Ao arqueólogo do futuro



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AO ARQUEÓLOGO DO FUTURO

A esperança ainda não foi hierarquizada nem apropriada

A despeito de tudo, conscientes de sua pobreza e de sua marginalização dos bens que se produzem no planeta, os africanos teimam em viver, animados da esperança e otimismo de poderem tornar-se sujeitos num mundo que os relega a objetos de interesses alheios.

José Luís Cabaço*

Cara(o) arqueóloga(o) do futuro,

O mundo em que vivo ainda está, oficialmente, dividido em países. Só em África, existem 54. Embora comece a haver cidadanias mais abrangentes, neste continente ainda nos identificamos pela pertença a cada espaço político. Sou cidadão de um deles, Moçambique, independente há três décadas.


Os moçambicanos viveram, no último meio século, duas guerras. Na primeira, como resultado da intransigência do governo colonial, fomos forçados a lutar pela nossa libertação. A segunda resultou da estratégia intervencionista e desestabilizadora dos vizinhos regimes racistas da Rodésia e do "apartheid" que inadequadas respostas
políticas da parte governamental permitiram que se transformasse em guerra civil. Desde 1992, estamos em paz. Nosso país padece de muitos males: péssima distribuição de renda, muito desemprego urbano, difícil acesso à cidadania para os mais pobres, deficiente administração dos recursos, promiscuidade entre público e privado, corrupção como prática social, etc. Não se escandalize! São males que afetam, nestes tempos, quase todas as nações.
Porém - e felizmente isso também não é exclusivo de Moçambique - ali coexistem sem conflito, desde que a guerra cessou, grupos etno-lingüísticos distintos, diferentes cores de pele e inúmeras congregações religiosas animistas, islâmicas e cristãs, uma comunidade hindu e até um pequeno grupo de judeus com sua sinagoga.
O episódio de que lhe quero falar se passa, pois, nesse clima de tolerância e pacífica convivência que se seguiu aos anos de violência e terror.
Nas cidades moçambicanas, o transporte público é feito por pequenas vans que, velozes e abarrotadas de gente, ligam os centros urbanos com as periferias pobres. É comum vê-las passar com inscrições de vários tipos: humorísticas, "filosóficas", políticas, etc. Notei, em algumas, uma escrita insólita: "Viva Bin Laden". Para você, que não é deste tempo, Bin Laden é um islâmico radical, símbolo de uma multiplicidade de atos de terrorismo realizados em diferentes pontos do mundo, atentados que autoridades e imprensa de Moçambique têm, sistematicamente, denunciado.
Quis saber, de um desses motoristas, se era um "fundamentalista islâmico" (nome a que são associados os atos terroristas). Ele achou estranha minha pergunta: "Eu, islâmico? Sou cristão!" Surpreendido, inquiri sobre o porquê da inscrição. "Ah, o Bin Laden? É porque ele chateia os americanos." Lembrei os atos terroristas e os mortos que
lhe são atribuídos. Foi pronta a resposta: "Ó pá, a vida dos ricos vale como a nossa". Os passageiros sorriam quando o motorista partiu em alta velocidade acenando-me cordialmente.
Fiquei pensando nas palavras do meu conterrâneo. O que leva um trabalhador africano e cristão a exprimir simpatia por um grupo sob todos os aspetos distante e que lhe é sistematicamente apresentado como criminoso e anticristão? Por que a sua resposta final teve a concordância (pelo menos não teve a oposição) dos passageiros?

A explicação do episódio, até ao momento em que lhe escrevo, só a pude encontrar na polarização que caracteriza o presente momento. Está em curso a primeira guerra verdadeiramente mundial. Houve outras duas assim chamadas, na primeira metade do século XX, mas essas só foram "mundiais" porque as principais potências envolvidas


ocupavam então, como colônias, territórios de outros continentes.
Depois de 1950, o projeto de hegemonia dos países mais industrializados desencadeou uma confrontação que cobriu todo o planeta. Ela se desdobrou em centena e meia de conflitos localizados, todos longe dos chamados "países do centro", provocando 23 milhões de mortos, quase todos dos chamados "países periféricos".
Misturam-se, nessa confrontação por hegemonias, a vontade de ocupar posições estratégicas, a urgência de subjugar desígnios de autonomia e as rivalidades entre as metrópoles, velhas e novas. É a mais mortífera guerra da História da humanidade.
Para os estrategistas das grandes potências tais conflitos localizados são classificados como "conflitos de baixa intensidade" porque combatidos a custos irrisórios, com armamento convencional limitado e sem baixas nas próprias forças. Quem mata e morre são homens, mulheres e muitas crianças desses países. Eles ocorrem por intermédio de ambiciosas elites locais e nutrem-se de tecidos sociais vulneráveis em processo de transformação para configurações "compatíveis com os tempos". Instalam-se a fome, a
desorganização social e as carências generalizadas. Enfraquecem-se os estados nacionais recentes. Criam-se a dependência e a necessidade de ajuda externa. Abortam-se germes de soluções que fujam aos desígnios hegemônicos. Estabelece-se o caos e, com ele, arruínam-se territórios já pobres.
Não se trata, cara(o) arqueóloga(o) do futuro, de uma teoria do complô ou da velha desculpa de alguns políticos locais que se querem eximir das próprias responsabilidades. Quem aqui vive sabe da cumplicidade, da incompetência, da corrupção, da avidez egoísta, da sede de poder de muitos dirigentes de nossos países. Mas também sabe de líderes políticos honestos, comprometidos com a sorte dos seus
países e cidadãos, assassinados ou derrubados por golpes de estado, assim como de outras personalidades vivas (políticos, empresários, intelectuais, expoentes da sociedade civil), empenhadas em programas nacionais e projetos viáveis que não encontram espaço, nem apoio, nem financiamentos nacionais ou internacionais.
Nesta situação, as populações, sem uma endógena perspectiva de futuro, vivem marginalizadas, vendo na televisão ou na publicidade com que são agredidas um mundo de abundância e bem-estar a que nunca poderão ascender. Os modelos vêm do Norte ou de elites urbanas nacionais que os reproduzem. Então, o sentimento de frustração de
muitos deserdados da sorte acaba por identificar-se, para além de considerações éticas, com os "bin ladens" desta época, que "chateiam os americanos". A História é fértil em casos de "fora-da-lei" que, em situações de opressão, transformaram-se em heróis populares, encarnando a indignação impotente que é o outro lado da esperança.
E é de esperança que se deve falar quando se olham os povos da periferia. Só a esperança explica a renovada criatividade que caracteriza sua resistência a esse mundo marcado por clamorosas iniqüidades. Quando, nas nações ricas, a ciência prolongou
significativamente a expectativa de vida, nos países pobres morre-se de fome e de frio, num cenário dominado pelas epidemias. Entre nós, grassa o analfabetismo. A natureza degrada-se. O colonialismo e a luta pelas hegemonias que se lhe seguiu deixaram poucos sinais de respeito pela vida dos nossos povos.
As expectativas iniciais de um caminho próprio, conciliado com suas culturas e suas especificidades, foram tragados por golpes militares, assassinatos, elites corruptas, intervenções estrangeiras, sanções econômicas.

A despeito de tudo, conscientes de sua pobreza e de sua marginalização dos bens que se produzem no planeta, os africanos teimam em viver, animados da esperança e otimismo de poderem tornar-se sujeitos num mundo que os relega a objetos de interesses alheios.


Uns recorrem a soluções individuais, emigrando para onde está a riqueza que seus pais e avós ajudaram a construir. Outros buscam a harmonia na proteção dos ancestrais, numa tradição que os novos tempos obrigam a reinventar constantemente. Outros ainda criam modos de sobrevivência e de relacionamento com a realidade, dando vida a formas de organização econômica e de solidariedade, à margem de configurações oficiais. Apropriam-se de métodos, recursos, comportamentos e, até, valores desse modelo de sociedade em que são espectadores e os reinterpretam, em termos da própria vivência, para satisfazer necessidades e prioridades reais. São olhados com suspeita (porque representam uma maneira não convencional de lidar com a "modernidade"), são classificados depreciativamente como "informais" e, muitas vezes, reprimidos nas suas atividades.
Mas são sempre em maior número. A cada revés, renascem vigorosos, temperados na experiência, com redes de solidariedade aperfeiçoadas. Os valores que norteiam suas vidas identificam mais rapidamente aquilo que rejeitam do que o mundo que querem construir.
Assim, "chatear os americanos" exprime uma avaliação crítica que prevalece sobre outras análises de uma figura como Bin Laden. Ao alargar, nivelando por suas formas mais extremadas, o espectro do "inimigo" e ao intensificar sua agressividade, a política
hegemônica só facilita a empatia entre "condenados da terra" e todos quantos ousam, por qualquer modo, desafiar os poderosos. E as vidas humanas que continuam a ser ceifadas nessa elipse mortífera? Afinal, dizia o motorista da van, por que a vida dos "outros" deveria ter mais importância do que para "eles" tem a "nossa"?
Ainda imprecisos, porque em processo de formação, os novos valores serão codificados paulatinamente. Quando os deserdados de hoje se reencontrarem com sua humanidade, a Vida voltará a ganhar significado. Esperança e otimismo são riqueza do gênero humano que ainda não foram hierarquizadas nem apropriadas e às quais, por enquanto, todos temos livre acesso.
Faço votos, cara(o) arqueóloga(o) do futuro, de que, no seu tempo, tudo de quanto lhe falei já não faça qualquer sentido e seja uma longínqua referência histórica das eras bárbaras da Humanidade.
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(*) José Luís Cabaço participou do processo de idependência de Moçambique, tendo ocupado, no governo idependente, cargos ministeriais.


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