António Chagas Rosa



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Encontro23.07.2016
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António Chagas Rosa



3 Consolations, para flauta de bisel e orquestra de câmara

Embora cada andamento desta composição tenha seguido itinerários próprios - algumas passagens do Antigo Testamento são temática recorrente de toda a obra - uma presença espiritual acompanhou o seu processo de gestação, observando-o, diria, em silêncio. Refiro-me a Constança Capdeville, que foi minha Mestra de Composição no Conservatório Nacional de Lisboa. Não escrevi as 3 Consolations como um



in memoriam daquela que melhor me soube aliciar para os prazeres do risco, da ironia e da confusão que se cria quando não se segue moda nenhuma. Não se trata da encomendação da alma de ninguém nem de uma homenagem formal à compositora, por uma razão de pudor da minha parte em relação a quem tão avesso era a tal tipo de manifestações. Quando penso ou sonho com a Constança, vejo-a sempre viva, irreverente e plenamente criativa, elo de uma cadeia invisível de elevadas entidades cuja vocação continua sendo a evidência do gesto sublime que impede a humanidade aprendiz de se mutilar a si própria até à perdição. Esse gesto manifestava-se subtilmente enquanto mentora, não através de um discurso distante e teorizador - a Constança era uma grande céptica em relação ao saber acumulado - mas despertando nos discípulos um ‘eu’ órfão mas autêntico, retirando-o da sombra. Não queria que o aluno a seguisse, sim que se descobrisse. Aliás todos os seus ensinamentos não mais eram do que um breve hino à fragilidade, ciente como todos os grandes de que a fragilidade e o eterno se dão as mãos. Os três andamentos desta peça surgiram assim de uma mescla de sentimentos e de intenções, consubstanciando as saudades que eu sinto da minha Mestra, como expressão de uma auto-consolação, tendo eu escrito afinal estas 3 Consolations mais por mim do que por ela…
Pelo que acima foi dito será fácil entender o sentido metafórico presente na escolha da flauta de bisel como instrumento solista, face a uma orquestra que inclui metais e percussão, para além de cordas, madeiras, celesta e harmónio - figurinha de origami animada, sobrevivente por entre forças que lhe são maiores. As especificidades de timbre, de dinâmica e de registo da(s) flauta(s) de bisel obrigaram à adopcção de uma disciplina de escrita bastante restritiva, mas que não deixou de ser apaixonante. O papel do instrumento solista é fugaz e amedrontado no primeiro andamento, concertante e participante no segundo e, finalmente, autónomo e condutor no terceiro; enquanto que o primeiro andamento é uma música de saudações e de apresentações, o segundo é-o de continuidade e desenvolvimento, sendo a do terceiro de evasões e de despedidas; a coda é uma passagem com um padrão rítmico constante que se repete ad libitum até o maestro decidir interromper um discurso musical não exaurido. A escrita concertante - os diálogos - privilegiou ora contrastes, ora parentescos, tendo-se estabelecido uma forte cumplicidade entre a flauta de bisel e a celesta - outro instrumento frágil - de uma forma que não foi premeditada.

António Chagas Rosa




Nasceu em Lisboa em 1960. Concluiu o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional de Lisboa em 1981, e a Licenciatura em História na Universidade Nova de Lisboa em 1983. Como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian frequentou entre 1984 e 1987 um curso de pós-graduação na Holanda, onde se especializou em música de câmara e de piano do séc.XX, no Conservatório Sweelinck de Amesterdão, sob a orientação do pianista e compositor romeno Alexander Hrisanide. De 1987 a 1992 , como bolseiro da Secretaria de Estado da Cultura, realizou um mestrado em Composição no Conservatório de Roterdão, como discípulo dos compositores holandeses Klaas de Vries e Peter-Jan Wagemans. Durante a sua permanência na Holanda, António Chagas Rosa foi maestro-repetidor no Muziektheater de Amesterdão e professor na classe de ópera no Conservatório Sweelinck. Participou em diversas actividades ligadas à música de vanguarda holandesa, como os festivais organizados pelas fundações Gaudeamus e "The Unanswered Question", ou as produções e digressões da companhia de dança Dansproduktie. Neste âmbito tocou em Londres, Moulhouse, Gent e Haia obras de John Cage para piano preparado. A sua produção inclui obras de câmara, sinfónica, duas óperas e numerosas canções. Recebeu encomendas do Festival Internacional de Música de Macau, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Radiodifusão Portuguesa , do Teatro Nacional de São Carlos, da Fundação da Casa de Mateus, do Nederlands Kamerkoor de Amesterdão, do KamerensembleN de Estocolmo, do Porto 2001, do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, do Grupo Drumming de Percussão, etc. As suas obras têm sido tocadas em diversos festivais de música contemporânea em Portugal, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Suíça, Áustria, Suécia, Ucrânia, E.U.A, Venezuela e Hong-Kong, e radiodifundidas nos mesmos países. Em 1997 representou Portugal na Tribuna Internacional dos Compositores (UNESCO) em Paris, com o seu concerto para piano e orquestra, 'A Ascensão de Ícaro'. Em 1999 e 2002 foi membro do júri do concurso de composição 'Premio Valentino Bucchi' em Roma. Tem várias obras editadas em Portugal e na Holanda (Fermata, Musicoteca, Donemus), tendo sido a 'Sonata para Piano' e ‘Altro’ para flautim e piano gravadas em CD, respectivamente por Nancy Lee Harper, Jorge Correia e Helena Marinho, para a editora Numérica. Foi convidado, em Setembro de 2002, pela Musikhochschule de Zurique para orientar um seminário sobre a interpretação da sua música de câmara. A sua segunda ópera ‘Melodias Estranhas’, com libreto de Gerrit Komrij, foi-lhe encomendada pelas cidades do Porto e Roterdão, Capitais Europeias da Cultura em 2001, tendo sido estreada no Schouwburg de Roterdão em Dezembro de 2001. Completou um novo ciclo de canções sobre poemas de Pessoa para o Festival Jeunesses, em Viena, em Outubro de 2003. Lecciona Música de Câmara e ‘Lied’ no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro desde 1996, onde é professor-auxiliar convidado, estando neste momento a trabalhar na sua tese de doutoramento em composição.

António Chagas Rosa



Nasceu em Lisboa em 1960. Concluiu o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional de Lisboa em 1981, e a Licenciatura em História na Universidade Nova de Lisboa em 1983. Como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian frequentou entre 1984 e 1987 um curso de pós-graduação na Holanda, onde se especializou em música de câmara e de piano do séc.XX, no Conservatório Sweelinck de Amesterdão, sob a orientação do pianista e compositor romeno Alexander Hrisanide. De 1987 a 1992 , como bolseiro da Secretaria de Estado da Cultura, realizou um mestrado em Composição no Conservatório de Roterdão, como discípulo dos compositores holandeses Klaas de Vries e Peter-Jan Wagemans. Durante a sua permanência na Holanda, António Chagas Rosa foi maestro-repetidor no Muziektheater de Amesterdão e professor na classe de ópera no Conservatório Sweelinck. Participou em diversas actividades ligadas à música de vanguarda holandesa, como os festivais organizados pelas fundações Gaudeamus e "The Unanswered Question", ou as produções e digressões da companhia de dança Dansproduktie. Neste âmbito tocou em Londres, Moulhouse, Gent e Haia obras de John Cage para piano preparado. A sua produção inclui obras de câmara, sinfónica, duas óperas e numerosas canções. Recebeu encomendas do Festival Internacional de Música de Macau, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Radiodifusão Portuguesa , do Teatro Nacional de São Carlos, da Fundação da Casa de Mateus, do Nederlands Kamerkoor de Amesterdão, do KamerensembleN de Estocolmo, do Porto 2001, do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, do Grupo Drumming de Percussão, etc. As suas obras têm sido tocadas em diversos festivais de música contemporânea em Portugal, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Suíça, Áustria, Suécia, Ucrânia, E.U.A, Venezuela e Hong-Kong, e radiodifundidas nos mesmos países. Em 1997 representou Portugal na Tribuna Internacional dos Compositores (UNESCO) em Paris, com o seu concerto para piano e orquestra, 'A Ascensão de Ícaro'. Em 1999 e 2002 foi membro do júri do concurso de composição 'Premio Valentino Bucchi' em Roma. Tem várias obras editadas em Portugal e na Holanda (Fermata, Musicoteca, Donemus), tendo sido a 'Sonata para Piano' e ‘Altro’ para flautim e piano gravadas em CD, respectivamente por Nancy Lee Harper, Jorge Correia e Helena Marinho, para a editora Numérica. Foi convidado, em Setembro de 2002, pela Musikhochschule de Zurique para orientar um seminário sobre a interpretação da sua música de câmara. A sua segunda ópera ‘Melodias Estranhas’, com libreto de Gerrit Komrij, foi-lhe encomendada pelas cidades do Porto e Roterdão, Capitais Europeias da Cultura em 2001, tendo sido estreada no Schouwburg de Roterdão em Dezembro de 2001. Completou um novo ciclo de canções sobre poemas de Pessoa para o Festival Jeunesses, em Viena, em Outubro de 2003. Lecciona Música de Câmara e ‘Lied’ no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro desde 1996, onde é professor-auxiliar convidado, estando neste momento a trabalhar na sua tese de doutoramento em composição.


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