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APONTAMENTOS SOBRE O

SIGNIFICADO BÍBLICO DO TERMO

I G R E J A

Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes

SEMINÁRIO TEOLÓGICO PRESBITERIANO DO RIO DE JANEIRO

Rio de Janeiro – março de 1997

SUMÁRIO:
Introdução ao Assunto

O significado do termo ek-klesia:

1. - no grego clássico;
2. - na Septuaginta;
3. - nos evangelhos Sinóticos:

3.1. - em Mateus (especialmente cap. 18);

3.2. - na missão dos 12 e/ou 70 (Mateus e Lucas);
3.3. - em Atos dos Apóstolos;

4. - em Paulo;

5. - nos escritos joaninos;

6. - nas cartas pastorais;

7. - em I Pedro;

8. - Considerações finais.

Neste final de milênio e início de um novo tempo histórico muito se tem debatido sobre a questão eclesiológica. O quê é a Igreja? Quais suas marcas distintivas? Como diferenciá-la de movimentos e seitas que sempre surgem nas viradas de milênio? Como vive e se organiza a Igreja? Qual a relação entre a Igreja de Jesus e a Instituição Eclesial? E tantas outras perguntas que se somam incontavelmente na busca de paradigmas ou mesmos modelos que permitam melhor ajuizar sobre a Igreja.
João Calvino, reformador do Século XVI, afirma que Deus outorgou aos Seus a fé, para a salvação, por meio do Evangelho e, "para que a pregação do Evangelho florescesse, depôs este tesouro com a Igreja (...) nada omitiu para que contribuísse para o santo consenso da fé e a reta doutrina" 1. Com isso Calvino ensina que a Igreja é a depositária do tesouro do Evangelho, que "é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" 2. A Igreja é não somente a depositária mas a mestra que ordena a vida dos que têm fé, assim como uma mãe educa e organiza a vida de seus filhos, pois "àqueles a quem Ele é o Pai, também mãe lhes seja a Igreja" 3.
"Ensina o Credo Niceno (aceito por todas as confissões de fé cristãs) que a Igreja é objeto de nossa fé. Repete-se, no mesmo, que cremos na Igreja." Cremos ser de bom alvitre nos dedicarmos a entender o que significa o termo "Igreja" na língua grega, de onde se deriva este termo no vernáculo português.


  1. O significado do termo ek-klesia:

Igreja,  =  (preposição, deu origem ao sufixo latino “ex”, “de fora”) +  (verbo “chamar”), numa tradução literal do termo teríamos: “chamados de fora”. Mas este termo não é exclusivamente bíblico e nem, tão pouco, exclusivo do Novo Testamento. Ele foi retirado do grego clássico profano, utilizado na tradução feita da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) para o grego, na Septuaginta (LXX), e utilizado pelos autores do Novo Testamento que procuraram dar-lhe significado. Assim, para um bom entendimento deste termo devemos procurar-lhes os significados que os diferentes tempos, motivos e autores lhe conferiram.


1.1. - no grego clássico
Deste parágrafo acima se destaque que o termo IGREJA é oriundo da língua grega, sendo uma transliteração 4 para o latim e deste para o português. O termo em si não tem origem religiosa, mesmo na língua grega. No mundo helênico (de cultura grega) designava as assembléias públicas, regularmente convocadas, quer de um grupo, quer de todos os cidadãos 5. Em Atos dos Apóstolos temos um exemplo em 19.24-40, onde é convocada 6 uma assembléia dos cidadãos de Éfeso.
Para convocações religiosas os gregos utilizavam-se de outros termos, que não ek-klesia. Entretanto, a Bíblia não se utiliza (quer na Septuaginta, quer no Novo Testamento - NT) de nenhum destes termos para designar o que chama de IGREJA. Não é no mundo grego que o termo Igreja, como hoje o conhecemos, tem origem, mas na antiga tradição judaica (e, por isso, mormente, na Septuaginta - versão grega do Antigo Testamento (AT) feita em Alexandria na época da hegemonia grega).
1.2. - na Septuaginta
Na versão grega do AT o termo tem o mesmo sentido genérico de convocação, como em terreno helênico, mas com um novo significado de ênfase religiosa, pelo fato de que esta tal ek-klesia é convocada por Deus. O AT designa por "convocação (igreja) de Deus" o ajuntamento daquele povo que Deus chamou (elegeu) para Si. Ek-klesia é o povo eleito, chamado e convocado por Deus. Disto já se nota que para o AT a Ek-klesia é constituída por Deus, por vocação divina e por destinação d'Ele mesmo.
No AT a designação "a igreja de Deus" (e seus equivalentes - "a igreja de Israel", p. ex.) é o modo de designar-se o povo eleito por Deus, ou melhor, o povo eleito por Deus e que é o portador da Aliança. Este povo como "portador" da Aliança é o povo chamado por Deus para ser instrumento Seu na história dos homens, realizando na mesma a História da Salvação. Vejamos melhor este conceito.
Deus fez uma Aliança com um povo que chamou para Si. Este povo foi Israel, e a Aliança foi estabelecida com Ele no Sinai 7. Na Teologia do AT este povo foi escolhido, em meio de muitos, para fazer conhecido o Seu Nome 8. Em Josué encontra-se uma boa designação desta igreja: "a congregação (igreja) de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros, que andavam no meio deles" 9.
Como Israel como um todo é eleito, a congregação civil e a religiosa se confundem todo o tempo. Isto porque ambas são constituídas por uma e mesma Aliança e regidas pelas mesmas leis: comunidade civil e religiosa são uma e a mesma coisa no AT, bem como lei civil e religiosa. Mas, como a sociedade civil não foi capaz de cumprir esta Aliança, vindo a infringir as normas da mesma, Deus levanta seus profetas para falar da infidelidade do povo à Aliança.
O profetismo, pois, inicia um novo modo de entender a questão da Igreja do AT, visto que a infidelidade de muitos "quebrou" a unidade da Aliança. Como Aliança (Pacto) se faz com pelo menos dois lados, quando um não permanece fiel, há uma quebra da Aliança. Os profetas denunciam esta quebra, mostrando que muitos, em especial os líderes políticos do povo, deixaram-se seduzir por outros povos, outros deuses, chamando sobre a igreja de Israel as penas previstas no pacto para a sua quebra ou rompimento. Mas há um "remanescente" que não será condenado com todo o povo e sua liderança afeita aos povos poderosos e seus deuses.
Isaías, e outros profetas exílicos, darão uma grande ênfase à questão deste "remanescente", destacando que somente estes permanecem sob os benefícios da Aliança, quando os demais, "infiéis", permanecem sob o juízo da Aliança. Na leitura deuteronomista feita das tradições do antigo Israel sempre há um "remanescente", oriundo de algum "mal" que acabou por destruir o todo. Pode ser este mal uma derrota militar, ou o Dilúvio... mas há sempre um "resto" ou "sobra", algo que permanece como um brotinho que nasce de um tronco cortado pelas raízes 10.
No caso das grandes catástrofes das guerras do Século VIII e IX, os profetas viram-nas como juízo divino sobre Israel e seus pecados. Quanto mais pequenino for o remanescente, maior é a destruição, ou seja, no ver dos profetas a gravidade e abrangência do pecado determinou um juízo divino ainda maior. Este é o testemunho da ira de Deus, o lado de juízo implícito na Aliança sobre o todo 11. Este "resto" ou "sobra" do povo é o testemunho da condenação da maioria que pereceu 12.
Para os profetas, entretanto, o "remanescente" não é somente obra da ira justa de Deus, mas clara e notória manifestação de sua graça imerecida. Não é por causa de Israel, nem por causa da bondade e fidelidade dos que permanecem, mas da graça de Deus: é ato miraculoso que encontra sua explicação exclusivamente no amor gracioso de Deus. Veja, Israel não é uma constituição de indivíduos, mas um povo visto como tal 13. Se Deus preserva um remanescente em meio ao caos e a catástrofe, instrumentos de Seu juízo, por meio dela preserva a humanidade, a Sua criação. Por isso Is. 1.9 afirmará que o "remanescente" é criação de Deus, obra ou trabalho de Deus: "Se o Senhor Deus não nos tivesse deixado alguns sobreviventes já nos teríamos tornado como Sodoma", ou seja, haveríamos sumido da face do planeta. Assim, um "remanescente" deixado por Deus fala de Seu juízo mas, principalmente, de Sua graça e fidelidade à Aliança que estabeleceu com Israel 14. A esta graça chama Isaías e Jeremias de redenção: Deus redime a Israel.
Mas os profetas, por causa deste novo conceito, introduzido em Israel após o exílio (leitura deuteronomista) integram à Teologia do AT um outro conceito "Nova Aliança". Toda a esperança messiânica exílica e principalmente pós-exílica alimentar-se-á destes dois importantes conceitos: resto e nova Aliança. Não é o caso de estudar-se aqui o desenvolvimento do messianismo em Israel (alguma coisa do messianismo veterotestamentário deve ter sido mencionado pelo Prof. Rev. João Leonel). Basta-nos destacar que o messianismo é essencialmente profético e dos profetas do final do exílio e dos pós-exílicos. São eles que destacarão que o libertador15 de Israel fará uma nova aliança. Note-se: Israel não cumpre a Aliança; Deus julga Israel com Sua ira; o instrumento da ira divina traz catástrofes e destruição, colocando-os nas mãos das nações que são os instrumentos da ira de Deus; o libertador vem para salvar Israel das mãos dos seus opressores, que de outro lado são instrumentos da ira de Deus; ora, ao livrar Israel das mãos dos seus opressores, o libertador de Israel é instrumento da graça divina que os livra de seus próprios pecados que chamou sobre eles o juízo de Deus.
Para encerrar esta visão do termo ek-klesia no AT (conforme indicado seu uso na Septuaginta), resta-nos ver o modo como as esperanças messiânicas, no profetismo, relacionaram o "resto" ou "remanescente" à figura do libertador de Israel.
O libertador, aguardado para os tempos do fim (por isso uma esperança escatológica) congregará (ek-klesia = chamados de fora) entorno de si este remanescente, mas fazendo uma distinção entre "povo de Israel" e "congregação - ek-klesia - de Israel". A ek-klesia será formada, entorno do Libertador, por ele congregada de modo distinto em relação ao todo do povo de Israel, dentre os "fiéis". Assim acrescenta-se ao conceito de "remanescente" o adjetivo "fiel".
Em Daniel a figura do libertador está relacionada ao conceito de "Filho do Homem" e o "remanescente" com o conceito de "os santos do Altíssimo" 16, sendo que este Filho do Homem representa o "remanescente" e com o mesmo se identifica (a ponto de alguns estudiosos do At dizerem que um é o outro). De outro lado, os sinais do antigo pacto serão superados, no novo pacto. Isso significa que Deus, na visão do profetismo, servindo-se de um "remanescente" fará um "novo povo" e, para este, haverá um "novo pacto - aliança". A base seria este "remanescente" congregado (ek-klesia) pelo Libertador (ou Messias). Este Messias haverá de selar este Pacto Novo com este Novo Povo chamado para estar à sua volta (do libertador).
Bem, mas qual seria a finalidade de tal gesto, além da graça imerecida já descrita anteriormente? Dar atendimento àquilo que o povo antigo, reunido à volta do antigo pacto, não fez: revelar Deus às nações. Assim, o Messias Libertador, com base neste remanescente, congregará à Sua volta todos aqueles que Deus chamar (verbo grego , kaléo - chamar) por seu intermédio, estendendo a Sua salvação a todo povo, língua raça e nação, estendendo-se em número e abrangência o conceito de "povo eleito" ou "igreja".
Um crítica satírica desta infidelidade de Israel e deste modo equivocado do mesmo entender a sua missão como "congregação - ek-klesia - de Deus" encontra-se no Profeta Jonas. Jonas é tipo de Israel: chamado por Deus para anunciar a Sua justiça às nações, ele foge da presença de Deus e deseja a morte à conversão dos pagãos. Destarte é função primordial deste "resto" congregado pelo Messias Libertador manifestar esta graça divina para todos (pois ele, o remanescente, é fruto da ação graciosa de Deus). Ele é como um servo escolhido por Deus para, em meio ao sofrimento a que está submetido, permanecer entre todos para mostrar que Deus preserva por graça 17.
Este remanescente que formará o novo povo de Deus, à volta do Messias Libertador é, também, um mistério fundamentado na livre e graciosa eleição divina. Isso faz do remanescente, nas esperança messiânicas do profetismo, o "povo do futuro". Este povo não tem saudades do passado, mas do futuro (por incrível que possa parecer a expressão), visto ser um povo que se direciona ao futuro. Liga-se ao passado somente por causa da promessa, mas como a mesma destina-se não ao presente, mas ao futuro, o remanescente é o povo do futuro e à ele se liga. Em outras palavras: este é o povo da esperança! Ele vive na tensão entre a promessa e a sua realização, daí ser um povo que se alimenta de esperança 18. O povo do futuro, que alimenta-se das esperanças nas promessas, é o "povo escatológico" que sonha em ser, não um punhado ou um resto, mas "uma numerosa multidão": "serão renovos por Mim plantados, obra das Minhas mãos, para que Eu seja sempre glorificado. O mais pequeno virá a ser mil, e o mínimo uma nação forte; Eu, o Senhor, a seu tempo farei isso prontamente" 19.
Não há novo povo, nem novo pacto, senão à volta do Messias, visto que por Ele se congregam os que estão espalhados: "Eu mesmo recolherei o restante de minhas ovelhas" 20. O NT fará uso significativo deste conceito relacionado-o a Jesus Cristo, sendo ele não somente o Messias Libertador mas o único remanescente fiel dando início ao novo povo do novo pacto.
Antes de abordar-se a questão da ek-klesia no NT, pode-se fazer uma pequena digressão sobre um significativa diferença que deve-se fazer de um "seita" e de uma "ek-klesia de Deus". Isto pode-se ver claramente nas questões levantadas, ainda que brevemente, na realidade do "remanescente" na Teologia do AT. Justifico a digressão: hoje há uma grande dificuldade entre saber-se o que é igreja e o que é seita. Creio que os esclarecimentos que se seguem ajudar-nos-ão a esclarecer alguns pontos, à luz da teologia bíblica.
Na crítica satírica do Livro de Jonas à Israel (o profeta que não queria pregar e, assim, ampliar para os pagãos a possibilidade de serem, também, parte inclusa da ek-klesia, os "chamados de fora" - por Deus - para constituírem o Seu povo) está pressuposto um conceito equivocado de que Deus delimita Seu povo baseado em uma idéia e não na construção da história.
Explicando melhor: toda seita se caracteriza por negar a História afirmando uma Idéia ou Conceito. Esta idéia, conceito ou regra é o meio pelo qual se promove a discriminação entre os seres humanos. Ora, uma seita se constitui delimitando suas fronteiras com base em critérios morais, teológico e sociais. Por estes critérios ela separa-se dos demais, tornando claro, para si, os de dentro e os de fora; ou em termos morais: os bons e os maus; ou em termos teológicos: os salvos e os perdidos; ou em termos litúrgicos: os puros e os impuros; ou em termos gnoseológicos: os verdadeiros e os falsos; etc. Mas ao fazer deste modo a seita não somente separa-se e distingue-se dos demais, mas acaba por abandonar todos à sua própria perdição, visto ter para si (aos seus próprios olhos) não somente o monopólio da verdade, mas o monopólio de Deus. Isso faz da seita um fim em si mesma, pois não é ele instrumento transmissor da graça e do amor divino, mas proprietária dos bens divinos e do próprio deus 21. Isso faz da seita um fim em si e um modo de autopreservação.
Não é sem razão que todas as seitas, ao substituírem a História pela Idéia, destacam-se de modo orgulhoso, egoísta e completamente apartada do sentido de amor fraterno. Elas odeiam os demais, preferem a sua perdição, visto que tal fato as destaca. Este é o motivo da rejeição de Israel como povo escolhido, permanecendo somente em Jesus de Nazaré, o único remanescente fiel daquele sentido de povo escolhido por Deus para manifestar a Sua glória, a Sua graça e o Seu poder salvador no mundo.
Israel esqueceu-se, ou perdeu-se de si mesmo, quando julgou ser o proprietário de Deus. Perdeu-se de sua missão e dos objetivos para o qual foi escolhido dentre todas as nações. Assim, para Israel, os povos tornarem-se para a Torá significava o mesmo que submeter-se a Israel, os proprietários da Torá. Deus salvar e redimir a Israel significava oprimir e submeter os povos à sua volta. Esta é a total eversão do sentido de ser povo escolhido, ek-klesia de Deus, que está claramente colocado não somente em Jonas, mas nos essênios e nos fariseus dos tempos de Jesus. Este é um conceito antropocêntrico de criar-se ou delimitar-se o "remanescente".
Note-se, por exemplo (mas não discutiremos aqui e nem nas possíveis perguntas feitas os conceitos do grupo, mas só nos referiremos aos mesmos com exemplo) os 144 mil do Apocalipse e a interpretação dos Testemunhas de Jeová: eles são os 144 mil, o número exato daqueles que são os fiéis, que são os remanescentes. Tal apropriação que delimita de modo "instantâneo" do remanescente é característico das seitas. Veja-se, por exemplo 22 os fundamentalistas: eles são os donos da verdade e da tradição bíblica e teológica reformada, todos os demais são infiéis, hereges e inimigos de deus 23 e que devem ser extirpados da igreja "verdadeira". A missão de ambos os grupos referidos é preservar a "verdade" (não é a verdade mesmo, mas aquilo que julgam eles ser a verdade), delimitar o grupo dos salvos (os que são de deus 24 e, por isso, confessam a fé "correta"), lutar contra as heresias e falsidades, condenar os perdidos e os pecadores, ressaltando como são eles maravilhosos, verdadeiros, puros e salvos. Tudo isso gera ódio, orgulho e egoísmo, mas não tem nada de vida, graça e missão de estender à todos os benefícios da salvação.
Foi esta mentalidade que matou a Jesus Cristo a quem o NT, como veremos, considerou o remanescente fiel a Deus, fim do antigo pacto e início do novo pacto, o Pacto da Graça.
1.3. - nos evangelhos Sinóticos:
Vimos, anteriormente que Israel, que era o povo com o qual Deus havia firmado uma Aliança, havia desviado-se de modo peremptório dos propósitos estabelecidos na Aliança, e que os trouxeram para o cenário teológico do povo o conceito de "resto" ou "remanescente fiel" a partir do qual Deus manifestaria a sua graça, preservando um povo para Si. Vimos que Israel posicionou-se semelhante à uma seita, negando-se aos seus propósitos históricos, substituindo a ação histórica salvadora de Deus (do qual deveriam ser instrumentos) por uma idéia de separados e superiores, com todas as conseqüências de ódio, orgulho e ausência de amor fraterno para o desenvolvimento da missão. Transformaram o sentido da Aliança em mero preservar de posturas e posições estabelecidas por meio das quais mantinha o "status quo". Foi esta mentalidade que matou a Jesus Cristo a quem o NT, como veremos, considerou o remanescente fiel a Deus, fim do antigo pacto e início do novo pacto, o Pacto da Graça.
As doutrinas ou conceitos proféticos de "novo povo"(ou comunidade) e "nova aliança", dominam a pregação e a prática de Jesus. Jesus se apresentou como "Filho do Homem" (esta é, dentre outras, uma designação cristológica que Alan Richardson 25, entende, foi usada pelo próprio Jesus como modo de definir-se perante todos). Esta é uma designação própria dos evangelhos, 81 citações 26, sendo sempre nos lábios de Jesus ao referir-se a Si mesmo. Ela não destaca somente que Jesus é "humano" ou, ainda, "salvador" da humanidade, mas também "o enviado celeste", "aquele que vem para julgar" 27. Este é o termo messiânico menos comprometido com o nacionalismo dos judeus. Este termo designa o "Homem Escatológico", a figura aguardada para o fim dos tempos e que seria o "novo Adão", ou a "nova Humanidade". Dele nasceria, segundo as esperança pós-exílicas e especialmente as do período intertestamentário, o "remanescente", o povo do futuro. Ele inauguraria o "novo tempo" pois seria não somente um "novo Homem", mas um "juiz celeste" a separar as coisas por meio do seu juízo 28.
Ao aplicar este conceito sobre Si, Jesus entende que veio, como Filho do Homem, separar os que Lhe pertencem, julgando entre "ovelhas e bodes". Por isso sempre afirmou que veio procurar e agrupar em torno de Si o povo de Deus (o "novo" povo). Ele entende-se, pois, como o reconstituidor do povo de Deus, não mais na perspectiva do Israel perecível, mas na perspectiva do Reino de Deus que faz-se presente em Sua pessoa 29. Ainda que tenha dado Sua atenção às grandes multidões, Jesus dedicou-se a um pequeno grupo a quem chamou de "discípulos" e, neste grupo menor aos chamado "grupo dos 12", ou "os doze apóstolos" que são o grupo central dos discípulos. A estes discípulos, tendo por centro os doze, Jesus chamou de "família" 30. Entendeu este grupo que procurou e chamou para si como "pequeno rebanho" a quem o Pai se alegrou em dar o Seu Reino 31.
Não é significativo que Jesus tenha se dedicado a um pequeno grupo, tenha evitado as multidões (embora não fugisse delas), chegando a criticar os grandes grupos (cheios de interesses, como no caso do Pão 32) e a unanimidade das massas 33? E, de igual modo, não é interessante que julgamos o valor de um grupo, sua piedade, seu "fervor" religioso, sua fé, muitas vezes, pelo número de pessoas que para lá acorrem? Não faz-se isso quando exigimina-se estatísticas, não como modo de sabermos quem somos e quantos somos, mas para, de algum modo, avaliar por números a eficácia de um trabalho, de um ministério, de um projeto? E, não é por causa desta mentalidade que, por vezes, vemos comunidades e ministros entrarem por caminhos estranhos às suas tradições mas somente pelo fato de que tais posturas ou gestos produzem números estatísticos? Julgamos eficácia e eficiência por estatística. Jesus seria seriamente criticado em nos concílios, especialmente porque todos o abandonaram.
Para designar os Seus e revelar o modo pelo qual estabeleceria relações com os que Lhe pertencem, Jesus utilizar-se-á de outras imagens veterotestamentárias como rebanho e edifício. Há equívocos quanto ao fato de Jesus ter se referido ao Templo que, disse, "edificaria". Tal Edifício não é outro senão a comunidade ou Igreja que, uma vez edificada, arrebentaria as portas do inferno. A comunidade dos que n'Ele crêem é que é o edifício construído por Jesus 34. Este "novo templo" é o instrumento privilegiado de Deus para manifestar aos povos a Sua graça e a Sua glória e a Sua multiforme sabedoria. Deus está presente, não em edifícios feitos por mãos humanas, mas neste edifício "espiritual" por meio do qual manifesta-Se no meio da humanidade.
Nas comunidades hoje, chama-se o templo ou santuário ou edifício construído para a reunião do povo de Deus de "Igreja". Mas deve-se lembrar que o NT não conhece esta figura. A Igreja neotestamentária não tinha um prédio fixo onde reunir-se (reunia-se nas casa, nas catacumbas, no teatro...). Igreja não é tijolo e cimento. Igreja no NT é feita de pessoas que são as "pedras vivas" do "edifício". Na verdade na Igreja de Jerusalém, p. ex., nem os indivíduos tinha uma propriedade particular, visto venderem tudo! Confundir a Igreja com um prédio é laborar em equívoco primário na teologia bíblica. A Igreja do NT não é proprietária neste mundo e, por isso, sem compromissos com este mundo. Quando a Igreja, no século IV, passa a construir suas basílicas para reunir-se, sob Costantino (a sua mãe foi a primeira pessoa a edificar uma Igreja - prédio), a Igreja passa a ser proprietária neste mundo e, com isso, a ter interesses nesse mundo (note-se que os grande problemas e "brigas" nas igrejas atuais são por causa de administração patrimonial - onde existe patrimônio existe interesses semelhantes aos deste mundo, cuja mola mestra é o dinheiro e seu lucro). Mas... voltemos ao tema.
Sabe-se que é da teologia do NT que Jesus consuma a Sua obra neste mundo por meio de Sua morte e ressurreição. Tal fato é por Ele mesmo anunciado. A Instituição da Eucaristia deste anúncio, quando disse de Sua morte expiatória como meio de criação da "Nova Aliança, feita no Meu sangue". Esta Aliança supera a Antiga (a sinaítica). Cabendo aos discípulos serem os "anunciadores" desta "Nova Aliança", não mais restrita à uma nacionalidade (judeus) mas extensiva ao mundo inteiro 35. O objetivo de Sua obra é formar o povo da nova Aliança, congregando `a Sua volta a nova comunidade dos fiéis que tem por missão histórica estender a graça de Deus, revelada em Cristo, por todo o mundo.
Assim: a obra de Jesus, Suas palavras, Seus gestos, a reunião dos discípulos à Sua volta, Sua morte e ressurreição, a instituição da Santíssima Ceia, a missão confiada por Ele aos seus fiéis discípulos revela que a idéia de uma ek-klesia (Igreja) está no centro dos interesses de Jesus Cristo, ainda que utilize-se das tradicionais imagens veterotestamentárias para assim falar, usando-se, muito pouco, do termo ek-klesia. Visto ser ela o instrumento privilegiado de Deus para o Seu Reino.
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