a comunhão democrática torna mais interessada que outras comunhões:

Quanto ao aspecto educativo, observamos primeiro que a realização de uma forma de vida social em que os interesses se interpenetram mutuamente e em que o progresso, ou readaptação, é de importante consideração, torna a comunhão democrática mais interessada que outras comunhões na educação deliberada e sistemática. O amor da democracia pela educação é um fato cediço (DEWEY, 1959, p. 93).

Na educação pautada pela concepção democrática, Dewey leva em consideração a sociedade e não somente o indivíduo isolado. Para ele, a educação para além das castas ajudará a sociedade a se organizar e a entender que “a consequência deste fato é reconhecer-se que, à proporção que a sociedade se torna democrática, a verdadeira organização social está na utilização daquelas qualidades peculiares e variáveis do indivíduo e não da sua estratificação em classes” (DEWEY, 1959, p. 97). Vale ressaltar com Dewey, ao expor, por exemplo, o pensamento kantiano de educação1, e entendermos esta “como o processo pelo qual o homem se torna homem” (DEWEY, 1959, p. 102).

Anísio Teixeira também toca na questão social como uma necessidade a ser compreendida pelas pessoas a fim de que elas saibam se organizar e defender os seus direitos essenciais: “(...) nenhum sistema escolar se pode organizar se o povo não tem visão político-social suficientemente larga e ampla para perceber que a escola é, por excelência, o instrumento da conquista e defesa de seus direitos essenciais” (TEIXEIRA, apud., OLIVEIRA, 2000, p. 96). Sabemos que a largueza e amplitude de conhecimento não se conseguem rapidamente, mas é uma conquista processual, na medida em que o sujeito vai adquirindo consciência crítica e, aí sim, entra a tarefa fundamental da escola e do profissional da educação nesse processo na direção de uma conquista dessa compreensão para todos os cidadãos. Sobre a defesa de uma democracia educacional no Brasil, vejamos a luta de Anísio Teixeira, extraída do Manifesto dos Pioneiros da Educação, em 1932:

Só existirá uma democracia no Brasil no dia em que se montar a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública. Mas não a escola pública sem prédios, sem asseio, sem higiene e sem mestres devidamente preparados, e, por conseguinte, sem eficiência e sem resultados. E sim a escola pública rica e eficiente, destinada a preparar o brasileiro para vencer e servir com eficiência dentro do país (TEIXEIRA, apud., LIMA, 1992, p. 90).

A tarefa de contextualizar histórica e biograficamente duas personalidades da envergadura destes autores não é simples e nem tampouco fácil. E qualquer tentativa de contextualização derradeira, final, fechada, por certo, distanciará da história de pensadores que se tornaram referências para a educação, uma vez que sempre nos escapa algo na busca do conhecimento. Com efeito, entendemos que para dar início ao nosso estudo, faz-se necessária uma palavra que nos situe neste começo. É imprescindível entendermos um pouco de John Dewey para compreendermos Anísio Teixeira, seu discípulo.

Sendo Anísio Teixeira fortemente influenciado por John Dewey, assumimos a importância deste pensador para a nossa investigação.

Anísio Teixeira adotou Dewey como plataforma de lançamento para o mundo, como viga mestra para compreender o que se passava na sociedade norte-americana. (...) O pragmatismo deweyano forneceu-lhe um guia teórico que combateu a improvisação e o autodidatismo, permitiu-lhe operacionalizar uma política e criar a pesquisa educacional no país (NUNES, 2001, p.7).

A escolha de John Dewey por Anísio Teixeira consistiu em uma opção que substituiu os velhos valores abraçados com avidez na religião católica. E sua opção por um crítico contundente dos impasses da democracia norte-americana, era assumir semelhante postura aqui na sua terra em busca de uma educação pública de qualidade de acesso para todos.

Assim como John Dewey foi um crítico do sistema político e educacional da sociedade de seu tempo, Anísio Teixeira lutava por uma educação pública de qualidade entendida como direito dos direitos e ela deve ser de todos; comum a todos e não apenas quinhão de uma minoria.

Ainda que já estejamos no século XXI, ao ler Anísio Teixeira, vimos que não deixa de prevalecer no Brasil aquilo que Anísio Teixeira chamou o velho dualismo: para os poucos privilegiados a educação necessária, quanto tempo ou dinheiro custe, para as altas funções; para os muitos sem “tempo e dinheiro” – para longos estudos, o treino para o trabalho subalterno (OLIVEIRA, 2000, p. 104).

Conscientes dessa triste realidade faz-se necessário que a denunciemos sempre sob qualquer regime ou sistema. Hoje, sob o império da cibernética e, no futuro, sabe-se lá sob qual império, mas o que não podemos é coexistir com tal dualismo desumano.

O que se pretende é levar em conta a sua visão de educação desde a época em que Anísio Teixeira viveu, bem como o seu esforço para que todos tivessem acesso a uma educação democrática e pública de qualidade. Buscaremos desenvolver uma reflexão em torno das concepções de homem e de educação que nos apresenta Anísio Teixeira em seus escritos sobre educação, almejando uma democratização educacional e, consequentemente, a formação social desejável para um excelente padrão democrático-educacional da nação brasileira.
Conclusões/Resultados Esperados: os resultados esperados consistem no entendimento destes autores, à luz de pesquisas atuais, em evidenciar as contradições da gestão democrática, bem como a possibilidade da construção de um perfil de educador condizente com a tarefa de promover a emancipação do homem , pois entendemos que a junção desses fatore é condição para o fomento de uma sociedade democrática; afinal, entendemos que é a educação o ethos possível para o fomento das democracias e transformações sociais.
Referências

DEWEY, John. Vida e Educação. Trad. Anísio Teixeira. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

________. Democracia e educação: introdução à filosofia da educação. Trad. Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. 3.ed. São Paulo: Comp. Ed. Nacional, 1959.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. Trad. Francisco Cock Fontanella. 5.ed, revisada. Piracicaba: Unimep, 2006.

LIMA, Maria Jose Rocha. O Legado de Anísio. In. ROCHA, João Augusto de Lima (Org). Anísio em Movimento. Salvador: Fundação Anísio Teixeira, 1992.

NUNES, Clarice. Anísio Teixeira: a poesia da ação. In. Revista Brasileira de Educação. Nº 16. Jan/fev/mar/abr. Campinas: Autores Associados, 2001 [pp. 5-18].

OLIVEIRA, Hildérico Pinheiro de. Anísio Teixeira: educador do Brasil. Revista da Bahia. Nº 31/ julho/2000 [pp. 91-104].

TEIXEIRA, Anísio. Educação não é Privilégio. 4. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1977.

________. Educação para a Democracia introdução à administração educacional. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

________. Educação e o mundo moderno. 2. ed. São Paulo: Nacional, 1977.

________. Educação é um Direito. São Paulo: Editora Nacional, 1969.

________. Em marcha para a democracia: à margem dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007.

________. A Educação e a Crise Brasileira. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.

________. Aspectos Americanos da Educação. Salvador: São Francisco, 1928.




1 Não se deve educar as crianças segundo o presente estado da espécie humana, mas segundo um estado melhor, possível no futuro, isto é, segundo a ideia de humanidade e da sua inteira destinação. Esse princípio é da máxima importância. De modo geral, os pais educam seus filhos para o mundo presente, ainda que seja corrupto. Ao contrário, deveriam dar-lhes uma educação melhor, para que possa acontecer um estado melhor no futuro. (KANT, 2006, p. 22).


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