Apontamentos histórico-sociológicos do Maracatu de Baque Solto no carnaval popular e institucionalizado do Recife/PE1



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Apontamentos histórico-sociológicos do Maracatu de Baque Solto no carnaval popular e institucionalizado do Recife/PE1.

José Roberto Feitosa de Sena2



Joserobertosena86@gmail.com

Cultura e manifestações artísticas



Resumo
O Maracatu de Baque Solto também conhecido por Maracatu Rural é uma manifestação cultural popular do estado de Pernambuco que se apresenta especialmente durante os dias de carnaval. Portadora de uma teia de significados que fornece sentidos aos seus integrantes, as agremiações, cujo surgimento se dá supostamente no final do século XIX, negociam com órgãos institucionais e se organizam também em entidades na busca de legitimar seus interesses. Compreendendo as relações culturais entre campos como uma correlação de forças, tensões, diálogos e influências mútuas, o presente artigo visa traçar brevemente um perfil histórico-sociológico dessas negociações circulares no Maracatu de Baque Solto, apontando objetivamente os processos histórico-sociais que figuraram a formação contemporânea de tais agremiações populares.
Palavras-chave: Maracatu de Baque Solto; popular; institucional.

Abstract
The Maracatu de Baque Solto aka Rural Maracatu is a popular cultural manifestation of the state of Pernambuco which presents especially during the carnival days. Carrier of a web of meanings that provides directions to its members, the associations, which begins in supposedly late nineteenth century, negotiate with institutional bodies and also organize entities in the pursuit of their legitimate interests. Understanding cultural relations between fields as a balance of forces, tensions, dialogue and mutual influences, this article aims to briefly outline a historical-sociological profile of those circular negotiations in Maracatu de Baque Solto objectively pointing the historical and social processes that figured training contemporary of such popular clubs.
Keywords: Maracatu de Baque Solto; pop; institutional.


Breve introdução bibliográfica

Em meio aos múltiplos e polissêmicos carnavais populares e institucionalizados do Recife estão as manifestações dos Maracatus de Baque Solto também conhecidos como Maracatus Rurais. Ao investigar sobre essas agremiações culturais me deparei com um rico acervo documental elaborado por folcloristas como Ascenso Ferreira (1986), Câmara Cascudo (1979), Katarina Real (1990), Guerre-Peixe (1980), Mário de Andrade (1980), Olímpio Bonald (1978), Roberto Benjamim (1976) e Leonardo Dantas da Silva (1991), entre outros.

No que se refere aos trabalhos acadêmicos mais recentes, que datam a apartir de 1990, podemos apontar obras importantes para a compreensão histórico-sociológica dos grupos, como: Maracatu Rural: luta de classes ou espetáculo? de Medeiros (2005); a trilogia Maracatus Maracatuzeiros com o primeiro volume Festa de Caboclo do historiador Severino Vicente da Silva (2005), o segundo volume João, Manoel e Maciel Salustiano de Mariana Cunha M. do Nascimento (2005) e o ultimo livro da coleção foi Maracatu Rural: o espetáculo como espaço social da jornalista e bailarina Ana Valéria Vicente (2005). Severino Vicente (2008) publicou outro livro, Maracatu Estrela de Ouro de Aliança: A saga de uma tradição.

A primeira obra, de Medeiros (2005), analisa o processo de mercantilização dos maracatus rurais sob a ótica crítica marxista-gramsciana, onde aponta que a comercialização da cultura popular esvazia os sentidos das manifestações culturais globalizadas, criando uma espécie de alienação e relações de clientelismo em que as classes subalternas sempre são oprimidas pela elite cultural. A segunda, de Severino Vicente da Silva aborda de maneira introdutória os aspectos gerais dos maracatus, focando os grupos do interior de Pernambuco.

O terceiro livro, que compõe a segunda obra da trilogia supracitada, de Nascimento (2005), focaliza três gerações de artistas populares que recriaram os folguedos de Pernambuco, e esta obra é resultado de uma dissertação de mestrado em comunicação social. Na análise da vida dos três membros da família Salustiano a autora focalizou as mudanças, permanências e resignificações sofridas no processo de transmissão cultural de uma a outra geração. Este trabalho não tem o Maracatu como foco, mas esta dança é bem destacada tendo em vista que os três indivíduos objetos da pesquisa tinham uma relação muito próxima com o Maracatu Piaba de Ouro.

O ultimo livro da referida trilogia, de Ana Valéria Vicente (2005) realiza uma análise comparativa dos discursos da imprensa sobre os Maracatus Rurais antes e depois do movimento Mangue Beat, que contribuiu significativamente para a difusão desta dança. Nesta obra se apresentam as divergências nas abordagens midiáticas. Explicando melhor, esta autora indica que antes do movimento de Chico Science o Maracatu foi tratado com discriminação e preconceito, e depois dele passam a utilizar o discurso do Maracatu como símbolo cultural de Pernambuco.

O livro de Severino Vicente (2008) analisa a trajetória histórica do Maracatu Rural Estrela de Ouro, que se inicia no município de Aliança, Zona da Mata do Estado de Pernambuco e que em 2004 tornou-se Ponto de Cultura. Merece também destaque Carnaval em Terras de Caboclo: uma Etnografia sobre Maracatus de Baque Solto, de Chaves (2008). Este autor realiza uma análise comparativa entre dois grupos de Maracatus de Baque Solto da Zona da Mata Norte de Pernambuco, sendo eles o Leão de Ouro de Condado e o Estrela de Ouro de Aliança, por meio de um trabalho etnográfico e de sua participação nas apresentações dos grupos na ocasião da pesquisa.

No que tange ao universo religioso das práticas culturais dos Maracatus do interior pernambucano, destaca-se a dissertação em antropologia (UFPE) de Sévia Sumia Vieira (2003), intitulada “Dos Canaviais à Capital: “cabocaria de flecha”, maracatus de orquestra, baque solto, rural...”, no qual aborda o elemento religioso preparatório para festa sob o prisma teórico da antropologia. Outro trabalho importante é o da antropóloga Maria Elizabete Arruda de Assis (1998) Cruzeiro do Forte: a brincadeira e o jogo de identidade em um jogo do maracatu rural, que analisa os traços de identidade sociocultural no Maracatu Rural Cruzeiro do Forte.

O presente artigo é resultado de um levantamento bibliográfico e documental realizado durante minha pesquisa de mestrado (SENA, 2012) e pretende traçar brevemente uma abordagem histórico-sociológica do envolvimento circular entre as agremiações populares dos Maracatus de Baque Solto e a institucionalização do carnaval pernambucano, pensando de acordo com Guinsburg (2005); Hall (2003) e Canclini (2008) que essas relações culturais se estabelecem exercendo continuamente influências recíprocas frutos de negociações não lineares, pelo contrário, mediada por interesses diversos que dialogam no conflito entre ambos os campos. (Bourdieu, 2005)
Raízes históricas do Maracatu de Baque Solto
Por volta do final do século XIX e início do século XX os trabalhadores canavieiros de Pernambuco se reuniam nos períodos de folga para brincar e festejar mais um final de semana após o árduo trabalho na cana de açúcar. Segundo Katarina Real (apud VICENTE, 2005), aos poucos esses homens foram improvisando ritmos com os instrumentos de trabalho e difundindo elementos dos vários folguedos da região da Zona da Mata Norte de Pernambuco como o Côco, o Cavalo Marinho, Reisado, Folia (ou rancho) de Reis, Pastoril, Bumba-Meu-Boi, Caboclinho, Chegança, etc. Incorporavam também, toadas dos Maracatus-Nação e “aruêndas”. Assim, surge o Maracatu de Baque Solto. Em seu livro Folclore no carnaval do Recife, a autora converge com a tese de outro pesquisador do tema, Olimpio Bonald:
O Maracatu rural, em resumo, seria um produto do sincretismo afro-índio gerado pela criatividade do povo rural canavieiro da Zona da Mata-Norte, ao ser incorporado e reciclado no caldeirão cultural do grande Recife (BONALD apud VICENTE, 2005 p. 31).
O pesquisador Roberto Benjamin (1998) atribui a origem do Maracatu de Baque Solto às Cambindas, que eram “brincantes masculinos vestidos de mulher”. A palavra vem de Cabinda, região ao norte da Angola, acima do rio Congo (MEDEIROS, 2005). Segundo este mesmo autor, há ainda hoje grupos de Cambindas na Paraíba e em Pernambuco, nos municípios de Ribeirão, Pesqueira, São Bento do Una, Triunfo, Bonito e Bezerros. A hipótese do pesquisador (VICENTE, 2005) é que o Maracatu de Baque Solto tenha surgido de uma evolução das Cambindas em contato com os demais folguedos da região. Os dois Maracatus deste baque, que são os mais antigos de Pernambuco são: Cambindinha do Araçoiaba (1914) e Cambinda brasileira (1918). Benjamin (1998) salienta que o termo “Maracatu” tenha sido uma imposição dos folcloristas da época, já que as Cambindas do interior eram consideradas “feias e rudes”, ao contrário dos Maracatus Nação que já eram atrações do carnaval recifense.

De acordo Silva (2010), baseado em fontes orais, a figura do caboclo de lança, personagem de destaque do Maracatu de Baque Solto, teria surgido já por volta de 1880. Segundo algumas memórias, relatam que seriam conhecidos inicialmente por “mulungus”, coisa de caboclo, dessa “gente que vive no mato”. Esses homens enigmáticos travestidos com uma aura de beleza e bravura causavam medo, pois, sua aparição nos povoados da mata provocava arruaças, brigas e desafetos. No início saiam sozinhos ou em duplas, depois passaram a se reunir e serem chamados de “Maracatus”, palavra que para o povo interiorano da região noroeste de Pernambuco é sinônimo de desorganização, barulho, confusão, “coisa sem pé e sem cabeça” (SILVA, 2010, p. 03).

Guerra-Peixe (1980), em sua obra Maracatus do Recife, que estuda em especial os aspectos musicais, afirma que os Maracatus-de-orquestra se originaram da fusão dos folguedos da Zona da Mata e de variações dos Maracatus tradicionais. Este autor cita ainda, Gonçalves Fernandes e Mário de Andrade como pesquisadores do termo “Maracatu”. Segundo ele, o primeiro atribui à palavra uma variação linguística do norte de Angola, Maracatucá, que significa “vamos debandar”, termo utilizado pelos escravos no momento que a manifestação era reprimida pelas forças oficiais. O segundo se refere a maracá (instrumento indígena) e a palavra catu (bonito) (GUERRA-PEIXE, 1980). Já Mariana Mesquita Nascimento (2005), coloca ainda que o termo Maracatu venha da Angola onde ainda hoje é dançada pela tribo dos Bombos, ao norte de Luanda.

Conceitos e definições à parte, esse termo acabou sendo aplicado à “exótica” dança camponesa por possuir semelhanças evidentes ao dito Maracatu urbano. Já a denominação “Maracatu Rural” só foi dada na década de 60 pela antropóloga Katarina Real (1967), quando tentava distinguir os dois tipos de Maracatus, principalmente pelos instrumentos de sopro (trompete, trombone e clarinete), inexistentes no Maracatu de Baque Virado. Segundo Real (1967), nessa mesma década, o Maracatu estudado também era conhecido como “Maracatu-de-orquestra”, “Maracatu-de-trombone”, “Maracatu ligeiro”, “Maracatu de caboclo”, “Maracatu de baque singelo” e “samba de matuto”, entre outros. Neste período os grupos sofriam forte preconceito por parte da imprensa, que os denominavam, pejorativamente, de Maracatu descaracterizado ou distorcidos.

A partir da década de 30, a crise que antecede a II Guerra Mundial leva os trabalhadores rurais a se deslocarem do campo para a Região Metropolitana do Recife, onde passam a se adaptar à vida na grande cidade. Na sua grande maioria, trabalhavam como vendedores informais, operários, pedreiros e biscateiros, ou seja, era para eles uma nova realidade social que ocupava os bairros da periferia (VICENTE, 2005). Os bairros eram: Casa Amarela, Bongi, Cidade Tabajara, Timbi, Águas Compridas, Bomba do Hemetério, Torrões, Cordeiro e Bultrins. Esses são alguns dos subúrbios que abrigaram o maior número de Maracatus procedentes do interior de Pernambuco. A dor e o sofrimento de terem que abandonar sua terra para conseguir a sobrevivência na capital estavam intimamente ligados às intenções de preservar as tradições da Zona da Mata.

A memória desses grupos foi importada para o centro urbano e traduziu o sentimento individual e coletivo dos saberes e práticas vivenciadas no mundo rural que agora tentariam reinventar no meio urbano, negociando interesses e buscando a manutenção de valores culturais.


A lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com ajuda de dados emprestados do presente e além disso, preparada por outras construções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora já manifestou-se já nem alterada (HALBSWACHS, 1930, p. 71).

A lembrança, como se pode perceber em Halbswachs (1930), exerce no Maracatu um papel de reinventora dos valores trazidos e ressignificados por meio da diáspora campo-cidade. No Recife os homens do mundo rural, agora engolidos pela velocidade da urbanidade, buscam reestabelecer possíveis bases de identidade cultural, através, dentre outras formas, das reconstruções de Maracatus Rurais na Grande Cidade. O Maracatu de Orquestra ou Maracatu de Trombone, como também é chamado por esses migrantes, foi uma das maneiras utilizadas para matar a saudade e reafirmar os laços internos dessas comunidades (VICENTE, 2005).


Circularidades entre o popular e o institucional no Maracatu de Baque Solto
São duas entidades não governamentais, sem finalidades lucrativas, que organizam as apresentações e às quais os Maracatus Rurais são filiados. Uma delas é a Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, criada em 28 de abril de 1990, na cidade de Aliança, que teve como primeiro presidente o Mestre Salustiano do Maracatu Rural Piaba de Ouro. Tinha como objetivos3: preservar, valorizar e divulgar manifestações artísticas e populares de Maracatus de Baque Solto; promover ações socioeducativas através da assistência a comunidades rurais e urbanas; e, apoiar a criação legal de grupos que desenvolvam atividades relacionadas aos objetivos da Associação.

A Entidade tem sua estrutura formada por uma Assembleia Geral, Conselho Fiscal, Presidência, Vice-Presidência, Secretariado e Tesouraria, prevendo que associados devem pagar contribuições e taxas referentes aos serviços da Associação no intermédio, sobretudo, dos contratos firmados entre empresas e os Maracatus para apresentações. Esses pagamentos, como determina o próprio Estatuto da Entidade, são feitos anualmente, respeitando-se as possibilidades financeiras de cada agremiação. As taxas estão atreladas ao recebimento das verbas do Estado e das Prefeituras no período carnavalesco.

De acordo com Vannucchi (2006), outra Entidade não governamental à qual os grupos de Maracatu estão filiados, bem como as demais agremiações concorrentes do concurso de carnaval, é a Federação Carnavalesca de Pernambuco. Esta foi fundada no seio de um contexto político em que havia uma necessidade institucional de se inventar uma identidade nacional, sentimento nacionalista incentivado pela ideologia do Estado Novo a partir do golpe de 1930. Nas suas primeiras décadas de fundação a entidade se mostrou muito fortemente interventora nas agremiações, definindo os padrões de carnaval e modificando muitos grupos populares, a partir da política cultural getulista.

Segundo o mesmo autor, na ascensão do Estado Novo, Getúlio Vargas determina a criação de vários órgãos governamentais para fiscalização e controle das manifestações públicas e culturais expandindo a propaganda nacionalista cuja finalidade ideológica atingiria setores massivos da população com um sentimento patriótico e de afirmação identitária. Em 1931 foi criado o Departamento Oficial de Publicidade, com o objetivo de reorganizar a sociedade e direcionar a opinião publica em torno da imagem do seu chefe-maior. Em 1934 foi criado o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural; em 1937 foi criado o Serviço de Patrimônio Artístico Nacional e em 1939, Getúlio fortalece seu aparelho de administração cultural, com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda, que em um de seus decretos coloca o turismo como uma prioridade de seu governo (VANNUCCHI, 2006, p. 82).

Com a criação dessas medidas, a ditadura estadonovista de Vargas fortalece sua centralização política e se utiliza do mercado turístico e do nacionalismo em torno da cultura para legitimar seus interesses. Essas medidas contribuíram para consolidar sua imagem de um político populista, “pai dos pobres” e um desenvolvimentista, líder da nação.

Segundo Nascimento (2005), a Federação Carnavalesca de Pernambuco – FECAPE –, foi criada em 1935 por intelectuais folcloristas, dentre eles o jornalista Mário Melo, durante o governo de Carlos de Lima Cavalcanti, interventor nomeado por Getúlio Vargas no regime do Estado Novo, passando a ser responsável pela organização do carnaval e dos desfiles das agremiações. A Federação, meses antes da folia de Momo, recebia verbas da Prefeitura e do Governo do Estado para promover os festejos carnavalescos, porém, o interesse desta elite intelectual era o de controlar e fiscalizar as manifestações folclóricas, dentre as quais o Maracatu Rural que, até então, pouco se conhecia, pois a palavra “Maracatu” se referia apenas aos Maracatus Nação.

Com a nomeação de Agamenom Magalhães, houve uma expansão do aparelho interventor e coercitivo para com os grupos populares de cultura, que de um lado objetivava-se “preservar a identidade e o patrimônio cultural”, de outro, perfazia-se um trabalho de “higienização”, controle e pressão sobre as manifestações. A fim de pôr “ordem” na apresentação das agremiações carnavalescas, a FECAPE – Federação Carnavalesca de Pernambuco atuava em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública, o Serviço de Censura de Diversão Público, Delegacia de Ordem Social e o COC – Comissão de Organização do Carnaval. Esses órgãos agiam na intenção de adaptar os grupos de Maracatu Rural e outros folguedos provenientes do interior e das zonas suburbanas, ao carnaval tradicional do Recife, pressionando as lideranças a adaptarem o seu grupo aos padrões carnavalescos da época, segundo Medeiros (2005). Como se vê, eram pressões para mudarem os formatos das apresentações de acordo com os interesses dominantes e espetaculares do momento.

Conforme aponta Assis (1998), a criação da Federação Carnavalesca de Pernambuco foi fruto de um processo antigo, iniciado com o Congresso Carnavalesco de Pernambuco de 1911, significando “Uma das tentativas mais ousadas das elites governantes em busca da legitimidade popular” através da organização de tal festa pública (ARAÚJO, 1992, p. 395). Tinha entre suas finalidades remodelar os aspectos dos atores carnavalescos, estabelecer a “paz” entre eles e entre eles e a sociedade em geral, e, “moldar o carnaval no sentido do tradicionalismo histórico e educacional” (SILVA, 1991, p. LXXIII).

De acordo com Santos (2011) a Federação foi criada com elementos estranhos ao carnaval pernambucano. Não por acaso, o primeiro presidente da entidade foi um norte americano, J. Fish, mais conhecido popularmente como Mister Fish. A preocupação dos dirigentes ligados ao projeto estadonovista, não era apenas com os conflitos existentes entre os grupos de carnaval rivais ou com a “descaracterização” dos modelos do carnaval da época em que ainda predominava o carnaval de elite realizado nos clubes e salões, mas sim, com a expansão comunista no Brasil, que poderia ter infiltrações em grupos de culturas populares. Daí a preocupação em intervir em grupos carnavalescos “anárquicos”, “ameaçadores da ordem” e incentivadores da “subversão”, com a presença de intervenções no interior das agremiações, no que tange, entre outras coisas, às suas fantasias, cânticos, ritmos, tempo-espaço dos desfiles, imposições eruditas, etc., sendo possível compreender-mos esses fenômenos sociais como processos civilizadores (ELIAS, 1994)

Sobre as “descaracterizações” do carnaval pernambucano, por imposição e decisão externa às agremiações, Gilberto Freyre publica em 1937 um artigo intitulado “Carnaval sem mais nada” (apud SILVA, 1991, p. 227-228):


Mas nenhuma empresa rica deve levar sua cooperação a uma festa a ponto de tornar-se dono ou dona dessa festa; de dar-lhe intenções que nunca teve; de torná-la pretexto para homenagens pessoais ou exibições eruditas... O seu melhor encanto está na independência, na espontaneidade, no gosto do seu espírito popular sem temperos acadêmicos ou eruditos. Está nas suas marcas e seus cantos de maracatus, cheios de erros de português, e nunca num hino gramatical que lhe querem dar: um canto horrível que dá vontade de vomitar aos ouvidos. Está nos reis e rainhas de maracatus, fantasiados segundo a imaginação do povo e não conforme figurinos eruditos.
A Federação ficou como responsável pelo carnaval recifense até a década de 50, quando passou a ser incumbida de promover licenças, elaboração de contratos, negociações entre empresas, grupos, sindicatos e órgãos governamentais, e, pela manutenção da paz entre grupos rivais, enquanto a organização do carnaval era transmitida para as mãos da Prefeitura da Cidade do Recife por meio do Departamento de Documentação e Cultura. Na década seguinte as escolas de samba passam a ter espaço nas ruas do Recife, levando os órgãos públicos a criarem as passarelas para o Concurso e despertando a crítica dos intelectuais que defendiam um carnaval espontâneo e sem a participação das escolas de samba4, observadas como “invasoras do autêntico carnaval pernambucano”. O desfile das escolas de samba levava multidões para às arquibancadas colocadas em torno da passarela, o sucesso dessa agremiação “estranha” à cultura popular pernambucana só não era compartilhado com as observações críticas de muitos intelectuais a exemplo mais uma vez de Gilberto Freyre em publicação de artigo de 1966 (apud SILVA, 1991, p. 84):
O Carnaval do recife de 66 decorreu sob este signo terrível: Perigo de morte! É que assinalou uma descaracterização maciça, através invasão organizada, dirigida e, ao que parece, até oficializada, dos melhores redutos de Pernambucanidade: a invasão das escolas de samba [...] Um carnaval do Recife em que comecem a predominar escolas de samba ou qualquer outro exotismo dirigido, já não é um carnaval recifense ou pernambucano: é um inexpressível, postiço e até caricaturesco carnaval subcarioca ou sub-isso ou sub-aquilo. De modo que a inesperada predominância, no carnaval deste ano, do samba subcarioca, deve alarmar inquietar e despertar o brio de bom pernambucano: é preciso que a invasão seja detida; e que o carnaval de 67 volte a ser espontaneamente recifense e caracteristicamente pernambucano.
Os Maracatus Rurais não gozavam de tanto prestígio popular como o caso dos clubes de frevo e das escolas de samba, e os grupos sofreram muitas pressões, pois, eram parte dos que mais rivalizavam com seus adversários. Foram inúmeros os casos de violência envolvendo agremiações de Maracatus Rurais, pelo fato de que era necessário “moldar” essas manifestações de “pobres e negros”, “migrantes rudes” e “violentos” em manifestações apreciáveis e consumíveis pelo carnaval da época. É desse modo que os Maracatus sofreram intervenções para serem liberados para as apresentações nas ruas, incluindo-se aí sua aceitação nas disputas dos concursos.

O processo de intervenções e perseguições aos os grupos de Maracatu de Baque Solto, vão até meados dos anos 70, quando os grupos ganharão uma nova forma de tratamento pela mídia. É na transição entre as décadas de 60 e 70 que eles passarão a ser mais focados pelos dirigentes carnavalescos, mas, em contrapartida, muitos grupos receberam fortes intervenções para serem aceitos e legitimados no Carnaval recifense. Muitos foram os Maracatus que, sob pressão ou cooptação, mudaram de baque, passando a se apresentar como Maracatu Nação, enquanto outros, que embora tenham mantido o baque, assimilaram personagens do Baque Virado.

É o caso da existência da Côrte Real no Maracatu de Baque Solto, pois, a representação do rei, da rainha e das demais figuras ligadas ao cortejo real é originalmente dos Maracatus de Baque Virado. “Se hoje existem reis e rainhas no Maracatu de Baque Solto, é por imposição das tradições aristocráticas do litoral”, como afirma o historiador Severino Vicente da Silva (2010, p. 3). Esses são apenas alguns exemplos graves de intervenção nas agremiações, e muitos grupos adotaram estrategicamente tais posturas a fim de “legitimar” seus espaços, negociando suas tradições com as ordens impostas totalitariamente, convertendo-as a um novo quadro, ressignificando o tradicional vivo por meio da memória que tampouco se sucumbiu em meio às imposições adaptativas.

Nascimento (2006) informa que entre o decorrer os anos 70 até o ano 2000, os Maracatus terão novos modos de ser vistos pela sociedade recifense. Esse será um trabalho midiático que inverte o tratamento recheado de preconceitos e lhes dá visibilidade, sendo admirado pelos consumidores da cultura. Nesse momento a trajetória dos Maracatus deixaria de ser pautada pelo preconceito e seria motivo de “orgulho” para os que dele participam. Nos anos 70 a mídia cultural dará maior foco as culturas populares impulsionadas pela expressão nacional de artistas como Alceu Valença e por movimentos de cultura como o caso do Movimento Armorial idealizado pelo escritor Ariano Suassuna, que teve atuação significativa em varias expressões culturais do Nordeste.

Entre as décadas de 80 e 90 foi criada da Associação dos Maracatus de Baque Solto, que veio fortificar a voz dos brincantes maracatuzeiros, passando esses a ter maior poder decisório. As duas entidades passaram a dialogar constantemente negociando os interesses dos membros. O carnaval continuou sendo organizado pela Prefeitura da Cidade do Recife, neste por meio da Secretaria de Cultura e da Fundação de Cultura do Recife, enquanto a Federação e a Associação agem como intermediadora do processo organizativo, solidificando a cooperação entre si de modo participativo.

Sem gozar do prestígio intelectual de seus dirigentes do passado e sem perseguir as agremiações no sentido de moldá-las, a Federação Carnavalesca de Pernambuco e a Associação dos Maracatus sobrevivem, mesmo que precariamente no tempo, vocalizando hoje muito dos interesses dos que fazem as culturas populares e sendo um dos espaços importantes de legitimação, marcando suas transformações e continuidades na história. Nessa confluência de embates de interesses resistem os maracatus rurais da capital pernambucana, com suas belas fantasias adornadas de vidrilhos e lantejoulas multicoloridas e reluzentes, cortam e recortam as ruas dos velhos e novos recifes negociando manutenções e transformações, mudanças e permanências. Dialogando os indissociáveis e carnavalescos sagrados e profanos, marcados por volubilidades, circularidades, plasticidades e vicissitudes contínuas.




Referências
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1 Trabalho apresentado durante II Encontro Internacional História, Memória, Oralidade e Culturas, realizado entre os dias 1 e 4 de dezembro de 2014 na Universidade Estadual do Ceará – UECE/Campus Itaperi, Fortaleza, Ceará/Brasil.

2 Historiador (Universidade Católica de Pernambuco – Unicap) e Doutorando em Sociologia (Universidade Federal da Paraíba - UFPB).

3 Estatuto da Associação de Maracatus de Baque Solto de Pernambuco

4 Sobre as Escolas de Samba no carnaval do Recife ver: SILVA, Augusto Neves da. Gigantes do Samba e Estudantes de São José: a batalha do samba na passarela do carnaval recifense (1955-1972) In: Anais do V Colóquio de História da Unicap: Recife, 2011.


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