Aristóteles: a filosofia e a busca do universal



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Aristóteles: a filosofia e a busca do universal

Prof. Renato Nunes1

Aristóteles tem sido, no decorrer de todo processo da racionalidade filosófica, um dos filósofos mais estudados e debatidos. E isso se deve não unicamente ao fato de ser ele um dos primeiros elaboradores de um corpus filosófico, de uma teoria filosófica, isto é, de uma filosofia, Mas sim, por ter afrontado a filosofia poética de Platão, apesar de ter sido seu discípulo, elevando, assim, a Filosofia à categoria de ciência universal, ciência esta que, agora, com Aristóteles, deve ser repensada em suas categorias conceituais constituintes.
Metodologicamente, este texto está organizado em três pontos: no primeiro, discute-se o problema da Verdade e dos conceitos a partir do Livro II da Metafísica; no segundo, a filosofia e seu papel no contexto da Ontologia, onde quer-se relacionar a Filosofia enquanto ciência universal e a Ontologia, enquanto ciência do ser. Essa discussão se dá a partir do Livro IV da Metafísica; e por fim, a nível de considerações finais, apresenta-se uma discussão a propósito das causas primeiras e da ciência que deve com elas preocupar-se: a universal ou as particulares? Esta discussão refere-se ao Livro VI da Metafísica.

1 - O problema da verdade e dos conceitos

No segundo livro da Metafísica, Aristóteles procura justificar que a Verdade tem um princípio primeiro, princípio este que é a causa das demais coisas. Aqui, a facilidade e a dificuldade andam juntas em seu estudo, pois não conseguimos atingi-la verdadeiramente. Cada um procura a verdade individual, subjetiva, que atenda somente às suas expectativas particulares. O fato de buscarmos uma verdade inteira, universal, que possa ser conceitual, mostra o quanto é difícil a tarefa de sua busca.


Muito se tem discutido na tentativa de conceituar a Verdade. Nós, almejantes do saber, seguimos uma linha de concepções adquiridas pelos antigos pensadores que, mesmo com idéias superficiais, serviram de base para nossos estudos. Assim, também a Filosofia detém papel importante no conhecimento da Verdade, pois ela é o objetivo do conhecimento teórico, e o do conhecimento prático, é a ação. Esses conhecimentos (teórico e prático) perseguem a mesma meta, porém, nenhum deles consegue conhecer o Ser, pois ele se encontra além do conhecimento, o mesmo se pode afirmar da Verdade. Aristóteles deduz que há um princípio primeiro do qual derivam todas as outras coisas. Esse princípio não deve ser intermediário; por isso, ele não pode ser um elemento determinado, mas, sim, conceitual: "(...) de modo que, se não existe um princípio primeiro, não existe causa nenhuma"2.
O princípio primeiro não deve provir de algo já formado, pois, se assim fosse, não seria mais primeiro. Para Aristóteles, a idéia de vir-a-ser não aceita situação de oposição, dado que uma coisa provém da outra de dois modos: "a) o homem provém do menino pela mudança deste, ou , b) o ar provém da água"3. No primeiro caso, "aquilo que veio a ser, proveio daquilo que está devindo"4 e, deste modo, o homem proveio do menino porque este menino é quem, futuramente, formará o homem. É a idéia de irreversibilidade da mudança, pois o menino não pode provir do homem. Este é o resultado do vir-a-ser, é a coisa formada; e o menino é o estado do vir-a-ser, está devindo. No segundo caso, "a água proveio do ar"5, implica a destruição da outra coisa, sendo que a mudança desta espécie é reversível. Não se pode afirmar que a primeira causa, a que origina as demais coisas, seja destruída, pois ela é eterna. O que não pode ser considerado eterno e causa primeira é aquilo que, por sua prévia destruição, gera outra coisa, Desse modo, afirma Aristóteles, a causa final é um fim, e a origem de todas as coisas é a razão. Todos nós, de uma ou outra forma, sempre agimos com um propósito em vista, e tal propósito é um limite, um fim destinado àquela ação. Assim, o primeiro conceito é sempre mais definição que o seguinte; a origem da ação é maior do que a ação, é mais original, é mais verdadeira. A ciência pode ser alcançada, basta chegarmos aos termos indivisíveis. É por isso que Aristóteles afirma: "nada de infinito pode existir"6. Se as espécies de causas fossem infinitas, não poderíamos chegar ao conhecimento, pois este também seria infinito. Só se pode conhecer o que é finito ou o que tem limite. Somente assim poderemos procurar suas causas.
O que não é habitual, parece-nos inseguro, ininteligível. E nós, aspiradores à verdade, estamos habituados a recebermos as lições de uma forma que nem sempre nos permite pensar. Devemos, por nós mesmos, procurar o sentido das coisas, o conhecimento; devemos nos preparar para rebater os argumentos. "É absurdo procurarmos o conhecimento e, ao mesmo tempo, uma maneira de atingi-lo"7.


2 - A filosofia e seu papel no contexto da Ontologia

A Filosofia encerra, em si, um papel nobre entre as demais ciências: o de estudar o Ser por completo, buscando a sua universalidade. Enquanto que as demais ciências investigam apenas partes deste Ser, apenas usufruindo de suas qualidades ou de seus atributos, cabe à Filosofia a investigação inicial das primeiras causas, a preocupação com os primeiros princípios e com suas causas supremas. Sua preocupação deve ser com algo que se caracteriza como essência, e não como característica acidental.


Essa investigação não pertence a uma ciência apenas, mas a todas as ciências que possuem a preocupação comum com a verdade essencial. É evidente, pois, para a Filosofia, o estudo das coisas que são enquanto são, do Ser. Toda ciência trata do que é primário, daquilo que depende de outras coisas e das quais recebe sua denominação. Se isso é a substância, será daí que o filósofo deverá abstrair os princípios e as causas.
Esta ciência (a Filosofia) deve, ainda, investigar tanto a essência como as propriedades. Contudo, não podem as demais ciências esquecerem-se de que, ao deixarem a esfera do conhecimento da Filosofia, a substância continua sendo anterior a estas outras coisas (os demais atributos de que se utilizam). A mesma ciência que estuda o Ser, enquanto Ser, deve estudar os atributos que lhe pertencem como tal.
As questões que nortearão a discussão, agora, são: compete a uma só ciência ou a diferentes ciências indagar acerca das verdades matemáticas que se chamam axiomas?; esta investigação é de competência do filósofo?
Um princípio é o mais correto de todos: "o mesmo atributo não pode, ao mesmo tempo, pertencer e não pertencer ao mesmo sujeito com relação à mesma coisa"8, sendo este, pois, o ponto natural de partida entre os axiomas.
Há coisas que somente se podem provar ao serem demonstradas, estando elas provadas pelo princípio já referido. Aristóteles quer provar, em síntese, que o que é, é, e possui um só significado: ser. Já o que não é, é não-ser com outro significado. Explicando: o que é ou existe está aí presente e possui significado próprio, tal como mesa é mesa e pessoa é pessoa, enquanto que o não-ser, ou seja, aquilo que não é e não existe somente possui seu significado próprio, ou seja, de não existir, porque ele determinará algo que não se conhece e nem é conceptível, algo imóvel, e até se poderia afirmar, eterno, pois o fato de não existir dá o significado de imutabilidade, de estabilidade (sem movimento) e de não entrar em estado de geração e destruição, dando-lhe a característica de eterno. Aqueles que assim falam suprimem a substância e a essência, forçados que são a afirmarem que todos os atributos são acidentes. Extrair a essência de um ser significa dizer que nada mais ele é, pois sua fundamentalidade de existir por si mesmo foi extraída; então, ele desaparecerá.
Segundo a doutrina protagórica, se de uma forma todas as opiniões e aparências são verídicas, também o serão as declarações verdadeiras ou falsas, porque existirão pessoas que portarão a verdade como se ela fosse absoluta, como se lhes pertencesse, e quem as contradisser estará errado; por ora, os que concordarem com essas, certos estarão e, se a realidade corresponder à teoria, todos estarão com a verdade. Aristóteles, a este propósito, escreve o seguinte: "aquilo que é tem dois significados"9, ou é potencialmente algo, como a árvore que é, em potência, mesa, ou é atualmente algo; no caso da árvore, ser ela mesma. Desse modo, "a mesma coisa pode ser potencialmente dois contrários ao mesmo tempo, mas não sê-los atualmente"10. Incorre, a partir daqui, uma questão: a Filosofia seria esta ciência que busca a verdade?
Fazendo referência à natureza da verdade, deve-se sustentar a idéia de que tudo o que aparece é verdadeiro, mesmo não sendo falsa a sensação, pois sensação e aparência não são a mesma coisa.
Se nem tudo é relativo e há a existência do em si e do por si, efetivamente, nem tudo o que parece ser verdadeiro o será, pois parece a um de uma forma e a outro parecerá de outra. Os que afirmam que tudo é verdadeiro, somente relativizam.

2.1 - A função do filósofo

O filósofo deverá extrair os princípios e as causas da substância, pois é função de apenas uma só ciência investigar os contrários e a pluralidade. Compete a uma só ciência examinar a negação e a privação. Sendo o contrário também um desses conceitos, pois é uma espécie de diferença de alteridade, cabe ao filósofo a função de investigar todos os conceitos, estejam eles em seus estados naturais ou modificados, e o porquê deles assim se tornarem. Há também outras peculiaridades do ser como tal, sobre as quais cumpre ao filósofo pesquisar a verdade11. Sinais disso são a Sofística e a Dialética. A Sofística é a filosofia somente na aparência, enquanto que a Dialética tudo discute, abrangendo tais assuntos porque são próprios da Filosofia. A Dialética é apenas crítica, argumentativa, enquanto que a Filosofia aspira ao conhecimento, e a Sofística dá-lhe o sentido de ser aquilo que parece concordar com o filósofo, mas não o é. E isso porque grande parte dos filósofos está concorde em que ser e unidade são compostos de contrários. Fica, pois, extremamente claro que ao filósofo que investiga a natureza de toda substância, compete também investigar os princípios do silogismo12.



3 - Considerações finais

No sexto livro da Metafísica, Aristóteles discute "os princípios e as causas das coisa que são, e, enquanto são"13 . Por princípios e causas das coisas que são, entende-se também uma discussão a propósito do que é ou não pertinente a uma ciência ou, por outra via, o objeto específico de estudo de uma ciência. Aristóteles é bastante objetivo quando afirma que as inferências, deduções e conclusões das ciências particulares devem ser, no mínimo, questionadas. Seu argumento é simples: parte do fato de que as "ciências que empregam o raciocínio, as dianoéticas, todas elas, escolhem para sua pesquisa algum ser particular"14. Ao partir de um ser particular, de um objeto específico de estudo/análise, não há como buscar aquelas qualidades (ou essências, como prefere chamar) que são comuns ao ser em si mesmo. Assim, a partir dessa análise localizada e limitada, a ciência faz suas generalizações. Generalizações essas que carecem de universalidade, uma vez que o objeto específico de análise foi um objeto particular. Não há como, no entender de Aristóteles, partindo-se da análise de elementos particulares, "demonstrar, de modo mais ou menos convincente, os atributos essenciais do gênero que estudam"15. Em termos filosóficos, o erro cometido pela ciência - de tomar um objeto particular de estudos e a partir dele inferir os princípios, elementos e causas próprias de todos os objetos de investigação - pode ser definido como uma confusão entre existência e essência. Estaríamos, se preferíssemos o caminho apontado pela ciência, apenas apresentando os atributos de um ente particular - atributos estes que podem ou não estar presentes nos demais objetos da mesma espécie - e não os atributos essenciais do gênero estudado.


Para Aristóteles as ciências particulares nada dizem a respeito da essência e da existência das coisas dos seres, dos entes; apenas dizem a propósito da existência de um determinado ser. Este pode ser caracterizado e definido, mas tais caraterizações e definições não podem ser estendidas para todos os seres da mesma espécie. "Somente à Filosofia Primeira competirá a consideração do ser enquanto ser, tanto da sua essência como dos atributos que lhe pertencem enquanto ser"16.
Esta discussão a propósito das ciências e de seus objetos de estudo inscreve-se, no contexto da Metafísica, na discussão a respeito do ser e de seus acidentes. Para Aristóteles, "do acidental não pode haver tratamento científico, pois possui muitos significados/sentidos. E isto é provado pelo fato de que nenhuma ciência (prática, produtiva ou teórica) se ocupa com ele"17. O fato é que o acidental, além de simples nome, não é muita coisa; ele está muito mais próximo do não-ser do que do ser. Contudo, o acidente, enquanto acidente, é, existe, ou seja, ele é uma categoria existencial positiva: existencial porque faz parte de um ser, da existência, da realidade de um ser; e positiva porque, de fato, é, está presente neste determinado ser. Pode não ser, entretanto, uma característica comum aos demais seres da mesma espécie, mas deste ora em análise, é, e, portanto, não pode deixar de ser real, ao menos para esse representante da espécie. Exemplo: livro volumoso. O acidente, para de fato ser considerado como acidente, só pode estar presente num ser apenas em um determinado sentido. Assim, este livro que tenho agora em minhas mãos é volumoso; contudo, ser volumoso não é característica concernente a todo e qualquer livro, mas sim, deste que ora tenho em mãos. Aristóteles afirma ainda: "aos resultados acidentais nenhuma arte ou faculdade corresponde, pois as coisas que são ou vêm a ser por acidente, também a causa é acidental"18.
E se perguntássemos à Aristóteles: é possível as coisas serem, por via de regra, nunca acidentais?, sua resposta seria categórica: nem todas as coisas são ou vêm a ser necessariamente. O acidental, portanto, deve existir. Ele não existiria na hipótese de termos acesso aos conceitos das coisas primeira e unicamente 19. Para Aristóteles, no entanto, deve-se chegar a esse conceito e não dele partir. Se se deve chegar ao conceito, como quer Aristóteles, só há uma via para isso: partir dos objetos que são, que existem. E esses, portanto, por serem e existirem, trazem consigo, cada qual, seus acidentes. O acidente, contudo, não é negativo. Ele se torna negativo na compreensão da totalidade de um ser, caso se fique somente nele. Ele não pode ser ignorado, mas, por outro lado, não pode ser valorizado ao extremo. Se isso ocorrer, corre-se o risco de erigir um conceito observando-se exatamente o que deveria estar em segundo plano: os acidentes dos objetos. Desse modo, a ciência não pode versar sobre o acidental, "ela deve versar sobre o que é sempre ou sobre o que é no mais das vezes"20.


1 - Professor do Departamento de Ciências Humanas da UNISC. Mestre em Filosofia.

2 - Livro II - 994a - 23. Todas as notas deste texto obedecem à seguinte referência bibliográfica: ARISTÓTELES. Metafísica. Porto Alegre:Globo, 1969. Tradução de Leonel Vallandro.

3 - Livro II - 994a - 25/26.

4 - Livro II - 994a - 27.

5 - Livro II - 994a - 33.

6 - Livro II - 994b - 27/28.

7 - Livro II - 995a - 14.

8 - Livro IV - 1005b - 19/20.

9 - Livro IV - 1009a - 32.

10 - Livro IV - 1009a - 35/36.

11 - Livro IV - 1004b - 15/16.

12 - Dedução formal em que, postas duas proposições, premissas, delas se extrai uma terceira, a conclusão.

13 - Livro VI - 1025b - 10.

14 - Livro VI - 1025b - 10.

15 - Livro VI - 1025b - 10.

16 - Livro VI - 1025b - 30.

17 - Livro VI - 1026b - 05.

18 - Livro VI - 1027a - 05.

19 - Conferir em Platão o conceito de "mundo das idéias".

20 - Livro VI - 1027a - 20.



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