Antropologia filosófica prof. Gilmar Zampieri 2005-2 ementa



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QUEM É O HOMEM?
c) Várias visões de homem do ponto de vista filosófico: A resposta à pergunta O QUE É O HOMEM, não é unívoca dentro da filosofia. E aqui a coisa se complica, mas ao mesmo tempo se enriquece, e nos fascina. Se houvesse uma única posição filosófica sobre o homem estaríamos diante de uma postura dogmática e filosofia não casa bem com dogmas, com posturas a-críticas, absolutas, fechadas. Então várias são as posições filosóficas sobre o homem. Depende da orientação filosófica. Dentro do racionalismo o homem é visto de uma forma. Dentro de uma postura religiosa será vista sob outro ângulo. Uma postura dualista terá uma conseqüente antropologia, uma postura monista terá uma outra postura. O mecanicismo terá uma antropologia, o espiritualismo ou vitalismo ou existencialismo terá outra...Vai depender do método obviamente: um método fenomenológico verá o homem de uma forma, o dialético o verá diferentemente, assim como o empirista etc...
RABUSKE FAZ uma lista, vinte idéias sobre o homem, que sem pretender ser exaustiva e aprofundada nos dá uma idéia da complexidade da nossa empreitada. A título de informação e para um posterior debate apresento aqui onze dessas idéias em forma bem simples. Procedimento: formar 10 grupos de 4 alunos e distribuir um conceito cada grupo. O grupo lê e comenta, interpreta o conceito. Alguém do grupo fica responsável para socializar a discussão e a interpretação.
BÍBLIA: “Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.
ARISTÓTELES: “O homem é um animal racional”.

GIORDANO BRUNO: “O homem se situa no limite entre eternidade e tempo, participando de ambos. O homem é cidadão de dois mundos”.
THOMAS HOBBES: “O homem é um lobo para o homem” (homo homini lupus).
ROUSSEAU: “O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”.
PASCAL: “O coração tem razões que a razão desconhece”
KIERKEGAARD: “O homem é uma relação que se relaciona consigo mesmo”.
MARX: “O homem nada mais é do que o conjunto das relações sociais”.
ORTEGA Y GASSET: “O homem é ele e suas circunstâncias”.
MAX SCHELER: “O homem é um ser capaz de dizer não”.
JEAN-PAUL SARTRE: “O homem é um ser cuja existência precede a essência”.
HEIDEGGER: “O homem é o pastor do ser”.


2 ABORDAGEM HISTÓRICA DO HOMEM
A pergunta “o que é o homem” acompanha a humanidade e perpassa os diversos momentos da história humana, mesmo que a sua formulação explícita somente tenha sido feita no período moderno e contemporâneo. Como vimos resposta final, cabal não há. Se houvesse já teria sido dada e não estaríamos aqui fazendo-a novamente. O certo é que a mesma pergunta recebeu diversas forma de tratamento ao longo da história. Filosoficamente poderíamos dizer que cada filósofo tem a sua concepção de homem. Não pretendo aqui reconstituir autor por autor. Essa seria uma tarefa herculana e infinda. Afinal quantos filósofos temos no ocidente? Só grandes filósofos poderíamos contar mais de 50. Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro, Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Maquiavel, Locke, Hobbes, Rousseau, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Sartre,....etc..Não. Não me interesso pela história da filosofia estrito senso perpassando seus mais significativos representantes. Nem mesmo as escolas: idealista, realistas, naturalista, empirista, espiritualistas, existencialistas, analíticos, materialistas etc...O corte é mais sistemático conceitual englobando as quatro grandes etapas da filosofia ocidental: Clássica, Medieval, Moderna e Contemporânea. Dentro dessas grandes etapas, ou cosmovisões, ou paradigmas globais nos deteremos em um ou outro mais representativo que de alguma forma sintetiza o pensar de um tempo, do espírito do tempo representado objetivamente.

Vamos iniciar por longe. Remontando aos primórdios, ao berço, a raiz da nossa civilização ocidental. Os gregos.



2.1 A CONCEPÇÃO CLÁSSICA DO HOMEM
Três momentos: os mitos, a filosofia pré-socrática e os clássicos da filosofia


A EXPLICAÇÃO MÍTICA DO HOMEM

A filosofia iniciou na Grécia no século VI antes de Cristo, com um filósofo chamado Tales de Mileto que dizia que o princípio e fundamento do universo e de tudo o que existe é a água. E dizia isso tentando responder racionalmente uma questão que acompanha a humanidade e dela não consegue se livrar que é: qual a origem de todas as coisas, ou então, por que existe o ser e não antes o nada. E se existe o ser como o ser passou a ser? Não pode ter vindo do nada pois do nada nada vem. Então, diz tales tem que ter algo que seja eterno e dele advenha todas as coisas. Essa coisa tem as características divinas, mas ela mesma não é divina, é a água. Por rarefação vem o ar e por condensação vem a terra e universo inteiro. Outros filósofos vão dizer que o princípio primeiro não é a água, mas o ar, outros o fogo, outros os quatro elementos combinados. Todos tem uma coisa em comum. Querem explicar o mundo físico através de uma elemento primordial também físico sem recorrer a uma explicação fantasiosa, religiosa, mítica como era a explicação anterior ao surgimento da filosofia. Vou voltar a falar dos pré-socráticos em seguida e nele pontualizar a visão de homem. Mas,voltemos aos mitos.

Antes da explicação filosófica do mundo, da explicação racional e lógica do mundo os gregos explicavam o mundo e o homem dentro do mundo através do mito. Mito é uma narrativa de como o cosmo foi criado, os deuses e o próprio homem. Por isso os mitos podem ser classificados em cosmogônicos, teogônicos e antropogônicos. Eles cumprem uma função de coesão social, de educação, de autocompreensão do mundo. São verdadeiros por que cumpre o que prometem e não porque corresponde cientificamente com o que é narrado.

Em termos gerais poderíamos caracterizar a explicação mítica do homem através de três linhas dominantes:


LINHA TEOLÓGICA OU RELIGIOSA: é a linha que traça uma nítida separação e divisão e mesmo uma oposição entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens. Os primeiros são imortais, os segundos efêmeros e mortais. Todo o poder por um lado e carência por outro. Essa condição provoca a hybris, o orgulho humano por um lado e a moira, e a resposta divina a essa ação desmedida, inscrita no destino implacável (moira), com um desfecho geralmente trágico. O mito evoca exatamente o orgulho humano para se igualar aos deuses como uma tentativa de mostrar a tragicidade da condição humana. O mito de Prometeu e de Sísifo e Édipo são paradigmáticos nesse sentido. CONCLUSÃO: Não se deve brincar com os deuses, eles são cruéis contra a hybris humana.
LINHA COSMOLÓGICA: A contemplação e admiração diante da ordem do mundo é uma das atitudes do homem grego partilhada por outras culturas antigas. Mas entre os gregos a atitude contemplativa e de admiração é constitutiva. O mundo é um cosmos ordenado e por isso belo. O belo e a ordem causam admiração. Admiração que é justamente a atitude básica do filosofar segundo Platão e Aristóteles. E com ela um estilo de vida que o homem grego reivindicará como sendo próprio: a vida teorética. Uma outra caracaterística está ligada a descoberta da homologia, ou a correspondência que deve reinar entre a ordem do universo, da physis e a ordem da cidade, da polis, regida por leis justas. A linha teológica cruzasse com a linha cosmológica para formar o conceito de necessidade inscrita na ordem do mundo e à qual deverão submeter-se os homens e os deuses. Um problema que aparecerá na filosofia posterior na idéia de conciliar a necessidade com a liberdade sem ser trágica.
LINHA ANTROPOLÓGICA: É a que nos interessa por ora, mas que se liga com as outras duas, tanto na relação com o destino, quanto na relação com a ordem e beleza. A pergunta aqui é a seguinte: que imagem o grego arcaico tem de si mesmo? E de que forma ele a constrói e a expressa? A mais conhecida e explícita expressão de si mesmo, articulada através do mito, pelo homem arcaico grego é a conhecida oposição entre o APOLÍNEO E O DIONISÍACO. Dito de outra forma, o Apolíneo e o Dionisíaco são duas dimensões constitutiva do homem projetadas pela visão mítica dos gregos.

APOLÍNEO: reflete o lado luminoso da visão grega de homem, a presença ordenadora do logos na vida humana, que o orienta para a claridade, para a medida, para o equilíbrio e para o agir equilibrado e razoável.

DIONISÍACO: O Dionisíaco traduz, personifica, o lado obscuro onde reina as forças da desmedida, das paixões, do desejo desenfreado, da embriagues, da festa sem regulamento, do instinto diríamos nós hoje.

A conciliação dessas duas forças, dessas duas condições humanas será obra que a filosofia posterior tomará como sua. No BANQUETE DE PLATÃO essa tentativa de conciliação será paradigmática para a filosofia ocidental.



BANQUETE: SÍNTESE: O AMOR É FILOSÓFICO E O FILÓSOFO É UM AMOROSO, UM APAIXONADO PELO BELO, BEM E VERDADEIRO. SÓCRATES É O MODELO TANTO DO AMANTE QUANTO DO FILÓSOFO. É O RACIONAL SEM SER SECO, FRIO, INSENSÍVEL. É CERTO QUE O AMOR PLATONICO SE DIRIGE PARA O BELO NÃO FÍSICO, MAS É AMOR EM MAIS ALTO GRAU.

DESTINO-MOIRA- Hybris (Audácia desafiadora, orgulho, auto-determinação)

MITO DE SÍSIFO- O destino da morte contestada.

MÍTO DE PROMETEU-

MITO DE ÉDIPO- A impossibilidade de fugir ao destino


OS PRÉ-SOCRÁTICOS: Os pré-socráticos são os filósofos, os primeiros filósofos do ocidente, que antecedem os grandes filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles. A eles é atribuída a invenção, a criação do espírito filosófico propriamente dito. A filosofia surge com os pré-socráticos. Tales de Mileto é o primeiro. Eles se situam entre o século VI E V antes de Cristo. Comumente eles são conhecidos como cosmológicos, ou físicos por se preocuparem, sobretudo, em responder a uma pergunta metafísica, qual a origem de todas as coisas? E darem uma resposta física. Por exemplo: Tales de Mileto: a água é a origem de todas as coisas. Anaxímenes: o ar. Empédocles: os quatro elementos. Demócrito: o átomo. ETC....

O que nós temos desses filósofos são apenas alguns fragmentos. Restos de um todo maior que se perdeu para sempre. Mas pelos fragmentos que nos resta é possível dizer que não só o problema cosmológico era a preocupação dos pré-socráticos mas também o problema teológico e antropológico.


De TALES DE MILETO (624- 547 a. C) nós temos um fragmento, uma frase enigmática, por não termos o contexto da frase, mas certamente importante para uma aproximação do universo de compreensão antropológica dos pré-socráticos. A frase diz: “todas as coisas estão cheias de deuses”.

INTERPRETAÇÃO: A interpretação dessa frase abarca as três linhas já presentes nos mitos: a teológica: a água é agora o novo deus. A cosmológica. A água é o elemento físico mais importantes no universo. Dela depende a vida. E finalmente a linha antropológica. Tudo tem uma alma, tudo está impregnado de forças vivas. Tudo é dinâmico, vivo. Isto significa: tudo participa da vida do homem e o homem participa da vida de tudo, do cosmos inteiro.
XENÓFANES DE Cólofon( 580- 460 a.C): Em Xenófanes a perspectiva antropológica fica mais explícita. Primeiramente na sua crítica aos deuses da crença popular, da religião oficial. Xenófanes é o primeiro crítico da religião e a sua postura é a mesma dos críticos modernos que dizem que não é Deus que cria os homens, mas os homens que criam os deuses a sua imagem e semelhança.
Mas se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos ou pudessem pintar e realizar as obras que os homens realizam com as mãos, os cavalos pintariam imagens dos deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois, e plasmariam os corpos dos deuses semelhantes ao aspecto que tem cada um deles”. E mais: Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e tem o nariz achatado, os trácios dizem, ao invés, que tem olhos azuis e cabelos ruivos”...

Portanto, Deus não pode ser semelhante ao homem, ser da mesma natureza: “ Aos deuses Homero e Hesíodo atribuem tudo o que para os homens é desonra e vergonha, roubar, cometer adultério, vingança, inveja, enganar-se mutuamente”...E sobre o nascimento dos deuses: “Mas os mortais consideram que os deuses nascem, que têm, vestes, voz e figura como eles”, não pode ser pois se nascem também morrem, e portanto não são deuses.


Se há Deuses esse não podem ser iguais ao humanos. Os humano. Cava-se já uma separação filosófica entre o divino e o humano, bem maior do que já havia na mitologia.
Mas o fundamental em Xenófanes, do ponto de vista antropológico, é ter estabelecido que a dignidade humana está não no seu vigor físico, do corpo, mas na sua capacidade reflexiva e de conhecimento. Num fragmento depois de se referir aos triunfos, honrarias reservados aos vitoriosos nas competições esportivas afirma categoricamente:
O nosso saber vale muito mais do que o vigor dos homens e dos cavalos. Não é justo preferir a força ao vigor do saber. Não é a presença na cidade de um bom pugilista e de um bom corredor ou de um bom guerreiro que faz a cidade ficar em melhor ordem”.
HERÁCLITO (500-400 a.C)
Mas de todos os pré-socráticos o mais destacado na perspectiva antropológica é sem dúvida Heráclito.
Heráclito é o maior dos pré-socráticos e mais vigoroso dos dialéticos redescoberto por Hegel e Marx no mundo moderno.

Dele temos 126 fragmentos que abarcam o universo do ser tanto no âmbito teológico e cosmológico, bem como o gnosiológico, ético e político e antropológico.


ANTROPOLOGIA DE HERÁCLITO:

A perspectiva antropológica não é separada da cosmológica e teológica. É como se houvesse três círculos concêntricos e o antropológico fosse o central. A chave de compreensão tanto do cosmos quanto do homem é o DEVIR, A MUDANÇA, A DINAMICIDADE, A DIALETICIDADE, A MUTABILIDADE POR OPOSIÇÃO. A DIALÉTICA ENFIM. É bem conhecida a idéia de Heráclito que tudo muda: Um fragmento, 91, diz explicitamente isso: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, na segunda vez correm outras e novas águas”. “A guerra é mãe de todas as coisas”...




PENSAMENTO:



  1. O fluxo perpétuo de todas as coisas. Os milesianos, de Milésio, Mileto, interessavam-se pelo princípio que explicasse todas as coisas, isto é, se preocupavam pela gênese do cosmos a partir de um principio. Notavam certamente o dinamismo de mudança em todo o cosmo, o nascer e perecer, a transformação constante. Mas não a tematizam. É o que faz exatamente e precisamente Heráclito. Em primeiro lugar Heráclito chamou a atenção para a mutabilidade de todas as coisas. Nada permanece imóvel, tudo muda, tudo se transforma, sem cessar e sem exceção. Para exprimir essa verdade Heráclito valeu-se da Imagem do fluir do rio em fragmentos que se tornaram célebres: “De quem desce ao mesmo rio vêm ao encontro água sempre novas”. “ Descemos e não descemos ao mesmo rio, nós somos e não somos”. O sentido do fragmento é claro: aquilo que é aparentemente sempre o mesmo, muda constantemente. No rio corre águas sempre novas, e nós mesmo quando entramos na segunda vez no rio não somos mais os mesmos. Por isso o somo e não somos. E isso vale para todas as coisas sem exceção. Portanto, nada permanece, e tudo advém. Só o devir das coisas é que é permanente, as coisas não tem identidade, senão o perene devir. Só o devir das coisas é que é permanente. Esse é o aspecto da doutrina de Heráclito que se tornou mais célebre, sintetizada na máxima: “tudo flui” (). Crátilo, discípulo de Heráclito, seguindo e o mestre vai mais longe, acabou dizendo que por que tudo flui o conhecimento é impossível e que portanto o máximo que se poderia fazer é mostrar as coisas com os dedos....

  2. A harmonia dos opostos. O devir é um contínuo fluir das coisas de um contrário ao outro. As coisas frias se aquecem, as coisas quentes se esfriam, as coisas úmidas secam, as coisas secas umedecem, o jovem envelhece, o vivo morre, e assim por diante...O devir é pois conflito de contrários. É um constante luta, guerra. “ A guerra é a mãe de todas as coisas e de todas a rainha”. Só que a guerra não é de destruição. A guerra revela uma harmonia escondida que precisa ser expressa. A guerra leva a uma harmonia de contrários. O fragmento 8 diz: “o que é oposição se concilia e, das coisas diferentes, nasce a mais perfeita harmonia, e tudo se gera por via de contraste. O fragmento 51 “os ignorantes não compreendem que o que é diferente concorda com ele mesmo, harmonia de contrários, como a harmonia do arco e da lira. O sentido só pode ser dado nos contrários, não se conheceria a injustiça sem a justiça e a justiça sem a injustiça...a saciedade só é boa devido a sede...O caminho para cima e o caminho para baixo é o mesmo....e´o exemplo da escada. Deus mesmo é dia e noite, guerra e paz, saciedade e fome. O divino é a síntese dos contrários. Deus é a harmonia dos contrários, a unidade dos opostos. É o início da dialética. Hegel vai dizer que não há proposição de Heráclito que não tenha colhido em sua lógica...O fogo recebe destaque como símbolo da filosofia de Heráclito. O fogo é na verdade o símbolo da transformação... E nisso permanece como físico.

  3. VERDADE, O LOGOS, A RAZAO UNIVERSAL: a verdade consiste em captar o Logos, a racionalidade que perpassa a mudança empírica particular. O logos primordial é uma força em movimento. O homem tem dois instrumentos para o conhecimento, os sentidos e a razão, o logos, quem vive segundo a razão estará no caminho do conhecimento e da verdade. E quem vive segundo o caminho da verdade será moralmente bom pois conduzirá sua alma para o bem...Os sentidos nos enganam pois dão a impressão que as coisas estão paradas e tem sempre a mesma identidade... Existe uma ordem racional que estabelece a medida de todas as coisas...O logos é que capta a harmonia universal do cosmo na diversidade aparente..Só o Logos, a razão consegue captar a razão universal que governa todas as coisas..

ANTROPOLOGIA DE HERÁCLITO
Isso já nos dá uma idéia da concepção antropológica de Heráclito. O ser humano não é estático, parado, inerte, mas é dinâmico, mutável, se transforma. Isso desde o ponto de vista geral. Mais pontualmente sobre o homem diz Heráclito:


  • Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram pasto para comer.




  • O mais belo símio é feio comparado ao homem

  • Uma coisa preferem os melhores a tudo: a glória eterna às coisas perecíveis; mas a massa empanturra-se como gado.

  • O povo deve lutar por leis como por muralhas.

  • Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu ser.




  • Não devemos julgar apressadamente as grandes coisas.

  • O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do joga para lá e para cá.

  • O homem é infantil frente à divindade, assim como a criança frente ao homem.

  • O mais sábio dos homens, comparado a Deus, parecer-se-á a um símio, em sabedoria, beleza e todo o resto.

  • EU ME PROCUREI A MIM MESMO. CONHEÇA-TE A TI MESMO



CONCLUSÃO: O logos nos assemelha ao divino que vê para além das aparências. As coisas parecem sempre as mesmas, mas isso é opinião infantil, saber é ver o logos que conduz tudo para a mudança, ver a transformação na aparente imutabilidade, eis o conhecimento só alcançado com o LOGOS. Os sentido nos enganam. A mesma dinâmica do universo é a dinâmica do humano. Eterno em nós só o fluxo que move tudo sem parar.
A inflexão, o desvio, a mudança de perspectiva para a centralidade do HOMEM se completa com os sofistas.
SOFISTAS
Os sofistas são os primeiros verdadeiramente humanistas no ocidente filosófico. Humanista no sentido de fazer do homem seu tema e problema diferentemente dos pré-socráticos que apesar de já apresentarem uma reflexão ou preocupação sobre o homem tem no cosmos o seu problema principal e por isso são chamados de cosmológicos.

Os sofistas não. Os sofistas não se preocupam com o cosmo, com sua origem, com o princípio de todas as coisas. Os sofistas trazem a reflexão do céu para a terra. O seu foco investigativo é o homem e tudo o que a ele está ligado: as leis, os sistema jurídico, a política, a educação, a arte, a retórica etc...


Sofistas: significa etimologicamente aquele que sabe. Aquele que tem algum conhecimento e o transmite, tanto o teórico quanto o prático. Acontece que o que passou para a história é que sofista é o charlatão, aquele que vende o próprio conhecimento e aquele que não está preocupado com a verdade, mas com a aparência da verdade, está preocupado com a persuasão, com o convencimento e não preocupado em convencer-se da verdade, mas convencer da própria verdade. Nesse sentido são falsos pensadores e não merecem o nome de filósofos. Essa é a posição tanto de Platão quanto de Aristóteles. Sofistas são caçadores de jovens ricos para vender um conhecimento como arte de persuasão, de convencimento.
Mas deixemos esse debate de lado, por certo muito interessante. Concentremo-nos na antropologia sofística:

REPRESENTANTES MAIORES: Protágoras, Górgias, Hípias, Pródicos. Viveram no auge da democracia grega e são seu fomentadores e educadores.

Protágoras é a síntese dos sofistas. E a síntese de seu pensamento está condensado numa máxima que se tornou a máxima de todo relativismo moral. “O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS. DAS QUE SÃO ENQUANTO SÃO E DAS QUE NÃO SÃO ENQUANTO NÃO SÃO”.



Interpretação:

1- Não há verdade, ou dever moral inscrito em nenhum lugar por obra divina ou por obra da natureza. Não é Deus a medida de todas as coisas, mas o próprio homem. E o homem entendido individualmente. Eu sou critério de verdade para mim mesmo e tu és para ti mesmo e não posso querer que tu penses e ages como eu penso e ajo. Politicamente isso vai significar o seguinte. Se eu sou o critério da verdade então eu devo persuadir o outro da minha verdade. O outro deve persuadir da sua. Nessa luta, nessa dialética, nesse diálogo vença o melhor argumente. Concepção de homem como animal racional. Não há uma verdade que A e B tenham que ambos se curvarem, ambos tenham que aceitar objetivamente. Não. A verdade, o bem, o belo é uma questão de ponto de vista. É o começo do subjetivismo. Isso tem algo de altamente positivo. Algo de revolucionário. Algo de extremamente importante para a cultura ocidental. Pela primeira vez o sujeito levanta vôo, o indivíduo se alça para se afirmar como o centro do mundo. Os sofistas são pós-modernos antes mesmo de serem medievais e modernos.
2- Um prolongamento desse princípio será a separação entre natureza e cultura. Physis e nomos. A educação forma a cultura a civilização. Somos seres culturais, seres separados da natureza. A educação, a Paidéia como dizem os gregos, é obra humana e essa obra é feita pelos homens. A cultura supre o que o homem tem de carência pela natureza. O homem é o ser mais frágil e desprotegido naturalmente, mas o maior dos seres quando se faz culturalmente. A cultura supre o que é negado pela natureza. É, juntamente com o lado racional e retórico a maior contribuição para a concepção do homem no ocidente.


SÓCRATES

Se a inflexão antropológica inicia com os sofistas, terá em Sócrates o seu desfecho definitivo. A orientação até hoje da antropologia filosófica, a sua luz mais longínqua é sem dúvida Sócrates. Sócrates é o primeiro humanista, do ponto de vista filosófico, no seu sentido positivo. Sócrates está num momento de transição. Transição entre os sofistas e os filósofos clássicos posteriores. Com a sua entrada em cena uma nova concepção antropológica entra também em cena e depois dela permanecerá nos seus sucessores imediatos, Platão e Aristóteles.

Há um problema em Sócrates, é o chamado problema Sócrates. E por que há um problema Sócrates? Há um problema Sócrates porque Sócrates nada escreveu. Tudo o que sabemos dele é através de Platão, Xenofonte, e Aristóteles. E num caso assim, tal como em Jesus Cristo, nunca se saberá o que ele realmente disse, o que pregou, o que disse ou deixou de dizer. Mas isso não inviabiliza o seu pensamento. Somente que para uma boa interpretação é fundamental ter em conta o conjunto do legado dos seus discípulos que divergem mas não se contradizem naquilo que é fundamental no seu pensamento e que passou para a história como sendo o pensamento e a posição de Sócrates sobre variados temas (O homem, a ética, o conhecimento).


  1. A concepção de homem em Sócrates

Uma constante nas meditações, nos diálogos socráticos, a filosofia para Sócrates é diálogo vivo com o interlocutor, sem a mediação da escrita que não consegue se defender sozinha, uma constante nas meditações gira em torno do que é propriamente humano, ou das “coisas humanas”.


Antes de pontuar propriamente a contribuição de Sócrates para a antropologia considero importante demarcar a diferença metodológica, filosófica entre Sócrates e os sofistas.

Enquanto os sofistas ensinam, transmitem conhecimentos técnicos e teóricos através de aulas, onde um expõe e outro escuta, permanecendo portanto numa relação de alguém que sabe transmite algo para alguém que não sabe e aprende, o método socrático é bem diferente. O método é dialógico. Qual a essência do diálogo? O diálogo só é verdadeiramente diálogos se os interlocutores estão pelo menos numa condição comum. Qual a condição comum? A procura da verdade. Ambos os dialogantes tem que estarem abertos para ensinar e aprender. O conhecimento não é algo que venha de fora para dentro, mas de dentro para fora. É uma das máximas de Sócrates, só sei que nada sei. Se sei que não sei e não me satisfaço com isso vou procurar conhecer, saber mais. Mas o mestre dizer isso significa dizer que ele mesmo está a caminho, em busca e o procedimento para essa busca é o caminho do diálogo. Diálogo com o outro e diálogo consigo mesmo. Sócrates não quer convencer de alguma verdade, mas quer uma verdade para se convencer.




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