Antropologia Teológica “B – 1o semestre de 2008 José Donizeti de Souza



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Antropologia Teológica “B – 1o. semestre de 2008

José Donizeti de Souza

Síntese do livro de BOFF, Leonardo. Fundamentalismo: a globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002. 91p.




  1. FUNDAMENTALISMO, GLOBALIZAÇÃO E FUTURO DA HUMANIDADE.

O contexto de terrorismo e guerra que estamos vivendo faz com que todos falemos sobre fundamentalismo. Este termo se tornou chave explicativa de ações terroristas que ocorrem em diversas regiões do planeta, principalmente onde predomina o islamismo.

Hoje o termo fundamentalismo tornou-se palavra de acusação. Fundamentalista é sempre o outro. Para si mesmo utiliza-se o nome “radicalismo”, seja religioso, seja político, seja econômico.

Mas não sejamos ingênuos. Os fundamentalistas estão aí com grande ferocidade tanto na pele dos muçulmanos, como nos discursos inflamados das autoridades civis e militares norte-americanas. Não podem se esconder atrás de belas expressões.


    1. COMO SURGIU: a fonte do fundamentalismo se encontra no protestantismo norte-americano (meados do século XIX). O termo foi lapidado em 1915 quando professores de teologia propuseram um cristianismo extremamente rigoroso, dogmático, como orientação contra a modernização da sociedade norte-americana (tecnológica, liberdade de opiniões).




    1. FUNDAMENTALISMO PROTESTANTE: fundamentalistas religiosos afirmam que a Bíblia constitui o fundamento básico da fé cristã e deve ser tomada ao pé da letra. Dizem os fundamentalistas que cada palavra, cada vírgula e sílaba é inspirada por Deus. Como Deus não erra, então tudo na Bíblia é verdadeiro e sem qualquer erro. Como Deus é imutável, sua palavra e sentenças valem para sempre.

Por questões semelhantes, eles se opõem aos avanços contemporâneos da história, das ciências, da geografia e especialmente da biologia que possam questionar a verdade bíblica. Para o fundamentalista, a criação se realizou mesmo em 7 dias. O ser humano foi feito literalmente do barro. Eva é tirada da costela física de Adão. Desse rigorismo se deriva o caráter militante e missionário de todo fundamentalista. Em face dos demais caminhos espirituais, ele é intolerante, pois significam errância. Na moral há total inflexibilidade, particularmente no que concerne à sexualidade e à família. É contra os homossexuais, o movimento feminista e os processos libertários em geral. Na política sempre exalta a qualquer custo a ordem.

O fundamentalismo protestante ganhou relevância social nos Estados Unidos a partir dos anos 50 com as “Electronic Church”. Pregadores nacionalmente famosos usaram o rádio e a televisão em cadeia para suas pregações e campanhas conservadoras.

Naturalmente, nem todos os protestantes conservadores são fundamentalistas. A maioria não é biblicista, pois incorporou avanços na interpretação das Escrituras para torna-la contemporânea. Lutero já afirmava: a Bíblia toda a Deus como autor, mas suas sentenças devem ser julgadas a partir de Cristo. Os católicos afirmam com o Concílio Vaticano II: a Bíblia é inspirada e inerrante só com referência às verdades importantes para a nossa salvação. Ela não pretende ser inerrante em campos da história, geografia e biologia. Não se pode identificar a Bíblia com a Palavra de Deus. Afirma-se: na Bíblia está contida a palavra de Deus.


    1. FUNDAMENTALISMO CATÓLICO: o tipo de fundamentalismo católico vem sob o nome de restauração (antiga ordem baseada no casamento entre o trono e o altar) e integrismo (busca-se a integração de todos os elementos da sociedade sob o domínio do espiritual). O inimigo a combater é a modernidade, com suas liberdades. Há duas linhas: o doutrinário e o ético-moral.

1.3.1 DOUTRINÁRIO: grupos da Igreja católica sustentam que é a única Igreja de Cristo. As demais denominações cristãs não seriam igreja, mas imitação da verdadeira, possuem apenas elementos de igreja. A centralização patriarcal do poder sagrado apenas nas mãos do clero, o autoritarismo do magistério papal, a discriminação das mulheres com referência ao sacerdócio e aos cargos de direção, a infantilização dos leigos são expressões do fundamentalismo católico em sua forma doutrinária.

1.3.2 ÉTICO-MORAL: a que mais perplexidade provoca. Basta lembrar a doutrina oficial contra os contraceptivos, os preservativos, a pecaminosidade do homossexualismo, a proibição de segundas núpcias após um divórcio ou a eutanásia. Um fundamentalismo sem piedade se manifesta na forma como setores oficiais enfrentam a difícil questão das doenças sexualmente transmissíveis e da AIDS, uma vez que dados recentes confirmam que no Brasil 40% dos jovens com 15 anos, 60% com até 19 e 92,3% com até 24 anos têm vida sexual ativa.

Como se depreende, o fundamentalismo nessa dimensão moral cega setores importantes do cristianismo para o óbvio: a vida não pode ser sacrificada em nome de normas e doutrinas fossilizadas.





  1. O QUE É FUNDAMENTALISMO?

Fundamentalismo religioso não é uma doutrina, mas uma forma de interpretar e viver a doutrina. Representa a atitude daquele que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista.

Quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade, e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro, e o desprezo gera a agressividade, e a agressividade gera a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado.

Não há ninguém mais guerreiro do que a tradição dos filhos de Abraão: judeus, cristãos e muçulmanos, cuja fé deve ser difundida em todo o mundo.

O fundamentalismo, como atitude e tendência, se encontra em setores de todas as religiões e caminhos espirituais.



3. FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO


O islamismo é a última grande religião surgida no último milênio, estendendo-se do Marrocos até a Indonésia, incluindo a Turquia, partes da África Negra e da Rússia. É a religião que mais cresce no mundo.

Trata-se de uma religião extremamente simples, o que explica em parte sua divulgação, sustentada por 5 bases: oração ritual 5 vezes ao dia, peregrinação a Meca uma vez na vida, jejuar do nascer ao pôr-do-sol durante o Ramadã (9o. mês lunar), dar esmola, professar que Alá é único Deus e Maomé, seu profeta.

O Alcorão é entendido como a revelação verbal e última dada por Deus, em árabe, ao seu povo. Divide-se em 114 suras (capítulos).

O islamismo original (islam significa “submissão total a Deus”) não é guerreiro, nem fundamentalista, mas é tolerante com todos os povos, especialmente com “os povos do livro” (judeus e cristãos).

Os que tomam o Alcorão como revelação (verdade) feita livro, tentando aplicá-lo em todos os campos da vida, tornam-se fundamentalistas. Criam um Estado teocrático (religioso) e acabam impondo a todos as verdades islâmicas e os preceitos rígidos da moral, especialmente em relação à mulher. A famosa Jihad, originalmente fervor pela causa de Deus, torna-se guerra santa.

A tensão entre muçulmanos e cristão encontra-se presente ao longo de uma história de muitas violências:

Séc. VII ao XII – expansão do Islã, ocupando os lugares santos dos cristãos

Séc. XII ao XIII – contra ofensiva cristã pelas cruzadas até a expulsão em 1492.

Séc. XV e XVI – resposta muçulmana (tomada de Constantinopla 1453).

Séc. XIX e XX – potências ocidentais dão o troco, dominam e colonizam os principais territórios islâmicos na África, Oriente Médio e Extremo Oriente com violência. Controle por parte do Ocidente das ricas bacias petrolíferas situadas nos territórios muçulmanos do Oriente Médio.

A conseqüência final deste processo é a demonização do inimigo: os ocidentais tendem a ver no muçulmano o fanático e o muçulmano tende a ver nos ocidentais os ateus práticos, materialistas.
4. FUNDAMENTALISMO E GLOBALIZAÇÃO

Cabe destacar o papel deslanchador de fundamentalismo que o tipo de globalização econômico-financeira imperante está produzindo em todo o mundo. Esse processo é ilusoriamente feito em relações de interdependências, mas, na verdade, de dependências dos grandes conglomerados globais e dos capitais especulativos que dominam as economias periféricas (dos países de Terceiro Mundo), desestabilizando-as segundo seus interesses particulares, sem qualquer preocupação pelo bem-estar dos povos e a sustentabilidade do planeta e criando milhões e milhões de excluídos.

A nova ordem surgida após a implosão do socialismo aumentou as contradições internas e o fosso entre riqueza e pobreza, deixou a Terra (ecologia) em situação dramática. As promessas de paz esvaneceram-se logo. A lógica individualista e não-cooperativa da cultura destruiu os laços de solidariedade entre os povos.

Em decorrência destes múltiplos fatores, em muitos povos do mundo há sentimento de decepção e de abandono à própria sorte. Muitos países nem sequer possuem o privilégio de serem explorados pelos grandes conglomerados mundiais. Há o risco real de que a segurança seja buscada nas relações entre os países do norte e se abandonem as relações com o sul, onde estão as maiorias pobres da humanidade, caldeirão efervescente de amargura, decepção e ressentimento, combustível explosivo de terrorismo.

O terrorismo moderno pode golpear o norte, em seu coração, como ocorreu nos E.U. Tal situação é inédita. Pois foi quase sempre o norte que levou o terror ao sul através das conquistas coloniais, da expansão imperialista e do combate feroz aos processos de independência. Isto deixou um lastro de raivas históricas. Acresce ainda o fato de as potências outrora coloniais e escravocratas não terem querido pedir desculpas, em recente Foro Mundial na África do Sul, pelo terror que levaram às colônias e aos povos negros, por séculos tratados como “peças”. Essas marcas ainda sangram.

Há ainda um outro fator a agravar a situação: as identidades étnicas recalcadas pelo socialismo estatizante da antiga União Soviética começaram a voltar e a buscar sua afirmação após o final do Império comunista. A religião reforça e legitima o retorno da identidades exploradas e oprimidas.

Por outro lado, o processo de globalização significa também, em muitos aspectos, globocolonização, nivelamento das diferenças e ameaça das singularidades e especificidades culturais de cada povo.Ora, as religiões são ingredientes poderosos na construção das identidades dos povos. São elas que lhes dão uma aura de esperança. Quando essas culturas se sentem ameaçadas pela globalização, se agarram à religião para auto-afirmar-se. Daí emergem exclusões e violências contra aqueles que os ameaçam. Explode o terrorismo como forma de auto-defesa e contra-ofensiva dos fracos contra os poderosos.

Há dezenas de anos que a política exterior dos E.U. maltrata as nações árabes, fazendo pacto com governantes tiranos (alguns emirados árabes nem Constituição e Parlamento possuem) em razão da garantia de suprimento de petróleo. A partir de 1991, por ocasião da guerra contra o Iraque, já morreram naquele país cerca de quinhentas mil crianças, por causa do embargo aos suprimentos medicinais. Sistemáticos bombardeios mataram 5% da população iraquiana.

A atuação norte-americana no conflito entre Israel e os palestinos é visivelmente unilateral, tolerando ataques devastadores da máquina de guerra israelense contra a população palestina, que revida com pedras. A Arábia Saudita é ocupada por uma poderosa base militar norte-americana, em território sagrado do islamismo, onde se situam as duas cidades santas Meca e Medina. Tal fato é para a fé islâmica tão escandaloso quanto um católico tolerara a Máfia no governo do Vaticano. Esses procedimentos acumulam revolta e vontade de revide.
5. O FUNDAMENTALISMO POLÍTICO DE BUSH E DE BIN LADEN

Nos dias atuais, assistimos, estarrecidos, a dois tipos de fundamentalismo político. Um representado pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e outro, por Osama Bin Laden. O presidente urde seus discursos no melhor código fundamentalista: “A luta é do bem (América) contra o mal (terrorismo islâmico).” Não há matizes nem alternativas. O ataque terrorista não foi contra os E.U., mas sim contra a humanidade. O projeto inicial de guerra se chama “Justiça Infinita”.

Igualmente fundamentalista é a retórica dos talibãs e de Osama B. Laden.. Este também coloca a guerra entre o bem (islamismo) e o mal( América). Em seu discurso após o atentado, afirmou: “o chefe dos infiéis internacionais, o símbolo mundial do paganismo é a América e seus aliados”.

Em nome de que Deus ambos falam? Não é seguramente em nome do Deus da vida, de Alá, o Grande e Misericordioso, nem em nome do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Falam em nome de ídolos que produzem mortes e vivem de sangue.


6.O PAPEL DAS RELIGIÕES NAS POLÍTICAS MUNDIAIS

A religião e a teologia subjazem aos principais conflitos mundiais, na Irlanda, na ex-Iugoslávia, na Palestina, em Caxemira e no Afeganistão. Talibã significa estudante das universidades do Alcorão, especialmente de teologia. Em 1994, os talibãs assumiram o poder sobre 90% do território afegão, impondo uma política teocrática (religiosa) fundamentalista que abrigou a rede de terrorismo montada por Osama Bin Laden contra quem se faz uma guerra de vergonha, pois, contra um dos três países mais pobres do mundo e assolado por 22 anos de guerra ininterrupta e uma inclemente estiagem de 3 anos.

A importância da religião foi quase completamente esquecida pelos estrategistas das políticas mundiais. A maioria dos chefes de Estado e de seus conselheiros são filhos da modernidade atéia e discípulos dos mestres da suspeita (Marx, Freud, Feuerbach) que desvalorizaram o discurso religioso. Muitos deles consideram a religião um fóssil do passado mágico da humanidade ou coisa de quem não tem razão, como as crianças ou os velhos.

Samuel P. Huntington, assessor do Pentágono, fez uma grande afirmação sobre o tema que estamos tratando: “No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez a força central que motiva e mobiliza as pessoas (...) aquilo que as pessoas se identificam são as convicções religiosas, a família e os credos. É por estas coisas que elas combatem e até estão dispostas a dar a sua vida”. Ou seja, reconhece a centralidade do fator religião na sedimentação de um povo e na definição das identidades étnicas.

Um dado fundamental é desprezado com relação ao islamismo nos países onde é dominante. Devido à fé num único Deus, não se faz separação entre o político e o religioso, coisa que os países ocidentais fizeram a partir do século XVII. No islamismo, tendem a fazer do Alcorão referência única na organização da sociedade e do Estado. Na visão deles, atacar um Estado muçulmano é atacar o islamismo como religião. Significa ressuscitar o fantasma das antigas cruzadas.

Se tal imbricação político-religiosa existe, não é com guerras que se estabelece a paz política, como o querem as potências ocidentais. É necessário um diálogo inter-religioso e uma participação religiosa. Como diz um grande teólogo cristão, Hans Küng: “Não haverá paz política se não houver simultaneamente paz religiosa”. E essa paz religiosa só nascerá se as religiões, ao invés de marcarem suas diferenças, buscarem

os pontos comuns. Há convergências notáveis entre as religiões, pois todas elas buscam a justiça, favorecem a concórdia, fomentam a solidariedade, pregam o amor e o perdão, mostram sensibilidade para com os pobres e condenados da Terra.
7. NOVO RISCO PARA A HUMANIDADE: A GLOBALIZAÇÃO DO INIMIGO

Como reação aos atentados da terça-feira triste de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, o presidente George Bush fez uma série de pronunciamentos que implicam alto risco para o futuro das relações entre as nações: o terrorismo será enfrentado em qualquer parte do mundo. Quem não aceita essa luta é contra os Estados Unidos e a favor do terrorismo.

Aqui há uma manifesta globalização da guerra e do inimigo, combinando a brutalidade da guerra tecnológica moderna, mostrada na intervenção no Afeganistão, com a guerra suja da inteligência, que implica atos de terror e assassinato de lideranças tidas como terroristas.

Essa estratégia nos projeta cenários sombrios e perigosos para a convivência da humanidade.

O primeiro efeito ocorreu nos E.U.: a criação do Conselho de Defesa Interna, dotado de uma força-tarefa de rastreamento de terroristas, fundos específicos e de sua correspondente ideologia justificadora. Em nome da segurança, inverte-se o sentido básico do direito: todos são supostamente terroristas até prova em contrário. Então, surgem serviços de controle e repressão, espionagens, grampos, violência por parte dos corpos de segurança e torturas. Cria-se o império da suspeita e do medo e a quebra da confiança social, base de qualquer pacto social. Há o risco do terror de Estado.

Bush interpretou a barbárie de 11 de setembro como guerra contra a humanidade, contra o bem e o mal, contra a democracia e contra a economia globalizada de mercado que tantos benefícios (na pressuposição dele) trouxeram para a humanidade. Quem for contra tal leitura é inimigo, é o outro, é o estrangeiro que cabe combater e eliminar. Tal estratégia pode levar à violência total do sistema contra todos os seus críticos e opositores.



A lógica que comanda aos atentados terroristas é assumida totalmente pela estratégia do Estado norte-americano, apenas com sinais invertidos. Terror enfrentado com terror. Nessa solução não há nenhuma sabedoria...

O segundo problema levantado é a identificação dos nichos fomentadores de inimigos, hoje tidos como Líbia, Sudão, Iraque e outros. Dentro de pouco irá se perceber que mais importantes que essas nações são as ideologias libertárias e as religiões de resistência e libertação. Elas criam verdadeira espiritualidade de engajamento e fazem surgir militantes altamente comprometidos com a superação da presente ordem social mundial devido às altas taxas de desigualdade que produz. Entre eles se contam as históricas esquerdas anticapitalistas, os movimentos transnacionais contra o tipo dominante de globalização econômico-financeira e os setores religiosos ligados a mudanças sociais. A estes se somam ainda grupos fortes do islamismo popular, de cunho fundamentalista e setores teológicos islâmicos, francamente ligados às camadas mais pobres da população seja do deserto seja das cidades. Todos esses serão considerados inimigos eventuais, pois serão vistos como forças auxiliares do terrorismo. Conhecemos as conseqüências de tais identificações: a vigilância, a tentativa de desqualificação pública, os seqüestros, as torturas.


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