Apocalipse Now a magnífica presença ausente



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Apocalipse Now
A magnífica presença ausente
Como sabemos o ator necessita de todos os instrumentos corporais, vocais e dos sentidos para capturar a alma e dar vida a outro ser chamado personagem.

É irrefutável que Marlon Brando foi um mestre em sua arte, mais que isso, um inovador. A cada filme, peça teatral, ele trazia algo novo um pequeno detalhe que abriu uma nova porta de como se pode interpretar. Técnica e talento puro se misturavam num perigoso jogo que o levou a glória e a uma vida pessoal tumultuada e por vezes trágica.

Dizem que começou mostrando seu corpo por inteiro, sensual e perfeito, sorando desejos e ilusões nas platéias. Conta a lenda que todos se apaixonavam por ele, homens e mulheres e um dia farto de ser adorado feito um deus vivo, um “Narciso” de carne e osso foi lutar boxe (outros dizem que bêbado arremeteu seu rosto propositalmente sobre uma pedra), e quebrou o nariz. Então aconteceu o impossível, ficou ainda mais lindo, desejado voz anasalada e olhar cativante.

E foi desnudo, de corpo inteiro e alma, aos 50 anos que aparece em o “Último tango em Paris” misturando a sensualidade de um rapaz de 20 anos com a sabedoria de um homem de 60. Imparável, ele.

Brando nunca gritava, nem falava rápido, cochichava os diálogos com eloqüência. Isso pode parecer paradoxal, mas não é. Pois transmitia com essa guerra dos contrários a contradição da condição humana.

Talvez tenha sido em “Apocalipse Now” de Francis Ford Coppola, inspirada na obra prima de Joseph Corrad, “O coração das trevas”, onde em plena guerra do Vietnã um certo coronel Kurtz do exército americano enlouquece e cria seu próprio reino e exército de terror no Camboja completamente alheio às ordens do exército americano. O capitão do exército (Martin Sheen) é enviado para descobrir a localização do esconderijo do coronel e executá-lo em nome da civilização e do respeito a ordem.

A historieta é essa, bastante simples. Quanto a Marlon Brando e a composição do seu personagem coronel Kurtz, a história é outra.

Marlon Brando pesava mais de 100 quilos, dizem que recebeu mais de 10 milhões de dólares e só aparecia em 10 minutos de filme. Por que o filme foi estrelado por Marlon Brando? Por que o crédito principal seria dele? Afinal ele era a própria figura do anti-herói.

Senão vejamos: escutamos sua voz no inicio do filme, os personagens pensam sobre ele durante a projeção, vemos extratos das suas cartas no transcorrer da história, e assim vamos pouco a pouco criando uma figura mítica irrefutável e imbatível durante duas horas de projeção. Enquanto isso os personagens vivem o massacre dos americanos sobre os vietnamitas na guerra de 68. Matança inaudita que parece não ter fim nem sentido. Enquanto a cada instante nos perguntamos que personagem é esse?

Por que depois de serem sidos descritos todos os terrores, sangues e injustiças, o que falta mais? Será o coronel Kurtz um louco ou um rebelde contra o sistema? Que terror ainda falta mostrar?

E então entre brumas, contra luzes, cabeças cortadas e aborígenes tingidos de branco chegamos a Brando, mas ele não aparece por inteiro, ele continua uma presença ausente.

Como se tivéssemos de Samuel Beckett, vemos suas mãos, calvície, o detalhe da orelha, uma sombra e ele fala sobre gardênias. Discurso tão distante do cheiro de sangue e das bombas que matam e queimam o Vietnã.

Enfim enquanto os outros atores são marcados por closes e longos diálogos, coronel Kurtz fala pouco e é marcado por detalhes corporais. Por um instante vemos seu olho, é uma passagem rápida. E ele representa o quê na história? Um louco? Um irracional?

Ele lê poesia entre corpos putrefatos, como se fosse a personificação mais elevada do horror humano.

E antes de se deixar matar por um facão, onde só se nota espirros de sangue em contraponto com a morte de um boi sagrado e idolatrado da tribo de aborígenes, como deus do horror ele conta parte de seu segredo através de um perfil levemente iluminado.

“Um dia ele foi numa aldeia vietnamita e em vez de bombardeá-la, vacinou todas as crianças contra a poliomielite. Quando saia da aldeia um velho chorando veio buscá-lo. Ele voltou para ver o que tinha acontecido. Os vietnamitas haviam cortado os braços de todas as crianças e feito uma fogueira com eles. Foi então que uma bala de diamante alcançou seu cérebro: a condição humana não tem solução só o horror prevalece. Horror, horror, horror...”

Marlon Branco com “Apocalipse Now” acabava de provar que um ator pode ser protagonista sem estar corporalmente presente em mais de 95% do filme e quando aparecer, surgir aos pedaços como se fosse uma revelação.

Doc Comparato



Rio de Janeiro, 11 de fevereiro de 2009




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