Ao ministro hélio quaglia barbosa



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Encontro31.07.2016
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AO MINISTRO HÉLIO QUAGLIA BARBOSA

Ministro Nilson Naves

A vida muda muito rapidamente, num instante... É o que sabemos dizer e sentir nesta hora – tão insondável hora, tão inescrutáveis desígnios, tão misterioso horizonte! Se, verdadeiramente, há, debaixo dos céus, tempo para todo propósito, o que gostaríamos mesmo, talvez egoisticamente, era que não existisse tempo para Quaglia partir. Talvez por isso feliz o inconsciente, que não conhece o tempo nem a morte.

Juiz de carreira, tivemos a honra de recebê-lo aqui na 6ª Turma, em junho de 2004. Quaglia Barbosa vinha de São Paulo, de uma magistratura exemplar, de um Tribunal respeitado pela melhor doutrina. Dizíamos, à época, que ganhara o Superior Tribunal  nós também, é claro  por tudo o que representava a sua vinda para cá. Sabíamos que ali se iniciava brilhante história e profícua carreira no Superior Tribunal, porque instigante e prestigiosa fora sua história na magistratura paulista; de resto, em todas as coisas, fazia com presteza tudo quanto podia fazer a sua mão. Vejam que, durante o tempo em que conosco ficou nesta Turma, mesmo lidando com o Penal, ramo do Direto que não seria sua opção de trabalho, valiosa foi a sua contribuição, não só valiosa senão que valiosíssima: seja nas idéias, seja na filosofia de trabalho, seja ainda na limpidez do estilo. Saiu da Terceira Seção em junho de 2006, para se dedicar à área do Direito que era sua paixão por escolha  o Direito Privado. Lamentamos, à época, essa saída, mas nos conformamos, tais foram as minhas palavras, por saber que continuaríamos na mesma Casa, debaixo do mesmo teto.

Entretanto o dia primeiro de fevereiro nos surpreendeu com enigmática circunstância – por que hão de ser tão insondáveis as horas (tempo, ó tempo!)? –; circunstância contraditória: foi buscando viver que Quaglia Barbosa partiu. Deixou-nos em fase de notória produtividade. A dor dessa perda é, para nós, tão grande e tão provocante, do tamanho da humildade com que viveu Quaglia e da profundidade do ser excepcional que foi. As minhas idéias conseguem separar as duas coisas. Afinal, os tempos têm ensinado a todos que a verdadeira sabedoria se funda na humildade – é infinita. Segundo velho entendimento, ou antiga compreensão, seja o que for, de boa reflexão, para aprender, é preciso ser humilde, e isso, somos todos testemunhas, Quaglia Barbosa o foi, tal é o nome e o exemplo que deixa, a que se soma legado de grande alcance – a humildade é infinita.

Quaglia não apenas viveu: aspirou a uma vida plena –no olhar shakespeariano, uma história cheia de som e fúria –, uma vida mais alta, mais nobre, e essa grandeza só a possuem aqueles de coração generoso tal e qual o seu, aqueles que cultuam o conhecimento  como ele amava os livros!  e vivem intensamente outras paixões  pelo São Paulo Futebol Clube, por exemplo, time de sua devoção. Quaglia também não apenas morreu. Em boa verdade, perde o Judiciário um juiz nato, um juiz que soube vestir a toga, e criador, e fecundo, e bom de se ouvir, e preciso, e ensinou-nos que o tribunal não é apenas lugar para teóricos, por isso foi humilde; enfim, ensinou-nos que a verdade e a justiça devem ser buscadas com a compreensão de que podem ser atingidas. Torcedor fanático perdeu o São Paulo, cuja bandeira cobriu-lhe o caixão. Perdemos nós um raro amigo, amigo de fé (temos necessidade da fé porque existe algo mais), um irmão camarada.

Foi por tão pouco tempo! Afinal, o que é a vida senão um sonho e a morte senão uma ausência prolongada? Todos que acompanharam Quaglia Barbosa sentem profundamente este momento, agora de ausência prolongada, também de boas lembranças  não poderia ser diferente! Dele guardaremos, é certo, gratas e saudosas recordações!

Para nós, fica um grande legado. Em nossa memória, um grande nome. Em nosso coração, uma grande saudade – fica também aquela dor, dor que deveras sentimos e que, diferentemente do poeta fingidor de Fernando Pessoa, não conseguimos fingir! Mas Quaglia, de muitas maneiras, ainda estará perto de nós e presente em nós! Seu exemplo de vida redobra a nossa crença na riqueza do coração humano. O que é a vida senão um sonho?




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Palavras proferidas na sessão da 6ª Turma de 7.2.08.



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