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Aramis C. DeBarros
Doze Homens,

Uma Missão




D286d
DeBarros, Aramis C.

Doze homens e uma missão / Aramis C. DeBarros. - Curitiba : Editora Luz e Vida, 1999.

338pp ; 16x23cm.
ISBN 85-86113-44-1

Inclui bibliografia


1. Jesus Cristo - Missões dos doze apóstolos.

2. apóstolos - Biografia. I. Título.


CDD-225.92

© 1999 Editora Luz e Vida



Editor: Samuel Eberle dos Santos

Coord. de Criação: Dieter Fuchs

Revisão e Diagramaçao: David de Araújo

Capa: Marianne Bettina Richter

Obra da capa: Ultima Ceia - 1445/50 Andréa Del Castagno
Todos os direitos reservados para:

EDITORA LUZ E VIDA

Rua Trajano Reis, 672

80510-220 Curitiba/PR

Fone/fax 041 323-2244

www.luzevida.com.br
1a edição 1999: 3.000 exemplares

2a edição 1999: 4.000 exemplares

Dedico esta obra...
Ao meu pai Claudino,

Uma personalidade marcante, uma mente brilhante e um pai sem­pre presente.


A minha mãe Nelita,

Pelo amor, carinho e dedicação acima de qualquer medida.


Ao meu irmão DArtagnan,

Exemplo que conservo de um viver laborioso, triunfante e gene­roso.


A minha irmã Cláudia,

Cuja perseverança, as vicissitudes da vida não puderam furtar.


E a minha Vó Izolina,

Que, partindo, levou para o porvir um pouco da minha história.

Sumário

Nota do Autor



Prefácio

Uma Introdução ao Mundo Apostólico



Os aspectos facilitadores da difusão da fé cristã no mundo greco-romano

Os fatores inibidores da historicidade apostólica

A visão estratégica dos apóstolos

Bartolomeu



A vocação de Bartolomeu

Bartolomeu na Ásia Menor

Bartolomeu rumo ao oriente

Bartolomeu, o Iluminador da Armênia

Os restos mortais

Mateus


Uma profissão indigna

Mateus visto pelas lendas da tradição cristã

A morte de Mateus

Os restos mortais de Mateus

Simão Zelote



A obscura origem de Simão Zelote

Violência e morte na saga dos zelotes

A missão às Ilhas Britânicas

As contradições acerca de sua morte

Os restos mortais de Simão Zelote

Judas Iscariotes



Judas, um tesoureiro pouco confiável

O breve apostolado de Judas

A traição

O suicídio de Judas

Uma vaga a ser preenchida

Matias, o incógnito substituto de Judas

Tomé


Uma personalidade marcante

A rica tradição sobre as missões de Tomé

Como se deu o martírio de Tomé?

As relíquias e o túmulo de Tomé

André


Seguindo os passos de João Batista

As missões no leste europeu e o martírio em Patras, na Grécia

Teria André estabelecido a Igreja de Bizâncio?

Os restos mortais

Filipe


O outro apóstolo Filipe

O apóstolo Filipe, um dos doze do Senhor

O apostolado de Filipe na Frígia

O embate teológico em Atenas

Teria Filipe evangelizado a Gália?

Filipe, sepultado em Hierápolis ou em Roma?

Judas Tadeu



A conexão com a Igreja Armênia

Outras possíveis missões de Tadeu pelo mundo antigo

A morte de Judas Tadeu

João


A influência de João Batista

João, discípulo de Cristo

O discípulo a quem Jesus amava

João e a ressurreição de Cristo

O ministério de João no Livro de Atos

O ministério de João em Éfeso

Teria João ministrado na capital imperial?

O exílio em Patmos e o retorno a Éfeso

O local do descanso de João

Os doisTiagos



Quem foi Tiago, o Justo?

O obscuro Tiago, filho de Alfeu

A lendária semelhança física com Jesus

Seria Tiago Menor também um zelote?

A semelhança entre o martírio de Tiago Menor e de

Tiago, o Justo

Os restos de Tiago Menor seriam de Tiago, irmão de Jesus?

Tiago Maior, o filho de Zebedeu

Como se explica a ausência de Tiago Maior em Atos?

Teria ocorrido a missão de Tiago à Espanha?

Tiago Maior, o primeiro mártir dos doze

O lendário traslado dos restos de Tiago para a Hispânia

As alternativas ao achado das relíquias de Tiago na Espanha

Simão Pedro



O chamado de Pedro

As peripécias de um discípulo tempestuoso

Pedro nega a Jesus

A ressurreição de Cristo: um recomeço para Pedro

A ousadia de Pedro em Atos dos Apóstolos

As missões de Pedro no mundo gentílico

O ministério e a execução de Pedro em Roma

Petronila, a lendária filha de Pedro

Os restos mortais de Pedro

A controvertida primazia de Pedro e sua suposta relação com o papado

O bispo de Roma e o título de "Pontífice Máximo"

Pedro, o príncipe dos apóstolos

Bibliografia


Nota do Autor


Fazia frio naquela manhã ensolarada de primavera de 1988, quando eu e um recém conhecido pastor americano nos dirigimos a Rainbow Christian Supplies, no centro de Great Falls, uma cidade de Montana, Estados Uni­dos. Meu encanto em pisar pela primeira vez numa livraria evangélica ame­ricana não pode ser disfarçado; entretanto, o objetivo inicial de concentrar minhas compras na seção de música gospel foi imediatamente mudado em face da abundância literária que ali encontrei. Jamais havia presenciado qualquer coisa semelhante! Títulos e títulos dos mais variados autores sobre os temas mais impensáveis disputavam minha atenção. Ao passar lenta e repetidamente por aquelas prateleiras, deparei com um livro que, embora pequeno e quase escondido por outros volumes, fez-me esquecer dos de­mais atrativos da loja. The Search for the Twelve Apostles (Em Busca dos Doze Apóstolos), do até então por mim desconhecido William Steuart McBirnie, era o único título disponível sobre um assunto que há muito acendia meu interesse. O agradável folhear daquelas páginas deu-me a certeza de ter, finalmente, encontrado algo que poderia responder às indagações que há muito nutria com respeito ao destino dos discípulos de Jesus.

Ao retornar ao Brasil, um mês depois, decidi começar alguns estudos sobre a matéria, já que me considerava privilegiado por poder recorrer a esta importante fonte de consulta. Esses planos, infelizmente, tiveram de ser interrompidos ainda em sua fase embrionária, para dar lugar a outras atividades prioritárias naquele momento.

Contudo, em fins de outubro de 1994, , ao assumir a direção do culto de estudos bíblicos da Igreja Batista Nova Vida, em Guaratinguetá (SP), pensei em reiniciar as investigações sobre o tema e ministrá-lo em tempo oportuno. Poucas semanas após a retomada do projeto, percebi que o assun­to, por seu pesado conteúdo histórico, tornaria-se por demais "indigesto" para ser apresentado a um público tão heterogêneo como o daquela Igreja. Ao mesmo tempo, ocorreu-me estar de posse daquilo que poderia se tornar o começo de um ousado projeto literário de investigação sobre a carreira bíblica e extra-bíblica dos apóstolos de Jesus.

Deste modo surgia aquilo que chamei, a princípio, Doze Homens, Uma Missão.

Hoje, quase onze anos depois, sinto-me grato a Deus por poder encerrar esta pequena contribuição ao universo literário cristão de meu país. Devo confessar, entretanto, que por vezes pensei seriamente em desistir. A inexperiência com o exercício da autodisciplina — indispensável para quem se envolve em trabalhos extensos como este — e a quase inexistência de fontes de pesquisa sobre o tema em língua portuguesa ocasionalmente dei­xaram-me abatido. Fortaleceu-me, por outro lado, a certeza de que esta obra preencheria uma importante lacuna na literatura cristã brasileira e conferiria aos seus leitores o raro prazer de viajar através das muitas tradi­ções que relatam — as vezes fantasiosamente, é verdade — alguns feitos dos doze homens aos quais devemos as raízes de nossa fé.

Motivou-me também o desejo de contribuir para a fragmentação dos mitos que a tradição eclesiástica gradativamente erigiu sobre eles — em es­pecial sobre os mais destacados — e que tanto tem contribuído para desfocar seu verdadeiro perfil. Portanto, nas páginas que cabem a cada um dos doze, o leitor não os encontrará apresentados como heróis infalíveis ou "santarrÕes" inabaláveis, pois se assim os retratasse, não estaria sendo honesto com o propósito que assumi ao iniciar essa pesquisa.

Nesses dias em que presencio jubiloso o florescimento da fé cristã no Brasil, cresce proporcionalmente em mim a preocupação com a apostilicidade daquilo que vejo ser propalado aqui e acolá como doutrina cristã. A história eclesiástica nos tem legado alguns exemplos de como o crescimento explo­sivo da Igreja, por vezes, ocorre em detrimento da pureza de sua doutrina original. Preocupa-me também constatar que os mecanismos de aferição daquilo que proclamamos de nossos púlpitos — contagiados que estão por um secularismo ameaçador — parecem cada vez mais confusos e distantes da simplicidade dos longínquos tempos de Simão Pedro e seus companheiros.

Por outro lado, reconheço que o resgate dos valores históricos importan­tes e tangentes de nossa fé não é uma tarefa fácil, especialmente nesses confusos dias de pós-modernidade. Muitos cristãos "modernos" infelizmente têm espelhado a superficialidade e a trivialidade com que o cidadão atual se relaciona com a realidade que o cerca. De modo crescente, uma fé utilitarista e hedonista tem ocupado, nas mentes e corações de muitos fiéis, o espaço outrora preenchido pelas preocupações com a historicidade e o conteúdo doutrinário daquilo que nós cristãos professamos crer.

Diante disto, creio que a familiarização com a carreira dos doze vocacionados de Cristo — dentro das limitações históricas que nos são im­postas — pode significar para o crente sincero um conhecimento mais sig­nificativo dos valores, das ênfases, das prioridades e da estratégia com os quais estes santos lançaram o chamado fundamento dos apóstolos, do qual Jesus é a pedra angular e sobre o qual estamos todos edificados (Ef 2.20). Essa preocupação, diga-se de passagem, constituiu parte crucial daquilo que me compeliu a elaborar Doze Homens, Uma Missão.

Confesso, ademais, que não pretendi solucionar todos os mistérios milenares que envolvem a carreira dos discípulos de Cristo. Na verdade, estou seguro de que tal tarefa seria impossível mesmo ao mais capacitado e bem servido dos pesquisadores. Afinal, uma parcela significativa dos em­preendimentos desses santos - como o leitor logo perceberá - foi desafortu­nadamente sepultada por um silêncio histórico que não nos legou senão conjecturas sobre lendas - muitas delas inconsistentes - de suas missões pelo mundo antigo. Nessas narrativas, com freqüência, a fiel descrição das realizações apostólicas ficou comprometida ao ceder lugar à fantasia e ao misticismo do escritor medieval, em sua sede de associar os discípulos de Cristo às origens de muitas igrejas ao redor da Europa, Oriente Médio e norte da África.

Finalmente, e a despeito de todas essas dificuldades, meu desejo prepon­derante é de que estas páginas sejam um convite a que o leitor reflita, de modo particular, sobre a dedicação com que esse homens valorosos empre­enderam as missões através das quais a fé cristã — atravessando os tormentos da história - chegou até nós, bem como sua disposição de selar com a vida o testemunho do evangelho que anunciaram não só em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da Terra (At 1.8)!

Este trabalho é, portanto, um humilde tributo ao esforço, ao desprendimento à sabedoria, à fidelidade dos quais o mundo certamente não era digno (Hb 11.38).


Aramis C. DeBarros

São José dos Campos, SP, Brasil

aos 12 de Junho do ano de N. S. Jesus Cristo 1999

"Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em últi­mo lugar, como se fôssemos conde­nados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens.(...)

Até à presente hora sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com nossas pró­prias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, su­portamos; quando caluniados, procuramos conciliação: até agora temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos."

1 Coríntios 4.9,11-13


Prefácio
Todos os que verdadeiramente amam ao Senhor Jesus gostariam de conhecer, de modo mais aprofundado, as biografias de seus discípulos, para além das informações disponíveis nos evange­lhos e no Livro de Atos. Quando, há algum tempo, meu amigo Aramis DeBarros me procurou para solicitar um prefácio para o livro que estava escrevendo sobre a vida dos apóstolos, cuidei que se tratava de uma obra simples e superficial. Não imaginava que este nobre autor teria a capacidade e a determinação necessárias para produzir um tomo de semelhante qualida­de e magnitude.

Doze Homens, Uma Missão é uma obra séria sobre os discípulos de Cris­to e dotada de uma envergadura - creio eu - nunca antes alcançada por qual­quer autor evangélico ou católico no Brasil. Pelo menos, que eu conheça.

Lendo este livro, surpreendi-me com o alcance e a profundidade da pes­quisa aqui conduzida. Uma vasta gama de informação inédita e muito inte­ressante é oferecida. O autor teve muito cuidado em recriar o ambiente histórico da época apostólica, necessário para uma melhor compreensão da vida dos santos em questão.

Com efeito, informações as mais diversas tiveram de ser devidamente avaliadas na produção deste livro. Afinal, como saber se o escritor antigo ou medieval reproduziu em sua obra um fato verídico ou uma fantasia? Sabe­mos que, infelizmente, dados seguros acerca da vida dos apóstolos, fora do Novo Testamento, são muito escassos. Imagino que não tenha sido fácil ao nosso autor avaliar com precisão todas essas informações. Mas, quem teria sido mais equilibrado e cuidadoso ao apresentá-las?

Os leitores que se interessam por biografias apostólicas certamente senti­rão que têm uma enorme dívida para com o autor, em função deste extraor­dinário trabalho de pesquisa. Aramis não mediu esforços para garimpar informações apostólicas de fontes onde não se pensava encontrá-las. Uma rápida olhada nas páginas desta obra evidenciará seus esforços na busca de fatos e escritos sobre a vida daqueles que - excetuados Jesus e Paulo - foram os personagens mais famosos do primeiro século. Quem poderia imaginar que semelhante obra procederia da pena de um leigo e não de um acadêmico, de um seminarista ou de um teólogo de gabinete?

Doze Homens, Uma Missão é muito bem escrito. Não é uma leitura monótona ou cansativa e seu valor sobressai pelos vários assuntos edificantes que permeiam a investigação do autor sobre a vida dos discípulos de Cristo.

Aramis DeBarros não é um evangélico que deseja reputar como fruto de lendas desprezíveis a exaltação que a Igreja Católica faz dos apóstolos. Ele não escreve motivado por tendências sectárias ou iconoclastas. Acredito que ninguém poderá acusá-lo de favorecer algum segmento religioso em particu­lar, mesmo sendo ele um autor de persuasão evangélica.

A extensão desta obra, per se, faz-nos concluir que o autor não omitiu os elementos essenciais de uma genuína pesquisa biográfica sobre os doze de Cristo. Antes, fez o máximo para iluminar o leitor sobre tudo o que, de modo relevante, diz respeito ao tema tratado. Creio, igualmente, que o lei­tor ficará satisfeito e esclarecido com a maneira pela qual o livro revela o panorama do mundo neotestamentário. Muita informação relevante, como alguns costumes típicos dos judeus e gentios de então, o episódio da destrui­ção de Jerusalém, a penetração do evangelho no mundo romano, além de outros temas e acontecimentos que certamente interessam ao pesquisador bíblico, estão encerrados entre as capas deste livro.

Enfim, parabenizo ao amigo Aramis DeBarros e recomendo a leitura atenta de seu trabalho. Não encontrei praticamente nenhum motivo para discordar de suas posições aqui representadas. Penso que esta obra literária será recebida com muito sucesso, tanto dentro como fora dos meios evangélicos. Isso deve, inclusive, encorajar o autor a escolher outro tema interessante para di­rigir suas futuras pesquisas. Baseado neste primeiro livro, acredito que seus leitores aguardarão ansiosamente outras obras neste estilo.

A Deus toda a glória!


Russell P. Shedd, Ph.D.

Uma Introdução ao Mundo Apostólico
"...e sereis minhas testemu­nhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra."

Atos 1.8
Para melhor compreendermos o ministério apostólico dos doze dis­cípulos de Jesus, é interessante que, antes, gastemos algum tempo analisando as condições culturais, políticas e religiosas vigentes no período do primeiro século da era cristã, cenário onde se desenrolaram as atividades missionárias dos apóstolos, cujas vidas serão objeto de nossa investigação.

Uma vez incumbidos de anunciar a boa nova do Evangelho a toda a criatura (Mt 28; 19; At 1:8), os apóstolos passaram por um processo gradativo e, por vezes, penoso de ruptura com o típico sectarismo judaico, que lhes imprime um forte sentimento de exclusividade em relação ao Todo-Poderoso. A desafiadora perspectiva de evangelizar os gentios impulsionou suas numerosas campanhas missionárias, orientadas para um mundo que, em­bora ostentasse uma atmosfera relativamente pacífica, apresentava muitas situações de conflitos sociais localizados, típicas de uma sociedade que ex­perimentava o impacto de profundas transformações culturais, como aque­las vividas no primeiro século. Essa conjuntura social ofereceu às missões apostólicas horizontes tão atraentes quanto perigosos, como veremos detalhadamente mais adiante.

As primeiras experiências de oposição enfrentadas pelos doze, no exercí­cio da propagação de sua fé, não vieram do estrangeiro, mas de seu próprio ambiente, da sua própria casa: a Palestina. Ali, a tenaz resistência das insti­tuições judaicas sedimentou, aos poucos, a realidade de que aqueles para os quais o Messias viera não o receberiam (Mt 20.16, Jo 1.11).

Embora a palavra tenha encontrado solo fértil em muitos corações em Isra­el, tornava-se cada vez mais clara a direção divina que os impelia ao encontro dos gentios e judeus de além fronteira, para um ministério em que o limite seria o próprio mundo então conhecido. Entretanto, o livro de Atos nos permi­te constatar que as perseguições levantadas contra o evangelho nas cercanias de Jerusalém, por mais severas que se tenham demonstrado, não foram suficien­tes para consolidar nos apóstolos, num primeiro momento, a noção da mu­dança na rota missionária que, em poucos anos, passaria a ser caracterizada principalmente por aspectos transculturais (At 8.1,4).


"Naquele dia levantou-se grande perseguição contra a Igreja em Jerusa­lém, e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria. (...)
Entrementes os que foram dispersos iam por toda a parte pregando a palavra."
A despeito de toda essa relutância, o caráter universal do evangelho não esteve oculto dos apóstolos nem mesmo no momento do desabrochar da Igre­ja, no Pentecostes. Essa experiência, magnífica em toda sua transcendência, ganhara um caráter universal pela presença e pelo testemunho de judeus e prosélitos procedentes de diversas nações do mundo antigo, milhares dos quais creram e foram batizados naquele mesmo dia (At 2.41).

Mais adiante, missionários como Paulo, Silas, Barnabé e Timóteo, embora não pertencendo ao seleto rol dos doze apóstolos, influenciariam definitiva­mente a mudança de curso na ministração apostólica, em função de seu grande êxito na evangelização das populações greco-romanas. Em sua obra The Search for the Tivelve Apostles (p. 41), o dr. William Steuart McBirnie comenta a repercussão positiva do ministério gentílico de Paulo entre os demais apósto­los, ainda resolutos em dar as costas às missões internacionais.


"E possível que as experiências de Paulo tenham se transformado num desafio direto para muitos cristãos primitivos, e mesmo para alguns dos apóstolos, quanto ao seu alinhamento com a tarefa que desde o princípio lhes pertencia, a saber, abrir o caminho do evangelho para as nações do mundo.(...)

O livro de Atos pode ter sido posteriormente usado como um manual histórico dos métodos evangelísticos triunfantes dos quais Paulo se valeu, assim como uma prova clara de como o Espírito Santo estava inclinado a abençoar - embora não sem tantos obstáculos - a missão aos gentios. Porém, embora não estejamos aqui sugerindo que os apóstolos tenham sido constrangidos a sua tarefa de evangelização mundial pelo Livro de Atos- uma vez que a própria data de sua escrita impediria esta conclusão

- cremos, ainda assim, na possibilidade de que algumas de suas mais antigas porções, assim como as experiências de Paulo nele relatadas, te­nham acabado por surtir esse efeito. (...)

O próprio Paulo, de fato, constatou a relutância dos apóstolos em se diri­girem aos gentios, ao apontar sua estratégia, como vemos.'E, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam , a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios e eles para a circuncisão.'(GI 2.9).

Se o registro das experiências de São Paulo, naquilo que mais tarde veio a se tornar o livro de Atos, teve como um de seus propósitos o encorajar e instruir os apóstolos e outros obreiros cristãos primitivos quanto a sua mis­são aos gentios, isto, de fato, foi o que veio a se suceder. Em algum lugar e nalgum momento, formal ou naturalmente, os apóstolos acabaram por decidir pela estratégia da evangelização mundial, tendo cada qual seguido seu destino estabelecido."
Essa tendência da expansão missionária aos gentios acabou reclamando para si um tratado que lhe oferecesse uma devida apologia. Tal obra, conhe­cida como Os Atos dos Apóstolos, foi preparada com esmero pelo médico, historiador e também evangelista Lucas, e passou para a posteridade não como uma narrativa fragmentada da história eclesiástica do primeiro sécu­lo, mas como um forte argumento de que o próprio Deus, por Seu Espíri­to, impeliu o cristianismo para além dos limites da tradição judaica, tornando-o irreversivelmente universal.

Os estudiosos das biografias apostólicas têm sido incomodados com a ques­tão acerca da permanência dos discípulos em Jerusalém, após a experiência do Pentecostes. Embora as Escrituras, assim como a história, não tenham deixado rastros que nos permitam elucidar essa dúvida, é bem provável que a maior parte deles tenha permanecido ligada ao templo e às demais tradições do juda­ísmo por mais de vinte anos, a despeito da incisiva ordenança do Mestre em ir e ensinar todas as nações. Talvez, a perspectiva do rompimento com o judaísmo tradicional tenha representado para aqueles devotos algo muito mais temeroso do que podemos imaginar, resultando, assim, numa ofuscação da gloriosa tare­fa que os aguardava nas searas estrangeiras.

As circunstâncias políticas, sociais e religiosas que os esperavam nesse campo missionário cosmopolita serão o objeto de nossa análise a seguir. Ela nos ajudará a compreender como esses humildes galileus conseguiram, em me­nos de meio século, ressoar a obra salvífica da Cruz por quase todo o mundo então conhecido.




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