Anti-darwinista



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CONSIDERAÇÕES SOBRE UM MARX “ANTI-DARWINISTA”


Carlos Alberto Dória*


Teólogos extintos jazem no berço de toda ciência”

(Thomas Huxley, 1860)

Introdução


O propósito do presente trabalho1 é explorar a fronteira da crítica marxista - entre o pensamento de Marx e Engels e o darwinismo – a partir de questões levantadas por Dominique Lecourt, há mais de duas décadas, sobre a intelecção de Marx a respeito de Darwin e o modo como o marxismo dogmático se apropriou do assunto.

Embora Lecourt tenha feito uma análise pontual do pensamento de Marx, é preciso ir além e considerar que os materialistas de então acalentaram o projeto onde as ciências do homem e as ciências da natureza integravam a “ciência positiva da natureza e da história”2. Da antiga problemática do conhecimento restaria apenas “a teoria do pensamento e suas leis – a lógica formal e a dialética”3. Portanto, era fundamental mergulhar em todos os campos do saber, especialmente a biologia, donde a necessidade imperiosa de compreender Darwin. Por outro lado, deve-se considerar que o materialismo moderno é fruto de toda uma geração – a “geração do materialismo”4 – originando uma nova cultura e uma nova visão de mundo. Ao expulsar Deus do campo de determinações, os materialistas impuseram-se a tarefa de encontrar as leis que regiam a matéria em todas as suas formas.

Para esta revolução, talvez a teoria de Darwin seja a mais importante teoria na “virada”, e mais radical do que a crítica marxista ao idealismo alemão. Por isso tem especial importância a relação do marxismo com o darwinismo; uma relação conflitiva, contraditória, mas sem a qual não se compreende o desenvolvimento do próprio pensamento de Engels e Marx. Portanto convém registrar de pronto o que escreveu Engels, em 1875, sobre o darwinismo:

“Da doutrina darwinista eu aceito a teoria da evolução, mas não tomo o método de demonstração de Darwin (struggle for life, natural selection) além de uma primeira expressão, uma expressão temporal e imperfeita, de um fato que se acaba de descobrir.

[...]

A interação dos corpos naturais – tanto os mortos quanto os vivos – implica também a harmonia, assim como a colisão, a luta, do mesmo modo que a cooperação. Se, por conseguinte, um pretenso naturalista se permite resumir toda a riqueza e toda a diversidade da evolução histórica em uma fórmula estreita e unilateral, na ‘luta pela existência’ [...] semelhante método contem em si sua própria condenação” 5.



Ao explicitar a distância entre as duas ordens, no tocante ao método, Engels indica o seu fundamento real: “a diferença essencial entre as sociedades humanas e as animais consiste em que essas, na melhor das hipóteses, coletam, enquanto os homens produzem. Basta esta diferença, única mas capital, para tornar impossível a transposição sem mais reservas das leis válidas para as sociedades animais para as sociedades humanas”.

Darwin, como se concordasse com Engels, admitira antes, em 1871, que a ênfase nos mecanismos de seleção natural havia sido interpretada de modo absoluto, o que não refletia o seu ponto de vista com exatidão:

“[na] A origem das espécies talvez tenha emprestado excessiva importância à ação da seleção natural ou à sobrevivência dos mais capazes[...]. Seja-me permitido dizer, como justificativa, que tinha em mente dois assuntos distintos: o primeiro, o de que as espécies não haviam sido criadas separadamente; e o segundo, o de que a seleção natural tinha sido o agente principal das mudanças, embora largamente coadjuvado pelos efeitos hereditários dos hábitos e claramente pela ação direta das condições ambientais”6.

Esta ponderação é de grande valor historiográfico, pois entre o grande impacto de A origem das espécies e até a revelação das leis da genética o darwinismo chegou mesmo a viver um momento de desprestígio e um conseqüente revival do lamarckismo, visto que Lamarck se ocupou frontalmente dos problemas da adaptação e o do papel do meio-ambiente na evolução das espécies. Esta retomada, conhecida como neo-lamarckismo, nos diz que, embora a evolução fosse considerada um princípio inquestionável, o valor do mecanismo que Darwin propôs para explicá-la variou ao longo da história da biologia e em muitas abordagens a ênfase recaiu em princípios alternativos, atuando simultaneamente e conferindo um papel secundário à seleção natural7.

Essa digressão histórica é importante porque, como veremos, as dúvidas de Marx sobre as lacunas teóricas do darwinismo serviram à grande confusão promovida por Dominique Lecourt por ocasião do centenário da morte de Charles Darwin. Para o epistemólogo, Marx, isoladamente, cometeu um erro grave de avaliação do pensamento de Darwin.

Da intriga ao objeto

Na comemoração francesa do centenário da morte de Charles Darwin8, Dominique Lecourt, com o propósito de estabelecer um novo campo de crítica para análise das relações intelectuais entre Darwin e Marx, resolveu acertar contas com a leitura enviesada que esse teria feito da obra do naturalista. Utilizou para tanto – teatralmente - um conjunto de seis cartas trocadas entre Marx e Engels, entre agosto e outubro de 1866, sobre um livro de Pierre Trémaux, quando ambos divergiram sobre a teoria deste medíocre autor a respeito da importância do solo (geologia) no desenvolvimento das espécies animais e raças humanas9.

O “caso Pierre Trémaux” – vamos chamá-lo assim - se assemelha a um “escândalo” na cidadela do marxismo. Ao menos é o tom que Dominique Lecourt deu à sua comunicação intitulada “Marx au crible de Darwin”, texto que aparece nos anais do encontro sob a rubrica de “aberrations marxistes”. O uso da palavra aberrações10 sugere que jamais houve relação profícua entre Marx e o darwinismo, tratando-se de uma anomalia11.

Para maior clareza, vale explicitar os elementos do “caso” criado por Dominique Lecourt:

1. Em 1859 aparece em Londres a Origem das Espécies.

2. Em 1865 aparece em Paris o livro de Pierre Trémaux12. Nele, o autor pretendeu expor a teoria do desenvolvimento dos seres vivos determinado pelo tipo de solo de seu habitat.

3. Durante o ano de 1866, Marx trocou cartas com Engels nas quais revelou grande entusiasmo pela teoria de Trémaux, apesar de Engels tê-lo advertido seguidamente sobre grande equívoco em que incorria.

4. Estas cartas, apesar de constarem da Marx-Engels Werke (Berlim, 1963-68) não foram incluídas nas múltiplas coletâneas de correspondências13. Este “incrível silêncio” (a expressão é de Lecourt) seria evidência do propósito de se ocultar o momento infeliz da história da formação do pensamento de Marx.

O “caso Pierre Trémaux” fere vários problemas para o marxismo: o estágio do desenvolvimento teórico do evolucionismo e a assimilação da revolução promovida por Darwin; o desenvolvimento do pensamento de Marx e Engels sobre as ciências da natureza; a historiografia do marxismo. Por outro lado, a idéia de “escândalo” é um juízo que transcende o enfrentamento científico entre as obras de Darwin e Marx, mesclando-o com política e historiografia. Para a biologia, o “caso” não pareceu digno de maiores atenções, valendo registrar que Stephen Jay Gould, referindo-se ao erro de Marx, observou sobre a obra de Trémaux: “eu jamais li uma tese mais absurda e mal documentada”14.

A teoria de Pierre Trémaux


Visto da perspectiva atual, Pierre Trémaux era um típico orientalista romântico15 que se aventurava a dar a sua contribuição para a “verdadeira explicação sobre as transformações dos seres vivos”, propondo-se a superar o enorme dissenso entre várias correntes científicas.

O tema das leis da transformação era, de fato, um dos mais candentes à época no debate científico e filosófico conduzido pelos naturalistas, e não é de estranhar que alguém, à busca de notoriedade, se dedicasse a ele. Ora, durante várias décadas duas grandes correntes se enfrentaram em torno do assunto: aquela para a qual a transformação dos seres vivos é fruto de uma perfeita adaptação ao ambiente – e portanto uma harmonia da criação se manifesta através dela – e aquela que, ao contrário, via no processo de ajustamento a ausência de qualquer diretriz, sendo o próprio ambiente mutável. Como corolário, surgiram as hipóteses sobre a diferenciação ou divergência das espécies como formas de adaptação; não sendo ela útil ter-se-ia então a degenerescência. Ao se perguntar “no que consiste esta misteriosa lei que produz sempre a fixidez, a variação, o progresso, a degenerescência”, Trémaux situa-se nessa arena de debates e ensaia a resposta “definitiva”. A “grande lei de aperfeiçoamento dos seres” tem o seguinte enunciado: “a perfeição dos seres é proporcional ao grau de elaboração do solo sobre o qual vivem. E o solo é, em geral, bem mais elaborado quando pertence a uma formação geológica mais recente”16.

O “segredo da formação das espécies”17, posto como “mistério”, mostra-o resistindo ao darwinismo, preferindo se filiar ao “grande espírito de conciliação de M. de Quatrefages”, assim como fazia um grande número de naturalistas franceses. Este “atraso” dos franceses em relação a Darwin se atribui especialmente à grande influência de Cuvier sobre o ambiente acadêmico, pois, mesmo após sua morte, e até o século XX, “darwinismo” e “evolução” eram considerados termos pertencentes à cultura anglo-saxônica, quando, para consumo interno, se utilizava transformismo – termo derivado da tradição lamarckiana18.

Trémaux repete e adapta as teses de Quatrefages sobre os processos de diversificação e unificação das espécies: a ação do solo diversifica segundo a natureza, e o crescimento unifica. Assim, dirá, “o tipo de homem corresponde de uma maneira muito forte à formação geológica do meio e especialmente à qualidade do solo sobre o qual está estabelecido. Nos homens que vivem sobre terrenos primitivos das regiões equatoriais [...] a deformação dos tipos é sempre mais pronunciada”19.



Como Marx e Engels leram Trémaux

Na carta em que Marx se refere pela primeira vez a Pierre Trémaux ele diz que o livro, “apesar de todos os defeitos [...] constitui um apreciável progresso em relação a Darwin”. Este estaria na idéia de que os cruzamentos não produzem as diferenças entre as espécies, mas a unidade típica delas, e, ao contrário, o terreno (o solo) é que levaria à diferenciação das mesmas. Assim, o que “para Darwin é puramente casual, aparece aqui como necessário com base nos períodos de desenvolvimento do corpo terrestre”. Como corolário, a degenerescência, “que Darwin não consegue explicar, é mostrada como simples, podendo-se dizer o mesmo quanto à rápida extinção das formas de pura passagem [...] de modo que as lacunas da paleontologia, que perturbam Darwin, sejam vistas como necessárias. Igualmente como lei necessária, ele desenvolve a estabilidade (prescindindo de variações individuais etc.) das espécies, uma vez constituídas” 20.

Nesta passagem está condensada a problemática da origem e transformação das espécies antes do surgimento da genética, isto é, a questão da diferenciação originada dentro da própria espécie, pela divergência dos tipos individuais (cuja razão do surgimento ainda se desconhecia), ou por obra e graça da adaptação ao ambiente exterior. Desse modo, a frase de Marx resume boa parte das diferenças entre Lamarck e Darwin. Outro trecho importante da carta é quando Marx diz que “nas aplicações históricas e políticas é muito mais importante e rico de conteúdo do que Darwin” porque, a partir de Trémaux, “questões, como nacionalidade” podem ser contempladas no seu “fundamento natural”.

Na carta-resposta Engels diz que a teoria “é desprovida de conteúdo” e “o livro não vale nada. Pura compilação que luta contra os fatos”21. Marx, em seguida, volta ao tema acusando Engels de reproduzir os argumento de Cuvier contra a teoria da variabilidade das espécies, e acrescenta que “a idéia central de Trémaux sobre a influência do solo [é] uma idéia que precisa somente ser exposta para conquistar, de uma vez por todas, o seu direito de cidadania na ciência”22. Em seqüência, Engels reconhece o “mérito de [Trémaux] ter dado maior destaque à influência do ’terreno‘ sobre a formação das raças e, conseqüentemente, das espécies”, além de “ter desenvolvido as opiniões a respeito do cruzamento mais corretamente [...] do que todos os seus predecessores”. Mas Engels não para ai. Recorda que Darwin tem razão “sobre o poder do cruzamento para determinar mutações” e também jamais desconsiderou “a influência do terreno”, não lhe dando maior destaque por não se saber “como age esse terreno, exceto que o terreno fértil age no sentido favorável e o árido no sentido desfavorável” 23.

Ainda que a tese de Trémaux fosse uma estupidez, é inegável que Marx e Engels estão discutindo, através dela, questões absolutamente pertinentes para a biologia da época.

Como Dominique Lecourt recriou o “caso Trémaux”

A análise de Dominique Lecourt inicia com a dissipação da falsa história de que Marx teria escrito a Darwin, em 1880, manifestando o propósito de lhe dedicar a edição inglesa de O Capital, solicitando a concordância deste. Lecourt mostra que Marx jamais propôs a Darwin semelhante homenagem, e que a confusão foi repetida como verdade por mais de cem anos, mesmo depois de 1975, quando a “verdade” foi finalmente restabelecida. A função da repetição teria sido “calar os argumentos tanto dos darwinistas anti-marxistas quando dos anti-darwinistas anti-marxistas e dos marxistas anti-darwinistas”24. É este o contexto político da analise do “caso Pierre Trémaux”.

Como antecedentes da posição de Marx, Lecourt lembra que Engels, em 24 de novembro de 1859, havia lhe falando entusiasticamente do aparecimento da Origem das Espécies, sendo que Marx demorou um ano para “fazer eco” à carta e, ao fazê-lo, reconheceu que na Origem das Espécies estava “o fundamento histórico-natural da nossa concepção”, opinião repetida a Lassalle dois meses depois: “o livro de Darwin é muito importante e me serve como base da luta histórica das classes. Apesar de todas as insuficiências [...] é um golpe de morte aplicado na ‘teleologia’ pelas ciências da natureza”.

Lecourt percebe que em 1862 o entusiasmo inicial cede lugar à reserva, especialmente pela aplicação que Darwin faz de Malthus às plantas e animais, observando Marx que o próprio Malthus havia explicitado que sua teoria não era aplicável à natureza, e que entendia que Darwin estava projetando nela um modelo da própria sociedade inglesa e sua “luta pela vida”. Assim, diz Lecourt, a maior parte das referencias à obra de Darwin nos textos de Marx e Engels está marcada por esta ambivalência: a concordância e a discordância pela aplicação do malthusianismo.

Sobre esses fatos constrói-se uma história que é apresentada pelos marxistas como tendo duas vertentes: um acordo científico fundamental e um desacordo ideológico secundário, apesar de sério pelas suas “redobradas conseqüências metodológicas e políticas”. Uma história “edificante” na medida em que seu objetivo é ilustrar uma verdade pré-estabelecida:

“[a] potência da filosofia marxista (dita ‘materialismo dialético’) em se mostrar apta a fazer o corte, em uma obra científica maior, entre o ‘bom’ (a tese da evolução) e o ‘mal’ (a struggle for life imputada a Malthus), tendo ainda um duplo benefício secundário: o de dar à teoria marxista da história (o dito ‘materialismo histórico’) o aval de uma teoria científica reconhecida e sustentar, assim, sua própria pretensão à cientificidade; e o de sugerir, como os manuais soviéticos jamais deixaram de fazer, que a teoria darwinista é, de fato, a ‘aplicação’ inconsciente, portanto inconseqüente, do mesmo método filosófico que o ‘materialismo histórico’, o ‘materialismo dialético’, que antecipou ‘por direito’ a teoria darwinista”25.

Só essa razão, justifica ele, é capaz de explicar o incrível silêncio que cerca a correspondência Marx-Engels que compõe o “episódio Trémaux” - o momento que revela a face oculta da história do marxismo. E conclui:

“O episódio merece, a meu ver, um tratamento epistemológico e histórico distintos. A análise exata das teorias de Trémaux, o exame dos argumentos de Marx para fundamentar o seu entusiasmo, o estudo atento, enfim, dos argumentos que ele contrapõe a Engels, que permitem dar um sentido particularmente forte ao silêncio da tradição ao jogar uma luz bastante dura sobre os limites da compreensão do darwinismo por Marx e Engels”26.



A dissipação da intriga

É um exagero de Lecourt reinventar Trémaux como um teórico digno de nos consumir o tempo. Talvez o caminho proposto devesse começar pela análise da concepção marxista da relação produtiva com a natureza, especialmente com o solo, contraposta ao malthusianismo que “rejeitava qualquer noção de progresso rápido e contínuo no cultivo da terra ou na criação de animais pelo homem, bem como de todas as possibilidades de progresso social”27. Nas cartas, está claro no “equívoco” de Marx o propósito de encontrar um argumento que liquide, de uma vez por todas, com a concepção malthusiana, pois seria o solo, e não as leis da população, o vetor a arrastar consigo o desenvolvimento da espécie humana.

Este não é um argumento darwinista, nem tampouco um argumento marxista na melhor tradição das análises do próprio Marx sobre a relação homem-natureza, quando o homem se transforma ao produzir os seus meios de vida. E é inegável que no entusiasmo de Marx por Trémaux vislumbra-se uma tese cara ao materialismo mecanicista, ao admitir um princípio de determinação geológica das formas vivas.

Como observa Naccache, o texto de Trémaux nada mais foi do que um catalizador do entusiasmo de Marx sobre um “necessitarismo biológico fundado num progressismo geológico”, superando o que em Darwin é “acidental” e caminhando em direção ao “necessário”28. Este tema, que não é exclusivo das preocupações de Marx, ocupa posição central naquilo que inicialmente denominamos neo-lamarckismo.

Esta corrente de pensamento biológico centra-se nas questões para as quais Darwin ofereceu respostas consideradas insatisfatórias. Diante dos impasses, muitos biólogos retornaram aos textos de Lamarck, especialmente para tratar da adaptação ou influência do ambiente sobre o desenvolvimento das espécies. Em outros termos, a questão era: o processo de evolução é controlado pelas influências ambientais externas ou por forças internas ao próprio organismo?29.

Um exemplo dessa corrente neo-lamarckiana é Ernst Haeckel. Na sua interpretação, a evolução sempre cria novos caracteres que são testados e incorporados pela seleção no plano da competição interespécies. Esta noção de variação como adição é fundamental para a sua teoria da “recapitulação” ou “lei biogenética”; tal noção estabelece, ainda, uma sorte de analogia entre hereditariedade e memória, à luz da qual a evolução aparece como uma progressão entre estágios de desenvolvimento retidos pelo indivíduo (ontogênese) num percurso cumprido pela espécie toda (filogênese) em direção a formas sempre superiores, de modo a poder se traçar um percurso unilinear e hierarquizado de transformação de todos os seres vivos a partir da unidade original da matéria viva (mônada)30. A hereditariedade haeckeliana é tomada como uma força centrípeta interna, contrabalançada pela força centrífuga externa dada pela adaptação, sendo a fixidez das formas “o resultado da preponderância momentânea exercida por uma das duas forças formadoras” 31. Na seleção natural, essas forças agem segundo a dinâmica da luta pela existência que se trava porque o número de vegetais e animais viventes é mais ou menos o mesmo na superfície da terra.32. Assim, o neo-lamarckismo recupera a idéia de que a herança de caracteres adquiridos - baseada em forças desconhecidas que dirigiam a matéria orgânica na absorção de impressões originadas no ambiente - é a força principal na determinação da transformação.

A Marx pareceu bastante registrar que o argumento de Darwin em relação às influências ambientais é insuficiente para explicar as variações, sendo preciso avançar para o plano da necessidade. O exemplo de Haeckel - contemporâneo de Marx, Engels e Darwin - mostra um Marx que indagava a história natural numa direção bastante freqüente antes da descoberta das leis da genética. Assim, sem ser fruto da “ignorância” pessoal, como sugerem boa parte dos argumentos de Lecourt, evidencia uma participação pertinente nos debates da biologia de seu tempo.

Mas Lecourt vai além dessas discussões teóricas quando indica que as relações entre Marx e Darwin têm sido um objeto de análise nem sempre bem freqüentado pelos marxistas. De fato, podemos dizer que um dos trabalhos mais célebres, Marxismo e Darwinismo, do marxista-conselheirista Anton Pannekoek, surgido em 1909, ainda é tomado como modelar entre aqueles que reivindicam para si a tradição marxista33. Nele é clara a confusão entre as ordens dos fenômenos naturais e sociais, contrariando a concepção de Engels que reproduzimos no início de nosso texto. Mas o programa de Pannkoek é bastante extenso e corresponde àquilo que o marxismo vulgar entendeu das palavras de Engels diante do túmulo de Marx, em 1883: “Do mesmo modo que Darwin descobriu a lei da evolução da natureza orgânica, Marx descobriu a lei da evolução da história humana”.

Podemos entender, porém, que o que Engels apontou foi a homologia entre dois planos distintos de desenvolvimento do materialismo como exemplos equivalentes de atitude revolucionária no plano do conhecimento, o que jamais autoriza o leitor moderno a compreender a luta de classes como sinônimo de “luta pela vida”. A distinção entre as leis biológicas e as leis sociais está clara também quando, comentando Trémaux, Marx diz “nas aplicações históricas e políticas [Trémaux] é muito mais importante e rico de conteúdo do que Darwin34. Lida de modo distinto do que fez Lecourt, esta passagem nos diz que, para Marx, a teoria de Darwin não serve a aplicações histórico-políticas.

A necessidade de se diferenciar claramente a luta pela vida e a luta de classes tem uma outra razão histórica: entre Marx, de um lado, e Darwin, de outro, interpõe-se um pensamento estranho a ambos: o “darwinismo social”. Foi esta doutrina que estabeleceu que a “luta pela vida” (caricatamente tomada como sinônimo de darwinismo) pode - ou mesmo “deve” - ser aplicada às sociedades humanas, sendo que a sua primeira aparição é debitada à tradutora de Darwin para o francês, Clémence Royer. Foi ela quem, em 1862, num prefácio do qual Darwin não teve conhecimento senão quando publicado - e que repudiou de pronto35- afirmou que a “lei da seleção natural”, aplicada às sociedades humanas, revela o quanto são “falsas” as leis política e civis, de fundo religioso (idéias de virtude, de solidariedade social, etc), cujo único resultado é a proteção dos “desgraçados da natureza”.

Mais tarde Royer se deu ao trabalho de escrever uma vasta obra, intitulada Origem do homem e das sociedades, cujo grande objetivo era destruir a argumentação de Rousseau36 sobre o “bom selvagem”, mostrando-o, ao contrário, como o “lobo do homem”. Dessa maneira, o “darwinismo social” nasceu simultaneamente à Origem das Espécies, e embora seja um ressurgimento do malthusianismo, migra do campo da teologia para buscar legitimidade nas conquistas científicas inéditas de Darwin. Marx jamais coonestou as opiniões de Royer, tendo manifestado desacordo com estas posições que avançaram na Alemanha a partir do congresso de naturalistas, ocorrido em Munique em 187737.

Sem dúvida Dominique Lecourt tem razão quando surpreende Marx dando um passo atrás em direção a explicações teleológicas38 graças ao entusiasmo com a hipótese de que se pudesse, finalmente, estabelecer uma relação evolutiva, comandada pelo tempo geológico, entre o tipo de solo e os animais que o ocupam.. Mas cabe perguntar: qual o valor explicativo desta falseada de Marx no sentido de estabelecer as bases do seu método? Não seria o argumento de Lecourt mero oportunismo para atacar o “sovietismo” que, como indica, falhou historicamente na compreensão da relação Darwin-Marx?

Do ponto de vista do desenvolvimento do pensamento de Marx, a questão levantada por Lecourt tem o mesmo sentido das conhecidas vacilações de Darwin em direção à construção do seu materialismo biológico. Tanto para um como para outro são os resultados do conjunto dos seus estudos que iluminam a caminhada intelectual frutífera. Portanto, parece mais produtivo para a compreensão do marxismo situá-lo, e ao darwinismo, no processo de construção do materialismo moderno diante de um corpus mais complexo e amplo que abarca vários embates entre o pensamento nascente e a decadente teleologia de paróquia.

Por fim temos o histrionismo de Dominique Lecourt ao escandalizar o “caso Pierre Trémaux”. A razão é naturalmente a “ocultação” de documentos de valor histórico que permitiriam uma compreensão mais correta do desenvolvimento do pensamento de Marx. Mas é preciso ir além e ter presente que Marx nunca está no centro do universo materialista, em torno do qual gravitam planetas menores, quando a questão é a evolução biológica; e a síntese das ciências que ele e Engels buscaram não entravou o desenvolvimento específico e ulterior de cada uma das ciências naturais em separado. Ora, o materialismo possui várias constelações, mas já não se trata de explicar a física newtoniana e, sim, o contínuo desdobrar desse universo em formação. No tocante ao evolucionismo biológico, o “Marx-centrismo” dificultou para as gerações subseqüentes a abertura para os novos conhecimentos produzidos no campo dessa ciência.



Mas, o “pensamento de pároco” não foi, de modo algum, soterrado. Por isso há a necessidade objetiva de fazer convergir, mais uma vez, os interesses científicos e políticos de darwinistas e marxistas no combate às novas teorias deístas e ao criacionismo. Sabe-se que não é mais a “internacional negra” de que falava Ernst Haeckel a grande inimiga das ciências, pois os ataques vêm especialmente daqueles que fizeram das ciências e da técnica a alavanca monstruosa do moderno capitalismo.



* Doutorando em Sociologia pelo IFCH-Unicamp.

1 O presente texto é o desenvolvimento da comunicação apresentada ao 4o Colóquio Marx e Engels, promovido pelo Centro de Estudos Marxistas (Cemarx-Unicamp), Campinas, 2005.

2 Federico Engels, Anti-Dühring, Madrid, Editoral Ciência Nova, 1968, pág. 29

3 Idem, Ibidem.

4 Carlton J. H. Haynes, Una Generación de Materialismo:1871-1900, Madrid, Espasa-Calpe, 1946. O autor define esta geração como o conjunto de intelectuais ativos entre 1840 e 1870 que, de modo explícito, considerou em suas obras o significado da doutrina darwinista sobre a origem do homem.

5 F. Engels, “Carta a Piotr Lavrovich Lavrov”, Londres, 12-17 de novembro de 1875.


6 Charles Darwin, A origem do homem e a seleção sexual, São Paulo, Hemus, 1982, pág. 78..

7 Peter Bowler, The eclipse of darwinism, Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 1992.

8 Trata-se do « Congrès International pour le Centenaire de la mort de Darwin », realizado em Paris-Chantilly, de 13 a 16 de setembro de 1982, pelo Centre d´Histoire et d´Épistémologie des Théories Scientifiques et des Doctrines Philosophiques de l´Université de Picardie.

9 Os trechos principais das cartas em relação à polêmica são reproduzidos como anexo neste mesmo número de Crítica Marxista.

10 Dominique Lecourt, “Marx au crible de Darwin”, in De Darwin au Darwinisme: Science et Idéologie”, Congrès International Pour le Centenaire de la Mort de Darwin, Paris-Chantilly, 13-16 Septembre 1982, Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1983..

11 Segundo o preformacionista Jean-Frédéric Meckel (1781-1833), as anomalias (“arrêts de développement”) significariam que a “força formatriz” teria estancado em algum momento por uma carência inscrita na origem do germe.

12 Pierre Trémaux, Origine et Transformation de l’Homme et des Autres Êtres. Première Partie, Paris, Librairie de L. Hachette, 1865.

13 Tais cartas teriam “aparecido” pela primeira vez em Karl Marx e Frederic Engels, Lettres sur les sciences de la nature, Paris, Editions Sociales, 1973

14 Cf. John Bellamy Foster , A ecologia de Marx: materialismo e natureza,Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pág. 393, nota 44.

15 Ele havia escrito até então livros como Voyages au Soudan Oriental ; Des Édifices Anciens et Modernes; Exploration Arquéologique en Asie Mineure..

16 Trémaux, op. cit.,, p 17.

17 Idem, Ibidem, p. 10

18 Cf. Robert E. Stebbins, “France” in Thomas F. Glinck (ed), The Comparative Reception of Darwinism, The Univ. of Chicago, Chicago, 1988, p. 117.

19 Trémaux,, op. cit., p. 25..

20 Marx a Engels, 7 de agosto de 1866.

21 Engels a Marx, 2 de outubro de 1866.

22 Marx a Engels, 2 de outubro de 1866.

23 Engels a Marx, 5 de outubro de 1866.

24 Lecourt, op. cit., p. 228.

25 Idem, ibidem, p. 231.

26 Idem, Ibidem., p. 232.

27 Foster, op. cit., pág. 156.

28 Bernanrd Naccache, Marx critique de Darwin, Paris, VRIN, 1980, pág. 103.

29 Bowler, op. cit., pag. 9.

30 Idem, ibidem, pág. 68.

31 Ernst Haeckel, História da creação dos seres organisados segundo as leis naturaes, Porto, Lello & Irmãos, 1930, pág. 186.

32 Idem, ibidem, pág. 189.

33 Anton Pannekoek, Marxism and Darwinism, Chicago, C.H. Kerr & Co,1912; disponível em http://www.marxists.org/archive/pannekoe/1912/marxism-darwinism.htm. Há uma tradução brasileira [Anton Pannekoek, Marxismo e darwinismo, Suplemento de Cultura, Livraria do PCO, São Paulo, s/d].

34 Grifo nosso.

35 Trechos do prefácio e uma análise do escândalo que se seguiu encontram-se em André Pichot, Histoire de la notion de vie, Paris, Gallimard, 1993, págs. 764-773.

36 Clémence Royer, Origine de l´homme et des sociétés, Paris, Éditions Jean-Michel Place, 1990.

37 Naccache,op. cit., pág. 129.

38 Lecourt, op. cit., p. 238.




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