Ariane Luna Peixoto


Sistemática de plantas e fungos no Brasil



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Sistemática de plantas e fungos no Brasil


Diante da fascinante diversidade da flora neotropical, o botânico brasileiro persiste numa situação paradoxal: tem disponível, de um lado, uma série de dados detalhados sobre algumas espécies de plantas (da morfologia externa à ultra-estrutura e composição micro ou molecular) e, de outro, o alto grau de desconhecimento acerca de muitos aspectos de outros táxons, ou de regiões naturais inteiras, com o agravante de muitas se encontrarem em acelerado processo de destruição.

Nesse contexto, esse profissional busca conciliar duas facetas dessa tarefa: a exploratória, de campo (trazendo dados complementares aos táxons conhecidos ou descrevendo as plantas ainda desconhecidas, documentando sua distribuição e ecologia), e a de pesquisa, em busca da definição clara das homologias nos caracteres (das mais variadas fontes), visando aprimorar a classificação com base em hipóteses de filogenia consistentes (Barbosa e Vieira, 2005). A essas imensas tarefas encontram-se outras associadas, como a curadoria de coleções, o ensino e a orientação de estudantes, entre tantas outras, num esforço pessoal, de equipe e instituição desmesurado.

Com cerca de 20% do total de espécies do planeta, o Brasil ainda terá de empenhar muito esforço nas tarefas de descobrir, nomear, descrever as características morfológicas, conhecer a biologia, a ecologia e a distribuição geográfica da maioria das espécies existente em seu território. Além da descrição da diversidade e da elaboração de um sistema geral de referência, a sistemática tem como objetivo contribuir para a compreensão dessa diversidade por meio do estudo das relações de parentesco entre as espécies, gerando dados para a elaboração de classificações biológicas baseadas em filogenia. Essas classificações têm muito mais capacidade de previsão, além de possibilitar o melhor entendimento da evolução dos caracteres, sendo, portanto, muito mais útil, não só para os sistematas, mas para biólogos em geral e para todos os pesquisadores que lidam com a diversidade biológica (Pirani, 2005).

Na botânica, houve grande resistência, por várias décadas, em se abraçar os preceitos da sistemática filogenética. Apesar de Bremer e Wanntorp (1978) conclamarem os botânicos para o fato de que não seria monofilética a maioria dos grupos taxonômicos então em uso corrente, o sistema de classificação de Cronquist (1981 e 1988) persistiu no domínio até meados da década de 1990. No Brasil, a história não foi diferente. Joly (1976), em texto básico para as famílias botânicas representadas no País, adotou o sistema de Engler (editado por Melchior em 1964). Com a consolidação da primazia do sistema de classificação de angiospermas de Cronquist (1968 e 1981) em escala global, a partir da década de 1970, este passou a ser o sistema adotado em universidades e institutos de pesquisa. Nele, se baseia a estrutura dos livros de Barroso et al. (1978, 1984 e 1986), frutos de uma importante escola de sistemática no Brasil (Pirani, 2005).

Somente a partir de meados da década de 1990, os princípios do cladismo começaram a ser adotados em salas de aula de botânica no País. A sistemática vegetal passou, então, por um verdadeiro renascimento durante os últimos 25 anos, primeiramente em razão da incorporação da fundamentação teórica e de métodos explícitos do cladismo e subseqüentemente em função do emprego dos dados macromoleculares na reconstrução filogenética, fundamental no reconhecimento dos grupos naturais ou monofiléticos (Pirani, 2005).

Com o advento das técnicas de amplificação e seqüenciamento de nucleotídeos dos genomas nucleares, dos cloroplastos e dos mitocôndrios, a sistemática entrou na era molecular. As modernas técnicas moleculares representam um recurso rico e poderoso, que, em vez de ofuscar, aumenta a necessidade de conjuntos de dados não-moleculares e de botânicos que possam interpretá-los e obtê-los, realizando trabalhos de campo, estudos florísticos, ou analisando coleções de herbário, com base nos pilares da taxonomia básica, que são a morfologia e a anatomia (Pirani, 2005).

No Brasil, muitos projetos para inventários florísticos e elaboração de floras foram iniciados. A elaboração de floras, de modo geral, envolve a colaboração de numerosos pesquisadores e constitui uma importante ferramenta na formação de recursos humanos. O volume de informação acumulada na elaboração de floras tem promovido muitos avanços no conhecimento da taxonomia dos grupos tratados, aprofundando o estado de conhecimento da morfologia, da anatomia, da biologia e da fenologia das plantas, além do detalhamento do mapeamento geográfico e das preferências ecológicas de cada táxon (Pirani, 2005; Peixoto e Thomas, 2005).

Entretanto, estudos taxonômicos revisionais, monografias e estudos filogenéticos, embora também tenham mostrado crescimento e melhoria na qualidade, tiveram uma produção bem menos expressiva. Talvez sintomáticos dessa situação sejam o fato de apenas 3 das 90 monografias já publicadas na série Flora Neotrópica terem sido publicadas por brasileiros e o início do emprego de métodos cladísticos somente a partir de 1990. Para que a pesquisa taxonômica brasileira alcance maior repercussão internacional, é urgente que se incorporem, ao labor do sistemata brasileiro, contínuos esforços visando à investigação sistemática de caráter mais abrangente e aprofundado (revisões taxonômicas), preferentemente envolvendo o emprego de filogenias e valorizando a diversificação das fontes de evidência taxonômica. Assim, é muito promissor o fato de as novas gerações de mestres e doutores estarem majoritariamente imbuídas do paradigma cladista (Pirani, 2005).


Coleções botânicas brasileiras


As coleções biológicas são fundamentais para as pesquisas em sistemática. Esses acervos museológicos são de inestimável importância para todo e qualquer trabalho de pesquisa relacionado a aspectos da diversidade, da estrutura, da classificação, da distribuição, entre outros, de organismos vegetais. De acordo com Schatz (2002), o principal conhecimento da diversidade biológica emana do estudo das coleções de história natural efetuado pelos taxonomistas. Os herbários, depositários de parte dos testemunhos dessa riqueza, desempenham um papel único e crítico para os esforços globais de mitigar a perda da biodiversidade.

O Brasil conta hoje com 150 herbários, dos quais 125 são ativos em intercâmbio de dados e materiais científicos. Os demais são herbários com finalidade didática, ou estão em implantação ou não se encontram atuantes. Dos 125 herbários ativos, 87 estão registrados no Index Herbariorum e 23 são credenciados junto ao CGEN como fiéis depositários de exemplares da flora brasileira. Essas coleções guardam um acervo de quase 6 milhões de exemplares. Embora significativo, esse conjunto de exemplares é inferior às coleções dos maiores herbários no mundo. Os herbários do Museu de Paris e do Jardim Botânico de Kew acumulam, sozinhos, mais espécimes que o conjunto dos herbários brasileiros (Barbosa e Vieira, 2005; Menezes et al., 2005).

Cerca de 81,6% dos herbários brasileiros (102) possuem até 50 mil espécimes, 18,4% (23) mais de 50 mil espécimes e somente 14 (11,2%) mais de 100 mil espécimes. O Sudeste concentra o maior número de herbários e o maior acervo acumulado (Tabelas 1 e 2). As regiões Norte e Centro-Oeste são as que detêm os menores números de herbários e o menor conjunto de espécimes, não alcançando uma amostra por km2. Essas regiões, embora representem uma importante parcela da área territorial do País, concentrando diferentes ecossistemas, são grandes desafios a serem enfrentados, pois, além de apresentar os menores índices de coleta, possuem poucos especialistas (Barbosa e Vieira, 2005).

Entre os grandes herbários com representação nacional, destacam-se os do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (RB), do Museu Nacional (R), do Instituto de Botânica de São Paulo e do Museu Botânico Municipal de Curitiba (MBM), tanto pelo número de espécies quanto pela amplitude de suas coleções. Outros com mais de 100 mil espécimes em suas coleções, embora também tenham representação nacional, concentram suas coleções predominantemente nos ecossistemas locais, como o da Universidade de Brasília (UB), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), da Embrapa Amazônia Oriental (IAN), do Museu Paraense Emílio Goeldi (MG), da Universidade de São Paulo (SPF), do Instituto Anchietano de Ensino (PACA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ICN).

A informatização dos acervos não visa apenas facilitar o gerenciamento das coleções, mas também permite que os herbários respondam com maior agilidade às perguntas dos cientistas, dos gestores da área ambiental e de outros segmentos da sociedade usuários da informação final.

Recentemente, numa análise do processo de informatização, Peixoto (2005) observou que 77% dos herbários brasileiros estão realizando algum tipo de informatização. Destes, 37% utilizam o Brahms, 11% usam o Excel, outros 11% usam o programa desenvolvido pela Rede Mineira de Herbários, 7% utilizam o Access e 7% são usuários do Elcen, desenvolvido pelo Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen). Os herbários IAN, MG, INPA e HAMAB, juntos, possuem o maior conjunto de dados num único programa, o Botanical Research and Herbarium Management System (Brahms). Entretanto, não avançaram ainda na disponibilização dos dados na Internet. Ainda conforme o mesmo autor, o processo de informatização apresenta problemas semelhantes em quase todo o País. Dúvidas sobre o software a ser utilizado, tratamento das informações, que tipo de informação divulgar e como divulgá-la, os recursos materiais e humanos que se repetem, tornando a informatização mais lenta e, em alguns casos, interrompendo ou inviabilizando o processo. Atualmente no Brasil, mesmo em herbários com os dados dos espécimes totalmente digitalizados, as informações resultantes do processo nem sempre estão disponíveis para a comunidade científica ou para a sociedade por motivos muito variados.

Assim, faz-se necessária a discussão sobre a transferência dos bancos de dados existentes para a Internet e o desenvolvimento de herbários virtuais. Hoje, é indispensável o estudo de uma proposta consistente de herbário virtual, delineando-se o tipo de imagens e informações associadas que conterá. Num primeiro momento, as imagens de tipos devem ser priorizadas. Em etapas posteriores, imagens de espécimes selecionadas representando espécies podem ser disponibilizadas para facilitar o trabalho de identificação.

O relacionamento entre os herbários brasileiros desenvolve-se por meio de diferentes estratégias, além do intercâmbio científico. A Sociedade Botânica do Brasil mantém, em sua estrutura, a Rede de Herbários Brasileiros, que, por sua vez, estabelece intensa comunicação e promove uma reunião anual entre os curadores. A instituição de redes regionais, num país de grande território e de marcantes diferenças regionais, tem se mostrado também uma ferramenta importante para o estímulo à modernização deste setor, fortalecendo ações conjuntas em nível nacional.

Essas iniciativas, além de promover o avanço do conhecimento e a absorção de novas tecnologias de modo mais harmônico, possibilitam a participação do País em algumas iniciativas internacionais em desenvolvimento, como a Global Taxonomy Initiative (GTI), que envolve algumas ações diretamente vinculadas a coleções (Peixoto, 2003; Barbosa e Vieira, 2005), e a Global Strategy for Plant Conservation (GSPC), que está levantando dados sobre a diversidade vegetal numa rede de trabalho que interliga iniciativas conservacionistas em todo o mundo. Entretanto, a participação brasileira ainda é incipiente e precisa ser ampliada.

Nesse sentido, é indispensável identificar barreiras que impossibilitem a ampla participação dos taxonomistas e dos herbários brasileiros na produção da lista mundial de espécie e apontar maneiras de superação dessas dificuldades. Como país detentor de uma das floras mais ricas do globo, a importância do incremento das coleções e da capacitação de taxonomistas torna-se inquestionável.

Grande parte das preocupações e necessidades dos herbários brasileiros já foi apontada (Lewinson e Prado, 2002; Barbosa e Peixoto, 2003; Menezes et al., 2005; Barbosa e Vieira, 2005). A carência de recursos humanos especializados para o trabalho de gerenciamento e curadoria dos exemplares, a necessidade de especialistas para revisar e atualizar dados, o espaço muitas vezes inapropriado para a guarda do acervo, a falta de equipamentos e a falta de uma política nacional para coleções são as de maior destaque nos documentos já elaborados.


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