Araguaia Militar confirma ordem de torturar e exterminar



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Araguaia - Militar confirma ordem de torturar e exterminar

Esclarecedora versão de uma história que, passados 33 anos, não possui desfecho.

Vasconcelo Quadros





Ex-chefe de um dos Grupos de Combate (GCs) responsáveis pela execução de 32 guerrilheiros no Araguaia e araponga do Centro de Inteligência do Exército até 1994, o tenente José Vargas Jiménez tirou do armário revelações que estão causando desconforto e mal-estar nos quartéis: admite e detalha os métodos de tortura usados no período que ele mesmo chama de "fase de extermínio" dos militantes do PC do B e assume a autoria da destruição de todos os documentos sobre a guerrilha que se encontravam no serviço de inteligência de Belém. Além disso, é o primeiro combatente a jogar luzes sobre possíveis locais onde possam estar os restos mortais de alguns dos 58 militantes do PC do B desaparecidos no Araguaia.

- Uma parte foi enterrada ou ficou insepulta na selva e outra nas bases militares de Bacaba (São Domingos do Araguaia), onde ficavam os GCs de selva, Xambioá (cemitério), área dos pára-quedistas e na Casa Azul (Marabá), dominada pelos oficiais de inteligência - diz o tenente Vargas em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil.


Araguaia - Cadáveres viram comida de animais

Na entrevista exclusiva ao JB, tenente José Vargas Jiménez assegura que alguns dos corpos dos 58 guerrilheiros desaparecidos ficaram insepultos e viraram alimento dos animais da floresta. Mas uma boa parte estaria sepultada clandestinamente em três bases militares. Em Bacaba, onde ficou baseado durante os 145 dias que atuou na selva como combatente, revela que pelo menos três guerrilheiros estariam num local próximo a um improvisado campo de futebol.

Em outro local apontado por ele, o Cemitério de Xambioá, em 1996, foi encontrada e identificada a guerrilheira Maria Lúcia Petit e retiradas para exames de identificação outras 12 ossadas que, 12 anos depois, ainda fossilizam nos armários da Comissão de Mortos e Desaparecidos da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, em Brasília, sem qualquer conclusão conhecida.

O tenente Vargas relata três episódios do conflito em que diz ter participado. Um deles foi o ataque militar ao comando da guerrilha, no Natal de 1973, na Serra das Andorinhas onde, segundo afirma, foram mortos oito guerrilheiros - e não quatro ou cinco como informam todos os outros relatórios militares e do PCdoB, entre eles o maior dirigente do do partido e líder do movimento, o ex-deputado Maurício Grabois.



Mais mortes

Segundo o militar, também teriam sido mortos nessa ocasião e depois levados para Xambioá pelos pára-quedistas, os guerrilheiros Paulo Roberto Pereira Marques, o Amauri, José Huberto Bronca, o Fogoió, Gilberto Olimpio Maria, o Pedro Gil, Paulo Mendes Rodrigues, Guilherme Gomes Lund, o Luiz, Orlando Momente, o Landim ou Alexandrine, e Marcos José de Lima, o Zezinho do A ou Ari Armeiro, que fabricava e consertava armas para a guerrrilha.



Plano de guerrilha

No mesmo local foram apreendidos os principais documentos do PCdoB, entre eles, o plano da guerrilha para os primeiros quatro anos (1968-1972) - que Vargas, ou Chico Dólar, retirou do arquivo para destruição, mas guardou com ele uma cópia. O plano previa a estruturação de uma zona liberada, a criação de um exército regular e a ampliação da revolução no país para tomar o poder dos militares.

No mesmo período, Vargas diz que participou do episódio que resultou na execução, em 24 de outubro de 1973, da guerrilheira Maria Lúcia de Souza, a Sônia. Ela reagiu à ordem de prisão e, mesmo ferida, baleou dois oficiais (Lício e Curió) e depois foi metralhada por todos os militares que estavam na cena, entre eles o próprio Vargas. Mas ele não assume a autoria dos disparos, para evitar a auto-incriminação uma situação muito temida entre os militares:

- Não sou réu confesso - afirma.


Fonte: jbonline.terra.com.br

Ele decidiu falar depois de livrar-se de uma sindicância aberta pelo Comando Militar do Oeste, em Campo Grande (MS), para apurar a divulgação de documentos secretos e seu relato no livro Bacaba - memórias de um guerreiro de selva da Guerrilha do Araguaia, em fase de lançamento.

Na publicação, que, por enquanto, circula de mão em mão, ele conta, com sinceridade brutal, os principais episódios que diz ter participado, entre 2 outubro de 1973 e 27 de fevereiro de 1974. Revela, por exemplo, que mulheres e filhas de moradores eram feitas prisioneiras, torturadas e tiveram de se prostituir para sobreviver. E crueldade não pára por aí: as famílias de camponeses, com medo, ofereciam as filhas adolescentes aos militares. Havia, também, uma rivalidade entre as tropas para ver quem matava mais. Os homens de seu GC, como nos filmes de faroeste, faziam um risco na arma para contar quantos executavam.

Atirar primeiro

Esse foi o período da chamada Operação Marajoara, comandada pelo ex-secretário de Segurança Pública do Rio general Nilton Cerqueira, e que reuniu os oficiais mais experientes das Forças Armadas especializados em guerra na selva. No total, eram 100 pára-quedistas e outros 120 homens treinados no Centro de Operações na Selva e Ações de Comando (Cosac).

Com a guerrilha já isolada pela operação anterior, a Sucuri, eles entraram no circuito da guerrilha com nomes, fotografias de guerrilheiros, mapas, normas de procedimento, listas de moradores que deveriam ser presos e instruções muitos claras sobre a missão que deveriam executar:

- A ordem era atirar primeiro e perguntar depois. Nós entramos para matar, destruir. Não era para fazer prisioneiros. Tínhamos o poder de vida e de morte sobre os guerrilheiros. Era para exterminar e não vejo por que esconder que houve tortura ou que se tratou de um extermínio - afirma Vargas, comandante de um GC com 10 homens, subordinado ao então major Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, atual prefeito de Curionópolis, guardião dos segredos mais pesados do conflito e dono do arquivo onde estão as informações sobre o destino dos guerrilheiros.

Conhecido entre oficiais e combatentes pelo codinome de Chico Dólar, Vargas diz que, entre 1976 e 1978, quando voltou à região e ficou lotado no 52º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS) em Marabá, soube que Curió coordenou a limpeza da área, retirando vestígios da guerrilha e mandando desenterrar ossadas que se encontravam em sepulturas em locais previamente identificados na região.

- Não sei isso realmente aconteceu porque não vi. A ordem que recebi de superiores, já em 1985, quando estava em Belém, era reunir todos os documentos. Busquei nos arquivos, juntei tudo e queimei. A ordem era destruir e cumpri. Isto eu assumo - assegura

A história da incineração dos corpos num local nunca encontrado da Serra das Andorinhas é uma polêmica questionável e veio à tona em 1993, pelo relato do coronel da Aeronáutica Pedro Corrêa Cabral no livro Xambioá. Oficiais que participaram diretamente do conflito ou do rescaldo das operações, como Curió e o coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, a contestam. Uma das hipóteses mais prováveis, é que Curió tenha mandado retirar alguns corpos de antigas sepulturas e colocado todos numa única vala no município de Palestina. O local, segundo depoimentos de guias do Exército e moradores da região, seria hoje uma grota cheia de túneis.



Processo do Exército derruba versão oficial sobre guerrilha




Um processo administrativo de rotina, aberto por um militar interessado em ganhar uma medalha, derruba a versão de que o Exército não tem em seus arquivos documentos secretos sobre as operações contra a guerrilha do Araguaia. Uma série de telegramas e ofícios comprovam também a prisão, o interrogatório e a tortura de militantes do PCdoB que foram capturados vivos e, depois, dados como "desaparecidos".

Leonencio Nossa,
de Brasília, para O Estado de S. Paulo*
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Desde 1982, quando parentes de guerrilheiros, sobreviventes do movimento armado e pesquisadores pediram na Justiça Federal a entrega dos arquivos para ajudar na localização dos corpos dos "desaparecidos", o Comando do Exército ou diz que os documentos não existem ou que foram queimados ao final das operações anti-guerrilha, em 1975.

Em dezembro de 2004, o então comandante da Força, general Francisco Roberto de Albuquerque, disse que em suas unidades não havia documentos referentes à guerrilha do PCdoB que atuou na divisa dos Estados de Tocantins (na época, Goiás), Pará e Maranhão de 1972 a 1975 e que resultou na morte de 59 guerrilheiros, quatro civis e 16 militares.

Parte dos documentos, carimbados com a palavra "secreto", com as informações que o Exército diz não possuir, foi entregue, em casa, em 1990, ao tenente da reserva José Vargas Jiménez. Ele é o autor do pedido - que resultou em um processo administrativo - para ser agraciado com a medalha do Pacificador, comenda do Exército que lhe foi concedida por ter participado do combate à guerrilha quando era sargento e usava o codinome "Chico Dólar".

Em vez de manter o sigilo sobre o material recebido, Jiménez publicou um pequeno livro em outubro de 2007, em Campo Grande (MS), cidade onde mora. Isso levou o Exército a abrir uma sindicância para apurar o vazamento de documentos sigilosos. A sindicância foi arquivada em janeiro deste ano - sem negar a autenticidade dos documentos -, mas os fac-símiles começaram a circular abertamente neste mês por meio do blog de um outro militar da reserva.

Execuções

Até hoje, o Exército admitiu, no máximo, que os militares que combateram a guerrilha podem ter agido "fora dos ditames legais do Estado de direito", como disse o general Albuquerque há três anos. Ele reagia à decisão de julho de 2003, da Justiça Federal, que mandou quebrar os sigilos dos arquivos do Exército - por causa dos recursos da própria União, o assunto tramita até hoje na Justiça sem decisão final.

Os documentos oficiais em poder do tenente Jiménez dão provas de que muitos dos mais de 20 guerrilheiros que resistiram até o começo de 1974 não foram mortos em combate. Algemados, eles chegaram com vida às bases de Marabá, Bacaba e Xambioá.

A lista dos guerrilheiros que prestaram depoimento nas bases inclui, entre outros, Antônio de Pádua Costa, o Piauí, Dinalva Teixeira, a Dina, Áurea Valadão, a Áurea, e os irmãos Elmo Corrêa, o Lourival, e Maria Célia Corrêa, a Rosinha.



Caso Dina

O caso da geóloga baiana Dinalva Teixeira, a Dina, a mais famosa comunista do movimento armado da Amazônia, é um dos mais emblemáticos. No ano passado, a Secretaria de Direitos Humanos publicou o livro Direito à Memória e à Verdade, reunindo todas as versões sobre a morte de Dina e de outros guerrilheiros. No caso dela, o livro só inclui relatos extra-oficiais, nunca com a chancela de um documento oficial.



O capitão Aurélio da Silva Bolze, encarregado de reunir os documentos para dar a medalha do Pacificador a Jiménez, recebeu o seguinte telegrama, datado de 12 de junho de 1990, dos sargentos José Albérico da Silva e Paulo Eduardo Cunha e do cabo Marcelino de Oliveira, que estiveram no Araguaia: "O sgt Vargas integrou equipe de busca e apreensão e equipe de resgate. Foi também emboscado pela equipe da 'Dina', que, posteriormente presa e interrogada, declarou ter desistido da emboscada."


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