Antropologia filosófica prof. Gilmar Zampieri 2005-2 ementa



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ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA

Prof. Gilmar Zampieri

2005-2

EMENTA

A questão antropológica numa visão histórica e de abordagem sistemática. Concepção clássica, cristão-medieval, moderna e contemporânea do homem. A origem da pergunta sobre o ser humano. A concepção de homem no existencialismo.


PROGRAMA

1 INTRODUÇÃO

Conceituação de antropologia filosófica. Origem da pergunta pelo homem. A importância da antropologia filosófica. Discussão em torno de algumas concepções antropológicas.


2 ABORDAGEM HISTÓRICA DO HOMEM

2.1 Concepção clássica do homem

2.2 Concepção bíblico-cristã e medieval do homem

2.3 Concepção moderna do homem

2.4 Concepções contemporâneas do homem
3 ABORDAGEM SISTEMÁTICA DO HOMEM – ESTRUTURAS FUNDAMENTAIS DO HOMEM

3.1 A dimensão corpórea do homem (homo somaticus)

3.2 A dimensão da vida humana (homo vivens)

3.3 A dimensão cognoscitiva do homem (homo sapiens)

3.4 A dimensão volitiva, vontade, liberdade e amor (homo volens)

3.5 A dimensão da linguagem (homo loquens)

3.6 A dimensão social e política do homem ( homo socialis)

3.7 A dimensão cultural do homem (homo culturalis)

3.8 A dimensão do trabalho e da técnica ( homo faber)

3.9 A dimensão do jogo e divertimento (homo ludens)

3.10 A dimensão religiosa do homem (homo religiosus)
4 A PERSPECTIVA EXISTENCIALISTA DO HOMEM

4.1 Introdução geral ao existencialismo

4.2 O existencialismo humanista de Sartre
BIBLIOGRAFIA

Básica

CORETH, Emerich. Antropologia filosófica, Brescia: Morcelliana, 1998.

DALLE NOGARE, Pedro. Humanismos e anti-humanismos. Introdução à antropologia filosófica. 13ª ed. Petrópolis: Vozes, 1994.

MONDIN, Batista. O homem, quem é ele? Elementos de Antropologia Filosófica. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 1980.

RABUSKE, Edvino Aloísio. Antropologia filosófica: um estudo sistemático 7 ªed. Petrópolis: Vozes, 1999.

VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia filosófica. Vol. I. São Paulo: Loyola, 1992.



Complementar

CASSIRER, Ernst. Antropologia filosófica. 2ª ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

GALANTINO, Nunzio. Dizer homem hoje - novos caminhos da antropologia filosófica, São Paulo: Paulus, 2003.

REALE, G e ANTISERI, Dario. História da filosofia. Vols. I, II e III. São Paulo: Paulus, 1991.

SARTRE. J.P. O Existencialismo é um Humanismo. In: Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SCHELER, Max. A posição do homem no cosmos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.


O programa:

1- Ementa: A ementa é uma orientação, uma diretriz da disciplina fornecida ao professor pelo curso, portanto de responsabilidade da instituição. É a partir da ementa que os professores com alguma liberdade fazem seus programas de disciplina. A ementa dessa disciplina é bastante ampla e compreende três núcleos principais: 1- o núcleo histórico. O núcleo sistemático. E o núcleo de uma tendência, ou corrente representativa da antropologia contemporânea. É em cima dessa ementa que fiz um programa que me parece bastante amplo e consistente. De alguma forma abarcando as principais questões que envolve a disciplina.


Programa:

  1. A introdução tem por objetivo situar e problematizar a disciplina. É basicamente um convite à disciplina, uma motivação geral e um abrir o leque para as questões que serão tratadas ao longo do curso.

  2. Abordagem histórica: A resposta à pergunta O QUE É O HOMEM? Tem uma história. Hoje é consensualmente aceito que cada grande pensador tem a sua concepção própria e pessoal do que é o homem. Se não fosse assim não teria permanecido na memória coletiva e feito história, sucessores etc...Seria impossível num curso como o nosso, que é mais um introdução geral a antropologia filosófica, perseguir o caminho histórico a partir dos autores. Para isso precisaríamos bem mais de um semestre. Por isso preferi uma abordagem histórica centrada nas grandes etapas, cosmovisões. Ou até paradigmas, modelos dentro dos quais se pensa. O ontológico grego medieval, centrado no ser, o gnosiológico moderno centrado no sujeito, e o ético e lingüístico centrado na intersubjetividade. É claro que no horizonte amplo de cada paradigma vai se tratar dos autores em particular também. O filósofo é filho do seu tempo, o tempo, por sua vez se compreende na filosofia. Por isso sempre que possível serão tratados os filósofos principais de cada período: na clássica: Alguns pré-socráticos, Platão, Aristóteles.....Agostinho, Tomas, Descartes etc...O OBJETIVO Da abordagem histórica é justamente nos situarmos desde a perspectiva do tempo e perceber como foi se constituindo a reflexão em torno do homem e como foi se formando aquilo que conhecemos como sendo a visão ocidental do homem. OBS. Aqui é preciso se dizer que vamos tratar especificamente da visão ocidental da filosofia sobre o homem. Isso é importante, fundamental, pois o oriente também tem uma visão de homem, uma autocompreensao de si mesmo. Os indianos, os chineses, japoneses os árabes etc...Certamente seria muito importante tratarmos disso também, mas é preciso fazer escolhas. Por outro lado a dificuldade de acesso a bibliografia...e o meu preparo também.

  3. A ABORDAGEM SISTEMÁTICA: Com o andar do percurso históricos nos daremos conta que autores e épocas vão levantando questões e enfocando dimensões do humano dependendo do seu universo de compreensão temporal. Mas, para sermos críticos e realista, nenhuma época pode sozinha dizer do todo do homem. Se assim fosse a pergunta pelo homem teria cessado, o que não é o caso. Para não ficarmos na fragmentação das diversas posições é que eu ofereço esse segundo bloco como tentativa de síntese, de elaboração sistemática, daquilo que poderemos, sem reducionismos, dizer que é o homem. E aqui vai ser muito interessante pois vamos nos dando conta de que o homem é muito mais do que um animal racional.

  4. O quarto bloco foi uma escolha pensada a partir de uma orientação que eu acho fundamental na discusão filosófica do homem atual. A partir de um texto de Sartre, curto, condensado, nós poderemos discutir e aprofundar alguns elementos de antropologia atual.



BIBLIOGRAFIA:

A bibliografia é de duas naturezas. A básica são fundamentalmente manuais de antropologia filosófica. Qualquer um deles trata basicamente de todos os blocos contemplados no programa. Um dá acento mais num bloco, outro no outro. Todos eles tem uma orientação pessoal, um corte interpretativo pessoal. São indispensáveis para o curso. A bibliografia complementar é como o nome já diz, complementa aquilo que é básico e fundamental. Destacar algum sumário...




METODOLOGIA E AVALIAÇÃO:
METODOLOGIA:

O primeiro, segundo e quarto bloco fica sob minha coordenação. Eu vou fazer exposição dialogada e a leitura comentada do texto do Sartre. O segundo bloco a proposta é que se faça em forma de seminários. E aqui entra a participação de vocês e com ela a avaliação.


Questões a combinar:
1- Avaliação:
G1- individualmente todos vão me entregar uma síntese de um texto até dia 28 de abril. O texto será estudado em grupo e apresentado em aula oportunamente, mas para o G1 eu vou querer uma reflexão pessoal e por escrito.
G2 terá duas notas. Uma de participação em sala de aula durante o semestre e durante a apresentação em grupo e uma outra nota uma prova no final do semestre sobre o texto de Sartre.

2- Formação dos grupos com os respectivos nomes dos componentes e o texto correspondente. Nove grupos. Os grupos terão uma noite para preparar a apresentação e se organizarem. Podem fazer divisão do texto na hora da apresentação, mas todos terão que lê-lo integralmente para ajudar.
ANTROPOLOGIA FILOSÓFICIA
Introdução à disciplina:

a) Aproximação conceitual – objeto e natureza da antropologia filosófica

Antes de mais nada parece ser indispensável situar a disciplina. E nada melhor do que começar por longe, começar pelo próprio nome. O nome se compõe de dois termos com uma unidade significativa.


ETIMOLOGIA: Antropologia: é uma palavra grega que por sua vez é junção de dois vocábulos e (). significa HOMEM, e que vem de , significa estudo, conhecimento, razão. Antropologia é então estudo, pesquisa, investigação sobre o Homem, o SER HUMANO. O objeto material de estudo é então o SER HUMANO. A pergunta que subjaz a disciplina é então: O QUE É O HOMEM, QUEM É O HOMEM? O homem quem é ele?

Agora, o HOMEM, o Ser humano, é objeto de estudo de muitas disciplinas e de muitas ciências inclusive. A sociologia estuda o homem nas suas relações de classe, de poder, as instituições humanas e suas regras e relações com a política, com a economia etc.... A psicologia estuda o homem em relação as motivações, as constituições do EU, do psiquismo, das esferas da consciência e das inconsciências, da personalidade, dos possíveis traumas etc.... A religião ou a teologia estuda o homem desde a perspectiva específica com Deus, com o absoluto, com o transcendente nas suas diversas manifestações do fenômeno religioso etc.... A história estuda o Homem através do tempo, seus feitos, suas realizações, sua obra, seus heróis, dos fatos notáveis, a origem e processos de um povo, de uma civilização cronologicamente dispostos etc...

Então, se ficarmos só com a primeira parte do nome da nossa disciplina não teremos ainda nos aproximado satisfatoriamente do campo do estudo, até pelo contrário, ampliaríamos de tal forma que seria uma disciplina que abarcaria tudo. Então a primeira parte é necessária e indispensável mas não suficiente para o esclarecimento do universo temático que abarca a disciplina. Faz-se necessário então esclarecer o segundo termo da disciplina.
Filosófica: Estamos aqui desde o âmbito, da perspectiva da filosofia. Aperspectiva filosófica é o objeto formal. Agora o que é filosofia? Etimologicamente: Filosofia por sua vez é um termo composto de dois termos gregos: e . significa amizade, amor. significa saber, conhecimento. Filosofia significa então: amor à sabedoria, amor ao conhecimento. O termo filosofia é atribuído a Pitágoras, filósofo pré-socrático que diz que o conhecimento verdadeiro e total pertence aos Deuses, nós não o possuímos totalmente porque não somos deuses, no máximo nós o desejamos, amamos. Platão como veremos vai dizer que o filósofo e amante da sabedoria. E como amante é um intermediário entre os deuses que sabem tudo e os ignorantes que tudo ignoram. Para entender isso ele conta o mito do nascimento de Eros e o Eros é filosófico. Então, filosofia é amor ao saber, ao conhecimento.
Agora, há muitas formas de conhecimento. Existe o conhecimento científico experiencial. Existe o conhecimento religioso. Existe o conhecimento mítico. Existe o conhecimento do senso comum. Quando se fala de conhecimento filosófico estamos diante de algo bem particular. O conhecimento filosófico, diferentemente do conhecimento das ciências particulares, por exemplo, não tem como objeto de estudo nenhum objeto particular. E quando trata de objetos o trata sempre a partir da totalidade, dos princípios que lhe possibilitam ser, ou então do ser enquanto ser no sentido daquilo que lhe é essencial e universal. O senso comum tem um conhecimento do homem. Todos nós sabemos irreflexivamente, sem distanciamento teórico e conceitual, quem é o homem. O senso comum não confunde o homem com um animal qualquer. E se bem que às vezes tratamos melhor um animal de estimação do que ao homem, num caso limite somos propensos a salvar o homem ao animal.

Então, a pergunta o QUE É O HOMEM, é tratada aqui do ponto de vista filosófico. A própria pergunta O QUE É O HOMEM? É uma pergunta filosófica pois remete a totalidade do ser humano e não há uma esfera particular dele. A resposta a pergunta O QUE É O HOMEM é uma resposta filosófica porque a própria pergunta é filosófica. E por que é filosófica? Por que remete a investigação daquilo que é essencial e de totalidade significativa e não somente uma parcela do ser. É uma pergunta que tematiza a si mesmo e nesse aspecto é auto-reflexiva. O que distingue da ciência é que não trata de uma faceta do humano, e o que distingue do senso comum, da pré-compreensao é de que é reflexiva, racional. O que distingue do religioso é que não é revelado, mas fica no âmbito da racionalidade, daquilo que é possível conhecer pela investigação racional.


SÍNTESE: A antropologia filosófica trata da pergunta o que é o homem e a faz desde a perspectiva filosófica, isto é, a partir da totalidade (somático-psíquico e espiritual), a partir das condições universais de possibilidade do ser mesmo, a partir das estruturas fundamentais e essencial do ser. A partir das estruturas fundamentais do ser humano e sua relação com Deus, a natureza e o próprio homem, tanto individual, quando social e histórico. Nisso está a especificidade e natureza do âmbito da nossa disciplina.

ISSO é fundamental também pelo fato de que a antropologia também é uma ciência, e não toda a antropologia é filosófica. Não estaremos, portanto, fazendo antropologia cultural, antropologia física, antropologia sociológica, antropologia econômica, antropologia religiosa etc...Só para se ter uma idéia da diferença eu gostaria de demarcar a diferença de perspectiva entre antropologia filosófica e antropologia física ou cultural.


Antropologia Física: O que estuda? O homem. Em que perspectiva? A antropologia física investiga a origem do homem, tanto no tempo- quando (3 milhões de anos) como no espaço- onde ( na África), DIMENSÃO FÍSICO-GEOGRÁFICO, as etapas-eras evolutivas, qual a semelhança e diferenças entre o homem e os antropóides do ponto de vista físico-biológico. A antropologia física estuda o homem como um animal, enquanto vivo e sensível. As diferentes constituições físicas dependendo do tempo e lugar, seus hábitos alimentares etc..(ULLMANN, 1991, p. 30ss).

Antropologia Cultural: O que estuda? O homem. Em que perspectiva? Na perspectiva da sua obra, num sentido amplo cultura é tudo o que o homem faz. Não somente do ponto de vista material (arquitetura, monumentos, as instituições, os instrumentos tecnológico, a maquinaria, a agricultura, a economia em geral) mas também simbólico, que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, as leis, os costumes e hábitos do homem enquanto membro de uma comunidade. (ver MELO, p. 37ss). A antropologia cultural se divide em uma série de campos de investigação como podemos ver no esquema abaixo.

ANTROPOLOGIA



FÍSICA CULTURAL FILOSÓFICA

Estuda o homem na sua Dimensão da ação criativa Estuda o homem na

Dimensão físico-geográfica Totalidade de sentido

(Corpo, mente, espírito...)

(o que, qual o sentido...)

Arqueologia Etnografia Etnologia Lingüística Social


Arqueologia: Estuda as culturas extintas e as culturas atuais na sua fase pré-letrada valendo-se de testemunhos culturais não escritos: cerâmica, arte plástica, desenhos e pinturas, ferramentas....

Etnografia: estuda descritivamente a cultura.

Etnologia: Faz estudo comparativo entre as culturas

Lingüística: ocupa-se com a origem, a linguagem, a estrutura e parentesco entre as línguas.

Social: Estuda as estruturas das relações sociais (econômicas, políticas, jurídicas, simbólica, ritual, rural, urbana etc,...)
Então, ficamos acertados que trataremos o homem desde a perspectiva filosófica e não desde a perspectiva física ou cultural simplesmente. Estamos interessados em ver o homem na sua totalidade essencial, aquilo que o constitui essencialmente, isto é, que não está condicionado a particularidades que uns podem ter e outros não. E quando se diz na perspectiva filosófica significa dizer que estaremos sempre diante da pergunta: o que é o homem? O que o define essencialmente? Quais suas características essenciais independentemente do tempo e espaço e cultura, mesmo que a eles seja relacionado? Veremos isso oportunamente
b) Origem e significado da pergunta pelo Homem

O que nos impele a fazer a pergunta pela essência do homem? Qual é afinal a origem da pergunta pelo homem? Quando se fala da origem da pergunta não se deve entender a origem cronológica, histórica da pergunta. É possível pensar a origem histórica e cronológica do desenvolvimento da pergunta. Nós faremos isso oportunamente.Vamos perceber que o homem desde sempre se perguntou por si mesmo, de onde veio, para onde vai, qual o sentido da existência etc... Mas, não é isso que está em questão nesse momento. A questão é pensar a origem no sentido ontológico-metafísico, na condição de possibilidade da própria pergunta, no sentido de perguntar como é possível fazer essa pergunta em todos os tempos e espaços. E a origem da pergunta pelo homem é o fato de o próprio homem ser um PROBLEMA PARA SI MESMO, isto é, não sabemos quem somos.



Somos um enigma para nós mesmos. A pedra não é um enigma para si mesmo. O cachorro não é um enigma para si mesmo. E por que? Porque só o homem tem a capacidade que conhecemos como auto-referencialidade, ou auto-reflexão, ou autoconsciência, isto é, voltar-se sobre si mesmo, tomar-se como objeto de si mesmo. A pedra, o cachorro etc são o que são por força da natureza, são determinado, opacos, fechados em si. Por que o homem é aberto, não determinado, ele se pergunta por quem é afinal?
Então, em síntese, só nos perguntamos por quem somos porque não sabemos quem somos e por isso perguntamos. Essa é a origem.

Mas qual a lógica da pergunta pelo essência de nós mesmos? Na pergunta por nós mesmos ocorre um fenômeno curioso e paradoxal. E por que curioso e paradoxal? Só posso perguntar se não conheço aquilo pelo que pergunto, caso contrário a pergunta seria superada pelo saber e por conta disso nunca mais poderia ser formulada. Isso por um lado. Por outro lado eu só posso perguntar se de alguma forma eu conheço aquilo por que pergunto. Se não fosse assim a pergunta não teria sentido, direção, objeto sendo então impossível formulá-la. Isso significa dizer que de alguma forma desde sempre sabemos quem somos, mas não o sabemos suficientemente e cabalmente. Somos mais do que um problema a resolver, mas um mistério a viver.
Esse paradoxo ou essa dialética é a mesma que está por trás da velha máxima de Sócrates: “Conheça-te a ti mesmo”. Não parece paradoxal dizer “conheça-te”? Ora, não é óbvio que eu saiba quem sou? Não é indubitável que eu saiba quem sou? E se eu sei quem sou então a pergunta “Conheça-te a ti mesmo” seria sem sentido. Mas a máxima, o lema de Sócrates não é sem sentido. E vai na mesma direção da lógica da pergunta que falávamos a pouco. Eu sei um pouco de mim. Mas sei também que não sei e por isso procuro saber mais. SÓ SEI QUE NADA SEI, diz uma outra máxima de Sócrates. O ignorante não sabe. Os deuses sabem tudo. Ao filósofo, o intermediário, cabe dizer que sabe que não sabe. Isso o torna mais que ignorante, e menos de um deus. O filósofo é um amante da sabedoria. Não é sábio, mas amante da sabedoria. O ignorante não pergunta porque nada sabe, os deuses não pergunta porque sabem tudo. O filósofo, o pensador, o homem com maiúsculo, cabe o intermediário de saber que não sabe e procurar avançar na sabedoria. Isso tudo é bem sintetizado no mito do Eros em Platão.
Mas voltando. O homem é um enigma para o homem e por isso pergunta pelo que é.Pergunta que está na base da antropologia filosófica e a possibilita enquanto pergunta pela totalidade: o que é o homem? É evidente que essa pergunta vai ter desdobramentos e respostas plurais. Isso nós iremos ver oportunamente. Só queria situar a problemática e estabelecer qual a natureza mesma da nossa disciplina e que universo ela abarca. Questões como qual a diferença entre o homem e o animal, se o homem tem ou não uma essência ou se tudo se passa relativamente e histórica e culturalmente, qual a relação entre corpo e alma, o problema do conhecimento e seus limites, o problema da consciência, da religiosidade, da ética, da politicidade e eticidade, da linguagem etc...são todas questões que envolvem a antropologia do ponto de vista filosófico.
OBS. Sobre esse ponto comum formula-se procedimentos diversos no tratamento da antropologia filosófica. Não há um método único de acesso a problemática filosófica do homem. Os autores dos manuais se dividem aqui. Qual o método mais acertado de acesso da problemática do homem na perspectiva filosófica? Basicamente há dois procedimentos metodológicos: o histórico e o sistemático. O histórico é aquele que procura desdobrar a problemática apresentando as sucessivas concepções particulares de épocas e dentro delas os autores principais. O sistemático é aquele que tenta conjugar a fenomenologia ou a ciência empírica com o método transcendental. Basicamente esse método parte do que é o homem no sentido biológico e cultural e mostra as suas insuficiências no sentido de dizer da totalidade do homem e por isso avança aplicando o método transcendental que unifica e transcende a pesquisa cientifica ou os dados fenomenologicamente descritos. Em outras palavras: a pesquisa científica ou antropologia física e cultural é um passo necessário mas insuficiente para o tratamento filosófico do homem. Para completá-lo deve-se compreender o homem desde a perspectiva espiritual, metafísica,da autotranscendência, da pessoa humana na perspectiva espiritual mesmo. VER RABUSKE, CORETH E MONDIN
C) Importância da AntropologIa Filosófica

Em filosofia a antropologia filosófica é uma disciplina chave. Como diz Kant existem quatro perguntas fundamentais que o filósofo deve perseguir: o que posso conhecer? O que posso esperar? O que devo fazer? E o que é o homem? Das quatro perguntas a última é a fundamental. Respondida essa as outras encontram o seu caminho de resposta também. Talvez se devesse perguntar pela importância dessa disciplina para um curso como a fisioterapia, a farmácia, ou química etc...Será uma disciplina inútil? Sim. É uma disciplina inútil se entendermos por utilidade na perspectiva positivista, instrumentalista, da eficácia, das ciências particulares que tentam resolver soluções particulares e imediatas. Inútil é a antropologia filosófica se pensarmos com mentalidade mercantilista. De fato essa disciplina não será útil para resolver problemas pontuais da saúde física dos pacientes de vocês, ou se será útil para a carreira profissional. Pensada assim ela é inútil. Mas talvez ela não seja inútil se pensada na perspectiva de que sempre e cada vez mais o que de fato afeta a todos são as questões de sentido da vida, de significado da nossa existência e de auto-compreensão. Existem muitos autores que falam que estamos numa época de profunda crise: crise de valores antes sustentados pela religião e que agora se desfaz, crise ecológica pelas ameaças sempre presentes pelo sistema que geramos e que de alguma forma vai pondo em risco própria vida sobre a terra. Crise política no descaso cada vez maior dos nossos representantes que se valem da representação para tirar proveito próprio. Crise que nos dão insegurança e medo. Pensar essa situação talvez não seja de todo inútil. Pensar o processo que nos levou até onde estamos enquanto humanidade, talvez não seja de todo inútil.



Talvez a antropologia filosófica não seja a disciplina mais útil e necessária para viver. Talvez, mas certamente é uma das mais excelsas para saber viver. Não só viver, mas bem viver. Não só viver bem, mas bem viver. Não só viver, mas pensar sobre o viver. Espero que ela cumpra esse papel reflexivo, interrogativo, instigante e crítico. Num mundo cada vez mais técnico e científico o problema principal ainda continuamos sendo nós mesmos. Um problema sem solução, porque mais do que um problema somos um mistério a viver.
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