Apresentação Este texto é um resumo do conteúdo desenvolvido na primeira etapa do Curso Popular de Formação Bíblica



Baixar 215.05 Kb.
Página1/4
Encontro04.08.2016
Tamanho215.05 Kb.
  1   2   3   4



CURSO POPULAR DE FORMAÇÃO BÍBLICA


Primeira Etapa

Assessoria

Luiz José Dietrich

Casa do Trabalhador

Curitiba, 13 a 22 de julho de 2007.


Apresentação
Este texto é um resumo do conteúdo desenvolvido na primeira etapa do Curso Popular de Formação Bíblica promovida pelo CEBI – Centro de Estudos Bíblicos – do Paraná, com assessoria de Luiz José Dietrich.
Tem por objetivo principal servir de auxílio aos participantes do curso, como guia de estudos e memória dos principais tópicos abordados durante os dez dias de estudo.
Seu desenvolvimento não segue a seqüência dos dias do curso, pois entendemos que a retomada e revisão de diversos assuntos que ocorreu no desenrolar das atividades não se faz necessária no texto escrito. Desta forma os assuntos foram reunidos por temas, objetivando criar uma seqüência o mais próximo possível da seqüência histórica dos fatos, baseando-se na linha do tempo apresentada pelo assessor.
Foi elaborado com base nas anotações dos relatores também participantes do curso, portanto não tem como fonte a pesquisa literária, mas sim o que foi tomado nota da explanação do assessor por parte dos relatores. Somente os tópicos Características do Projeto Tribal e Grupos que fizeram o Êxodo (pp 14,15 e 16) foram retirados diretamente do Curso de Bíblia por Correspondência.
A todos que fizerem uso deste material, e a todos que estão na caminhada de construção do Reino, desejamos que a luz do Deus Libertador ilumine seus trabalhos.
“CEBI me abriu os olhos para ver o que está por trás das palavras.” (Dietrich)


A REDAÇÃO DA BÍBLIA
- A redação da Bíblia demorou em torno de 1200 anos.

- Foi escrita em Hebraico, Grego e Aramaico

- Grande é a diversidade de lugares onde se deu esta redação

- Milhares são os autores, mulheres e homens, que colaboraram nesta obra


A Bíblia é um livro feito em mutirão” (Carlos Mesters)
Tradição Oral

As histórias bíblicas não surgiram diretamente no papel. Primeiro elas eram contadas nas famílias, passadas de pais para filhos. E foi assim durante muito tempo. A esta prática se dá o nome de tradição oral.

A tradição oral guarda pequenas histórias com começo meio e fim. Elas estavam ligadas a lugares, santuários, poços... explicavam o nome destes lugares e de pessoas, a origem de grupos, etc. A maior diferença com a tradição escrita é que a tradição oral não pode guardar um grande conjunto de informações. O texto bíblico então surge de uma costura destas pequenas histórias colocadas numa seqüência que traga alguma lógica.

As pequenas histórias, ao serem costuradas pelos redatores dos textos bíblicos, adquirem um caráter mágico. Isto se vê no relato da travessia do Mar Vermelho, no qual o núcleo histórico não fala de um mar que se abre pela ação poderosa de Deus através de Moisés. Este aspecto poderoso e mágico de Deus, mediado por um líder da comunidade legitimava o poder do rei e de sacerdotes que se colocavam como mediadores da ação de Deus.


No início a escritura não era sagrada

Os livros não nasceram da forma como estão colocados hoje: começaram a ser escritos por volta de 1000 a.C. e terminaram +ou- 200 d.C.

É importante notar que não foram escritos originalmente como livros sagrados. Em 400 a.C. houve a primeira canonização – é neste ano que a Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) foi considerada livro sagrado.

Dizer que são sagrados significa dizer que a partir daquele momento fica proibida qualquer alteração em seu conteúdo.


Antigo Testamento


Canonizações

Torá: + - 400 a.C

Nebiim: + - 200 a.C

Ketubim: + - 50 a.C






1
Históricos

Js, Jz, 1 e 2 Sm, 1 e 2 Rs


) Torá =
Lei: Gn, Ex, Lv, Nm e Dt.



2) Nebiim = Profetas


3) Ketubim = Escritos Sapienciais: Jó, Sl, Pr.
Antes de canonizados os livros eram: memórias, orações, cânticos, leis, histórias. E por não possuírem caráter sagrado podiam ser alterados. Por isso, muitas vezes foram feitas várias modificações: inclusões, alterações, exclusões.

No tempo de Cristo havia discordâncias: os saduceus acreditavam somente na Torá, enquanto os fariseus acreditavam em todo o resto.

Nos dias de hoje muitas são as discordâncias. Ao todo são sete livros sagrados diferentes para o cristianismo: Bíblia evangélica, Bíblia católica, Bíblia ortodoxa... E ainda devemos levar em consideração as outras tradições, como os muçulmanos ( Alcorão), o hinduísmo (Baghavad Gita – Vedas), e outros.



  • Quando dizemos, por exemplo, que a Torá é a palavra de Deus, podemos estar afirmando que outros livros não são. Ao mesmo tempo podemos estar legitimando uma fonte de poder. Cada tradição tem um livro sagrado. E isso é fruto de um processo histórico.


Revelação e inspiração
Dizer que algo é revelado ou inspirado por Deus é uma convenção – alguns grupos aceitaram o texto como inspirado, o que também pode ocorrer por decreto

Ser canonizado significa preencher os requisitos necessários exigidos para ser considerado como tal.


A Torá como ordenamento oficial

Esd 7,25-26: a Lei de Deus (Torá) passa a ser ordenamento oficial do rei, imposto pelo império persa.


Diferenças de Cânon

O cânon evangélico (das Igrejas Evangélicas) só considera, no Antigo Testamento, os textos escritos originalmente em hebraico. Daí surge uma diferença de sete livros que estão na Bíblia católica e não estão na Bíblia evangélica.

Já a Bíblia ortodoxa possui, a mais, os livros de 3º e 4º Macabeus.
A Palavra de Deus

Os indígenas, quando da comemoração dos 500 anos de evangelização, devolveram ao papa a Bíblia, como forma de protesto, assim como feito pelos Zulus na África na década de 40.

Um conjunto de textos em si, só por ter sido canonizado, não é Palavra de Deus. Ele será ou não somente a partir da maneira como funcionar na realidade da vida das pessoas.

Quando os missionários trouxeram a Bíblia aos povos nativos, ela era Palavra de Deus para eles – missionários. Porém, para os povos nativos a Bíblia não funcionou como tal.


O momento da revelação

No Antigo Testamento o principal momento da revelação de Deus é a experiência de Libertação que foi o Êxodo e as Tribos.

No Novo Testamento o grande momento é a Ressurreição como confirmação da vida de Jesus como modelo a ser seguido.

Estes são os dois grandes momentos de revelação de Deus na história do povo da Bíblia. Porém existe a seguinte questão: quem vai fazer a leitura destes acontecimentos à luz da fé? Quem fez a leitura da fé no Êxodo foram os escravos e camponeses que vivenciaram aquela experiência. Da mesma forma, com Jesus, quem o reconheceu como Filho de Deus foram os pobres e marginalizados – ao mesmo tempo em que as autoridades o viam como subversivo.

Os textos bíblicos nasceram da reflexão teológica que foi feita a respeito dos fatos que se deram na história. Não foram escritos com a intenção de fazer uma descrição pormenorizada dos acontecimentos, mas sim de trazer uma mensagem de vida que revele a presença do Deus Vivo na história do povo.

A revelação não está na letra, que é morta, mas sim no Espírito, que nos inspira e vivifica – nos inspira a vivermos de acordo com o projeto de Libertação de Deus (cf. 2Cor 3,6).

Revelação é a manifestação da Ação Libertadora de Deus, a qual não será definida por quem traz a palavra, mas por quem viveu a experiência. Quem leva a boa-nova não pode defini-la como tal, mas somente quem a receberá. Por exemplo, os índios receberam algo que era chamado de Boa-Nova (Evangelho), mas que para eles, na experiência vivida, não foi boa-nova.

Nós devemos ser ecumênicos até a raiz” (Dietrich)


Inspiração Literal e Leitura Fundamentalista
É incabível a idéia de inspiração literal da Bíblia considerando que a língua original do texto já não é falada há muito tempo, e é impossível, em muitos casos, efetuar uma tradução fiel devido à diferença de época e de linguagem. Poderíamos perguntar: por que a inspiração não chegaria então até as línguas faladas hoje?

A leitura fundamentalista torna impossível a compreensão de textos que tiveram seu conteúdo original modificado.


Contradições teológicas

Além disso, as contradições teológicas também vêm de encontro a este tipo de leitura: comparar 2Sm 24,1 com 1Cr 21,1, onde é contada a mesma história com uma gritante contradição no que se refere ao protagonista. Neste exemplo há uma diferença de 400 anos de reflexão teológica. Na época de 2Sm acreditava-se que tanto as coisas boas quanto as ruins vinham de Deus. No pós-exílio já havia a compreensão de que Deus só faria coisas boas, sendo as ruins atribuídas a seu opositor.

Quem matou Golias? 1Sm 17 é a história da luta. Neste texto 23 vezes o adversário de Davi é chamado “filisteu” e somente duas vezes se dá a ele o nome de Golias: comparar 1Sm 17 com 2Sm 21,19.

O texto de 1Crônicas 20,5 resolve a questão de Davi e Elcanã, no qual Elcanã matou o irmão de Golias; isto para manter a versão de 1Sm.

Se a Bíblia tivesse sido inspirada literalmente não ocorreria esse tipo de contradição.


  • A leitura fundamentalista está mais adaptada à visão individualista de nossa sociedade (eu contra o mundo). Isto dá margem ao crescimento do cristianismo individualista (Deus é fiel comigo) que é pregado e difundido nas igrejas atualmente. O Cristo deste modelo de igreja é aquele que diz: “eu vim para que todos tenham ritos, sacramentos e igrejas em abundância”.

Num texto como Mt 25, a leitura fundamentalista passa a ser espiritualista. A construção do Reino, nesta visão, acontece apenas no “agir” espiritual – espiritualiza os desafios, porém materializa a recompensa.

O que se chama de cristianismo hoje tem muito mais a ver com o império romano que com Cristo”.(Dietrich)

Como a Bíblia nos conta a história desde a Criação até Salomão?
- CRIAÇÃO: dos céus; Terra; Adão e Eva

- Caim e Abel (Gn 5,1-5 eles não aparecem)

- Filhos de Deus e filhas dos homens (Gn 6,1-4 = texto enigmático)

- Dilúvio

- Descendência de Noé (vai até Sem)

- Descendência dos filhos de Noé (Gn 10)

- Torre de Babel (Gn 11)

- Descendência de Sem (dos semitas), em Gn 11,10. Vai até Taré, pai de Abraão.

- Abraão: Sara, mãe de Isaac e Agar, mãe de Ismael, aquele que deu origem aos árabes (ismaelitas).

- Isaac: Rebeca, mãe de Esaú (pai dos edomitas) e Jacó.

- Jacó trabalha 7 anos por Raquel e lhe foi entregue Lia.

- Jacó, com Lia e Raquel, teve 12 filhos e 1 filha.

- Com José (filho de Jacó) todos vão para o Egito, e permanecem lá por 430 anos (Gn 12,40).

- Saíram do Egito 600 mil homens (pelo menos mais de um milhão de pessoas).

- Moisés e Aarão: as Pragas; passagem no Mar Vermelho...

- 40 anos no deserto: toda a Torá se refere a este período, não tendo nada em sua literatura sobre os 430 anos no Egito.

- Josué comanda a segunda geração (da geração que saiu do Egito morreram todos) e a Entrada na Terra Prometida.

- Para entrar em Canaã tiveram que matar todos os cananeus – todos eles foram massacrados (Js 10).

- Na Assembléia de Siquém abandonaram os deuses estrangeiros e optaram pelo Deus YHWH.

- Fixam-se na terra e a distribuem: época dos JUÍZES.



O livro de Rute foi escrito como se fosse dessa época, mas não é.

- Saul é o primeiro rei

- Davi é o segundo rei: conquista Jerusalém e une as 12 tribos.

- Salomão sucede Davi: constrói o Templo de Jerusalém.

Toda esta história é contada como se fosse coordenada por YHWH. Ele manda os massacres, ordena a construção do Templo... Tudo em nome de YHWH.

...a Bíblia diz que Jacó era analfabeto, pois ele amava Raquel e não Lia.”


Dificuldades e problemas que a história da Bíblia nos apresenta

  • Criação: em seis dias X teoria do evolucionismo.

  • Caim e Abel: a mulher de Caim veio de onde?

  • Gn 5: não aparece Eva nem Caim e Abel.

  • Quem são os filhos de Deus e as filhas dos homens e os gigantes?

  • Deus se arrepende do que faz (dilúvio).

  • Toda a humanidade descendente de uma única família?

  • Exagero nas idades dos personagens.

  • 600 mil homens saindo do Egito (assim como os outros números)

  • matança ordenada por Deus.

  • Monarquia, que traz sofrimento ao povo, sendo abençoada por YHWH.


Alguns mitos que aparecem

  • da criação: todo Gn 1-11 é composto de narrativas míticas

  • dilúvio: difundido entre outros povos

  • mulher de Ló transformada em pedra

  • torre de Babel

  • Ismael

  • Bezerro de Ouro

  • cobra de ouro que cura picadas de cobras

  • queda dos muros de Jericó

  • Força de Sanção


Conseqüências da leitura fundamentalista e Como fazer Leitura Popular.

FUNDAMENTALISMO

CONSEQÜÊNCIAS PASTORAIS

COMO FAZER LEITURA POPULAR

  • Não se chegará à verdade

  • Deixa o povo com medo da Palavra de Deus

  • Aliena da vida concreta

  • Visão equivocada de Deus – valorizando apenas seu poder.

  • Dissociação entre o texto e sua realidade.

  • Preso à letra e sem ação.

  • Visão mágica da ação de Deus.

  • Não faz leitura, mas apenas recortes.




  • Paralisa a luta

  • Favorece o moralismo e o fanatismo.

  • Cria preconceitos.

  • Pastoral desfocada.

  • Mata a diversidade.

  • Distanciamento de Deus.

  • Práticas opressoras, baseadas em cumprimento de regras.

  • Fé superficial.

  • Prática da teologia da retribuição.

  • Visão mítica do mundo.

  • Fé como aceitação da letra (dogmatismo).

  • Ritualismo, eclesiocentrismo.

  • Ver contexto histórico.

  • Ler em comunidade.

  • Trazer para nossa realidade.

  • Celebrar.

  • Ver a função social do texto em seu contexto.

  • Partilha – troca de vivências.

  • Mudança de paradigmas.

  • Análise de contexto.

  • Leitura baseada na realidade da comunidade.

  • Não fazer leitura individualista.

  • Sair da instituição.

  • Ecumenismo

  • Igrejas domésticas

Nós, no mundo de hoje, devemos ter uma fé que consiga, no mínimo, dialogar com a ciência”.(Dietrich)



Para não tomarmos os escritos de maneira fundamentalistas devemos considerar o seguinte:
MUNDO.......................4.500.000.000 anos (quatro bilhões e quinhentos milhões)

HUMANIDADE....................600.000 anos

CULTURA...............................25.000 anos

MITOS DE GÊNESIS 1-11
Consangüinidade

Os mitos de Gn 1-11 não tinham relação entre si. Eles circulavam separadamente e a ligação entre eles ocorreu depois, principalmente através das genealogias que aparecem seguidamente no decorrer do texto.

É o fio da consangüinidade que torna a todos parentes entre si. Esse mesmo fio também continuará nos próximos capítulos de Gênesis. É importante lembrar que estas costuras se davam muito naturalmente devido a estes textos ainda não serem considerados sagrados na época.
A Criação
Todos os povos antigos têm suas histórias que explicam o surgimento do mundo. Na Bíblia temos duas histórias:
1º) a criação em seis dias

- tudo cheio de água, então Deus separa as coisas


2º) a partir de Gn 2,4b

- a terra está seca

- muda a forma do nome de Deus: Javé Deus

Provavelmente o segundo mito é o mais antigo. O segundo, por falar da terra seca (deserto) tem mais a ver com Israel, e o outro lembra mais as cheias dos rios Tigre e Eufrates.


Função social do mito

Cada povo tem sua história, e cada história tem sua função. Essas histórias devem ser entendidas a partir da cultura na qual foram criadas.

Um dos problemas que põe obstáculos ao ecumenismo é quando se desvaloriza o que é de outra cultura por considerar a Bíblia como Palavra de Deus. E devemos lembrar que, quando estas histórias foram inseridas no texto bíblico, este texto não era considerado como sagrado.

O que estes mitos querem nos dizer é: a Vida vem de Deus. Se foi do barro ou de outra coisa não se sabe.


O rei feito à imagem de Deus

Na Babilônia somente o rei era imagem de Deus. Somente ele poderia submeter a si todas as coisas. Portanto este mito da Bíblia tem o valor da resistência contra a visão pregada na época, que legitimava o poder do rei.

Se a exegese já sabe dessas coisas há 80 anos, por que nossa catequese continua com a visão antiga? A visão fundamentalista legitima o poder supremo de Deus que é transmitido por seus mediadores (templo, sacerdote, etc.), o que legitima, em última instância, o poder destes mediadores.
A leitura fundamentalista obriga a optar por uma coisa ou por outra. Ou Darwin ou a Bíblia”.(Dietrich)

O Dilúvio
A história do dilúvio aparece devido a grupos se aproveitarem da situação do medo que o povo tinha de enchentes.

A história do dilúvio na Bíblia mostra que ele acontece devido à maldade e violência do homem, na Babilônia ele ocorre para acabar com o barulho e a bagunça que os homens estavam fazendo.


O mito a serviço do poder

Para os babilônicos o dilúvio não aconteceria mais se continuassem fazendo sacrifícios aos deuses. Aqui o mito babilônico está a serviço dos que são beneficiados pela estrutura dos sacrifícios.




  • Enquanto para o mito babilônico há uma imposição de condições (sacrifícios), para o mito da Bíblia é diferente, não há condições. Desta forma a história da Bíblia liberta o povo do medo que se sentia do dilúvio, ao mesmo tempo libertando da cobrança de impostos que existia para que não ocorresse a tal catástrofe: todo ano as cheias dos rios da Babilônia eram ocasião para que os sacerdotes do lugar cobrassem dos camponeses parte de suas colheitas, para que a cheia não se tornasse dilúvio.


Caim e Abel
Caim é agricultor sedentarizado (está fixado em um lugar). É desta agricultura sedentarizada que surgem as cidades. Antes da agricultura era impossível a instalação humana fixada em um local. - Provavelmente a agricultura foi descoberta pelas mulheres: existiam sociedades matriarcais.

Abel é pastor nômade: vivem entre a terra fértil e o deserto (estepes). Na terra fértil está o agricultor. O pastor, em sua vida nômade, por estar fora da estrutura da cidade, fica fora da cobrança dos tributos.




  • A história de Caim e Abel representa estes dois modos de vida: agricultores X pastores.

A catequese nos conta que Deus escolheu Abel porque sua oferta foi mais generosa. Porém a Bíblia conta que os dois deram do fruto de seu trabalho. Dependendo de quem conta muda-se a interpretação. Para favorecer o templo, a história é contada tendo como seu ponto principal a qualidade das ofertas.


Sodoma e Gomorra
Gn 18,22-33 – moral desta história: não havia nem dez justos na cidade. Os únicos justos eram uma família de pastores que foi salva. Era uma história passada de pastores para pastores com o seguinte ensinamento:


  • Os pastores devem continuar sua vida como pastores, pois a cidade é o local do mal e será destruída por Deus.

Os pastores, na época da seca, tinham que entrar nas terras do rei e passavam a pagar impostos. Isto significava entregar praticamente todo o rebanho, quando não, entregavam a própria família (Gn 12,10-13; 20,1-2; 26,1.7). Nestas histórias as mulheres não falam, porém nunca lhes acontece nada, pois Deus as defende. Eram histórias transmitidas pelas mulheres, pois demonstram a covardia dos homens (maridos) e a injustiça dos homens (reis). Estas histórias poderiam até oferecer proteção às mulheres, pois trazem o ensinamento de que Deus está a seu favor – não mexa com as mulheres, pois Deus está do lado delas.

O conflito: PASTORES x AGRICULTORES, hoje, pode ser representado pelo conflito AGRICULTURA ORGÂNICA x AGRO-NEGÓCIO.
A gente tem que discernir por onde passa a vida” (Dietrich)
O poema da Criação
As Dez Palavras Criadoras de Deus

Gn 1 a 2,1-4a: Podemos fazer o exercício de “retirar” do texto a estrutura dos dias excluindo o refrão “houve uma tarde e uma manhã (...) dia”. O que surgirá deste novo texto é um poema onde a criação ocorre a partir de Dez Palavras Criadoras de Deus. Isto terá sido determinante para o Decálogo. Deus criou o mundo com Dez Palavras e o povo de Israel foi formado a partir das Dez Palavras da Lei.


Um dia para o descanso

A história original da criação é a da estrutura das Dez Palavras, porém, no exílio, o esquema dos dias veio para favorecer o povo escravizado que não tinha descanso. Vem daí o sétimo dia para o descanso.

O rosto do Deus Libertador aparece no fato de todos serem criados como sua imagem e semelhança - para os babilônicos apenas o rei era imagem de Deus, o que legitimava sua dominação sob todo o povo. Por isso, na Bíblia, Deus dá poder a toda a humanidade para dominar sobre a criação.


  • A expressão “façamos o homem” explica-se na origem do mito no Egito, onde a assembléia dos deuses diz “façamos”. A forma plural continuou no texto, até porque era uma época em que Israel não era monoteísta.



A HISTÓRIA DE ISRAEL COMEÇA COM O ÊXODO
Antes do Êxodo Israel não existe. Ele é a experiência fundante do povo organizado como tal.

  • Fazer a leitura de Êxodo 12 até 13,14 e procurar as diferentes denominações para a experiência do Êxodo. Neste exercício podemos perceber quatro grupos:




    1. Fugiram (Ex 14,5)

    2. Saíram (Ex 14,8) de braços erguidos / bem armados (Ex 13,18).

    3. Foram expulsos (Ex 12,33.39)

    4. YHWH os tirou com braço forte, ou, YHWH os fez sair (é uma leitura teológica)


O Êxodo como modelo

A história do Êxodo se tornará modelo para contar todas as outras histórias de libertação do povo. Assim, a cada experiência de opressão e libertação ocorria uma releitura do Êxodo e possíveis alterações no texto – até o ano 400 a.C.

Provavelmente o núcleo histórico - a história mais antiga - seja a dos que fugiram. Isto teria se dado com um grupo pequeno. Certamente não ocorreu da maneira grandiosa e de uma só vez como conta a visão literal.
O Êxodo como ação mágica de Deus

Para nós, a perspectiva que mais nos foi passada é a que demonstra o poder de Deus. O que mais impressiona são as manifestações como: pragas do Egito, abertura do Mar Vermelho...

O caráter mágico da ação de Deus esconde a resistência e a luta dos grupos oprimidos. Além disso, a visão do Deus Poderoso reforça o poder da mediação entre Deus e os homens, pois são os mediadores que têm a autoridade e exercem este poder em nome de Deus.
Leis coerentes com a vida

No Decálogo, em seu cabeçalho, Deus se apresenta como aquele que tirou o povo da casa da servidão. Portanto as leis ali descritas devem criar uma sociedade coerente com esse Deus que quer a liberdade do seu povo.


Os dez mandamentos a gente pode esquecer. A gente só não pode esquecer o que é mais importante: que Deus quer seu povo livre.” (Dietrich)


Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal