Aprendizagem e resiliência na chácara meninos de 4 pinheiros



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APRENDIZAGEM E RESILIÊNCIA NA CHÁCARA MENINOS DE 4 PINHEIROS

Eliane Cleonice Alves Précoma – UFPR


Este trabalho possui como um dos seus objetivos compartilhar os enfoques, a metodologia e parte dos dados do projeto de pesquisa: “Aprendizagem, Violência e Resiliência na Chácara Meninos de 4 Pinheiros”. Este projeto de pesquisa foi elaborado a partir da coordenação e atuação do Projeto de Extensão Universitária “Contando e Cantando Histórias na Chácara Meninos de 4 Pinheiros”.

Esta chácara é uma organização não-governamental, localizada em Mandirituba, e oferece cinco casas-lares, nas quais os meninos que viviam em situação de vulnerabilidade social nas cidades de Curitiba e região metropolitana retomam seus projetos de vida. Atualmente a Chácara abriga setenta e um meninos, que são matriculados nas escolas públicas da região, sendo que estar matriculado e apresentar bom aproveitamento escolar é condição para permanência do menino na instituição.
CAMINHOS DO PROJETO DE EXTENSÃO CONTANDO E CANTANDO HISTÓRIAS NA CHÁCARA MENINOS DE 4 PINHEIROS:
Em meados de 1999, Fernando Francisco de Gois, coordenador da Chácara, salientou a necessidade de um projeto voltado para o reforço escolar. Por entender que poderíamos desenvolver o trabalho pedagógico para além do “reforço escolar”, normalmente caracterizado por discutir dúvidas pontuais das tarefas de casa, buscamos desenvolver práticas que oportunizassem o hábito prazeroso da leitura e escrita.

Percebendo que os meninos avaliaram e avaliam de forma positiva as práticas pedagógicas, que envolvem a contação e cantação de histórias, em meados do ano de 2002, optamos por inscrever este projeto na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura nas áreas de incentivo à leitura, educação e cidadania.

Desde então os objetivos que orientam nossas ações estão relacionados a:

“1) Planejar, Desenvolver e Avaliar práticas pedagógicas, com os meninos e educadores, visando o trabalho criativo e significativo com o contar e cantar histórias; 2) Incentivar o hábito da leitura e de produção de textos; 3) Registrar as práticas realizadas, visando garantir a memória pedagógica deste projeto, assim como elaborar a análise da mesma, contribuindo para a construção de conhecimentos; 4) Propiciar estudos e discussões sobre diversidade cultural e mediação significativa com os educadores da Chácara e os professores das escolas, nas quais os meninos estão matriculados; 5) Realizar estudos direcionados à alfabetização, cognição e neurocências.”(PRECOMA, E. Projeto de Extensão Universitária Contando e Cantando Histórias, 2004-2005 )


Para viabilizar estes objetivos, desenvolvemos a metodologia de trabalho, realizando semanalmente reuniões de estudo e de planejamento, as quais contam com a participação da coordenadora do projeto, de alguns educadores da chácara, dos alunos bolsistas e dos voluntários. Nas reuniões de estudos, neste ano, realizamos leituras voltadas para o processo de alfabetização (FERREIRO, 2001;CAGLIARI, 1998) e para questões relativas às neurociências, principalmente as relacionadas à cognição e à afetividade (LENT, 2004; KANDEL, 2003). Nas reuniões de planejamento, buscamos elaborar atividades que proporcionem o desenvolvimento cognitivo, privilegiando práticas de contação de histórias relacionadas às sugestões apresentadas pelos próprios meninos e educadores, tais como dramatização, rap, mímica, paródias. Elaboramos também atividades de acompanhamento escolar, com o formato de cartões, que envolvem temáticas da língua portuguesa, matemática, geografia, ciências, de forma interdisciplinar, lúdica e desafiante.

As práticas pedagógicas são realizadas na Chácara uma vez por semana, buscando desenvolver, junto aos meninos, a convivência e a afetividade. Nestes anos de trabalho percebemos a dificuldade dos meninos em ouvir seus colegas e em se fazer ouvir por todos, para despertar nos participantes do projeto as habilidades do “saber ouvir” e do “ser ouvido” referendamos nossas propostas de trabalho nos princípios dos quatro pilares da educação defendidos pela UNESCO (2004): aprender a ser, aprender a conviver, aprender a aprender e aprender a fazer. Já a partir dos primeiros encontros deste ano, em que expusemos a eles a importância destas atitudes, percebemos algumas mudanças gradativas nas relações de convivência, mudanças que foram também percebidas por eles, e confirmadas nos seguintes relatosi:


“Aprendi a ter paciência, respeitar os mais velhos, aprendi a ouvir os piás e ajudar os outros” (Marcelo, 13 anos).

“Aprendi que quando alguém tá falando, a gente tem que ouvir” (João, 12 anos).

“Gostei das conversas, das histórias...é um momento gostoso” (Janaína, educadora, 30 anos).

“Foi legal, trabalhamos com a música, hoje ninguém brigou...todos se ajudando” (Andrigo, 11 anos).


ENFOQUES DA PESQUISA:
A partir dos relatos descritos acima e de nossa atuação no projeto elaboramos alguns enfoques de pesquisa voltados para as inter-relações entre as aprendizagens dos meninos e suas histórias de vidas, muitas vezes marcadas por violências, dentre as manifestações das violências, destacamos que muitos meninos sofreram espancamentos, violências psicológicas e abusos sexuais. E além deste enfoque, as relações entre as aprendizagens dos meninos e suas formas de manifestar resiliência frente aos problemas.

O conceito de resiliência data de 1807, período no qual o cientista inglês Thomas Young investigou a relação entre a força aplicada e a deformação de objetos, no sentido de que resiliência: “refere-se à capacidade de um material absorver energia sem sofrer deformação plástica ou permanente” (Easley, Easley & Rolfe, 1983 citados por Yunes & Szymanski, 2002).

Em meados de 1950, psicólogos americanos, canadenses e ingleses buscaram investigar:
“Por que apesar de terríveis experiências, alguns indivíduos não são atingidos e apresentam um desenvolvimento estável e saudável? (Yunes & Szymanski, 2002).
Considerando as histórias de vida dos meninos, marcadas por inúmeras situações de vulnerabilidade social, e suas atitudes pró-ativas diante da vida e dos novos projetos de vida que começam a elaborar, especialmente a partir da inserção na Chácara, um dos objetivos do projeto de pesquisa: “Aprendizagem, Violência e Resiliência na Chácara Meninos de 4 Pinheiros”, diz respeito a investigar as aprendizagens dos meninos de 4 Pinheiros e as suas manifestações de resiliência frente aos problemas encontrados em suas histórias de vida.

A metodologia desenvolvida nesta pesquisa baseia-se na abordagem qualitativa, de cunho descritivo, buscando ser fiel às opiniões dos sujeitos envolvidos no projeto. O conjunto de dados refere-se a sessenta e três descrições qualitativas das práticas realizadas no Projeto de Extensão Contando e Cantando Histórias na Chácara Meninos de 4 Pinheiros. A seguir apresento os primeiros indicadores encontrados nesta investigação.


NA AVALIAÇÃO EM PROCESSO: APRENDER A SER, APRENDER A CONVIVER, SENTIMENTOS E AFETIVIDADE NA RELAÇÃO PEDAGÓGICA:
Antes do término de cada encontro no Projeto Contando e Cantando, os mediadores das práticas voltadas para a leitura e produção de textos provocam momentos de avaliação, questionando “como foi nosso encontro?”, “avalie o encontro de hoje”, “apresente sugestões para os próximos encontros”. Os meninos, educadores, alunos voluntários, coordenadora, assim como os convidados, apresentam sua avaliação, de forma oral. Seus depoimentos são registrados e servem de base para a elaboração dos próximos planejamentos e para a descrição qualitativa das práticas realizadas.

Para caracterizar como nosso trabalho é realizado, descrevemos a seguir um de nossos encontros, no qual contamos a história “A Palavra Feia de Alberto”, de Audrey Wood. Para a contação, utilizamos as imagens do livro, com o suspense necessário para que cada sujeito possa imaginar as cenas e as personagens da história, e ainda utilizamos entonações de voz diferentes para cada personagem. Durante a contação os meninos estavam ansiosos por saber qual seria a palavra feia, que no livro é representada por uma imagem que a caracteriza, mas não a define como palavra. Em seguida discutimos quais palavras feias conhecemos e quais seriam as palavras cintilantes de nossas vidas, neste momento, um dos meninos perguntou: “E gesto cintilante, pode?”. Os meninos apresentaram várias respostas, que foram registradas na forma de desenhos, utilizando tinta guache. Desenhos estes que foram expostos na forma de "varal das palavras e gestos cintilantes”, e que por aproximadamente dois meses, os meninos se orgulhavam de mostrar a cada visitante o seu desenho, fazendo questão de relatar o seu significado.

Cabe salientar que a literatura não é utilizada como pretexto para a discussão de temas específicos, mas não nos privamos de discuti-los independentemente de quem a provoque. Neste sentido, destacamos o princípio pedagógico da “voz e vez” (FREIRE, 1997) de cada sujeito que participa dos encontros, e que apresenta olhares e opiniões diferentes acerca da mesma história. Tais práticas revelam personalidades e propiciam o exercício da convivência, da aceitação do outro e da vivência e resolução de conflitos.

A cada encontro, firmamos combinados que direcionam nosso trabalho e efetivam as relações de igualdade e de diversidade. Os combinados de trabalho diferenciam-se das regras, na medida em que estas últimas são decididas pelo educador, já os combinados nasce das relações entre educandos e educadores estão pautados pelo objetivo geral do projeto e também dos objetivos específicos.

Sendo assim, em alguns encontros combinamos os horários que vamos precisar de silêncio para a concentração e leitura dos textos e outros horários que vamos cantar, dançar, brincar, jogar bola, pular corda, sem contudo configura-se numa prática de barganha ou ameaças pedagógicas, mas sim no sentido que se os objetivos estão claros todos realizam a atividade e assumem a avaliação de sua participação individual e a do grupo. Neste caminho estamos desenvolvendo na prática um princípio fundamental deste projeto; relação pedagógica é relação humana, portanto carregada de afetividade e emoção (DAMÁSIO, 2004)

Nossa experiência tem revelado que quando o vínculo afetivo entre educadores-educandos, educandos-educadores e educandos-educandos é estabelecido, a relação pedagógica flui de maneira processual, dialógica, prazerosa – viabilizando aprendizagens significativas, desenvolvendo capacidades cognitivas superiores, como sensação, percepção, imaginação, memória, pensamento, raciocínio, criatividade (ROMANELLI, 2003). Especialmente em relação às aprendizagens, perguntamos aos meninos e educadores: “O que aprendemos em nossos encontros?”, destacamos a seguir algumas das respostas apresentadas:


Felicidades, brincadeiras, aprendi a respeitar os outros” (João, 12 anos)

Aprendi a ter amigos, algumas histórias, aprendi as palavras cintilantes, como ‘Bom Dia!’ (Gabriel, 12 anos)

O projeto ajuda a melhorar a convivência, a respeitar os outros, a ouvir quando alguém está falando” (Mara, educadora, 26 anos)

Aprendi a brincar sem fazer bagunça” (Ricardo, 11 anos)


Perguntamos ainda: “O que cada um conseguiu ensinar para o outro nestes encontros?”, as respostas foram muito significativas, reveladoras do caminho que estamos percorrendo e indicam também indícios de atitudes resilientes:
Ensinei alegria, harmonia, amor e não bater nos amigos” (João, 12 anos

Harmonia, delicadeza e felicidades” (Alberto, 12 anos)

Felicidades, amor, paz, não falar besteiras, a ser bondoso” (Vinícius,

11anos)

Ensinei a respeitar os outros” (José, 12anos)

Ensinei a separar as brigas dos piá, a não falar palavrão” (Gabriel, 11 anos)
As respostas indicam que nossas práticas pedagógicas têm evocado a amplitude das relações humanas, carregadas de encontros, conflitos e das soluções dos conflitos que fazem parte da convivência dos meninos, mas que remetem a conflitos vivenciados anteriormente.

A relevância desta pesquisa encontra-se no fato de demonstrar os elementos constitutivos da relação pedagógica, neste caso aprendizagem significativa e resiliência (TAVARES, 2002; MELILO, 2005), a partir das opiniões das crianças e adolescentes acerca das suas aprendizagens. Esta demonstração pode contribuir de forma significativa para a (re)elaboração das propostas de formação inicial e continuada de educadores (PRECOMA, 2005), especialmente no campo das temáticas: inclusão social, educação de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social e das interfaces entre aprendizagem, violências e resiliência.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DELORS, J. (org.) Educação um tesouro a descobrir. 9. ed. SP: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2004.

DAMÁSIO, A. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia:saberes necessários à prática educativa, RJ: Paz e Terra, 1997.

Histórias de Nossas Vidas. Meninos de 4 Pinheiros. PR: Mandirituba, 1999.KANDEL, E; SCHWARTZ, J. H. JESSEL, T. M. Princípios de Neurociências. SP: Manole, 4 ed., 2003.

LENT, R. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociências. SP: Atheneu, 2004.

MELILLO, A. & OJEDA,E. & col. Resiliência: descobrindo as próprias fortalezas. Porto Alegre: Artmed, 2005.

PRECOMA, E. (coord.). Projeto de Extensão Universitária Contando e Cantando Histórias. Universidade Federal do Paraná, 2004-2005, mimeo.

_______. Desafios da contemporaneidade para a escola e para a universidade. In.: Anais do XXII Encontro Nacional de Professores do PREPRE: realizado em Águas de Lindóia de 24 a 28 de outubro de 2005, Campinas, SP: graf. FE, 2005.

ROMANELLI, E. Neuropsicologia aplicada aos distúrbios de aprendizagem: prevenção e terapia. In: tema em Educação II – Jornadas 2003.

TAVARES, J. (org.). Resiliência e educação. SP: Cortes Editora, 2002.

Wood, A. A Palavra feia de Alberto. SP: Ática, 1994.



i Estes relatos foram coletados na forma de avaliação das atividades realizadas nos meses de julho e agosto de 2005. Para resguardar a identidade dos meninos e educadores, optamos por utilizar nomes fictícios. Mantivemos as maracás da oralidade nas descrições das opiniões.




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