Arbitrariedad: esbozo de un principio programático del saussurianismo



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ARBITRARIEDAD: ESBOZO DE UN PRINCIPIO PROGRAMÁTICO DEL SAUSSURIANISMO

Gastón Daix

Universidad Nacional de Rosario

gastondaix @gmail.com


André Martinet, en La lingüística sincrónica, sugiere que un golpe duro para el estructuralismo ha consistido en tener que enfrentarse al hecho de que las referencias del Curso de lingüística general (en adelante, CLG) al principio de arbitrariedad en torno al cual se ha edificado son algo dispersas y van a caballo de al menos dos conceptos: el de signo y el de valor. Tal enunciado puede concebirse como un síntoma del espasmo que produce la lectura del CLG a causa de la ilusoria contradicción resultante de poner en contacto la primera aproximación de signo (como unidad sustantiva bifásica) y la noción relacional, opositiva y diferencial que le imprime el concepto de valor a esa primera formulación. De tan displicente efecto de lectura se desprende el tema de esta presentación.

“El principio arriba enunciado domina toda la lingüística de la lengua; sus consecuencias son innumerables” (CLG, p.93); por tal motivo, este trabajo pretende presentar un esbozo de análisis sobre la productividad del concepto de “arbitrariedad” y sus límites, a partir de sus imbricaciones tanto en el seno de la propia teoría saussureana como en dos de sus proyecciones.

El hecho de que el volumen de referencia no sea un texto de autor sino el resultado de la edición de apuntes de clase considerablemente disímiles nos obliga a una doble cautela: por un lado, es necesario ver la propuesta del CLG en su globalidad, en lo que tiene de sistemática, atendiendo a la articulación del entramado de conceptos y relaciones, sin pasar por alto los pasajes que presentan un aspecto presuntamente contradictorio; por otro lado, será ineludible la confrontación del texto de los discípulos con los escasos y fragmentarios manuscritos del maestro ginebrino.

Una vez se haya cumplido con la revisión y cotejo de las fuentes, esta presentación se limitará a dar cuenta de cómo la lingüística de Benveniste y el proyecto semiológico barthesiano se topan con circunstancias que los motivan a reformular la “arbitrariedad” cristalizada en la propuesta del CLG: el primero, ante la necesidad de asegurar la coherencia con la noción de valor y de “afianzar el rigor del pensamiento saussureano más allá de Saussure” (Cfr. Benveniste, p.55), opta por desplazar la arbitrariedad del dominio de la significación a la relación signo-referente; el otro, procede por necesidad de adecuación a los datos al enfrentarse con que numerosos sistemas semiológicos no admiten la arbitrariedad en el sentido estrictamente saussureano.



A invenção da Linguística: notas sobre os efeitos do político na construção do nome próprio Saussure

 

Isadora Machado



(Fapesp-IEL/Unicamp)

 

Todo pensamento foi inventado. Desse modo, construir um lugar de dizer a história dos sistemas de pensamento que não coincida nem com os universalismos totalizantes da razão “ocidental”, nem como seu correlato constitutivo, qual seja, alogofilia moderna. A partir desse lugar certo das incertezas de um trabalho como este, refletir então sobre o estatuto de cientificidade da Lingüística no Curso de Lingüística Geral – de autoria atribuída a Ferdinand de Saussure por dois importantes linguistas que seguiam os cursos de Saussure, a saber, Challes Bally e Albert Sechehaye, em 1916 – e nos Escritos de Lingüística Geral – de autoria também atribuída a Saussure, e editado pelo também linguista Simon Bouquet, em 1996. Para tal tarefa, que se apresenta como sintoma importante dos efeitos operados pelo político nas práticas científicas, convocar dispositivos para uma semântica do acontecimento Saussure no heterogêneo campo dos Estudos da Linguagem. As conclusões dizem respeito aos muitos modos de o político se significar na língua.



Palavras-chave: Ferdinand de Saussure; Histórias dos Sistemas de Pensamento; Crítica Descolonizante da Razão Ocidental.

SAUSSURE, ENTRE O ECO E O ESPELHO

Paulo Sérgio de Souza Jr.1

Em se tratando de Saussure, Lacan adianta que algo é certo de antemão: ele “não dizia tudo. E prova disso é que encontraram em seus papéis coisas que nunca foram ditas em seus cursos”. Assim, quando folheamos o CLG em busca da palavra poesia e de seus correlatos, não deveríamos nos deixar surpreender com o resultado: tirante uma referência à importância do verso para reconstituições de pronúncia e uma menção aos poemas homéricos, ao tratar de fala e escrita, nada mais se pode ler ali que esteja nominalmente atribuído à dimensão do poético.

Mas se são elementos da ordem do poético que parecem suscitar/reforçar a aposta de Saussure em pontos que, investidos, são capazes de impelir os estudos da linguagem rumo à consolidação de uma disciplina autônoma, entendida como a linguística moderna, por que a referência aos estudos desenvolvidos por ele nesse campo é especialmente deixada de lado? — embora saibamos que, de modo geral, toda a sua obra acabaria por ser posta à margem nos estudos da linguagem. Acreditamos, assim, ser preciso fazer jus à tangência que o poético efetuou em sua obra de modo a conduzi-lo ao adensamento de uma compreensão do signo e à edificação de uma teoria da língua; à poesia como lugar do desfralde daquilo que operou como causa de um interesse vivo, e que não deixou de demandar um crivo e uma escrita teorizante.

Contudo, aquilo que o preocupava nos anagramas e o acompanhava em sua saga restaria à sombra de suas gavetas — destino que, de modo geral, não era incomum aos seus escritos. Apenas tardiamente essas obras conhecerão seu público; e isso não sem uma aura de subversão: subversão do científico pelo poético em cena nas suas anotações; pelas marcas de sua “loucura” ao longo de análises que se mostrariam tão díspares da sobriedade impressa ao CLG. Em todo caso, se desejarmos alguma acuidade no entendimento daquilo com o que ele se deparou no decorrer das investigações sobre o verso (a saber, que nas línguas naturais “o fenômeno fonético é um fator de perturbação”), veremos que não há como buscar conforto chamando de loucura o que, muito pelo contrário, é propriamente resultado, mesmo que desconcertante, dos empreendimentos da razão.
AS FONTES DO CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL:

Saussure e os três cursos (1907, 1908/1909 e 1910/1911)

Luciana Moraes Barcelos Marques (Puc-Minas)2

A presente comunicação pretende expor parte das diretrizes que nortearam a elaboração de uma tese com estágio doutoral na Suíça, para a qual foi possível consultar os originais de Saussure e de seus alunos nos fac-símiles disponíveis na Universidade de Genebra. Para contextualizar a motivação dessa pesquisa, importa destacar que Saussure ministrou três “Cursos de Linguística Geral”: o primeiro em 1907 (de 16 de janeiro a 3 de julho), com seis alunos; o segundo em 1908/1909 (da primeira semana de novembro a 24 de junho), com onze inscritos; e o terceiro em 1910/1911 (de 29 de outubro a 4 de julho), com doze ouvintes. A obra intitulada Curso de Linguística Geral (1916) – cuja autoria foi justificadamente dada a Ferdinand de Saussure – corresponde a um texto póstumo organizado e editado por Charles Bally e Albert Sechehaye e teve por fonte as notas de alguns alunos oriundas desses três cursos. O que não é tão notório assim é o fato de que esses dois editores não assistiram a nenhum dos cursos de linguística geral ministrados por Saussure, tendo sido seus alunos apenas em outras disciplinas; tal fato contribui para a necessidade de ampliarem-se os estudos sobre as fontes manuscritas do CLG. Considerando essa realidade histórica, esta comunicação objetiva apresentar a síntese de um estudo histórico-descritivo, no qual se destacam aspectos filológico-linguísticos, sobre esses três cursos de linguística geral ministrados por Ferdinand de Saussure. Com um método histórico-descritivo, cada curso foi abordado separadamente (por serem bastante diferentes entre si), de modo a evidenciar o processo histórico de construção de uma linguística saussuriana, a partir das escolhas do professor Saussure quanto à linha de desenvolvimento das categorias e dos temas de cada curso, no que tange ao conteúdo, à ordem de apresentação temática e às evoluções teóricas. O método de descrição incorporou uma abordagem resumida do que fora tratado, buscando manter um padrão de fidelidade às proposições contidas nos documentos originais. Por fim, salienta-se que, considerando as múltiplas possibilidades de análise comparativa, o foco concentrou-se sobre os aspectos mais gerais com o objetivo de evidenciar a construção de conhecimento proposta em cada curso.



A diferença entre langue e parole (?)
Tatiane Ferreira Lage Goia
A diferença entre língua (langue) e fala (parole) é o foco desse trabalho. O objetivo é apresentar a explicação e aplicação dada por Ferdinand Saussure sobre essa parte da dicotomia. Como critérios de análise será utilizado os livros escritos pelo autor em estudo, mantendo o foco no livro “Curso de línguística geral” e “Escritos da linguística geral”.

Quando se analisa a ideia de arbitrariedade, esta faz com que a língua tenha uma relativa estabilização, enquanto, por outro lado, acontece um deslocamento da fala. A arbitrariedade do signo permite ao falante fazer o que quiser (ter liberdade) com a língua, porém precisa ver a relação entre o individual e o coletivo (social), pois há valores estabilizados. A língua é de ordem social e a fala de ordem individual. Mesmo assim, a língua não é mais importante que a fala. Elas se completam. Logo, a linguagem verbal existe a partir da relação entre a parole e a langue, uma não exclui e outra, ambas vivem em uma relação dialética. Porém o CLG (Curso de Linguística Geral) vai imprimir à langue maior importância que a parole. Será que, de fato, a langue é mais importante que a parole? Como Ferdinad Saussure aborda essa dicotomia em seus escritos?

Língua e fala são diferentes para Saussure. Para ele, língua é o sistema, é o todo, é o conjunto de signos de que uma comunidade se vale para se comunicar e também as regras que delimitam esse conjunto. Logo, língua é uma coisa coletiva, social. Saussure também chama língua de “langue”. Já a fala é o uso individual, é a escolha de cada um. É a “parole”. Saussure, porém, sempre deixou bem claro que o objeto de seus estudos era a língua e não a fala.

Sendo assim, apesar de Saussure aplicar maior importância à língua (langue), não é possível estudar uma sem ter em vista a outra. As duas fazem parte de uma mesma dicotomia. São diferentes, mas estabelecem uma relação.

Tendo em vista o que já foi exposto, apesar de ser estável, a língua está sempre em curso, nós a acompanhamos junto com suas modificações.


A continuidade nos conceitos de sincronia e diacronia
Mônica Baltazar Diniz Signori

Universidade Federal de São Carlos

emesignori@gmail.com
As leituras comparativas entre o Curso (CLG) e os Escritos de Linguística Geral (ELG) têm evidenciado rico deslocamento na compreensão da teoria saussuriana que, nos Escritos, se estabelece “sobre fundamentos mais minuciosamente explicitados”. No que tange às relações entre sincronia e diacronia, desenvolvem-se no ELG “quatro pontos de vista”, enquanto o CLG, com suas preocupações centradas em uma “epistemologia programática”, foca a necessidade de se distinguir com absoluta clareza os âmbitos de abordagem específica de uma “Linguística Sincrônica” e de uma “Linguística Diacrônica”, estreitando as discussões relacionadas ao contínuo processo de atualização da linguagem. Em um esforço de leitura do CLG que busque destacar a construção de uma concepção de linguagem, submetida ao objetivo de uma edição voltada à proposição de uma ciência, parece-nos possível pensar não apenas nos dois pontos de vista que se colocam para os estudos da linguagem – a sincronia ou a diacronia –, mas igualmente na complexidade do uso, que estabelece um termo complexo sincronia/diacronia, na medida em que a linguagem se constitui dialeticamente na relação entre a estabilidade da langue e os deslocamentos da parole. Esse esforço de leitura marcado pela busca das continuidades inerentes à teoria saussuriana, editada de maneira a discretizar cada um dos elementos desse posicionamento teórico, descuidando-se de suas inerentes articulações, encontra eco nas linhas do ELG que, no que tange às relações entre sincronia e diacronia, não apenas ampliam o campo de visão para “quatro pontos de vista”, como o torna mais complexo, à medida que afirma a “dúvida” sobre a possibilidade de se “estabelecer, com pureza,” a “terminologia que seria necessária”. Em uma condição que não comportava a explicitação de dúvidas, instaura o CLG uma série de delimitações categóricas, criando ensejo para a abordagem estruturalista, marcada pelo discreto e pelo categorial. Mostrando-se fortemente enraizada à elaboração da compreensão da essencialidade da linguagem, vence a proposição saussuriana os limites de uma corrente teórica, mantendo-se atual e evidenciando-se com ainda maior pujança quando a Linguística ultrapassa o estruturalismo, e inicia seus passos no domínio do contínuo. Buscando evidenciar a complexidade das formulações do mestre genebrino, em muitos momentos obscurecidas pelas abordagens orientadas pela discretização, as discussões deste trabalho objetivam demonstrar a continuidade que se faz presente na especificidade dos conceitos de sincronia e de diacronia.

A teoria saussuriana numa reflexão sobre a escrita

BOSCO, Zelma R.

(Programa de Pós-doutorado/Departamento de Linguística – IEL/UNICAMP; GPAL – IEL/UNICAMP)
Nos estudos sobre o tema “escrita”, a abordagem feita, de modo geral, toma como pressuposto sua realização como representação da fala, seguindo uma tradição que é dominante na metafísica ocidental. No “Curso de Linguística Geral”, Saussure expõe a complexidade em jogo na discussão sobre o fenômeno, ao introduzir a questão da escrita, no momento em que identifica no próprio objeto da linguística o predomínio do fonético, no conjunto que une conceito e imagem acústica, e situa fala e escrita como sistemas distintos de signos, reconhecendo essa última como secundária e representativa da primeira. Ainda no CLG, no célebre capítulo IV, da Primeira Parte, intitulado “O valor linguístico”, essa abordagem representacional da escrita se ressignifica quando a materialidade linguística é afastada em favor das relações, do arbitrário e das diferenças. Derrida, em sua “Gramatologia”, discute esses dois aspectos do estudo sobre o tema, no pensamento saussuriano: no primeiro, a escrita é apresentada como subordinada à fala e, no segundo, são identificados argumentos que possibilitam afastar a ideia de secundariedade, de exterioridade da escrita, ao considerar a discussão sobre a arbitrariedade do signo linguístico. As considerações do mestre genebrino sobre o valor linguístico, no CLG, implica a presença de um sistema relacional, no qual todo significante, fônico ou gráfico, é somente significante inscrito nesse sistema. Tal abordagem promove a abertura para as relações diferenciais, que permitem situar o significante linguístico numa rede em que o significado surge como possibilidade. Por essa perspectiva, Derrida encontra na teoria saussuriana um outro discurso que libera a possibilidade de uma gramatologia, numa argumentação em que afasta a concepção de escrita como imagem ou figuração e permite compreendê-la como inscrita no sistema de diferenças que é a língua. Reconhece-se, aqui, que essa abordagem da escrita é produtiva para as discussões sobre a mudança na constituição da escrita infantil. Se, por um lado, se considera, com Saussure, que o caráter alfabético da escrita remete à fala, o privilégio concedido pela teoria saussuriana ao significante “incorpóreo” possibilita um deslocamento na abordagem da relação língua/fala/escrita em favor das diferenças e das relações. Esse movimento possibilita situar uma reflexão sobre a mudança na escrita infantil dita inicial, a partir de um funcionamento simbólico que inclui a língua como um sistema que se impõe por suas relações internas.

Valor e equívoco: ocorrências na língua materna e na língua inglesa

Maria Victoria Guinle Vivacqua – Grupo de Aquisição de Linguagem – IEL/ UNICAMP – FATEC,Americana

vicvivacqua@gmail.com

Este trabalho se propõe a analisar e comparar dois episódios à luz da teoria do valor e da concepção de equívoco, considerando as diferenças acerca do falante nativo e do não nativo. O primeiro episódio, relatado por Garnes e Bond (1980), retrata uma criança, cuja língua materna é o inglês, que interpreta o verso “Gladly, thy cross I´d bear” do hino sacro “Keep thou my way”, de Fanny Crosby, como “Gladly, the cross-eyed bear. O segundo episódio se refere a um relato de um falante adulto não nativo que, ao ouvir uma música de Alanis Morissette, escuta “Of the cross-eyed bear” ao invés de “Of the cross I bear”.

Saussure ([1916] 2001), em seu percurso, teve a necessidade metodológica de excluir o falante de sua teorização, ao estabelecer a dicotomia entre langue e parole. O falante parece estar suposto no horizonte de sua construção teórica, principalmente, em função do caráter arbitrário do signo, segundo o qual não há nenhum elo natural ou inevitável que una um significante a um significado que, por princípio, são entidades relacionais. Esse aspecto relacional é retomado na diferenciação entre significação e valor. Segundo Saussure, o fato social pode criar um sistema linguístico por seu caráter coletivo, necessário para estabelecer valores. A teoria do valor coloca como ponto nodal o falante, à medida que se refere tanto ao que faz parte da coletividade quanto à relação singular do falante com essa língua. Essa tensão entre arbitrariedade e valor, conceitos saussurianos que sustentam a concepção de signo, pode ser observada na função de captura (DE LEMOS 2002, p.155); função da língua considerada sob dois aspectos: a anterioridade lógica, uma vez que precede o sujeito; o funcionamento simbólico em que a criança é capturada – um funcionamento linguístico-discursivo que a significa e lhe permite significar outra coisa, isto é, a possibilidade de falar uma língua, em que a possibilidade de equívoco está incluída.

Veremos, na análise e discussão dos episódios, que a ocorrência na enunciação de “the cross-eyed bear” aponta, de um modo distinto, para “um modo singular de fazer equívoco” (op. cit).



O conceito saussuriano de analogia: uma contribuição para além da Aquisição de Linguagem

Camila Rossetti Vieira

Aluna do programa de Pós-graduação em Linguística no IEL /UNICAMP

Grupo de Pesquisas em Aquisição de Linguagem (GPAL)
Todos os dias, são inúmeros os casos de palavras não dicionarizadas que surgem na fala dos sujeitos, sejam eles adultos ou crianças. A inovação lexical constitui, nesse sentido, um dos fenômenos mais registrados nas línguas, um poderoso fator de mudança linguística e um importante dado de eleição para a discussão da Aquisição de Linguagem. Como bem se sabe, entendem-se como inovações lexicais, na fala da criança, todas aquelas palavras formadas por derivação (ex. "viração" para ato de virar a página), composição (ex. “doutor de bichos” para veterinário), flexão divergente de gênero (ex. “galinho” para galo), de verbo (ex. “levi” para levei) e fenômenos fonológicos como reduplicação silábica (ex. “gogócio” para negócio) e onomatopeias (ex. “vum” para secador). Dentro das abordagens teóricas da Morfologia, a análise desse tipo de dados oferece dois caminhos distintos: (1) a formulação de regras, dentre as quais as mais conhecidas são as RFPs (Regras de Formação de Palavras), propostas pela Gramática Gerativa no inicio da década de 1960 (cf. Aronof, 1976); (2) a analogia. Segundo a primeira perspectiva, as palavras seriam formadas por uma operação fonológica sobre uma base especificada, o que daria origem a produtos predizíveis em termos sintáticos e semânticos. Já para a segunda, através da qual as palavras são formadas por comparação a um modelo, sobrariam dados mais singulares, em que não houvesse a possibilidade de formular regras. O objetivo desse trabalho é o de verificar, a partir de um material empírico advindo do sujeito R, cujo corpus está disponível na CEDAE/IEL/UNICAMP e do material coletado por Figueira (1995, 1996, 1999), Santos (1997) e Cauduro (2001), como o conceito de analogia saussuriano pode dar importantes contribuições tanto para a análise das inovações lexicais na fala da criança, como pode agregar argumentos à discussão que se estende na Morfologia sobre a formação de palavras. Faremos isso com o intuito de mostrar como a obra saussuriana, ainda hoje, constitui um potencial explicativo inigualável para esse tipo de dado. Serão trazidos para a discussão as obras saussurianas Curso de Linguística Geral e Escritos de Linguística Geral, mas também artigos de Morfologia, dentre os quais destacamos o de Basílio (1997) e o de Maroneze (2008).
Palavras-chave: Aquisição de Linguagem, Inovação Lexical, Regras, Analogia, Saussure.

A institucionalização da Linguística no Brasil:

uma possível leitura da definição do nome Gramática em Saussure
Juciele Dias
Nossa proposta de trabalho tem como objetivo apresentar uma leitura sobre o modo como conceitos do Curso de Linguística Geral, de Ferdinand de Saussure, passam a circular pela produção de Mattoso Câmara a partir dos anos 40, enquanto outras formas do saber atribuídas ao nome Linguística já estavam em circulação, anteriormente, e, simultaneamente a recepção do Cours no país. Nesse sentido, o nome de autor Mattoso Câmara, designado como linguista e relacionado com uma forma de saber de nome Linguística vai ser fundamental para determinação de domínios e fronteiras na disciplinarização da “Linguística Moderna” no Brasil por volta dos anos 60. A constituição da forma de saber Linguística Moderna em sua relação com a forma de saber Gramática História/Linguística diacrônica é determinante da definição do nome Gramática no CLG e a sua recepção no Brasil. Na leitura do CLG, o nome Gramática (inicial em maiúscula) é definido de modo que pode se equivaler à definição de Linguística estática, ou seja, a descrição de um estado de língua sincrônico e significativo. Saussure (s/d, p. 156) define que a Gramática “trata de um objeto complexo e sistemático, que põe em jogo valores coexistentes” e “estuda a língua como um sistema de meios de expressão”. Pela própria determinação do nome Gramática como uma descrição em um estado de língua sincrônico e significativo, o autor afirma que não é possível a designação Gramática histórica, pois um sistema não pode ser descrito em várias línguas ao mesmo tempo. No CLG, desse modo, temos, na constituição da forma de saber e prática teórica Linguística Moderna, uma redefinição de Gramática e uma renomeação de Gramática histórica como Linguística diacrônica. Esse fato da renomeação se presentifica na produção de linguistas e filólogos que buscavam estabelecer domínios e fronteiras entre Linguística e Filologia por volta dos anos 60 no Brasil. Como exemplo, temos produções de Mattoso Câmara com o objetivo de descrever, sincronicamente, a língua portuguesa por uma relação com a perspectiva do estruturalismo linguístico, o que vai se constituir sob a designação de Linguística descritiva (cf. Maurer, 1967). No caso da tradição da Gramática histórica, parece-nos terem sido estabelecidas relações desse nome com as duas formas de saber Linguística e Filologia, e essas relações terem sido determinantes de uma renomeação daquela tradição como Linguística Histórica (cf. Maurer, 1967).

As Notas Preparatórias para o Terceiro Curso: uma leitura do “Valor Linguístico”
Micaela Pafume Coelho (UFU/PPGEL/ILEEL)
As “Notas preparatórias para o terceiro curso” consistem em um conjunto de manuscritos elaborados por Ferdinand de Saussure com a finalidade de preparar as aulas que ministrou durante seu terceiro curso na Universidade de Genebra (1910-1911). Esse conjunto de manuscritos é composto por um total de 56 folhas, e pertence ao grupo cedido à Biblioteca de Genebra em 1955, fato que nos leva a afirmar que eles não estiveram entre as fontes utilizadas por Bally e Sechehaye para a elaboração do Curso de Linguística Geral (CLG). Entretanto, comprovamos, por meio de análises realizadas em trabalhos anteriores (cf. COELHO, 2011), que o CLG consiste em uma edição cujo conteúdo provém majoritariamente das lições ministradas durante o terceiro curso de Saussure, o que evidencia a possibilidade de semelhanças entre o conteúdo dessa edição e das “Notas preparatórias para o terceiro curso”. Dessa forma, ao analisarmos o conjunto de manuscritos em questão, destacamos o tratamento outorgado ao valor linguístico como um ponto teórico comum ao conteúdo do CLG. Tendo isso em vista, partimos da consideração de Silveira (2009, p. 9) de que a “Teoria do Valor” consiste na “viga mestra das elaborações saussurianas” para justificarmos a realização de uma abordagem das três páginas que se referem especificamente ao valor linguístico no conjunto de manuscritos “Notas preparatórias para o terceiro curso”. Com essa abordagem, visamos expor que a leitura do valor linguístico nos manuscritos em questão nos permite conhecer a trajetória de Saussure no desenvolvimento da “Teoria do Valor”, tanto por terem sido elaboradas em um momento anterior ao curso e apresentarem aspectos formais que evidenciam essa trajetória de desenvolvimento, como também por apresentarem uma ótica desse conteúdo distinta daquela apresentada no CLG. Além disso, nosso trabalho se justifica pelo fato de que a “Teoria do Valor” é um princípio fundamental na delimitação da linguística moderna e merece, portanto, uma análise de todas as fontes disponíveis a seu respeito. Consideramos importante buscar não só o que é apresentado a respeito do valor linguístico enquanto conceito acabado, mas também averiguar a trajetória de sua elaboração, o que pode ser proporcionado pelos manuscritos saussurianos.

A gagueira à luz das considerações de Saussure sobre a escuta e a oposição entre fonema e silêncio
Maria TeresaTeani de Freitas Curti

IEL- UNICAMP


Neste encontro sobre Saussure pretendo, em primeiro lugar, abordar algumas afirmações do mestre genebrino encontradas no texto de Herman Parret (1995-1996) “Réflexions saussuriennes sur le temps et le moi” - Les manuscrits de la Houghton Library à Harvard. Saussure afirma que o fenômeno fonético é subordinado ao fenômeno acústico, esclarecendo que é pela orelha que o sujeito falante adquire a língua e que a imagem muscular do ato fonatório é secundária. Neste mesmo texto há uma citação referente à forma como Hermann Paul (1880) aborda as mudanças fonéticas, e para pensá-las elenca alguns traços importantes, quais sejam: os movimentos dos órgãos fonatórios e o sentimento sinestésico que seria a série de impressões que acompanham necessariamente estes movimentos, quer dizer a corporeidade e suas múltiplas virtualidades sensoriais. Pretendo enfatizar a escolha de Saussure “homem dos fundamentos” para chegar à fonética semiológica, deixando de lado as qualificações mecânicas, fisiológicas e articulatórias. Em segundo lugar, desejo pensar o fenômeno da gagueira à luz das considerações de Saussure sobre a oposição entre fonema e silêncio.

Nessa patologia o que fica evidente é o ato fonatório e a corporeidade envolvida no momento da articulação. Outras partes do corpo entram no momento da execução da fala, ou seja, nos movimentos dos órgãos fonatórios. Podemos estender essa discussão ao papel da escuta (orelha) tão fundamental na discussão de Saussure. O que o falante capta não são só as unidades da língua, mas a experiência do silêncio, do vazio. Assim recursos como as transliterações que o falante com gagueira utiliza para conseguir falar e evitar o bloqueio, não atingem o pretendido que é fazer cessar a gagueira.



Os estudos de Saussure sobre as línguas para a língua
Michelle Landim Brazão (Doutoranda/UFU)
Saussure tem como foco inicial um estudo voltado para a gramática comparatista. Entretanto, apesar deste estudo não cessar de aparecer, mesmo quando o mestre está tratando da língua em um sistema de signos, observa-se que com o passar do desenvolvimento e o aprimoramento de suas produções, as mesmas ganharam um destaque diferenciado, e, também, começaram a ilustrar as questões teóricas presentes no Curso de Linguística Geral.

Os estudos das línguas, sejam estrangeiras, seja a língua materna – Francês, sempre estiveram presentes no desenvolvimento das pesquisas saussurianas, e parece que essas tenham influenciado na pesquisa teórica do genebrino. Entre essas línguas ressaltamos as pesquisas realizadas em torno do Lituano, já que a mesma parece ter recebido um enfoque diferenciado nas produções de Saussure.

Ressaltamos a importância do estudo desta língua, visto que o linguista muito escreveu sobre o tema. Desta forma, examinaremos o manuscrito - Ms. Fr. 3953, que está atualmente arquivado na Biblioteca de Genebra e contem 671 páginas, com o intuito de elucidar a possível relação entre o lituano e a teoria geral sobre a língua. Sendo que, através destas reflexões, visamos comprovar se as observações feitas por Saussure sobre as línguas podem ter influenciado no projeto teórico do mesmo sobre a língua.

Segmentação e unidade na fala da criança: o caso de uma oposição poética

Silvana Perottino (UESB/PUCCAMP/GPAL)

A consideração de Ducrot (1968, p. 66) a respeito da ligação intrínseca entre a segmentação das unidades linguísticas e o sistema linguístico, qual seja, a de que “A descoberta dos elementos e do sistema constituem uma única tarefa”, vem reafirmar a postulação saussuriana de que a língua tem uma ordem própria. Isso seria, em resumo, a ideia de cada língua organiza de maneira distinta seus conceitos e suas categorias, não, sendo, portanto, uma nomenclatura (SAUSSURE, 2006). Mas, esse paralelismo sistematizado por Ducrot só faz emergir com bastante força a problemática da delimitação das unidades linguísticas, assim como a questão da identidade como sendo puramente relacional e que vem a ocorrer em função das diferenças dentro do sistema, já cogitadas por Saussure. É essa interação entre segmentação-sistema, fundamentalmente estruturalista, que fundamenta a análise proposta neste trabalho a respeito de um episódio de fala de uma criança pequena. Voltamo-nos ao enunciado da criança em que se observa uma segmentação inusitada de um nome próprio (Cleuza = O nome dela é Cle e ela usa as coisas). Essa segmentação remete-nos, ao mesmo tempo, ao fato de a criança ser capturada por um funcionamento linguístico-discursivo que lhe é anterior (cf. DE LEMOS, 2002, entre outros) e aos efeitos poéticos suscitados por sua fala, os quais retornaram ao investigador como sendo possibilidade da língua (CARVALHO, 2005, PEREIRA DE CASTRO, 2006). Em relação à captura da criança pela ordem própria da língua, recorremos à noção de valor in presentia e in ausentia, ou seja, aos dois eixos de funcionamento da língua (associativa/paradigmático e sintagmático), nos quais se evidenciam os aspectos morfológicos e sintáticos da língua. Além disso, consideramos que se deva levar em conta, nessa ocorrência, a sensibilidade da escuta por parte da criança em relação aos aspectos prosódicos e fonológicos presentes na fala da mãe, assim como o jogo argumentativo entre essas falas.

A recepção de linguagem, língua e fala

Thayanne Raísa Silva e Lima (UFU/CAPES)



Palavras-chave: Saussure, recepção, linguagem, língua, fala

A elaboração de Ferdinand de Saussure (1857-1913) está presente em vários documentos, entre eles encontramos milhares de manuscritos que mostram o grande trabalho do genebrino dedicado aos estudos linguísticos. A insatisfação dele com os estudos da linguagem vigentes na época - em que a gramática comparada e os neogramáticos lideravam as pesquisas linguísticas - permite-nos compreender o quanto Saussure estava empenhado em trabalhar no que ele chama de ‘inépcia da terminologia corrente’ em uma carta que enviara a Meillet em 1894. A partir dessa insatisfação, o genebrino procura incansavelmente por um objeto para a linguística, segundo pesquisas, desde 1891 Saussure já nos dá os primeiros indícios de conceituação de língua. Nesse momento, portanto, percebemos que linguagem, língua e fala aparecem, em seus manuscritos, em um emaranhado de elaborações confusas, mas persistentes. Anos mais tarde, nas notas preparatórias do segundo e terceiro curso ministrados na Universidade de Genebra, conseguimos notar esse trabalho entre esses três termos bem mais evoluído, em que vemos uma semelhança com o Curso de Linguística Geral publicado em 1916. É nessa obra, portanto, que os termos linguagem, língua e fala são apresentados e conceituados como fundadores da linguística moderna. Nesse livro percebemos o quanto a distinção desses três termos é de fundamental importância para podermos compreender todas as formulações saussurianas, como, por exemplo, a de que a língua é um sistema. Entretanto, a recepção dessa obra no mundo e, principalmente, dos termos linguagem, língua e fala suscitou várias complicações, tanto no que tange a compreensão desses termos, quanto com relação à tradução dos mesmos para outras línguas. Sendo assim, neste trabalho, analisaremos a recepção dos termos linguagem, língua e fala em lugares no mundo cujas traduções desses três termos apresentaram problemas para a recepção do Curso de Linguística Geral. Para tanto utilizaremos alguns artigos publicados no Cahier Ferdinand de Saussure que abordam o tema em questão, apontando os problemas ligados aos conceitos de linguagem, língua e fala em diferentes contextos linguísticos. Essa tarefa nos auxiliará, portanto, a compreender as formas distintas de como a teoria saussuriana repercutiu entre os linguistas de vários lugares, assim como compreendermos como esses três termos podem influir tanto na recepção da obra de Saussure.



Julian Vinson, Julian Girard de Rialle e Ferdinand de Saussure: convergências e divergências sobre o tema da linguagem
Mariângela P. G Joanilho (UEL – mgalli@uel.br)

André Luiz Joanilho (UEL – alj@uel.br)


No início da primeira quinzena do mês de maio de 1875 foi publicada, no jornal A Provincia de São Paulo, a tradução de um artigo assinado por um francês, Girard de Rialle, e intitulado O transformismo em lingüística. Da publicação do texto, pode-se inicialmente dizer o que segue: É um artigo produzido por um naturalista francês – (Julien) Girard de Rialle (1841-1904), cujo trabalho estava direcionado para estudos antropológicos e culturais. Em termos gerais, o autor enumera no texto uma série de argumentos a favor da “adesão” à teoria transformista de Darwin nos estudos da “filosofia da linguagem” e aponta para a falta de cientificidade da pesquisa que não a leva em conta. Faz isso: a) por meio da aproximação dos resultados de estudos de vários autores contemporâneos seus (A. Schleicher, Max Muller, Whitney, Jorge Darwin, Bateman, Ferrière), cujos trabalhos foram publicados entre 1859/1860, 1873 e 1875, em periódicos norte-americanos, alemães e franceses, ou como obras completas b) colocando-se, em alguns momentos do texto, sempre como “favorável” aos estudos transformistas da linguagem. Estamos diante de um modo de significação dos sentidos da linguagem e das línguas naturais que produz deslocamentos interessantes para a distribuição de palavras e a configuração dos sentidos, nas enunciações dos sentidos de língua. Nosso interesse é, de um lado, mostrar como se dá a designação de linguística/língua, a partir de uma presença interessante neste artigo - o enunciado metafórico que define a “língua como um organismo vivo”. De outro, e para fazer funcionar as divergências e as convergências de sentidos, trabalharemos com os escritos de um outro linguista francês contemporâneo de G. de Rialle; trata-se de Julien Vinson (1843-1926), também representante desse modelo de pensamento formador de uma escola linguística naturalista ou uma ciência positivista das línguas. Finalmente, procuraremos mostrar como estes autores fazem avançar conceitos e formulações do sistema conceitual de Ferdinand de Saussure. No caso das ciências da linguagem, o ineditismo desses estudos se revela, portanto, na forma como produzem a compreensão da própria ciência e nas redes semânticas que inauguram para as textualizações sobre as relações entre o sujeito, a ciência, a sociedade e a cultura, marcando as vozes de um tempo em que se relaciona progresso, instrução e civilidade.


1 Psicanalista e tradutor. Doutor em linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem e pesquisador convidado do Centro Interno de Pesquisas Outrarte (IEL/Unicamp).

2 Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (defesa em 23 de abril de 2013).


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