ANÍsio teixeira e a década de 30 no brasil: uma tentativa de entender a relação educação e sociedade



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ANÍSIO TEIXEIRA E A DÉCADA DE 30 NO BRASIL: uma tentativa de entender a relação educação e sociedade.

Aparecida Favoreto

UNIOESTE
O objetivo deste texto é fazer uma análise sobre o projeto de reforma educacional elaborado por Anísio Teixeira durante a década de 30 no Brasil, em que o autor defendia a construção de um sistema de educação laico, gratuito e nacional. É preciso salientar que as questões educacionais não se fazem fora do contexto social. Nesse caso, a discussão do tema proposto se fará por duas vias complementares: 1) uma explanação sobre a concepção de educação, homem e sociedade do autor e 2) algumas reflexões sobre os rumos econômicos, políticos e sociais do período e, consequentemente, a tentativa de entender quais eram as questões do período que impulsionavam o pensador a escrever sobre o ideal de renovação e reconstrução da sociedade brasileira via educação.

A eclosão da Primeira Guerra Mundial, acarretou conseqüências políticas e econômicas que levam, não só o Brasil, mas boa parte do globo terrestre, a ingressar numa nova fase da história da sociedade capitalista.

A economia mundial, nos anos 20 e 30, trafegava por mudanças rápidas, o que lhe proporcionava um clima de incertezas e de insegurança. Naqueles anos, ocorreu um aumento dos índices de produção industrial, de urbanização, de crescimento da quantidade e qualidade dos meios de transporte, de comunicação e diversões. Por outro lado, o mundo conhecia “a grande depressão do entreguerras”, com altos índices de desemprego, colapso do sistema monetário, queda dos preços dos produtos primários (como o café no Brasil), queda no comércio mundial e um “aparente” desgaste na política econômica do “livre mercado”, surgindo no cenário da política mundial a economia planejada. Paralelamente a estas oscilações econômicas, as discussões políticas entravam em ebulição. No conjunto, assistia-se um choque entre diversas propostas políticas, nas quais o capitalismo revelava-se tanto como uma organização social hegemônica em pleno desenvolvimento, quanto uma sociedade em vias de ser superada. Na Europa a situação era confusa. Enquanto os antigos princípios do liberalismo pareciam estar condenados, três tendências competiam pela hegemonia intelectual e política. O comunismo era uma, pois a União Soviética entrava numa industrialização ultra-rápida e maciça, significando uma ameaça aos países capitalistas. A segunda, era o nacionalismo, um capitalismo aparentemente reformado, em que a característica mais evidente era uma acirrada disputa entre as grandes potências mundiais por novos mercados. A terceira opção, uma variante desta segunda, era o nazifascismo, que transformou-se num “perigo mundial1

Na década de 30, o Brasil, passa a assumir características mais urbanas. Essa mudança colocou os brasileiros diante de novas formas de produzir, consumir, morar, divertir-se, etc. Como tais alterações não ocorrem de um momento para o outro, juntamente com os acontecimentos e discursos políticos e econômicos que delineavam os novos rumos da nação, o Brasil enfrentava a crise da economia cafeeira e questões de seu recente passado, como colonização, escravidão, monarquia e imigração. Em outras palavras, havia um país sertanejo, pobre, messiânico misturando-se, mesclando-se ao presente e ao futuro incerto de seu ingresso na industrialização. Desta forma, questões como coronelismo, tenentismo, populismo, anarquismo, catolicismo, religião, nacionalismo, comunismo, desenvolvimento científico, organização e racionalização do trabalho, da produção e do comércio eram todas discutidas ao mesmo tempo, imprimindo à nação brasileira uma particularidade, a coexistência de fortes contrastes.

Na verdade, o que se percebe é que Anísio Teixeira, em meio a este período de grande turbulência e oscilações econômicas e políticas, não deixou de tomar uma posição clara e definida. No final dos anos, escreve uma série de obras, em que expressa a intenção de criar um sistema de educação no Brasil semelhante ao norte americano.

Ele observa que a sociedade vivia um “interessante período de transição”, que exigia uma nova perspectiva educacional. Neste aspecto, defende a construção de um novo sistema de ensino no Brasil, o qual pudesse eliminar todos os “erros”, “vícios”, “ignorância” do passado, para construir caminhos de melhoramento da sociedade brasileira e adequar o homem brasileiro às novas exigências sociais em curso com o desenvolvimento da indústria, da ciência e da democracia.

Com base na transformação da sociedade, Anísio Teixeira constrói seu plano de reforma escolar, que não se encerra na ampliação numérica das escolas brasileiras ou na simples alfabetização, mas estende-se ao conflito de conceitos, concepções de sociedade e encaminhamento de questionamentos educacionais. Assim, os princípios, os métodos, o conteúdo educacional são severamente postos em suspeita, principalmente os que seguem os preceitos religiosos. A educação “tradicional2 passa a ser considerada como um mero instrumento de ilustração, e um novo ideal de educação é apresentado como realmente educador, como efetivamente comprometido com o processo de preparação “real” do indivíduo para as diversas modalidades de vida da sociedade moderna.

Anísio Teixeira distingue, portanto, os conceitos de “educação” e de “alfabetização”. Segundo ele, a “alfabetização”, mantida em sua forma pura e simples, desacompanhada de educação, não contribuiria para a formação do espírito do homem, para a adaptação do indivíduo ao meio social. Ao contrário, revela-se um mal, mantendo os indivíduo distantes das reais condições da vida e necessidades do país. Assim, escreve que a escola deveria “ensinar a todos a viver melhor; a ter a casa mais cuidada e mais higiênica; a dar às tarefas mais atenção, mais meticulosidade, mais esforço e maior eficiência; a manter padrões mais razoáveis de vida familiar e social; a promover o progresso individual, através dos cuidados de higiene e os hábitos de leitura e estudo, indagação e crítica, meditação e conhecimento” (TEIXEIRA, 1953, p. 62-3).

Como pode-se ver, seu ideal educacional contrapõe-se a um sistema meramente alfabetizante, ele prega a criação de um sistema efetivamente educativo que, formando o aluno, contribua certamente para seu aprimoramento e valorização, seja no trabalho manual ou intelectual. Ou melhor, que seja uma educação integral3.

É importante dizer que a “Escola Nova” não é uma educação propriamente profissional, mas abrange a intenção de habilitar o aluno ao trabalho, principalmente no que se refere à idéia de trabalho útil e produtivo. Sua preocupação é também libertar o aluno do antigo preconceito para com as profissões manuais, de forma a melhor habilitá-lo a qualquer profissão. Nesse caso, a educação não poderia permanecer amarrada à “aprendizagem de fatos livrescos, presos aqui e ali em nossas memórias” em um “meio-saber verbal”, com normas e princípios rígidos, que “nada criam nem reproduzem”, mas devia estar constantemente voltada para um permanente processo de aperfeiçoamento e progresso do homem. Noutras palavras: “o processo de educação é um processo de continua transformação, reconstrucção e reajustamento do homem ao seu ambiente social movel e progressivo” (1928: 21). Em linhas gerais, para o autor, era necessário cortar as “raízes subsistentes” do passado para se implantar a nova educação, a educação “progressiva”. O autor credita à ciência a capacidade de renovação e aprimoramento das técnicas de produção, a educação eficiente só pode ser aquela que prepara o homem para viver nesta constante transformação.

Nesse aspecto, ressaltamos que o novo projeto de reforma educacional fundamentava-se em dois pontos básicos: um seria a eliminação dos “erros”, do “vício”, da “ignorância” do passado. O outro seria a construção de uma civilização baseada no pensamento científico, na modernidade e na democracia.

Anísio Teixeira, compreende que a sociedade brasileira, naquele momento, vivia um “interessante período de transição”; almejava construir uma educação que não fosse apenas “perpetuadora dos costumes” mas que fosse também “renovadora, consolidadora e retificadora dos costumes hábitos e idéias, que se vão introduzindo na sociedade pela implantação de novos meios de trabalho e novas formas de civilização”. Assim, defendia a necessidade de importação da educação norte-americana, considerando que naquele momento “de transição... começam a aparecer muitas vezes os fatôres de progresso antes de estarem os homens preparados para êles” (1953: 66). Urgia a necessidade de importar o modelo americano de educação que era expressão viva do processo de transformação que estava ocorrendo no mundo todo4 e, a tendência clara dos novos tempos.

A civilização industrial e experimental havia, segundo ele, alterado a rigidez social, colocando em seu lugar uma permanente mudança, um permanente progresso, no qual todos teriam as mesmas oportunidades e todos estavam aptos a exercer qualquer função segundo seus méritos pessoais. A vida do homem moderno estava se tornando cada vez mais complexa, dinâmica e interdependente. Cada indivíduo deveria ter condições, em um “meio social liberal”, de resolver seus problemas morais e humanos, no que seria uma democracia.5

A proposta de reforma educacional idealizada por Anísio Teixeira, vai além de aumentar o números de escolas, vai além da simples alfabetização, firma-se na luta por construir um espírito democrático e produtivo no homem brasileiro. Em oposição ao Jeca Tatu ou ao burocrata que trabalhava desvinculado das reais necessidades do país. Anísio Teixeira almejava uma escola que pudesse formar um homem autônomo, empreendedor, responsável e feliz, idealizara o modo de viver e educar do homem norte-americano.



BIBLIOGRAFIA


CARNEIRO LEÃO. Tendências e diretrizes da escola secundária. Rio de Janeiro: Tipografia do Jornal do Comércio, 1936.

GANDINI, R. P. C. Tecnocracia, Capitalismo e educação em Anísio Teixeira(1930-1935). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980.

HOBSBAWM, E. Era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

LIMA, A. A. No Linear da Idade Nova. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1935

LOURENÇO FILHO. Tendências da Educação Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, s/d.

TEIXEIRA, A. Educação não é Privilégio. São Paulo: Nacional, 1971.

____________. Pequena Introdução à Filosofia da Educação. São Paulo: Nacional, 1975.

____________. Educação no Brasil. São Paulo: Editora Nacional; Brasília, INL, 1976.



____________. Educação para a Democracia. São Paulo: Nacional, 1953.



1 Ver HOBSBAWM, 1995, p.91 a 147.

2 A escola tradicional para Anísio Teixeira é a escola que permanece em um programa rígido de educação, é aquela que tem um fim determinado, tem um programa preestabelecido para o adulto que se quer formar. É aquela que desconhece a criança como centro dos interesses educacionais e estipula como conteúdo a ciência de adultos, não percebendo que a criança passa por uma progressão ordenada do conhecimento. Segundo ele, constitui-se, “então, um outro mundo, onde contra o bom senso e contra a utilidade, se aprende para fins de promoção de exames. ... Daí a escola ter-se afastado da vida, tornando-se o ambiente artificial que, ... quando muito, se prepara o espírito para as especializações diversas de uma vida estritamente intelectual.” (Ver TEIXEIRA, 1975, p. 68-83)

3 A proposta de educação integral que Anísio Teixeira defende e que, mais tarde, efetiva-se com a construção do Centro Carneiro Ribeiro, em 1950, na Bahia, trata-se, na verdade, de um “processo educativo que considera o educando na inteireza da sua individualidade, desenvolvendo-lhe todos os aspectos da personalidade e procurando afirmar nêle os valores maiores da pessoa humana, como a liberdade com responsabilidade, o pensamento crítico, o senso das artes, a disposição da convivência solidária, o espírito aberto a novas idéias, a capacidade de trabalhar produtivamente” (EBOLI, T., 1969, P.5-7).

4Com a perspectiva de que, com o desenvolvimento da ciência cria-se uma “nova interdependência entre todos os pontos do globo”, Anísio Teixeira trabalha com a idéia de que existe uma relação entre o particular e o universal, uma relação entre o Brasil e o mundo, no qual o Brasil deverá se preparar para a nova sociedade que estava se formando. (Ver, TEIXEIRA, 1975, p. 31 a 34).

5Segundo Anísio Teixeira: “democracia é acima de tudo o modo moral da vida do homem moderno, a sua ética social, a criança deve ganhar através da escola esse sentido de independência e direção, que lhe permita viver com outros com a máxima tolerância, sem, entretanto, perder a personalidade.” (1975: 41). Esta idéia de democracia de Anísio Teixeira é muito criticada pela historiografia brasileira. Veja, o que diz Gandini ao se referir ao “Manifesto dos pioneiros da educação nova”: “As contradições do texto são hoje evidentes, assim como a visão positiva do Estado, característica do liberalismo conservador. Se a pretensão era abolir a desigualdade de oportunidades através da escola, isso seria inviável desde que não se alterassem as condições sociais que provocavam as desigualdades. Os pioneiros da educação nova (...) acreditavam estar se dirigindo para uma ‘socialização’ através da reforma educacional, sem alterar as bases e mesmo aceitando as regras do jogo capitalista: tratava-se de harmonizar interesses sociais e individuais, ou seja, uma posição característica do liberalismo conservador” (GANDINI, 1980, p. 59)





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