Antropologia filosófica prof. Gilmar Zampieri 2005-2 ementa


OS PASSOS DO DIÁLOGO E O TEMA



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OS PASSOS DO DIÁLOGO E O TEMA:

O diálogo se passava em qualquer lugar da cidade ou fora dela sempre com um tema de discussão, o amor, amizade, a coragem, a virtude etc....


IRONIA, A MAIÊUTICA E A INDUÇÃO.

Ironia: consistia basicamente em mostrar que o interlocutor era um ignorante, que não conhecia o que pretensamente achava que conhecia. Com esse passo Sócrates pré-dispunha o interlocutor a se abri para a verdade que não conhecia. Ele mesmo confessava: SÓ SEI QUE NADA SEI. Por isso procurava conhecer.

MAIEUTICA: a mãe de Sócrates, Fenarete, era parteira. O segundo passo do método era justamente processar o parto das idéias. Sócrates se definia como “parteiro das almas”. Isso significa que não era ele o pai das idéias que nasciam da alma do interlocutor, mas que ele, tal como a parteira, tinha apenas um papel auxiliar. Seu papel era suscitar no interlocutor o desejo de saber. A verdade não está na natureza, mas está dentro de nós e devemos procurá-la. Através de perguntas sucessivas esse momento do método se estabelecia, mostrando os pré-conceitos do interlocutor.

DEFINIÇÃO POR INDUÇÃO. É o resultado do método quando se encontra a essência universal e racional lógica da coisa buscada: o que é o amor, o que é a amizade, o que é a virtude etc...geralmente os diálogos terminam sem uma solução definitiva, e o diálogo termina em aberto para que a busca continue....

Dito isso voltemos a Antropologia de Sócrates:


ANTROPOLOGIA SOCRÁTICA:

No bem da verdade a questão humana, ou as questões humanas são o tema constante de todas as meditações socráticas. Agora, o que é o humano para Sócrates?



Na visão de Sócrates o humano só tem sentido e explicação ser referido a um princípio interior ou a uma dimensão de interioridade presente em cada homem e que ele designou com o termo psyché: ALMA. Para a pergunta: o que é o homem Sócrates responde, o homem é a sua ALMA. O que nos distingue de qualquer outro ser é a ALMA. A pergunta é: o que Sócrates entendia por ALMA? Diretamente ALMA para Sócrates significa o EU CONSCIENTE, A PERSONALIDADE INTELECTUAL E MORAL. É POR ISSO QUE ELE INSISTIA: “Conheça-te a ti mesmo e cuida-te de ti mesmo”. Ao dizer isso não estava querendo dizer para conhecer o próprio corpo e cuidar do próprio corpo, mas cuidar de si e cuidar de si é cuidar da ALMA.( Ler aqui APOLOGIA A SÓCRATES, P. 15. 29e -30b).
Cuidar da alma faz o homem virtuoso e o homem virtuoso é um homem Feliz. Agora, o que é a virtude da alma? Virtude é conduzir retamente a interioridade para o BEM, o Belo, Bom e verdadeiro. Para isso o conhecimento interior é fundamental. Quem conhece prática o BEM e o Mal é fruto da ignorância. Daí a importância do cuidado e do conhecimento de si mesmo dado por Sócrates. Daí vem o chamado intelectualismo moral e filosófico de Sócrates que depois será questionado por Santo Agostinho que diz, dentro da tradição cristã, que não basta conhecer o Bem para praticá-lo, é preciso querê-lo é preciso ter vontade e a vontade é livre e pode escolher o mal mesmo sabendo que é um mal e não escolher o bem sabendo que é um bem. Além do elemento da insuficiência da capacidade humana para o bem sem o concurso e a graça de Deus.
Então, a verdadeira virtude, a ARETÉ, como diz os gregos, não é a virtude do guerreiro, do fabricante de instrumentos, não é a virtude do vigor físico, ou na posso de bens exteriores ou conhecimentos externos, mas conhecimentos internos ligados a ALMA e não ao corpo. Com isso Sócrates revoluciona a tábua dos valores tradicionais, os valores tradicionais estavam ligados ao corpo e agora há uma nítida superioridade hierárquica da alma com relação ao corpo. Então a beleza exterior, a riqueza, a honra militar etc de nada vale, o que vale é a virtude da alma que conduz o ser para o BEM E O VERDADEIRO.
Está formada a condição para a separação entre corpo e alma no ocidente que vai se radicalizar em Platão e depois através do cristianismo neo-platônico.
CONCLUSAO:
Sócrates se preocupa com as coisas humanas. Das humanas o cerne é a ALMA e as virtudes da alma. Por isso o conhecimento para melhor praticar o bem.

ANTROPOLOGIA PLATÔNICA
Platão foi discípulo de Sócrates. E ao contrário de Sócrates, Platão escreveu e escreveu muito. 35 DIÁLOGOS E 7 CARTAS. Platão é o primeiro grande sintetizador da filosofia grega, seguido pelo discípulo Aristóteles. Em Platão nós temos o pensamento alçando vôo como em nenhum momento da história tenha alçado. A influência de Platão no ocidente é de tal envergadura que seria inimaginável a cultura ocidental sem a presença de Platão.

Platão escreveu sobre tudo. Sobre Cosmologia e teologia (Timeu). Sobre educação e política (República, o político e as leis). Sobre o amor e a amizade (Fedro, Banquete e Lisis). Sobre a imortalidade da alma (Fédon). Sobre o conhecimento ( conjunto da obra). Sobre a linguagem (Crátilo). Sobre a retórica e contra os sofistas (Górgias, Protágoras, O Sofista). Sobre a dialética (Fedro, Teeteto). Sobre o Ser (O sofista). De tal forma que é impossível separar em Platão a questão propriamente humana da questão metafísica-ontológica, do conhecimento, da ação ética-política.


Certamente a questão principal em Platão do ponto de vista antropológico é a relação entre corpo e alma. Mas para chegar a essa relação faz-se necessário entender a base metafísica do seu pensamento pois ela é o fundamento tanto para o homem, quanto para o conhecimento, quanto para a ação ética e política. Por isso inicio traçando em grandes linhas e de forma esquemática a estrutura do pensamento platônico e daí deduzir uma antropologia. Princípio organizador do ser e pensar e agir.

METAFÍSICA PLATÕNICA:
Platão postula a idéia de que esse mundo, o mundo físico, o mundo da natureza, o mundo dos sentidos, o mundo material, tudo o que vemos e sentimos, tocamos, que está ao nosso redor não se explica por ele mesmo. O princípio, a causa explicativa desse mundo está fora do mundo. Está em outro mundo, e a esse outro mundo Platão chama o mundo das idéias. Então temos esquematicamente e simbolicamente a seguinte situação.


ALMA MUNDO DAS IDÉIAS

MUNDO INTELIGÍVEL

MUNDO DO EM-SI- NAO É APARENTE E

NÃO DEPENDE DE NÓS
Necessidade e Universalidade- NÃO MUDA

EPISTEME REALIDADE VERDADEIRAMENTE REAL


Eterno, imóvel, universal



MUNDO MATERIAL

MUNDO SENSÍVEL


MUNDO APARENTE- NÃO SE AUTO-EXPLICA

DOXA


Contingência e particular- MUDA CONSTANTEMENTE

CORPO CÓPIA DA REALIDADE


Passageiro, mutável, particular

Isso significa que se tomarmos qualquer coisa desse mundo, por exemplo, uma cadeira ela não se explica por si mesma e a sua causa última tem que ser procurada fora dela mesma no mundo das idéias. É no mundo das idéias, do modelo ideal, que está a verdadeira cadeira e a cadeira real é apenas cópia mal feita da cadeira ideal. A relação entre os dois mundo é a mesma relação que há entre o modelo, o projeto e a obra. O projeto vem antes, a casa vem depois. A casa só se explica pelo modelo do projetista, do arquiteto. O que Platão procura é a essências das coisas, a causa última das coisas e ele a encontra fora das coisas mesmas, num outro mundo, no mundo ideal, no mundo das idéias.


Do ponto de vista do conhecimento temos aqui um racionalismo, ou um idealismo objetivo. As idéias são reais, as únicas realmente verdadeiras e objetivas. Não são invenções ou convenções subjetivas. A dialética é o método de partir do particular para chegar ao geral, a idéia e partir da idéia para chegar ao particular. É a chamada dialética ascendente e descendente que aparece na alegoria da caverna. Do ponto de vista do conhecimento temos ainda uma outra idéia interessante em PLATAO que diz o seguinte. A nossa alma é a que mais se assemelha ao mundo inteligível. E ela é imortal. Sempre existiu e um dia ela já contemplou todas as idéias como elas são. Na encarnação há um processo de esquecimento, mas aos esbarrar com as coisas a alma se eleva novamente num processo de reminiscência, isto é, conhecer no fundo nada mais é do que recordar. Nada de empirismo, há antes a idéia universal que o particular só desperta mas não é ele a causa do universal como seria num empirismo clássico que diz que o conhecimento seria fruto de experiências sucessivas até o salto para a generalização da essência daquilo que é e como é.
Teríamos muitas pontas para puxar aqui na explicação platônica. A questão política e pedagógica por exemplo ou a questão teológica do Demiurgo que plasma a realidade a partir da contemplação das idéias, mas isso vai além do nosso intento por ora. Importa analisarmos aquilo que é o foco da nossa disciplina, ou seja a questão da antropologia.
Qual a visão de homem que podemos deduzir dessa concepção metafísica?
1- A CONCEPÇÃO DUALISTA DO HOMEM

Os comentarista de Platão discutem exaustivamente se ele é ou não dualista no ponto de vista metafísico ou do conhecimento. Uns dizem que sim, outros acham que não. Mas não há discussão em torno de se Platão é ou não dualista do ponto de vista antropológico. É unânime a idéia que Platão é dualista. Dualista significando aqui que separa elementos e pólos e contrapõe um contra outro, um sendo absolutamente positivo, e outro sendo negativo e mau. E de fato Platão nos seus textos, sobretudo no Fédon contrapõe a parte supra-sensível que o compõe, a ALMA, a parte sensível, O CORPO. Qual a visão de Platão de corpo? Corpo é o cárcere, a tumba da alma onde ela habita somente para expiar suas PENAS. A alma está unida ao corpo por uma razão acidental. É uma tumba porque? Porque nós somos nossa alma e enquanto a alma habita um corpo é como se estivesse morta. Nesse sentido o nosso viver é como se estivéssemos mortos, e ao morrer é como se vivêssemos. A morte é a libertação do corpo que nos prende ao sensível. O corpo é a raiz do mal, fontes das paixões, das inimizades, das discórdias, das ignorâncias....e tudo isso representa efetivamente a morte para a ALMA. É por isso que Platão diz pela boca de Sócrates no Fédon que o verdadeiro filósofo é aquele que se prepara para a morte, é aquele que deseja ardentemente a morte, pois somente com a morte a Alma pode enfim retornar ao seu estágio superior. Por isso, enquanto estivermos presos ao corpo o melhor que podemos fazer é buscarmos as virtudes da ALMA: A SABEDORIA, O ENTENDIMENTO, A MODERAÇÃO, O EQUILÍBRIO, A FORTALEZA, A TEMPERANÇA ETC...É isso que faz o CUIDADO COM A ALMA.


Como correlato dessa posição temos uma teoria fundamental em PLATAO que é a teoria da imortalidade da ALMA.
2- A IMORTALIDADE DA ALMA

ORFISMO: A teoria da imortalidade da alma e da metempsicose Platão deve ao Orfismo. Segundo o orfismo a alma é imortal e passa por sucessivas expiações até a purificação total.. Algumas características são marcantes no orfismo:

  1. No homem vive um princípio divino, daimônion, (força impulsionadora, não do mal, como em Sócrates que é guidado pelo daimônion. Esse daimônion é unido ao corpo por causa de uma culpa original. Os cristãos chamam isso de Alma. Platão também.

  2. Esse daimônion pré-existe ao corpo, é imortal, e portanto não morre com o corpo, mas é destinado a sucessivas reencarnações para expiar as suas culpas.

  3. A vida órfica é a única capaz, pelas suas práticas de purificações, pôr fim ao ciclo de reencarnações.

  4. Por isso para quem vive a vida Órfica entrará, depois dessa existência, no estado de perfeita felicidade, ao passo que quem não vive será fadado a sucessivas reencarnações.

Platão deve à doutrina órfica a sua concepção dualistas e a concepção da imortalidade da alma. A alma é imortal porque ela não pertence ao mundo material, mas é da mesma natureza das idéias e essas são eternas e imortais. O destino das almas após a morte vai depender da conduta ética nesta vida.




    1. ANTROPOLOGIA RACIONALISTA:

O que se depreende disso tudo é que temos em Platão o que poderia se chamar de antropologia racionalista. Ou se quiser, a visão de homem que surge com Platão, aliás na seqüência dos pré-socráticos e Sócrates, é uma concepção de homem marcadamente racionalista. E quando se diz racionalista se diz ancorada, fundada na razão humana, no conhecimento como característica fundamental do homem. E isso quer dizer que os sentimentos, o coração, as paixões, a liberdade, o amor, a história recebem um tratamento secundário e até desprezível. O material e o corpóreo serão sacrificados no altar da racionalidade pura. A essência da realidade humana radica somente no racional. O ideal humano é a total desmaterialização possível da vida. O bem é alcançado por força da razão que conhece. Conhecer é por si só suficiente para praticar o bem. O bem é fruto do conhecimento e não da vontade como dirá mais tarde Santo Agostinho.



ARISTÓTELES
Também em Aristóteles será preciso entender primeiro a sua metafísica para dela deduzir uma antropologia. Vou traçar umas linhas fundamentais no pensamento filosófico, na estrutura do pensamento de Aristóteles e depois enfrentar o problema da concepção de homem.
Aristóteles foi discípulo de Platão, mas com bom discípulo superou o seu mestre. Nietzsche diz que o maior louvor que o discípulo pode fazer ao seu mestre é ir além dele. E Aristóteles foi um dos discípulos que prestou louvor a Platão. O ir além não significa superá-lo no sentido de que o mestre esteja errado. Não. Significa ver coisas e de uma forma que o mestre não via. Foi assim com Aristóteles. Ele via tudo mais ou menos de outra forma. Com outras categorias tentava explicar a realidade na sua totalidade. Se Platão é idealista, Aristóteles é realista. Há um quadro pintado por Rafael representando o pórtico da Academia de Platão, onde Platão aparece com de pé ao lado de Aristóteles e Platão está com a mão apontando para o alto, e Aristóteles com a mão direita apontando para o chão. É um pouco isso o que realmente acontece com Aristóteles. Ele quer trazer novamente as coisa para a terra, já que Platão tinha levado para as nuvens.
E o que significa trazer as coisas novamente para a terra? O que significa o realismo de Aristóteles. A questão de fundo é a mesma. Qual a causa ou as causas que explique a realidade? Platão ao responder essa pergunta disse que a causa que explica esse mundo está fora dele, está no mundo das formas, das essências, das idéias. Só conhecendo a essência das coisas pode-se dizer que realmente se está fazendo filosofia, ciência. Aristóteles concorda com Platão que é preciso buscar o que permanece na transformação. Mas não aceita que o que diz o que a coisa é na sua universalidade e necessidade esteja fora da coisa mesma. O que a coisa é, a natureza especial de algo deve ser encontrada na coisa mesma e não fora dela. Como pergunta Aristóteles? E responde. Buscando as Causas. Se explicam as coisas pelas causas internas as coisas mesmas. Quais são essas causas que explica as coisas que Aristóteles chama de SUBSTÂNCIA?
Quatro causas:

CAUSA MATERIAL: Do que é feita a substância

CAUSA FORMAL: O que faz a coisa ser o que é, a essência

CAUSA EFICIENTE: quem a fez

CAUSA FINAL. Para que foi feita
Qualquer coisa segundo Aristóteles terá sempre essa quatro causas inclusive no homem. Uma mesa por exemplo:
Como isso funciona no ser que é o HOMEM e qual a especificidade humana em relação a todos os outros seres? Essa é a questão fundamental.
CAUSA MATERIAL: Somos seres físicos, carne, osso, moléculas etc..a causa material é a que dá individuação aos seres. Mas o que chamamos corpo individual, o corpo próprio não é nada sem a junção com a forma, que Aristóteles chama para o ser humano de ALMA:
CAUSA FORMAL: A causa formal no homem é a ALMA, o princípio vital que o distingue de outros seres, dos vegetais e dos animais.
CAUSA EFICIENTE: O pai e a mãe.

CAUSA FINAL: É A função na natureza geral, a função intelectual. O homem é um animal de natureza intelectual.


O que é fundamental para Aristóteles é como ele vê a relação entre matéria e forma.

Não há separação entre matéria e forma. Há distinção, mas não separação. O que significa dizer que entre corpo e alma não pode haver separação, mas união substancial.


Com isso podemos estabelecer os principais traços da concepção antropológica aristotétlica assim enumerados:



  1. ESTRUTURA BIOPSÍQUICA DO HOMEM (ou a teoria da PSYCHÉ). O homem é um ser vivo, não é um mineral, e como todo ser vivo o homem é composto de soma (corpo) e psyché, (alma). A alma é a perfeição ou ato do corpo organizado. É o fim do dualismo portanto. A concepção do homem é um composto de matéria e forma, de corpo e alma. Não existe corpo sem alma, existiria matéria informe, a morte portanto. Assim como não existe alma sem corpo. O que significa de imediato que para Aristóteles a alma não é imortal. Pelo menos não a alma individual. Só a espécie humana seria imortal, a forma humana na espécie se perpetuaria, mas individualmente quando da morte morre o ser e não subsiste a alma, pois a alma só é alma no corpo, é o corpo organizado, é a FORMA DO CORPO e em sendo forma do corpo está em todos os lugares e não está em lugar nenhum. Quando falamos em ALMA estamos nos referindo as múltiplas ações: nutrir-se, sentir e pensar. Essas atividades não podem realizar-se sem o corpo. Não há visão sem os olhos, não há sensação sem os sentidos, não há o pensar sem o cérebro etc....A alma não é pois uma substância separada do corpo. Agora, é evidente que existem diferenças de seres vivos. Há os vegetais, os animais e os homens. Essa é a escala dos seres vivos. A alma é uma só, mas cumpre três funções: a nutritiva, a sensitiva e a pensante. A função nutritiva é comum a todos os seres vivos e consiste na alimentação e reprodução, sem ela não há ser vivo. A FUNÇÃO SENSITIVA: cumpre a função sentir (dor, prazer), desejar, apetecer e mover-se no espaço. E A FUNÇÃO PENSANTE: Superior das três e só presente nos humanos. Só no homem há as três funções, no animal há duas e no vegetal uma apenas. A diferença específica no homem é pois a sua racionalidade.

  2. HOMEM COMO UM ANIMAL RACIONAL: O homem pertence ao mundo natural dos viventes, mas se distingue de todos os viventes pela racionalidade. O homem é um animal racional. Aristóteles é grego e o grego está preocupado em determinar a natureza do ser em relação aos demais seres. E por isso busca a distinção, aquilo que é próprio e o próprio no homem é a racionalidade. Enquanto ser de LOGOS de alguma forma o homem transcende a natureza e não pode ser considerado um ser simplesmente natural. É o que depois se chamará a dimensão cultural do homem, pouco explorada pelos gregos.

A racionalidade humana se desdobra em três grandes área conforme o fim, ou alvos que a razão pode alcançar que dá origem a três grandes grupos ciências:
CIENCIAS- Teoréticas- que busca o conhecer pelo conhecer, pelo prazer da contemplação investigando a verdade das coisas que não podem mudar. Nessa área temos a metafísica, a física e a matemática. Não se produz o objeto, mas o busca compreender como ele é. Centradas no objeto em si.

Produtiva- a qual pertencem o grupo de ciências particulares que visam a produção, fabricam o próprio objeto do conhecimento cuja a finalidade é a utilidade e o prazer (artes, retórica, poesia etc...). Centradas no objeto produzido.

Práticas (Práxis)- visam o bem do indivíduo ou da comunidade, a perfeição moral do próprio conhecedor, do sujeito do conhecimento. Centrada no sujeito do conhecer. Aqui encontramos a ÉTICA E A POLÍTICA.

  1. HOMEM COMO UM SER ÉTICO-POLÍTICO:

Ao fazer do domínio da práxis um domínio autônomo de racionalidade Aristóteles pode ser considerado o sistematizador inicial da ética e da política como dimensões essenciais do homem e portanto da antropologia. O homem racional, o homem como animal racional faz do homem um animal ético e político por excelência. E o homem ético e político é o homem que conduz sua ação individual e coletiva segundo a razão. Tanto a ética quanto a política se preocupam com a vida feliz, com a felicidade do homem. Todo homem tem um fim que é uma vida feliz. A felicidade é o fim último que todo homem busca. Não é meio para nada. É fim em si mesmo. Ninguém quer ser feliz para outra coisa. E a felicidade não está na posse, na honra e nem mesmo na saúde. A felicidade está em cumprir aquilo que ao homem lhe é por natureza, isto é, a racionalidade. O homem feliz é o homem virtuoso e a virtude é a ação conduzida pela reta razão. Feliz é o homem que dirige a sua vida conduzido pela racionalidade. A felicidade individual é tema da ética. A felicidade coletiva é tema da política. O VIVER BEM, A VIA BOA, E NÃO A BOA VIDA.


Agora, qual o critério que Aristóteles utiliza para determinar uma vida boa, uma vida virtuosa? Quando Aristóteles analisa isso ele introduz uma outra dimensão do homem que é um ser de PAIXAO E DESEJO. Somos RAZAO sim, mas também somo paixão e desejo. Uma vida boa, virtuosa é aquela em que a razão modela, modera, equilibra as paixões e os desejos. Vida boa não é levar uma vida desenfreada, uma vida governada pelos prazeres. Vida boa é aquela em que a razão modera justamente os desejos e paixões. Vida boa é sempre um meio termo de outro entre paixões por excesso ou por falta. Entre a avareza e a prodigalidade a vida boa é a generosidade. Entre o medo e a audácia a vida boa é a coragem. Entre a pobreza e a opulência a vida boa na política é aquela que constitui uma legislação intermediária que possa fazer JUSTIÇA. A JUSTIÇA É UMA VIRTUDE POLÍTICA POR EXCELÊNCIA. A VIRTUDE ESTÁ NO MEIO. MEIO TERMO DE OURO. NEM TANTO A TERRA NEM TANTO AO MAR. AS VIRTUDE DIANOÉTICA FAZ O HOMEM FELICÍSSIMO..

Conclusão: A antropologia aristotélica continua sendo até hoje um dos fundamentos da concepção ocidental do homem. O GREGO PENSA O HOMEM COMO UMA COISA ENTRE AS COISAS. UM SER INTERMEDIÁRIO NA ESCALA DOS SERES, ENTRE OS DEUSES E OS ANIMAIS. Evidentemente que ele pensa o homem grego, mas a sua concepção de homem e as categorias do pensamento para expressá-lo marcaram definitivamente a cultura ocidental e em muitos aspectos continua vivo o seu pensamento, mesmo que tenha passado por sucessivas revisões e até críticas...
2.2 A ANTROPOLOGIA DA IDADE HELENÍSTICA
A antropologia Helênica é a antropologia subjacente ao fim do período grego, da polis grega, que tem seu término com Felipe da MACEDÔNIA E depois com Alexandre o Grande que conquista o mundo espalhando a cultura grega e preparando para um período cosmopolita que se efetivará mais tarde com o Império romano. Cronologicamente estamos aqui diante de seis século. Três antes de Cristo e três depois de Cristo. O período filosófico depois do helênico, quando a Grécia é dominada política e economicamente, mas domina culturalmente espalhando sua cultura pelo mundo até então conhecido, é o neoplatonismo com Plotino e depois com Santo Agostinho que faz um diálogo entre o cristianismo e o platonismo.
Interessa-me aqui apenas chamar a atenção para duas escolas importantes no período helênico e suas teses principais: O epicurismo e o estoicismo. Duas escolas com um fundo comum, o fim da ideal de cidadão grego que via na polis o mais alto ideal de vida, e o início da idéia de indivíduo cosmopolita. Não um indivíduo individualista como na modernidade, mas já a afirmação do indivíduo como cidadão universal que no tempo do Império romano, mesmo sem abolir a escravatura, é propagado pelos estóicos sobretudo.

Nesse período, o período helenístico, basicamente a filosofia cumpre um papel e uma função: dar sentido a vida, orientar na busca da felicidade. E para a busca da felicidade e sentido a vida já não dá para contar com a POLIS que com suas instituições livres garantia ao cidadão a mais ampla felicidade. Agora a polis já não existe e o cidadão também não. É a hora do Indivíduo pensar novas formas de felicidade, apoiando-se nas próprias forças. É o período da solidão interior. Pede a filosofia que lhe dê respostas à sonhada felicidade. É nesse sentido que a filosofia helenística tem um sentido eminentemente ético, antropológico diríamos hoje.


Duas escolas se destacam nesse período: o estoicismo e o epicurismo.



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