Aparecida: a igreja latino americana em face ao terceiro milênio



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APARECIDA: A IGREJA LATINO AMERICANA EM FACE AO TERCEIRO MILÊNIO
Por Ir. Roberta Peluso, OSB

Mosteiro da Santíssima Trindade



Santa Cruz do Sul – RS – Brasil, CIMBRA
O Documento de Aparecida, cujo redator final foi o então Cardeal Bergoglio, hoje nosso Papa Francisco, é fruto da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, ocorrida no Brasil em 2007. Uma vez que o XI Encontro Monástico Latino Americano nos apresenta como tema: "A Vida Monástica em Tempo de Transformações Culturais" e como acabamos de refletir sobre “Mudança de Milênio e Mudança de Época”, procurarei abordar como o Documento de Aparecida trata destas mudanças culturais de nosso milênio nascente, ao afirmar que “vivemos em uma mudança de época, e seu nível mais profundo é o cultural” (44).
Usando o método “ver, julgar e agir” os bispos reunidos no V CELAM detectaram que estas mudanças culturais acontecem tanto em nível global quanto individual: “A realidade social que em sua dinâmica atual descrevemos com a palavra globalização, antes que qualquer outra dimensão, impacta a nossa cultura e o modo como nos inserimos e nos apropriamos dela”. O Papa Bento XVI vê na globalização um fenômeno de relações de nível planetário, e uma conquista da família humana, ao se manifestar como uma profunda aspiração do gênero humano à unidade. Entretanto, para uma justa valorização da globalização “é necessário uma compreensão analítica e diferenciada que permite perceber seus aspectos positivos e negativos” (61).
Entre os aspectos positivos desta mudança cultural aparece o valor fundamental da pessoa humana, de sua subjetividade e experiência, que se reflete em novas formas de busca do profundo significado da vida e da transcendência. “A necessidade de construir o próprio destino e o desejo de encontrar razões para a existência podem colocar em movimento o desejo de se encontrar com outros e compartilhar o vivido, como maneira de dar a si uma resposta. Trata-se de uma afirmação da liberdade pessoal e, por isso da necessidade de questionar em profundidade as próprias convicções e opções”(53). Esta ênfase na pessoa abre novos horizontes, nos quais a tradição cristã adquire um renovado valor e começa a ser direcionada para a experiência pessoal e para o vivencial nos levando “a considerar o testemunho como um componente-chave na vivência da fé.” (55). Entretanto, se não há uma preocupação com critérios éticos nem um esforço para garantir os direitos sociais, culturais e solidários, “a afirmação dos direitos individuais e subjetivos, resulta em prejuízo da dignidade de todos, especialmente daqueles que são mais pobres e vulneráveis (47)”. O mundo pós-moderno é secularizado e nele percebe-se o risco de uma sobrevalorização da subjetividade individual enfraquecer os vínculos comunitários. Assim, um grande desafio de nossas comunidades consiste em equilibrar a nova noção de indivíduo trazida pela sociedade pós-moderna e a proposta de vida em comunidade característica cristianismo.
“A vida em comunidade é essencial à vocação cristã”(164). É uma dimensão constitutiva do acontecimento cristão, pertencer a uma comunidade concreta na qual se vive uma experiência permanente de discipulado e de comunhão. Não há discipulado e missão sem comunhão, e esta se dá especialmente nas dioceses, nas paróquias, nas comunidades e nas famílias. Mesmo havendo uma tendência forte na cultura atual de buscas espirituais individualistas, a fé em Jesus Cristo nos chega através da comunidade eclesial. Esta fé “nos liberta do isolamento do eu, porque nos conduz à comunhão”(156). Deus não quis nos salvar isoladamente, mas formando um Povo. Tal aspecto distingue a experiência da vocação cristã de um simples sentimento religioso individual. Uma vez que a experiência de fé é sempre vivida em uma Igreja local, é necessário que nossos fiéis se sintam realmente membros de uma comunidade eclesial e co-responsáveis por seu desenvolvimento, o que permitirá um maior compromisso e entrega em e pela Igreja.
Um elemento gerador de comunhão na Igreja é a Liturgia. O Documento de Aparecida afirma que a renovação litúrgica acentuou a dimensão celebrativa e festiva da fé cristã centrada no mistério pascal, em particular na Eucaristia. A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da vida cristã, sua expressão mais perfeita e o alimento da vida em comunhão. Na Eucaristia, nutrem-se as novas relações evangélicas que surgem do fato de sermos filhos e filhas do Pai e irmãos e irmãs em Cristo. Os bispos constataram que cresceram as manifestações da religiosidade popular, da piedade eucarística e da devoção mariana.
O Documento de Aparecida reconhece que a grande riqueza de nossos povos está na fé católica, pois “o dom da tradição católica é um cimento fundamental de identidade”(8) dos povos da América Latina e Caribe. Infelizmente, “essa preciosa tradição começa a diluir-se”(38), pois as “nossas tradições culturais já não se transmitem de uma geração à outra com a mesma fluidez que no passado”(39). Ao lado da sabedoria das tradições, localizam-se agora, em competição, a informação do último minuto, a distração, o entretenimento, as imagens. Neste sentido, o Documento alerta para o perigo dos meios de comunicação de massa introduzirem na sociedade “um sentido estético, uma visão a respeito da felicidade, uma percepção da realidade e até uma linguagem, que se querem impor como uma autêntica cultura”(45). No entanto, sua superficialidade “destrói o que de verdadeiramente humano há nos processos de construção cultural, que nascem do intercâmbio pessoal e coletivo” (45). Verifica-se “uma espécie de nova colonização cultural pela imposição de culturas artificiais, desprezando as culturas locais e com tendência a impor uma cultura homogeneizada em todos os setores. Esta cultura se caracteriza pela auto-referência do indivíduo” (43).

A Igreja tem sido ao longo de sua história no Continente Latino Americano, criadora e animadora de cultura. Lembrou o Papa Bento XVI, em seu discurso inaugural, que “a fé em Deus tem animado a vida e a cultura destes povos durantes mais de cinco séculos”(478). A valorização das diversas culturas que formam o nosso Continente Latino-americano e que coexistem em condições desiguais com a chamada cultura globalizada, exigem reconhecimento, pois carregam dentro de si valores tais como a família, o espirito comunitário, a abertura à transcendência e a solidariedade. “Estas culturas são dinâmicas e estão em interação permanente entre si e com as diferentes propostas culturais”. (57) Elas constituem uma resposta aos contra-valores divulgados pelos dos meios de comunicação de massas.


No Documento de Aparecida, a fé católica aparece como um vínculo entre os povos da América Latina e do Caribe, pois mantém a identidade religiosa e cultural destes povos em face aos aspectos negativos das mudanças de nossa época. Os bispos afirmam que a Igreja tem “a grande tarefa de proteger e alimentar a fé do povo de Deus e recordar aos fiéis deste Continente que, em virtude de seu batismo, eles são chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo” (10). Em face aos desafios e exigências trazidos por um novo período da história, “a Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais... Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo”(11).
A evangelização da atual cultura pós-moderna requer a construção no interior da Igreja e fora dele por meio da pastoral, de discursos, de práticas, de instâncias e de símbolos, um imaginário que expresse a criação de um novo paradigma cultural, que leve em consideração as mudanças positivas da época atual. Como refletiu o Papa Bento XVI: “As autênticas culturas não estão fechadas em si mesmas nem petrificadas em um determinado ponto da história, mas estão abertas, mais ainda, buscam o encontro com outras culturas, esperam alcançar a universalidade no encontro e no diálogo com outras formas de vida e com os elementos que possam levar a uma nova síntese na qual se respeite sempre a diversidade das expressões e de sua realização cultural concreta.” Nesta nova etapa evangelizadora, é preciso que a Igreja esteja aberta para o diálogo, favorecendo novas formas de discipulado e missão.
A Igreja reconhece sua responsabilidade em formar cristãos e sensibilizá-los a respeito das grandes questões da justiça internacional, bem como formar na ética cristã tendo em vista do bem comum, da luta contra a corrupção, da vigência dos direitos humanos e do trabalho, e da criação de oportunidades sociais para todos. Esta formação deve ser integral, querigmática e permanente (279) e contemplar no ser humano as dimensões humana e comunitária; espiritual e intelectual; pastoral e missionária. É importante empregar esforço e criatividade na evangelização e na formação de pensadores e de pessoas que estejam nos níveis de decisão, para que uma cultura da responsabilidade envolva pessoas, empresas, governos e o próprio sistema internacional(406). Para que haja uma globalização da solidariedade, a Igreja chama todos os homens e mulheres de boa vontade a colocarem em prática princípios fundamentais do bem comum, da ética e da justiça. Neste sentido, os bispos reconhecem o valor da Doutrina Social da Igreja.
Por outro lado, está havendo um melhor discernimento em relação às tendência ideológicas, e têm-se fortalecido a responsabilidade a respeito das verdades da Fé. Diante da falsa visão de uma incompatibilidade entre fé e ciência tão difundida em nossos dias, a Igreja proclama que a fé não é irracional. Fé e razão são duas asas pelas quais o espírito humano se eleva na contemplação da verdade, e a cultura, o solo em que a raiz da identidade se aprofunda.
Os bispos reunidos em Aparecida reconhecem que os povos latino-americanos e caribenhos esperam muito da vida consagrada, especialmente do “seu testemunho da absoluta primazia de Deus e de seu Reino” (219). A vida consagrada se expressa na vida monástica, contemplativa e ativa, nos institutos seculares, nas sociedades de vida apostólica e outras novas formas. Fazendo da vida comunitária e de suas obras lugares de anúncio do Evangelho, principalmente aos mais pobres, segundo seus carismas fundacionais, os consagrados e as consagradas colaboram com a gestação de uma nova geração de cristãos e de uma sociedade na qual se respeite a justiça e a dignidade da pessoa humana. A vida consagrada é chamada a ser especialista em comunhão, tanto no interior da Igreja quanto no interior da sociedade. Para tanto é necessário um profetismo a serviço do mundo, e uma vida apaixonada por Jesus Cristo.
Nosso Continente possui uma das maiores biodiversidades do planeta e uma rica sócio-diversidade, representada por seus povos e culturas. A América Latina está se conscientizando que a natureza é uma herança gratuita que recebeu para proteger, um espaço precioso da convivência humana e uma responsabilidade cuidadosa da primazia do ser humano para o bem de todos. Esta herança muitas vezes se manifesta frágil e indefesa diante dos poderes econômicos e tecnológicos. Os bispos advertem que a crescente disputa territorial da sociedade pan-amazônica, que é pluriétnica, pluricultural e plurirreligiosa, pode servir de pretexto para a internacionalização da Amazônia, o que serviria aos interesses econômicos das corporações internacionais. A Igreja a serviço da vida plena e a defesa da cultura da vida, insiste em que, nas intervenções humanas nos recursos naturais, não predominem os interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes de vida, em prejuízo de nações inteiras e da própria humanidade. “As gerações que nos sucederão têm direito a receber um mundo habitável”(471), e não um planeta com ar contaminado, com águas envenenadas e com recursos naturais esgotados.O momento atual nos pede uma corresponsabilidade no cuidado com a Vida.
A Igreja Católica na América Latina e no Caribe, apesar de suas deficiências e ambiguidades, tem dado testemunho de Cristo, anunciado seu Evangelho e oferecido seu serviço de caridade principalmente no esforço por promover a dignidade humana nos campos da saúde, da economia solidária, da educação, do trabalho, do acesso à terra, da cultura, da habitação e assistência, entre outros. A Igreja reconhece os rostos sofredores dos homens e mulheres de rua, dos migrantes, dos enfermos, dos dependentes de drogas, detidos nas prisões, entre outros. Com sua voz, unida à de outras instituições nacionais e mundiais, tem ajudado a dar orientações prudentes e a promover a justiça, os direitos humanos e a reconciliação dos povos. Isto tem permitido que “a Igreja seja reconhecida socialmente em muitas ocasiões como uma instância de confiança e credibilidade”(98).
Em entrevista realizada durante o Congresso Continental de Teologia, em 2012, o Pe. Agenor Brighenti, constatou que Conferência de Aparecida deu um novo impulso à tradição latino-americana, tecida em torno à “recepção criativa” do Concílio Vaticano II. “Este momento resgatou o Vaticano II em suas intuições básicas e eixos fundamentais, assim como o ‘rosto latino-americano’, plasmado em torno às Conferências anteriores”, reflete o teólogo. Na verdade, desde a sua promulgação em 2007, o Documento de Aparecida vem sendo um propulsor da renovação da vida pastoral no nosso Continente. A ampliação de conceitos teológicos e eclesiológicos trazidos por Aparecida proporcionou um novo paradigma pastoral voltado para a missão e iniciação cristã, a fim de que os cristãos se tornem discípulos-missionários. A partir desta ‘conversão pastoral’ (370) o que antes de Aparecida era uma pastoral de conservação e manutenção transformou-se em uma pastoral missionária. Inspiradas na Conferência de Aparecida, por exemplo, as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2015) orientam as novas paróquias missionárias a não conceberem a atitude missionária ao lado de outros serviços e atividades, “mas de dar a tudo o que se faz um sentido missionário, estabelecendo, neste conjunto de atividades desenvolvidas, algumas urgências que ajudem todos os batizados a efetivamente se reconhecerem missionários.”
Recordando o testemunho valente de nossos santos e santas, e aqueles que, inclusive sem terem sido canonizados, viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram sua vida por Cristo, pela Igreja e por seu povo em nosso Continente, rezemos para que o despertar missionário promovido pelo V CELAM em Aparecida, na forma de Missão Continental “possa levar nossos navios mar adentro, com o poderoso sopro do Espírito Santo, sem medo das tormentas, seguros de que a providência de Deus nos proporcionará grandes (e boas) surpresas”(551).





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