ApresentaçÃo e se Louis Braille não tivesse nascido?



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Encontro02.08.2016
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APRESENTAÇÃO

E se Louis Braille não tivesse nascido?

Esta edição especial comemora o aniversário de 160 anos do Instituto Benjamin Constant (IBC). A ideia de fazer uma compilação sobre o braille surgiu, inicialmente, do desejo de celebrar, também, o uso oficial do Sistema Braille no Brasil, datado de 1854, no então inaugurado Imperial Instituto dos Meninos Cegos.

Longe de qualquer pretensão de trazer o passado com olhos do presente, come­morar o IBC por meio do Sistema Braille é constatar que as histórias dos dois se entrecru­zam, quando Alvares de Azevedo, recém-chegado de Paris, empresta seu próprio material para que a instituição comece a ensinar o braille. Havia no gesto de Azevedo um quê de urgência? Provavelmente, sim. É muito bom crer que ele sabia da necessidade de mudar o curso da história!

Entretanto, é necessário admitir o aspecto intangível do braille, se falado por al­guém que nunca precisou dele para ler. Desse fato não podemos fugir. É como falar de algo que está distante, por mais perto que esteja. Falta, sempre. Mas, por que não ousar? Solicitamos, assim, permissão para uma ousadia.Vamos chamar de “uma ousadia licencia­da” o reconhecimento de que as questões relacionadas com a cegueira podem ser trata­das por quem enxerga, mas não devem estar ao encargo somente de quem sempre enxergou. E muito grave ainda é concebê-las na ponta de uma caneta daquele que sequer um dia ouviu o que uma pessoa cega tem a dizer, mas se investe do poder de decisão sobre sua vida e, com as mais variadas justificativas, mantém as pessoas que não enxer­gam sob a tutela do conhecimento de quem enxerga.

E se Louis Braille não tivesse nascido? Provavelmente, teríamos hoje outro siste­ma, uma forma de leitura semelhante, ou talvez muito diferente, daquela que é, sem dúvi­da, fruto da genialidade de alguém que, é fácil imaginar, viveu seu tempo pautado pelo estranhamento e pela inconformidade. Alguém que tinha muito a fazer no mundo e não podia acomodar-se, nem sequer intimidar-se, aos impedimentos que a cegueira anuncia­va. Quem de nós não gostaria de tê-lo conhecido pessoalmente? Podemos nos arriscar e dizer que Louis Braille estava prenhe de um futuro. E, é claro, como toda gestação, sua invenção carregava a potência do novo, da esperança.

Este é o sentido que o Sistema Braille não cansa de ressignificar: a esperança, que vem imbricada em cada ponto que um dia Louis Braille encravou no papel e que vem se perpetuando ao longo da história das pessoas cegas pelo mundo. De sua criação, pode­mos ouvir ecoando em uníssono a palavra autonomia, embora todos esses pontos, juntos, podem, paradoxalmente, levar aos caminhos nada acessíveis que os cegos têm sido obri­gados a percorrer na luta pelo respeito, antes de tudo, à dignidade.

Propomos que os textos incluídos nesta edição sejam considerados na categoria rastros, no sentido gagnebiniano, de um passado que é preciso lembrar, sempre, na tenta­tiva de dar significado ao que se passa com os sujeitos ao longo de seu percurso histórico. Falar de rastros é falar dos legados que nos são deixados por aqueles que nos antecede­ram, como tesouros a serem preservados e passados adiante incansavelmente. Assim, um rastro revela a possibilidade da continuidade e da transformação.

Nesta compilação, trazemos textos de autores convidados, depoimentos de ex­alunos e também reproduzimos outros textos já publicados – e que consideramos insubs­tituíveis – na tentativa de darmos conta de um desejo simples: mostrar que o braille, antes de tudo, tem sido instrumento de emancipação, luta e afirmação. São narrativas que tra­zem histórias, discussões, ações, recordações e perspectivas iniciadas antes mesmo da cri­ação desse código que mudou concepções e rompeu barreiras.

Em tudo que você irá ler aqui, caro leitor, vale ressaltar que, ao longo do tempo, a condição de cegueira vem percorrendo os mais variados caminhos em diferentes culturas e se transformando: da escória da sociedade ao fruto do pecado, chegando a ocupar o pedestal da magia – em que ser cego significava ter grande sabedoria e o dom da premo­nição –, até alcançar, enfim, um lugar na graça humanitária e perseverante de Valentin Haüy. Com certeza, o ser cego ganhou nova configuração na pessoa de Louis Braille, a quem o destino reservou a incumbência de aperfeiçoar e criar as condições ideais de le­tramento àqueles que não podiam ver.

Ao comemorarmos 160 anos da introdução do Sistema Braille no Brasil, depara-mo-nos envolvidos com uma nova discussão que urge do avanço tecnológico. Se, de um lado, os recursos de informática sofisticados e acessíveis facilitam a vida de todos, sem classificações e discriminações, de outro anunciam as nuanças de um fantasma possível: a “desbrailização”. Podemos chamar de um retrocesso? Ou será apenas uma nova fase, como tantas já passadas? Podemos reafirmar que é incabível pensar no Sistema Braille sendo subtraído do processo de letramento da criança cega.

Portanto, não por acaso, aos 160 anos, o IBC merece, hoje, nosso mais profundo respeito e o desejo premente de repensá-lo para preservá-lo ao longo dos tempos, em honra à memória de todos que aqui sonharam e o fizeram possível.



Claudia Lucia Lessa Paschoal e Naiara Miranda Rust
Em 17 de setembro de 2014.


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