Apostila de Sociologia 3º Ano – 2º Bimestre



Baixar 89.3 Kb.
Encontro07.08.2016
Tamanho89.3 Kb.


CEAN – Centro de Ensino Médio Asa Norte
Apostila de Sociologia

3º Ano – 2º Bimestre

Professora: Mariana Létti



Movimentos Sociais
Vimos que a teoria marxista da luta de classes, voltada primordialmente para a interpretação do desenvolvimento do capitalismo, entende a dinâmica social num plano estrutural e macrossociológico, no qual a ação dos agentes históricos coletivos que são as classes sociais é vista como fator de mudança da estrutura global da sociedade. Vimos também que os estudos de mobilidade social, baseados na teoria da estratificação e inspirados num modelo estrutural-funcionalista da sociedade entendem a mudança, em contraste, num plano microssociológico, em que o indivíduo é a unidade de observação e análise e as implicações mais profundas da mudança estrutural tendem a ser ignoradas.

Pode-se dizer que a noção de movimentos sociais nos coloca, de certo modo, a meio caminho entre esses extremos. Isto porque, embora um movimento social possa visar ou ser de molde a resultar em mudanças sociais mais ou menos importantes - caracterizando-se assim como uma forma de organização da ação histórica, - muitos movimentos do gênero têm implicações bem mais limitadas; Para adotar a terminologia de Parsons, muitos movimentos sociais se restringem, desse ponto de vista, ao âmbito das "mudanças de equilíbrio".

Mas o que é, exatamente, movimento social no sentido aqui empregado?

Segundo uma definição geralmente aceita na Sociologia, movimento social é uma organização nitidamente estruturada e identificável cuja finalidade explícita é arregimentar um número maior ou menor de pessoas para a defesa ou promoção de certos objetivos precisos, geralmente com uma conotação social.

Uma das características mais salientes dos movimentos sociais é o fato de serem essencialmente reivindicativos: procuram fazer reconhecer e triunfar idéias, interesses, valores claramente definidos. Não se confundem, por isso, com outras formas de organização "contemplativas", como um clube literário ou uma seita de meditação. Para atingir seus objetivos, todo movimento social precisa "sair às ruas", em sentido literal ou figurado. Em outras palavras, precisa conquistar adeptos, atrair a atenção do público em geral ou de um círculo mais restrito, como uma categoria profissional ou as elites dirigentes.

Formam-se movimentos sociais em torno de toda sorte de objetivos: a abolição completa da ordem vigente, a proibição de fumar em público, o reconhecimento da igualdade jurídica e política da mulher, o desarmamento nuclear, a defesa de verde - tudo isto, para só citar alguns exemplos, é motivo para a constituição de movimentos sociais.

Os meios empregados para a conquista dos objetivos propostos também variam muito, desde a publicidade até a pressão moral e a violência física. Mas, qualquer que sejam os objetivos e os meios empregados, todo movimento social se caracteriza sempre por um fundo de proselitismo; o movimento não cresce se não conquistar adeptos.

Fica bem clara, nesta definição, a diferença entre movimentos sociais e formas permanentes de organização. Uma família, por exemplo, é um grupo cuja organização de certo modo é anterior a este ou àquele objetivo que se proponha eventualmente - construir uma nova casa ou fazer uma viagem de férias, digamos. Um movimento social, ao contrário, sempre se organiza em tomo da ação reivindicatória. Sua organização não é, portanto, anterior aos objetivos visados, mas está para estes numa relação de meios para fins.


TOURAINE E A ANÁLISE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
O sociólogo francês Alain Touraine, um dos teóricos que mais a fundo se dedicou ao estudo dos movimentos sociais, propõe um esquema geral destinado a facilitar a análise da sua ação e ao mesmo tempo da sua organização.

Segundo Touraine, todo movimento social, para chegar a existir enquanto organização reivindicatória, precisa inicialmente resolver certos problemas relativos à sua própria definição. Deve, nas palavras do autor, "reunir certos princípios de existência". O que confere especificidade a um movimento social e lhe orienta a ação é a resposta que oferece a esses problemas, ou seja, a maneira como estabelece seus "princípios de existência".

Todo movimento social precisaria definir-se em relação a três desses princípios, de acordo com Touraine: o "princípio de identidade", o "princípio de oposição" e o "princípio da totalidade".

Examinemo-los separadamente.




O Princípio de Identidade
Todo movimento social precisa, em primeiro lugar, assumir uma identidade reconhecível aos olhos do público em geral e de seus próprios militantes. Isto significa que o movimento deve definir a quem representa, em nome de quem fala e age, quais os interesses que protege ou defende. A questão a resolver neste plano é a da definição do grupo reivindicatório, de forma que seja socialmente identificável e significativa.

Um movimento social pode identificar-se como porta-voz de um setor determinado da sociedade: a classe operária, xs estudantes, as mulheres, xs negrxs, xs índixs. Ou pode apresentar-se como defensor dos interesses da sociedade global, como é o caso, por exemplo, de um movimento patriótico ou nacionalista. Pode ser também que um movimento se identifique com um grupo quase global, isto é, que inclua quase toda a sociedade; um movimento de defesa dxs consumidorxs, por exemplo, se enquadra nessa categoria.

O que é requisito prático para o próprio movimento é requisito teórico para quem o estuda. Para compreender a natureza e a ação de um movimento social é preciso, portanto, levantar duas questões preliminares: Em nome de que grupo ou grupos ele fala ou pretende falar? Que interesses ele se destina a defender ou promover?
O Princípio da Oposição
Se todxs na sociedade fossem "a favor" de determinados interesses ou valores, dificilmente eles seriam objeto da organização de movimentos sociais. Um movimento social chega a se organizar não só porque conta com adeptos em potencial, mas também porque certos valores não são geralmente reconhecidos ou certos interesses não são geralmente atendidos.

Assim, todo movimento social sempre luta contra uma resistência, um obstáculo, uma força de inércia que impede a consecução de seus objetivos; procura vencer a oposição, a apatia ou a indiferença; e conta necessariamente com adversárixs.

Este, de acordo com Touraine, é o segundo princípio de existência dos movimentos sociais. Na ausência de qualquer oposição, um movimento social deixa de existir como tal. No mínimo, muda de natureza. Pode então se transformar, por exemplo, num partido no poder, numa instituição estabelecida. Mas já não será movimento social, pois perdeu uma característica essencial para isso: o proselitismo.

Por conseguinte, é tão importante identificar xs adversárixs de um movimento social como aquelxs cujos interesses o movimento representa. As duas tarefas, de resto, tendem a ser complementares: geralmente um movimento se identifica a favor dos interesses de um dado grupo contra um grupo ou grupos adversárixs.

No decorrer de sua atuação, um movimento pode, contudo, mudar de adversárixs. Assim, um movimento operário que começa enfrentando os patrões poderá chegar a se voltar contra o Estado; um movimento religioso deixará de combater com tanta ênfase "os males do mundo" em geral para se voltar contra outra igreja em particular.

Uma mudança de adversárixs pode, às vezes, indicar uma mudança importante na orientação de um movimento social. Em alguns casos, este pode ser o primeiro sinal de uma transformação no princípio de identidade, revelando que o movimento está em vias de mudar de "público". Em outras circunstâncias, é verdade, pode não passar de uma manobra tática, de caráter provisório. Seja como for, para a análise dos movimentos sociais uma mudança de adversárixs nunca é um fato negligenciável, e o seu alcance deve ser examinado em cada caso concreto.


O Princípio da Totalidade


Um movimento social, mesmo quando se propõe objetivos de alcance bastante limitado, precisa ser capaz de justificar sua ação em nome de valores superiores, de ideais universais que podem se expressar numa filosofia ou teologia. Ao menos aos olhos dxs militantes, os objetivos propostos devem corresponder, portanto, às intenções mais corretas e elevadas que se possam imaginar.

Com efeito, mesmo quando represente evidentemente os interesses de grupos bastante restritos, um movimento social o faz em nome de valores e ideais que são ou deveriam ser aceitos por todxs: a "segurança nacional", os "direitos humanos", a "livre iniciativa", a "saúde pública", a "vontade divina", etc.

A isto Touraine denomina o princípio da totalidade.

Assim como os dois princípios anteriores, o princípio da totalidade é importante para explicar a natureza e a orientação de um movimento social. Uma mudança na orientação do movimento tende a se fazer acompanhar por uma mudança no princípio da totalidade. Por exemplo, um movimento patriótico de inspiração religiosa que se laiciza deixará de invocar a "ordem desejada por Deus" para falar, talvez, no "sentido da História", o que pode levá-lo a adotar objetivos mais decididamente radicais ou revolucionários.

O esquema analítico proposto por Touraine para os movimentos sociais tem, na verdade, ambições mais gerais que a identificação destes "princípios" ou requisitos formais de existência.

O objetivo de Touraine é elaborar um método de análise da ação histórica chamado por ele de "análise acionalista". Por meio dessa análise, o autor se propõe explicar como surgem novos valores na sociedade, qual a lógica e os caminhos que os fazem aparecer e inspirar a ação organizada de determinados grupos ou da sociedade inteira.

A análise acionalista parece ser encarada por Touraine como um complemento e extensão da abordagem estrutural-funcionalista. Enquanto esta toma os valores existentes como um dado, o acionalismo visaria remontar à origem desses valores.

O pleno significado do estudo dos movimentos sociais para Touraine só é compreendido no contexto da análise acionalista. De fato, ele considera os movimentos sociais como o "lugar" estratégico onde se criam e se tornam explícitos os novos valores na sociedade. Por isso a análise da ação histórica e da mudança social deve fazer dos movimentos sociais um objeto central de estudo. É essencialmente neles e através deles que os agentes inovadores - assim como seus oponentes - organizam a ação e procuram influenciar a história de sua sociedade.

Algumas implicações dessa constatação devem ser mencionadas.

Em primeiro lugar, verifica-se uma multiplicação dos movimentos sociais nas sociedades modernas, em comparação com as sociedades tradicionais. Esse fenômeno está relacionado, segundo Touraine, com a multiplicação das elites dirigentes. E liga-se também, ao mesmo tempo como causa e efeito, à aceleração do processo histórico em nossa época.

Nas comunidades arcaicas praticamente não se observa a existência de movimentos sociais. É mais fácil encontrá-los nas sociedades rurais; estiveram na origem, por exemplo, das revoltas de camponesxs que sacudiam periodicamente a Europa medieval. Nesse contexto, porém, tendem a ser pouco duradouros. E não são na verdade característicos das sociedades modernas.

Na sociedade moderna, a opinião pública e xs governantes são constantemente solicitadxs por inúmeros movimentos sociais, voltados para a defesa dos interesses e causas mais variados. Significativamente, a primeira atitude das ditaduras contemporâneas, quando se instalam, é liquidar os movimentos sociais de contestação ou potencialmente contestatórios. Mas tais movimentos sempre ameaçam renascer na clandestinidade e acumular forças para enfrentar o governo ditatorial.

A grande quantidade e a diversidade dos movimentos sociais na sociedade moderna são um índice seguro de sua importância. Por isso Touraine faz deles o eixo de sua abordagem da mudança social.


As funções dos Movimentos Sociais
Da identificação dos princípios de existência dos movimentos sociais, a análise acionalista de Touraine passa à definição de suas funções características. Estas são três, segundo o autor: a "função de mediação", a "função de clarificação (ou "esclarecimento”) da consciência coletiva" e a "função de pressão".
Função de Mediação
Segundo Touraine, os movimentos sociais são fatores preponderantes de mediação entre xs indivíduxs, por um lado, e as estruturas e "realidades" sociais, por outro. Das várias maneiras pelas quais se realiza tal função, duas serão aqui discutidas.

Em primeiro lugar, os movimentos sociais, à medida que defendam, critiquem ou busquem mudar aspectos da estrutura social ou a estrutura como um todo, vem para revelar tais aspectos às pessoas que os experimentem de maneira direta, mas pouco reflexiva. Desse ponto de vista, os movimentos sociais desempenham o papel de agentes socializadores: servem para "mostrar" a realidade social ao maior número possível de agentes.

Em segundo lugar, os movimentos sociais constituem um meio poderoso de participação. Em virtude das suas dimensões e da sua diferenciação, argumenta Touraine, a sociedade urbana e industrial exige formas de participação na vida coletiva mais complexas do que a sociedade tradicional.

Já Durkheim, na defesa do corporativismo, mostrava a importância dos agrupamentos intermediários destinados a integrar indivíduos nas sociedades complexas. Na linguagem durkheimiana, tratava·se de uma exigência correlativa da solidariedade orgânica.

Mais recentemente, Daniel Lemer evidenciou o fato de que, na passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna, os membros de uma sociedade têm de adquirir aptidões novas que lhes permitem adaptar-se a modalidades de participação mais complexas.

Touraine sublinha que na sociedade de massas os movimentos sociais se transformaram numa das principais formas de agrupamento intermediário. Por meio deles, os agentes podem proteger seus interesses ou defender suas idéias, participando, dessa maneira e em diferentes graus, da ação histórica.


Função de Clarificação da Consciência Coletiva
A análise do papel da consciência de classe em Marx mostra a importância de uma consciência coletiva politizada para a mudança social. Para Touraine, os movimentos sociais, pela sua própria natureza, desenvolvem e alimentam uma consciência coletiva esclarecida e combativa numa sociedade ou num setor particular da sociedade.

Essa noção é útil porque, do ponto de vista do autor, ajuda a delimitar uma realidade por vezes difícil de descrever, à qual se pode dar o nome de "estado coletivo da consciência clara". Corresponde ele ao estado da coletividade que descobre seu interesse ou aquilo que julga ser seu interesse, assim como as ações ou as mudanças que a situação exige.

Evidentemente, esta segunda função dos movimentos sociais é a que está mais diretamente ligada à ação histórica.

Um determinado grau de consciência coletiva deve ser considerado, de fato, um elemento essencial de toda ação histórica. Faz parte da natureza dos movimentos sociais, em virtude da sua organização, do seu proselitismo e também dos três princípios enumerados por Touraine, tentar incessantemente "esclarecer" ou "clarificar", dentro da sua perspectiva, a consciência de uma coletividade. Os movimentos contribuem, desse modo, para provocar ou manter certo estado de alerta permanente na consciência coletiva - como se fossem o "Grilo Falante" da sociedade.

É exatamente pela influência que exercem sobre os estados da consciência coletiva que Touraine reserva um papel-chave aos movimentos sociais na história.
Função de Pressão
Finalmente, os movimentos sociais têm influência sobre o desenvolvimento histórico das sociedades na medida em que exercem pressões sobre as pessoas investidas de autoridade, sobre as elites governantes. Tais pressões podem ser exercidas de várias maneiras: mediante campanhas de publicidade ou propaganda junto à opinião pública, ameaças, ação sistemática junto aos órgãos do legislativo e do executivo, etc.

Na verdade, as pressões sobre autoridades são apenas uma das formas de ação dos movimentos sociais. Trata-se, porém, de uma forma de ação tão difundida e corriqueira que muitas vezes é tomada como a função mais característica dos movimentos sociais. Criou-se mesmo uma expressão especial para designá-la: nesses casos, fala-se dos movimentos sociais como "grupos de pressão".


MOVIMENTOS SOCIAIS E GRUPOS DE PRESSÃO
Movimentos sociais e grupos de pressão não são termos sinônimos, mesmo que por vezes sejam empregados como tais. O que causa alguma confusão é o fato de que ambos se referem eventualmente à mesma realidade: os movimentos sociais agem freqüentemente como grupos de pressão, e a maior parte dos grupos de pressão são movimentos sociais.

O que se deve entender, nesse caso, por grupos de pressão?

O cientista político Jean Meynaud propõe uma definição bastante clara. Diz ele:
"Os grupos de interesse só se transformam em organismos de pressão a partir do momento em que os responsáveis utilizam a ação sobre o aparelho governamental para fazer triunfar as suas aspirações ou reivindicações. Um sindicato de produtores se comporta como grupo de interesse, por seus próprios meios, institui e vigia a repartição da clientela entre os membros que o compõem, transformando-se em grupo de pressão se tentar obter dos poderes públicos uma lei que regulamente a entrada de novos elementos no seu domínio. Globalmente, a categoria 'grupos de pressão' abrange um setor de atividade dos grupos de interesse: mais exatamente, consiste na análise destes últimos sob um aspecto determinado."
Esta definição permite entender por que os movimentos sociais podem ao mesmo tempo constituir grupos de pressão: falar em grupos de pressão, no caso, é ressaltar "um aspecto determinado" dos movimentos sociais ou dos grupos de interesse. Ou melhor, é pôr em evidência uma das funções principais dos movimentos sociais: sua função de pressão sobre as autoridades governamentais.
MOVIMENTOS SOCIAIS GERAIS
Outra maneira de definir os movimentos sociais é como empreendimentos coletivos voltados para o estabelecimento de uma nova configuração de vida. Desse ponto de vista, segundo Herbert Blumer, suas origens se encontram num estado de inquietação social, e seu impulso decorre da insatisfação com a vigência de uma dada forma de vida social, por um lado, e dos desejos e esperanças de um novo modo ou sistema, por outro.

Destacam-se, nesse sentido, os "movimentos sociais gerais", que são movimentos como o trabalhista, o da juventude, o feminista e outros.

A essência desse tipo de movimento social consiste em mudanças gradativas e amplamente difundidas nos valores das pessoas - mudanças que podem ser chamadas de tendências culturais. Tais tendências refletem uma alteração geral nas idéias das pessoas, principalmente quanto às concepções que têm de si próprias, de seus direitos e privilégios.

Geralmente, num certo período da vida, as pessoas podem desenvolver uma nova visão do que acreditam ser seus direitos - uma visão que se inspire, em larga medida, em seus desejos e esperanças. Isto significa o surgimento de um novo conjunto de valores que influenciam as pessoas na maneira como encaram suas próprias vidas.

A história cultural recente do mundo ocidental é rica em exemplos desse tipo de tendência. Contam-se entre eles o crescente valor atribuído à saúde, a crença na educação livre, a extensão do direito de voto à mulher, a emancipação feminina, o crescente cuidado com as crianças e o prestígio crescente da ciência.

O desenvolvimento dos novos valores surgidos com essas tendências culturais implica mudanças na psicologia individual que fornecem a motivação para os movimentos sociais gerais. Essas mudanças significam, num sentido amplo, que as pessoas chegaram a formar novas concepções de si mesmas, não adequadas às posições efetivas que ocupam na sociedade. As pessoas adquirem novas disposições e interesses, tornando-se desse modo sensíveis em novas direções; ao mesmo tempo, experimentam insatisfação diante do que antes lhes pareciam condições naturais de vida.

As novas idéias a respeito de si mesmas que as pessoas começam a desenvolver em resposta às tendências culturais são vagas e imprecisas. Conseqüentemente, as formas de ação correspondentes a tais idéias são incertas e sem objetivos bem definidos.

Isso permite compreender por que os movimentos sociais gerais assumem gera1mente a forma de esforços titubeantes, descoordenados. Eles contam apenas com uma orientação geral, segundo a qual avançam de maneira lenta, hesitante, mas persistente. Enquanto movimentos, não têm organização, nem lideranças formalmente estabelecidas, nem reconhecimento formal da participação de seus membros. Apresentam, portanto, escassa direção e controle.

Por exemplo, o movimento feminista, por se orientar pelo objetivo genérico e impreciso de emancipar a mulher, apresenta esse aspecto de fluidez característico dos movimentos sociais gerais. Como todos os movimentos dessa natureza, opera num âmbito bastante amplo: o lar, o casamento, a educação, o mundo do trabalho, política, o lazer - enfim, em todas as áreas onde seja possível a busca de uma ordenação correspondente às novas idéias da mulher a respeito de sua participação na sociedade.

Movimentos como esse são episódicos, com a alternância de períodos de atividade muito intensa e períodos de refluxo. Podem despertar grande entusiasmo num momento e relutância ou inércia em outro; podem ter sucesso num setor e fracassar em outro. Em certas ocasiões, são militantes de uma dada região ou cidade que dão ímpeto ao movimento; em outras ocasiões, o pólo de irradiação pode transferir-se para outro local. No conjunto, o movimento tende a avançar pelos esforços de muitas pessoas anônimas que lutam em diferentes setores, sem que seu empenho e resultados se tornem geralmente conhecidos.

Normalmente, as idéias que orientam um movimento social geral encontram expressão numa literatura tão variada e indefinida como o próprio movimento. Ela tende a ser uma expressão de protesto, com uma descrição genérica de uma espécie de existência utópica. Dessa maneira, esboça vagamente uma filosofia baseada em novos valores e em concepções pessoais.

Embora imprecisa, tal literatura é muito importante para a difusão de uma mensagem ou concepção e, assim, para firmar sugestões, despertar esperanças e provocar insatisfações.

Analogamente, os "líderes" de um movimento social geral desempenham papel importante - não no sentido de exercer controle diretivo sobre o movimento, mas para lhe dar andamento. Esses líderes "clamam no deserto", são pioneiros que não têm seguidores firmes nem muito conscientes de seus próprios objetivos. Mas seu exemplo ajuda a desenvolver sensibilidades, desperta esperanças e neutraliza resistências.

Pode-se perceber que o movimento social geral se desenrola basicamente de modo informal, não ostensivo e em grande parte subterrâneo. Suas formas de interação principais são a leitura, as conversas, discussões e a percepção de exemplos. Suas realizações e intervenções ocorrem antes de tudo no plano da experiência individual, mais do que no da ação conjugada e perceptível de grupos.

Em função disso, compreende-se que os movimentos sociais gerais sejam em grande parte dominados pelos mecanismos de comportamento de massa. Principalmente em suas fases iniciais, não passam de um agregado de linhas individuais de ação baseadas em decisões e escolhas individuais.

Os movimentos sociais gerais são bastante amorfos na organização e inarticulados na expressão, o que é característico da massa e do comportamento de massa.


MOVIMENTOS SOCIAIS ESPECÍFICOS
Assim como as tendências culturais constituem o terreno para o surgimento dos movimentos sociais gerais, um movimento social geral pode ser a base de um ou de muitos "movimentos sociais específicos".

Tal como o entende Blumer, um movimento social específico tende a ser a cristalização de grande parte da motivação - insatisfações, esperanças, desejos despertada por um movimento social geral que lhe prepara o caminho. Por meio do movimento social específico, essa motivação converge para um objetivo preciso.

Por exemplo, o movimento antiescravagista do século XIX foi, nesse sentido, uma expressão particularizada do movimento humanitarista difuso que dominava o cenário cultural do Ocidente desde a época do Iluminismo.

Já sabemos que os movimentos sociais específicos são aqueles que procuram alcançar um objetivo bem definido. Deve-se acrescentar que, na busca desse objetivo, eles tendem a desenvolver uma organização suficientemente nítida para ser considerados verdadeiras associações.

À medida que se torna uma associação, um movimento social específico dota-se de uma liderança reconhecida e aceita e de uma ligação definida entre seus membros que se traduz numa "consciência do nós". Forma um corpo de tradições, um conjunto de valores orientadores, uma filosofia, conjuntos de regras e um sistema geral de expectativas aplicáveis à ação de seus membros. Estes são levados a desenvolver atitudes de fidelidade e lealdade em relação ao movimento.

No interior do movimento desenvolve-se uma divisão do trabalho principalmente sob a forma de uma estrutura hierárquica em que os militantes ocupam posições diferenciadas. Nos militantes, desenvolvem-se traços de personalidade e auto-concepções que são a contrapartida individual dessa estrutura.

Os movimentos reformistas e revolucionários, que serão abordados em detalhe mais adiante, constituem as formas típicas de movimento social específico. Neste ponto, podemos continuar abstraindo o tipo de objetivo dos movimentos sociais específicos para só considerar-lhe o processo de organização.

Um movimento social específico não nasce, naturalmente, com uma organização acabada. Pelo contrário, sua organização, bem como sua cultura própria, terão de se desenvolver enquanto o movimento avança. É como coisa "em construção" ao longo do tempo, portanto, que os movimentos sociais específicos devem ser encarados.

No começo o movimento pode ser fracamente organizado e caracterizado por formas de ação e de pensamento muito influenciadas pelas flutuações da inquietação coletiva. Contudo, à medida que se desenvolve, sua ação, originalmente dispersiva, tende a tornar-se organizada, solidificada e persistente.

Alguns autores procuraram delinear as fases de amadurecimento que os movimentos sociais específicos tendem a atravessar rumo à organização consolidada.

Dawson e Gettys, por exemplo, sugerem um esquema de quatro fases: "inquietação social", "excitação popular", "formalização" e "institucionalização":
1º - Na fase de inquietação social, as pessoas estão ansiosas e agem descoordenadamente, como já dissemos. São sensíveis aos apelos e sugestões que vêm ao encontro de seu descontentamento e por isso, nessa fase, a figura do "agitador" tende a desempenhar papel importante para pôr o movimento em marcha. O comportamento desordenado e dispersivo é significativo para fazer que as pessoas se sensibilizem umas às outras, o que torna possível dirigir sua inquietação sobre certos objetos;
2º - Na fase de excitação popular também é marcante a desorientação dos agentes sociais, embora atenuada em comparação com a fase anterior. Surgem noções mais definidas quanto à condição das pessoas e ao que se deve fazer para mudá-la. Desse modo, o movimento avança na direção de uma definição mais precisa de seus objetivos. Nessa fase, o líder tende a ser um profeta ou reformador;
3º - Na fase de formalização, o movimento adquire uma forma definida de organização, com regras, políticas, tática e disciplina. O líder tende, a essa altura, a ser da natureza de um estadista;
4º - Na fase de institucionalização, finalmente, o movimento cristalizou-se numa organização fixa, com um corpo de militantes permanentes e uma estrutura para a execução de seus objetivos. Agora, o líder tende a ser um administrador.
Esse esquema de fases nos diz muito pouco, entretanto, sobre a dinâmica dos movimentos sociais específicos, a menos que o vejamos à luz dos mecanismos e meios pelos quais os movimentos avançam e se organizam de uma fase para outra.

Examinemos, portanto, esses mecanismos.


A Agitação
Foi Lenin certamente o primeiro a formular com toda clareza a tremenda importância da agitação no movimento revolucionário. O mesmo se pode dizer a propósito de qualquer movimento social específico.

A agitação tem papel particularmente importante no nascimento e nas fases iniciais de um movimento, embora possa conservar alguma importância nas fases mais adiantadas. Ela é importante porque desperta as pessoas e as torna potencialmente recrutáveis para o movimento. Consiste basicamente num meio de excitar o "público" ao qual o movimento se dirige, despertar-lhe novos impulsos e idéias que o tornem inquieto e insatisfeito.

Como se vê, a agitação atua no sentido de diminuir a influência das ligações anteriores das pessoas e de eliminar seus modos anteriores de pensar e de agir.

Para que um movimento conquiste seu "público" e dessa maneira se inicie e ganhe ímpeto, é preciso que as pessoas se desprendam de suas formas costumeiras de pensar, de suas crenças habituais, e que nelas surjam novos impulsos e desejos. Por conseguinte, para ter êxito a agitação deve, em primeiro lugar, conquistar a atenção das pessoas. Depois, deve excitá-las e despertar nelas sentimentos e impulsos. Por fim, deve dar alguma direção a esses impulsos e sentimentos por meio de idéias, sugestões, críticas e promessas.

A agitação é um mecanismo particularmente eficaz em duas espécies de situações.

Primeiro, ela funciona em situações caracterizadas por abuso, discriminação e injustiça, os quais, entretanto, são aceitos com naturalidade pelos grupos que os sofrem. Embora tais situações sejam potencialmente carregadas de sofrimento e protesto, as crenças tradicionais das pessoas as reduzem à inércia. Nesse caso, a função da agitação consiste em levá-las a desafiar e questionar seus próprios modos de vida. Assim ela pode criar inquietação social onde antes não existia.

Outro tipo de situação em que a agitação tem papel destacado a desempenhar é aquele em que as pessoas já estão despertas, inquietas e descontentes, mas continuam tímidas demais para agir ou mesmo para pensar no que fazer. Neste caso, a função da agitação não é tanto a de semear a inquietação como de intensificar, liberar e dirigir as tensões que já existem nas pessoas.

A cada um desses dois tipos de situação parece corresponder um tipo de agitador.

Há, por um lado, o indivíduo excitado, inquieto e agressivo, cujo comportamento vivo e exuberante atrai a atenção das pessoas e cuja inquietação tende a contagiá-las. Esse tipo de agitador tem geralmente mais êxito nas situações em que as pessoas já se encontrem perturbadas e desnorteadas. Sua exuberância pode facilmente despertar outras pessoas já predispostas ao mesmo tipo de comportamento.

O segundo tipo de agitador é mais calmo. Agita, não pelo que faz, mas pelo que diz. Mesmo que não fale muito, é capaz de dizer o que está "atravessado na garganta" das pessoas, ajudando-as a ver as coisas de um novo ângulo. Sua atuação é, portanto, mais adequada ao primeiro tipo de situação acima mencionado, isto é, aquelas situações em que as pessoas sofrem privações ou discriminações sem desenvolver atitudes de ressentimento. Aqui, a função do agitador é tornar as pessoas conscientes de suas próprias posições e das desigualdades, deficiências e injustiças que marcam suas vidas. O agitador leva as pessoas a pôr em dúvida o que antes lhes parecia natural.

A agitação libera as pessoas para que elas se movimentem em novas direções. Especificamente, ela funciona no sentido de mudar as concepções que as pessoas têm de si mesmas e as noções que possuem de seus direitos e deveres. As novas concepções difundidas pela agitação fornecem a força motivadora dominante para o movimento social.
O Esprit de Corps
A agitação é somente um meio de despertar o interesse das pessoas e assim levá-las a participar de um movimento. Ela serve, portanto, para recrutar adeptos, para dar o impulso inicial e alguma direção ao movimento, mas por si só não bastaria para organizá-lo e dar-lhe continuidade. Baseados exclusivamente na agitação, os movimentos sociais nunca passariam do estágio da ação esporádica, desconexa e de curta duração.

Para dar solidez e persistência a um movimento social, outros mecanismos são necessários.

Um desses mecanismos é o desenvolvimento do "esprit de corps".

Existe esprit de corps num movimento social quando os sentimentos das pessoas se configuram em função de sua participação no movimento. Em si mesmo, ele representa os sentimentos de coparticipação e identificação mútua que levam a pessoa a se definir como membro ou militante de um movimento X.

Ao desenvolverem sentimentos de camaradagem e proximidade, os membros de um movimento adquirem o senso de participar de uma experiência comum, de constituir um grupo à parte. Reunidos, eles se sentem à vontade e entre iguais. Não há mais reserva pessoal e desaparecem os sentimentos de estranheza, indiferença ou alheamento. Nessas condições, as relações tendem a ser de cooperação, e não de competição. O comportamento de um tende a facilitar o desencadeamento do comportamento de outros. As pessoas se inspiram e infundem confiança mutuamente. Essas condições de simpatia mútua e correspondência contribuem para o comportamento conjugado.

Há outras maneiras pelas quais o esprit de corps é importante para o movimento social.

Por exemplo, ele serve para reforçar a nova concepção de si próprio que o indivíduo formou como resultado do movimento e de sua participação nele. Daí que, mantidas e revigoradas suas representações de si próprio e dos objetivos do movimento, o desenvolvimento do esprit de corps ajuda a aumentar a vinculação das pessoas com o movimento.

O esprit de corps representa, assim, um meio importante de desenvolver a solidariedade e, desse modo, de dar solidez a um movimento social.

Pode-se, portanto definir o esprit de corps como uma organização do sentimento grupal e, essencialmente, como uma forma de entusiasmo grupal. É ele que dá vida a um movimento.

Porém, do mesmo modo que a agitação, a existência pura e simples do esprit de corps é insuficiente para o desenvolvimento de um movimento social. Como a adesão que ele inspira somente se baseia no entusiasmo intenso, tende a desaparecer ao primeiro abalo sofrido por esse entusiasmo.

Para se sustentar com sucesso, principalmente nas fases de refluxo, um movimento deve inspirar uma lealdade mais firme e persistente do que a derivada do mero entusiasmo. E o que pode produzir tal lealdade é o "desenvolvimento do moral”.
O Desenvolvimento do Moral
O moral é o que confere persistência e determinação a um movimento social. Uma prova decisiva para a vitalidade do movimento é a manutenção da sua solidariedade na adversidade. Nesse sentido, o moral pode ser considerado como um propósito coletivo persistente ou um querer grupal.

Diz Herbert Blumer que o moral parece estar baseado num conjunto de convicções das quais decorre. Num movimento social, tais convicções seriam de três tipos.

Primeiro, existe a convicção a respeito da retidão de propósitos do movimento. Esta é acompanhada pela crença de que a realização dos objetivos propostos conduzirá a algo muito próximo de uma situação ideal, onde toda uma série de coisas más, injustas e erradas não teriam lugar. A meta visada é, assim, sempre supervalorizada. Mesmo ilusória, no entanto, essa crença produz nos membros do movimento uma acentuada confiança em si próprios.

Um segundo tipo de convicção, intimamente ligado ao anterior, é a fé de que aquele movimento em particular alcançará os objetivos propostos. Geralmente, os militantes põem nisso certo senso de fatalismo, como se seu movimento estivesse inevitavelmente destinado a ter êxito. Sendo o movimento visto como um agente necessário de regeneração do mundo, para os seus militantes ele aparece como se estivesse na linha dos valores morais superiores do universo e, por assim dizer, divinamente favorecido. Daí a crença de que o êxito é inevitável, mesmo que somente à custa de duros esforços.

Por fim, integrando esse complexo de convicções, há a crença de que o movimento está encarregado de uma missão sagrada.

Combinadas, essas convicções contribuem para dar persistência e tenacidade aos membros de um movimento na busca de seus objetivos. Obstáculos, restrições e derrotas transformam-se em motivo de esforços renovados e não de desânimo, desde que não enfraqueçam seriamente a fé na retidão do movimento e na inevitabilidade da sua vitória final, conclui Blumer.

Como se vê, o desenvolvimento do moral de um movimento social aproxima-se, para Blumer, do surgimento de atitudes de sectarismo e fé religiosa.

Segundo o autor, é a partir daí que se podem compreender os meios mais importantes pelos quais se constitui o moral num movimento. Um desses meios é a adoção de alguma forma de culto, observável em qualquer movimento social duradouro e persistente. Em geral esse culto envolve um "santo" principal e vários outros santos menores, escolhidos estes entre os líderes populares do movimento.

Hitler, Lenin e Marx seriam bons exemplos de santos maiores, que despertam uma admiração próxima da adoração religiosa e se revestem de poderes miraculosos aos olhos dos militantes comuns. São tidos como enormemente superiores, inteligentes e infalíveis. As pessoas se ofendem com as tentativas de descrevê-los como seres humanos comuns.

Os heróis e mártires de um movimento também passam a ser considerados figuras sagradas. O desenvolvimento de todo esse culto é um meio importante de dar ao movimento uma fé religiosa e de ajudar a constituir aquele tipo de convicções que garante a solidariedade nos períodos difíceis.

O surgimento de um credo e de uma literatura sagrada tem função parecida.É possível encontrá-los em todos os movimentos sociais persistentes. Assim, Blumer coloca no mesmo plano Minha Luta, de Hitler, e O Capital, de Marx, como bíblias do movimento nazista e do movimento comunista, respectivamente. Evidentemente, o papel de um credo e de uma literatura dessa natureza deve ser o de dar a solidez da convicção religiosa aos movimentos.

Por fim, uma grande importância deve ser atribuída aos mitos no desenvolvimento do moral dos movimentos sociais. Os mitos podem ser os mais diversos: o do povo eleito, o da desumanidade dos adversários, mitos sobre o destino do movimento, mitos que descrevem as glórias da sociedade sob a égide dos objetivos do movimento.

Em geral esses mitos nascem dos desejos e esperanças dos participantes dos movimentos e respondem, ao mesmo tempo, a esses desejos e esperanças. Por seu caráter coletivo, adquirem solidez, permanência e aceitação ampla. É principalmente por meio deles que os militantes conseguem a rigidez dogmática de suas convicções e procuram justificar suas ações perante o resto da humanidade.
A Ideologia Grupal
Um quarto mecanismo que impulsiona o avanço dos movimentos sociais é a ideologia grupal.

Se não tivesse ideologia, um movimento social caminharia de modo incerto, titubeante, e dificilmente poderia manter-se em face da oposição de grupos externos. Por isso a ideologia é tão importante na vida de um movimento; ela é um mecanismo essencial para a sua persistência e desenvolvimento.

A ideologia de um movimento consiste num corpo de doutrinas, crenças e mitos.

Mais detalhadamente, a ideologia grupal parece consistir, primeiro, numa exposição dos objetivos, propósitos e premissas do movimento. Segundo, num conjunto de críticas e condenações da estrutura vigente, que o movimento está atacando e procurando mudar. Terceiro, num conjunto de doutrinas de defesa, que serve como justificação do movimento e de seus objetivos. Quarto, num conjunto de crenças referentes a políticas, táticas e à operação prática do movimento. E quinto, nos mitos do movimento.

Blumer vê um duplo caráter na ideologia.

Por um lado, grande parte dela é erudita e acadêmica, pois sob essa forma ela é desenvolvida pelos intelectuais do movimento. A exposição acadêmica tende a consistir em tratados sofisticados de caráter abstrato e altamente coerentes, e procura obter, para os princípios doutrinários do movimento, uma posição de respeitabilidade no plano do conhecimento e dos valores intelectuais.

Por outro lado, a ideologia assume também uma versão popular. Como tal, procura apelar às massas, tomando a forma de símbolos emocionais, lemas, estereótipos e argumentos mal burilados. Refere-se também, sob essa forma, aos princípios doutrinários do movimento, mas apresenta-os de maneira a torná-los de fácil compreensão e aceitação.

A ideologia fornece a filosofia e a psicologia de um movimento. Por meio dela o movimento se mune de direção, justificação, armas de ataque e de defesa no plano doutrinário, inspiração e esperança.

Para ser eficaz em cada um desses aspectos, a ideologia deve ter respeitabilidade e prestígio. No entanto, mais importante que isso é a necessidade de a ideologia responder à aflição, aos desejos e às esperanças das pessoas. Para alcançar sua finalidade, portanto, a ideologia precisa ter apelo popular.


A Tática
Finalmente, o sucesso ou insucesso dos movimentos depende da sua capacidade de dotar-se de uma tática que se desdobre em três direções: recrutamento de adeptos, conservação dos que já aderiram ao movimento e busca dos objetivos propostos.

A tática sempre depende da natureza da situação em que o movimento atua, bem como de seu fundo cultural. Seria inútil, por exemplo, aplicar exatamente as mesmas táticas do século XIX aos movimentos revolucionários de hoje. Assim como seria inútil a tentativa de transplantar táticas que tiveram sucesso num país para outro marcado por condições culturais muito diferentes.

Enfim, pode-se dizer que as táticas são flexíveis e variáveis, assumindo sua forma determinada segundo a natureza da situação, as exigências das circunstâncias e a criatividade dos membros de cada movimento social.
REFORMA E REVOLUÇÃO
Como já dissemos, os movimentos sociais específicos são basicamente de dois tipos: reformistas e revolucionários. Ambos têm por objetivo a introdução de mudanças na ordem social estabelecida e nas instituições. Seus ciclos de vida são semelhantes, envolvendo, em ambos os casos, os mecanismos acima descritos.

Fora isso, há grandes diferenças entre os dois tipos de movimentos.

Eles diferem, desde logo, pelos objetivos que se propõem. O movimento reformista visa mudar um aspecto parcial ou uma área limitada da ordem social - por exemplo, a abolição do trabalho infantil, a redução do custo de vida, a proibição do uso do fumo em público. O movimento revolucionário tem objetivo mais amplo: visa reconstruir a ordem social segundo princípios inteiramente diferentes.

Blumer assinala que a diferença nos objetivos se associa a uma "vantagem diferencial enquanto ponto de ataque".

Ao esforçar-se para mudar apenas um aspecto parcial da ordem social, o movimento reformista aceita os princípios básicos dessa mesma ordem, ou seja, aceita os valores existentes. Aliás, invoca esses valores para atacar os defeitos sociais que combate. O movimento reformista parte, assim, do código ético dominante, o que torna difícil atacar um movimento reformista ou seus militantes com base em seus valores morais. O ataque normalmente se realiza em forma de caricatura; por exemplo, os reformadores podem ser caracterizados como pessoas sem espírito prático.

Ao contrário, o movimento revolucionário sempre desafia os valores existentes e propõe um novo sistema de valores morais. Por isso, expõe-se ao ataque do ponto de vista dos valores vigentes.

Liga-se a essa diferença o fato de que o movimento reformista tem uma "respeitabilidade" que é negada ao movimento revolucionário. Aceitando a ordem social existente e orientando-se por seu código ético, ele dirige suas reivindicações às instituições existentes. Em conseqüência, usa essas instituições - como a escola, a igreja, a imprensa, o governo.

Em contraste, o movimento revolucionário, atacando a ordem social e rejeitando-lhe os valores, tende a ser perseguido e conduzido, afinal, subterraneamente. O eventual uso que faça de uma ou outra instituição tem de ser disfarçado. Normalmente, toda agitação, todo proselitismo e manobras efetuadas pelos movimentos revolucionários têm de ser realizados fora das instituições existentes.

Ê verdade, lembra Blumer, que, se um movimento reformista for considerado ameaça a uma classe poderosa ou a interesses ocultos, também ele tende a ter barrado o acesso às instituições. Isso, porém, pode facilmente transformar o movimento reformista em movimento revolucionário, pois seus objetivos se ampliam para incluir a reorganização ou supressão das instituições que lhe impedem o avanço.

Dessas diferenças decorre mais uma, relativa ao que Blumer denomina o "procedimento geral e tática" dos movimentos reformistas e revolucionários.

O movimento reformista esforça-se para avançar conquistando uma opinião pública favorável a seus objetivos. Dessa maneira, procura criar acontecimentos públicos e fazer uso do processo de discussão. Sua mensagem é dirigida ao grande público indiferente ou desinteressado, no esforço de obter seu apoio.

O movimento revolucionário, ao contrário, não busca basicamente influenciar a opinião pública, mas alcançar a "conversão" das pessoas em moldes muito parecidos com os de uma religião, diz Blumer.

Por conseguinte, há uma grande diferença nos grupos onde um e outro tipo de movimento conduz sua agitação e recruta adeptos. O movimento reformista, apesar de surgir normalmente falando em nome de algum grupo oprimido ou explorado da população, pouco faz para estabelecer nesse grupo a base da sua força. Em vez disso, tenta conquistar a lealdade de um público de classe média que lhe é exterior, buscando aí simpatia para com o grupo desfavorecido. Por isso a liderança ou militância num movimento reformista raramente vem do grupo cujos direitos estão sendo defendidos.

Já a agitação revolucionária dirige-se aos que são considerados oprimidos ou explorados. Ela se esforça por estabelecer a força do movimento com base no recrutamento dessas pessoas para suas fileiras.

Finalmente, há diferenças também nas funções de um e outro tipo de movimento.

Diz Blumer que a função básica do movimento reformista provavelmente não é tanto a mudança social como a reafirmação dos valores ideais de uma dada sociedade. Quanto ao movimento revolucionário, sua tendência é dividir o mundo entre os que "têm" e os que "não têm", organizando estes últimos como um grupo forte, unido e sem compromissos.



EXERCÍCIOS



  1. Por que o Capitalismo foi (e é) um grande responsável pela acentuação das diferenças?

  2. A frase “devemos tratar iguais como iguais e diferentes como diferentes” é amplamente usada por minorias sociais. Qual é o protesto e a reivindicação implícitos na frase?

  3. Embora as mulheres sejam maioria quantitativa, elas são consideradas uma minoria política. Por quê?

  4. Defina estigma e seus dois tipos. Dê um exemplo de cada.

  5. Você conhece alguma história de pessoa que tenha mudado sua vida por causa do estigma da sociedade? Conte.

  6. Exponha o conceito geral de movimentos sociais.

  7. Explique os princípios de existência e funções dos movimentos sociais, segundo Touraine.

  8. Discuta o significado dos movimentos sociais do ponto de vista da ação histórica.

  9. Diferencie movimentos sociais e grupos de pressão. Dê um exemplo de cada.

  10. O movimento dos sem terra (MST) se enquadraria no conceito de movimento social ou de grupo de pressão? Justifique.

  11. Resuma a distinção entre movimentos sociais gerais e movimentos sociais específicos, segundo Blumer.

  12. Discuta as semelhanças e diferenças entre movimentos reformistas e revolucionários. Dê um exemplo de cada.

  13. O movimento estudantil do CEAN se enquadraria no conceito de movimento reformista ou revolucionário? Justifique.

  14. Você concorda com o caráter religioso que Blumer atribui aos movimentos religiosos? Por quê?

  15. Pesquise sobre o movimento LGBTTT no Brasil e faça um breve relato no seu caderno. Procure diferenciar o significado dos Ts.





©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal